O streap-tease do neoliberalismo

7 Fev

Streap-tease

A Europa teve o melhor momento da sua história com os Estados de bem-estar social. Foi menos desigual quando foi menos liberal. Hoje se torna brutalmente injusta de novo, sob as ilusões liberais.
por Emir Sader, para a RBA publicado 06/02/2016 20:01

O liberalismo promete o melhor dos mundos: liberdade, democracia, progresso, tudo junto. Estado, mas não muito. Mercado, que viabilizaria a liberdade de cada um e a felicidade de todos. Cada um busca o seu, mas tudo fica melhor para todos.

Depois do fim do socialismo soviético, muitos buscaram abrigo no liberalismo, social-democrata para alguns, diretamente neoliberal para outros. Não ter mais de defender o Estado, nem os direitos das pessoas. Basta fortalecer a “sociedade civil” contra o Estado, contra os partidos, contra a política, mais além da superada divisão entre direita e esquerda.

Mas vem o momento em que o liberalismo chega ao governo, seja mediante golpes, seja por eleições. Chega sua hora da verdade, de mostrar na prática como combinar, de maneira tão fantástica, tantas coisas boas. Aí começa ostreaptease do liberalismo.

Porque foi em nome do liberalismo que se cometeram e seguem sendo cometidas as piores barbaridades, na economia e com as ações correspondentes na política. Porque aí o mercado não se revela ser tão mágico, porque a liberdade pregoada não é a das pessoas, mas do capital, porque o que vem não é o poder dos indivíduos, mas o poder do dinheiro.

Os golpes militares na América Latina foram dados em nome dos valores do liberalismo: defender a democracia contra os riscos do totalitarismo, defender o indivíduo contra o Estado, proteger o mercado, as empresas, os empresários, a liberdade de imprensa do autoritarismo dos governos. Mais recentemente o liberalismo seria a tábua de salvação contra o bolivarianismo, o chavismo, o lulismo, o kirchnerismo, o evoismo, o correismo e outras variantes que ameaçam os nossos países.

Mas quando começam a governar, os discursos liberais mudam de tom, as promessas confiantes dão lugar aos apelos ao sacrifício, às posições de que só podem os mais capacitados, de que é preciso passar por um longo período de sofrimentos para purgar as heranças populistas recebidas até chegar ao paraíso prometido pelo liberalismo. Chegam o desemprego, cortes dos salários, poder transferido do Estado às grandes corporações privadas. E, como corolário inevitável, a repressão para conter os que se mobilizam para defender seus interesses corporativos às custas dos gastos do Estado.

Na América Latina em particular, o liberalismo deu em sucessivos fracassos. No período mais recente, orientou os governos neoliberais, mas nenhum deles deu certo, nem no plano econômico, nem no politico. O México e o Peru são países que deram continuidade a modelos neoliberais e são os países em que situação social da população menos melhorou ou mesmo piorou entre as sociedades latino-americanas.

Os candidatos liberais prometem combinar duros ajustes fiscais com políticas sociais, porque nas campanhas eleitorais é fácil fazer essa promessa. Mas quando ganham, têm de deparar com os dilemas da realidade e aí demonstrar se isso é compatível.

O governo de Mauricio Macri na Argentina tem a responsabilidade de tentar provar o que os liberais prometem nas suas campanhas eleitorais. Parece que efetivamente o Macri e os seus ministros acreditam no que diziam na campanha eleitoral e colocam em prática um duro ajuste fiscal, conforme os preceitos que sempre pregaram, mas nada de políticas sociais, pelo menos por enquanto.

Vê-se que na Argentina de hoje não é a liberdade das pessoas, sem as travas do kirchnerismo, mas o que se impõe é a liberdade dos capitais, dos grandes empresários, das grandes corporações, até dos fundos abutres. Sem o contrapeso do Estado, não são os indivíduos que ganham poder e liberdade, mas os grandes grupos econômicos e seus representantes na mídia e nos economistas que falam pelo capital.

As promessas do liberalismo ficaram na campanha. Se oferece um longo caminho de espinhos para os que sobrevivam chegar ao jardim de rosas do liberalismo. Todo o sofrimento é imputado aos longos 12 anos de engano, em que os argentinos tinham a ilusão de que comiam melhor, de que viviam melhor, de que a sociedade era menos injusta, de que tinham uma posição externa soberana, de que eram irmão dos latino-americanos, de que os retratos na Casa Rosada eram de seus lideres, de que a Argentina tinha superado a pior crise da sua historia.

Não se pode realmente fazer a história do liberalismo, porque tornaria claro em que resultaram suas promessas. A Europa teve o momento mais generoso da sua história com os Estados de bem-estar social. A Europa foi menos desigual quando foi menos liberal. Hoje se torna brutalmente injusta de novo, sob as ilusões liberais.

É isso o que o liberalismo promete para a Venezuela, é o que gostariam de fazer no Brasil, no Equador, na Bolívia, no Uruguai. A historia do liberalismo é a historia dos piores fracassos em que se transformaram suas promessas de liberdade e de democracia, que desembocam em injustiças, em exclusões sociais e em repressão.

QUERIDA AMIGA MARIANA MAYOR

4 Fev

Por Sergio Ricardo

A memória como ja lhe disse, dentre milhões de acontecimentos vividos nessa trilha agitada de minha rota artística, recusou-se a armazenar detalhes, para me reservar o espirito compartilhado com amigos e correligionários, maior parte dos quais nem de seus nomes ou fatos me deixa lembrar com exatidão, o que me conduz a fazer uma síntese não dos fatos ou pessoas, mas da importância de uma luta vivida com tanta entrega, tanto amor à causa e ao povo brasileiro, como nunca mais vi em nossa história.

Eramos basicamente uma grande família de guerreiros dispostos a tudo para atingirmos nossos objetivos políticos e culturais e até mudamos radicalmente alguns caminhos, como a bossa nova, por exemplo, cedendo lugar a um canto mais abrangente de congregação e elucidação dos crimes morais contra nosso povo, exaltando e reinventando sua emancipação, a ponto de abrirmos mão das conquistas estéticas adquiridas pela Bossa, visando a comunicação de nossos ideais para alcançarmos a alma brasileira com a linguagem que lhes chegasse como a sua própria, tanto na música, no cinema, no teatro etc.

Um diálogo sem rodeios imposto pela falsa erudição dessa elite que acreditava estar reinventando um Brasil, arremedando outros povos e outras culturas que nos colonizavam em troca de nossos bens, e mergulhados cada vez mais na nossa ignorância, tão vasta quanto a dimensão de nossas matas por esse continente generoso.

