Arquivo | agosto, 2013

Leandro Fortes: “há motivos para temores dos aliados de FHC”

31 ago
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31 de agosto de 2013 | 14:49

Reproduzimos abaixo um artigo de Leandro Fortes publicado na edição desta semana da Carta Capital sobre o lançamento do novo livro de Palmério Dória, O príncipe da privataria. Fortes faz alguns comentários muito interessantes sobre o que livro traz sobre o escândalo do filho bastardo de Fernando Henrique com uma jornalista da Globo, assunto mentido em segredo pela emissora por muitos anos.

Trecho do artigo:

“Há razão para os temores dos aliados de FHC. Na obra, Dória reconstituiu um assunto que os tucanos prefeririam ver enterrado: a compra de votos no Congresso para a emenda da reeleição que favorecia o ex-presidente. E detalha o “golpe da barriga” que o deixou refém das Organizações Globo, em especial, e do resto da mídia durante seus dois mandatos.”

Carta Capital n˚ 764

As Desventuras do Príncipe

Lançamento: Livro sobre a compra de votos para a emenda da reeleição e o caso extraconjugal de FHC alvoroçam os tucanos

Por Leandro Fortes, na Carta Capital

A obra chega às livrarias no sábado 31, mas antes mesmo de sua publicação tem causado desconforto no ninho tucano. Luiz Fernando Emediato, publisher da Geração Editorial, responsável pela edição, tem recebido recados. O último, poucos dias atrás, foi direto: um cacique do PSDB telefonou ao editor para pedir o cancelamento do livro e avisou que a legenda havia contratado um advogado para impedir a publicação, caso o apelo não fosse atendido.

Tanto alvoroço deve-se ao lançamento de O Príncipe da Privataria – A história secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso granhou sua reeleição, do jornalista Palmério Dória. O título da obra faz alusão à alcunha de “príncipe dos sociólogos”, sugestão de amigos do ex-presidente, e ao termo privataria, menção ao processo de privatização comandado pelo PSDB nos anos 1990 e eternizado por outra obra da Geração Editorial, A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.

Há razão para os temores dos aliados de FHC. Na obra, Dória reconstituiu um assunto que os tucanos prefeririam ver enterrado: a compra de votos no Congresso para a emenda da reeleição que favorecia o ex-presidente. E detalha o “golpe da barriga” que o deixou refém das Organizações Globo, em especial, e do resto da mídia durante seus dois mandatos.
A maior novidade é a confirmação da identidade do Senhor X, a fonte anônima responsável pela denúncia do esquema de compra de votos para a emenda da reeleição. O ex-deputado federal Narciso Mendes, do PP do Acre, precisou passar por uma experiência pessoal dolorosa (esteve entre a vida e a morte depois de uma cirurgia) para aceitar expor-se e contar novos detalhes do esquema.

A operação, explica Mendes no livro, foi montada para garantir a permanência de FHC na Presidência e fazer valer o projeto de 20 anos de poder dos tucanos. Para tanto, segundo o ex-parlamentar, foram subornados centenas de parlamentares, e não apenas a meia dúzia de gatos-pingados identificados pelo jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, autor das reportagens que apresentaram em 1997 as gravações realizadas pelo Senhor X, apelido criado pelo repórter para preservar a identidade do colaborador, então deputado do antigo PPB.

Os mentores da operação que pagou 200 mil reais a cada deputado comprado para aprovar a reeleição, diz o Senhor X, foram os falecidos Sergio Motta, ex-ministro das Comunicações, e Luís Eduardo Magalhães, filho de Antonio Carlos Magalhães e então presidente da Câmara dos Deputados. Em maio de 1997, a Folha publicou a primeira reportagem com a transcrição da gravação de uma conversa entre os deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre. No áudio, a dupla confessava ter recebido dinheiro para votar a favor da emenda. Naquele momento, o projeto tinha sido aprovado na Câmara e encaminhado para votação no Senado.

À época, a oposição liderada pelo PT tentou instalar uma CPI para apurar as denúncias. Mendes resume os acontecimentos a Dória e ao jornalista Mylton Severiano, que participou das entrevistas com o ex-deputado em Rio Branco: “Nem o Sérgio Motta queria CPI, nem o Fernando Henrique queria CPI, nem o Luís Eduardo Magalhães queria CPI, ninguém queria. Sabiam que, estabelecida a CPI, o processo de impeachment ou no mínimo de anulação da emenda da reeleição teria vingado, pois seria comprovada a compra de votos”.

