Veja os vários processos de corrupção que os políticos defensores do impeachment da presidente Dilma respondem na justiça

18 abr

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Lideranças de partidos de oposição ao governo receberam, na quarta-feira (15), alguns dos agitadores dos protestos dos dias 15 de março e 12 de abril – entre eles, Rogério Chequer, do Vem Pra Rua. Durante o encontro, figurões como Agripino Maia (DEM), Ronaldo Caiado (DEM), Mendonça Filho (DEM), Paulinho da Força (SD), Aécio Neves (PSDB) e Roberto Freire (PPS) tiveram a oportunidade de esbravejar contra os casos de corrupção que desgastam o PT e a gestão Dilma Rousseff.

Chama atenção, entretanto, a ficha dos defensores da ética e do combate indiscriminado à corrupção. Associação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, prisão por fraudes e desvios em grandes obras, contas em paraísos fiscais em nome de familiares, recebimento de propina, recursos de campanha questionados na Justiça e até falsificação de documentos para criação de partido fazem parte do histórico de acusações e dos relacionamentos intrigantes que envolvem as estrelas políticas do encontro em tela.

O JornalGGN(Nassif) fez uma breve seleção:

1 – Aécio Neves (PSDB)
O neto de Tancredo Neves que construiu um aeroporto de R$ 14 milhões no terreno do tio-avô já foi questionado na Justiça sobre o paradeiro de mais de R$ 4 bilhões que deveriam ter sido injetados na saúde de Minas Gerais. O caso Copasa contra o ex-governador foi engavetado. Destino semelhante tiveram as menções a Aécio na Lava Jato. O tucano foi citado por Alberto Youssef como beneficiário de propina paga com recursos de Furnas.

Para o procurador-geral da República, isso não sustenta um inquérito. Rodrigo Janot também cuida de outro escândalo que leva a Aécio, sob a palavra-chave Liechtenstein (um principado ao lado da Suíça). Investigando caso de lavagem de dinheiro, procuradores do Rio de Janeiro chegaram a uma holding que estava em nome da mãe, irmã, ex-mulher e filha do tucano. Esse inquérito está parado desde 2010 na gaveta do Procurador Geral da República.

2- Agripino Maia (DEM)

Presidente do DEM, Agripino Maia foi dono das expressões mais sugestivas de defesa da luta contra a corrupção. “Chegou a hora de colocar o impeachment [de Dilma Rousseff]”, disse no encontro com os manifestantes anti-governo.
O senador tem em seu currículo a acusação de receber R$ 1 milhão em propina, em um esquema que envolvia a inspeção de veículos no Rio Grande do Norte, entre 2008 e 2011. Coordenador da campanha presidencial de Aécio, o democrata, em 2014, teve seu caso arquivado no MPF pelo ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel. Mas foi reaberto há sete meses por Janot, e agora está sendo investigado no Supremo Tribunal Federal (STF).

3- Ronaldo Caiado (DEM)

O senador Ronaldo Caiado (DEM) é associado ao bicheiro Carlinhos Cachoeira por supostamente ter recebido verba ilícita nas campanhas de 2002, 2006 e 2010. Cachoeira foi denunciado por tráfico de influência e negociava propinas para arrecadar fundos para disputas eleitorais.
O bicheiro foi preso em 2012 por operação da Polícia Federal que desbaratou esquema de adulteração de máquinas caça-níquel. Caiado foi citado nesse contexto, recentemente, por Demóstenes Torres. Ele teria participado de negociação entre Cachoeira e um delegado aposentado que queria ampliar esquemas de jogo ilegal. Até familiar do democrata já foi alvo de denúncia. O pecuarista Antônio Ramos Caiado, tio de Caiado, está na lista suja do trabalho escravo.

4- Roberto Freire (PPS)

Uma das principais acusações que pesam contra o presidente nacional popular-socialista é de envolvimento com o Mensalão do DEM. A diretora comercial da empresa Uni Repro Serviços Tecnológicos, Nerci Soares Bussamra, relatou que o partido praticava chantagem e pedia propina para manter um contrato de R$ 19 milhões com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, comandada pelo deputado Augusto Carvalho. Freire teria sido beneficiado no esquema.

5- Paulinho da Força (SD)

O presidente do Solidariedade, segundo autoridades policiais, participou de esquema de desvio de recursos do BNDES. Um inquérito foi aberto no STF para investigar o caso. Em 2014, a Polícia Federal também indiciou a sogra e outras duas pessoas ligadas ao deputado federal sob suspeita de falsificarem assinaturas para a criação do Solidariedade.

Gilmar Mendes conduzirá, ainda, a apuração em torno da suposta comercialização de cartas sindicais (uma espécie de autorizações do Ministério do Trabalho para a criação de sindicatos) por Paulinho, dirigente da Força Sindical. Consta nos registros que cada carta era vendida por R$ 150 mil.

6- Mendonça Filho (DEM)

Em fevereiro de 2014, Mendonça se envolveu em uma polêmica por querer indicar deputado acusado de duplo homicídio pelo Supremo Tribunal Federal para presidir a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Julio Campos (DEM), ex-governador do Mato Grosso, afirmou que Mendonça teria dito que a indicação era uma “homenagem”.

O deputado federal de Pernambuco já foi preso pela Justiça eleitoral sob acusação de fazer carreata no dia de votação, mas o STF decidiu que não houve crime eleitoral. Um documento da Operação Castelo de Areia citava contribuição suspeita de R$ 100 mil da Camargo Correa a Mendonça, para sua tentativa de ser prefeito do Recife. Ele admitiu que recebeu R$ 300 mil da empresa, mas alega que foram doações dentro das conformidades.
7- Carlos Sampaio (PSDB)

O deputado mais votado da região de Campinas (SP) recebeu R$ 250 mil de uma empreiteira envolvida no esquema de corrupção da Petrobras investigado na Operação Lava Jato. Sua última campanha arrecadou, oficialmente, R$ 3 milhões. Não há comprovação sobre a lisura da doação. Sampaio, coordenador jurídico do PSDB e autor do pedido para que Aécio fosse empossado no lugar de Dilma Rousseff, teve reprovada a sua prestação de contas referente às eleições para a Assembleia de São Paulo, em 1998, e às eleições municipais de Campinas, em 2008.

8- Luiz Penna (PV)

O presidente do PV também aparece um tanto escondido na fotografia. Irregularidades já remetidas à prestações de contas do partido incluem seu nome. Em 2006, por exemplo, boa parte dos R$ 37,8 mil gastos em passagens aéres e R$ 76,8 mil com diárias de campanhas eleitorais foram atribuídos a José Luis Penna.
Na época, servidores do TSE apontaram ausência de documentos que comprovassem os gastos e uso de notas frias, indicando empresas fantasmas que teriam prestado os serviços. O corpo técnico do Tribunal sugeriu a rejeição das contas do partido de 2004, 2005 e 2006. O deputado federal respondeu a dois processos judiciais, um pelo TRE-SP, rejeitando a sua prestação de contas à eleição de 2006, e outra pelo TSE reprovando as contas do PV de 2004.

