Archive | maio, 2013

Conversa às Três e Meia da Madrugada (Charles Bukowski)

30 maio

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às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

Tela: Jack Vettriano – The Same Old Game (1993)

Direto do Facebook por República Cosa Nostra e Sylvia Manzano

A tragédia Irônica da Burguesia Nacional by Edu Franco

30 maio

Latuff serra

KKK! Nossa classe média anda tomando aulas de ironias do destino: violenta, mal educada, escravagista, preconceituosa, passou oito anos reverberando todo tipo de insulto a um presidente por que o mesmo não veio do mesmo “berço” “educado” que ela; oito anos agourando um governo que colheu todos os sucessos e homenagens que nenhum outro governo no mundo conseguiu em tão pouco tempo. Isso frente a tantos e tão grandes problemas como sempre existiram em nosso país.Enquanto a classe média afiava a sua língua tão educada, vinham pessoas ilustres do mundo todo demonstrar o seu encanto pelo operário presidente, artistas, grandes estrelas do rock e de Hollywood, estadistas dos países mais importantes do mundo, intelectuais de ponta do século vinte, jornais da França, Inglaterra,Espanha, USA, indicação ao Nobel, prêmios e mais prêmios…e a classe média teve que enfiar isso na goela, engolir o sucesso mundial do sapo barbudo como dizia o grande Brizola.
O operário saiu do seu posto com tantos prêmios e com um país credor, com reservas, com reduções de índices de subdesenvolvimento inacreditáveis.

A classe média não sossegou,virou sua artilharia de insultos para os programas sociais, eles acham que a miséria não é problema do estado, que o estado não existe para atender a população, o mundo capitalista também não existe para isso, então eles querem é que as pessoas permaneçam lá onde sempre estiveram, na senzala, bichos de carga, mas é meio tarde para isso. Então o fogo se concentrou no “Bolsa Família”, e o Bolsa Família virou o programa social mais premiado do mundo, citado por artistas do rock, pelos principais estadistas do planeta, copiado em 65 países, em vários países da Europa fragilizados pela maior crise do capitalismo contemporâneo, e o Bolsa Família vai ser implementado na cidade mais moderna do mundo – New York
– Para! Não, New York não, assim não dá, assim já é demais!

Ando com pena da nossa classe média, ela anda sofrendo de ironia crônica do destino, eles adoram os americanos, mas os americanos adoram o Lula, eles adoram os europeus , mas os europeus adoram o Lula, eles odeiam os brasileiros vira latas, mas o primeiro mundo resolveu amar os brasileiros, eles abominam o bolsa família, mas a Europa adotou e, para completar a tragédia, New York vai implementá-lo, ando com pena da nossa classe média, o mundo passou na janela e só Carolina não viu, tava falando mal do Lula no Iphone, não percebeu que o Brasil mudava e que seus argumentos foram derrubados um a um, pobre burguesia dividindo o banco do avião com que antes lhe servia, sheet, C’est La Vie.
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Edu Franco-jornalista e músico

James Mollison:. Where Children Sleep

30 maio

A série do fotógrafo inglês James Mollison apresenta fotografias de quartos infantis de todo o mundo (EUA, México, Brasil, Inglaterra, Itália, Israel e Cisjordânia, Quênia, Senegal, Lesoto, Nepal, China e India), revelando diferenças chocantes entre os países, desde meninas com vestidos caríssimos em suas mansões particulares até garotos que dormem no chão.

As fotos foram publicadas em um livro intitulado “Where Children Sleep”.

“Espero que o livro ofereça uma oportunidade de refletir sobre a desigualdade que existe, e perceber o quão sortudo a maioria de nós, no mundo desenvolvido, somos”, diz James.
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Roberto Civita (1936-2013) by Paulo Nogueira

28 maio

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Não é fácil escrever sobre a morte de Roberto Civita, para mim.

A Abril foi minha casa, a Abril foi minha escola, a Abril foi meu amor, com os altos e baixos de todas as paixões.

E Roberto Civita era a Abril.