E assim aconteceu. A denúncia foi analisada por uma única comissão de sindicância no Congresso, que apresentou um relatório contrário à instalação de uma CPI. O assunto foi enviado ao Ministério Público Federal (MPF), então sob o comando de Geraldo Brindeiro. O procurador fez jus ao apelido de “engavetador-geral”, nascido da sua reconhecida leniência em investigar casos de corrupção do governo FHC. O MP nunca instalou um processo de investigação, a mídia nunca demonstrou o furor investigatório que a notabilizaria nestes anos de administração do PT e o Congresso aprovou a emenda, apesar da fraude.

O Príncipe da Privataria tenta reconstituir os passos da história que levou uma repórter da TV Globo em Brasília, a catarinense Miriam Dutra, a um longo exílio de oito anos na Europa. Repleta de detalhes, a obra reconstituiu o marco zero dessa trama, “nalgum dia do primeiro trimestre de 1991”, quando o jornalista Rubem Azevedo Lima, ao caminhar por um dos corredores do Senado, ouviu gritos do gabinete do então senador Fernando Henrique Cardoso. “Rameira, ponha-se daqui pra fora!”, bradava o então parlamentar, segundo relato de Lima, ex-editorialista da Folha de S.Paulo, enquanto de lá saía a colega da TV Globo, trêmula e às lágrimas. A notícia de um suposto filho bastardo não era apenas um problema familiar, embora não fosse pouco o que o tucano enfrentaria nessa seara. A mulher traída era a socióloga Ruth Cardoso, respeitada no mundo acadêmico e político. O caso extraconjugal poderia atrapalhar os planos futuros do senador. Apesar de se apresentar como um “presidente acidental”, em um tom de desapego, FHC sempre se imaginou fadado ao protagonismo na vida nacional.

Escreve Dória: “Entra em cena um corpo de bombeiros formado por Sérgio Motta, José Serra e Alberico de Souza Cruz – os dois primeiros, cabeças do “projeto presidencial”; o último, diretor de jornalismo da Rede Globo e futuro padrinho da criança”. Motta e Serra bolaram o plano de exílio da jornalista, mas quem tornou possível a operação foi Souza Cruz, de atuação memorável na edição fraudulenta do debate entre Collor e Lula na tevê da família Marinho às vésperas do segundo turno. A edição amiga, comandada diretamente por Roberto Marinho, dono da emissora, e exibida em todos os telejornais do canal, levaria o “caçador de marajás” ao poder. Acusado de corrupção, Collor renunciaria ao mandato para evitar o impeachment.

Miriam Dutra e o bebê foram viver na Europa e o caminho político de FHC foi novamente desinterditado. Poucos anos depois, ele se tornaria ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, surfaria no sucesso do Plano Real, a ponto de renegar a importância do falecido ex-presidente na implementação da estabilidade monetária no País, e venceria a eleição de 1994 no primeiro turno.

Por muito tempo, apesar de o assunto circular nas principais rodas políticas de Norte a Sul, Leste e Oeste, imperou nos principais meios de comunicação um bloqueio a respeito do relacionamento entre o presidente e a repórter. Há um pressuposto não totalmente verdadeiro de que a mídia brasileira evita menções à vida particular dos políticos, ao contrário das práticas jornalísticas nos EUA e Reino Unido. Não totalmente verdadeiro, pois a regra volta e meia é ignorada quando se trata dos adversários dessa mesma mídia.

No fim, o esforço para proteger FHC mostrou-se patético. Só depois da morte de Ruth Cardoso, em 2008, o ex-presidente decidiu assumir a paternidade do filho da jornalista. Mas um teste de DNA, feito por pressão dos herdeiros do tucano, provou que a criança não era dele.

Dória entrevistou inúmera personalidades, entre elas o ex-presidente da República Itamar Franco, o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes e o senador Pedro Simon, do PMDB. Os três, por variadas razões, fizeram revelações polêmicas sobre FHC e o quadro político brasileiro. Há outras declarações pouco abonadoras da conduta do ex-presidente. A obra trata ainda do processo de privatização, da tentativa de venda da Petrobras e do plano de entrega da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil ao setor privado. “O livro mostra que FHC é um caso de crime continuado”, resume o autor.

