Negro, pobre e sem-terra: quem são os brasileiros que estudam medicina na Venezuela

24 maio

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais. - Créditos: Luiz Felipe Albuquerque/Saúde Popular

 

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais. / Luiz Felipe Albuquerque/Saúde Popular

Aos 21 anos, Jéssica Rodrigues Trindade não pensava que um dia poderia cursar uma faculdade de Medicina. O Brasil mantém um perfil elitizado na formação médica, com apenas 2,6% de negros entre os formados na área, em um território onde a maioria da população se declara como negra ou parda (53%), segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep). Mas não foi em uma escola brasileira que a assentada da reforma agrária e filha de camponeses pobres do estado do Pará quebrou esse paradigma.

Jéssica faz parte de um grupo de cerca de 250 jovens de 32 países de diversas partes do mundo que estudam na Escola Latino-americana de Medicina (Elam), na Venezuela. “Eu que sou negra, pobre, filha de pobre, vejo agora toda minha família vibrando pelo fato de eu estar aqui. As gerações da minha família não tiveram acesso à educação e entrar em Medicina é ainda mais complicado”, conta Jéssica, assentada no Palmares II, na cidade de Parauapebas (PA).

Criada em 2007 pelo então presidente venezuelano, Hugo Chávez, em parceira com Cuba, a Elam busca formar médicos de diversos países que tem carência na área. “Esse é um objetivo primordial da escola: formar médicos – que não teriam a possibilidade de estudar em seus países – não só na ciência, mas também em consciência, porque são médicos que voltarão aos seus países para dar um retorno aos seus povos, cuidando das doenças e dos problemas que seus países enfrentam”, explica o cubano Arturo Pulga, médico e coordenador acadêmico da Elam na Venezuela.

É dessa maneira que o conceito metodológico e pedagógico pensado pela escola se diferencia do que é compreendido pela medicina convencional. “Se você vai atender o povo tem que ser uma medicina comunitária, por isso formamos médicos integrais comunitários, que vão à comunidade atender aos problemas dela. Um aspecto social fundamental é que essa medicina não é apenas para curar doenças, mas para preveni-las”, destaca Pulga.

Logo quando chegam à Elam, todos os estudantes participam de um curso introdutório de cerca de seis meses para nivelar o conhecimento sobre diversas áreas, como matemática, biologia, química e também sobre o pensamento latino-americano. Depois desse processo, eles ingressam na formação da carreira médica pelos dois anos seguintes, coordenado por um corpo docente de venezuelanos e cubanos.

Nesse período, os estudantes já começam a trabalhar nos Centros de Diagnósticos Integrais (CDIs) das comunidades, o equivalente às unidades básicas de saúde no Brasil, onde entram em contato com os moradores nos bairros carentes e praticam o conteúdo teórico que aprendem na sala de aula.

“Esse é um elemento importante dessa medicina, pois desde o primeiro ano os estudantes se vinculam com os pacientes nas comunidades. É uma diferença fundamental do modelo tradicional. Desde o primeiro dia que eles entram aqui, já têm vinculação com a prática, nos lugares onde estão as comunidades, os mais pobres, os mais necessitados”, relata Pulga.

Experiência

Uma das coisas que mais chamaram a atenção de Jéssica ao chegar na Venezuela foi o fato de a maior parte da população daquele país ter acesso à saúde básica por meio dos CDIs. “Em um simples bairro, você tem médicos para todas as áreas. A pessoa chega e já faz o atendimento”, conta.

Quanto às aulas práticas nos CDIs, a sem-terra destaca a importância desses momentos, pois eles permitem a troca de experiências. “Conversamos com os médicos cubanos sobre o trabalho deles. É muito boa essa troca, porque você vê uma medicina diferente, você vê que eles realmente estão preocupados com as pessoas”, avalia.

Esse, por sinal, é um dos fatores que mais instiga Jéssica a se dedicar à profissão. Segundo ela, são poucos os médicos no Brasil que se preocupam de fato com o paciente. “Às vezes o paciente não necessita de remédio, só precisa que se converse, sabe? Quando se tem a compreensão que o outro também passa necessidade, isso ajuda muito. Por isso essa medicina é diferente, é importante se preocupar com o outro e contribuir a partir do que você sabe. Isso é gratificante”, declarou.

Formação

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais.

Segundo Pulga, está cientificamente provado que 80% das doenças podem ser diagnosticadas a partir da atenção primária de saúde, de um questionário adequado que se leve em conta as pessoas e o meio social delas, considerando o local onde estudam, trabalham, etc.

“Por isso [esta formação] tem paradigmas diferentes da medicina tradicional. É uma medicina muito contemporânea em relação ao atual momento e as dificuldades dos nossos países, sobretudo, os latino-americanos, que tem dificuldades econômicas e uma população muito grande que necessita da atenção médica”, defende o coordenador.

Perspectivas

Quando os estudantes são questionados sobre o que pretendem fazer depois de passar por esse processo formativo, as respostas são praticamente as mesmas: o retorno para a terra de origem para cuidar “do povo”.

Vinda de Tabocas, uma cidade de 11 mil habitantes no oeste da Bahia, Soraya de Souza Santana, 21 anos, do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) pretende rearticular um conhecimento popular que foi se perdendo com o tempo na sua região.

“No tempo em que eu nasci, as mulheres que ajudavam uma as outras, faziam os partos, visitavam, buscavam alimentos para as crianças, davam multi-mistura para ajudá-las na nutrição. Eu tenho a perspectiva de resgatar algumas dessas coisas que foram se perdendo com o tempo”, aponta.

Apesar de recém-chegada à Venezuela, Jéssica não vê a hora de poder voltar e ajudar a população com o que aprenderá nos próximos seis anos. “Quero contribuir com quem fez que eu estivesse aqui: a luta do povo. Algumas pessoas que não compreendem isso, falam que eu estou aqui por mérito. Não, o mérito não é meu, o mérito é do meu povo. Foi ele que lutou para eu estar aqui. Tem toda uma América Latina em luta, isso aqui não é uma escola qualquer”, destacou.

 

Por Luiz Felipe Albuquerque 

Do Saúde Popular, enviado especial à Venezuela, 19 de Maio de 2016 às 15:34

Cooperação Internacional -Brasil De Fato

 

 

Temer e a Casa Grande se iludem

19 maio

Manifestantes protestam em frente à sede da FIESP, na avenida Paulista.

As elites que apoiam o impeachment ainda não compreenderam: seus privilégios continuarão a ser contestados

Primeiro ato: negros protestam contra o racismo diante da FIESP

Sexta-feira, 13 de Maio de 2016. Avenida Paulista, vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), 12h30. Um grupo de homens negros e de mulheres negras se organiza para marcar com um ato chamado Em Legítima Defesa o momento do Brasil e os 128 anos da abolição da escravatura no país. “O racismo é golpe”, diz o DJ e ator-MC Eugênio Lima. “Ele tira o pertencimento de toda uma população em detrimento de outra.” Eugênio lembra que os afrodescendentes são maioria no Brasil: “A população afrodescendente é 53% da população brasileira”. Negros, negras e negrex – o termo transgênero — representam a si mesmos no ato “no segundo dia do governo usurpador”. Cada um deles levanta um cartaz. Caminham em fila até o que chamam de “Casa Grande Moderna”: o prédio da FIESP, epicentro dos movimentos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, quartel-general dos verde-amarelos. Diante do imponente edifício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, postam-se um ao lado do outro e erguem suas frases em absoluto silêncio.

“USP sem cotas é golpe. Rota é golpe. Meritocracia é golpe. Luana morta é golpe. Direita racista é golpe. Feminicídio e hipersexualização da mulher negra é golpe. Ausência de negros nos espaços públicos é golpe. Machismo é golpe. Eu ser suspeito é golpe. Teatro sem negro é golpe. Blackface é golpe. Mulata é golpe. Me seguir no mercado é golpe. Medo branco.” E a pergunta:

– Abolição é golpe?

Manifestantes protestam em frente à sede da FIESP, na avenida Paulista. João Luiz Guimarães
Um dia antes, Michel Temer (PMDB) havia tomado posse como presidente interino, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) pelo Senado, anunciando um “governo de salvação nacional”. Compôs um ministério inteiramente branco e colocou como ministro da Justiça e da Cidadania Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública do governador Geraldo Alckmin (PSDB), relacionado por grande parcela dos movimentos negros e dos ligados aos direitos humanos como o mais recente responsável pela política de extermínio da juventude negra pela polícia do Estado de São Paulo.