A mesma chama que conduzia Chico de Assis, Vianinha, Boal, Guarnieri, João das Neves, Aracy Balabanian, Renato Consorte, Rolando Boldrim, Carlos Lyra, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Antonio Fagundes, Myriam Muniz, Plinio Marcos, Sidney Miller, era a mesma que conduzia uma infinidade de amigos, em CPCS, Feiras de Opinião, Teatro de Arena, palcos e shows e peças de teatro, na tela do Cinema Novo, pelas faculdades, caatingas nordestinas, passeatas, porta de fábricas, onde quer que o povo pudesse ter acesso para se esclarecer dos fatos e luta em busca da solução.

E já se avistava um novo Brasil ancorando nos portos de norte a sul do país. Foi uma época gloriosa e mesmo calados pela censura da ditadura, nossa semente germinou na alma dos artistas que posteriormente foram surgindo.

Chico de Assis, por exemplo, a quem você se refere, foi meu parceiro em Brincadeira de Angola, amigo e irmão, batizou minha filha Adriana e nos tornamos compadres.

Um dos fundadores do CPC, teatrólogo e líder nato, teve suas idéias e peças encenadas para camponeses, elucidou muitas cabeças pensantes, e deixou uma obra importante, volta e meia encenada por esse país a fora.

Devo à sua lucidez minha transformação ideológica e seus ensinamentos estão espalhados pelo meu trabalho como uma luz no fim do túnel.

A mesma luz que estamos todos, os que queremos libertar nosso pais, tentando alcançar, apesar das “cunhas” cravadas por essa corja tentando embarreirar nosso processo libertário.

A INTERNET CRIA UM LEITOR MAIS BURRO E MAIS VIOLENTO

3 Fev

A Internet cria um leitor mais burro e mais violento

Este romance parece ter nascido de um impulso. Foi assim?

Sim, um pouco por uma urgência que veio de uma observação política. Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual.

O estudante de chinês, protagonista do romance, encerra essa contradição.
Sim, foi quando comecei a imaginar esse discurso.

É esse estudante que diz que “a contradição é a força e a fraqueza da democracia”. O livro interroga-se sobre o que acontece quando se acaba com o contraditório no discurso. Também no discurso ficcional?

Claro. A grandeza da democracia é que se pode conviver com a contradição e essa contradição não precisa de ser eliminada, faz parte da estrutura social. Nas sociedades autoritárias não existe contradição, existe uma deliberação única de uma fonte única. Uma vez entrevistei o Lévi-Strauss e ele dizia que a grandeza e a fraqueza das sociedades ocidentais é que elas trazem dentro um gene suicida. A sua grandeza é mostrar a própria vulnerabilidade. Mas ao mesmo tempo possibilita muitos extremismos. Como é que uma sociedade que defende os direitos humanos faz o que faz com os palestinianos, por exemplo? Há muitas contradições internas que enfraquecem o próprio discurso da democracia. É aí que está a força desse mundo que se deixa contaminar, se expõe à contradição. Isso é incrível, mas muito difícil de manter. Vejo uma espécie de oportunismo generalizado de apropriação dos discursos, o que é muito assustador. O livro não apresenta solução; é o retrato dessa perplexidade e desse incómodo; dessa impotência perante a apropriação dos discursos que antes estavam bem definidos.

O discurso está sempre em forma de monólogo. Essa escolha pretende sublinhar uma ilusão de diálogo?

É outra urgência. Não há a fala de um interlocutor. Expressa a ideia da Internet, um lugar de espelho em que se acha que se está numa relação com o outro e na verdade se está sempre a reproduzir o mesmo. É quase uma relação narcisista.

Falta o contraditório?

Exacto. Tudo o que é contradição você apaga. Parece que há abertura ao outro mas só se procura o mesmo. Posso aprender algumas coisas, mas estão sempre dentro de uma circunscrição que já domino por antecedência. É uma espécie de espaço hedonista e isso é muito perverso porque a partir do momento em que se entra nisso é como uma droga; é uma fonte de prazer absoluto e elimina qualquer necessidade de esforço, de contradição.

Ilusão de companhia, ilusão e conhecimento; ilusão de opinião; ilusão de informação e ao mesmo tempo uma crítica ao modo como o discurso jornalístico está a reagir a esse novo espaço, recusando o seu papel de mediação; ilusão sobre a capacidade do discurso actual para reflectir a realidade actual. Ou seja, há uma incapacidade de comunicar?

Acho que sim. Parece que com esta proliferação de opiniões todo o mundo passou a se expressar e no final talvez não haja muita diferença entre os milhões de opiniões; elas acabam no lugar-comum.

É a tal reprodução de que fala o título?

É. Mas iludida. As opiniões são insatisfatórias. Isso é estranho. Dá uma sensação de incompletude, de uma opacidade que não permite que se enxergue o mundo de verdade. E é infinito.

Qual é a sua relação com a Internet?

Sou viciado. Não passo dez minutos fora da Internet. Sou um doente. Quis dar a perspectiva crítica de uma situação na qual estou realmente perdido.

Voltando ao discurso jornalístico que também conhece e que põe aqui em causa: os jornais e os meios de informação que têm função de mediar a realidade passaram a ser decididos pelos leitores, com o mercado a definir conteúdos e o leitor a transformar-se em decisor. Se o leitor não gostar, o jornal não dá.

É muito perverso. O princípio seria mais democrático. Questiona-se a autoridade do jornal porque tem na origem um interesse económico preciso. A ideia é que a Internet pulveriza essa autoridade dos media, o que parece bom, dá um sentido de democratização à informação, mas perdem-se noções de hierarquia, padrões, modelos, e é difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo se não houver um parâmetro… Esses parâmetros perderam-se na barafunda de opiniões e de informações e acreditamos em absolutamente tudo o que se publica na Internet. Tudo o que surge na Internet vira facto. Talvez isso estivesse nos media, mas lá há mediação, uma auto-censura que não permitia reproduzir qualquer coisa. Isso põe muitas coisas em causa, sobretudo a ideia da verdade, é como se fosse uma segunda natureza.

Uma verdade absoluta?

Exactamente.

Há uma interrogação sobre a função do romance quando uma personagem questiona o género e o remete para um lugar de facilidade, que não reflecte nem reage à realidade. Este romance tem também o propósito de mostrar ser o contrário dessa ideia?

Eu não tenho qualquer tipo de crença, não acredito em Deus, mas tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que, de alguma forma, se pode chegar à verdade por meio da literatura e da ficção literária. Acho que a verdade só pode ser alcançada de uma maneira indirecta, transversal, mediada, e vejo a literatura como uma forma de reflexão muito sofisticada. Uma forma não só de retratar a realidade, ou de ser reflexo da realidade, mas também de aceder à verdade. Com a Internet isso foi pelo ar, não há ironia na Internet. É sempre um discurso de primeiro grau. Cria leitores iletrados para a literatura, para a ironia, para a reflexão.

A Internet muda o leitor?