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Por: Miguel do Rosário

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RS: universitária gera revolta nas redes sociais após comentário racista

31 ago
Jovem fez comentário com teor racista em seu perfil no Twitter Foto: Twitter
Jovem fez comentário com teor racista em seu perfil no Twitter
Foto: Twitter

Os comentários de uma aluna do curso de Publicidade e Propaganda da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) no Twitter revoltou internautas e gerou repercussão nas redes sociais na noite desta sexta-feira. Chamada de racista, Marina Ceresa chegou a ser repreendida pelo Centro Acadêmico da universidade e teve que se explicar em outra publicação.

 

Tudo aconteceu quando a jovem estava a caminho da universidade quando, segundo ela, um carro com um casal negro quase a atropelou. “Acabei de quase ser atropelada por um casal de negros. Depois vocês falam que é racismo né, mas TINHA QUE SER, né?”, disse a estudante, que completou em outra mensagem: “E estavam num carro importado, certo que é roubado”.

 

Dois minutos após a publicação, Marina fez outro comentário, tentado se defender de eventuais acusações de racismo. “Eu não sou racista, aliás, eu não tenho preconceitos. Mas, cada vez que aprontam uma dessas comigo, nasce 1% de barreira contra PRETOS em mim”, disse.

 

Não demorou muito para que as publicações fossem replicadas não só no Twitter como em perfis do Facebook. Ainda na noite de ontem, o perfil do O Centro Acadêmico Arlindo Pasqualini (CAAP) da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS divulgou nota lamentando o caso. “Nós, estudantes de comunicação social da PUCRS, não nos calaremos diante do racismo praticado por colegas da nossa faculdade. Práticas como essa devem ser combatidas em toda a sociedade. Atuaremos de forma ainda mais incisiva em casos presentes em nossa universidade”, dizia a nota.

 

Por conta da repercussão instantânea, a universitária resolveu deletar sua conta no Twitter, mas decidiu manter ativo seu perfil no Facebook, pelo qual divulgou uma nota se desculpando pelo ocorrido. Na publicação, Marina explicou o ocorrido e reconheceu ter errado no teor do comentário. “Estou postando essa nota de esclarecimento porque eu olhei para o que eu escrevi e percebi que eu fui muito errada em colocar aquelas palavras de efeito”, disse.

 

Veja, na íntegra, o comentário publicado pela aluna:

 

“Gurizada:

Esse final de tarde rendeu um acontecimento deplorável de minha parte.

Estava atravessando a Protásio Alves, em frente a minha rua, atrasada para a minha aula das 19h30 e pedi para um carro parar para que eu pudesse atravessar. Ele parou, foi educado e, quando fui atravessar a próxima faixa, um carro parou em cima de mim e encostou no meu corpo. Eu parei, e falei “passa, sou educada” e o cara ainda me xingou, falando que eu não deveria estar atravessando porque o trânsito fluía. Ele parou 30m a frente, ou seja, ele poderia ter sido educado e ter me deixado passar. Dois minutos depois, abri meu Twitter e publiquei um post ofendendo o motorista e sua passageira (negros), postando palavras de intuito racista, palavras de ofensa e frases de efeito preconceituosas. Um amigo deu RT (compartilhamento) nessa frase e, por muito “azar” de minha parte (ou por sorte, pra eu cair na real e perceber a cagada que eu fiz) um perfil famoso do Twitter deu um outro RT que me renderam centenas de interações, xingamentos, notificações e RTs.

To (sic) postando essa nota de esclarecimento porque eu olhei para o que eu escrevi e percebi que eu fui muito errada em colocar aquelas palavras de efeito. Eu não sou racista; não tenho nenhum tipo de preconceito, seja com homossexuais (e derivados, trans, bis, etc.), índios, negros, brancos, ruivos, pardos ou qualquer outra raça. Eu tenho inúmeros amigos negros, inclusive faço brincadeiras de todas as formas com eles e elas são sempre entendidas, gargalhadas e esquecidas.