9- Flexa Ribeiro (PSDB)

O hoje senador já foi preso pela Polícia Federal em 2004, na Operação Pororoca, por fraude em licitações de grandes obras realizadas no Amapá. Foi acusado de corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, tráfico de influência, peculato, prevaricação, usurpação de função pública e inserção de dados falsos em sistema de informações.

10- Antonio Imbassahy (PSDB)

O deputado federal tucano era prefeito de Salvador em 1999, quando contratos suspeitos foram assinados com as empresas Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Siemens, que formavam o consórcio responsável pelo metrô da capital baiana.

O Ministério Público Federal investiga o superfaturamento nas obras, que gira em torno de R$ 166 milhões. Até agora, dois gestores indicados por Imbassahy à época e duas empresas foram indiciadas. O tucano é o vice-presidente da CPI da Petrobras, que investiga desvios de verbas da estatal, onde diretores da Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa também aparecem como réus. Imbassahy foi acusado pelo PT de se aproveitar do posto na CPI para pedir documentos à Petrobras e vazar para a imprensa.

11- Beto Albuquerque (PSB)
Ex-colaborador do governo Tarso Genro (PT) no Rio Grande do Sul, Beto Albuquerque (PSB) foi envolvido na intriga que rendeu a queda do então diretor-geral do Departamento de Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) José Francisco Thormann. Thormann se antecipou a uma demissão após a imprensa local ter revelado que ele viajou à Suiça às custas de uma empresa privada subcontratada para fazer obras no Estado. Em nota de defesa, Thormann afastou suspeitas sobre o fato, e revelou que Beto Albuquerque, quando secretário de Infraestrutura do Estado, também fez viagens ao exterior bancadas por empresas que detinham contratos com o poder público. Quando a notícia surgiu, Tarso já não era secretário – tinha deixado a gestão petista para reforçar a bancada do PSB na Câmara Federal.

Dá para acreditar que esses políticos da oposição fascista são “limpinhos  e cheirosos” ?

Por 

Cíntia Alves
Luiz de Queiroz
Patricia Faermann

A geopolítica do Golpe

15 abr

Roberto Stuckert Filho/PR

Por Luís Fernando Vitagliano

Conjecturar sobre o papel dos EUA nos escândalos do Brasil de hoje não tem nada de teoria da conspiração: o golpismo é a base da política externa americana

Em setembro de 2013 a presidenta Dilma cancelou uma viagem a Washington depois das denúncias de que a NSA , a agência de segurança do Departamento de Estado norte-americano, espionava o governo brasileiro.
 
Um foco central da espionagem era a Petrobrás – ademais do BNDES.
 
Seis meses depois, em março de 2014, era deflagrada a operação Lava Jato.
 
O foco de interesse da operação: a Petrobrás.
 
Agora, ventilam-se suspeitas de irregularidades também contra o BNDES.
 
Não é necessário ser adepto de teorias conspiratórias para enxergar pertinência na pergunta: existe relação entre os dois momentos?
 
Ou mais diretamente: a espionagem norte-americana pode ter vazado informações propositalmente para gerar um processo de desestabilização contra a agenda de desenvolvimento brasileira? E, sobretudo, contra a política soberana  de exploração das maiores descobertas de petróleo registradas no planeta no século XXI?
 
Desnecessário dizer que se há consistência em denúncias de corrupção  –tenham elas a origem que for–,  devem ser investigadas.
 
Esse certamente é o caso das Lava Jato.
 
Todavia, quando há um claro viés político envolvido, e são notoriamente viciados e seletivos os vazamentos das investigações, deve-se arguir as motivações originais do processo. Nada disso inocenta quem é culpado. Mas pode oferecer à sociedade um mirante de maior abrangência, para ampliar seu discernimento sobre o conjunto das forças, os interesses, a manipulação e as omissões envolvidos na questão.
 
Um efeito colateral de não fazê-lo, por exemplo, é rebaixar a trama a uma disputa entre corporações da PF, a justiça e o Estado brasileiro, perdendo-se as dimensões da disputa geopolítica e estratégica que avulta deste episódio.
 
Hoje não é possível afirmar que as agências de espionagem dos EUA – ou interesses econômicos associados a elas, são responsáveis (ou os desencadeadores) do quase desmanche a que tem sido submetida a Petrobrás. Insista-se: o processo atinge especialmente a estrutura logística montada em torno da exploração do pré-sal e do beneficiamento em solo brasileiro do óleo extraído dessas reservas.
 
Até que se prove o contrário, os maiores responsáveis da Lava Jato são os diretores da própria Petrobrás envolvidos em uma parceria ilícita com cartéis de fornecedores e empreiteiras, mancomunados em expedientes de sobrepreços e propinas milionários.
 
Ainda que esse epiderme pareça resolvida, a tradição intervencionista das agências norte-americanas e sua longa folha de indução, patrocínio e participação direta na história dos golpes de Estado e conspirações contra governos soberanos na América Latina e no mundo autorizam outras cogitações.
 
Um rápido retrospecto do que é capaz o braço imperial norte-americano indica a pertinência dessa investigação.
 
Na segunda metade do século XX, os EUA picotaram o planeta com intervenções destinadas a ‘estancar a proliferação de regimes comunistas e/ou alinhados ao campo comunista’, como justificavam seus ideólogos.
 
Na década de 70, a ‘Détente’ trocou a corrida nuclear direta entre EUA/Rússia pelos conflitos em frentes específicas.
 
Angola, por exemplo, foi um dos palcos das “Proxy Wars” onde disputa das potências pela hegemonia global patrocinava um dos lados do conflito interno.
 
No Vietnã, a terceirização ‘suja’ levou ao envolvimento direto de tropas americanas pela virtual incapacidade dos ‘aliados’ do sul cumprirem o script – antes protagonizado pela França com apoio financeiro estadunidense.
 
A norma, porém, foi a ação do braço ‘oculto’ do intervencionismo norte-americano a insuflar de forma mais ou menos ostensiva a desestabilização de governos, a imposição de interesses econômicos imperiais, a contenção de manifestações populares e/ou promoção de golpes militares.
 
Alguns exemplos da ‘concretude golpista’ para quem imagina que as coisas se restringem a ações secretas de vigilância eletrônica da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, detalhadas por Edward  Snowden em 2013.  Golpismo em ação na América do Sul:  Brasil* (1964); Chile* (1973); Uruguai* (1973); Argentina* (1976); Bolivia* (1964); Paraguai* (1954); Venezuela (2002). Em tempo: os asteriscos indicam países fizeram parte da chamada Operação Condor.  Na América Central: Guatemala (1954); República Dominicana (1961); Nicarágua (1981); El Salvador (1981); Cuba (pré-revolução e invasão da baia dos porcos); Porto Rico (1950); Panamá (1958 e 1989). Na Ásia: Vietnã do Sul/Vietnã do Norte (1962 se tomado o ano da entrada dos EUA no conflito); Coréia (1954); Laos (1962); Tibet (1950). Na Ásia Central & Oriente Médio:  Turquia (1980); Líbano (1958 e 1982); Irã – Mossadegh (1953); Libéria (1990); Iraque (1990/1991 e 2003) – Guerra do Golfo;- Afeganistão (2001). Na África: Angola (década de 1980) e Congo (1960).
 
