Oásis

15 abr

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Luis Fernando Verissimo

Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O’Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades – Lisboa, Buenos Aires e Dublin – situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.

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Os oásis e as miragens só podem existir nos desertos e os três autores citados por Toíbín viveram e escreveram nos seus respectivos refúgios do deserto. Dos três só um (O’Brien) produziu um texto longo, os outros só fizeram poesia e contos – uma literatura de oásis, nutrida pela imaginação de cada um em vez de pela aridez em volta, que podiam retratar apenas a distância, como paródia ou curiosidade. O fato de não contarem com uma cultura local estabelecida para alimentar sua criação, de certa maneira os autorizou a comer da tradição literária de todo o mundo, com licença para serem mais criativos do que todo o mundo. Pessoa e Borges, principalmente, eram multinacionais antes de inventarem o termo.

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A linguagem do oásis é diferente da linguagem do deserto. A prática de viver em oásis permitiu aos três brincar com a linguagem e uma forma que seria impossível sem esta distância. A biografia dos três ajudou nesse sentido. Pessoa viveu na África do Sul entre os 7 e os 17 anos e quando voltou a Lisboa falava inglês melhor do que português. Muitos dos seus poemas foram escritos em inglês. Borges tinha uma avó inglesa que morava com a família, e cresceu falando espanhol e inglês. Dos 15 aos 22 anos Borges morou em Genebra, onde falava francês e inglês, além do espanhol. O’Obrien só falou irlandês até os 10 anos, e escrevia em irlandês e inglês. Uma língua vista de fora ou de longe revela todas as idiossincrasias e possibilidades que os que a falaram sempre nem sempre veem. O russo Nabokov escrevendo em inglês é um exemplo dos prodígios possíveis com uma língua recém-apreendida, e tem um predecessor igualmente admirável no polonês Joseph Conrad. Borges dizia que sua grande vontade literária era ter escrito toda a 11.ª edição da Enciclopédia Britânica. Em inglês, claro.

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Outra afinidade citada por Toíbín é a afeição dos três por heterônimos. Pessoa usou, entre outros, os nomes Ricardo Reis, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Borges foi B.Suarez Lynch e H.Bustos Domecq. O nome verdadeiro de O’Brien era Brian O Nuallain e ele também escreveu com o pseudônimo (atenção revisor, é assim mesmo) Myles na gCopaleen. Heterônimos podem ser considerados miragens, figuras fluidas e imaginárias que só servem para fazer companhia nos oásis e serem cúmplices nos jogos com a linguagem de que os três gostavam tanto. Escreve Toíbín: “Não foi coincidência que os três não tiveram filhos, que não escreveram sobre mulheres ou, no caso de dois deles, eram levemente misóginos. Quando dois deles se casaram foi uma grande surpresa para seus amigos: pareciam mais confortáveis (ou mais confortavelmente desesperados) como solteiros do que como pais ou maridos. Na verdade, os três, apesar disto não ser da nossa conta, podem ter morrido virgens. Um deles disse que não tinha ambições ou desejos. “Ser um poeta não é uma ambição, é a minha maneira de estar sozinho.”

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