 

A universitária publicou, mais tarde, um esclarecimento sobre o caso Foto: Facebook / Reprodução
A universitária publicou, mais tarde, um esclarecimento sobre o caso
Foto: Facebook / Reprodução

 

Sábado passado eu dancei a noite inteira com um negro numa festa. Hoje à tarde eu simplesmente caguei pela boca no Twitter, joguei a merda no ventilador, falei coisas que eu não deveria falar nem por mensagem nem pessoalmente com qualquer amigo. Eu sei que é fácil falar e pedir desculpas, mas as minhas desculpas são (e muito) sinceras. Recebi ameaças, fiquei com medo, chorei a aula inteira, não prestei atenção, saí 20 minutos mais tarde da PUCRS acompanhada de uns amigos e de dois seguranças, pois foram comunicados que eu havia feito tal coisa (invenção, pois o que falaram não aconteceu).

 

Pedi a um amigo que deletasse meu Twitter, deletei minha página de fotos do Facebook (trabalho) e, mais tarde, talvez delete o Facebook também. Eu sou a pessoa mais orgulhosa do mundo; eu poderia estar aqui defendendo essa situação até o último minuto, mas to “dando braço a torcer” em nome do meu orgulho e to pedindo desculpas a todos os meus amigos negros pelas palavras horríveis que escrevi, pelas brincadeiras de mal gosto que foram feitas. Espero que sejam aceitas, vocês sabem que eu não sou desse tipo. Rafinha Bastos disse que o humor não tem limites, mas hoje descobri que a “zueira” maldosa e negativa tem.

Fica aqui, mais uma vez, meu sincero pedido de desculpas.”

 

Veja  também a nota publicada, na noite de ontem, pelo (CAAP):

 

“Racismo não é brincadeira

Na noite de hoje, uma estudante da Famecos escreveu comentários racistas em seu Twitter. Nós, estudantes de comunicação social da PUCRS, não nos calaremos diante do racismo praticado por colegas da nossa faculdade. Práticas como essa devem ser combatidas em toda a sociedade. Atuaremos de forma ainda mais incisiva em casos presentes em nossa universidade. 

 

A sociedade precisa avançar no debate sobre o racismo. Os negros travam uma longa batalha contra a discriminação pela cor e suas conseqüências. Podemos observar isso pela baixa inserção de negros e negras em nossa universidade. Nos altos índices de violência contra o negro também notamos o quão sofrida ainda é a sua história. Sabemos que a exclusão social, cultural e intelectual é uma triste realidade para o povo negro. 

O CAAP divulgou uma nota repudiando o comentário da universitária Foto: Facebook / Reprodução
O CAAP divulgou uma nota repudiando o comentário da universitária
Foto: Facebook / Reprodução

 

O CAAP divulga esta nota para que casos como esse não se repitam. Devemos denunciar e nos posicionar em situações como esta. O nosso papel enquanto centro acadêmico é repudiar veemente esta atitude e não permitir que o racismo esteja presente na Famecos. Lutamos por uma Famecos sem preconceito e, por isso, deixar de expor este acontecimento seria legitimar o racismo presente em nossa faculdade.

O CAAP valoriza a cultura Afro. Acreditamos que a igualdade não tenha cor e seremos incansáveis na defesa de uma faculdade sem racismo e preconceito.

A partir desse acontecimento, vamos debater e refletir formas de combate ao racismo e a todos os outros tipos preconceitos. Na Famecos não há espaço para o preconceito.

“Se isto é democracia, não queremos”, diz afegã sobre EUA

31 ago

Malalai Joya

Quando tinha 25 anos, Malalai Joya proferiu um discurso poderoso, no qual pedia que os senhores da guerra e os talebans fossem punidos pelas violações de direitos humanos que ocorrem sistematicamente no Afeganistão com o aval das autoridades internacionais. A fala no Parlamento deu início a uma jornada de medo e clandestinidade na vida da jovem ativista, que teve sua voz ao microfone imediatamente cortada e foi expulsa da Casa.

Desde então, foram dez anos marcados pela luta por direitos humanos, que foca a misoginia, o fundamentalismo, a ocupação do país por tropas estrangeiras na “guerra contra o povo afegão”. “Hoje, infelizmente, não temos sequer uma caricatura da democracia. E se o que os EUA e a Otan fazem no Afeganistão é sinônimo de democracia, então não queremos democracia”, disse em entrevista a CartaCapitaldurante a 9ª Marcha Mundial das Mulheres, da qual participou em São Paulo.

