A escalada democrática by Saul Leblon

22 abr

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Episódios recentes na vida política da América Latina indicam que estamos diante de uma ‘escalada democrática’ .

Em junho de 2012, numa sexta-feira, deu-se o golpe democrático’ contra Fernando Lugo, presidente eleito do Paraguai.

Processado e derrubado pelo Congresso em 33 horas, seu afastamento consolidou-se na eleição deste domingo, que devolveu o poder à direita paraguaia.

Três anos antes, a modalidade já havia sido testada em Honduras.

O Presidente Manuel Zelaya foi ‘impedido legalmente’ em 29 de junho de 2009.

Seis meses depois, uma nova eleição dava sua vaga ao conservador Porfírio Lobo, derrotado por Zelaya em 2005.

Enfim, se você perde nas urnas o jeito é afastar quem ganha para liberar o caminho.

O então governo Lula repeliu o golpe contra Zelaya. E a embaixada em Honduras concedeu asilo ao presidente deposto.

O conjunto foi duramente criticado pelo dispositivo midiático

No caso de Lugo, as emissões conservadoras se alvoroçaram de maneira ainda mais ostensiva.

A frente pró-golpe manifestar-se-ia, primeiro, no Congresso brasileiro.

Expoentes tucanos e emissários do agronegócio brasileiro, que anexou extensões escandalosas de terras do país vizinho, em prejuízo dos camponeses locais, desfraldariam o lobby.

Queriam o ‘reconhecimento imediato do novo governo amigável’ por parte da Presidenta Dilma.

Rechaçados, entrou em campo a cavalaria midiática.

A Folha disparou um editorial sugestivamente intitulado ‘Paraguai soberano’(26-06). Curioso que não tenha feito algo equivalente no caso recente da Venezuela.

O texto esbravejava antecipadamente contra a reunião do Mercosul que ocorreria em Mendoza, três dias depois, para examinar a crise.

O jornal da família Frias recomendava , quer dizer, ordenava: ‘o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho’.

Como os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai não se pautaram pelos editoriais e, ademais de suspender o Paraguai golpista, incorporaram a Venezuela ao bloco, as cepas e esporões direitistas passaram a reproduzir-se com furor lacerdista no noticiário.

A política externa brasileira foi reduzida à posição de linha auxiliar do chavismo e do kichnerismo.

No caso recente da eleição venezuelana, o diapasão conservador arremeteu direto contra as urnas

A margem estreita que marcou a vitória de Nicolas Maduro contra o direitista Enrique Capriles foi a senha para a contestação do processo democrático.

A ordem unida veio dos EUA: não legitimar Maduro enquanto uma recontagem não ‘esclarecesse melhor o quadro’.

A mesma cautela não se verificou quando dos golpes em Honduras e no Paraguai, imediatamente reconhecidos como legítimos por Washington.

Enquanto o governo Obama dava corda à reação interna venezuelana, o jogral brasileiro disparava obuses na tentativa de acuar o Itamaraty e a Presidenta Dilma.

Não funcionou.

O governo brasileiro foi um dos primeiros a parabenizar Maduro pela vitória e a felicitar a democracia venezuelana.

Não só. Sob a liderança conjunta do Brasil e da Argentina, a Unasul foi convocada e respaldou o processo democrático venezuelano.

Colocou-se mais uma vez como uma pedra no sapato da ingerência norte-americana na região.

A transparência eleitoral na Venezuela é reconhecida por observadores internacionais insuspeitos.

O eleitor venezuelano registra seu voto na urna eletrônica, que lhe fornece um recibo da escolha feita. Depois de conferido, ele o deposita em caixas lacradas.

“Ao final da jornada, 54% dessas caixas são sorteadas e submetidas à auditoria. Prática que, em tamanha porcentagem, não é feita por nenhum outro país do mundo”, informa o enviado de Carta Maior à Venezuela, Vinicius Mansur (leia nesta pág).

O Departamento de Estado norte-americano e o conservadorismo brasileiro sabem desses procedimentos.

De fato, não é a lisura do pleito que os mobilizava. E sim a possibilidade de ampliar ‘a ofensiva democrática’ na região, desautorizando Maduro para conduzir Capriles ao poder.

Nos três episódios, a pronta intervenção da Unasul e do Mercosul atrapalhou a vida do golpismo, seccionando o oxigênio externo fornecido pelos EUA.

Essa capacidade de defender a soberania democrática é uma novidade histórica que incomoda os interesses conservadores na região.

A liderança brasileira é o combustível que injeta credibilidade e coesão a essa nova institucionalidade.

Não incorre em erro quem suspeitar que esse papel incômodo pesará nos arranjos, no financiamento e na intensidade do cerco para afastar o PT do caminho, em 2014.

Postado por Saul Leblon às 18:30

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