Arquivo | maio, 2013

Conversa às Três e Meia da Madrugada (Charles Bukowski)

30 maio

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às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

Tela: Jack Vettriano – The Same Old Game (1993)

Direto do Facebook por República Cosa Nostra e Sylvia Manzano

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A tragédia Irônica da Burguesia Nacional by Edu Franco

30 maio

Latuff serra

KKK! Nossa classe média anda tomando aulas de ironias do destino: violenta, mal educada, escravagista, preconceituosa, passou oito anos reverberando todo tipo de insulto a um presidente por que o mesmo não veio do mesmo “berço” “educado” que ela; oito anos agourando um governo que colheu todos os sucessos e homenagens que nenhum outro governo no mundo conseguiu em tão pouco tempo. Isso frente a tantos e tão grandes problemas como sempre existiram em nosso país.Enquanto a classe média afiava a sua língua tão educada, vinham pessoas ilustres do mundo todo demonstrar o seu encanto pelo operário presidente, artistas, grandes estrelas do rock e de Hollywood, estadistas dos países mais importantes do mundo, intelectuais de ponta do século vinte, jornais da França, Inglaterra,Espanha, USA, indicação ao Nobel, prêmios e mais prêmios…e a classe média teve que enfiar isso na goela, engolir o sucesso mundial do sapo barbudo como dizia o grande Brizola.
O operário saiu do seu posto com tantos prêmios e com um país credor, com reservas, com reduções de índices de subdesenvolvimento inacreditáveis.

A classe média não sossegou,virou sua artilharia de insultos para os programas sociais, eles acham que a miséria não é problema do estado, que o estado não existe para atender a população, o mundo capitalista também não existe para isso, então eles querem é que as pessoas permaneçam lá onde sempre estiveram, na senzala, bichos de carga, mas é meio tarde para isso. Então o fogo se concentrou no “Bolsa Família”, e o Bolsa Família virou o programa social mais premiado do mundo, citado por artistas do rock, pelos principais estadistas do planeta, copiado em 65 países, em vários países da Europa fragilizados pela maior crise do capitalismo contemporâneo, e o Bolsa Família vai ser implementado na cidade mais moderna do mundo – New York
– Para! Não, New York não, assim não dá, assim já é demais!

Ando com pena da nossa classe média, ela anda sofrendo de ironia crônica do destino, eles adoram os americanos, mas os americanos adoram o Lula, eles adoram os europeus , mas os europeus adoram o Lula, eles odeiam os brasileiros vira latas, mas o primeiro mundo resolveu amar os brasileiros, eles abominam o bolsa família, mas a Europa adotou e, para completar a tragédia, New York vai implementá-lo, ando com pena da nossa classe média, o mundo passou na janela e só Carolina não viu, tava falando mal do Lula no Iphone, não percebeu que o Brasil mudava e que seus argumentos foram derrubados um a um, pobre burguesia dividindo o banco do avião com que antes lhe servia, sheet, C’est La Vie.
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Edu Franco-jornalista e músico

James Mollison:. Where Children Sleep

30 maio

A série do fotógrafo inglês James Mollison apresenta fotografias de quartos infantis de todo o mundo (EUA, México, Brasil, Inglaterra, Itália, Israel e Cisjordânia, Quênia, Senegal, Lesoto, Nepal, China e India), revelando diferenças chocantes entre os países, desde meninas com vestidos caríssimos em suas mansões particulares até garotos que dormem no chão.

As fotos foram publicadas em um livro intitulado “Where Children Sleep”.

“Espero que o livro ofereça uma oportunidade de refletir sobre a desigualdade que existe, e perceber o quão sortudo a maioria de nós, no mundo desenvolvido, somos”, diz James.
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Roberto Civita (1936-2013) by Paulo Nogueira

28 maio

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Não é fácil escrever sobre a morte de Roberto Civita, para mim.

A Abril foi minha casa, a Abril foi minha escola, a Abril foi meu amor, com os altos e baixos de todas as paixões.