Antes de ser eleita para o Parlamento, que deixou em 2003, Malalai foi refugiada de guerra e professora para meninas no governo Taleban. Depois, manteve uma clínica para mulheres e um orfanato. Para ela, que foi considerada “a mulher mais corajosa do Afeganistão”, a militância é a única maneira de sobrevivência. “Todos que chegam ao poder apóiam a misoginia dos senhores da guerra e do Taleban. Não temos outra saída: ou enfrentamos ou ficamos em silêncio.”

Confira os principais trechos da entrevista:

 

CartaCapital –Como vive hoje? Como é sua rotina?

MalalaiJoya – Vivo clandestinamente no Afeganistão. Desde que comecei essa luta, autoridades perseguem meu ativismo, e,apesar de eu ter seguranças, não me sinto segura. No ano passado, atacaram meu escritório e dois meus seguranças foram feridos. Mas isso, felizmente, me dá mais força e determinação para continuar a luta contra a ocupação e também por justiça, paz e direitos humanos no meu país.


CC 
– Quantos dias costuma passar na mesma cidade? Tem de se mudar a cada semana? Como tem feito?

MJ – Depende muito da ajuda que cada casa pode oferecer. Por exemplo, se eu tenho um encontro com determinadas pessoas em algum lugar, é impossível ficar à noite na mesma casa. Então, vou para outra casa passar a noite. E, às vezes, a casa de um ativista que me apoia é segura para um dia ou dois. Então depende da ajuda, da localização da casa que me acolhe e também do meu trabalho. Alguns dias tenho muitos encontros, um em uma casa de manhã, depois em outra casa e à noite estou em outra casa. Uso diferentes técnicas para não ser um alvo fácil.

 

CC – Há quanto tempo está nessa situação?

MJ – Faz muito tempo, desde que fiz meu discurso em 2003, no qual disse que os “senhores da guerra” deveriam ser punidos pelos inúmeros crimes e atrocidades cometidos e não estarem em comitês constitucionais ao mesmo tempo que ocupavam cargos governamentais. E é por isso que eles se colocam contra mim e me ameaçam com tentativas de assassinato nesses 11 anos, em que aprendi a falar sobre democracia e direitos humanos.

 

CC – Tem família, filhos, marido?

MJ – Tenho. Mas infelizmente não posso viver com a minha família, inclusive com meu marido. Meu filho tem apenas 9 meses e, como tenho de me mudar de um lugar para outro, não o levo porque ficou preocupada com sua vida e os riscos que está correndo. E não me preocupo apenas com meu filho, mas também com as pessoas que dão apoio, os meus seguranças. Infelizmente, não posso viver com minha família por questões de segurança no Afeganistão de hoje.

 

CC – Quantos seguranças a acompanham?

MJ – Depende. Em alguns momentos chego a estar com 12 seguranças, em outros com seis ou dois. Mas muitas vezes são mais de 12. Eu os conheço há muito tempo, confio neles. Eles acompanham meu ativismo há dez anos, eu confio neles.

 

CC – O que acha do título de “a mulher mais corajosa do Afeganistão” que lhe foi dado?

MJ – Eu não sou a única que arrisca a vida para enfrentar desafios. Mas conheço também mulheres e até mesmo homens dessa geração de guerra que fazem um corajoso ativismo. Na minha visão, não existe o mais corajoso, mas vários que, de maneiras diferentes,se solidarizam e dão mais esperança, determinação e força para continuar essa luta pelo direitos da mulher e os direitos humanos, contra a ocupação e por justiça.

 

CC –Qual foi o período mais difícil de sua militância?

MJ – Faz dez anos que vivo a minha vida com medo. Não é medo do inimigo, mas medo de que alguma coisa aconteça com meus seguranças e as pessoas que me apoiam. Pessoalmente, eu me preocupo com a direção que o país vem tomando. Os afegãos, quando saem de suas casas e se deparam com a presença das tropas estrangeiras, não estão esperançosos ou seguros com militares estrangeiros e senhores da guerra, que agem como um governo dentro do governo julgando as pessoas, punindo-as, sequestrando-as.

Para as mulheres, especialmente, a situação é infernal: sequestros, estupros, ataques, violência doméstica, terror nas escolas e até mesmo mutilação de partes como orelha e nariz. Muitas das violências em violações de direitos humanos que acontecem contra as mulheres continuam.

