Folha e outros jornalões tornaram-se “moleque de recados de Valério”

13 nov

A imprensa está servindo de alto-falante para os recados de Marcos Valério

A imprensa vem reproduzindo, com pouco cuidado e acriticamente, os recados ameaçadores de Marcos Valério, apontado como o operador do mensalão.

Começou em setembro, quando a “Veja” publicou que o empresário mineiro disse a amigos e familiares que o ex-presidente Lula “comandava tudo”. E advertiu: “Mas agora vai todo mundo para o ralo”. As declarações foram reproduzidas nos jornais, inclusive na Folha, antes mesmo de a direção da revista dizer que estavam gravadas.

Há dez dias, foi a vez de o “Estado de S. Paulo” noticiar que Valério, em depoimento ao Ministério Público Federal, “citou Lula, Palocci e Celso Daniel”, prefeito de Santo André assassinado em 2002. Mesmo sem saber bem o que ele disse, o jornal deu o assunto na manchete.

O depoimento é mantido em sigilo. O “Estado” explicou ter obtido as informações graças a investigadores. Revelou, em seguida, que Valério contou ter dado dinheiro para que o PT calasse pessoas que ameaçavam fazer revelações sobre o caso de Santo André.

No domingo passado, a “Veja”, sem citar a fonte, acrescentou que os chantageados eram o ex-presidente Lula e o ministro Gilberto Carvalho. Só que na versão da revista, Valério se recusou a ajudar: “Eu falei assim: nisso aí eu não me meto”. Ele seria uma testemunha inocente.

Há quatro dias, um novo recado foi enviado, desta vez para os tucanos. Marcelo Leonardo, advogado de Valério, lembrou que seu cliente também fez revelações importantes sobre o “mensalão mineiro”, que não teriam sido devidamente investigadas em 2007.

No contexto do julgamento do mensalão, seria preciso muito sangue-frio para ignorar os petardos do “homem-bomba”. Mais ainda para esperar por provas.

Mas dá para fazer uma cobertura muito mais crítica, explicitando os interesses de Marcos Valério e investigando se as suas denúncias fazem algum sentido.

É fundamental também deixar claro para o leitor que o empresário mineiro não falou com a imprensa -a “Veja” não diz que o entrevistou, o “Estado” não publicou transcrições do depoimento e a Folha reproduziu os concorrentes.

É muito diferente da entrevista que Roberto Jefferson deu à jornalista Renata Lo Prete, na Folha em 2005, e que deu origem ao escândalo do mensalão. O então deputado federal, mesmo tendo muito a perder, descreveu o esquema de corrupção de parlamentares. Jefferson foi gravado e fotografado.

O que está sendo divulgado agora é o que Marcos Valério teria dito a terceiros. Numa espécie de “telefone sem fio”, a imprensa amplifica as ameaças de um homem já condenado a 40 anos de prisão.

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