“Você é como um filho para mim, Paulo”, ouvi dele certa vez. Acho que ele estava sendo sincero. Ou pelo menos eu era o Paulíssimo, como ele me chamava nos e-mails intermitentes que jamais deixamos de trocar.

Quando deixei a Abril, em 2006, frustrado por não ter sido promovido a presidente executivo como tinham me prometido, RC disse para mim na conversa de despedida: “A Abril vai ser sempre sua casa”.

Se a nossa casa definitiva é a casa da juventude, dos grandes anos e das grandes esperanças, ele não poderia estar mais certo.

RC carregou, desde logo, o inevitável fardo dos herdeiros. Você o tempo todo tem que provar – para você mesmo – que não é apenas filho de seu pai.

Você o tempo todo procura se diferenciar de seu pai, e isto nem sempre é bom.

No caso de Roberto Civita, ele acabou tendo um estilo de administração muito mais distante do que o de seu pai, o fundador Victor Civita.

Seu Victor dirigia o próprio carro, e andava sempre pela empresa, com seu sorriso quilométrico e a simplicidade de quem você não vai estranhar se encontrar na feira.

Roberto adotou um modelo mais distante de comandar a empresa. Isso se refletiu, sobretudo, em seus principais subordinados.

Um presidente executivo recém-contratado me contou certa vez que, logo ao chegar, quis visitar a redação da Exame. Perguntou a um veterano vice-presidente em que andar ficava. “Não sei”, foi a resposta.

Outro traço em que Roberto se afastou do pai foi na atitude perante o negócio. Seu Victor foi essencialmente um empreendedor: fez revistas, e fez hotéis, frigoríficos, clubes de livros etc.

Não se tinha propriamente na conta de editor, e isso acabou deixando mais espaço por vários anos para profissionais brilhantes.

Você só entende Mino Carta como diretor da Veja à luz da distância de Seu Victor. Mino conseguiu assinar um contrato pelo qual a família Civita só comentava a revista depois que ela estava pronta.

Na cabeça pragmática de Victor Civita pareciam estar claros os papeis: todos os jornalistas eram seus empregados, como o organograma demonstrava. Tinham que fazer bons textos, boas legendas, boas capas, bons títulos, boas fotos.

A clareza da subordinação dos jornalistas evitou que se estabelecessem rivalidades entre dono e jornalistas. O editor poderia dar uma entrevista na televisão, ser chamado de gênio e bajulado, mas não deixaria de ser empregado de Victor Civita.

A cena mudou quando, no início dos anos 80, Victor Civita – num gesto que se tornaria inspirador para muitos empreendedores brasileiros – se afastou dos negócios no gozo de saúde e lucidez e dividiu-os entre os dois filhos, Roberto, o primogênito, e Richard.

O patriarca Victor Civita tinha uma relação menos apaixonada com as revistas
Roberto ficou com o pedaço principal, as revistas. E seu envolvimento com elas foi muito mais intenso, muito mais apaixonado e muito mais complexo do que o de seu pai.

Isso trouxe coisas boas e coisas ruins. Um dono que ama visceralmente o negócio dá à comunidade um sentimento de orgulho considerável: estamos fazendo uma coisa incrível. Somos parte de um tremendo projeto.

Mas há, por outro lado, uma inevitável ocupação de um espaço que estava livre. Roberto Civita acabou pegando as revistas para si, sobretudo a Veja – com a qual ele teve uma relação de amor total, incondicional, à prova de tudo, como se fossem ambos Romeu e Julieta.

Com isso, o papel dos editores profissionais foi se tornando menor. Entendo que reside aí a explicação do que aconteceu nos últimos anos na Veja.

Depois de duas grandes gestões, a de Mino Carta, primeiro, e a de JR Guzzo e Elio Gaspari depois, a Veja acabaria sendo entregue a editores que, limitados, não fizeram os contrapontos indispensáveis a Roberto Civita. E No caso de RC o contraponto era crucial: ele não era um editor natural como, por exemplo, Henry Luce, o criador da Time. Ele era, acima de tudo, um animador.

