A VAIA COVARDE by Roberto Tardelli

12 jul
Se fosse homem, teriam vaiado? A pergunta é simples, se fosse homem, o Presidente da República, falando a centenas de prefeitos, avidamente dispostos a vender a alma por verbas federais, que lhes dissesse que repassaria bilhões, porém menos bilhões do que os sonhados, mas ainda estonteantes milhões, ele teria sido tão grotescamente vaiado? A vaia desqualificou mais o auditório que a Presidenta, porque a vaia é a reação do público ao mau espetáculo, cujo roteiro lhe passa ao longe. Ali, não, todos eram de farinha do mesmo saco, chefes de Poder Executivo, com limitações orçamentárias e legais e a vaia grotesca do auditório só deu a medida do baixíssimo nível de estadistas que temos; vaiaram porque era uma mulher, que fechava as torneiras dos cofres da União.
 

A vaia foi covarde e machista. Em outros cenários, poderíamos até imaginar o natural descontentamento com as rédeas repentinamente encurtadas, como parte de um convívio democrático em um país criminosamente desigual, em que prefeituras biliardárias convivem com outras em estado de histórica indigência. Nesses outros cenários, caras feias e cenhos franzidos, reuniões intermináveis e cansativas, discursos oposicionistas ferozes, evasivas situacionistas de plantão tomariam os noticiários. 
 
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Mas, jamais imaginaríamos uma vaia. Vaia-se o palhaço que cai, vaia-se o cantor que desafina, vaia-se o centro-avante que errou o pênalti, enfim, vaia-se aquele que errou pessoalmente, aquele cujo erro é unicamente seu; se muitos daqueles que vaiaram participam de coalizões e se beneficiam direta ou indiretamente do governo, se nomeiam seus apaniguados e parentes, se estão a fartar-se do banquete público das mordomias, com que direito vaiaram?

 

Por isso, repito, foi uma vaia machista. Na construção republicana brasileira, a experiência de uma mulher na Presidência da República, eleita pelo voto popular, está mais instigante do que se imaginava. Em uma primeira investida, negou-se a ela a gestão, atribuindo todos os acertos e contatos e parcerias a seu antecessor, homem e espertíssimo. Ela, a Presidenta, não existia e tudo era Lula. Ele montou o governo dela. No melhor estilo, como era no Código Civil de 1916, a mulher que fosse casada, era rebaixada a uma condição de semi-imputabilidade. 
 

Na visão arquetípica das donas de casa, das mães de avental sujo de ovo e de chinelo na mão, ela era honestíssima, exigente, brava, cara amarrada e não suportava as estripulias de seu inspirador; suas diferenças lhe valeram uma falsa sensação de aceitação nas pesquisas. Ela era honesta, mas incapaz de conter a fúria de seus parceiros sobre o dinheiro público.
Íamos bem nessa relação convencional, gostávamos de ter uma tia brava no caixa do boteco Brasil. Mas, ela era só isso, o caixa do boteco. Quem administrava, comprava, servia, fazia e acontecia, pintava e bordava, era Ele… 
 

Na medida em que Ele – sabe-se lá por que cargas d’água – distanciou-se, bem, a fúria reacionária voltou-se contra ela e, de tia durona, de mãe zelosa, ela passou a ser detestada como as bruxas dos contos de fada, representando ela a encarnação do Mal a ser combatido. 
Onde poderia ter sido vaiada, no estádio de futebol, foi. Vaiar autoridades no estádio de futebol é exercício regular de direito, desde o árbitro até o Presidente da Fifa, da República, de qualquer lugar. No estádio, estamos para aplaudir o gol ou a defesa impossível. Para todo o resto, democraticamente, reservamos a vaia. Só um doido pretenderia ser ovacionado no estádio, em um regime que permita que doidos poderosos possam ser vaiados. Na Coréia do Norte, por exemplo, isso não passaria na cabeça do mais enlouquecido corneta-torcedor. Aqui, oba!, a gente vaia de peito cheio. Uma delícia, dessas que valem o ingresso.
 

Mas, vaiar um igual? Vaiar quem garantiu essa putaria toda com um acerto partidário que entortaria a cabeça de Maquiavel por doze séculos? Vaiar quem garante o mingau do nepotismo? Vaiar o parceiro? Epa, alguma coisa estranha existia naquela vaia.
Ou, melhor, nossa velha conhecida, uma coisa chamada machismo. Dilma foi vaiada não porque negou a verba, foi vaiada porque era mulher.
Se fosse também negra, seria apedrejada.
 
 
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