Sob esse pano de fundo a pergunta inicial pode ser refeita de forma mais ampla.
 
Quem garante que o cenário atual de quase paralisia econômica e absoluta incerteza em relação ao futuro brasileiro não decorra de uma ação deliberada em que se combinam grampos, invasões de email e uma endogâmica parceria entre interesses locais e imperiais determinados a quebrar a espinha dorsal de um projeto de desenvolvimento  que tem no pré-sal e no ciclo de governos iniciado em 2003 dois dentes decisivos da engrenagem?
 
Ceticismo? Bem, estamos falando da segunda mais importante economia das Américas, do segundo maior banco de desenvolvimento do mundo  (hoje terceiro, depois do banco dos BRICs) e da maior empresa da América Latina (uma das mais importantes empresas de petróleo do mundo); estamos falando do domínio completo da tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas e de um estoque de cerca de 50 bilhões de barris no pré-sal – há quem fale no dobro.
 
Por menos que isso coisas piores foram patrocinadas pela diplomacia armada dos EUA.
 
Desde junho de 2013 o Brasil registra uma espiral de mobilizações.
 
Poucos atentaram para o fato de que o desenvolvimento autônomo da economia brasileira e seu projeto de integração regional tornaram-se alvos de ataques crescentes, à medida em que a pauta desses movimentos se ampliava.
 
Depois vieram as eleições presidenciais virulentas de 2014.
 
Projetos explícitos de autonomia do Banco Central, privatizações, abertura de capital e redução do papel do Estado na economia foram apresentados.
 
Denunciar as consequências dessa agenda conservadora na vida da população foi o fator decisivo para a vitória progressista.
 
Os EUA tinham lado nessa disputa ou assistiram inertes a ela?
 
Qualquer um que acesse a wikileaks encontrará documentos comprobatórios de que agências dos EUA financiam jornalistas brasileiros e compram espaços em meios de comunicação.
 
Isso teria sido gentilmente suspenso durante o pleito de 2014 como prova da lisura do Departamento de estado em relação à soberania democrática do povo brasilero?
 
A história recente do capitalismo no país é a história do aprofundamento da associação entre grupos empresariais locais e o capital internacional.
 
Isso passa ao largo das urnas? E da ‘preparação’ do imaginário social para elas?
 
Foram de fato ações espontâneas da ‘sociedade civil’ as manifestações crescentes contra o governo, antes de outubro de 2014 e, agora, pelo impeachment?
 
Onde encaixar, então, a ativa ação coordenadora da família Frias nas manifestações pelo impeachment, convocadas para este 12 de abril?
 
Quem abrisse o site da UOL logo cedo neste domingo (12/04) encontraria lá as coordenadas e o incentivo para ir à luta.
 
Isso mesmo, um comitê central de coordenação do esforço pró-impeachment no principal site de notícias do país. Assim:
 
‘Vai ao protesto deste domingo? Participe pelo WhatsApp do UOL (11) 97500-1925’
 
Devemos somar esse anúncio convocatório à sucessão de acontecimentos de  ‘geração         espontânea da sociedade civil’?
 
Sem a pretensão de impor aos leitores da Carta Maior a tese de que esses sinais sugerem algo mais grave do que o espontaneísmo da sociedade civil em marcha, relacionamos alguns argumentos relevantes para uma reflexão que já passa da hora:
 
Primeiro argumento: o histórico de conspirações dos EUA
Como demonstrado acima, trata-se aqui de uma evidência histórica documentada. Não estamos falando de nenhum país de tradição pacifista. Estamos falando do intervencionismo radical que considera as Américas e, claro, o ‘quintal’ latino-americano, sua prerrogativa geopolítica inegociável.
 
Segundo argumento: os interesses corporativos
 
O Brasil é o país mais importante da América Latina do ponto de vista comercial e financeiro. Depois do NAFTA, tornou-se a última grande fronteira de soberania à dominação pura e simples do poder econômico e comercial dos EUA na região. A reconstrução do Estado brasileiro a partir de 2003 ergueu obstáculos relevantes  à dominação corporativa dos EUA. O BNDES, por exemplo, foi resgatado como banco de desenvolvimento com fôlego para agir no Brasil e fora dele. É um alvo estratégico. Não é casual que Aécio Neves tenha ‘denunciado’ o financiamento do BNDES às obras do porto de Mariel, em Cuba, durante a campanha eleitoral de 2014. Enquanto os EUA estão numa briga interna surda sobre o embargo, o Brasil saltou à frente e na questão naval já agia para ter um lugar estratégico que pode ser uma passagem não só para Europa pelo Atlântico, como para o Pacífico com o canal do Panamá. Além disso, o pré-sal é, sem dúvidas, um alvo preferencial. A legislação dos royalties junto com as regras da partilha inviabiliza o domínio das petroleiras estrangeiras sobre essa riqueza. A Lava Jato atinge uma ferramenta estratégica dessa agenda soberana de desenvolvimento; independentemente dos desvios e irregularidades cometidas, ameaça inviabilizar um projeto autônomo para a expansão e consolidação de um ator geopolítico importante.
 
Terceiro argumento: as mudanças na geopolítica mundial
 
Foi de Jean O’Neill para um relatório da Goldman e Sachs que o termo BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – fora criado. Ou seja, como uma referência para o mundo dos investidores. Ninguém poderia supor que esse acróstico para motivar capitais ociosos  fosse se tornar uma parceria estratégica e geopolítica de enfrentamento dos quatro grandes em relação ao bloqueio da agenda do desenvolvimento no ambiente neoliberal. Qualquer um que leu Han-Joon Chang conhece a tese do “chutando a escada”. Países que chegaram ao topo do desenvolvimento procuram propositadamente chutar a escada dos que querem seguir o mesmo caminho para que não tenham concorrência. Brasil, Índia, Rússia e China agora furam o bloqueio do acesso à escada com uma parceria estratégica inédita e que assusta o ocidente desenvolvido (leia o editorial do Especial deste fim de semana da Carta Maior). Com um agravante: é praticamente impossível aos EUA interferir em regimes como o Chinês. Mas contra os governos da Rússia, Brasil e Índia é mais fácil…
 
Quarto argumento: finalmente, os métodos de combate.
 