Curiosamente, o que houve acabou sendo a negação a uma máxima que RC gostava de repetir: “Uma revista é seu editor”.

A falta de contraponto acabaria levando a duas calamidades editoriais que destruiriam a aura de equilíbrio e pluralidade que foi a grande marca da Veja em seus anos de ouro.

Primeiro foi Diogo Mainardi, com sua selvagem caça a Lula, a quem chamava de sua “anta”. No começo dos anos 2000, Mainardi mainardizou a Veja. O espírito intolerante e brutal de sua coluna como que se espalhou pela revista.

O serviço seria completado por Reinaldo Azevedo, com seu blog raivoso, extremista, no qual a “anta” foi substituída pelo “apedeuta”.

Um bom editor teria percebido logo os estragos provocados por ambos, e teria alertado RC sobre as infrações ao jornalismo decente dos dois. Num certo momento, a Veja, por Azevedo, estava chamando Nassif de ‘nassífiles’, o que era inimaginável antes.

Cada um a seu jeito, Mainardi e Azevedo contaminaram a maneira de ver o mundo da Veja – e também a maneira como o mundo vê a Veja.

Editores mais fortes teriam impedido a ação corrosiva de Mainardi e Azevedo.

Fiquei impressionado com as manifestações de ódio de que foi objeto, em sua doença e morte, Roberto Civita nas redes sociais na internet.

A Abril foi, durante muitos anos, amada pelos brasileiros, paulistanos sobretudo. Uma das campanhas marcantes da empresa tocava nisso: “A Abril faz parte de sua vida”.

Fazia mesmo, com suas revistas de alto nível, com suas coleções como Os Pensadores e tantas outras. A Abril popularizou até a música clássica numa coleção primorosa.

É naquela Abril, em seu espírito único entre as empresas jornalísticas brasileiras, que a nova geração poderá encontrar respostas para o futuro da casa nesta era digital.

A receita estava lá. Está lá.

Vou lamentar, evidentemente, o silêncio do conversador extremamente charmoso, divertido, provocador, inteligente – com seu sotaque americano jamais superado.

Vou lamentar a ausência dos e-mails destinados ao Paulíssimo, e terei que matar a saudade nos que guardei, assim que a leitura não doer tanto.

Pensarei nele sempre com um exemplar de sua tão amada Veja nas mãos. Acho que se ele pudesse negociar sua próxima vida, esta seria uma das principais exigências – a possibilidade de ler a Veja.

Roberto Civita, o RC, com toda a sua complexidade, vai estar para sempre vivo em minha memória, em meu coração e em minha gratidão.

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Paulo Nogueira-Diário do Centro do Mundo

Responsabilidade face ao futuro da espécie humana_ by Leonardo Boff

27 maio

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A aceitação do conceito da Mãe Terra, inclusive pelas Nações Unidas, vem ao encontro daquilo que já nos anos 20 do século passado o geoquímico russo Wladimir Vernadsky conceitualizou como biosfera. Esse reconhecimento comporta consequências importantes. A mais imediata delas é que a Terra viva é titular de direitos.
Leonardo Boff

Numa votação unânime de 22 de abril de 2009 a ONU acolheu a ideia, durante muito tempo proposta pelas nações indígenas e sempre relegada, de que a Terra é Mãe. Por isso a ela se deve o mesmo respeito, a mesma veneração e o mesmo cuidado que devotamos às nossas mães. A partir de agora, todo dia 22 de abril não será apenas o dia da Terra, mas o dia da Mãe Terra.

Esse reconhecimento comporta consequências importantes. A mais imediata delas é que a Terra viva é titular de direitos. Mas não só ela e, sim, também todos os seres orgânicos e inorgânicos que a compõem; são, cada um a seu modo, também portadores de direitos. Vale dizer, cada ser possui valor intrínseco, como enfatiza a Carta da Terra, independentemente do uso ou não que fizermos dele. Ele tem direito de existir e de continuar a existir neste planeta e de não ser maltratado nem eliminado.