E Roberto Civita era a Abril.

“Você é como um filho para mim, Paulo”, ouvi dele certa vez. Acho que ele estava sendo sincero. Ou pelo menos eu era o Paulíssimo, como ele me chamava nos e-mails intermitentes que jamais deixamos de trocar.

Quando deixei a Abril, em 2006, frustrado por não ter sido promovido a presidente executivo como tinham me prometido, RC disse para mim na conversa de despedida: “A Abril vai ser sempre sua casa”.

Se a nossa casa definitiva é a casa da juventude, dos grandes anos e das grandes esperanças, ele não poderia estar mais certo.

RC carregou, desde logo, o inevitável fardo dos herdeiros. Você o tempo todo tem que provar – para você mesmo – que não é apenas filho de seu pai.

Você o tempo todo procura se diferenciar de seu pai, e isto nem sempre é bom.

No caso de Roberto Civita, ele acabou tendo um estilo de administração muito mais distante do que o de seu pai, o fundador Victor Civita.

Seu Victor dirigia o próprio carro, e andava sempre pela empresa, com seu sorriso quilométrico e a simplicidade de quem você não vai estranhar se encontrar na feira.

Roberto adotou um modelo mais distante de comandar a empresa. Isso se refletiu, sobretudo, em seus principais subordinados.

Um presidente executivo recém-contratado me contou certa vez que, logo ao chegar, quis visitar a redação da Exame. Perguntou a um veterano vice-presidente em que andar ficava. “Não sei”, foi a resposta.

Outro traço em que Roberto se afastou do pai foi na atitude perante o negócio. Seu Victor foi essencialmente um empreendedor: fez revistas, e fez hotéis, frigoríficos, clubes de livros etc.

Não se tinha propriamente na conta de editor, e isso acabou deixando mais espaço por vários anos para profissionais brilhantes.

Você só entende Mino Carta como diretor da Veja à luz da distância de Seu Victor. Mino conseguiu assinar um contrato pelo qual a família Civita só comentava a revista depois que ela estava pronta.

Na cabeça pragmática de Victor Civita pareciam estar claros os papeis: todos os jornalistas eram seus empregados, como o organograma demonstrava. Tinham que fazer bons textos, boas legendas, boas capas, bons títulos, boas fotos.

A clareza da subordinação dos jornalistas evitou que se estabelecessem rivalidades entre dono e jornalistas. O editor poderia dar uma entrevista na televisão, ser chamado de gênio e bajulado, mas não deixaria de ser empregado de Victor Civita.

A cena mudou quando, no início dos anos 80, Victor Civita – num gesto que se tornaria inspirador para muitos empreendedores brasileiros – se afastou dos negócios no gozo de saúde e lucidez e dividiu-os entre os dois filhos, Roberto, o primogênito, e Richard.

O patriarca Victor Civita tinha uma relação menos apaixonada com as revistas
Roberto ficou com o pedaço principal, as revistas. E seu envolvimento com elas foi muito mais intenso, muito mais apaixonado e muito mais complexo do que o de seu pai.

Isso trouxe coisas boas e coisas ruins. Um dono que ama visceralmente o negócio dá à comunidade um sentimento de orgulho considerável: estamos fazendo uma coisa incrível. Somos parte de um tremendo projeto.

Mas há, por outro lado, uma inevitável ocupação de um espaço que estava livre. Roberto Civita acabou pegando as revistas para si, sobretudo a Veja – com a qual ele teve uma relação de amor total, incondicional, à prova de tudo, como se fossem ambos Romeu e Julieta.

Com isso, o papel dos editores profissionais foi se tornando menor. Entendo que reside aí a explicação do que aconteceu nos últimos anos na Veja.

Depois de duas grandes gestões, a de Mino Carta, primeiro, e a de JR Guzzo e Elio Gaspari depois, a Veja acabaria sendo entregue a editores que, limitados, não fizeram os contrapontos indispensáveis a Roberto Civita. E No caso de RC o contraponto era crucial: ele não era um editor natural como, por exemplo, Henry Luce, o criador da Time. Ele era, acima de tudo, um animador.