Muda, mas para um leitor mais burro e mais violento. É o mesmo leitor que não suporta ver uma caricatura do profeta Maomé, que a ficção possa ser uma reflexão sobre a realidade e não a própria realidade. Acho assustador esse leitor que a Internet incentiva, sem instrumentos para entender a ironia e o distanciamento. A ideia de romance que defendo é uma resistência a essa facilidade, a essa naturalidade da Internet. O romance, como o entendo, é um instrumento de guerra contra a percepção naturalista do texto em geral, como se a letra fosse necessariamente a verdade e não uma reflexão sobre o mundo. Faço isso ao mesmo tempo que brinco, que vou dizendo coisas de que discordo com muita convicção. Quanto mais eu dizia coisas horríveis, mais prazer eu tinha, mais feliz eu ficava. O facto de no livro o discurso da resposta estar em elipse criou um mecanismo estranho na minha cabeça, uma espécie de automatismo; eu ia escrevendo aquilo como se fosse um vómito, e foi com muito prazer.

Tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que se pode chegar à verdade por meio da literatura

O modo como o faz torna difícil distinguir autor de personagem. Alguma vez sentiu essa colagem de identidade?

A aventura e o risco eram justamente esses, me confundir. Eu queria criar essa dificuldade, essa personagem que não era absolutamente a caricatura do meu oposto, mas me confundia nessa voz horrível. Há um pouco de autobiografia, ele diz algumas coisas em que acredito, e também estudei chinês ao longo de seis anos, também tive uma professora como a dele. E ele vai perdendo a ironia, o riso se esvai numa espécie de desconforto e mal-estar. Nos discursos do horror é difícil detectar fronteiras. É aí que está o horror. Tudo vem da inabilidade de discernir onde está o bem e onde está o mal.

Já escreveu muito sobre o Oriente, volta lá agora para encontrar o sítio de que se tem medo, o sítio da língua do futuro, sem memória, sem passado. Porquê?

Há uma personagem que refere um livro que fala do desaparecimento das línguas e que diz que quantas mais línguas houver no mundo menos chances há de o ser humano desaparecer, e que quanto menos línguas houver mais o ser humano fica vulnerável. Eu queria falar de uma certa pasteurização pela língua, e o chinês seria essa língua hegemónica. Podia ser o inglês, mas escolhi o chinês porque era uma língua periférica para o Ocidente e ganhou hegemonia. Hoje é uma língua do poder. Há a ideia da língua absoluta, que se impõe e vai destruindo as outras, tornando o homem mais vulnerável pela falta de diversidade, de variedade. O português fez isso com as línguas indígenas. O Brasil tinha centenas de línguas que foram desaparecendo.

O estudante diz: “o que eu estou querendo dizer só pode ser dito na língua do futuro”. Sendo escritor, esta incapacidade da língua em relação ao presente de que fala inquieta-o?

Ele fala também da língua oral. Como escritor, o que toca mais é a ideia da língua escrita. No Brasil isso é muito peculiar, sendo um país iletrado. Escrevo num país onde não se lê. Isso é muito estranho. Por um lado, há uma coisa interessante, de que pode ser um excelente exemplo o Machado de Assis quando escreveu o Memórias Póstumas de Brás Cubas e passou dos romances mais tradicionais para uma espécie de revolução: ele teve consciência de que não devia nada a ninguém e isso deu-lhe liberdade e a possibilidade de escrever uma coisa incrível e revolucionária. Mas há também uma angústia de fundo: escrever sem leitores, escrever para um mundo que não lê. Toda a literatura brasileira foi feita, desde sempre, com o pensamento de que se está num lugar para o qual não fomos feitos e mesmo assim você continua fazendo, reage a esse mal-estar, a essa não-pertença. No livro há esse desespero de uma língua, de uma escrita feita para um mundo que não quer recebê-la. É como se fosse uma teimosia, uma resistência.

Por Equipe do Blog Publicado 30 de janeiro de 2016 Em Destaques, Literatura

Isabel Lucas. Jornalista.

Rogerio Cerqueira Leite Blog

DO ÓDIO INVEJOSO DOS MEDÍOCRES

22 Jan

Por Sergio Arruda

http://blog.marciafernandes.com.br/wp-content/uploads/2011/06/
– Ao analisar Lula e seus críticos só consigo ver uma sociedade profundamente hipócrita.

Se for olhada com cuidado, constata-se um mundo de simulações.
Aprende-se a simular honestidade, só para ter respeito social.
Faz-se esforço físico, raro mental, em cursar 4 ou 5 anos de faculdades para simular cultura, como se um pepelucho com letras douradas fizesse a mágica de a transmitir.
Simula-se educação para enganar a sociedade e a própria familia e se usa moralidade com o mesmo propósito.

Lula causa espécie exatamente por ter algo que simulações não conseguem obter – chama-se AUTENTICIDADE.

Não se pode dar valor de cultura superior adquirida em livros e apostilas sobre o que se adquire na vida, na luta e relacionamentos mais ricos do que têm todos os professores somados.

Admirável é se ver homem lidando com as mais festejadas personalidades do mundo sem perder sua naturalidade. Aliás o mundo reconhece isso e o glorifica. Não traiu, não gaguejou, e mostrou sua face de hombridade a todos que não a tem e o odeiam pela inveja que sua natureza o põe acima de todos.

Compara-lo com a mediocridade de um ‘fhc’ é quase um insulto à verdade.

A comunicação na batalha das ideias

11 Jan

A comunicação jamais esteve tão fortemente entranhada na batalha das ideias pela direção moral, cultural e política da sociedade. Reconhecendo o caráter estratégico da produção simbólica nas disputas pelo poder, compartilho da ideia de Jean-Paul Sartre (1994: 23) de que a mídia desempenha os papéis de “servidores da hegemonia e guardiães da tradição”. Ocupa posição proeminente no âmbito das relações sociais, visto que fixa os contornos ideológicos da ordem hegemônica, elevando o mercado a instância máxima de representação de interesses.
Sob alegação de que exerce uma função social específica (informar a coletividade), a mídia não quer submeter-se a freios de contenção e se põe fora do alcance das leis e da regulação estatal. A opinião pública é induzida ao convencimento de que só tem relevância aquilo que os meios divulgam. Não somente é uma mistificação, como permite, perigosamente, a absorção de tarefas, funções e papéis tradicionalmente desempenhados por instâncias intermediárias e representativas da sociedade (sistema escolar, família, partidos políticos, organismos da sociedade civil, etc.). Os grupos de comunicação sentem-se desimpedidos para selecionar as vozes que devem falar e ser ouvidas — geralmente aquelas que não ameaçam suas conveniências políticas e metas mercadológicas.