Essa aceitação do conceito da Mãe Terra vem ao encontro daquilo que já nos anos 20 do século passado o geoquímico russo Wladimir Vernadsky (1983-1945), criador do conceito de biosfera (o nome foi cunhado do geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914) que chamava de ecologia global no sentido de ecologia o globo terrestre como um todo. Conhecemos a ecologia ambiental, a politico-social e a mental. Faltava uma ecologia global da Terra tomada como uma complexa unidade total. Na esteira do geoquímico russo, recentemente, James Lovelock, com dados empíricos novos, apresentou a hipótese Gaia, hoje já aceita como teoria científica: a Terra efetivamente comparece como um superorganismo vivo que se autorregula, tese apoiada pela teoria dos sistemas, da cibernética e pelos biólogos chilenos Maturana e Varela.

Vernadsky entendia a biosfera como aquela camada finíssima que cerca a Terra, uma espécie de sutil tecido indivisível que capta as irradiações do cosmos e da própria Terra e as transforma em energia terrestre altamente ativa. A vida se realiza aqui.

Nesse todo se encontra a multiplicidade dos seres em simbiose entre si, sempre interdependentes de forma que todos se autoajudam para existir, persistir e co-evoluir. A espécie humana é parte deste todo terrestre, aquela porção que pensa, ama, intervém e constrói civilizações.

A espécie humana possui uma singularidade no conjunto dos seres: cabe-lhe a responsabilidade ética de cuidar, manter as condições que garantam a sustentabilidade do todo.

Como descrevemos no artigo anterior, vivemos gravíssimo risco de destruir a espécie humana e todo o projeto planetário. Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos que significaram um desarranjo perverso do equilíbrio do sistema Terra. Como enfrentar esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada?

Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos agora, brevemente, apresentar um complemento necessário: a ética da responsabilidade do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993) com o seu conhecido Princípio responsabilidade, seguido pelo Princípio vida.

Jonas parte da triste verificação de que o projeto da tecno-ciência tornou a natureza extremamente vulnerável a ponto de não ser impossível o desaparecimento a espécie humana. Daí emerge a responsabilidade humana, formulada neste imperativo: Aja de tal maneira que os efeitos de suas ações não destruam a possibilidade futura da vida.

Jonas trabalha ainda com outra categoria que deve ser bem entendida para não provocar uma paralisação: o temor e o medo (Furcht). O medo aqui possui um significado pedestre, um medo que nos leva instintivamente a preservar a vida e toda a espécie. Há efetivamente o temor de que se deslanche um processo irrefreável de destruição em massa, com os meios diante dos quais não tínhamos temor em construir e que, agora, temos fundado temor de que nos podem realmente destruir a todos. Daí nasce a responsabilidade face às novas tecnociências como a biotecnologia e a nanotecnologia, cuja capacidade de destruição é inconcebível. Temos que realmente nos responsabilizar pelo futuro da espécie humana por temor do desaparecimento e muito mais por amor à nossa própria vida. Queremos viver e irradiar.

Financial Times: o roto falando do bem cosido

26 maio

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É interessante o modo como o jornal britânico constrói a retórica contra o governo Dilma: primeiro, fala-se de tudo o que Brasil conquistou recentemente; depois, garante, tudo isto não passa de uma “fachada”; daí vem a ladainha da miséria: na verdade, este bem-estar aparente esconde um mal-estar.
Flávio Aguiar

Em editorial de 19/05/2013 (“Go-go to go-slow”), o Financial Times “rides again” contra o Brasil e contra o governo Dilma.

É interessante o modo como se constrói a retórica. Primeiro, fala-se de tudo o que Brasil conquistou recentemente: recorde no leilão da Petrobrás, 11 bilhões de dólares; a captação da oferta pública da carteira de seguros do Banco do Brasil permanece sendo a maior, 5,6 bi. Empresas de petróleo pagaram 1,4 bi por licenças de exploração. Um diplomata brasileiro está à testa da OMC. A popularidade de Dilma está na estratosfera, “graças ao pleno emprego”. A sua reeleição parece garantida.

