A Mídia e o Quarto Poder

4 jul

Kane 4
1) Introdução:

O presente artigo se propõe a esclarecer de que forma a mídia atuou e tem atuado na historia da república brasileira. A ela sempre coube um papel de destaque atuando quase de forma invisível mas permanentemente influenciando nas ações de governo e no comportamento da sociedade, extrapolando em muitos momentos o seu principal papel de bem informar de forma isenta o povo brasileiro. É fácil constatar a enorme influência da mídia na política. O livro de Thompson (2002), sobre escândalo político, mostra que a política é, hoje, ininteligível sem que levemos em consideração a variável mídia.

A política e os políticos trabalham com um material especial, que é a credibilidade. A matéria prima da política é a credibilidade, um capital simbólico. Ora, a mídia é o meio de produção desse capital, tanto para construí-lo, como para destruí-lo, como é o caso do escândalo político .Quando se fala em mídia como quarto poder é necessário ressaltar, de imediato, que esse assim chamado poder também ser um poder usurpado. Isso por que esse poder que a mídia se atribui não lhe foi conferido pelo povo, origem do poder legítimo nas sociedades democráticas. A mídia se arrogou esse poder por conta própria, sem levar em conta a população, mas baseada apenas em sua força econômica, política e ideológica,acumpliciando-se a setores da classe politica. Ninguém conferiu esse poder a ela.

2) CORONELISMO e a MIDIA:

Existe um paralelo entre a colonização do Brasil e a implantação da midia eletronica.Da mesma forma que o nosso território foi loteado em capitanias hereditárias doadas a determinadas famílias , há hoje um loteamento da midia escrita,falada e televisada entre algumas familias.O coronelismo tradicional se definia pelo poder e autoridade dos proprietários das terras no controle politico e o outro moderno consiste na posse da midia eletronica a serviço de bens de capital, estabelecendo estreita relação entre ambos. Grandes jornais são adquiridos por empresas fabricantes de armas,logo as últimas guerras mostraram que a primeira vítima das batalhas é a verdade.A mídia influi diretamente nas familias e em várias instancias da sociedade. Por que não educa para ser entendida?A construção da democracia em qualquer pais passa necessariamente pela democratização da midia em sua relação com a sociedade, caso contrario estaremos fadados a nos rendermos ao seu papel de quarto poder, lesivo aos interesses nacionais.

3) A era Vargas e a RADIODIFUSÂO:

A revolução de 30 representou um marco na historia política do Brasil, o pais começou a se construir institucionalmente.Os grupos que apoiaram Vargas em 30 não ofereceram ao estado a base de sua legitimidade, o que levou a celebração de um compromisso entre a classe média,setores da oligarquia , frações da burguesia e militares, ficando de fora somente a classe operária. Vargas com apoio do exercito, tornou-se o ponto de equilíbrio entre os interesses destes diferentes grupos.Em 1945 e 1954, o exército exprimiu o temor da mesma classe média que apoiou a revolução de 1930 e foi conduzida ao poder em 1937, diante do caráter mais popular de que se revestiu pouco a pouco o regime. A criação das leis trabalhistas, da justiça eleitoral , de ministérios , institucionalizou a relação do estado com o povo brasileiro, a questão social deixou de ser vista como caso de policia.

No estado novo a auto promoção das ações de governo, através da radiodifusão tornou-se uma atividade institucional. Apesar da figura austera, Vargas soube explorar com maestria o potencial de intimidade, característico do rádio para se aproximar do povo. Ao valorizar o sentimento patriótico em seus discursos radiofônicos e trabalhar pela unidade nacional, ele fortaleceu, também, sua imagem como estadista e líder, obtendo apoio popular. Aliás, o carnaval e outras manifestações culturais até então regionalizadas, mas possuidoras de ressonância popular, são transformadas em símbolos nacionais pelas ondas da emissora, como parte do processo de legitimação da identidade nacional que se construía. Assim, unindo norte e sul do País, o regime estimula a criação de valores comuns como “o brasileiro gosta mesmo é de mulher, samba e futebol”.Era a produção de bens simbólicos a serviço da legitimação política. A radio nacional tornou-se a grande divulgadora de talentos da música popular brasileira e a hora do Brasil o veiculo de divulgação das atividades de governo. A legislação da radiodifusão foi instituída em 1930, perdurando até 1962. A constituinte de 1946 além de vetar a presença de estrangeiros na direção de concessionárias de radiodifusão, criou dispositivo afirmando ser exclusivo aos brasileiros a responsabilidade principal e a orientação intelectual e administrativa.