As leituras de Naomi klein ou Gene Sharp são instrutivas. A primeira mostra como a “doutrina do choque” foi usada em geopolítica, provocando crises e planejando reconstruções mais alinhadas aos interesses das corporações econômicas. Sharp fala da luta contra ditaduras com métodos de não agressão. Recomenda usar e abusar das redes sociais. A chamada “primavera árabe” tornou-se uma peça publicitária contra regimes nacionalistas. Robôs na internet, propaganda disfarçada de protesto, incitação das oposições (‘você não sabe ainda se vai  à Paulista, domingo? Qualquer dúvida, entre em contato com o Whatsapp da Folha …). É preciso muita organização e dinheiro para trabalhar com todas essas variáveis. Quem financia? A venda de camisetas da ONG ‘Vem para a rua?”.  Gerar clima para destituição de um regime não é espontâneo. Essa ‘espontaneidade’  faz parte de um planejamento. Sharp mostra como é possível acabar com um regime sem disparar um tiro. Às vezes escapa alguma coisa, como na Líbia… Ossos do ofício. Mas o novo padrão ‘institucional’ foi testado e bem usadao pela CIA no Oriente Médio. Pode funcionar no Brasil? Ou algum ingênuo ainda acha que estamos diante de uma “ação cívica” em prol da felicidade e da lisura da pátria?  Mas, um detalhe não pode passar desapercebido: no Brasil as forças sociais já se manifestaram e as eleições decidiram. E o fizeram recentemente dando a quarta vitória presidencial a uma agenda progressista.  A conspiração e clima de ‘desgoverno’ pode revogar isso?
 
É essa a disputa em curso.

Eduardo Motta or Ed Mott !!! Give me a break man

10 abr

Ed Mott no piano

Quando em 1962 Tom Jobim ,João Gilberto,Agostinho dos Santos,Luis Bonfá,Carlos Lyra,Roberto Menescal,Sergio Mendes,Sergio Ricardo e outros aterrizaram em Nova York, foram recebidos no aeroporto, por uma lenda viva do jazz norte americano , o saxofonista Cannonball Ardeley que foi do sexteto de Miles Davis.

Era para fazer o show no “Carnagie Hall” que estava lotado, com muita celebridade na platéia como os músicos Miles Davis, Herbie Hancock e Gerry Mulligan; os cantores Tony Bennett e Peggy Lee para ver e ouvir uma nova música que estava “pintando no pedaço” :. a bossa nova.

Segundo o grande radialista Walter Salles todas as televisões e radios do mundo estavam lá
para cobrir o evento que mesmo “desorganizado” foi o maior sucesso.

Tom Jobim, cantou “Samba de Uma Nota Só”; João Gilberto, cantou “Samba da Minha Terra”, seguindo-se “Corcovado” e “Desafinado”;Agostinho dos Santos, com Luiz Bonfá ao violão, foram ovacionados pelos nova-iorquinos cantando “Manhã de Carnaval”.

Atenção para o detalhe:. todas as canções foram cantadas em “português”, pois para se gostar de uma canção não precisamos entender a letra ou saber inglês,francês ou “grego”(sic), vide o exemplo musical dos Beatles em toda a parte do mundo.

Ou seja a “música brasileira” desde de Ary Barroso (Aquarela do Brasil),Carmem Miranda,Villa Lobos,Pixinguinha já fazia sucesso na terra do “Tio Sam”.

Em 1967 a bossa nova veio para cristalizar este sucesso, e chegou no seu auge, no show de Frank Sinatra e Tom Jobim transmitido “costa a costa” pela TV nos EUA.

Outro detalhe:. neste memorável e inesquecível show contava também com a “diva do jazz” Ella Fitzgerald e dois dos maiores arranjadores na cena jazzística que eram Nelson Ridle e o alemão Claus Ogerman.

Nossa, mas toda essa pompa conquistada por Tom Jobim foi o bastante para os “vira latas brasileiros”(principalmente os músicos) valorizarem a nossa música e nossa cultura?
A resposta é “não”.

Esse “viralatismo” ainda é predominante na elite brasileira, e segmentos da classe média conservadora no Brasil .

É a elite que vai passar suas férias e gastar seu dinheiro (que ela ganhou no Brasil) em Nova York,Paris,Miami(sic),Orlando etc..

O pior é o grande percentual de músicos brasileiros, que conhecendo ou não nossa música e nossa cultura,continuam “super valorizando” tudo o que vem dos EUA .(cinema,música,moda,shoppings etc..)

O axioma, dominação econômica pressupõe dominação cultural , cabe bem nesses exemplos.

Mesmo o Brasil nesses últimos 12 anos sendo reconhecido e conquistado o 7° lugar como potência econômica e ter avançado muito na area social, o viralatismo e a baixa auto estima dos “bens nascidos” continua arraigada.

O pior é ver essa tendência ao viralatismo na periferia de São Paulo, com a difusão do rap,rip hop e funk.

As roupas e os trejeitos são tudo americanizados.Só falta eles cantarem em inglês. .

Não me espanta o chilique do cantor Ed Motta que deveria se chamar de Edward Mott, ao dizer que seu show vai ser tudo em inglês( english please) ,justificando seu viralatismo e baixa auto estima que o “inglês é lingua universal”.

Edward Mott ou melhor Eduardo Motta ou (sic) Ed Motta é na verdade um tremendo viralata:. imita descaradamente seu ídolo Steve Wonder ,se veste como “american singer” e esconde ou esquece descaradamente a sua origem .

A doença do “Viralatismo” graças a Deus ,não é o caso de Luciana Souza, que aos 18 anos saiu do Brasil para viver nos Estados Unidos. Hoje, com 44, a cantora paulista, filha dos compositores Walter Santos e Tereza Souza, é nome respeitado no seleto meio jazzístico norte-americano, colecionando indicações ao Grammy.

O álbum “Tide” que lançou nos EUA em 2009 e que ganha agora uma edição brasileira, une temas de autoria da artista e recriações do repertório de João Gilberto. Tudo lapidado por um canto apontado como “perfeito” pela revista norte-americana  Billboard. 

Edward Mott ou “sorry” Eduardo Motta ou (sic) Ed Motta deveria se conscientizar políticamente , pois talento e diploma não trás conscientização política, mas muitas vezes esconde essa tremenda lacuna. No Brasil de hoje mesmo com gêneros musicais bastante popularizados como o sertanejo,axé,pagode,pop e outros, é onde reside o  público de Ed Motta e não o de Luciana Souza.

Ou seja o público que Ed Motta quer conquistar ,é o público de Luciana Souza, mais consciente e intelectualizado.

Basta sòmente ele respeitar o teu público, e não detoná-lo com expressões como “simplório, ou menos culto.

” Edward Mott” deveria não esquecer que são os incultos, que pagam o seu vinho francês e sua comida farta.

““Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.(PauloFreire)

Dom Rocha

( guitarrista,compositor, arranjador musical e blogueiro ) 

Propaganda dos EUA na Coreia: TV como ferramenta de “engenharia social”

28 mar

O policial Kim Heung-kwang e as fitas apreendidas

Quando a revista Wired publicou o artigo “Plano para libertar a Coreia do Norte (com cópias contrabandeadas de episódios do seriado Friends)”, a revista provavelmente contava com que seu público leitor, impressionável e politicamente ignorante, não captaria os fatos subjacentes e respectivas implicações, e leria ali apenas mais uma matéria “engraçadinha”, que cobriria de (mais) ridículo o país do leste da Ásia e reforçaria, naquele mesmo público leitor ignorante consumidor de Wired, a sensação de imorredoura superioridade cultural.