Quando olho a minha vida, não acho que sou melhor que as outras, sou apenas uma delas. Há tantas mulheres corajosas, como a policial MalalaiKakar [chefe do departamento de crimes contra mulheres no departamento de Kandahar]. E há muitas outras lutando contra essa situação de desastre na qual se estão mulheres e crianças em todos esses anos sangrentos.

 

CC – A senhora costuma dizer que ‘não esperava estar viva’. Por quê?

MJ – Meu povo e eu enfrentamos três inimigos: senhores da guerra, Taleban (ambos de maioria misógina), e também os seus padrinhos, como Estados Unidos e a OTAN que os apóiam, incluindo nações vizinhas como o Paquistão. Os senhores da guerra financiam eles, e são contra mulheres, especialmente as ativistas.

Eles querem me eliminar, mas eu nunca farei silêncio e continuarei minha luta dentro do Afeganistão. No exterior, quando vou à conferências eu extirpo suas máscaras. Então se alguma coisa acontecer fisicamente comigo, todos esses inimigos ficarão felizes, não só eles. Por isso, devo tomar muito cuidado e é por isso que eles podem se tornar um obstáculo, não só para mim, mas para muitos ativistas democráticos do Afeganistão, cuja maioria agora vive clandestinamente. E, também por isso, a minha mensagem para pessoas justas e “amorosas” ao redor do mundo é a de fortalecer uma mente democrática. Os intelectuais que temos ativos no Afeganistão, homens e mulheres, são uma alternativa para um futuro promissor para o país.

Os EUA e a Otan fortalecem terroristas reacionários, como os senhores da guerra. E agora, depois de passarem esses dez anos dizendo estarem lutando contra o Al Qaeda e o Taleban, soldados norte-americanos confessam, publicamente e sem qualquer constrangimento, que o Taleban não é seu inimigo. E é verdade. O que venho dizendo e compreendo é que o Taleban, os senhores da guerra e seus padrinhos, como os EUA, não são inimigos do Ocidente, e sim do povo afegão.

 

CC – Até que ponto o patriarcalismo é um grande entrave à igualdade de direitos?

MJ – O povo afegão enfrenta desafios, diferentes tipos de inimigos e problemas essenciais, como falta de comida. Mulheres e crianças são as mais afetadas. Todos que chegam ao poder apoiam a misoginia dos senhores da guerra e do Taleban.

A maioria das pessoas não são educadas. Acredito que exista uma grande parte da população feminina que não saiba nem mesmo ler ou escrever, que precisa ser educada e atuar na formação da identidade da mulher para ver como isso modela suas vidas.

Eu era muito jovem quando me envolvi com política e queria ser uma política honesta. As pessoas que vinham ao meu gabinete, pediam meus conselhos, que tipo de escola deveriam mandar suas filhas. São provas de que se a democracia chegar ao poder e tiver chances de ser executada a sociedade irá melhorar.

No entanto, os senhores da guerra fazem com que o Afeganistão seja mal visto pelos países estrangeiros. E todos que chegam ao poder protagonizam o mesmo problema: não deixam o país melhorar, não permitem que as mulheres cheguem ao poder.

O Afeganistão está melhorando devagar. Nesses últimos 12 anos o país teve sua democracia interrompida. E hoje, infelizmente, não temos sequer uma caricatura da democracia. E se o que os EUA e a Otan fazem no Afeganistão é sinônimo de democracia, então não queremos democracia.

 

CC – O capitalismo, na sua opinião, fomenta a desigualdade de gênero?

MJ – Sim. É possível ver o papel que o capitalismo e o imperialismo têm nisso e não apenas no Afeganistão, mas em vários países do mundo. Mas no meu país você vê, dia após dia, aumentar o abismo entre ricos e pobres, a desigualdade, as mulheres sem seus direitos. E é isso que países imperialistas como os EUA e os da Otan fazem nessa guerra criminosa contra o Afeganistão. A cada dia, eles empurram o Afeganistão para sua era mais escura. Agora mesmo eles se comprometem com talebans misóginos que estão chegando ao poder. E essa situação está se tornando, cada vez mais, um desastre para as mulheres afegãs.

Acredito que essa “paz” que dizem termos é ainda mais perigosa do que o aquilo que costumávamos chamar de guerra. Por quê? Porque essa paz faz com que os inimigos do povo afegão fiquem ainda mais unidos. Quanto mais unidos estiverem os senhores da guerra e os talebans, mais ameaçado estará o espírito democrático no Afeganistão.