Curiosamente, o que houve acabou sendo a negação a uma máxima que RC gostava de repetir: “Uma revista é seu editor”.

A falta de contraponto acabaria levando a duas calamidades editoriais que destruiriam a aura de equilíbrio e pluralidade que foi a grande marca da Veja em seus anos de ouro.

Primeiro foi Diogo Mainardi, com sua selvagem caça a Lula, a quem chamava de sua “anta”. No começo dos anos 2000, Mainardi mainardizou a Veja. O espírito intolerante e brutal de sua coluna como que se espalhou pela revista.

O serviço seria completado por Reinaldo Azevedo, com seu blog raivoso, extremista, no qual a “anta” foi substituída pelo “apedeuta”.

Um bom editor teria percebido logo os estragos provocados por ambos, e teria alertado RC sobre as infrações ao jornalismo decente dos dois. Num certo momento, a Veja, por Azevedo, estava chamando Nassif de ‘nassífiles’, o que era inimaginável antes.

Cada um a seu jeito, Mainardi e Azevedo contaminaram a maneira de ver o mundo da Veja – e também a maneira como o mundo vê a Veja.

Editores mais fortes teriam impedido a ação corrosiva de Mainardi e Azevedo.

Fiquei impressionado com as manifestações de ódio de que foi objeto, em sua doença e morte, Roberto Civita nas redes sociais na internet.

A Abril foi, durante muitos anos, amada pelos brasileiros, paulistanos sobretudo. Uma das campanhas marcantes da empresa tocava nisso: “A Abril faz parte de sua vida”.

Fazia mesmo, com suas revistas de alto nível, com suas coleções como Os Pensadores e tantas outras. A Abril popularizou até a música clássica numa coleção primorosa.

É naquela Abril, em seu espírito único entre as empresas jornalísticas brasileiras, que a nova geração poderá encontrar respostas para o futuro da casa nesta era digital.

A receita estava lá. Está lá.

Vou lamentar, evidentemente, o silêncio do conversador extremamente charmoso, divertido, provocador, inteligente – com seu sotaque americano jamais superado.

Vou lamentar a ausência dos e-mails destinados ao Paulíssimo, e terei que matar a saudade nos que guardei, assim que a leitura não doer tanto.

Pensarei nele sempre com um exemplar de sua tão amada Veja nas mãos. Acho que se ele pudesse negociar sua próxima vida, esta seria uma das principais exigências – a possibilidade de ler a Veja.

Roberto Civita, o RC, com toda a sua complexidade, vai estar para sempre vivo em minha memória, em meu coração e em minha gratidão.

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Paulo Nogueira-Diário do Centro do Mundo

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Roberto Civita: Que Arda no Inferno

27 maio

O torturador ofendido by Leandro Fortes

27 maio

Nas manhãs de sábado, o pastor Átila Brandão, líder máximo da Igreja Batista Caminho das Árvores, faz uma exaltada pregação na TV Aratu, retransmissora do SBT na Bahia. É uma mistura de ignorância, oportunismo e preconceito. Exemplo: o ser humano é inteligente por falar e não por pensar. Outro: o anticristo será um homossexual nascido de uma prostituta. Não se assuste, o pastor tem a solução contra o mal. Além do apego ao Evangelho e à Bíblia, Brandão acredita-se destinado a presidir o Brasil.

Infelizmente, a estratégia para derrotar o coisa-ruim via Palácio do Planalto corre sérios riscos. Atualmente, torturador de palavras e consciências, Brandão destacou-se nos anos 70 por outro tipo de barbárie, bem mais grave. Teve passagem marcante pelo aparato de repressão da ditadura.