Mas, garante o jornal, tudo isto não passa de uma “fachada”. Daí vem a ladainha da miséria: na verdade, este bem-estar aparente esconde um mal-estar. Os investimentos caem (como se explica isto diante dos números do outro parágrafo é um mistério). O Brasil só reinveste 18% do seu produto, contra 24% do conjunto da América Latina e 30% da Ásia.

O modelo baseado no consumo interno está esgotado. O estilo “deixa-que-eu-chuto” (“Bossy-boots”, um insulto de natureza pessoal) da presidente é inadequado politicamente, as decisões são demasiadamente centralizadas. Isto favorece o combate à corrupção,o jornal admite, mas atrasa as decisões. Seu governo não aplica as necessárias reformas favoráveis ao mercado (“[the governement] eschewed market-oriented reforms”) em favor de indústrias com lobbies tradicionais, como as montadoras.

Diz-se que o Brasil está perdendo oportunidades. O dinheiro (para investir em infra-estrutura, por exemplo) está sobre a mesa, mas parado. É tempo de agir, adverte o jornal. O dinheiro está barato, mas não vai ser sempre assim.

De novo, fica aquele cheiro de queimado no ar. Trata-se de levantar a bola do companheiro Aécio? De baixar a bola do Brasil em tempos de sucesso? De associar pleno emprego e desaceleração econômica? (Sem falar nos aumentos de salário para quem não investe nem sabe gastar, como o povão)? Tudo junto incluído? Pode ser. Porque a bem costurada política econômica brasileira – com seus rasgões e remendos existentes e por fazer – vai dando certo, e por isso mesmo só mderece o desprezo – que disfarça o pânico – de quem pensa sempre “market-oriented”.

Mas o cheiro de queimado permanece, e se estende. Porque ele vem das entranhas do jornal. Tudo o que seus editoriais defendem já deu e está dando errado. O ideário “market-oriented” que é a pedra de fundamental de seu ideário está levando a Europa – onde ele vive, o jornal – para a hecatombe, porque para o brejo já levou.

No dia seguinte ao do editorial (20/05, “Europe’s Hollow Efforts to Save a Lost Generation”, “O esforço vazio da Europa para salvar uma geração perdida”) a Spiegel International publicou uma matéria escachapante sobre o desemprego entre os jovens na Europa. A palavra “hollow” significa “vazio”, “oco”, “cavidade”, “buraco”; mas ela tem uma conotação moral. Quer dizer também “insincero, irreal, pouco profundo, sem valor”. É uma das palavras-chave de poema famoso de T. S. Eliot, “The hollow mwn”, escrito em 1925, na moldura do desencanto vivido na esteira da Primeira Guerra Mundial:

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparadosd
O elmo cheio de nada. Aí de nós!,

(Na tradução de Ivan Junqueira)

O vaticínio do poema pode se aplicar tanto os “maket-oriented” hegemônicos na Zona do Euro, como o mundo que estão moldando, semeando o desencanto e o desespero num continente que vai perdendo o passo do futuro.Os números são estapafúrdios. Mesmo na próspera Alemanha, de pouco desemprego, entre os de menos de 25 anos (e 18 ou mais) o desemprego é de 7,9%. No restante da Zona do Euro: Áustria, 9,9%; Holanda, 10,3%; Malta, 16%; Luxemburgo, 18,5%; Estônia, 19,4%; Finlândia, 19,5%; Bélgica, 19,6%; França, 26,9%; Eslovênia, 27,1%; Chipre, 28,4%; Irlanda, 30,9%; Eslováquia, 35,9%; e agora os campeões – Portugal, 38,6%; Itália, 38,7%; Espanha, 55,5% e Grécia, 59,4%. Média ponderada, 23,5%: uma catástrofe. Nas palavras da matéria, “Está se formando na Europa uma geração perdida”.