A cena perturba os motoristas no trânsito lento da Avenida Paulista. Nas calçadas começa a juntar gente que volta do almoço ou se dirige a algum restaurante. “Que bobagem, não tem racismo no Brasil” e “Vão trabalhar, vagabundos!” são as frases mais ouvidas na plateia espontânea. Ao meu lado, uma dupla de amigos para. Um deles diz, em tom bem alto: “Não existe nada disso! Que frescura!”. Me apresento como jornalista e pergunto: “Por quê?” Ele apresenta-se como José Batista Sobrinho, 76 anos, médico oftalmologista, eleitor do PSDB. E responde:

– Esse racismo no Brasil não existe. Quero dizer, racismo existe no mundo inteiro. Mas no Brasil não é acentuado. Agora, por exemplo: você jamais se casaria com um preto.

– Por que o senhor acha isso?, pergunto.

– Parece que é algo internamente que você, como branca, não aceita. Porque você acha que essa raça é mais feia que a sua raça. Mas não é por isso que você vai discriminá-los. É uma pessoa igual a você. Frequenta a minha casa, frequenta a minha mesa, não tem problema nenhum. É uma pessoa igual a mim. Mas eu não me casaria com uma preta.

– Por quê?

– Não gosto. Tem alguns componentes que eu não gosto, coisas íntimas. Preferia uma pessoa diferente, mais clara. Questão de afinidade, de empatia. Mas não é por isso que vou discriminá-las.

José Batista Sobrinho.

José Batista Sobrinho.

– O senhor é a favor ou contra o impeachment da presidente?

– É lógico que sou a favor. Ela quebrou o país. A convulsão social taí. E quem é culpado disso é o PT. Não sou contra o Bolsa Família. Mas tinha que ser Bolsa-Escola, como era no tempo da Ruth Cardoso. Agora é Bolsa-Voto. Vou lhe dar o nome de uma cidade da Bahia que não tem ninguém trabalhando, todo mundo com Bolsa Família. No Nordeste, você não encontra uma doméstica pra trabalhar, porque tudo agora tem Bolsa Família. Mas não sou de Direita, não, não aceito isso.

– Como o senhor se define?

– Sou um liberal correto.

Três jovens mulheres, duas brancas e uma negra, observam o protesto. Os comentários são altos o suficiente para que se possa ouvi-los: “Quero ver esses negões aí na hora de casar. Se vão casar com essas negonas aí. Querem é brancas”. Risadas.

O grupo começa a repetir, alto, as frases dos cartazes. Na calçada, um homem grita para os motoristas dos carros: “Buzina! Buzina! Bu-zi-na!”. Quer que as buzinas abafem as vozes que denunciam o racismo. De repente, berra, furioso, para uma mulher num carro: “Enfia no cu, sua vaca!”.

Pergunto a ele por que disse isso. Ele apresenta-se como Fábio Andrade da Silva, 46 anos, segurança. E responde:

– Ela mostrou o dedo pra mim. É falta de elegância, é petista, é maloquera.

– E o impeachment?

– Sou a favor! Tou acampado aqui (na FIESP) há 58 dias.

– E o que acha dessa manifestação contra o racismo?

– São tudo desempregado, tudo com cargo comissionado do PT.

 

Fábio Andrade da Silva.

Fábio Andrade da Silva.

Faço uma foto dele. Ele comenta, referindo-se às mulheres negras:

– Eu não vou gastar minha bateria (do celular) pra tirar foto dumas mundrunga dessas aí.

– O que é mundrunga?

– Não sabe? Vá no dicionário que vai saber.

E sai gargalhando com um amigo.

O grupo se retira em silêncio. E volta para o MASP. Em legítima defesa.

Segundo ato: entrevista no vão do MASP sobre por que a FIESP é a “Casa Grande Moderna”

O teatro tem sido um dos espaços mais criativos (e contundentes) no questionamento do racismo que atravessa a sociedade brasileira. Nos últimos anos tornou-se também um espaço de irrupção das tensões raciais que por décadas foram encobertas por mitos como o da “democracia racial”.

O DJ e ator-MC Eugênio Lima, 48 anos, é um dos protagonistas dessa cena com múltiplas vozes. Em 2015, ele foi o mediador do debate realizado no Itaú Cultural após os protestos contra o uso de blackface numa peça. O evento foi um ponto de inflexão na luta contra o racismo, ao questionar os privilégios dos brancos nos espaços da cultura.

Em Legítima Defesa surgiu a partir de outra polêmica: a peça Exhibit B, o controverso espetáculo do sul-africano Brett Bailey, que foi contestado como “racista” por parte dos movimentos negros brasileiros, ao reproduzir cenas em que os negros eram colocados em jaulas para exibição.

Sua apresentação na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo acabou sendo cancelada, sob a alegação de “problemas de custo”. Por não se sentirem ouvidos no debate, os atores que participariam da produção criaram o Em Legítima Defesa e convidaram Eugênio para dirigi-los em ações. Uma de suas performances aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo, símbolo cultural das elites paulistanas. A FIESP foi escolhida por ser identificada como a “Casa Grande Moderna”

Eugênio Lima (à frente).
Eugênio Lima (à frente). João Luiz Guimarães
Pergunta: Quais são os significados da escolha deste dia para o ato?

Resposta: A performance sobre a Abolição já iríamos fazer. A ironia do destino foi que o dia 13 de maio coincidiu com o segundo dia do governo usurpador. Essa ironia simbólica foi invisibilizada.

Talvez o gabinete desse presidente interino seja o mais próximo de uma ação conservadora no Brasil desde 1964, e muito parecido com os gabinetes conservadores da Monarquia. São todos homens, todos brancos, com uma idade mais avançada, com vasto histórico sobre a política. Isso tudo foi construindo mais camadas simbólicas para esse momento. Esse governo não tem voto, não foi eleito pelo povo. Esse processo é um golpe político parlamentar.

P: Como você responde à pergunta escrita no cartaz que você ergueu: “Abolição é golpe?”.

R: A Abolição é golpe no sentido de que é apresentada como uma benesse do estado monárquico. A primeira coisa, portanto, é (a necessidade de) desinvisibilizar o primeiro grande movimento de massa deste país, que é o movimento abolicionista. A segunda coisa é que, ao dizer livres afinal, seríamos livres para tudo. Com o passar do tempo, essa ideia de liberdade vai sendo subtraída pela exclusão contínua. A política de imigração, quando se incentiva a população europeia a vir para o Brasil, é onde mais aparece a cara do Apartheid brasileiro. Foi um golpe na medida em que você tem um país com a maior população escrava do mundo, você faz a Abolição da escravidão e não existe nenhuma política de Estado para um problema que foi criado dentro da concepção de Estado. Isso é golpe.

P: E hoje, você acha que a Abolição já aconteceu?

R: A abolição é um projeto incompleto. Só que os efeitos desse projeto incompleto estão no extermínio da juventude negra, e este é um projeto muito nítido. Esse projeto é o eixo fundamental de uma política de controle populacional, criada em simbiose com um aparato jurídico-policial que está fundamentado em dois pontos centrais. Um deles é o encarceramento em massa: o Brasil é a quarta maior população carcerária do mundo e a única entre as quatro primeiras que continua a crescer. Isso está baseado numa espécie de “naturalização do racismo”, seja na ideia de “suspeito cor padrão”, seja na ideia de que negro/homem/pobre é igual a ser “bandido”. Estas são justificativas para uma atuação diferenciada tanto da polícia quanto da justiça no que diz respeito a negros e brancos no Brasil. Negros têm geralmente penas mais duras do que os brancos, pelos mesmos crimes cometidos.

P: E o segundo eixo?

R: É o da “vida matável”. A polícia vive a lógica de uma guerra, seja contra o crime, seja contra as chamadas “classes perigosas”. Ou seja, a polícia combate um inimigo comum, com táticas de guerra e aparatos de segurança importados de outros países, principalmente países que vivem guerras contra populações determinadas, como por exemplo o estado de Israel.

Nessa lógica, é preciso se perguntar: quem é a população negra, pobre e periférica? É a população civil do exército inimigo. Uma vida matável é uma vida dispensável. Mas, como o racismo internalizado nas corporações policiais é sistêmico, essa lógica atravessa o tratamento de todo negro/negra, independentemente de sua classe social.

