Archive | outubro, 2012

A piracema progressista by Saul Leblon

31 out

Vista a partir de retinas embaçadas de cansaço ou ideologia, a transformação social parece uma impossibilidade aprisionada em seus próprios termos: as coisas não mudam, se as coisas não mudarem; e se as coisas não mudarem, as coisas não mudam…

O sistema de produção baseado na mercadoria cria e apodrece previamente as pontes das quais depende a travessia para uma sociedade justa e virtuosa.

Rompe-se o lacre da fatalidade no pulo do gato das sinapses entre condições objetivas e subjetivas, diz a concepção materialista da história. Mas a dialética dura das transformações não é uma mecânica hidráulica. Não é maquinaria lubrificada, autopropelida a toque de botão.

A história é um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe parafusos por onde passa. Para surgir um ‘Lula’ desse emaranhado tem que sacudir muito a estrutura. Greves, levantes, porradas, descaminhos etc. Dói. Demora. Décadas, às vezes séculos.

Uma liderança desse tipo – e aquelas ao seu redor; ‘uma quadrilha’, diz o vulgo conservador – constitui um patrimônio inestimável. Mesmo assim, é só o começo; fica longe do resolvido.

A ‘pureza’ política pretendida por alguns juízes do STF é pouco mais que uma bobagem de tanga disfarçada de toga diante do cipoal da história.

A cada avanço, não regredir já é um feito Quarenta milhões passaram a respirar ares de consumo e cidadania após 11 anos de governos progressistas no país. É uma espécie de pré-sal de possibilidades emancipadoras. Como evitar que essa riqueza venha a se perder nesse sorvedouro de futuro escavado por júniores & virgílios ?

Lula talvez tenha intuído o ponto de esgotamento do cardume ao final da piracema histórica impulsionada pelos grandes levantes operários do ABC paulista, nos anos 70/80.

Ao final de uma piracema, a ‘rodada’ do conjunto exaurido leva uma parte à morte; outra se deixa arrastar por correntezas incontroláveis; um pedaço sucumbe a predadores ferozes.

Lula precisava de um novo e gigantesco laboratório forrado de desafios e recursos para gerar contracorrentes, revigorar, sacudir e renovar a piracema progressista brasileira.

São Paulo tem o tamanho da alavanca necessária para fazer tudo isso e irradiar impulsos talvez tão fortes quanto aqueles derivados das assembleias históricas que dirigiu no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

Haddad, os intelectuais engajados, os movimentos sociais e as lideranças mais experientes do campo progressista terão que movê-la a partir de agora e pelos próximos quatro anos.

Está em jogo o próximo ciclo de mudanças da sociedade brasileira.

Colunistas sabichões dizem que ‘se isolarmos São Paulo’, Lula fracassou.

Eles não sabem do que estão falando; apenas ruminam líquidos biliares da derrota na forma de desculpas para a explícita opção pela água parada do elitismo.

Topam um Serra cercado de malafaias & telhadas. Mas abjuram a correnteza de um PT – ‘sujo pela história’, na sua ótica. Testam versões para abduzir a derrota esmagadora da água podre na figura do delfim decaído, José Serra , em São Paulo.

Na Folha desta 3ª feira as rugas das noites mal dormidas recebem o pancake daquilo que se anuncia como sendo “uma onda oposicionista que mudou a cara do poder no Brasil”.

A manchete traz a marca do jornalismo conservador cada vez mais ancorado em ‘pegadinhas’ à altura dos petizes que brincam nesse tanquinho de areia tucano.

Desta vez, a Folha induz o leitor ao erro de considerar ‘oposicionista’ como de oposição ao governo federal e ao PT. Na verdade, o texto trata das reviravoltas em que prefeitos e seus candidatos foram batidos por adversários locais.

Mas a isenção se dispensa de fornecer ao leitor o conjunto abrangente que relativiza a parte privilegiada. Aos fatos então:

a) o PT foi o partido que fez o maior número de prefeitos (15) no segmento de cidades grandes, com 200 mil a um milhão de habitantes;

b) o PT vai governar 25% do eleitorado nesse segmento;

c) juntos, os partidos da base federal, PMDB, PSB e PDT, fizeram outros 20 prefeitos nessa categoria das grandes cidades;

d) vão governar 26% desse eleitorado;

d) no conjunto, a base federal terá sob administração mais da metade dos eleitores desses municípios.

Os colunistas da Folha exageram nas cambalhotas para induzir o leitor a ‘enxergar’ como foi horrível o desempenho do partido, ‘se excluirmos’, dizem eles, a ‘vitória isolada’ em SP.