Voltemos ao período entre-guerras. A expressão “uma geração perdida” foi usada como epigrafe no romance “O sol também se levanta”, de Ernest Hemingway, começado em 1925 e publicado em 1926. Na época o autor atribuiu a expressão à escritora Getrude Stein, e ele mesmo associou-a à geração que amadureceu durante a Primeira Guerra Mundial e foi por ela irremediavelmente “danificada”. Depois Hemingway escreveu que na verdade o criador da expressão fora o proprietário da oficina onde Stein mandava consertar seu carro.
Voltando ao nosso século, o artigo da Der Spiegel assinala que a aversão das elites políticas européias por qualquer coisa que signifique “dispêndio de verbas” vai estrangulando na prática os programas e promessas de criação de projetos para estimular a geração de empregos em geral, quanto mais entre os mais jovens. “Big promises, scant results”, resume a revista: “Grandes promessas; resultados pífios”, traduzindo livremente.

Enumera a revista: em fevereiro deste ano o Conselho Europeu votou um investimento de 6 bilhões de euros até 2020 para geração de empregos entre os mais jovens, mas desavanças entre os países-membros sobre a aplicação do dinheiro fez o começo do programa ser postergado para 2014. Um programa de investimento franco-germânico nos países do “sul da Europa” com o mesmo objetivo permenece “nebuloso”, apesar do entusiasmo da ministra alemã do Trabalho, Ursula von der Leyen, uma candidata da CDU à uma possível sucessão de Angela Merkel. A prática alemã tem sido mais a de contratar jovens nos países mais prejudicados para trabalhar… na Alemanha, o que não ajuda muito a economia destes.

Novas promessas estão em curso, pelo menos no plano das intenções. A próxima cúpula européia deve priorizar o tema. Mas pouco será feito, provavelmente, dentro da ótica de mostrar para o público em geral que está se fazendo tudo o que é possível gastando o menos possível também. Alertados pelas lições da história advindas daquele período da “geração perdida” e dos “homens ocos”, analistas de diferentes procedências (historiadores, economistas não obcecados pela “market-orientation”, escritores, artistas, antropólogos, psicólogos, etc.) vêm advertindo sobre os riscos inerentes a esta situaçào européia: afinal, foi naquele “vazio de perspectivas” que os nazi-fascismos prosperaram.

Mas nada disto abala os “market-oriented”. Sem sombra de dúvida, o sem mundo de certezas iluminadas não admite sombras nem dúvidas. Muito menos uma sombra do tamanho do Brasil.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

O alerta do Bolsa Família: quem sabe faz a hora by Saul Leblon

26 maio

Por Saul Leblon-Carta Maior

Uma dimensão negligenciada do boato sobre a extinção do Bolsa Família foi a mobilização instantânea de 900 mil pessoas, detentoras do benefício em 13 estados.

O alarme falso, de natureza e origem ainda indefinidas, foi orquestrado, sobretudo, no Norte e Nordeste do país.

Mais de R$ 150 milhões em benefícios seriam sacados nessas regiões.

Tudo em 48 horas; num fim de semana.

O valor significativo mereceu destaque.

As suspeitas quanto à origem da mentira produziram vapor.

Mas o potencial político da mobilização de dezenas de milhares de pessoas tocadas pela ameaça a um direito adquirido, persistiu na sombra.

Não deveria.

Essa foi a primeira manifestação conjunta, não eleitoral, de um universo de brasileiros considerado uma esfinge política à direita e à esquerda.

Se foi um ensaio de coisa pior, certamente a octanagem da amostra está sendo analisada com cuidado por quem de direito.

Ainda que as investigações desqualifiquem tal suspeita, o governo não deveria menosprezar a preciosa informação que lhe chegou por vias tortas.

Criado há dez anos sob o guarda-chuva da política brasileira de segurança alimentar , apelidada de Fome Zero, o Bolsa Família tem poder inflamável 14 vezes superior à escala das mobilizações registradas no Norte e no Nordeste.

Quase 14 milhões de famílias em todo o país (leia a análise de Eric Nepomuceno; nesta pág) tem direito às transferências do programa, de US$ 35, em média, por mês.

As mulheres detém a titularidade de 94% dos cartões de acesso aos saques.

Gerem, portanto, um benefício que contempla uma fatia da população equivalente a 52 milhões de brasileiros: 25% do país.