O regime da Vargas passou a ser visto pelo americano com fortes restrições. Sob o pretexto de atacar a ditadura do estado novo , no fundo o alvo era o modelo economizo nacionalista , capitalista , que previa a intervenção do estado na economia, contrário aos preceitos liberais que ganhava novo folego no po?-guerra com a vitoria dos EEUU e dos ‘aliados’.

As medidas adotadas em relação a radiodifusão não agradou a Assis Chateaubriand que nesta altura já constituia um império envolvendo radio , revistas e jornais. Aliado em 30 das forças revolucionárias que levaram Vargas ao poder, Chateaubriand tornou-se opositor ao governo, assumindo a posição de que somente com ajuda do capital internacional o Brasil poderia desenvolver-se e integrar suas ações.Vargas não era contra o capital estrangeiro, porem defendia uma relação soberana do Brasil , sem se curvar aos interesses anti patrióticos. No segundo governo, as pressões pela queda de Vargas intensificaram-se. Em 1953 quando o projeto de criação da Petrobrás era votado em regime de urgencia na Camara, o total de publicidade pagas e distribuídas por companhias americanas nos jornais, rádio e outros veículos de propaganda oposicionistas, foi de 3 bilhões e 506 milhões de cruzeiros. Deste total, um bilhão e 197 milhões foram dados aos jornais e 869 milhões as empresas radiofonicas.

4) Os meios de comunicação como instrumento de poder:

A importância crescente da televisão como moeda de troca política é percebida no aumento proporcional do número de concessões outorgadas em todo o período: de 1950 a 1956 foram concedidos à exploração privada 19 canais, aos quais se somam mais 14 concessões de 1956 a 1964, completando 33 concessões para o período de 14 anos que separam o surgimento da televisão no país do golpe civil-militar, em 1964. Até o final da década de 70, o Estado brasileiro outorgou 87 emissoras de TV.Devido a necessidade de uma soma considerável de capital para tornar realidade a constituição de uma emissora, fica fácil entender por que a tevê no Brasil já nasce oligopolizada, bem ao estilo do modelo de desenvolvimento econômico que se desenhava para o país. A princípio, ela é fruto do agigantamento das corporações jornalísticas nacionais, que, naquele momento, já agregavam, além de jornais, revistas e editoras, também emissoras de rádio.

A análise da origem social dos concessionários de canais de televisão no Brasil desse período aponta para uma diferenciação bem de acordo com as mudanças que vinham se processando na sociedade brasileira desde a década de 1950. Eles são representantes de tradicionais famílias ligadas à economia de exportação de gêneros primários ou membros de segmentos das classes médias, descendentes de imigrantes, que fizeram fortuna trabalhando com atividades comerciais. Seus filhos buscam na educação formal, principalmente com o bacharelado em Direito, desenvolver atividades profissionas de interesse para a manutenção do status quo. Encontraram na política de concessões o acesso ao poder político ou ao status almejado.Assis Chateaubriand, filho de familia tradicional de senhores de engenho, dono das Tvs Tupi e Cultura e Roberto Marinho, filho de jornalista de classe media, dono do complexo Globo, foram os que mais poderes reuniram, o primeiro no periodo pre 1964 e o segundo pós 1964.