O que a revista não viu, claro, é que o programa divulgado por Wired como se fosse trabalho do “Centro Estratégico Coreia do Norte” e de seu fundador Kang Chol-hwan, 46 anos é, na verdade, organizado e financiado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Fato é que o Centro Estratégico Coreia do Norte trabalha em parceria muito íntima com o Gabinete de Direitos Humanos, Democracia e Trabalho do Departamento de Estado dos EUA, com a Rádio “Free Asia” da rede de propaganda do Departamento de Estado dos EUA e com a Dotação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy, NED), também do Departamento de Estado dos EUA, que é um verdadeiro departamento para “mudança de regime”, mantido pelos “500” de Wall Street da revista Fortune eexclusivamente a serviço dos interesses dos “500”.

Leitores da mais recente ação de propaganda paga pelos EUA e divulgada pela revista Wired tampouco viram que, se os seriados norte-americanos são considerados ferramentas para engenharia social na Coreia do Norte, eles também, muito provavelmente, são usados para a mesma finalidade de engenharia social também nos EUA.

A degradação da educação nos EUA, o esvaziamento da família, o enfraquecimento das comunidades locais versus a dominação cada vez mais uniformizante e centralizada, pelos grandes monopólios empresariais-financeiros – e o estado de vigilância e sua Polícia cada vez mais draconiana – são resultados diretos do mesmo processo.

Os “desinteressados” patrocinadores da NED…

Wired até admite, no artigo citado que:

Para Kang, os seriados são semelhantes à pílula vermelha de Matrix: tratamento para modificar a mente que tem o poder de estilhaçar um mundo de ilusões. “Quando os norte-coreanos assistem a Desperate Housewives, eles veem que os norte-americanos não são todos imperialistas obcecados por guerras –diz Kang – São simplesmente pessoas que têm negócios, que têm casos. Eles tomam conhecimento do que seja lazer, liberdade. Aprendem que nada disso os ameaça, que os norte-americanos não são o inimigo. Que o que veem é o que desejam também para eles. A experiência cancela tudo que eles tenham ouvido. E quando isso acontece, começa neles uma revolução mental.

Não há dúvidas de que convencer um povo inteiro a ser cada dia mais autista e autorreferente no plano moral, e mais degenerado no plano social, é altamente modificador de mentes, mas tem pouco, ou nada, a ver com a busca pela liberdade. A fragilidade que é disseminada entre as populações, ensinadas a burlar primeiro a própria família, depois a própria comunidade, é o correspondente “doméstico” de uma campanha militar-sociopolítica de “dividir para conquistar”.

Em comunidades locais incapazes de se auto-organizar, porque os próprios indivíduos são incapazes de viver em família ou em comunidade, é baixa a probabilidade de que brotem concorrentes capazes de ameaçar o status quo que Wall Street e Washington demarcaram.

Mais importante, a campanha de “dividir para conquistar” encoraja um determinado tipo de paradigma de consumo desenvolvido, aperfeiçoado e exclusivamente dominado por interesses ocidentais, que opera como retroalimentador do comportamento autista e autorreferente infindavelmente propagandeado pela mídia-empresa ocidental.

Kang Chol-hwan e George Bush

Na verdade, o Centro Estratégico Coreia do Norte não está trabalhando para “libertar” ninguém. Em vez disso, está trabalhando para encurralar os norte-coreanos, fazendo-os trocar uma gaiola por outra. Há quem argumente que a “outra gaiola” é mais confortável. Bobagem. Nenhuma gaiola será jamais confortável e nem se fosse confortabilíssima deixaria de ser gaiola.

Nada disso é feito para objetivos altruístas, mas, simplesmente, para “alistar” mais alguns milhões de seres humanos, de outra região do planeta, no mesmo paradigma de consumo globalizante de exploração, não sustentável, de Wall Street – paradigma que estrangula o meio ambiente, a sociedade e os seres humanos.

Como o tal Centro Estratégico Coreia do Norte poderia mostrar alguma “verdade” aos norte-coreanos, se não diz a verdade nem sobre quem o mantém e paga os salários dos seus “especialistas”?

Aí está também um paradigma de consumo que está sendo assumidamente construído e ampliado com dinheiro dos contribuintes norte-americanos, pelo Departamento de Estado dos EUA, cuja missão deveria ser a de representar o povo dos EUA e seus interesses legítimos, mas que, em vez disso, vive a impor os interesses de empresários e banqueiros dos EUA sobre outros povos, mediante truques de propaganda, onde possível; e por força militar, quando necessário.

O artigo publicado em Wired, como muitos outros que essa revista publica, foi escrito para gerar “pauta” dita “jornalística” de propaganda do que se pode chamar “colonialismo 2.0”: para dar aos leitores uma sensação de superioridade moral sobre os muitos inimigos que o ocidente “designa” para ele mesmo.

Divisa fortificada entre as Coreia do Norte e do Sul

Mas Wired nunca se refere ao papel do Departamento de Estado nessa específica campanha de propaganda. Isso mostra que não apenas os leitores “comuns” estão sendo manipulados, mas muitos “especialistas” e muitos “jornalistas” também estão sendo igualmente manipulados nessa campanha extraordinariamente desonesta. Será que a ação de Kang seria igualmente bem recebida pelos norte-coreanos, se eles fossem honestamente informados de que tudo aquilo é mantido e sustentado – que, na verdade, tudo aquilo foi inventado – pelo Departamento de Estado dos EUA?

Será que essa informação verdadeira, devidamente divulgada, confirmaria a opinião de Kang, de que os norte-coreanos seriam injustificadamente paranoicos, sempre temerosos de que os EUA apareçam para subverter, destruir e esmagar o país deles? Ou o fato de que Kang está integralmente a serviço dos EUA e de que seu trabalho é controlado e supervisionado pelo Departamento de Estado dos EUA exporia as mentiras que Kang usa para defender o próprio salário?

Verdade e transparência são indispensáveis a quem queira oferecer “liberdade” a outros. Gente mal informada ou desinformada não pode tomar decisões realmente consequentes sobre o próprio futuro. Se o crime da Coreia do Norte seria enganar o próprio povo sobre o mundo fora de suas fronteiras, nesse caso Kang e a campanha de propaganda do Centro Estratégico Coreia do Norte para mostrar-lhes o “mundo de verdade”, mas com ações pagas pelo Departamento de Estado dos EUA são, no mínimo, igualmente criminosos.

Como diz o ditado, dois erros não fazem um acerto (e, isso, só se alguém acreditasse que o Departamento de Estado dos EUA estaria tentando fazer alguma coisa certa).