Essa posição hipertrofiada dos meios tem a ver com a sua condição privilegiada de produtores e distribuidores de conteúdos, tal como fixado por Karl Marx (1997, v. 1: 67): “Transportam signos; garantem a circulação veloz das informações; movem as ideias; viajam pelos cenários onde as práticas sociais se fazem; recolhem, produzem e distribuem conhecimento e ideologia”.

Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci (2000:78) situa a imprensa (o principal meio de comunicação de sua época) como “a parte mais dinâmica” da superestrutura ideológica das classes dominantes. Caracteriza-a como “a organização material voltada para manter, defender e desenvolver a ‘frente’ teórica ou ideológica”, ou seja, um suporte ideológico do bloco hegemônico. Enquanto aparelhos político-ideológicos que elaboram, divulgam e unificam de concepções de mundo, jornais e revistas cumprem a função de “organizar e difundir determinados tipos de cultura” (ib., 32), articulados de forma orgânica com determinado agrupamento social mais ou menos homogêneo, o qual contribui com orientações gerais para exercer influência na compreensão dos fatos sociais.

Ao referir-se à imprensa italiana do início do século XX, Gramsci (ib., 218) situa a ação dos jornais como verdadeiros partidos políticos, na medida em que influem, com ênfases e enfoques determinados, na formação da opinião pública e nos modos de assimilação dos acontecimentos: “Jornais italianos muito mais bem-feitos do que os franceses: eles cumprem duas funções — a de informação e de direção política geral, e a função de cultura política, literária, artística, científica, que não tem um seu órgão próprio difundido (a pequena revista para a média cultura). Na França, aliás, mesmo a função distinguiu-se em duas séries de cotidianos: os de informação e os de opinião, os quais, por sua vez, ou dependem diretamente de partidos, ou têm uma aparência de imparcialidade (Action Française – Temps – Débats). Na Itália, pela falta de partidos organizados e centralizados, não se pode prescindir dos jornais: são os jornais, agrupados em série, que constituem os verdadeiros partidos”. Mas ele ressalva que a imprensa não é o único instrumento de publicização: “Tudo o que influi ou pode influir sobre a opinião pública, direta ou indiretamente, faz parte dessa estrutura. Dela fazem parte: as bibliotecas, as escolas, os círculos e os clubes de variado tipo, até a arquitetura, a disposição e o nome das ruas” (ib., 78).

No artigo “Os jornais e os operários”, de 1916, Gramsci (2005) insiste que os operários devem recusar os jornais burgueses, mantidos por capitais privados, visto que privilegiam as verdades de partidos, políticos e classes dominantes. Para ele, os operários precisam lembrar sempre que “o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por ideias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma ideia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. […] E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador”.

O filósofo italiano reprova o trabalhador que lê regularmente e ajuda a manter com seu dinheiro os jornais burgueses, “aumentando a sua potência” e esquecendo-se de que tais veículos “apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária”. Exemplifica com a cobertura tendenciosa das greves: “Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores”. Assim, o convencimento sobre o irremediável conflito de interesses entre a classe trabalhadora e a imprensa da burguesia justifica a atitude política que Gramsci julga mais consequente: boicotar os jornais vinculados às elites hegemônicas.

Ao retomar mais tarde, nos Cadernos do cárcere, a análise crítica sobre a imprensa, Gramsci assinala que o papel dos jornais transcende, muitas vezes, a esfera ideológica em sentido estrito. Chama a atenção para as determinações econômico-financeiras das empresas jornalísticas, que as impelem a agregar o público leitor para assegurar rentabilidade e influência. Avalia que a imprensa burguesa se move em direção ao que pudesse agradar o gosto popular (e não ao gosto culto ou refinado), com o propósito de atrair “uma clientela continuada e permanente”. A seu juízo, “os jornais são organismos político-financeiros e não se propõem divulgar as belas-letras ‘em suas colunas’, a não ser que estas belas-letras aumentem a receita” (2002d: 40).

Esses componentes socioeconômicos e ideológicos estão na base do que Gramsci denomina de “jornalismo integral”, isto é, o jornalismo que não somente visa satisfazer as necessidades de seu público, “mas pretende também criar e desenvolver estas necessidades e, consequentemente, em certo sentido, gerar seu público e ampliar progressivamente sua área” (2000: 197). O jornalismo integral de Gramsci atua como aparelho privado de hegemonia, na medida em que procura intervir no plano político-cultural para organizar e difundir informações e ideias que concorrem para a formação do consenso em torno de determinadas concepções de mundo.

Aos jornais, segundo Gramsci, interessa conquistar “o leitor em toda a sua concretude e densidade de determinações histórico-políticas e culturais, de motivações éticas, como indivíduo e como expoente de uma associação humana, como depositário de recursos intelectuais latentes e como ‘elemento econômico”, ou seja, precisamente como adquirente de uma mercadoria, de um produto”. Existem aí nexos e remissões entre as dimensões políticas (a intervenção na formação da opinião pública) e econômicas (o caráter empresarial e mercadológico) que incidem na atividade jornalística. Gramsci atribui ao jornalismo integral o exercício de um pressuposto categórico à orientação ideológica hegemônica: “É dever da atividade jornalística (em suas várias manifestações) seguir e controlar todos os novos movimentos e centros intelectuais que existem e se formam no país. Todos”.

Se pensarmos no contexto contemporâneo, poderemos perceber ecos da apreciação gramsciana. Os meios de comunicação elaboram e divulgam equivalentes simbólicos de uma formação social já constituída e possuidora de significado relativamente autônomo. Na essência, o discurso midiático se propõe fixar a interpretação dos fatos por intermédio de signos fixos e constantes que tentam proteger de contradições aquilo que está dado e apareça como representação do real e verdade. Tal discurso interfere preponderantemente na cartografia do mundo coletivo, propondo um conjunto de linhas argumentativas sobre a realidade, aceitas ou consideradas por amplos setores da sociedade. Assume, pois, uma função ideológica que consiste, segundo Chauí (1982: 21), em compor “um imaginário e uma lógica da identificação social com a função precisa de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular, enquanto particular, dando-lhe a aparência do universal”.

O estabelecimento de uma concepção dominante consiste, assim, em “conservar a unidade ideológica de todo o bloco social, que é cimentado e unificado precisamente por aquela determinada ideologia” (Gramsci, apud Gruppi, 1978: 69-70). Do ponto de vista das corporações midiáticas, trata-se de regular a opinião social através de critérios exclusivos de agendamento dos temas que merecem ênfase, incorporação, esvaziamento ou extinção. O ponto nodal é disseminar conteúdos que ajudem a organizar e a unificar a opinião pública em torno de princípios e medidas de valor. Por isso, formar a opinião pública é uma operação ideológica “estreitamente ligada à hegemonia política, ou seja, é o ponto de contato entre a ‘sociedade civil’ e a ‘sociedade política’, entre o consenso e a força” (Gramsci, 2002a: 265). O processo da hegemonia importa, então, disputa pelo monopólio dos órgãos formadores de consenso, tais como meios de comunicação, partidos políticos, sindicatos, Parlamento etc., “de modo que uma só força modele a opinião e, portanto, a vontade política nacional, desagregando os que discordam numa nuvem de poeira individual e inorgânica”.