5) Conclusão:

A produção da midia televisiva teve inicio num momento de afirmação do capitalismo empresarial no pais. Entre os grupos concessionários prevaleceu a alternativa golpista da construção da derrubada de Vargas em 1953 e a de João Goulart em 1964. Assis Chateubriand que em 1930 apoiara a revolução, dono de poderoso imperio, de jornais, TV e radio, optou em oferecer sua emissora TV Tupi ao lider da UDN, Carlos Lacerda para que pregasse o golpe ao governo. A exceção de Samuel Wainer e sua Ultima Hora, os demais donos da midia, alinharam-se a proposta de destiuir o governo, na realidade o que estava em jogo era impedir o avanço do trabalhismo no Brasil, cujo principal lider era Getulio Vargas.

O livro 1964 a conquista do poder, evidencia as relações de grupos multinacionais e associados (empresários, militares, politicos) que uniram-se aparelhando o estado brasileiro influenciando nas politicas de governo. A rede globo a principal beneficiária do regime pos-1964, hoje em dias recebe a maior parcela das verbas publicitárias do governo federal. Da mesma forma que existem conselhos de saúde, de educação etc…, deveriam haver conselhos de comunicação, as renovações das concessões acontecem sem o conhecimento do povo.

Vivemos um circulo vicioso, pois não existe interesse em abrir-se um debate mais profundo sobre o papel da midia. No governo Sarney assistimos um festival de distribuição de canais de TV, radios para os politicos apaniguados do poder, como forma de obter a ‘tal da governabilidade’. Brizola foi o único politico a posicionar-se claramente sobre o assunto, afirmando que sem a democratização dos meios de comunicação tornar-se impossível atingirmos a democracia em nosso pais. Os pleitos são influenciados pelo poder da midia,pelo pais afora assistimos proprietários de rádio, jornais, serem candidatos a cargos eletivos ou alguém da família, ou do circulo de poder.

Enquanto isso a maioria dos eleitores votam de forma desavisada, desinformados a respeito dos candidatos. Collor afiliado da rede globo nas Alagoas, Sarney no Maranhão, ACM na Bahia são exemplos de politicos que se beneficiam da midia para se eleger. FHC e LULA nos 16 anos que governaram o pais, passaram ao largo da questão, não havendo estimulos a promoção de debates sobre o assunto.

A força da midia não esta apenas em construir a realidade, mas também em ocultá-la. Quem tem poder para difundir noticias, tem poder para manter segredos e difundir silencios. Podemos concluir que uma parte do que de importante ocorre no mundo, ocorre em segredo e em silencio, fora do alcance dos cidadãos. A média de horas que um brasileiro fica diante da TV é de 4 horas, recebendo uma grande ‘carga de informação’, porém cabe a nós perceber que a midia não é onipotente. Devemos exercer de forma pacifica e legitima o nosso poder, diria o quinto poder, lutando pela democratização dos meios de comunicação, pois com isso certamente a mobilização popular e as iniciativas de mudanças serão muito mais fáceis e rápidas.

6) Fontes:

Tempos de Vargas , O rádio e o controle da Informação —- OTHOM JAMBEIRO

Mídia e Democracia:

O Quarto VERSUS o Quinto Poder —– Pedrinho A. Guareschi

O campo televisivo e a política nacional

(1950-1970) —- Sonia Wanderley (Profa. Dr.a UERJ / UGF)

Além do Cidadão Kane é um documentário produzido pela BBC de Londres – proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial – que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro.

– Os cortes e manipulações efetuados na edição do último debate entre Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Mello, que influenciaram a eleição de 1989.

– Apoio a ditadura militar e censura a artistas, como Chico Buarque que por anos foi proibido de ter seu nome divulgado na emissora.

– Criação de mitos culturalmente questionáveis, veiculação de notícias frívolas e alienação humana.

– Depoimentos de Leonel Brizola, Chico Buarque, Washington Olivetto, entre outros jornalistas, historiadores e estudiosos da sociedade brasileira.

“Todo brasileiro deveria ver Além do Cidadão Kane”

BBC de Londres
Produtor: Simon Hartog

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