Quem são essas mulheres?

O que pensam? O que pretendem do desenvolvimento do país? Que papel essas guerrilheiras da linha de frente da luta contra a miséria podem ter na democracia brasileira?

O governo, com razão, substituiu o ‘clientelismo’ potencial em qualquer programa social por um cartão magnético do Bolsa Família.

A tecnologia estabeleceu uma relação direta sanitária entre o detentor do benefício e a política pública de Estado.

O cuidado louvável encerra uma contrapartida de rebaixamento político que o episódio do falso boato talvez a ajude a corrigir.

Quando foi criado em janeiro de 2003, o Fome Zero, repita-se, nome fantasia da política de segurança alimentar brasileira, que envolve agricultura familiar, merenda escolar, transferência de renda etc , incluía uma dimensão participativa.

Rapidamente ela seria demonizada pelo conservadorismo.

Os Comitês Gestores do Fome Zero formavam a contrapartida de engajamento social do programa.

Eram compostos majoritariamente por representantes das famílias beneficiadas, aglutinadas em núcleos municipais.

A emergência de um duplo poder local despertou virulenta oposição de prefeitos e coronéis políticos.

O cerco ao programa –que apresentava falhas na largada– era insuflado por uma mídia que transformaria a principal bandeira do novo governo em uma espécie de terceiro turno contra o PT.

Os comitês que deveriam cogerir e aperfeiçoar o FZ em parceria com a sociedade local, a prefeitura e o governo federal foram extintos.

O recuo jogou para um futuro incerto a retomada do engajamento indispensável em ações sociais de recorte emancipador.

Esse futuro pode ter chegado na forma de um alerta, travestido em boato explosivo.

Se a escala atingida pelo Bolsa Família deu razão ao recuo pragmático feito há dez anos, hoje a ausência de um fórum participativo para as 14 milhões de famílias soa como uma aberração democrática.

O destino dessas famílias está no centro das escolhas do desenvolvimento brasileiro.

E vice versa.

Esse entrelaçamento sócio-econômico é uma pedra no sapato da agenda conservadora nos dias que correm.(Leia mais sobre esse tema no artigo do economista Amir Khair; nesta pág)

Em 2002, cerca de 75 milhões de brasileiros subsistiam com menos de meio salário mínimo per capita.

Mais da metade dispunha de apenas 25% do mínimo.

Formavam por assim dizer o rosto anônimo da fome brasileira, palavra então repelida até na academia.

Isso para não falar de sua rejeição em editoriais e colunas, inflexíveis na recusa à evidência biológica da desigualdade produzida pelos livres mercados.

Associada ao ganho real da ordem de 65% no poder de compra do salário mínimo, a política social dos últimos 11 anos tirou 30 milhões de brasileiros da miséria.

Quase 40 milhões ascenderam na pirâmide de renda no mesmo período.

O novo perímetro do consumo de massa redefiniu a geografia da produção e da demanda brasileira.

Na crise internacional de 2008, a novidade desdenhada até então pelo ‘jornalismo especializado’ provou a sua relevância estratégica.

O mercado interno sustentou e ainda sustenta a engrenagem econômica, diante da contração do comércio internacional.

O novo dínamo tem um custo permanentemente demonizado pelo conservadorismo. Inicialmente, de forma desabrida, condensado em expressão de sonoridade tão preconceituosa que dispensa explicações: ‘a gastança’.

Ela sumiu do vocabulário dos centuriões da ortodoxia depois que a política social provou sua pertinência contracíclica diante da desordem neoliberal.

A motivação demolidora embutida no termo migrou para versões cifradas mais palatáveis.

‘Fazer mais e melhor’ é uma delas.

‘Reduzir o custo Brasil’, outra.

Uma que contagia inclusive alas contorcionistas do governo é a sebosa dissimulação do arrocho inscrita no bordão’ fazer mais com menos’

O alvo é o de sempre.

A rubrica do orçamento federal denominada ‘transferências de renda às famílias’.