Em eleições anteriores, o esforço era para decepar o Nordeste ‘atrasado’ do mapa relevante da política nacional e, desse modo, rebaixar a crescente hegemonia do PT.

Agora que o PT refluiu de fato em capitais do Norte e Nordeste (saldo esse que inspira preocupação) é a vez de desdenhar da vitória na praça paulistana, que reúne 6% da demografia nacional e 11% do PIB.

A narrativa da vitória ‘isolada’, como se São Paulo fora um ponto fora da curva no deserto eleitoral petista, não é verdadeira sob quaisquer critérios.

Sozinho, o PT administrará o maior contingente de eleitores de todo o país (1/5 do total) e a maior fatia de orçamentos municipais (22%).

A vitória em SP tampouco foi um feito solitário no estado-sede do PSDB.

Bombam a derrota em Diadema, mas além da capital, o partido manteve e reforçou o chamado cinturão vermelho. Venceu em Guarulhos, Santo André, Mauá, Jundiaí, S.José dos Campos, Osasco e São Bernardo.

Nos próximos quatro anos, com uma eleição presidencial pelo meio, o PT governará 45% do eleitorado do Estado de SP, contra 19,3% do PSDB.

O cardume subsiste numeroso. O que se discute é outra coisa: a qualidade, a força e a direção do impulso que irá dotá-lo de fôlego transformador nos próximos anos. É disso que se trata. E isso é muito mais sério do que as cambalhotas da razão nos tanquinhos de areia do dispositivo midiático conservador.

As Beatas Tucanas e o seu “Discurso do Ódio”

29 out


É o discurso do ódio.
É o discurso da intolerância e discriminação racial.
Este é o discurso dos adeptos da Tradição Família e Propriedade(TFP).
É o mesmo discurso do ministro Marco Aurelio defendendo os anos da ditadura militar e soltando o bandido Salvatore Cacciola.
É o discurso de quem levanta o dedo e o verbo mas não cuida do próprio umbigo:.Compra de votos em 98 para Reeleição de FHC, Mensalão mineiro de EduardoAzeredo ,Propinas do Rodoanel em SP,Caso Alstom,Caso Detran de SP,Caso Máfia dos Parasitas,Propinas das Privatizações(Privataria Tucana),Caso Nossa Caixa,Caso UNIEMP, só para citar alguns.
Este é o discurso de quem acredita num judiciário discricionário que passou por cima da constituição brasileira e cria uma jurisprudência adaptável e palatável para condenar os principais quadros do PT.
Uma jurisprudência baseado em “indícios,deduções e ilações que jogou para o espaço o princípio da presunção da inocência e “as provas”.
Ex:.
__Ministro JB:. Condena “o Dirceu” a pena de morte.
___Mas ministro a constituição é contrária a pena de morte.
___Não importa, a “gente” flexibiliza esta lei.
Fizeram “a flexibilização ou permeabilização” dos fatos já que não tinham provas.
E tem ainda a massiva campanha condenatória que precedeu o julgamento, tornando-se um processo político e altamente politizado. Politizado pela Globo,PSDB,Veja,Folha e Estadão eternos aliados sendo os mais interessados nisto.(por interessados leia-se” negociatas e tramóias em SP) fazendo coincidir nas duas semanas do pleito paulista.
Discurso do ódio e da degradação e humilhação da capital de São Paulo sob os 18 anos de administração tucana.
É o discurso discriminatório de quem acha que o povo “é feio e burro” se esquecendo que ela faz parte deste povo.
Tem vergonha de compartilhar espaço e aceitar a “nova classe média” nos aeroportos,shoppings,teatros,supermercados consumindo televisões LED,computadores,geladeiras,carros, casas etc..
São os chamados letrados que fizeram seus mestrados lendo e pesquisando(sic) a revista Veja a Folha de São Paulo,Estadão;Harry Potter, A Saga Crepúsculo,50 Tons de Cinza,O Empinador de Pipa, e Resenhas ou Orelhas dos livros de Saramago,Gabriel Garcia Marques,Mario Quintana etc..
Nunca na vida leram um livro sequer ou um artigo de Engels,Émile Durkheim,Gilberto Freyre,Karl Marx,Georg Simmel,Ferdinand Tönnies,Max Weber,mas preferem os artigos de Reinaldo Azevedo,Ricardo Noblat,Eliane Cantanhêde,Dora Krammer,Cristiana Lobo,Lucia Hipólito,Merval,Augusto Nunes e seguidores para escrever comentários verborrágicos contra o ex-presidente Lula; sua maior obsessão.
Na verdade Lula “O Molusco” “O Nordestino” “ O Sindicalista” “ O Matador de Criancinhas” “ O Operário” (adjetivos usados pelos seguidores do ódio) representa para eles o sucesso de um presidente que se tornou o líder político mais popular da história do Brasil e do Mundo.
Não proveniente dos setores tradicionais, mas um nordestino, que se tornou líder sindical que desafiou a ditadura e a elite conservadora brasileira.
Lula passou a representar o Brasil, a América Latina e o Sul do mundo, na luta contra a fome, contra a guerra, contra o monopólio de poder das nações centrais do sistema.
Lula mostrou que é possível diminuir a desigualdade e a pobreza, terminar com a miséria no Brasil, ao contrário do que era dito e feito pelos governos tradicionais.
Lula enfrentou a oposição da midia durante todo o seu governo e saiu mesmo assim com 80%
de aprovação.Depois consegui eleger a presidenta Dilma até então uma ilustre desconhecida e agora conseguiu eleger outro ilustre desconhecido, um “Poste” (como a direita chama) para prefeito da maior cidade do Brasil que foi degradada e humilhada pela administração tucana e aliados.
Resumindo:. A Direita Golpista e Reacionário tem que LAVAR A BOCA para falar do
ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.
By Charles Dale