Daí a importância crucial de se analisarem as formas de convencimento, de formação e de pedagogia, de comunicação e de difusão de visões de mundo, as formas peculiares de sociabilidade, as maneiras de ser coletivas e as clivagens, assim como as contradições presentes em cada período histórico (Fontes, 2008: 145). A referência à difusão de ideias, valores e padrões de comportamento tem a ver com um dos reconhecimentos decisivos no pensamento crítico atual: é no domínio da comunicação que se esculpem os contornos ideológicos da ordem hegemônica e se procura reduzir ao mínimo o espaço de circulação de ideias alternativas e contestadoras — por mais que estas continuem se manifestando e resistindo. A meta precípua é esvaziar análises críticas e expressões de dissenso, evitando atritos entre as interpretações dos fatos e os modos de entendimento por parte de indivíduos, grupos e classes.

Sem esquecer a constante reverberação do ideário dominante nos canais midiáticos, devemos reconhecer que fatores mercadológicos, socioculturais e políticos repercutem de alguma maneira na definição das programações. Um dos traços distintivos da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é a sua capacidade de processar certas demandas da audiência. Os meios não vivem na estratosfera; pelo contrário, estão entranhados no mercado e dele dependem para suas ambições monopólicas. Do mesmo modo, precisam ter seus radares permanentemente ativados para captar sinalizações, insatisfações e carências. E com isso preencher vácuos abertos, antecipar tendências, criar modismos, atenuar variações e repensar aproximações. Decisivo não perder de vista que tais deslocamentos devem ocorrer, o máximo possível, dentro das margens de controle delineadas por estrategistas e gestores corporativos.

É impossível conceber o campo midiático como um todo harmonioso e homogêneo, pois está atravessado por sentidos e contrassentidos, imposições e refugos, aberturas e obstruções. Daí a existência de entrechoques de concepções que se enfrentam e se justapõem em diferentes circunstâncias históricas. É um campo atravessado por contradições, oscilações de gostos, preferências e expectativas. Enquanto mediadora autoassumida dos desejos, a mídia tenta identificar indicações do cotidiano e eventuais alternâncias de sentimentos que podem incidir em predisposições consensuais ao consumo. Para tentar sintonizar-se com essas demandas, os veículos procuram substituir formas disciplinares clássicas por um marketing mais macio e persuasivo, capaz de seduzir consumidores de diferentes estratos sociais e somar capitais publicitários, patrocínios e audiências. Ainda que prescrevam fórmulas e juízos, não há dúvida de que, em maior ou menor grau, absorvem, essencialmente por razões de mercado, determinadas inquietações do público. Quando as incorporam em suas programações, fazem-no de acordo com suas escalas interpretativas, sem deixar de avaliar intenções concorrenciais. Seria, portanto, um equívoco ignorar injunções que se alojam nas diretivas dos veículos e em seus perfis específicos e fisionomias competitivas.

O aparato midiático tem que atualizar programações e ofertas para assegurar máxima fidelidade possível da audiência, em consonância com suas conveniências estratégicas. O que não quer dizer que as atualizações resultem em qualidade editorial ou pluralidade real de pontos de vista. O fulcro de grande parte dos ajustes é seguir modelando comportamentos e consciências, bem como influenciando agendas públicas e privadas. Busca-se incorporar peculiaridades socioculturais a determinados produtos e serviços, de modo a usufruir vantagens simbólicas associadas ao trabalho de conversão de identidades à lógica consumista.

Em paralelo, a exploração de brechas dentro das corporações midiáticas não deve ser descartada como recurso tático na resistência ao pensamento único. Claro que a grave assimetria comunicacional — uma parte ínfima da sociedade é proprietária dos veículos, enquanto a coletividade é apenas destinatária — impõe limitações e obstáculos. Mas não impede que sejam desenvolvidas algumas ações criativas no interior das organizações, conseguindo-se, às vezes, veicular materiais informativos que contrastam com o edifício ideológico construído por seus proprietários.

Existem, simultaneamente, pontos de resistência aos discursos hegemônicos que abrem horizontes de enfrentamentos de pontos de vista. A começar pelos meios alternativos de comunicação, impressos, eletrônicos ou virtuais, que se contrapõem aos modelos e crivos midiáticos. Eles procuram disseminar ideias que contribuam para a elevação da consciência social, o exercício da crítica e a intensificação do debate sobre possibilidades de transformação do mundo vivido. De igual maneira, é essencial a reivindicação de políticas públicas que possam coibir monopólios e oligopólios e conter a obsessão comercial das indústrias culturais, ao mesmo tempo estimulando a produção audiovisual independente, as mídias comunitárias e a organização cooperativa em redes e coletivos de comunicação, bem como assegurando o controle social democrático sobre empresas concessionárias de licenças de rádio e televisão.

Em qualquer dos cenários, não podemos alimentar falsas ilusões no enfrentamento do poderio midiático. Seria grave erro subestimar a agressividade ideológica, a penetração social e a eficiência mercadológica das organizações de mídia. Trata-se, isto sim, de conceber estratégias criativas e consistentes de difusão e pressão, que se traduzam na ocupação de espaços táticos na sociedade civil por meios alternativos, bem como no interior das corporações. O objetivo primordial é desenvolver dinâmicas informativas que reverberem visões de mundo comprometidas com a efetiva liberdade de expressão, o pluralismo e os direitos da cidadania. Essa ação ideológico-cultural precisa inserir-se no plano geral de lutas sistemáticas para debilitar as estruturas da dominação exercida pelas classes dominantes e alcançar, progressivamente, novas condições concretas de hegemonia que priorizem a justiça social e a diversidade.

Dênis de Moraes – Abril 2009

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Dênis de Moraes é professor da UFF. Este texto é parte do ensaio “Imaginário social, hegemonia cultural e comunicação”, incluído no seu novo livro, A batalha da mídia. Rio de Janeiro: Pão e Rosas, 2009.

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Referências bibliográficas

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 1982.

FONTES, Virginia. “Intelectuais e mídia — quem dita a pauta?”. In: COUTINHO, Eduardo Granja (Org.). Comunicação e contra-hegemonia: processos culturais e comunicacionais de contestação, pressão e resistência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Org. de Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999 (v. 1), 2000 (v. 2), 2002a (v. 3), 2001 (v. 4), 2002c (v. 5) e 2002d (v. 6).

———-. Cartas do cárcere (v. 2: 1931-1937). Org. de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005a.