É como se ser negro/negra fosse uma “espécie de sujeito a ser combatido”. E isso tem lastro no comportamento social, que, de maneira geral, tenta negar a existência de racismo. Isso é o que a professora Vera Malaguti Batista (socióloga que pesquisa o tema da criminalidade no Brasil contemporâneo) define como “Medo Branco”: a ideia dessa conflitividade óbvia, de que um dia o país, que é majoritariamente negro, vai se insurgir, de que um dia haverá um grande conflito social se o “morro descer”.

E isso só pode ser evitado com uma dura e mortífera política de controle. Daí a nitidez do projeto de extermínio da juventude negra. O genocídio da juventude negra é real e imenso, mas o senso comum trata como se fosse uma exceção, uma anomalia – e não uma política.

P: Qual é a sua análise sobre o fato de o ministério de Temer não ter um único negro?

R: É uma mimese. Não só não ter um negro, como não ter uma mulher. Assim como suprimir, colocar sob a égide do Ministério da Justiça os Direitos Humanos e a Igualdade Racial. (Temer extinguiu o Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e colocou tudo sob o guarda-chuva de um Ministério da Justiça e da Cidadania). Esse governo é ilegítimo até nisso. O país é signatário de tratados em Direitos humanos, o país é signatário de tratados de Combate ao Racismo. Não é uma coisa que eu, como governante, posso decidir, mas uma política de Estado. E, como política de Estado, independe de quem está no governo.

P: Por que você diz que a FIESP é a Casa Grande?

R: É a Casa Grande Moderna. Ela representou um projeto que é, numa ponta, a subtração de direitos constituídos, na medida em que essa pauta nunca passou pelo crivo eleitoral. Essa é a primeira coisa. Não é uma pauta do conjunto da população. Assim, só pode ser feita na surdina. A segunda coisa é que ela agiu de maneira clara e nítida incentivando ações fascistas. Insultando, racializando o discurso, diminuindo. E utilizou recursos que são públicos para financiamento de ações constituídas dentro do âmbito privado, como no financiamento dessas passeatas (a favor do impeachment). Esse jeito é o jeito da Casa Grande. Eu não estou chamando a FIESP de Casa Grande apenas porque são os herdeiros dos escravocratas. Mas por causa da lógica da Casa Grande. A Casa Grande organiza a sociedade, organiza o Estado à sua semelhança. O que era a Casa Grande? A Casa Grande era a Igreja, a Casa grande era o hospital, a Casa Grande era o Estado, a Casa Grande era tudo. A Casa Grande é onde tudo orbita. Essa é a metáfora do que essas forças reunidas em torno da FIESP fizeram neste momento histórico. Um momento análogo ao de 1964, já que a FIESP já fez isso antes, porque o golpe de 1964 foi civil, além de militar.

“O ministro da Justiça acha que Política é Polícia”

P: Qual é a importância da denúncia do racismo neste momento?

R: O racismo tem que ser uma pauta transversal, porque ele desmascara todas as relações. O racismo é aquilo que não pode ser dito. Quando você coloca que essa meritocracia é baseada no status racial, você vai começando a colocar por terra um monte de coisas. Que esses privilégios constituem uma espécie de golpe no direito de todo mundo, porque (o branco) já nasce com esses privilégios que estão constituídos no nível de cultura do país, embrenhados nos hábitos. Então, (o branco) tem uma vantagem adaptativa muito grande. Você vê como a ação coercitiva dos braços armados do Estado são violentos com a população negra do país. Assim, se invisibiliza um dado que jamais poderia ser invisibilizado, o de que somos um dos países que mais mata a sua juventude.

P: O que você achou da escolha do novo ministro da Justiça e da Cidadania, Alexandre de Moraes?

R: Eu acho muito ruim que uma pessoa que se dirija a movimentos sociais como “guerrilhas” seja ministro da Justiça de qualquer país. Eu acho ofensivo ao conjunto da população brasileira um ministro da Justiça que condecora policiais que agrediram estudantes secundaristas. Um ministro da Justiça que acha que Política é Polícia.

P: O que fazer diante disso?

R: Esse é o momento em que a juventude negra e a multiplicidade da presença negra na sociedade precisam lutar de todas as maneiras pela desinvisibilização dessas questões. Uma das coisas mais cruéis dessa história é a ideia de que a reorganização das elites pode dar o tom de todas as questões. Como se a nossa história fosse uma sequência de reorganizações das nossas elites. Como se não existisse uma outra historia possível que não seja essa. É um momento muito triste. Por isso é o momento de constituirmos vocabulário político, mas sobretudo poético. Porque encaro isso como uma narrativa, que utiliza todos os seus símbolos para constituir o senso comum. E como o racismo é transversal, assim como o machismo é transversal, eles são capazes de desvelar essa narrativa.

P: E as imagens?

R: As imagens são muito potentes. Você olha o ministério e diz: “Caramba, mas só tem homens? E brancos? E muito velhos?”. Não que a idade seja um problema em si, mas eles são a cara de uma maneira de fazer política.

São figuras calcadas numa série de questões que representam interesses coorporativos muito nítidos. Uma pauta que não foi nem eleita, que sequer passaria pelo crivo das ruas, que sequer passaria por uma eleição para governador. Só pra lembrar: o presidente da FIESP tentou essa pauta no governo do estado de São Paulo (nas eleições de 2014, Paulo Skaf era o candidato do PMDB).

E nem isso ele conseguiu. Nem a unanimidade dentro da própria Direita. Então, este é um governo ilegítimo e é um governo usurpador. E, neste sentido, é tão claro, e é claro mesmo, é branco, que até as forças do capitalismo reconhecem que esse processo é questionável.

Terceiro Ato: reflexões sobre o governo que se inicia com as bênçãos de Sarney e de Malafaia

O período democrático que se seguiu à ditadura civil-militar no Brasil foi chamado de “Nova República”. É possível que tenha se encerrado. É preciso encontrar um nome para denominar o período ainda indefinido do governo de Michel Temer (PMDB), iniciado em 12 de maio, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado.

Como nomear esse momento, ao mesmo tempo novo e velho, na trajetória do país, é algo em disputa. Encontrar esse vocabulário próprio, plural, como já escrevi aqui e como é tão bem dito por Eugênio Lima, faz parte dos desafios do atual cenário. É com políticas culturais que um país constrói voz própria. Como se sabe, Temer extinguiu a pasta da Cultura.

Michel Temer, rodeado de ministros e políticos, ao tomar posse como presidente interino no dia 12 de maio, em Brasília.

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Michel Temer, rodeado de ministros e políticos, ao tomar posse como presidente interino no dia 12 de maio, em Brasília. Felipe Dana/AP Photo

A imagem do ministério de Temer produz estranhamento. É como um retrato que já nasce amarelado. Só brancos, só velhos, só homens. Nenhuma mulher, nenhum negro. Esse retrato é uma imagem poderosa porque não representa o Brasil atual. É também uma mensagem poderosa. Apesar de mencionarem muito o “futuro”, o que interessa a Temer e seus aliados para seguirem garantindo apoio é afirmar o passado. A mensagem gerada pela escolha do ministério reafirma a ideia de que o Brasil voltou a uma espécie de ordem estabelecida. E há até setores que podem comemorar esse feito, como se de fato se tratasse apenas de um retorno ao que sempre foi e jamais deveria ter deixado de ser. Mas, para compreender essa fotografia, é preciso entender que simplesmente voltar já não é possível.

Temer e seu ministério são um retrato que já nasce amarelado e que não representa o Brasil

Temer e as forças que protagonizaram esse momento podem até acreditar que dá para voltar ao passado que representam, mas se equivocam. Não dá para retornar ao Brasil pré-cotas

raciais, ao Brasil antes do #meuprimeiroassédio, ao Brasil antes do Bolsa Família e do protagonismo das mulheres chefes de família, ao Brasil em que os mais pobres aceitavam não ter acesso ao consumo, ao Brasil em que pobre não chegava à universidade, ao Brasil em que estudantes de escolas públicas aceitavam calados serem violados em seus direitos mais básicos. Essa ideia pode até ser acalentada por Temer e pelas forças que permitiram que ele assumisse o poder. Mas é desejo, não fato.

A ideia de que as elites podem escrever toda a história do país, e reescrever, e suprimir capítulos, e dizer qual é a narrativa que vai preponderar sobre todas as outras não se sustenta no Brasil do presente. O ato dos negros, negras e negrex diante da FIESP é uma pequena grande cena. Os exemplos irrompem em todos os cantos. Quem acredita que as forças criativas que emergiram em 2013 podem ser silenciadas é um mau leitor do momento histórico. E isso vale para os antipetistas e vale também para os petistas. Os movimentos sociais agora são outros. E se lançam com palavras novas – e próprias.