A Farsa e o Estrondoso Silêncio Cúmplice

26 out

By Bob Fernandes
Há quem diga ser uma farsa o julgamento do chamado mensalão .
Mas não ,não é .
É fruto de fatos;ou era uma “mesada” o tal mensalão ou era “caixa 2“;este todo mundo faz.
Mas não há como dizer que há uma farsa e quem fez,se fez que pague o que fez.
A “Farsa” existe mas não está nestes fatos que nós vimos ai.
Farsa é 14 anos depois admitir a compra de votos para aprovar a reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998,mas dizer que não sabe quem comprou isto, ao memso tempo que aponta o dedo e o verbo, para as compras que agora estão em julgamento.
A compra de votos existiu em 1997 mas não deu em CPI e não deu em nada.
Farsa é fazer de conta que em 1998 não existiram as fitas e os fatos das privatização da Telebrás; fazer de conta que a cúpula do governo de então não foi gravada em tramóias e conversas escandalosas de um negocio de $22 bilhões.
Aquilo divulgou um pedaço do governo tucano mas não deu em CPI e não deu em nada e ninguem foi prêso.
Farsa é esquecer que nos anos PC Farias se falava em corrupção na casa de um “bilhão”.
Isto no governo Collor, eleito lembramos, com o decisivo apoio da “chamada grande mídia.
Na época a Policia Federal indiciou 400 empresas de 110 grandes empresários; a justiça e a mídia deixaram pra lá um inquérito de seis mil páginas com os corruptos e os corruptores.
Tudo prescreveu; fora PC Farias, ninguem pagou.
Aquilo foi uma farsa.
Farsa tem sido o silêncio estrondoso diante do livro A Privataria Tucana.
Livro que em 115 páginas de documentos de uma CPI de uma investigação em paraísos fiscais, expõe os bastidores da privatização da telefonia.
Farsa é buscar desqualificar o autor e fazer de conta que os documentos não existem ou são aspas”velhos”; como se novas, fossem as denúncias que agora reprisadas as manchetes buscam condenação a qualquer custo.
Farsa é continuar investigando os investigadores e se esquecer dos fatos que levaram a Operação Satiagraha da Policia Federal; operação que foi desmontada a partir da farsa de uma fita que não existiu; fita fantasma que na ponta tinha Demóstene Torres e a turma do Cachoeira e que na outra ponta da conversa que ninguem ouviu, teve o ministro Gilmar Mendes.
Farsa é anos depois de enterrada a Sathighara o silencio em relação aos 550 milhões de dólares.
Sim por não ter origem comprovada, 550 milhões de dólares continuam retidos pelos governos dos Estados Unidos e Inglaterra.
E o que se ouve, se lê, ou se investiga?
Nada.
Tudo segue enterrado em silêncio.
O julgamento do chamado mensalão não é uma farsa.
Farsa é, isto sim, isolá-lo desses outros fatos e torná-lo único.
Farsa é politizá-lo ainda mais/ ou farsesco é magnificá-lo ; chamá-lo de aspas “O maior julgamento da história do Brasil”
Farsa porque não que não seja, o maior julgamento da história.
Farsa porque isto quer dizer que este é o maior, porque não existiu outro julgamento na história do Brasil, por isso este é o maior.
Existiram isto sempre, alianças ideológicas e empresariais na luta pelo poder.
Farsa porque ao final prevaleceu sempre até que viesse o mensalão “Um Estrondoso Silêncio Cúmplice”