Ela ocupa espaço importante no centro da mira conservadora.

Incluem-se aí benefícios previdenciários, abono, seguro desemprego, benefícios assistenciais (da Lei Orgânica de Assistência Social e da Renda Mensal Vitalícia) e o programa Bolsa Família.

O conjunto demandou recursos da ordem de 9% do PIB em 2012.Mas seu raio de açaõ atinge direta ou indiretamente cerca de 100 milhões de pessoas; 52% do país.

O que o conservadorismo carimba como ‘gastança’ faz parte de uma mutação inconclusa do desenvolvimento do país.

Uma sociedade que já viveu diferentes ciclos de expansão –da colônia à ditadura– chegou ao século 21 como uma das 15 piores distribuições de renda do planeta.

A lição é límpida.

Sem crescer é ilusório, mas o mero crescimento pode ter efeito irrelevante na construção da justiça social.

Além de engordar o PIB, a sociedade precisa fixar estacas de regulação que revertam os ganhos (indispensáveis) de produtividade ao bem comum.

Essa é uma tarefa da democracia, não dos mercados.Ao contrário do que apregoam os arautos do choque de ‘abertura externa e de corte de gastos’ (leia-se, laissez-faire com arrocho na previdência e corrosão do salário mínimo).

Estados fragilizados, descarnados por privatizações, sucateamento de quadros, obsolescência de gestão e atrofia fiscal que asfixia o investimento público são incapazes de catalisar as aspirações da sociedade na direção de um desenvolvimento convergente.

A reconstrução do Estado Social é uma ferramenta decisiva à reordenação da agenda do desenvolvimento em nosso tempo.

Mas isso não se faz sem sujeito histórico correspondente, dotado de organização mínima que institucionalize seus interesses.

Obama, por exemplo, não conseguiria ser o Roosevelt da crise atual.

Nem que quisesse.

Faltam-lhe as bases organizadas, necessárias à condução de um Estado social e keynesiano.

Algo que o sindicalismo combativo dos anos 30/40 propiciou ao democrata que comandou os EUA entre 1933 e 1945.

O Estado social brasileiro é uma arquitetura política em construção. Com progressos, recuos e contradições sabidos.

Não avançará muito mais se menosprezar as forças catalisadas pelas políticas sociais dos últimos dez anos.

A assustada reação dos beneficiários do Bolsa Família no Norte e Nordeste, com o boato do fim do programa, enseja variadas reflexões.

Mas uma delas é promissora.

A ninguém ocorre fazer de 14 milhões de famílias uma correia de transmissão de conveniências de governos. Sejam eles quais forem.

Negar canais de expressão às demandas e aspirações específicas desse contingente, no entanto, é entregá-lo a toda sorte de manipulações.

O boato de maio pode ter sido obra de meros irresponsáveis.

Mas serve de alerta.

Um governo atento não negligencia o potencial revelado pelos alertas da história.

Em 29 de junho de 1973, um ‘tancaço’ de militares rebelados emitiu um alerta incorretamente interpretado pelo presidente socialista de um Chile até então considerado ‘fronteira inexpugnável da democracia regional’.

Em lugar de promover um salto na autodefesa popular, ele promoveu um general ‘profissional’ a ministro da Defesa, por supostamente ter debelado o levante dos blindados.

Todos sabem como o agraciado Augusto Pinochet utilizou seu profissionalismo contra Salvador Allende, quarenta e dois dias depois.

Dificilmente os comitês gestores do Fome Zero serão ressuscitados.

Mas a meta original de dar voz e espaço na condução do programa aos seus principais interessados pode e deve ser recuperada.

Uma Conferência Nacional das mulheres que fizeram do Bolsa Família uma referência mundial na luta contra a fome e a miséria, por certo adicionaria avanços ao programa.

E musculatura à cidadania brasileira.

Mais que isso.

Responderia aos alertas da história com um contrafogo democrático de amplo espectro. Em defesa não apenas do Bolsa Família. Mas do Estado social que o Brasil precisa fortalecer para acelerar a mutação do seu desenvolvimento.

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