Há muito de velho e há também algo novo no ministério de Temer, como uma imagem desse pacto de elites. Há pelo menos um investigado pela Lava Jato, Romero Jucá (PMDB). E um sobre o qual há dois pedidos de inquérito, Henrique Alves (PMDB). Há Alexandre de Moraes (PSDB), um ministro da Justiça que condecora policiais que espancam estudantes adolescentes. Há um ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que mudou do PR para o PP para garantir seu nome para o ministério. Maggi, conhecido como “o rei da soja”, já foi o vencedor do prêmio “Motosserra de Ouro”, dado pelo Greenpeace, em reconhecimento à sua colaboração para a destruição do meio ambiente. Há Osmar Terra (PMDB), defensor ferrenho de uma política de drogas comprovadamente ultrapassada, ligada ao extermínio da juventude negra e ao encarceramento massivo dos mais pobres. Há vários que estiveram com Dilma Rousseff até a véspera, como Gilberto Kassab (PSD) e Leonardo Picciani (PMDB). E mesmo os mais jovens são herdeiros de velhos clãs ligados ao PMDB, como Sarney e Barbalho, entre outros. “Notáveis” não há. Mas, como se viu, há notórios.

É urgente compreender o ambicioso projeto político das igrejas evangélicas para compreender o Brasil atual

Mas também há algo que parece velho, mas é novo. Porque não é novo apenas aquilo que achamos que deve ser. Trata-se do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcos Pereira (PRB). Se há algo pouco compreendido e investigado no Brasil é o crescimento das igrejas evangélicas no país. Primeiro, colocam-se todas na mesma caixa, e elas são bem diferentes entre si. O espectro é amplo. As que mais têm crescido não representam um projeto religioso. O que representam é um projeto econômico e, principalmente, político. É aí que mora o perigo. Marcos Pereira é o arquiteto que fez o PRB, partido ligado à Igreja Universal e à TV Record, duas frentes da mesma construção política, ganhar musculatura no Congresso. É urgente que se compreenda melhor o crescimento de algumas igrejas evangélicas no país e seus respectivos projetos de poder para que se entenda o país. Vale a pena perceber também que a Igreja Católica, outrora tão ativa na política brasileira, teve pouca ressonância no desfecho que levou Temer ao poder.

Há dois atos de Temer que têm grande força simbólica para a compreensão do pacto instalado no Planalto. No dia da votação do impeachment no Senado, 11 de maio, ele só deixou o Palácio do Jaburu, onde parlamentares vinham lhe beijar a mão, para beijar uma mão mais poderosa que a dele, a de José Sarney, esse personagem que atravessa a ditadura e a redemocratização. As digitais de Sarney estão por toda parte, em especial no setor elétrico do país. Isso é velho. E forte.

No dia seguinte, após a posse como presidente interino, Temer recebeu a bênção de Silas Malafaia, o mais truculento líder evangélico do país, e rezou com expoentes da bancada evangélica, como o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC), cuja atuação nefasta dispensa apresentações. Isso é novo. E forte. É preciso decodificar essas duas cenas com mais profundidade do que temos feito.

A imagem de um Lula alquebrado, quase distraído, ao lado de Dilma Rousseff, durante o discurso de despedida diante do Planalto, dá margem a muitas interpretações. Lula não disfarçava. Talvez porque não quisesse, talvez porque já não pudesse. Seu rosto estava devastado. Era um fim. Independentemente do que vai acontecer com Dilma e principalmente com o PT nos próximos meses, e que está longe de estar dado, ali havia um fim. Se este final significar uma autocrítica feroz do PT sobre suas escolhas no poder, não só o campo das esquerdas ganha, como o país.

Para citar apenas uma cena desse longo e acidentado roteiro: foi Eduardo Cunha quem peregrinou pelas igrejas evangélicas a serviço de Dilma Rousseff e do PT na campanha eleitoral de 2010, assegurando aos pastores que a então candidata era contra o aborto. Naquele momento, o PT rifou uma de suas bandeiras históricas em troca do voto religioso e dos aliados de ocasião. Cunha, obviamente, sempre esteve a serviço apenas de si mesmo. Este é um momento emblemático. E é apenas um. Há que se passar a limpo todos eles.

O PT precisa enfrentar suas contradições no poder e fazer uma autocrítica implacável

Há que se passar a limpo a tal das escolhas feitas em nome da palavra mais horrenda do léxico político recente: “governabilidade”. A única saída digna para o PT é enfrentar as contradições e fazer autocrítica. Mas não parece que seja isso que vai acontecer. Mais uma vez. É bem mais fácil ser apenas vítima. E também mais conveniente para 2018. Mas já era tempo de entender que o mais conveniente e mais fácil custa caro logo ali.

Quem briga com os fatos sempre acaba perdendo em algum momento. Se Dilma foi afastada e o PT encontra-se nesse buraco é também por escolher desviar das contradições – ou mesmo encobri-las. E isso vale também para as esquerdas que preferiram fazer de conta que era possível perdoar o imperdoável, como Belo Monte. E que continuam a fazer de conta, deixando esse campo desorganizado e abrindo um vazio que logo será ocupado, sabe-se lá pelo quê.

O rosto devastado de Lula, ao lado de uma Dilma em seu derradeiro discurso, e a cena do ministério de Temer, com papagaios de pirata como Aécio Neves (PSDB), evocam também uma interrogação sobre quem são os profissionais do ramo. Parte das elites bajula Lula desde que ele era um líder sindical do ABC, vale rever a cena do Gallery, em 1979, quando Lula vai jantar na boate dos ricos a convite da revista Manchete. Na campanha de 2002, ele desfilou em terno Armani pelos salões da elite paulistana abertos por Marta Suplicy, que sabemos bem o que fez nos verões passados e o que faz hoje. Assim como pelo casal Eleonora Mendes Caldeira e Ivo Rosset. Era o operário que chegou ao paraíso.

Dali em diante Lula gostou cada vez mais dessa bajulação dos salões. E o mesmo vale para muitos do PT. Em algum momento, eles acharam que eram os donos da bola desse jogo viciado, sem perceber que eram observados de perto – e com algum divertimento – por cartolas tão velhos quanto o diabo. Na política, no empresariado, na justiça. E Lula acreditou que era mesmo um ungido, bastando abrir a boca para chamar as massas para si, enquanto cada vez mais se distanciava delas também na produção simbólica de imagens.

Tudo indica que Lula e o PT não compreenderam por completo a complexidade do jogo e a fragilidade do seu lugar nele. Escolheram jogar o jogo do adversário e abriram mão de questionar as regras, achando que podiam seguir ganhando. Dilma, por sua vez, provou-se um dos maiores equívocos de Lula, até então famoso por sua intuição política. Até (quase) o final acreditaram que podiam virar a partida decisiva. A ironia maior é o fato de que quem ficou ao lado de Lula, Dilma e o PT foi a torcida a qual tinham virado as costas ao rifar bandeiras históricas.

Lula acreditou que era o dono da bola e descobriu que a bola nunca foi de fato dele

A face devastada de Lula contém muitos significados. Um deles pode ser decodificado como o rosto entre a surpresa e a mágoa do menino que achava que para sempre seria o dono da bola. Mas descobriu que nunca foi de fato o dono da bola. O sorriso de escárnio dos ministros de Temer e de seus apoiadores, a expressão de euforia mal contida do próprio Temer, pareciam dizer: “Tolinhos, os profissionais agora vão cuidar de tudo”. É a arrepiante volta dos que nunca foram.

Houve um momento em que o PT poderia ter mudado o jogo. E não mudou. Não é possível seguir acreditando que tudo o que aconteceu foi por que o PT mudou o jogo. O impeachment se tornou viável exatamente pelo motivo contrário: porque o PT não mudou o jogo no principal. E essa é a parte incontornável.

Mas a história não está dada. O Brasil não é o que era. O passado não volta. O lema positivista “Ordem e Progresso”, que Temer pegou emprestado da bandeira, como lembrou o escritor Sérgio Rodrigues em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, já era conservador quando proclamaram a República, no final do século 19. Em entrevista exclusiva ao Fantástico, programa da TV Globo, no domingo, 15 de maio, Temer respondeu que um dos legados que gostaria de deixar é “a pacificação do Brasil”.

A “pacificação” proposta por Temer é cada um voltar a ocupar seu lugar racial e social como se essa fosse a organização natural das coisas. A “pacificação” de Temer é paz apenas para alguns. A esse desejo de retorno da velha ordem das elites e do progresso para os mesmos de sempre contrapõe-se hoje a frase poderosa, quase um mantra, escrita em um dos cartazes levantados na Paulista na performance dos ativistas negros: “Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém”.