 

CC – O que ainda precisamos conquistar em termos de gênero?

MJ – No Afeganistão, não se trata apenas de gênero, de homens e mulheres. É preciso que as tropas deixem o meu país. Nós não temos independência. Não podemos falar em democracia, direitos humanos, a não ser como piada.

Como eu disse, mulheres e crianças são as que mais sofrem nessa situação catastrófica. A condição em que vivem as mulheres foi apenas uma ótima desculpa para os EUA e a Otan ocuparem o Afeganistão.

E, de forma geral, homens e mulheres são, cada vez mais, sujeitos a altos índices de desemprego, pobreza, corrupção, violência doméstica e muitos outros tipos de problemas. Você pode ver as consequências depois de 12 anos de ocupação das tropas estrangeiras: eles trouxeram o Afeganistão para o centro do terror. E acredito que esse terror é ainda mais perigoso do que AlQaeda para a vida das pessoas.

 

CC– O que é pior em relação à desigualdade de gênero: pobreza ou violência às quais as mulheres estão submetidas?

MJ – No fim das contas, pobreza e violência doméstica são a mesma coisa. A violência doméstica não é apenas violência doméstica, mas também tem na raiz desse problema o regime patriarcal e misógino que vigora no país.

Não temos outra saída. Ou enfrentamos ou ficamos em silêncio. Dia após dia, mais pessoas se levantam contra os senhores da guerra do Taleban, contra a ocupação. A guerra no Afeganistão, infelizmente, não é apenas uma guerra militar, mas uma guerra de propaganda também.

 

CC – É impossível, portanto, ter fundamentalismo religioso com liberdade e igualdade de gênero?

MJ – Sim, é impossível. O fundamentalismo é extremamente misógino e é contra todas as mulheres. É impossível falar em direitos humanos quando se fala disso. As mulheres do Afeganistão não são mais as mesmas de 30 anos atrás. Nessas décadas de guerra em que perdemos tudo, ganhamos ao menos uma coisa boa: a consciência política, que tem crescido nos últimos anos. E a minha mensagem, nesse sentido, tem sido: falar em direitos humanos para o meu povo é educá-lo. A educação e a chave para empoderamento do povo afegão, assim como o fim da ocupação é para nos dar emancipação.

 

CC – O que mudou desde 2001 no país? Como era viver no Afeganistão nas décadas anteriores?

MJ – Durante os anos 60 e 70, as mulheres tinham seus direitos ilimitados. Há fotos delas com roupas modernas, sem “lenços”, andando nas ruas. Elas desempenhavam seus papéis e dirigiam suas vidas. No passado, homens e mulheres tiveram direitos ilimitados. Mas a guerra, infelizmente, fez das mulheres suas primeiras vítimas. Desde a Guerra Fria, a violência contra elas é muito forte.

Hoje o Afeganistão parece um corpo doente, e todos querem uma parte dele, em vez de nos oferecer uma ajuda honesta. Não há dúvida de que nós precisamos de ajuda, mas isso não significa que queremos uma ocupação. E nós temos orgulho de nossa história, nunca aceitaríamos uma ocupação.

Se um governo democrático estivesse no poder, se os países estrangeiros, especialmente os EUA, não interferissem nos nossos assuntos internos, o Afeganistão melhoraria muito. Mas empurram o Afeganistão em direção ao retrocesso. Poderiam chamar essa “guerra ao terror” no Afeganistão, que dizem ser feita em nome da democracia e dos direitos humanos, de guerra ao povo afegão encampada pelos EUA e a Otan.

 

CC – Como enxerga o futuro do Afeganistão?

MJ – Enquanto as tropas estrangeiras continuarem, o sofrimento será prolongado. Não há outra maneira. A história mostra que a apenas a própria nação é capaz de se libertar. E as pessoas estão conseguindo entender isso a cada dia que passa. Muitos ainda mal têm o que comer, sofrem de muitos tipos de problemas, mas acredito que, com o passar do tempo, conseguirão se levantar.

Globo sempre esteve na contramão do Brasil, ao longo da história. Cotas, ProUni, Getúlio, Lula

31 ago

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Se a política de cotas nas universidades brasileiras e o ProUni estão levando milhares de jovens brasileiros às universidades, qual a posição da Globo? Confira editorial de ontem publicado no O Globo. Contra, é claro.