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A última eleição sob a tutela da Globo

25 out


Saul Leblon-Carta Maior
A sólida dianteira de Haddad em SP, reafirmada pelo Ibope e o Datafolha desta 5ª feira, deixa ao conservadorismo pouca margem para reverter uma vitória histórica do PT; talvez a derradeira derrota política do seu eterno delfim, José Serra. Ainda assim há riscos. Não são pequenos. Eles advém menos da vontade aparentemente definida do eleitor, do que da disposição midiática para manipulá-la, nas poucas horas que antecedem o pleito de domingo.

Há alguma coisa de profundamente errado com a liberdade de expressão num país quando, a cada escrutínio eleitoral, a maior preocupação de uma parte da opinião pública e dos partidos, nos estertores de uma campanha como agora, desloca-se propriamente do embate final de idéias, para prevenir-se contra a ‘emboscada da véspera”.

Não se argui se ela virá; apenas como e quando a maior emissora de televisão agirá na tentativa de raptar o discernimento soberano da população, sobrepondo-lhe seus critérios, preferências e interditos.

Tornou-se uma aflita tradição nacional acompanhar a contagem regressiva dessa fatalidade.

A colisão entre a festa democrática e a usurpação da vontade das urnas por um interdito que se pronuncia de véspera, desgraçadamente instalou-se no calendário eleitoral. E o corrói por dentro, como uma doença maligna que pode invalidar a democracia e desfibrar a sociedade.

A evidencia mais grave dessa anomalia infecciosa é que todos sabem de que país se fala; qual o nome do poder midiádico retratado e que interesses ele dissemina.

Nem é preciso nominá-los. E isso é pouco menos que a tragédia na vida de uma Nação.

De novo, a maleita de pontualidade afiada rodeia o ambiente eleitoral no estreito espaço que nos separa das urnas deste 28 de outubro.
Em qualquer sociedade democrática uma vantagem de 15 pontos como a de Haddad seria suficiente para configurar um pleito sereno e definido.

Mas não quando uma única empresa possui 26 canais de televisão, dezenas de rádios, jornal impresso, editora, produção de cinema, vídeo, internet e distribuição de sinal e dados.

Tudo isso regado por uma hegemônica participação no mercado publicitário, inclusive de verbas públicas: a TV Globo, sozinha, receberá este ano mais de 50% da verba publicitária de televisão do governo Dilma.

Essa concentração anômala de munição midiática desenha um cerco de incerteza e apreensão em torno da democracia brasileira. Distorce a vida política; influencia o Judiciário; corrompe a vaidade de seus membros; adestra-os, como agora, com a cenoura dos holofotes a se oferecerem vulgarmente, como calouros de programas de auditório, ao desfrute de causas e interesses que tem um lado na história. E não é o do aperfeiçoamento das instituições nem da Democracia.

O conjunto explica porque, a três dias das eleições municipais de 2012, pairam dúvidas sobre o que ainda pode acontecer em São Paulo, capaz de fraudar a eletrizante vitória petista contra o adversário que tem a preferência do conservadorismo, a cumplicidade dos colunistas ‘isentos’,a ‘independência’ do Judiciário e a torcida, em espécie, da plutocracia.

Não há nessa apreensão qualquer traço de fobia persecutória.

Há antecedentes. São abundantes a ponto de justificar o temor que se repitam.

Multiplas referenciais históricas estão documentadas. Há recorrência na intervenção indevida que mancha, enfraquece e humilha a democracia,como um torniquete que comprime a liberdade das urnas.

Mencione-se apenas a título ilustrativo três exemplos de assalto ao território que deveria ser inviolável, pelo menos muitos lutaram para que fosse assim; e não poucos morreram por isso.

Em 1982, a Rede Globo e o jornal O Globo arquitetaram um sistema paralelo de apuração de votos nas eleições estaduais do Rio de Janeiro.

Leonel Brizola era favorito, mas o candidato das Organizações Globo, Moreira Franco, recebera privilégios de cobertura e genuflexão conhecidos. Os sinais antecipavam o estupro em marcha das urnas.

Ele veio na forma de um contagem paralela – contratada pela Globo – que privilegiaria colégios do interior onde seu candidato liderava, a ponto de se criar um ‘consenso’ de vitória em torno do seu nome.

O assédio só não se consumou porque Brizola recusou o papel de hímen complancente à fraude.