Tanto o PT quanto aqueles que agora estão (ou continuam) no poder ainda não compreenderam a potência de 2013. A polifonia que ocupou as ruas naquele momento, para além de qualquer controle possível, segue nas ruas, apesar das bombas de gás da polícia. É essa a força simbólica dos negros e negras e negrex que se postaram diante da “Casa Grande Moderna”. Em legítima defesa.

Quem acha que é o fim da história ainda não entendeu que ela mal começou.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Gangue de ladrões’ tenta destituir Dilma Rousseff em ‘golpe brando’, diz Chomsky

19 maio

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São Paulo – O linguista norte-americano e professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) Noam Chomsky disse na terça-feira (17) que “uma gangue de ladrões” está tentando destituir a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, orquestrando “um golpe brando” no país. Chomsky fez a declaração em entrevista ao site norte-americano Democracy Now!.

“Na verdade, temos a única líder política (Dilma) que não roubou para enriquecer e está sendo impedida por uma gangue de ladrões, que fizeram isso. Isso conta como um golpe brando”, disse Chomsky ao ser perguntado sobre se o que está ocorrendo na política brasileira pode ser classificado como “golpe de Estado”.

Chomsky afirmou que nos últimos dez ou 15 anos a América Latina “se libertou” do domínio estrangeiro, notadamente dos Estados Unidos. “É um desenvolvimento dramático nas relações mundiais, é a primeira vez em 500 anos”, disse. Ele afirmou ainda que, no passado, os Estados Unidos tinham capacidade e ainda tentam derrubar governos no continente, citando os golpes e as tentativas de golpe na Venezuela em 2002, no Haiti em 2004, em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012.

O professor também fez críticas aos governos do PT, que, segundo ele, “tiveram uma oportunidade real de realizar algo extremamente significante, fizeram algumas consideráveis mudanças positivas, mas apesar disso se juntaram ao resto – a elite tradicional no roubo indiscriminado”.

Assista a reprodução do depoimento de Chomsky em reportagem do Seu Jornal, da TVT:

Pequeno manual de guerrilha semiótica antimídia

12 maio

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Por  Wilson Roberto Vieira Ferreira ( CineGnose )

É inacreditável que depois de quase um século de legado em instrumentos, estratégias e pesquisas na Ciência da Comunicação, a única reposta possível do PT à agenda imposta pela grande mídia seja a articulação de um “gabinete de crise”. Administrar os estragos provocados pelas explosões das bombas semióticas apenas legitima e dá pertinência à pauta diuturnamente elaborada pelas redações dos grandes veículos. O PT repete o mesmo erro estratégico das esquerdas em todos os tempos: pensar a comunicação ainda de forma tradicional (iluminista) como uma questão de Fonte de transmissão dentro da cadeia de comunicação. As bombas semióticas demonstraram que a grande mídia já está à frente com o chamado “softpower” – não mais tentar convencer ou persuadir, mas agora criar pânico e moldar percepções.   Guerrilhas semióticas são a única estratégia possível frente ao cerco das grande mídias: criar uma contra-agenda atuando na recepção e nos códigos. Nessa postagem, um esboço inicial de uma guerrilha no interior dos processos de comunicação. 

A notícia de que o ex-presidente Lula articula a criação de um “gabinete de crise” para enfrentar o impacto das denúncias da Operação Lava Jato é tudo aquilo que a grande mídia esperava ouvir: um “gabinete de crise” apenas vai retroalimentar a agenda criada diariamente pelos colunistas e editoriais, legitimando a pauta pré-estabelecida, como se o PT fosse um bom adversário que aceita as regras do jogo.

Foi também noticiado que o gabinete será formado por um “grupo de notáveis” (sempre os “notáveis”… Marina Silva também pretendia montar um ministério com “notáveis”…).

 

É inacreditável que depois de quase um século de pesquisas nas ciências da comunicação, (desde a década de 1920 com o ponta pé inicial dado pela Escola de Frankfurt, Escola de Chicago e Teoria Hipodérmica) que resultaram em tantos instrumentos e estratégias disponíveis para ataques, defesas e contra-ataques, a única resposta que um governo que vai para 16 anos no poder seja a de legitimar uma manjada estratégia de criação de sucessivas agendas de crises – mensalão, a inflação dos tomates assassinos, o gigante que acordou, e agora o Lava Jato.

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Rui Falcão, presidente do PT: o partido é o
oponente ideal para a grande mídia?

Talvez por que a grande mídia saiba que tem no PT um ótimo oponente que se limita a denunciar a onipresença dos monopólios midiáticos, vitimizar-se pelas “manipulações” das notícias  e aqui e ali dar respostas tímidas através de notas na esperança de que “blogueiros sujos” façam a diferença.

O PT é um ótimo oponente de qual jogo? O jogo do “pinball político” (discutido em postagem anterior – clique aqui) que certamente o gabinete de crise apenas retroalimentará, ao dar legitimidade e pertinência a hierarquia das pautas que a grande mídia impõe.

Bombas semióticas e agenda midiática

Desde as grandes manifestações do ano passado, esse blog tem feito uma série de postagens sobre o fenômeno das bombas semióticas que a grande mídia vem detonando na opinião pública. A reação da estratégia política e de comunicação do governo em todos os episódios foi reativa: apenas controle de danos, prática que o tal “gabinete de crise” parece querer tornar mais sistemática e “estratégica”.

Nessas sucessivas análises feitas pelo blog Cinegnose, percebemos que as bombas semióticas não são “conteudistas”: não visam a persuasão, doutrinação ou convencimento por meio das palavras ou uso da retórica ideológica. Elas almejam o pânico e a moldagem da percepção com a finalidade de criar o imaginário da espiral do silêncio – a percepção sem nenhuma base lógica, estatística ou informativa de que existe uma voz da maioria, intimidando qualquer pensamento divergente. E o que pensa a “maioria”? Que o País é uma merda, e por isso está à beira do abismo!

Uma percepção imaginária imposta por uma agenda, não obstante o resultado das urnas terem demonstrado o contrário: de que não há “maioria” e, muito menos, país dividido, como já foi demonstrado em muitas análises do mapa dos resultados das últimas eleições.

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Essas bombas semióticas somente conseguem atingir seus propósitos com a consolidação de uma agenda imposta pela grande mídia, os grandes temas e escândalos do momento. A agenda é o meio condutor das ondas de choque – sobre esse conceito clique aqui.

Sendo bombas semióticas, são de natureza estritamente simbólica, imaginária ou, se quiser, psicológicas. Moinhos de vento, análogos àqueles contra os quais Dom Quixote enfrentava arrastando consigo o infeliz Sancho Pança que nada entendia.

Como então pular fora desse jogo mental, dessa cilada cognitiva perversa? Contra bombas, somente guerrilhas. Guerrilhas semióticas: a criação de uma contra-agenda, não a partir do polo emissor da cadeia da comunicação (as mídias), mas atuando no ponto de chegada – a recepção dos códigos. Portanto, dentro dos limites naturais de espaço de uma postagem, vamos traçar um esboço inicial dessa estratégia de guerrilha semiótica.

Umberto Eco e a “guerrilha semiológica”

Em 1967 o pesquisador Umberto Eco publicou um pequeno texto que se tornou um clássico na área de Comunicação: “Guerrilha Semiológica”. Pouco compreendido na extensão das possíveis conclusões das suas teses, acabou incrivelmente no esquecimento. Acreditem! Embora seja um texto de 47 anos atrás, continua com insights bem impactantes.  Vejamos o que Eco tem a nos dizer:

“Um partido político que saiba atingir minuciosamente todos os grupos que assistem televisão levando-os a discutir a mensagem que recebem pode mudar o significado que a Fonte atribuíra a essa mensagem. Uma organização educativa que conseguisse fazer um determinado público discutir a mensagem que está recebendo pode inverter o significado dessa mensagem. Ou mostrar que a mensagem pode ser interpretada de diversos modos” (ECO, Umberto “Guerrilha Semiológica” In: Viagens na Irrealidade Cotidiana, RJ: Nova Fronteira, 1984, p. 174).

Umberto Eco nos diz que “os estudiosos e educadores do amanhã” deveriam abandonar os estúdios de televisão e redações de jornais para combater “uma guerrilha porta a porta”.