Denunciado pelo ex-deputado e jornalista Emiliano José, o pastor perdeu a fleuma religiosa e ressuscitou seu velho estilo, consagrado nos anos de chumbo. Então oficial da Polícia Militar da Bahia, Brandão comandou espancamentos contra estudantes em Salvador entre 1968 e 1973. Em um prazo de três meses, o evangélico fez um boletim de ocorrência, registrou uma queixa-crime e abriu duas ações judiciais contra José. Seu objetivo principal é censurar o jornalista por causa do artigo intitulado “A premonição de Yaiá”. Publicado em fevereiro passado no jornal A Tarde e disponível na internet, o texto trata de uma história assustadora.

Com base em um depoimento gravado, o ex-deputado relata um momento na vida de Maria Helena Rocha Afonso, conhecida como Dona Yaiá, mãe do preso político Renato Afonso de Carvalho, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Segundo Dona Yaiá, em 1971, após sentir terrível angústia no peito, decidiu por conta própria pegar um táxi e visitar o filho, então com 23 anos, preso no quartel da PM dos Dendezeiros, na chamada cidade baixa. Carvalho havia sido preso no Rio de Janeiro em fevereiro daquele mesmo ano por agentes da repressão e levado ao quartel da Polícia do Exército da Rua Barão de Mesquita, um dos mais cruéis centros de torturas do regime. Por dois dias, ficou pendurado em um pau de arara. Foi espancado e submetido a choques elétricos e afogamentos. Depois, enfrentou um fuzilamento simulado. Como, ainda assim, não entregou ninguém, seu assassinato parecia iminente.

Graças a um pedido do pai, Orlando de Carvalho, e da interferência de Dom Eugênio Salles, à época arcebispo do Rio de Janeiro, o militante foi salvo e transferido a Salvador. Sob custódia da PM baiana, achou que a fase das torturas havia passado. Engano absoluto. O militante do PCBR, hoje um respeitado professor de História na capital da Bahia, reencontrou no quartel dos Dendezeiros um velho desafeto, o capitão Átila Brandão.

Três anos antes, em 1968, Carvalho havia integrado um movimento para expulsar Brandão da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia onde ambos estudavam. Em companhia de outros militantes do movimento estudantil baiano, acusava o policial militar de ser um dos muitos agentes infiltrados pela ditadura no campus, estratégia comum naqueles tempos. Diversos estudantes identificaram o então tenente Brandão como comandante de tropas da PM que durante manifestações de rua contra o regime liderava com brutalidade desmedida a repressão aos manifestantes.

À frente de uma equipe de torturadores, Brandão encontrou Carvalho em um dos porões do quartel, mas não quis conversa sobre o passado. Assim que o viu, disparou socos, chutes e xingamentos, tática normalmente usada antes das sessões de choques elétricos e afogamentos. O PM queria saber se o estudante conhecia um grupo de militantes do PCBR preso no Paraná pelo Exército. Quando estava prestes a montar o pau de arara e ligar a máquina de eletrochoques, o oficial foi interrompido por um soldado. Dona Yaiá havia passado pelas sentinelas e, resoluta, estava no corredor em frente ao porão onde o filho era torturado.

Segue o relato de Dona Yaiá, reportado por José, sobre a premonição naquele fevereiro de 1971: “Soube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de Átila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu para que avisasse o advogado Jaime Guimarães. Queriam voltar a torturá-lo. Fiz o que Renato pediu. Não voltou a ser torturado”.

Brandão nega tudo, apesar das evidências. Entre elas, o documento número 45/69 da agência baiana do antigo Serviço Nacional de Informações datado de 13 de outubro de 1969, em que ele é citado reiteradas vezes como agente da repressão. O nome do ex-PM está na ficha montada pelo SNI sobre Rosalindo Souza, militante do PCdoB, morto e desaparecido na Guerrilha do Araguaia, em 1973. Assim como Carvalho, o guerrilheiro estava entre os estudantes que pediram a expulsão do policial militar da Faculdade de Direito em 1968.