O gaúcho recém chegado do exílio saiu a campo, convocou a imprensa internacional, denunciou o golpe em marcha e brigou pelo seu mandato. Em entrevista histórica –ao vivo, por sua arguta exigencia, Brizola denunciou a manobra da Globo falando à população através das câmeras da própria emissora.

Venceu por uma margem de 4 pontos. Não fosse a resistência desassombrada, a margem pequena seria dissolvida no contubérnio entre apurações oficiais e paralelas.

Em 1983 os comícios contra a ditadura e por eleições diretas arrastavam multidões às ruas e grandes praças do país.

A Rede Globo boicotou as manifestações enquanto pode, mantendo esférico silêncio sobre o assunto. O Brasil retratado em seu noticioso era um lago suíço de resignação.

No dia 25 de janeiro de 1984, aniversário da cidade, São Paulo assistiu a um comício monstro na praça da Sé. Mais de 300 mil vozes exigiam democracia, pediam igualdade, cobravam eleições.

O lago tornara-se um maremoto incontrolável. A direção editorial do grupo que hoje é um dos mais aguerridos vigilantes contra a ‘censura’ na Argentina, Venezuela e outros pagos populistas, abriu espaço então no JN para uma reportagem sobre a manifestação. Destinou-lhe dois minutos e 17 segundos.

Compare-se: na cobertura do julgamento em curso da Ação penal 470, no STF, o mesmo telejornal dispensou mais de 18 minutos nesta terça-feira a despejar ataques e exibicionismos togados contra o PT, suas lideranças e o governo Lula.

Naquele 25 de janeiro estava em causa, de um lado, a democracia; de outro, a continuidade da ditadura.

Esse confronto mereceu menos de 1/6 do tempo dedicado agora ao julgamento em curso no STF. Com um agravante fraudulento: na escalada do JN, a multidão na praça da Sé foi associada, “por engano”, explicou depois a emissora, ‘a um show em comemoração aos 430 anos da cidade’. Passemos…

Em 1989, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello realizariam o debate final de uma disputa acirrada e histórica: era o primeiro pleito presidencial a consoliar o fim da ditadura militar.

No confronto do dia 14 de dezembro Collor teve desempenho pouco superior ao de Lula. Mas não a ponto de reverter uma tendência de crescimento do ex-líder metalúrgico; tampouco suficiente para collorir os indecisivos ainda em número significativo.

A Globo editou o debate duas vezes. Até deixá-lo ‘ao dente’, para ser exibido no Jornal Nacional.

Collor teve um minuto e oito segundos a mais que Lula; as falas do petista foram escolhidas entre as suas intervenções mais fracas; as do oponente, entre as suas melhores.

Antes do debate a diferença de votos entre os dois era da ordem de 1%, a favor de Collor; mas Lula crescia. Depois do cinzel da Globo, Collor ampliou essa margem para 4 pontos e venceu com quase 50% dos votos;Lula teve 44%. As consequências históricas dessa maquinação são sabidas.

São amplamente conhecidas também as reiterações desse tipo de interferência nos passos posteriores que marcaram a trajetória da democracia brasileira.

Ela se fez presente como obstaculo à vitória de Lula em 2002; catalisou a crise de seu governo em 2005 –quando se ensaiou um movimento de impeachment generosamente ecoado e co-liderado pelo dispositivo midiático conservador; atuou no levante contra a reeleição de Lula em 2006 e agiu na campanha ostensiva contra Dilma, em 2010.

A indevida interferência avulta mais ainda agora. Há sofreguidão de revide e um clima de ‘agora ou nunca’ no quase linchamento midiático promovido contra o PT, em sintonia com o calendário e o enrêdo desfrutáveis, protagonizados por togas engajadas no julgamento em curso do chamado mensalão’.
Pouca dúvida pode haver quanto aos objetivos e a determinação férrea que vertem desse repertório de maquinações, sabotagens e calúnias disseminadas.

Sua ação corrosiva arremete contra tudo e todos cuja agenda e biografia se associem à defesa do interesse público, do bem comum e da democracia social.Ou, dito de outro modo, visa enfraquecer o Estado soberano, desqualificar valores e princípios solidários que sustentam a convivência compartilhada.

Os governantes e as forças progressistas brasileiras não tem mais o direito –depois de 11 anos no comando do Estado- de ignorar esse cerco que mantem a democracia refém de um poder que só a respeita enquanto servir como lacre de chumbo de seus interesses e privilégios.

Os requintes de linchamento que arrematam o espetáculo eleitoral em que se transformou a ação Penal 470, ademais da apreensão com a ‘bala de prata midiática’ que possa abalar a vitória progressista em SP, não são fenômenos da exclusiva cepa conservadora.