———-. Escritos políticos. Org. de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004a (v. 1: 1910-1920) e 2004b (v. 2: 1921-1926).

———-. “Os jornais e os operários”, disponível em Arquivo marxista na Internet, 2005.

GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos (3 v.). São Paulo: Edições Sociais, 1977.

MORAES, Dênis de (Org.). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

———-. Cultura mediática y poder mundial. Buenos Aires: Norma, 2006.

OTTOLENGHI, Franco. “Jornalismo”, em Gramsci e o Brasil.

SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Ipea: Brasil manteve conquistas sociais em 2014, mas poderia ter avançado mais

30 Dez

 

desigualdade

RBA por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil publicado 30/12/2015 12:52

Nota técnica com base em dados de pesquisa do IBGE, lançada hoje (30), indica que extrema pobreza recuou 63% no período de dez anos, mas números ainda não refletem agravamento da crise econômica

Brasília – Em 2014, quando começaram a ser sentidos os primeiros indícios da crise econômica pela qual passa o país, o Brasil permaneceu em “franco processo de mudança social”, embora o país pudesse ter avançado mais. A conclusão é do estudo “Pnad 2014 – Breves análises”, uma nota técnica feita com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, lançado hoje (30) pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea).

Na análise do Ipea, a base estruturante dos avanços sociais que vêm sendo feitos desde 2003 permanece. Há o crescimento real da renda do trabalhador e a diminuição de desigualdades, o aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e a diminuição das brechas que separam negros de brancos, mulheres de homens, trabalhadores rurais de urbanos.

Os dados da Pnad mostram uma redução na taxa da pobreza extrema na última década. Em 2014, 2,48% da população estavam em situação de extrema pobreza, índice 63% menor que em 2004. De 2013 a 2014, a taxa de pobreza extrema caiu 29,8%, “uma redução importante”, analisa o texto, que associa a queda à manutenção do aumento da renda e redução das desigualdades.

O estudo pondera, no entanto, que a velocidade das transformações sociais nos últimos anos poderia ter sido maior, “especialmente nos grandes temas da desigualdade”. Apesar de vislumbrar alguns efeitos da crise em 2014, ainda não foi possível medir o impacto dela. Essa análise, segundo o Ipea, poderá ser feita com maior precisão em meados de 2016, quando forem divulgados os dados de 2015.

Educação e trabalho

No campo do trabalho, os dados já mostram indícios da crise. O estudo destaca que o crescimento do rendimento médio real do trabalhador – que foi superior a 7% em 2006 e próximo a 6% ainda em 2012 – ficou abaixo de 1% em 2014 pela primeira vez no intervalo considerado.

A área evidencia também grandes desigualdades de gênero e raça entre os brasileiros, cujas mudanças são mais perceptíveis no longo prazo. Em 2014, o Brasil possuía 2,4 milhões de mulheres negras desocupadas contra 1,2 milhão de homens brancos desempregados e, apesar de as distâncias terem diminuído desde 2004, os homens brancos ainda recebem rendimentos 60% superiores aos das mulheres negras.

Além disso, o aumento do desemprego impactou mais profundamente o grupo de mulheres e homens negros que o de brancos. Os negros concentraram 60,3% de todo o aumento de desemprego gerado entre 2013 e 2014. “Este grupo é mais precarizado e vulnerável ao desemprego. Sua informalidade atual é superior à taxa da informalidade de brancos de dez anos atrás”, diz o estudo.

A educação é uma das áreas em que o avanço poderia ter sido maior. Segundo o estudo, é preciso avançar com mais velocidade para que o país cumpra as metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE), lei que institui metas para melhorar a educação até 2024. As disparidades sociais, regionais e raciais permanecem. Embora o país tenha alcançado a média nacional de dez anos de estudo, em 2014, o Nordeste tinha 9,2 anos de estudo, e o Norte, 9,3; os 25% mais pobres do Brasil possuem apenas 8,2 anos de estudo em média, o mesmo nível da população rural brasileira. As médias das mulheres (9,8 anos de estudo) e homens negros (9 anos) também estão abaixo da nacional.

“Observa-se uma lentidão estrutural na taxa de alfabetização da população brasileira de 15 anos ou mais, que subiu de 88,6% em 2004 para 91,7% em 2014. Essa lenta progressão dá-se fundamentalmente pela existência de um elevado contingente de adultos e idosos analfabetos. Os programas de alfabetização voltados a esse público não têm conseguido atingi-lo”, acrescenta.

Aumento do trabalho infantil

Após reduções sistemáticas na população de crianças e adolescentes, entre 5 e 14 anos, ocupados no mercado de trabalho, de quase 2 milhões em 2004 para 839,6 mil em 2013, a Pnad de 2014 apontou um pequeno, porém, inédito, aumento nesta população para 897 mil, segundo ressalta o Ipea. Mais da metade (53,3%) está no campo. Segundo o texto é preciso considerar que, nas áreas rurais, muitas das crianças e adolescentes trabalham junto com a família.

Em dez anos a queda do trabalho infantil no campo foi de 57%. Apesar das crianças não abandonarem os estudos “preocupa os alunos que trabalham e estudam, pois eles tendem a estar mais defasados em relação aos alunos que somente estudam”, diz a nota técnica.

O estudo “Pnad 2014 – Breves análises” foi organizado pelo diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, André Calixtre. É composto por textos de vários pesquisadores, cada um analisando um conjunto de dados de um tema específico. Trata-se de uma interpretação do Ipea dos dados da Pnad, do IBGE.

Poemas de Valter Antonio Teixeira Krausche

21 Dez

Valtinho Krause e Lizete

Do Portal Luís Nassif

Publicado por Carlos Roberto Rocha III

Valter Krausche além de sido meu parceiro e amigo, era um grande erudito que transitava tranquilamente no popular.

Lia Marx no original;Merleau-Ponty idem;Walt Whitman também no original,sabia tudo de Adoniram Barbosa sobre o qual escreveu um livro para a coleção Pequenos Passos da Brasiliense,sabia tudo de Chico Buarque,Tom Jobim e claro tudo de poesia.

Eu ficava pasmo diante de tanta erudição e de tanta humildade;sim Valtinho era super humildade e de um coração do tamanho de um bonde.

Creio que foi por isso que me aceitou como parceiro e companheiro da “Desejos e Unhas” ,banda que formamos juntamente com a poetiza Lizete Mercadante Machado,mais os músicos Jorge Carvalho,Maria Auxiliadora Zan ,Chico Pupo,Luisinho Carioca e Magno Bissoli.

Tenho muita saudade, desse tempo que eu convivi com o poeta,por isto através de um gesto nobre da poetiza  Lizete Mercadante da Revista O Caixote vou passar pra vocês aqui do Portal do Luis Nassif.