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Umberto Eco: a questão da comunicação é
a recepção e o código

Eco parte do senso comum de que para controlar o poder não basta o exército e a polícia. É necessário o controle e a propriedade dos meios de comunicação. Naturalmente, políticos, comunicadores e cientistas de comunicação de Esquerda passaram a acreditar que a única forma de combate possível é contra a mídia ou a Fonte da comunicação, seja através de uma legislação progressista das mídias ou pela luta de contra-hegemonia no interior das redações e estúdios das grandes mídias.

O autor não ignora que essa estratégia possa dar resultados a quem aspira o sucesso político e econômico ou esteja numa posição dominante, porém será pouco útil para aquele que estiver à margem desse poder. Sua luta em conquistar a Fonte da Comunicação apenas reforçará o poder e legitimidade dessa mesma fonte: a grande mídia.

Da guerrilha semiológica à semiótica

Por isso, Eco propõe a “guerrilha semiológica”, ainda dentro de um quadro bem conteudista ou iluminista: o agentes dessa estratégia  sentariam na primeira fila junto à cadeira do líder de um grupo que veja um filme, leia um jornal ou veja TV e fazer uma “recepção crítica”. Mostrar que é possível “diferentes interpretações”, desconstruindo as mensagens.

Porém, hoje nos defrontamos com um cenário mais complexo, com bombas semióticas e engenharias de opinião pública baseadas em construções de agendas que impõem hierarquias de temas tidos como pertinentes para a sociedade.

Embora acompanhemos o insight de Umberto Eco (uma ação guerrilheira que mire o campo da Recepção e do Código), uma ação de guerrilha simbólica deve ser mais ampla do que uma ação semiológica – concentrada apenas na recepção crítica de conteúdos. Essa ação deve ser semiótica, no sentido mais amplo de criar uma contra-agenda, agindo na base da Recepção.

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Por isso, uma guerrilha semiótica deveria ser organizada em ações de curto, médio e longo prazo.

1. Curto prazo: intervindo na Recepção

Uma contra-agenda não se faz respondendo ao inimigo em seu próprio campo e nos seus próprios termos. Nunca a resposta dada com o mesmo destaque na grande mídia (reposta em rede nacional ou na primeira página do veículo) terá o mesmo resultado da bomba semiótica anteriormente detonada. A recepção dispersiva há décadas constatada em receptores de mídias de massas (Lazarsfeld nos anos 1950 falava em nove em cada dez receptores) torna os espectadores predispostos muito mais aos efeitos de pânico dos petardos semióticos do que a reações posteriores por meio de respostas conteudísticas que apelem a argumentação na tentativa de provar a verdade dos fatos.

Por isso são necessárias intervenções em locais públicos (instalações,flash mobs etc.) seguindo a mesma lógica do pânico: displays, telões, caixas de som, painéis em praças, calçadões, galerias comerciais, etc. Tais ações poderiam provocar debates instantâneos, rápidos. O debate e a informação seriam efeitos residuais, já que o mais importante e o impacto público da contra-agenda.

Tudo pensado em uma logística leve, rápida: montar e desmontar, nômade.

E por que não, táticas inspiradas no chamado “marketing invisível”: guerrilheiros semióticos anônimos se misturam a rodas de conversas em botecos, balcões, pontos de ônibus, metrôs, trens para “sentir” ambientes e conversas para intervir com tiradas, informações, dados ou até mesmos slogans, trocadilhos etc.

Se os pesquisadores da hipótese da Agenda Setting comprovaram o poder das mídias em pautar os temas das conversas interpessoais, é nesse campo que a guerrilha semiótica deve agir na construção da contra-agenda.

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2. Médio prazo: apropriação da agenda da grande mídia

Ampliar uma das melhores estratégias que a campanha de Dilma Rousseff colocou em ação nas últimas eleições: se apropriou do moralismo da pauta da corrupção – todas as denúncias de corrupção somente teriam sido possíveis por que em seu governo não existiria um “engavetador geral da República”. A grande mídia frequentemente noticiaria escândalos porque o governo teria criado condições (Polícia Federal republicana, por exemplo) para que tudo fosse noticiado.

As intervenções em curto prazo (vide acima) devem transformar essa ação de médio prazo em uma contra-agenda. Tornada sistemática, essa ação levaria ao pânico os colunistas e editores da grande mídia que viriam suas teses serem confundidas com as do próprio Governo.

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3. Longo Prazo: desconstrução do Código

Desde o domínio das mídias audiovisuais até as atuais tecnologias de convergência como a Internet, o problema do código passou a ser fundamental na comunicação A maioria de nós é analfabeto, seja visual ou digital – somos usuário e espectadores, vamos ao cinema, assistimos à TV, manipulamos software e navegamos na Internet, mas apenas manipulamos efeitos de conhecimento. Em outras palavras, usufruímos de produtos culturais e ferramentas digitais, mas não conhecemos suas sintaxes, gramáticas e morfologias.

Na linguagem audiovisual, edição, decupagem, planos, montagem, elipses etc.; e na digital a sintaxe HTML, CSS, DHTML etc., somos analfabetos. Aprendemos apenas a consumir e usar seus produtos, mas nada sabemos sobre como eles são construídos. Portanto, somos presas fáceis de manipulações, invasão de privacidade, etc.

Se observarmos um leigo manipular uma filmadora em uma festinha infantil, percebemos o seu analfabetismo visual: liga a câmera e passa a filmar tudo em plano sequência, sem noção de planos, sintaxe ou roteirização.

Esse analfabetismo visual esteve por trás, por exemplo, da famosa edição tendenciosa do Jornal Nacional da TV Globo em 1989 do último debate entre Collor e Lula – para o leigo, a existência da edição e seleção dos planos passa despercebida, passando a acreditar que a imagem é muito mais verdadeira do que um texto noticioso em um jornal.

Por isso, seria urgente inserir na estrutura curricular, desde o ensino fundamental, as noções de sintaxe, gramática e morfologia audiovisual. A partir da sintaxe das histórias em quadrinhos, avançaria-se para a linguagem do story boardaté chegar ao roteiro e toda morfologia audiovisual de cinema e TV.

As imagens perderiam a inocência com essa alfabetização visual generalizada. As pessoas perceberiam que as imagens não são constituídas de um único sentido. Como sugeria Umberto Eco no texto Guerrilha Semiológica, veríamos que as mensagens podem ser desconstruídas e reinterpretadas em uma nova sintaxe, como se a mídia fosse um gigantesco “efeito Kuleshov” – experiência feita pelo teórico e cineasta russo Lev Kuleshov mostrando que a interpretação que o espectador faz de uma cena pode ser alterada através da montagem e justaposição arbitrária dos planos.

CineGnose

Bombas Semióticas, ligações perigosas e as oportunidades perdidas. Por Wilson Roberto Vieira Ferreira

12 maio

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Com o impeachment da presidenta Dilma aproxima-se o desfecho de uma campanha iniciada ha dez anos com as denúncias do mensalão. Mas em 2013 teve uma virada que acelerou o processo: a nova estratégia semiótica de engenharia de opinião pública com a implementação no Brasil da “guerra virtual” e da “social engineering”. Naquele ano, a grande mídia brasileira levou algum tempo para fazer a ficha cair, acostumada que estava com velhas estratégias hipodérmicas dos tempos do IPES-IBAD nos anos 1960 – surgia no País a “primavera brasileira” com manifestações tomando as ruas. A multipolarização criada pelos BRICS forçou os EUA a implementar estratégias resultantes de uma longa tradição acadêmica de pesquisas sobre engenharia social naquele país: a Mass Communication Research de Lazarsfeld, Agenda Setting de McCombs e Shaw e as pesquisas em “ações não violentas” do cientista político Gene Sharp. Logo a grande mídia brasileira entrou em sintonia com a geopolítica dos EUA ao criar as “bombas semióticas” a partir da matéria-prima das manifestações que começaram por “apenas” 20 centavos.

O ônibus da Linha 1 do Festival Tomorrowland saiu lotado do Sambódromo de São Paulo levando jovens adeptos da música eletrônica para o evento na cidade de Itu. No meio de caminho, começou uma discussão entre os animados passageiros sobre o impeachment da presidenta Dilma e a legitimidade do vice Michel Temer: “Se pelo menos ele fizer alguma coisa para tirar o País do buraco, já vai estar valendo!”, disse alguém mais exaltado.

Esse é o clima de opinião resultante do bombardeio sistemático e diário de bombas semióticas pela grande mídia nos últimos três anos, desde a “primavera brasileira” de 2013 – a série de manifestações de rua que tão inesperadamente como surgiram, também desapareceram.