A conivência federal com o obsoleto aparato regulador do sistema de comunicações explica um pedaço desse enredo. Ele esgotou a cota de tolerância das forças que elegeram Lula e sustentam Dilma no poder.

O país não avançará nas trasformações econômicas e sociais requeridas pela desordem neoliberal se não capacitar o discernimento político de mais de 40 milhões de homens e mulheres que sairam da pobreza, ascenderam na pirâmidade de renda e agora aspiram à plena cidadania.

A histórica obra de emancipação social iniciada por Lula não se completará com a preservação do atual poder de veto que o dispositivo midiático conservador detém no Brasil.

Persistir na chave da cumplicidade, acomodação e medo diante desse aparato tangencia a irresponsabilidade política.

Mais que isso: é uma assinatura de contrato com a regressão histórica que o governo Dilma e as forças que o sustentam não tem o direito de empenhar em nome do povo brasileiro.

Que a votação deste domingo seja a última tendo as urnas como refém da rede Globo, dos seus anexos, ventrílocos e assemelhados. Diretas, já! Esse é um desejo histórico da luta democrática brasileira. Carta Maior tem a certeza de compartilhá-lo com seus leitores e com a imensa maioria dos homens e mulheres que caminharão para a urna neste domigo dispostos a impulsionar com o seu voto esse novo e inadiável divisor da nossa história.

Bom voto.

Ato na USP: “Haddad é resposta da civilização à barbárie”

25 out

No ato “São Paulo quer Mudança”, promovido pelo Coletivo de Estudantes em Defesa da Educação Pública, professores da Universidade de São Paulo manifestaram apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT). Nas falas, a eleição de Haddad foi apontada como uma possibilidade de mudança, uma resposta da civilização à barbárie. Para Marilena Chauí, Haddad aparece para São Paulo como uma passagem do medo, vindo da atual gestão, para a esperança no resgate da imagem cidadã da cidade.
Caio Sarack

São Paulo – O Coletivo de Estudantes em Defesa da Educação Pública promoveu terça-feira, às 17h, na USP, o ato “São Paulo quer Mudança”. O evento contou com professores da instituição que resolveram se colocar no debate das eleições de segundo turno. Marilena Chauí, André Singer, Homero Santiago, Deisy Ventura, Amélia Cohn, Ismail Xabier, Leda Paulani e outros intelectuais colocaram-se a favor da eleição do candidato Fernando Haddad (PT). Nabil Bonduki, vereador eleito e também professor da USP, compareceu para dar apoio ao que o evento chamou de “única possibilidade de mudança”.

Estas eleições têm o potencial de ampliar a participação direta da população nas decisões públicas, afirmou o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, Ricardo Abramovay. O ato promovido na USP nesta terça, 23, pretendeu ser justamente um espaço de participação e debate sobre o segundo turno da eleição paulistana.

Nas falas, o mote foi bastante definido: a eleição de Haddad é uma possibilidade de mudança, uma resposta da civilização à barbárie. O projeto de cidade do petista foi elogiado e posto como paradigmático. Homero Santiago, professor de Filosofia da universidade, elogiou a maneira petista de governar e a contrapôs à maneira tucana de governar, “No transporte, o bilhete único mensal foge da lógica da discussão de planilhas de tarifa tucana. Dá direito a vida social e democrática, o deslocamento na cidade é uma questão da democracia”, disse Homero. O professor fez o contraste com a gestão tucana, segundo ele, um projeto higienista e sem consulta ao povo. “Votar contra Serra é uma espera quase moral”, finalizou.

Amélia Cohn, socióloga aposentada pela universidade, concordou. “São modos de governar radicalmente distintos. Uma, tecnocrática e se reduz a uma questão contábil, outra de transformação civilizada e apropriação do espaço público”. Para a socióloga, Haddad é opção até dentro do PT, vem como um paradigma para o próprio partido e um entusiasmo de retomada da cidade. Saído do departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais (FFLCH-USP), Haddad foi comparado com o também egresso da USP, Fernando Henrique Cardoso. “Saiu daqui a escola neoliberal que governou o país, mas agora sai alguém de esquerda,” afirmou o professor Sérgio Cardoso.

A elaboração de um projeto sério para a economia também é importante, “A Alemanha vai bem porque 60% do seu PIB está nas mão das pequenas empresas e não na economia de escala dos oligopólios. O projeto do Haddad tenta dar uma saída para essa tendência econômica”, disse o especialista em Economia das Organizações Paulo Feldmann.

