Ódio e preconceito: França vive primavera sombria

23 abr

O país que desenhou os conceitos de Direitos Humanos e onde as liberdades cívicas são um exemplo universal se meteu no labirinto das fobias: à islamofobia e ao racismo que marcaram a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de abril e maio passado se seguiu uma homofobia agressiva que fez várias vítimas e colocou em primeiro plano pequenos grupos fanáticos que, oriundos de várias correntes da direita, confluíram em uma frente comum de perigosas intenções. O debate sobre o casamento homossexual fez a França voltar à Idade Média. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

O país que desenhou os conceitos de Direitos Humanos e onde as liberdades cívicas são um exemplo universal se meteu no labirinto das fobias: à islamofobia e ao racismo que marcaram a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de abril e maio passado se seguiu uma homofobia agressiva que fez várias vítimas e colocou em primeiro plano pequenos grupos fanáticos que, oriundos de várias correntes da direita, confluíram em uma frente comum de perigosas intenções.

A chamada lei sobre “o matrimônio para todos” proposta pelo Executivo socialista destampou a existência de uma França iracunda e intolerante até a intimidação física. Há uns dez dias, um jovem casal franco-holandês de homossexuais, Olivier e Wilfred de Bruijn, foi atacado no distrito XIX de Paris por um grupo de cinco jovens, que os agrediu brutalmente. “Olha, são homossexuais”, disse um deles e imediatamente começaram a agredi-los. A foto de Wilfred de Brujin com a cara desfigurada pelos golpes deu a volta ao mundo: ele mesmo fez com que ela circulasse na internet.

De Brujin está certo de que a surra que levou é uma consequência da radicalização que a lei provocou: “Desde o verão passado, o clima se tornou odioso para os homossexuais na França. Nos sentimos atacados, ameaçados, insultados. O debate deixou livre uma violência verbal e física que antes parecia contida. A culpa é dos bispos da Igreja católica e de políticos como Jean-François Copé”. Este político é hoje o líder do principal partido de oposição, a UMP, que aproveitou o antagonismo que levantou a lei sobre o matrimônio igualitário para atacar o governo e recuperar a credibilidade de um partido que vinha perdendo velocidade. Mas a agressão dos homossexuais parisienses não foi a única: nas localidades de Lille e Bordeaux ocorreram novos ataques contra os homossexuais. A França voltou à Idade Média no que diz respeito a este tema. A tensão é tal que a polícia reforçou sua presença nos bairros frequentados pelos homossexuais para evitar a repetição das agressões.

No início, apesar das dezenas de milhares de pessoas que os adversários da lei reuniam nas manifestações ninguém captou a importância que essa corrente iria tomar. O movimento contra a lei está composto por um leque de grupos que vão desde os fundamentalistas católicos de Civitas, bispos e padres de corte conservador, deputados ou prefeitos da oposição conservadora, núcleos de neonazistas, membros do grupo terrorista que se opôs à independência da Argélia, a OAS, militantes e quadros do partido de extrema direita Frente Nacional, nostálgicos da monarquia da Ação Francesa, pequenos grupelhos xenófobos das Juventudes Nacionalistas, neonazistas do Bloco Identitário e um monte de famílias que vem a lei como uma ameaça à civilização ocidental.

Toda essa torrente está liderada por uma mulher, Frigide Barjot, uma ex-comediante e cronista mundana que se veste toda de rosa como um incongruente prato de confeitaria. A denominada Frigide teve seu caminho de Damasco em 2004, quando realizou uma peregrinação até a Virgem de Lourdes e se tornou uma fervorosa católica. Frigide Barjot se auto-considera como “a porta voz de Jesus”. A líder deste bando intimidador considera que vive sob “uma ditadura” e, dirigindo-se ao presidente socialista François Hollande, disse certa vez: “Hollande quer sangue, e o terá”. Como a lei também contempla a possibilidade de que duas pessoas do mesmo sexo possam adotar filhos, seus opositores se apoiam nesse capítulo para negar toda forma de homofobia: “nos preocupa que as crianças sejam educadas por dois pais ou duas mães”, disse Frigide.

A carta cheia de pólvora enviada ao presidente da Assembleia Nacional tem o mesmo corte explícito. “Nossos métodos são mais radicais e expeditivos que as manifestações. Vocês quiseram a guerra, pois aí está ela”. Mais adiante, o texto diz: “o matrimônio para todos equivale à supressão total do matrimônio. No caso de você ficar omisso diante desse ultimato, sua família política sofrerá fisicamente”. O debate ultrapassou em muito o tema de lei e se tornou hoje uma clara mostra de descontentamento político contra François Hollande. No início das manifestações, os cartazes eram contra o texto, mas com o passar das semanas e das marchas cada vez mais massivas – chegando a reunir até 300 mil pessoas – o protesto se focalizou nos socialistas: hoje se veem muitas faixas pintadas que dizem “Hollande demissão”. Outra afirma: “Hollande, não queremos tua lei sobre casamento homossexual, queremos trabalho”.

Estes meses de debates, insultos, violência, missas ao ar livre e pessoas de joelhos na porta da Assembleia Nacional, frases arrebatadas e excitadas na televisão terminaram por fazer dos homossexuais um demônio perigoso, uma espécie de elemento tóxico da sociedade. A direita conseguiu com eles o mesmo que fez com os estrangeiros: transformá-los em um sinônimo de coisa nociva. O resultado é dramático para os homossexuais e as lésbicas mais jovens, com escassa experiência na discriminação. Agora, têm medo de serem reconhecidos e de serem agredidos por sua sexualidade. Em nome da integridade da família e da educação dos filhos por casais tradicionais, os bispos e padres que movem os fios de ódio por baixo de suas batinas terminaram por transtornar o perfil de um país exemplar. Em vez da concórdia promoveram a intolerância e a divisão. Com isso ressuscitaram e uniram em um mesmo rechaço a todos os ramos dos extremos. 

Os protagonistas dessa primavera sombria francesa sonham com uma espécie de maio de 68 ao contrário, ou seja, ao invés de uma revolução libertadora dos costumes, uma revolução conservadora que volte a colocar a mordaça na sociedade.

Tradução: Katarina Peixoto

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