O Sangue das Frutas

1975 – 1978

pela morte das aves fáceis
por saber
que a manhã não é mais
o libertar da noite

para Magda
o resgate das plantas
verdadeiramente carnívoras

os personagens deste livro
como todos os expulsos da República
não estão fora dela
quanto mais expulsos
mais lhe pertencem
pois esta é a natureza da República
e a contaminam

para Lizete anjo clandestino

o dilúvio de Rimbaud
e a maldição que veio depois
pra desorganizar o espírito

o poema de amor traz manchas de óleo
Baudelaire ainda pode ser visto
no final das tardes
passeando em alguns bairros periféricos
desta capital

o poema é a destruição da vigência

CAMINHO SOB LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO ENTRE PRONOME E VERBO

com uma aranha negra refazendo teias antigas
uma serpente cerebral que iludiu a criação
perseguido pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha abandonada no interior dos anos
estrangulador de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o feijão à flor na escuridão proibida

na praça abandonada
no pequeno quarto do hotel do exílio
com meu veneno para sempre

feito um rio sem entardecer de brilhos
entre suas selvas
no ato pétreo de caminhar
feito rio refazendo-se em rio sempre
mão lavando coisa alguma
de rio negando o mar
de rio por sua esperança de rio

A AUGUSTO DOS ANJOS

as paredes do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino nascerá uma flor

PRA SER O CORPO

a modinha dá início ao final do século
o punhal da tarde
coagulado na memória
que bebi no chapéu de meu avô

*******

as palavras afiam a alma
para ser
um punhal cravado no corpo

pra ser o corpo
que é o ser do punhal

*******

a magia das palavras sem mágicas
faz a faca dos teus olhos
corta a veia dos teus seios
brota um sol entre tuas tetas

recolho a terra em teu útero
durmo em teu estômago

ANTONIO BITUCA

uma criança vermelha como nuvem
se precipita
uma criança feito planta
incêndio
raízes
um braço feito lança

uma criança pontiaguda como ave
te espeta
à beira de um abismo
e voa

FRUTO

abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário da infância
árvore sapotácea da América Equatorial
além do dicionário

branco temperado por dentro
equatorial quanto o quintal
de meu avô
branco guardando a infância negra
amarelo liso externo chamando

ESTAVA SENTADA NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA

NASCIMENTO

Mariana amanhecendo pelo mar
pela mão do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré

Mariana vela branca anunciando pazes e peixes
emergindo dos livros subterrâneos
Mariana folha branca
onde termina a luta entre deus e o diabo

Mariana a distribuir novos mistérios
mulher dos dilúvios e das escarpas
Mariana amante dos bagres e dos peixes miúdos

Mariana nascendo dos homens condenados à morte
Mariana tateando as paredes deste mundo

ROCK NA VITROLA

não voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me foi uma tarde branca transitória
estou quase nu
com o chegar das novas gerações

OLHANDO AGORA A TUA FOTOGRAFIA

Quando olhávamos o vento nas cortinas
e a oscilação da linha do horizonte
quando nesta parte do século
as casas térreas intercalavam-se
com os terrenos baldios formando a rua
quando tua mãe visitava a benzedeira
e às sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance precocemente sombrio
cujos frutos ficaram para sempre
sobre a grama morna
dos nossos desejos submersos

FECHADO PELA POLÍCIA

o corpo forte branco
de minha tia
sob o chuveiro das minhas férias
as coxas lisas
de minhas primas
sob a caramboleira
o primeiro gozo
com medo de minha avó
que vinha dar comida aos pássaros
pela boca de Zé Lumumba
que mais tarde foi morto pela polícia
e tinha ódio de minha tia
de chuveiros de coxas lisas de carambolas
finalmente o meu corpo nu
comprimido na fechadura de um templo antigo
que há muito não se abre mais

ILHA PORCHAT

pra onde fugíamos
em nossas bicicletas voadoras
& os primeiros amantes
que desciam escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes rochas
que sustentavam
algumas mansões sombrias
criminosas

ESCOLA

Maria Batalhão
que exigia fila ordeira
no matinho que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo gira
& o mijo amargo
das noites altas

CONQUISTAS

Ana Maria era o menino
mais forte da minha rua
quando atacávamos uma rua adversária
ela sempre trazia duas escravas
penduradas no rabo
levava-as pra cabaninha
em cima da cajamangueira
depois as devolvia já magras sem luz
pros guerreiros famintos que as esperavam
em volta da fogueira

nos ensinava alguns truques
segredos que guardamos até hoje
no fundo do nosso carcomido
agradecido coração

WEEK-END

primas no quintal
maracujás carambolas abius
tias na varanda

PRAIA DO BOQUEIRÃO

& o português de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se perante o nosso cerco
de defensores do coração de jesus
que mamãe guardava na sala
mostrando as pernas de sua amante
e o seu grande coração peludo
era bem maior que o mundo
& nos disse que a sua amante
era Messalina nossa mãe
ou o esperado menino de olhos azuis
que geralmente pinta no final dos tempos
& a delícia áspera dos corpos
rolando na areia morna
de um final de tarde
feliz

MOMENTO DE PENUMBRA

& me prendeu os braços
contra as grades que davam pro terraço
na pequena sala
onde seu pai conversava sexta-feira
com os espíritos

JUNINHO

o pai vendo-o fraco e delicado
com aqueles olhos femininos
resolveu mandá-lo pr’um curso de ginástica
que acabou sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos grandes músculos
das noites quentes
onde as pernas morenas despertavam pela luz
suas bundas aquáticas

o pai vendo-o forte e feminino
arrancou-lhe aqueles olhos
do menino
que nunca mais eu vi

O RETORNO DAS SOMBRAS

Juninho voltou um dia vestido de filha
de santos dinâmicos
pra nos dizer
que só as sombras retornam

depois tomou um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente pelo mundo

LEMBRANÇA

Vilma era forte
& lutava jiujitz

TRADUZINDO EM MIÚDOS

Dna. Elvira
nas tardes de catecismo
& das antigas balas de mel
quando Deus escondia
a sua face clara de sol
no outro lado do mundo
nos dizia
que a punheta era pecado

mas havia Vilma
com suas pernas lisas morenas
seu andar de nadadora
sua arrogância de lutadora de jiujitz
& Juninho com a sua mão forte delicada
que amava todos os meninos
& os compreendia
quando eles ainda eram nuvens

veio a noite
vieram as árvores & as folhagens
& Dna. Elvira foi pro inferno

O FIM DA PRIMAVERA

as mães gritavam das janelas
os pais haviam chegado pro jantar
os filhos retornavam
docemente sangrando pelas pernas
com os aromas das folhagens
qie cercavam a última praça
da nossa infância
os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
& os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
pra aquela praça vazia escura
onde o vento fazia as últimas flores
da primavera
se balançar