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[*] Tony Cartalucci é pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

POSTADO POR CASTOR FILHO

O jornal anti-nacional exibido à noite pela Tevê Globo

20 mar

reprodução

Não há rede de televisão no mundo mais contrária a iniciativas diplomáticas abertas pelo seu país. Por lá, só o que é americano é que é bom.

J. Carlos de Assis

Em artigo anterior expus os vícios praticados pelos noticiaristas e comentaristas da Globo na cobertura distorcida do noticiário nacional. Agora vou acabar o serviço fazendo uma análise sumária do noticiário internacional. Este é o campo preferido de William Waack, onde, com seus esgares característicos, ele nada de braçadas, ora vocalizando os interesses do Departamento de Estado americano, ora fulminando com a política de integração sul americana iniciada na gestão de Lula e aprofundada no governo Dilma.
 
As duas mais brilhantes conquistas da diplomacia brasileira há décadas, a construção da Unasul e o apoio decidido à organização dos BRICS, pareceram à Globo um passo insignificante ou nulo para os interesses brasileiros objetivos. Por puro viés ideológico, ela desmereceu o momento político mais positivo da região, em décadas, criado por afinidades democráticas entre os presidentes da América do Sul. E relegou a Arnaldo Jabor a tarefa de caracterizar a Unasul como uma entidade ideológica esquerdista e insignificante.
 


A motivação óbvia é o descompasso potencial entre Unasul e os interesses norte-americanos, defendidos diligentemente por Jabor, algo que ficou ainda mais explícito com a organização dos BRICS. Neste caso, ao interesse econômico concreto, a diplomacia brasileira adicionou um aspecto adicional geoeconômico e geopolítico, tendo em vista a aproximação política do Brasil com a China e, principalmente, com a Rússia – o grande rival nuclear pós-Guerra Fria dos Estados Unidos no plano mundial. A atitude da Globo aqui não foi principalmente de oposição mas de omissão ou desmerecimento.
 
Talvez o fato mais significativo em outro nível, a subserviência da Globo à política racista americana pró-Israel e contra os muçulmanos, tenha sido a cobertura pela tevê da iniciativa do Governo Lula no sentido de uma solução para a questão nuclear iraniana. Com prévio conhecimento de Obama, Brasil e Turquia propuseram um caminho ao Irã e aos Estados Unidos para se chegar a um acordo aceitável para as partes. Israel ficou contra, e obrigou os Estados Unidos a voltarem atrás e abortar a iniciativa. Obama se comportou, portanto, como um mau-caráter servil aos belicistas, e o Jornal de Waack tomou o lado dos belicistas.
 
A Globo regozijou-se com o mau resultado da legítima tentativa do Brasil, como membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, de tentar ajudar no encaminhamento pacífico do mais prolongado e difícil conflito no mundo contemporâneo. O comentarista Arnaldo Jabor festejou o que teria sido um monumental fracasso brasileiro, condenando publicamente a interferência de Lula num jogo político que lhe parecia ser destinado exclusivamente aos “grandes”. Não houve uma única referência ao fato de que, pela primeira vez nas negociações dos Estados Unidos (ou, como querem, do “ocidente”) com o Irã, chegou-se muito próximo de um acordo por uma audaciosa e oportuna intervenção brasileira e turca, quebrando o gelo das negociações.
 


Não posso imaginar nenhuma televisão no mundo que se coloque tão abertamente contra iniciativas diplomáticas abertas de seu país, em especial quando se trata de iniciativas de paz, como a rede Globo. Claro, para Waack e Jabor mais vale uma gracinha na mão que um noticiário responsável voando.  A parcialidade em favor da direita anti-palestina de Israel, assim como da direita norte-americana salta à vista. No caso do Irã, assim como foi anteriormente no caso do Iraque, o interesse norte-americano vem descaradamente coberto por um ente de razão chamado “ocidente”, como se houvesse uma real coligação de países ocidentais coordenados pelo hegemon decadente. O que se tem, hoje, na Europa é apenas medo da pressão diplomática e econômica norte-americana.
 
Não fossem a internet e as redes sociais, jamais saberíamos que o avião derrubado na Ucrânia o foi provavelmente por forças radicais do governo de Kiev, e não pelos insurgentes russófilos; que o assassinato de Allende foi orquestrado pelo Departamento de Estado; que o golpe brasileiro teve o patrocínio direto americano; que a direita belicista israelense sequestrou corações e mentes americanas; que o noticiário vindo dos Estados Unidos está contaminado por uma visão parcial da história mediante o controle direto pelo aparato de informação da notícia distribuída pelas agências.
 
Os repórteres da Globo enviados para o exterior, com raríssimas exceções – posso citar Renato Machado, com medo de prejudicá-lo no meio da mediocridade e da negatividade -, absorvem a cultura local pela ótica norte-americana, e não pela brasileira. Em matéria de política e de economia o que vale é o que agrada o Tio Sam. Em geral, são mal formados, porque a Globo dá atenção máxima à forma, não ao conteúdo. De qualquer modo, as meninas bonitas da Globo defendem suas promoções seguindo rigorosamente a cartilha de direita extremada da emissora.
 
Conheci Waack décadas atrás, na cobertura de uma reunião dos Sete Grandes em Bonn, na Alemanha. Na época, a cobertura política tinha total precedência sobre a econômica, pois o neoliberalismo ainda não estava plenamente instalado no mundo.  Waack se revelou contente de me entregar a parte econômica da cobertura porque, dizia ele, não sabia nada de economia. Fiz minha parte. Testemunhei o que foi a completa capitulação da França e da Itália socialistas ao credo neoliberal defendido por Reagan e Thatcher no comunicado final. Claro, Waack e a maioria dos jornalistas políticos não tiveram ideia do que estava acontecendo.
 
Como isso aconteceu em 1985, teria bons motivos para acreditar que, desde então, aprendera alguma coisa de economia. Não é, porém, o que revela nos comentários. Na verdade, ele trava uma tremenda guerra com Jabor, outro fundamentalista da superficialidade, para saber qual dos dois é o mais raivoso, mais insolente, mais anti-nacional. A propósito, Waack fez uma longa pesquisa militar na Alemanha e na Itália para produzir um livro em que pretendeu demonstrar cabalmente que a FEB fez verdadeiro fiasco na Segunda Guerra, e que Monte Castelo foi um vexame. Bons, mesmo, verdadeiros heróis foram os norte-americanos!
 

J. Carlos de Assis

*Jornalista, economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, entre os quais “A Razão de Deus”.

Vocês que vestiram verde e amarelo ontem me envergonham. por Plinio Zúnica

18 mar

Vocês que vestiram verde e amarelo ontem me envergonham.

Ontem, amigos, conhecidos e parentes apoiaram a maior imbecilidade que eu já vi. Não é questão de ser contra o governo, porque, francamente, existem milhares de pontos a serem altamente criticados na Dilma sim.

A questão é que vocês não fazem a menor ideia do que estão criticando. Eu não apoio o que tem sido o governo Dilma, mas sei escolher as minhas bandeiras e com quem me misturo.