Uma estranha percepção de “buraco” em que o País estaria metido expressada por aquele jovem,  apesar de todos naquele ônibus estarem rumando para um evento da cena eletrônica mundial onde uma latinha de Skol Beat ou uma garrafinha de água custavam dez reais, unindo tanto jovens da elite sócio-econômica como remediados egressos da chamada Classe C e os chamados “cibermanos” – jovens de regiões urbanas periféricas fãs da música eletrônica.

Em plena explosão das manifestações nas ruas em 2013 e a  extensiva cobertura midiática, esse blog Cinegnose iniciou a série de análises do que chamamos de “bombas semióticas”, procurando mapeá-las e, através de uma engenharia reversa, entender o mecanismo de funcionamento e as ondas de choque na opinião pública em cada detonação – sobre a série clique aqui.

Naquela oportunidade percebemos um elemento novo entrando em cena: uma nova estratégia semiótica, bem diferente das anteriores fundamentadas em longas “suítes” jornalísticas como “caos aéreo”, “mensalão”, “gripe suína”, “o escândalo do dossiê”, o “escândalo dos aloprados” etc. Estratégia hipodérmica de simples repetição onde articulistas, âncoras de telejornais, editorialistas e colunistas martelavam a pauta tentando formar a opinião pública.

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Das estratégias hipodérmicas dos anos 1960 às bombas semiótica do século XXI

Bombas semióticas versus estratégia hipodérmica

Essa estratégia era ainda tributária das velhas táticas comportamentais (repetir até convencer) do antigo IPES-IBAD (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e Instituto para Ação Democrática) onde de 1962 a 1964 desestabilizou o governo João Goulart através de massiva propaganda no cinema, TV e mídia impressa além da ação direta por meio de rede suprapartidária que barrava qualquer projeto do governo no Congresso. Mobilizou a opinião pública para torna-la receptiva ao Golpe Militar que viria mais tarde.

Se a estratégia semiótica hipodérmica funcionou nos anos 1960 (épocas mais “duras” dentro da polarização da Guerra Fria), agora no século XXI já apresentava sinais de que o prazo de validade tinha terminado – principalmente num contexto de multipolarização com o surgimento dos BRICS e globalização econômica.

De nada adiantava a repetição diária de sucessivos escândalos e crises nos governos petistas nas primeiras páginas dos jornais diários e escaladas de telejornais: Lula não só foi reeleito como fez seu sucessor que ainda seria reeleito, para desespero dos “aquários” das redações da grande imprensa.

A “primavera brasileira” de 2013 iniciou uma nova estratégia semiótica tão diferente e sofisticada que muitos formadores de opinião da grande imprensa levaram algum tempo para fazer a ficha cair – por exemplo, Arnaldo Jabor vociferava na TV Globo que as manifestações nas ruas eram “uma grande ignorância política misturado com rancor sem rumo”.

Foi o início de uma nova estratégia semiótica sofisticada demais para ter sido planejada pela grande mídia brasileira: a engenharia de opinião pública ou, como alguns analistas definem, a chamada “Guerra Híbrida” – Hybrid Warfare.

Embora diferentes “primaveras” estivessem pipocando pelo planeta (árabe, egípcia, ucraniana etc.), a vetusta mídia brasileira ainda acreditava que tudo era por causa dos 20 centavos de aumento nas tarifas de ônibus. Houve um gap de alguns dias, mas logo a grande mídia nacional entrou em consonância com a nova tática planejada bem longe daqui e que não é assim tão nova.

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Paul Lazarsfeld, Dinald Shaw, Max MacCombs, Gene Sharp

Ligações Perigosas

Aqui começam evidências de ligações perigosas entre as origens das diversas “primaveras” nacionais pelo mundo e o know how norte-americano iniciado a partir das pesquisas acadêmicas como a Mass Communication Research de Paul Lazarsfeld nos anos 1940 na Universidade de Stanford e as pesquisas em Agenda Setting de Donald Shaw e Max McCombs (Universidades de Virgínia e Texas) até chegar à aplicação política direta:

(a) A Social Engineering: coordenação de front groups (ONGs), spin doctors (técnicos de comunicação a serviço de partidos e lobbies) e paid experts(profissionais de diversas áreas que se tornam informações de pauta privilegiados para a grande imprensa) – articulados e sempre disponíveis para fornecedor de informações de primeira mão para a mídia – veja abaixo o fluxograma de uma ação de engenharia de opinião pública;

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Fonte: HOWARD, Martin. “We Know What
You Want”. Disinformation Books, 2005

(b) Ação Direta: táticas de promoção de “ação não violenta” (mobilização através de blogs, redes sociais, música, arte, táticas de não-colaboração, ocupações etc.) em conflitos ao redor do mundo a partir de pesquisas do cientista político Gene Sharp (Universidade do Estado de Ohio e Instituto Albert Einstein) financiadas pela Fundação Ford. Cursos baseados em suas técnicas ocorrem atualmente eu Universidades como Yale e na Embaixada dos EUA. O próprio juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato, participou em 2007 de um curso no Departamento de Estado nos EUA de formação de Novas Lideranças;

(c) Black blocs (estranhos personagens que tão inesperadamente como apareceram também sumiram): na “primavera brasileira” foram financiados por ONGs ligadas a causas ambientais (sobre isso clique aqui) que costumavam depredar lugares escolhidos a dedo como, por exemplo, no episódio de uma concessionária da Caltabiano de veículos de luxo em São Paulo: revenda controlada pelo grupo americano McLarty cujo chefe, Thomas McLarty, foi Chefe da Casa Civil do Presidente Clinton. Ou então depredavam os clássicos estabelecimentos de grandes marcas (MacDonald’s, bancos etc.) para renderem fotos e vídeos impactantes para a grande mídia brasileira. Quer dizer, depois que a ficha já tinha caído nos “aquários” das redações e perceberam a intencionalidade por trás de todas essas ações “espontâneas”.

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A única semelhança com a estratégia de intervenção semiótica do IPES-IBAD nos anos 1960 foi o apoio logístico norte-americano (know how + apoio financeiro). Agora nesse século a criação de revoluções (ou “primaveras”) graças às táticas de social engeneering não opera mais com o estardalhaço da massificação, mas agora com viralização através de bombas cirúrgicas e pontuais: as bombas semióticas.

Enquanto na massificação temos um emissor que repete informações para milhões de receptores, na viralização todos são ao mesmo tempo emissores e receptores quando repercutem as ondas de choque das explosões das bombas semióticas.

Oportunidades perdidas

Essas bombas não visam persuasão ou convencimento político partidário e/ou ideológico (ao contrário dos anos 1960 dominado pela doutrinação ideológica anti-comunista), mas através da sedução e percepção produzir um “clima de opinião” – a irresistível sensação de que estamos todos num “buraco” tal como o animado grupo que ia para o Tomorrowland percebia a realidade brasileira. As bombas semióticas são verdadeiras bombas cognitivas.

Mas a sequência das bombas semióticas detonadas pela grande mídia (cuja matéria-prima estavam nas manifestações) poderia ter se transformado em guerrilha semiótica – ataques e contra-ataques. Acabou se convertendo em massacre onde só um lado disparava e o outro (Governo Federal e PT) apenas tilintava como as bolinhas metálicas de um fliperama num “efeito pinball”, reagindo timidamente com notas para a imprensa.

A armação e detonação das bombas mostrou seu lado frágil com acidentes como os episódios “tem alemão no campus” (clique aqui) e “o falso candidato do Enem” (clique aqui) onde a ansiedade de repórteres em cumprir a pauta pré-fixada pelos “aquários” das redações criaram situações engraçadas.

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Fossem bem aproveitadas, poderiam facilmente ser exploradas em táticas de “trolagem” para desmoralizar a grande imprensa tal como fizeram manifestantes em Lisboa para furar o bloqueio midiático a favor das medidas austeras da Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Européia): um grupo simulou estar se manifestando a favor da Troika, atraindo a atenção de ávidos repórteres loucos para reforçar suas pautas pré-definidas. Diante de câmeras ao vivo gritaram “Que se lixe a Troika!” diante de confusos jornalistas.

Hoje, o clima de opinião de “buraco”, se não legitima, certamente tornam “críveis” ou “fatos consumados” o golpe do impeachment e o seletivo combate à corrupção da Operação Lava Jato, assim como a histeria anti-comunista embalou o Golpe Militar de 1964 e o clima de opinião da “última bala na agulha” legitimou o confisco da poupança pelo Plano Collor em 1990 para conter a hiperinflação.