CABARÉS

os cabarés da rua General Câmara
com suas damas volumosas
acetinadas vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro de bonde
que havia sido trombonista de vara
são verdadeiros
mas já anunciaram o fim do mundo
& hoje moram na cachola
desmemoriada dos deuses
que se evaporaram nas nuvens
da minha adolescência

DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança de Murilo Mendes)

a última face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret de nuvens

o último corpo úmido incandescente
que me espera há séculos
num lençol de linho

o último corpo nu
& os primeiros leites venenosos
no grande berço da vitória

o último leite vivo
com as cobras que o dilúvio revelou

A ÚLTIMA NOITE

na última noite
as irmãs se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram barcos úmidos
montanhas submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar sob luzes
fosforescentes
escorregadias

pela manhã
as irmãs expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas paredes
bolor nos quadros
das últimas revoluções

a última noite
unilateralmente
eterna

INCURSÃO MARÍTIMA

quando o teu corpo nu
se esconder nas trevas
já sabes
ele surgirá do lado oposto
do universo
& de teus neurônios
brilharão os novos raios
de sol

quando um grito grego africano
se ouvir na praia
já sabes

REMELEXO CAVALGADA

te remexes dentro de mim
mais do que aquele dia
em que ligaste as bocas do fogão
& te consumiste por inteira
teu corpo grande caboclo
tuas pernas ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce mais que sombra dentro de mim
& mal cabe

assim te agarras em minhas células
& reinventas o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo cercado de anjos clínicos
que te puxam como um câncer
& nada podem contra ti
viúva de São Jorge que me cavalga
como a um cavalo roubado
tu que perdes a máscara de família
quando me arranhas
com tuas unhas de esmalte vermelho
que nunca se acaba
iemanjá da volúpia da minha infância
da minha adolescência da minha eternidade
que remexes dentro de mim
todas estas vozes
que fazem parte de tua infinitude
eu que mal lembro o teu rosto

O ÚLTIMO POEMA

sabor de lua morna a te crescer no ventre
a te fazer crescente sol de moreno íntimo
produto de percurso líquido
poder explosivo de serpente do último bote
onde as metáforas se diluem
os campos se esgotam os mares se esvaziam
os músculos são brancos
& se dirigem para o incolor pro infinito
onde nada é literário & o tempo não respira
& o literário é isto re-posição do bote
para o nada para o íntimo
pra ser literário de novo & para o nada para o íntimo
circularidade obliquidade espiralidade asas
para a morte onde danças
o despertar do primeiro & último
mágico num balancê de nuvens
que se esvaem como a minha literatura
que nada vale comparada ao teu suor
tu pavão dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã da minha morte
tu a espera da explosão dos meus micróbios
onde finalmente as imagens se dissolvem
porque te fizeste absoluto em meu caminho
& o vento já invade o buraco fundo dos meus olhos

tu
já que não és
nada

SHINING ALONE

lembro-me de tua lua branca
sentada sobre o muro
anunciando
os primeiros pêlos da noite

o sol já se tornava escandinavo
por detrás do mamoeiro

metáforas fechavam os seus ovários
o último fio de sangue
escuro escorria pelo céu

os frutos escorriam com a noite

SHINING ALONE II

tias e primas morenas ocupavam
todos os espaços do meu sonho
até que rompeste num ato acrobático
de leoa de circo varando
o círculo de fogo
e depois o círculo de pano
onde brilhava escrito o teu nome
rasgando-me a lembrança e a tua imagem
tomou a forma diluída de um pássaro
que nunca mais foi visto

OLHANDO A TUA FOTOGRAFIA NOVAMENTE

teu olhar tua lua teu conhaque
cada trago que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno poema
que li numa cidade antiga
onde nasci
onde nossas pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer marítimo
de espumas cintilantes
e as palavras
se quebravam sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável

tua lua
teu conhaque

O BEIJO ÚLTIMO

o primeiro beijo foi
que nem areia movediça
afogamento inevitável

o primeiro beijo
foi da boca incompleta
de Dalva
que tinha a saliva grossa
digestão química da noite

o primeiro beijo
teve suas dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado de flautas
e a minha
que guardo no peito eternamente

o primeiro beijo
teve efeitos catastróficos
Dalva morreu logo depois
e eu continuo vivo até hoje

VIAGEM AO SEIO DE MACHADO
a Aníbal Machado

Duília morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo dos minutos da adolescência
Duília pétrea estrela presa
na presa dos meus olhos pedregulhos

no trem dos perdidos anos que nos separam
os seios gritam

descobrimos Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as grades de pedra
fuga de pássaro rastro e sangue
trilhando sonhos luzes

dor de bicho interno percorrendo o íntimo

quando cheguei à praia
o mar ardia as feridas do pensamento

era necessário conquistar a física das infâncias
os seios de Duília marejando os primeiros leites
(Duília passageira destes anos mortos)
espumando o primeiro beijo
que um trem em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao meio

Duília cidade antiga e inacessível

é necessário conquistar todas as cidades
remover todas as muralhas
encontrar Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados entre o amor e o medo
quando da chegada dos primeiros destacamentos de homens armados

BANHO DE LUA

noite alta céu risonho
um beijo amargo
& um besta a mais na vida

VERÃO 77

teu corpo foi soterrado
os homens que amaste estão soterrados

nossas vidas estão soterradas
naquela praça
onde não há mais espaço
pra tanta gente

a vida é dura meu amor
a vida é dura
as palavras não têm mais espelhos

não renascem mais
os mistérios das fontes límpidas

adeus sonetos de reconciliação
adeus pequenos poemas bucólicos
adeus palavras deslizando na nudez

aqui termina o poema
aqui termina o conhaque
mas a vida
a malograda vida
continua

PAUPÉRIA
a Torquato Neto

talvez te transportem na noite
alguns jovens de fogo
de cabelos de chamas apagadas

talvez te lêem mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho de dentro permanecem
fechadas

não descobrem o dia
e toquem um baião na Nicarágua

talvez a vida continue
e brilhe
a mesma estrela de ontem
que se apaga
com a luz do banheiro
enforcada no cano

talvez o provérbio vença
& não seremos mais nada

DESPEDIDA
homenagem à Praça da Luz

as luzes de mercúrio
envenenam os nossos últimos morcegos
a lua é de mercúrio
e a vida
não é mais o termômetro
de nossa febre

adeus morena
adeus minha ave rara
que aqui faz
esta imensa falta de música

no dia em que você se lembrar de mim
procure-me
ao pé das árvores
estupidamente floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano sinistro

adeus morena
e não se esqueça
de apagar a luz.

—————————————————————————————————-Revista ” O Caixote” – Lizete Mercadante Machado

Revista O Caixote2_publicado por Lizete Mercadante Machado

http://www.ocaixote.com.br/caixote02/sangue_frutas.html

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