O voto em Haddad despontou no ato como única opção possível de mudança, Leda Paulani, economista e professora também da universidade, disse que a democracia participativa é opção que nos sobrou, que já está ultrapassada e morta, no entanto é o que nos dá abertura para a democratização do acesso e do espaço público.

“A cidade no século XIX tinha relação estreita com o conceito de civilização, no século XX a cidade tem se confundido com a barbárie. Temos a possibilidade de um processo de desbarbarização, somos uma cidade ocupada”, afirmou Ismail Xavier da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP). A reflexão sobre um projeto de cidade que a afaste de uma gestão higienista e tecnocrática aparece com urgência, segundo Xavier. A urgência deste debate e de achar uma saída que dê vazão ou espaço de movimentação democrática faz a esquerda se colocar a favor do petista.

Deisy Ventura, do Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP), aposta em Haddad como a oportunidade de recolocar a universidade no debate sobre um governo de esquerda. “No segundo turno não temos um candidato ideal, isto é crença. Mas não estamos no ambiente da crença, sim no ambiente da política”, concluiu Deisy.

“Há três maneiras de impedir a prática e participação políticas. A concepção teológica do poder, da escolha divina; a concepção moralista que vira as costas para a prática do mundo concreto e a submissão à ideologia da classe dominante, submissão ao monopólio da imagem que domina o corpo e o espírito da nossa sociedade”, disse Marilena Chauí no final do evento. Para ela, Haddad aparece para São Paulo como uma passagem do medo, vindo da atual gestão, para a esperança no resgate da imagem cidadã de São Paulo.

Serra e Jornal Nacional usam o mensalão como último suspiro para o pleito de domingo

24 out

SP247 – A última cartada do candidato José Serra (PSDB) na corrida pela Prefeitura de São Paulo é tentar faturar em cima da condenação das lideranças petistas no julgamento da Ação Penal 470, o chamado processo do mensalão. Na propaganda de tevê da noite desta terça-feira, a campanha do tucano usou a manchete do jornal Folha de S.Paulo e citou o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, que manifestou um duro voto pela condenação de 11 réus, entre eles o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro Delúbio Soares, por formação de quadrilha.

“Agora é com você. Com seu voto vai dizer se que lado está”, questiona a propaganda do tucano. No primeiro turno, não foi fácil medir a influência do julgamento do mensalão no voto do eleitor Brasil afora. Prova é que houve tanto quem dissesse que o julgamento não teve qualquer impacto como quem, como o secretário-geral da presidência da República, Gilberto Carvalho, que identificou prejuízo ao PT devido à ocorrência, ao mesmo tempo, das eleições e do julgamento.

Seja qual tenha sido o impacto do julgamento do mensalão no primeiro turno, a aposta de Serra é que, agora, com as condenações definidas, o tema ganhe mais impacto no pleito de domingo. Com uma diferença de até 17 pontos para o petista Fernando Haddad, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, Serra busca apoio onde pode. Mesmo que o resultado da estratégia não seja lá tão certo assim.

O tucano contou ainda com a ajuda do Jornal Nacional, que dedicou dois de seus blocos ao julgamento “histórico”, destacando frases de efeito de cada ministro. Na narrativa, dinheiro roubado de todos os brasileiros, num esquema comandado pelo PT, subtraía do povo brasileiro as escolas, os postos de saúde e assim por diante.

No primeiro turno, apesar de toda a pressão, o Partido dos Trabalhadores foi a legenda mais votada do País, com 17,2 milhões de votos. Agora, lidera diretamente em capitais, como São Paulo, João Pessoa e Fortaleza, indiretamente com aliados em Curitiba, e também em cidades médias relevantes como Guarulhos e Santo André.

O efeito real da estratégia de Serra, alavancada pela Globo no Jornal Nacional, será conhecido no domingo.

PSDB: Vanguarda da Barbárie

21 out

Sobre a subjetividade que move o tucanato, vale lembrar a atitude que separa a hipocrisia do cinismo. O hipócrita age com dissimulação. O cínico engana sem disfarçar as manipulações em proveito próprio. Serra e os arrivistas da mídia que fazem o trabalho sujo para a Casa Grande pertencem ao último grupo.
Luiz Marques

A obra legada pelo filósofo da democracia direta, J. J. Rousseau (1712-1778), O contrato social, comemora 250 anos. O último capítulo interessa, hoje, graças à incorporação da religião como elemento central da política pelo Tea Party, a ala conservadora de extrema-direita do Partido Republicano nos Estados Unidos, e agora pelo PSDB no Brasil. Não à toa, o movimento inaugural da candidatura de José Serra no segundo turno das eleições foi reunir-se com o pastor radialista Silas Malafaia e o pastor Jabes Alencar, membro do Conselho de Pastores de São Paulo (Saul Leblon, “Malafaia: o procônsul de Serra para ‘os bons costumes’”, Carta Maior, 11/out).

