A “dama de ferro” e o “caudilho”

19 abr

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Na segunda-feira (8/4) faleceu, aos 87 anos, Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990. Conhecida como a “dama de ferro”, codinome dado por um diário soviético devido ao seu estilo autoritário, Thatcher, no decorrer de seu mandato, foi responsável pela implantação de várias políticas antipopulares, como o corte de gastos públicos com programas sociais, a privatização de empresas estatais e a desregulamentação do setor financeiro. Já sua política externa foi marcada pelo alinhamento incondicional aos Estados Unidos, pela Guerra das Malvinas e pela oposição às sanções econômicas à África do Sul durante o período do apartheid (em certa ocasião ela chamou Nelson Mandela de “terrorista”). Ao lado do ex-presidente estadunidense Ronald Reagan, Margaret Thatcher foi um dos mentores do famigerado “Consenso de Washington”, o conjunto de recomendações econômicas que consolidaram a adoção de práticas neoliberais em boa parte do planeta.

Devido ao seu estilo extremamente conservador, Margaret Thatcher foi uma das figuras políticas contemporâneas mais enaltecidas pela mídia hegemônica brasileira. Sendo assim, logo após o anúncio de sua morte, devido a um derrame cerebral, os principais noticiários do país iniciaram uma campanha de canonização da “dama de ferro”. Ticiana Villas Boas, do Jornal da Band, ressaltou que o falecimento da ex-premiê do Reino Unido teve grande repercussão entre os principais líderes mundiais. Já os telejornais da GloboNews destacaram a importância de Thatcher para consolidar a atuação das mulheres na esfera política. Para a revista Veja, a ex-primeira-ministra britânica encolheu o governo e recuperou a prosperidade do país com uma receita admirada em todo o mundo. “Thatcher ficou onze anos e meio no poder, tempo mais do que suficiente para os princípios que defendia (menos governo, menos despesas e independência em relação à União Europeia) se fixarem profundamente no modo de vida britânico”, apontou a publicação da família Civita.

Dois pesos, duas medidas

Segundo uma reportagem do Jornal Nacional, a “dama de ferro” foi um dos personagens mais emblemáticos da segunda metade do século passado. “Margaret Thatcher de tal maneira marcou a política britânica no final do século 20 que o Reino Unido se refere a esse período como a Era Thatcher ou os Anos Thatcher. Uma fase da história. Thatcher combateu a inflação, as greves e os sindicatos, sobretudo os mineiros, que a enfrentaram, durante mais de um ano, ameaçando reduzir a produção de energia em um inverno rigoroso. Ela estocou carvão, resistiu e ganhou. Flexibilizou as leis trabalhistas, privatizou estatais que perdiam dinheiro e abriu caminho para que Londres se tornasse um centro financeiro mundial”, asseverou o repórter Renato Machado. Para o noticiário global, os principais legados da “Era Thatcher” foram: a política econômica (que facilitou aos britânicos a aquisição da casa própria), a garantia do livre mercado e o surgimento de uma nova classe média.

E os elogios a Margaret Thatcher não pararam por aí. No Jornal da Globo, William Waack afirmou que a ex-primeira-ministra foi uma personalidade de enorme projeção mundial. “Thatcher teve grande influência não só no Reino Unido, onde mudou o rumo da política, mas também em alguns dos grandes acontecimentos mundiais do final do século 20”, completou a apresentadora Christiane Pelajo. Em contrapartida, a única voz destoante na grande mídia foi o filósofo Vladimir Safatle, que em um artigo para Folha de S.Paulo apontou as contradições presentes nas ideias defendidas por Thatcher.

Por outro lado, é impossível não comparar as matérias sobre Margaret Thatcher e a recente cobertura midiática do falecimento do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. A “dama de ferro”, que executou inúmeras políticas maléficas às classes trabalhadoras, é retratada como exemplo de sobriedade; e o líder bolivariano, articulador de políticas sociais que melhoraram as condições de vida dos venezuelanos mais pobres, é tachado de “caudilho”. Enquanto Margaret Thatcher, responsável por uma agressão imperialista a uma nação subdesenvolvida (Guerra das Malvinas), é aclamada como grande personalidade do século passado, Chávez, que aumentou os laços de solidariedade entre os povos do Sul, sempre foi apontado como líder que ameaçava a estabilidade política global (basta lembrar que Arnaldo Jabor chegou a mencionar em um comentário que Hugo Chávez era um “ditador fascista” que ainda provocaria uma guerra na América do Sul). Ademais, Thatcher e Chávez ficaram quase a mesma quantidade de anos no poder, mas, em nenhum momento, a imprensa hegemônica se referiu à ex-primeira-ministra do Reino Unido como “ditadora” ou “antidemocrática”. Como sempre, dois pesos, duas medidas.

Visão unidimensional

Ironicamente, as consequências nefastas do neoliberalismo, práticas tão recomendadas por Thatcher, foram um dos fatores que levaram ao poder políticos de esquerda como Hugo Chávez. Ademais, a atual crise capitalista, provocada justamente pelo excesso de liberdade do mercado, tem demonstrado o caráter falacioso das ideias daqueles que, assim como Francis Fukuyama, acreditavam que o capitalismo e a democracia burguesa eram os estágios finais da história da humanidade.

Em última instância, precisamos questionar o porquê de a grande mídia brasileira geralmente apresentar uma visão unidimensional da realidade. Apenas determinado ponto de vista tem espaço nas maiores emissoras de televisão e nos principais jornais e revistas do país. Opiniões antagônicas ao status quosão peremptoriamente ignoradas. Não obstante, uma verdadeira democracia pressupõe, indubitavelmente, o fim do coronelismo midiático.

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Observatório da Imprensa

Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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