Mas o que mais surpreende em toda essa história é como a nova estratégia semiótica geopolítica norte-americana (Guerra Híbrida + Social Engineering) pegou um governo supostamente de esquerda totalmente rendido. Principalmente porque muitos dos seus membros militaram sob a repressão da ditadura militar e conhecem muito bem até onde chegam as estratégias geopolíticas dos EUA.

Talvez o episódio narrado por Roberto Requião (PMDB-PR) explique muita coisa. No primeiro mandato de Lula, Requião foi ao encontro do presidente e relatou o que tinha feito no Paraná: acabou com a verba publicitária e investiu tudo na TV Educativa do Estado. Lula teria se animado com a ideia e passou a bola para José Dirceu, na época ministro da Casa Civil. “Mas Requião, o Governo já tem TV”, interrompeu Dirceu. “Mas que TV, Zé?”, retrucou Requião. Ao que o então ministro respondeu: “A Globo, Requião”.

Parece que ingenuamente Dirceu acreditava que a mídia nativa fosse na contra-mão da geopolítica internacional dos EUA de florescer “primaveras” nos países membros dos BRICS.

Vou revelar meu segredo de tranquilidade.Por Míriam Márcia Morais

12 maio

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Vi Cardozo enquanto ministro fazer baixar a PF na casa dos golpistas graúdos e pegar os computadores, o que a gente sabe o que significa.

Vi o aeroporto de Aécio ser colocado nas telas de TV, na cara de todo mundo, e vi ele continuar em paz com seu aeroporto sem ninguém da política, imprensa ou judiciário abrir a boca.

Vi Eduardo Campos morrer de uma queda de avião no dia D, no último segundo do prazo que se não houvesse a troca por Marina, não haveria segundo turno, e quem teve prejuízos com a queda até hoje não foram compensados porque o avião não tem dono.

Vi Moro brincar de Hitler, Genoíno ir para a cadeia, Vaccari (o mais pobre dentre todos os citados) ser preso e permanecer até hoje numa cela da qual Moro livrou todos os envolvidos da Abreu e Lima só porque eram tucanos.

Vi Dirceu ser preso duas vezes num país onde corruptos aparecem mais nas telas de TV do que os artistas da hora. Vi a França enviar denúncia contra José Serra e a Suíça enviar as contas de Cunha e não acontecer absolutamente nada.
Então minha suposição é que assistir a tudo isso sem fazer nada é uma estratégia para, na hora certa, agir de forma dura para lançar tudo isso para o esgoto, mostrar pra todo mundo, esfregar na cara de quem não quer ver e recomeçar sobre novas bases.
Tenho esperado por esse momento. Não acredito que Exército, Marinha, Aeronáutica, seja compostas por covardes omissos em sua maioria, que estejam ignorando de fato, e não de mentirinha, as provas de que o alto escalão do Congresso seja composto de pessoas do alto escalão do tráfico de drogas, como nos provou o helicóptero.

Não acredito que não passem de moleques os nossos comandantes. Não acredito que os juristas sejam conviventes com o crime em sua maioria. Há bandidos de toga, mas nunca acreditei em maioria.
Também não acredito que Lula e Dilma tenham todo esse arsenal para carregar na mala quando terminar o tempo deles.
Quanto mais fundo mergulhamos na investigação dos fatos e da política, mais sabemos que só o anseio de mudar esse estado de coisas justifica a atuação nessa área.
O momento agora é decisivo, definitivo. Saberei se estive enganada ou se há um limite traçado entre o admissível e o intolerável na cabeça dos que assistem isso ainda mais de perto.
O momento é decisivo, é momento limite ao menos para mim. Já fui aqui muito criticada por dizer que se nada acontecer eu me despeço da política.

Não vivi duas vidas nem a ditadura militar para julgar a História, mas posso afirmar que no tempo em que vivi, nunca houve momento melhor para atirar tudo de uma vez no ventilador e decretar o BASTA!

Se nada acontecer e Dilma simplesmente sair, teremos atravessado o meu limite pessoal do que é admissível e tolerável.

Para mim o ativismo político termina.

Posso continuar pedagoga, posso continuar escrevendo livros ou gravando aulas sobre política, mas o que caracteriza o militante é a fé na possibilidade de mudanças.
Se Dilma simplesmente sair, não me interessa se será Temer, Aécio ou Tiririca a ocupar a presidência.

Se Dilma simplesmente sair, saio junto, e assim como ela, nessa vida não voltaremos mais.
Estou feliz de finalmente chegar o meu momento limite.

Acredito que algo acontecerá.

E serei ainda mais dedicada e atenta do que tenho sido até aqui.

Se Dilma não sair.

Por Míriam Márcia Morais(Direto da Central de Debates do Facebook)

Os jornalistas da Globo são tão responsáveis pelo golpe quanto seus patrões. Por Paulo Nogueira

10 maio

A voz dos patrões

 

Minha tolerância com qualquer coisa produzida pela Globo é baixíssima.

Tudo ali me provoca repugnância.

Mas acabei vendo alguns minutos da GloboNews no dia em que Waldir Maranhão anulou, ou tentou anular, a sinistra sessão em que bufões da Câmara aprovaram o golpe.

No pouco que aguentei ver, o que mais me impressionou foram as análises da comentarista Cristiana Lobo.

Ela acredita mesmo nas coisas absurdas que fala? Foi essa a pergunta imediata que me fiz.

Cristiana condenou a instabilidade que Maranhão trouxera para a cena política. Deus. Sob o comando descarado da Globo em que ela trabalha, a oposição vem promovendo uma brutal instabilidade no Brasil desde que Dilma se elegeu para um segundo mandato.

Aécio, o playboy do Leblon que se consagrou como o mais sórdido perdedor da história política nacional, colocou imediatamente em dúvida a lisura das eleições. Chegou a reivindicar, no primeiro grande espasmo golpista, que sua chapa fosse empossada no lugar da encabeça por Dilma e o traidor.

A Globo esteve por trás de todo o processo de desestabilização do governo eleito. Jamais serão esquecidos os circos montados pela emissora a cada etapa em que a Lava Jato perseguia os suspeitos de sempre – os petistas.

Também ficarão na memória as coberturas de protestos contra Dilma, tratados como grandes festas da sagrada família brasileira.

Isso para não falar na criminalização de pedalinhos em intermináveis minutos no Jornal Nacional.

A Globo virou a Veja. Abandonou completamente o jornalismo para se dedicar ao golpe todos os dias e todas as horas.

Com a diferença de que a Veja é uma revista semimorta, e a Globo, monopolista, infesta a cena de mídia nacional com jornais, rádios, emissoras de tevê etc etc.

Em seu cinismo bandido, a Globo fingiu se bater pela moralidade. Logo ela, símbolo da corrupção, uma empresa que faz qualquer coisa para que seus donos mandem no Brasil e, assim, multipliquem uma fortuna pessoal indecente.

A Globo sonega. A Globo paga propina para transmitir Copa do Mundo e outras coisas que lhe trazem um dinheiro colossal. A Globo se encharca de recursos públicos via BNDES. A Globo é um monstro moral.

E se faz de virgem.

Os jornalistas da Globo, no golpe em curso, contribuíram decisivamente para a causa abjeta dos patrões.

Um caso exemplar é o de Erick Bretas, que se fantasiou de Sérgio Moro no Facebook para defender histericamente o golpe. Não é a única fantasia de Bretas: ele também se vestiu e se veste de jornalista.

Não é apenas a Globo que deve ser combatida impiedosamente pela sociedade pelos males que fez, faz e fará contra o país.

Também seus jornalistas devem receber o justo castigo por ajudarem a transformar o Brasil num imenso, num desolador Paraguai.

Ou o Brasil acaba com a Globo ou a Globo acaba com o Brasil. Os Marinhos sempre tramarão para que sejamos uma república dos plutocratas, desigual, em que uns poucos tenham muito para que a imensa maioria divida o resto.

O bilionário Jorge Paulo Lemann disse que o Brasil jamais será estável enquanto houver desigualdade.

Acrescentemos: e jamais será iguialitário enquanto existir a Globo.

Uma das raras coisas boas dessa crise é que nunca isto ficou tão claro.

A Globo boicotou a democracia a cada instante neste golpe. Ela tem que ser combatida nesta mesma medida: a cada minuto, compreendidos aí os Marinhos e seus cúmplices jornalistas.

 

Por Paulo Nogueira – DCM (Diário do Centro do Mundo )

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