Eu tive dezenas de conversas com gente de todo o tipo nos últimos meses, e o ponto em comum é que a maioria das pessoas não faz ideia do que reclamar. Falam de uma corrupção que não sabem o que é, não sabem diferenciar o que é uma presidenta da Republica do que é uma rainha absolutista, não fazem ideia do que são as atribuições de cada esfera do governo.

Gente que não conhece história, que não sabe o que foi o Collor,que não sabe o que foi a ditadura, que não sabe o que foi a era FHC, que não entende os programas mais simples e básicos do governo do PT.

Gente botando a culpa até dos serviços de telefone nas costas da Dilma. Gente que se informa por memes burros de Facebook, que acredita no Revoltados On Line, que ouve o que dizem e dá poder para escrotos como o Lobão, Danilo Gentili, Silas Malafaia, Jair Bolsonaro, Paulinho da Força.

Gente que tem medo da “Ameaça Comunista”, que acha de verdade que o PT tá tentando transformar o Brasil em Cuba. Gente que repete os chavões burros de “bolsa esmola”, “bolsa bandido”.

Que acha que a corrupção do país vem toda do PT, e que não é capaz de fazer os raciocínios mais basais sobre as porcarias que afirmar. gente que protesta contra a corrupção usando uma camisa da CBF, cara!!! Cadê o senso de ridículo de vocês???

Gente que é burra o suficiente pra falar que o PT faz o Brasil passar fome. De todos os argumentos, acho que esse é um dos mais imbecis. Pode-se criticar o PT por muita coisa, mas falar sobre fome é de uma boçalidade impressionante.

Vocês, meus amigos, conhecidos e parentes, podem ter a melhor das intenções, mas estavam hoje marchando numa micareta com milhares de pessoas que pediam claramente a volta da ditadura militar.

Vocês fizeram coro com gente carregando suásticas, enforcando bonecos da Dilma e do Lula, carregando cartazes com dizeres de puro ódio e violência. Vocês marcharam ao lado de gente com um cartaz de “Femicídio sim!” (qualquer pessoa que tenha visto essa foto e não tenha ficado enjoado é um imbecil).

Vocês juntaram sua voz com o que há de mais podre na sociedade. Deram poder pra gente como os revoltados On Line, Lobão, Danilo Gentili, Coronel Telhada, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, TV Globo.

Vocês choraram pateticamente ao som do hino nacional, se enrolaram em bandeira, caíram na ladainha nacionalista que é a base dos fundamentalismos modernos, e fizeram isso ao lado de centenas de cartazes pedindo pela intervenção militar.

Teve até um dos grupos mais acéfalos e míopes da esquerda universitária lançando um panfletinho safado pedindo que os grupos de esquerda se unissem ao coro da demência.

Gente que vive num mundinho de revolução vila-madalena e tem uma capacidade de avaliação política pífia. Uma galera muito boa de pintar kraft bonito e muito ruim de juntar 2+2. Não interessa qual foi a intenção de vocês. O que vocês fazem, com sua ignorância política e histórica, é dar força para os fundamentalistas religiosos, para os militares, para os assassinos da polícia, para grupos que pregam a violência contra mulheres, que promovem a perseguição de gays, lésbicas e transexuais, que alimentam o racismo, machismo, elitismo e homofobia.

É um erro grande da Esquerda achar que esse é um movimento feito só por grupos de elite. A ideologia é da elite, os interesses são da elite, o dinheiro é da elite, os porta-vozes são da pior das elites, mas essa ideologia é ardilosa o suficiente pra infectar as mentes de todas as camadas sociais.

É uma ideologia baseada em medo, ódio e ignorância, e infelizmente esses elementos têm uma força de mobilização muito poderosa, mais do que a razão e a solidariedade.

Não fosse assim, teria sido o movimento hippie a dominar o mundo, e não ideologias fascistas, imperialistas, colonialistas, eugenistas e elitistas.

Não subestimem o poder do ódio, do medo e da ignorância. Não faltam exemplos do estrago que eles são capazes de fazer nas pessoas mais bem intencionadas. Ontem foi um dia muito, muito triste.

Sabedoria Indigena.

Há dois lobos lutando no coração do homem. Um é o Amor, o outro é o ódio. Quem vence ? Aquele que é mais alimentado! 

Fim da compaixão ? por Renato Janine Ribeiro

10 mar

Na terça-feira, dois relatos me surpreenderam. Um eu li no Facebook, replicado centenas de vezes: a jornalista Neli Pereira, da BandNews, dizia ter sido mal atendida por um médico do Hospital Sírio Libanês. Contou que ele usou o tempo de consulta para sugerir que consultasse um colega, a quem ela pagaria R$ 700 pelo atendimento, e encerrou a conversa pedindo para participar do programa de rádio dela.

Outro, todos vimos nos jornais: a forma como o ex-ministro Guido Mantega, que estaria levando a mulher para se tratar de câncer no Hospital Israelita Albert Einstein, foi ofendido na lanchonete do mesmo, a ponto de ter que se retirar. A coincidência é que essas condutas indesculpáveis ocorreram em dois hospitais top de linha de São Paulo.
Mas o chocante mesmo é que ambientes que deveriam ser de acolhida, de cuidado, foram poluídos, num caso, pela ganância, no outro, pelo desdém pelo sofrimento alheio.

Estaremos vivendo o fim da compaixão? Ninguém vai a um hospital para se divertir. É um lugar onde a maior parte se dirige preocupada, quase sempre adoentada e com sintomas desagradáveis. Um hospital, mais que isso, por vezes respira morte.
O câncer, de que sofre a mulher do ex-ministro, é doença de difícil e doloroso tratamento, embora a cura seja cada vez mais frequente. Nesses lugares se espera tudo, menos agressão. Na primeira narrativa, o médico falta com a ética mais elementar de sua profissão; mais que isso, com o respeito devido a um ser humano.

Pode alguém escolher um ofício da saúde, para usar as palavras de um médico no filme Montenegro (1981), de Markavejev, porque “só lhe interessa o dinheiro”? Sem dúvida, o caso narrado tem de ser exceção entre milhares de médicos, mas infelizmente só reforça o descontentamento com eles – e juízes (mas esse desprestígio de duas das três grandes profissões tradicionais – a terceira são os engenheiros – seria assunto para outro momento). Minorias podem impopularizar uma profissão. Esse caso precisa ser apurado pelo hospital e pelo Conselho de Medicina.

Os insultos na lanchonete do Einstein causaram mais polêmica. Deixemos de lado a questão da presença, ou não, de médicos na turba mal-educada. Cabe lembrar que um lugar dedicado à saúde deve ter caráter quase de santuário. Sempre foi tradição, no Brasil, não falar mal de mortos, pelo menos por ocasião da morte.

Essa praxe pode ter raiz em alguma superstição, mas consiste – ou consistia – na convicção de que há um limite para todas as pendências e conflitos que tenhamos em vida. Tudo é transitório, “é pó”, como diz a religião cristã. Não é o medo de que o cadáver venha nos puxar pelo pé no meio da noite.