Sem um programa que interpele a população, o tucano quer promover o apagão das consciências com o auxílio de batedores medievais, acusando (sic) o petista Fernando Haddad de “apoiar ativistas gays” e propor um “kit gay” às escolas no Ministério da Educação. Se as desregulamentações neoliberais sinalizaram o surgimento de uma sociedade pós-contratual, o recurso a um código moralista nos processos políticos para demarcar território aprofunda o retrocesso civilizacional inspirado no Consenso de Washington. “A ação política é revestida de valores… que é uma coisa que ameaçou sair de moda, e felizmente com o STF voltou à moda”, discursou Serra ao conhecer o resultado das urnas em São Paulo. Do fetichismo da globalização, dos ajustes fiscais e das privatizações ao fetichismo da família, da propriedade e da tradição.

Ao apagar a fronteira entre a vida privada e a vida pública, bem como introduzir dogmas na jurisdição da política, a direita brasileira busca afastar do debate eleitoral os avanços obtidos pelo governo Lula / Dilma. O objetivo é retirar de cena o modelo atual de desenvolvimento com justiça social, liderado pelo PT. Pouco importa que o preço seja a substituição do sistema político por um sistema teológico para o qual a tolerância é uma fraqueza, e não um princípio de convivialidade em favor dos direitos humanos. A opção joga no lixo o Estado moderno (laico, por definição) e os alicerces da nação (respeito às diferenças) em um país continental, cuja força e encanto decorrem de sua diversidade cultural. Na defesa do projeto de classe a que serve a social-democracia serrista, o rentismo, setor mais beneficiado com os índices elevados da taxa Selic que aumentam a dívida pública e diminuem os recursos para investimentos sociais, – vale tudo. Não há limites às táticas para assegurar os interesses do capital financeiro.

O PSDB estimula um despotismo comportamental que transfere a autonomia dos indivíduos de decidir sobre o seu corpo para uma esfera de heteronomia, em nome de um padrão dominante. Ademais, insinua a prevalência da autoridade clerical sobre a autoridade civil, como se a pluralidade da vontade geral coubesse em uma única linha de pensamento.

A religião que tutela o homem não deve se confundir com a Constituição que rege a vida do cidadão. A primeira remete a um culto interior de Deus e aos preceitos contidos no imperativo categórico kantiano de tratar as pessoas sempre como um fim em si mesmo e não como um meio. A segunda estabelece a igualdade frente ao Estado, independente de gênero, etnia, ideologia ou orientação sexual. A liberdade e a tolerância religiosa são conquistas da democracia caras aos fundadores do liberalismo clássico, a exemplo de John Locke (1632-1704). Para a reação neoliberal, porém, aqueles valores submetem-se antes à acumulação capitalista e à luta pelo poder.

Quando a religião (a cruz) sobrepõe-se ao aparelho estatal (a águia, metáfora herdada dos romanos), ela torna-se tirânica e má por dilacerar a sociabilidade e incentivar a execração pública dos acusados de desvio de conduta. “Tudo quanto rompe a unidade social nada vale; todas as instituições que põem o homem em contradição consigo mesmo não servem para coisa alguma”. Em resumo: “Quem quer que ouse dizer: ‘Fora da igreja não há salvação’, deve ser banido do Estado, a menos que o Estado não seja a Igreja e o príncipe não seja o pontífice”, ensinou Rousseau. A laicidade do Estado é o que garante a equanimidade entre todos e pavimenta a civilização.

Sobre a subjetividade que move o tucanato, vale lembrar a atitude que separa a hipocrisia do cinismo. O hipócrita age com dissimulação. O cínico engana sem disfarçar as manipulações em proveito próprio. Serra e os arrivistas da mídia que fazem o trabalho sujo para a Casa Grande pertencem ao último grupo. Não se preocupam em ocultar, atrás do falso moralismo, o ódio à Senzala e seus representantes no espectro partidário. Ecoam os setores resistentes às mudanças que compartilharam os aeroportos, então exclusivos, e valorizaram o salário das funcionárias domésticas em uma conjuntura de pleno emprego, para citar itens do cotidiano. Cabe às organizações populares combinarem a denúncia da desfaçatez ultradireitista com iniciativas que reafirmem a luta pela modernização dos costumes, sob a guarda do Estado Democrático de Direito. Vade retro!

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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