O pastor reagiu à divulgação do artigo, à repercussão na Bahia e, claro, às ameaças a suas antigas pretensões eleitorais. Em 2006, foi candidato ao governo pelo PSC, partido do deputado Marco Feliciano, de São Paulo, com quem divide as mesmas opiniões homofóbicas. Em 2012, apoiou ACM Neto à prefeitura de Salvador e ganhou, como prêmio, a nomeação de um filho, Átila Brandão de Oliveira Júnior, para o cargo de assessor especial da subchefia de gabinete do prefeito do DEM. Júnior era diretor da Faculdade Batista Brasileira, um dos negócios do pai.

Nas ações judiciais, Brandão acusa o jornalista de “pau mandado” e “papagaio de pirata”. Para calá-lo, pediu uma indenização de 2 milhões de reais e a retirada do artigo “A premonição de Yaiá” do site do ex-deputado, com multa diária de 10 mil reais, no caso de desobediência. Em 13 de maio, a juíza Marielza Brandão Franco, em decisão liminar, mandou retirar o texto, a esta altura reproduzido em centenas de sites pela internet, da página de José e reduziu a multa diária a 200 reais. “Esta é a primeira tentativa clara de cercear minha liberdade em 35 anos de carreira jornalística”, lamenta o ex-deputado.

Enquanto aguarda a decisão final do Tribunal de Justiça sobre as ações, o jornalista coleciona apoios de entidades de defesa de direitos humanos e reúne novos documentos sobre a participação do ex-capitão da PM na repressão durante a ditadura. Brandão deverá ser um dos primeiros convocados pela Comissão Estadual da Verdade, a ser instalada nos próximos dias, em Salvador, pelo governador petista Jaques Wagner. Também deverá ser convidado a falar na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa, também instalada recentemente.

Em 25 de abril, em depoimento ao Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, Carvalho havia confirmado a exatidão do conteúdo tanto do relato da mãe, Dona Yaiá, quanto do artigo do ex-deputado. Na terça-feira 21, a CartaCapital o professor afirmou ter reconhecido o capitão Brandão no instante em que ele entrou na sala onde o haviam colocado para ser torturado, no quartel dos Dendezeiros. “Ele também me reconheceu, da Faculdade de Direito, tanto que me chamou de Renato, e não de ‘Joel’, meu nome de guerra no PCBR.”

No fim do ano passado, em um evento para empresários evangélicos, Brandão confessou a uma plateia na qual estava o deputado federal Anthony Garotinho que antes de ser cristão era um advogado corrupto e corruptor, além de cidadão “pronto para matar alguém”. Portava sempre uma pistola calibre 45 com dois carregadores cheios de balas. O pastor não respondeu aos pedidos de entrevista da revista. Segundo uma secretária da Igreja do Caminho das Árvores, ele estava em viagem.

Leandro Fortes-Carta Capital

Cadeia para os farsantes

27 maio

 Está ocorrendo no DF a prática deprimente do paciente de aluguel que se dirige ao hospital para tumultuar o atendimento e denegrir a imagem do governo_Chico Vigilante

Está ocorrendo no DF a prática deprimente do paciente de aluguel que se dirige ao hospital com o único intuito de tumultuar o atendimento e denegrir a imagem do governo. Na história da humanidade a farsa e os farsantes coexistiram com a verdade deixando seres humanos incrédulos diante da capacidade de mentir e enganar de alguns, em benefício próprio ou de outros, em troca do pagamento de propinas.

Muitas vezes os vilões se utilizam de crianças ou de pessoas culturalmente ou economicamente miseráveis para alcançar os seus fins. Tema de romances e filmes, estes fatos continuam a acontecer, longe e perto de nós, mas nunca deixa de nos surpreender.

Um dos grandes vilões da literatura,  o velho judeu delinquente Fagin, que treina e ensina jovens a serem ladrões, na Inglaterra do período vitoriano, foi criado por Dickens, escritor inglês de imensas tiragens e que contribuiu poderosamente para a abolição de várias injustiças que compunham as condições sociais da época, pelo realismo impressionante com o qual as relatava.