É a crença de que a morte põe termo a todas as vaidades humanas. Vaidade é um termo com dois sentidos, que se ilustram e complementam. Refere-se ao vaidoso, à pessoa exibida, que se considera especial, superior aos outros – o que, numa sociedade democrática, tende a ser intolerável. Mas também se refere ao que é vão, inútil, ocioso, ao que dá em nada. You’re So Vain, a música de Carly Simon (1972), joga com os dois sentidos, que por sinal em inglês são dados por uma palavra só: “Você é tão vaidoso / Você o que faz é tudo em vão / De que adianta ser tão besta…”.
A morte põe fim a isso tudo. Por isso, os lugares da morte são lugares de respeito. Não se imagina ofender alguém num cemitério, no velório, na missa pelas almas. Isso se estende ao lugar de fragilidade que é o hospital, o posto de saúde, a unidade básica. Instauramos um cessar-fogo em meio às guerras do cotidiano. Recordo expressões como salvo-conduto, suspensão de hostilidades, trégua.

Nesses lugares, não devemos enfatizar o que nos divide. Médicos de países em conflito armado atendem aos feridos do inimigo – assim ordenam as leis de guerra. Em combate, podemos, talvez devamos, matar o inimigo; mas, quando ele é aprisionado ou se rende, da inimizade só restam o direito de mantê-lo preso e a obrigação de alimentá-lo, tratá-lo, resguardá-lo. Isso foi violado na lanchonete do hospital.
Há gente que trata aqueles de quem discorda como se estivéssemos em guerra civil. Pior que isso: porque, como afirmei, a doença ou a desvalia implicam uma bandeira branca. Nem mesmo isso está sendo respeitado. Fiquei horrorizado com certas manifestações de facebookers e de leitores de jornais. Um dizia que o PT tem que ser tratado à bala. É uma clara degradação do espaço político em território de guerra. É esquecer que a construção do Estado consiste, antes de mais nada, na substituição da guerra pelas palavras, da matança pela convivência.

Gente que diz isso passa o atestado de que não está preparada para o convívio no Estado de Direito. Quem defende o assassínio é criminoso. Pena que o Brasil seja tão leniente com o crime.
Há dois pontos finais a assinalar. Começo pela compaixão. Recentemente, num debate com psicanalistas lacanianos, eles a criticaram. Afirmam que há uma cumplicidade ruim entre quem sente pena do outro e aquele que se vitimiza.

Assim se forma uma situação viciada da qual não se sai. Mas essa ideia, embora correta em seu enunciado, parte de um equívoco quanto ao que compaixão significa. Compaixão não é ter pena. Não é dar esmola. Não é manter o outro no estado de dependência.

A compaixão, a “piedade” de Jean-Jacques Rousseau, é a reação, quase instintiva, que nos faz sofrer junto a qualquer ser vivo que sofra. Como bem observa Lévi-Strauss, ela vai além do mundo humano: abrange os animais (penso que hoje se pode discutir se chegaria também aos vegetais; a jovem lapsariana do filme Um Lugar Chamado Notting Hill diria que sim). Ela realiza a ideia de John Donne: “Nenhum homem é uma ilha isolada; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Não é o atendimento no varejo, que meus amigos criticavam: é uma postura diante da sociedade, mesmo da vida. Compaixão, mais que dar esmolas, envolve lutar pela supressão da pobreza e da miséria. Não é só cuidar de um cão machucado; é – no mínimo – lutar pela morte sem dor dos animais que comemos. Para vários, é também recusar-se a comer cadáveres, mesmo de animais não pensantes.
Ora, o que mostram esses episódios que dessacralizam os templos do cuidado é que está se desvalorizando o respeito ao sofrimento. Parece que regredimos a antes de Rousseau. Até o século 18, o grande espetáculo de mídia eram os suplícios em público, em alguns casos, precedidos de demorada tortura. Até a década de 1930, se enforcava ou guilhotinava na praça. Fizemos bem em substituir esses shows pela televisão, mas muita gente ainda quer dar vazão a essa barbárie, ao anseio de matar, destruir, fazer sofrer.

Gostemos ou não, é mais frequente esse tipo de desrespeito ocorrer contra petistas e esquerdistas do que contra tucanos ou direitistas. Isso significa que ações de desrespeito são mais cometidas pela direita do que pela esquerda. Esse ponto deveria chamar nossa atenção como educadores. Uma parte de nossa sociedade, mesmo tendo dinheiro, está sendo mal-educada. Não respeita os princípios do convívio social, a ponto de violar o último bastião do respeito, o silêncio perante a dor ou sofrimento alheio. Era o refúgio da humanidade. Parece que nem isso.
Assim, há quem substitua a vida em sociedade pela guerra de todos contra todos. Os desrespeitosos da lanchonete justificarão o que fizeram acusando o ex-ministro de criminoso. Mas todo país que entra em guerra alega isso. Acredita quem for bobo. Na 1ª Guerra Mundial, quantos não ficavam chocados de saber que, depois de uma vitória alemã, os bispos germânicos rezavam um Te Deum – e o mesmo faziam os franceses após uma vitória de seu país? Como se Deus fizesse guerra. O mesmo vale quando se proclama um lado inteiro como criminoso.
Há um problema no modo como a oposição conduziu nestes anos a discussão política no Brasil. Ela a reduziu a uma crônica policial. Em vez de construir projetos alternativos de qualidade – e poderia, sim, ter proposto para o País coisa melhor do que o PT fez, ou pelo menos coisa boa, que preservasse as conquistas sociais do petismo e promovesse por exemplo o pequeno empreendedor -, limitou-se a torcer para que polícia, promotores e juízes fizessem o trabalho que ela não conseguia ou não queria fazer.

O resultado é que parte significativa da população, em alguns poucos Estados, como São Paulo, criminalizou a simples simpatia pelo PT.
Isso traz uma consequência preocupante: quando o outro lado é visto como criminoso, é claro que não pode ser tratado com respeito. Uma coisa é reconhecer a vitória eleitoral de um adversário, outra a de um inimigo. Ora, se o adversário é pintado como ladrão, ele se torna inimigo. Isso deslegitima, aos olhos de uma parte minoritária, mas falante da população, o próprio processo eleitoral – e a própria democracia. Voltam alguns a querer a intervenção cirúrgica dos militares, para que rapidamente sanitizem o ambiente e o deixem pronto para os homens de bem exercerem o poder. É um 1964 redivivo, com a diferença de que os militares não querem mais esse papel, os empresários serão malucos se trocarem Joaquim Levy por uma aventura de tal ordem e a embaixada norte-americana certamente não quer criar problemas novos para seu país. No pequeno varejo das lanchonetes, das praças de alimentação, das filas de cinema e de supermercado, isso pode tornar impossível o convívio entre diferentes. Perde quem só frequenta seus próprios clones e não saboreia a diversidade de opiniões e valores.

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