Sentença contra Mubarak irrompe na campanha eleitoral egípcia

3 jun

Cairo, 3 jun (EFE).- A sentença que condenou o ex-líder Hosni Mubarak à prisão perpétua dominou o ambiente eleitoral do Egito, onde milhares de pessoas voltaram às ruas neste domingo para protestar tanto contra a decisão da Justiça, que consideraram insuficiente, como contra a presença do general reformado Ahmed Shafiq no segundo turno do pleito presidencial.

A duas semanas do segundo turno, os egípcios viram o panorama eleitoral se complicar ainda mais com a sentença, que condenou Mubarak e o ex-ministro do Interior Habib al-Adli à prisão perpétua e absolveu dois filhos de Mubarak, acusados de corrupção, e seis ex-altos comandantes do Ministério do Interior, por seu envolvimento no massacre de manifestantes.

A condenação de Mubarak e de Adli não acalmou os ânimos dos manifestantes, diante da crescente sensação de que não houve justiça neste processo nem transparência no primeiro turno das eleições, que levou Shafiq, último primeiro-ministro do antigo regime, ao segundo turno.

Na emblemática praça Tahrir, palco das manifestações no Cairo da Revolução de 25 de Janeiro, as palavras de ordem contra a decisão se misturaram neste domingo a lemas contra Shafiq e contra a Junta Militar que dirige de forma provisória o país desde a renúncia de Mubarak no ano passado.

‘Shafiq teria de estar na prisão, e não concorrendo à Presidência. Se estamos aqui é para evitar a restauração do antigo regime’, disse à Agência Efe o estudante de medicina Ali Amin, em declarações na praça Tahrir.

Para Amin, que foi à praça neste sábado logo após a divulgação da sentença, é importante que o Egito se mantenha unido com o objetivo de reconduzir a revolução.

As manifestações foram convocadas por grupos de jovens revolucionários e várias forças políticas, entre elas a Irmandade Muçulmana, cujo candidato às eleições presidenciais, Mohammed Mursi, enfrentará Shafiq no segundo turno, nos próximos dias 16 e 17.

Mursi aproveitou o clima de indignação popular para comparecer à praça Tahrir neste sábado e ser ovacionado pelos manifestantes, numa grande oportunidade para fazer campanha pessoalmente e promover o sentimento revolucionário contrário ao antigo regime.

Diante desta estratégia, Shafiq se esforçou para rebater o rival e instigar o medo de muitos eleitores à Irmandade Muçulmana e seu projeto político islamita no Egito. ‘Eu represento o avanço, a Irmandade representa o retrocesso, eu represento a transparência, a Irmandade representa a escuridão e o secretismo’, ressaltou o ex-primeiro-ministro em entrevista coletiva no Cairo.

Shafiq também afirmou que, enquanto ele aposta ‘no diálogo e na reconciliação’, o grupo islamita busca ‘vingança’ e deseja um país ‘religioso sectário’.

O candidato presidencial ressaltou que não quer ‘reproduzir o antigo regime’ e pediu que não se utilize a decisão judicial contra Mubarak ‘com objetivos eleitorais’.

Quanto à polêmica sentença, a Procuradoria Geral egípcia anunciou neste domingo que pretende recorrer da absolvição dos seis altos funcionários do Ministério do Interior e pediu que as autoridades mantenham a proibição de sair do país ditada contra eles em fevereiro de 2011, pouco depois da renúncia de Mubarak.

Uma frase escrita neste domingo com pedras e areia no chão da Tahrir dizia: ‘A primeira reivindicação dos revolucionários é que o piloto bastardo (Mubarak) seja executado e a segunda é que seus filhos Alaa e Gamal também o sejam’.

Com os acessos interditados ao tráfego por cercas de arame, e repleta de bandeiras do Egito e fotografias dos mártires da revolução, a praça-símbolo da Primavera Árabe recuperou de certo modo o espírito dos 18 dias de protestos e das manifestações convocadas durante a convulsa transição.

Também voltaram a ser cogitadas algumas ideias que já surgiram durante a revolução, como a formação de um conselho presidencial transitório liderado por personalidades como os ex-candidatos Hamdeen Sabahi e Abdel Moneim Abul Futuh.

Para a manifestante Hala Sami, de 40 anos, as prioridades políticas neste momento são a criação deste conselho, a redação de uma nova Constituição e a realização de eleições livres ‘com candidatos de verdade, e não marionetes’.

‘Houve fraude no pleito’, disse Hala à Agência Efe, que não apoia nem Shafiq nem Mursi, porque rejeita tanto ‘um regime militar como um islamita’.

Para esta mulher, a decisão contra Mubarak foi o detonante de uma nova onda de descontentamento pelo fracasso em fazer justiça aos mártires da revolução e os temores de que os altos funcionários do antigo regime se livrarão de uma punição real.
Por EFE Brasil, EFE Multimedia, Atualizado: 03/06/2012 17:34

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