Ao contrário de muitos que nos dias de hoje se deixam levar por interesses escusos em troca de benefícios, o personagem principal do romance Oliver Twist, de Dickens, apesar de ter apenas 9 anos e viver inadvertidamente junto a um bando de marginais, não se deixa corromper. Levado a fazer um assalto acaba ficando do lado dos proprietários da casa, e contra os ladrões que o acompanhavam.

Um outro trambiqueiro, Victor Lustig, da República Checa,  este não apenas personagem de romance mas criatura do mundo real, criou uma série de golpes no início do século XX e ficou famoso por vender a Torre Eiffel parisiense em um leilão para sucateiros. Duas vezes.

Numa delas reuniu-se com empresários no luxuoso Hotel de Crillon, e identificando-se como diretor do Ministério de Correios afirmou que o governo estava interessado em vender a torre para ajudar na recuperação da economia da cidade, abalada durante a Primeira Guerra Mundial.

Fechou negócio com o empresário Andre Poisson, depois que esse ofereceu suborno ao golpista para ter preferência na compra. Lustig fugiu para Viena com o valor da venda e o valor do suborno. Antes de ser pego e sentenciado à prisão perpétua em 1935, conta-se que chegou a aplicar golpes de investimentos até no poderoso gangster Al Capone.

Do outro lado do Atlântico, um outro farsante ficou também mundialmente conhecido. Preso em Nova York, em 1928, George C. Parker ficou famoso por “vender” monumentos importantes da cidade para turistas ricos e incautos. Os negócios de Parker incluíram a venda do Madison Square Garden, do Túmulo de Grant, do Museu Metropolitan e até da Estátua da Liberdade. Mas seu monumento mais vendido, com certeza, foi a Ponte do Brooklyn. Segundo o próprio, ele chegou a vender a ponte duas vezes por semana durante vários anos seguidos, convencendo os turistas de que poderiam ganhar toneladas de dinheiro com o volume de tráfego que entrava e saia da Big Apple. A polícia de Nova York chegou a prender alguns dos seus clientes enquanto tentavam erguer pedágios no local.

Histórias longínquas de farsantes a parte, vamos às atuais. Muito me indignou um fato presenciado por meu filho, Flávio, de 29 anos, na sexta-feira, 10 de maio, dentro do Hospital de Ceilândia, durante a madrugada, quando lá esteve para acompanhar seu tio que sofrera uma queda.

Lá ficaram por cerca de uma hora e meia, tempo suficiente para o atendimento pelo ortopedista, a radiografia e o diagnóstico médico. Ao saírem se depararam com uma cena totalmente inusitada: uma mulher, visivelmente sem nenhum problema de saúde, deitada num dos bancos da recepção, gritava palavras de baixo calão contra o governador Agnelo, afirmava não mais votar neste governo e reclamava da qualidade do atendimento do hospital.

Depois de uma meia hora de gritos e impropérios, perturbando pacientes e servidores, a mulher, que se negou a preencher a ficha de atendimento, foi embora sem ao menos responder à pergunta dos atendentes sobre qual era seu problema de saúde.

Ao ouvir este relato de meu filho e conversarmos sobre a questão cheguei à clara conclusão, e quero deixar aqui a denúncia: está ocorrendo no DF a prática deprimente do paciente de aluguel com o objetivo claro de denegrir a imagem do governo.

Pessoas estão sendo pagas por indivíduos sem escrúpulos, inconformados com o projeto petista de governar, para promoverem espetáculos dantescos em hospitais a fim de se criar um clima de insatisfação em relação à rede pública de saúde. Daí para grupos de pretensos insatisfeitos partirem para a agressão e quebra quebras do patrimônio público de hospitais é um passo.

Deixo aqui meu protesto e uma advertência para aqueles que pensam não estarmos percebendo onde querem chegar. Já providenciamos uma investigação para saber quem está terceirizando pacientes para fazer comício em porta de hospital e denegrir a imagem do governador e do sistema público de saúde do DF.

Chico Vigilante-Brasil247

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