É uma tradição da Globo, que eles fazem questão de manter: tudo o que for popular, que leve a uma melhoria na condição de vida especialmente do mais pobre, O Globo é contra.

Rapidamente, só o que me vem à cabeça (quem se lembrar de mais, acrescente, à vontade, porque há muito):

Governo Getúlio Vargas – O governo do salário-mínimo, da legislação trabalhista. Povo a favor, Globo contra. Tanto que, após suicídio de Getúlio, carros de O Globo foram atacados.

Golpe de 1964 – Golpe foi contra reformas que beneficiariam o povo. Globo a favor do golpe.

Diretas Já – Povo nas ruas queria escolher pelo voto o presidente. Globo contra. Chegou a mostrar multidão na Praça da Sé exigindo Diretas Já, como se fosse apenas uma manifestação pelo aniversário de São Paulo.

Leonel Brizola – Povo a favor, Globo contra. Chegou a armar o caso Proconsult para tentar impedir a vitória do governador que vinha do exílio. Durante toda a vida de Brizola fez oposição sem tréguas a ele, e foi a causa principal de Brizola não ter conseguido ser presidente do Brasil.

CIEPs – O maior programa de educação popular jamais desenvolvido no Brasil. Povo a favor, Globo contra.

Governo do presidente Lula – Assim como o governo do presidente Vargas, o povo a favor, uma aprovação de quase 90%, mas O Globo contra.

Bolsa Família – Povo a favor, Globo contra.

Governo Dilma – o mesmo dos governos Vargas e Lula. Povo a favor, Globo contra.

Queda dos juros bancários – Povo a favor, Globo contra.

A Globo sempre foi a favor da remoção das favelas no Rio. Seu atual ideólogo, Ali Kamel, chegou a escrever sobre isso. 

Como remover a Rocinha, por exemplo, é impossível, a Globo se rendeu (e por receber verbas milionárias do governo Cabral) ao programa das UPPs. Favelas ocupadas pela polícia (a solução do problema dos pobres é sempre a polícia para eles), com serviços legalizados, o que inclui pagamento de mensalidades da NET e Sky, de que a Globo é sócia, e vários “eventos sociais” (orquestra na favela, show na favela etc), em que a Globo fatura com sua empresa de eventos.

Sem contar que todo o projeto de UPPs é desenhado para a segurança da Copa 2014 e das Olimpíadas de 2016. Depois disso, podem apostar, a Globo volta a defender remoção e “porrada neles”.

Porque as Organizações Globo estão onde sempre estiveram, na contramão do Brasil e do povo brasileiro.

Blog do Mello

Quem tem medo de mulheres negras de jaleco branco?

31 ago

Eu já desde muito nova queria fazer Medicina… só que Medicina é um curso impensável para as pessoas de onde eu venho, para as pessoas como eu sou, negra, mulher, pobre, Capão Redondo. Ninguém sonha ser médico lá. Eu insisti que queria fazer medicina.” – Cintia Santos Cunha

Por Douglas Belchior

Em seu texto sobre a polêmica dos médicos cubanos no Brasil e a reação de uma jornalista potiguar que escandalizou as redes sociais ao dizer que médicos cubanos pareciam “empregadas domésticas”, e que precisariam ter “postura de médico”, o que não acontecia com os profissionais cubanos, o professor Dennis de Oliveira sintetizou:

“(…) ela expressou claramente o que pensa parte significativa dos segmentos sociais dominantes e médios do Brasil: para eles, negros e negras são tolerados desde que em serviços subalternos. Esta é a “tolerância” racial brasileira.”

Essa mentalidade racista que sempre pressupôs o lugar do negro em nossa sociedade, contaminou milhares de jovens estudantes nas últimas muitas gerações. Isso somado ao descaso com a qualidade da educação pública faz com que, em sua grande maioria, jovens negros e/ou pobres sequer sonhem com universidades ou profissões “diferentes” daquelas nas quais percebem seus iguais.

HERDEIROS DE NINA RODRIGUES

A classe médica (e média) que hoje não se constrange em manifestar seu preconceito racial é herdeira de Nina Rodrigues. Racista confesso, o renomado médico baiano tentava dar cientificidade à sua tese sobre as raças inferiores. Acreditava ele que os negros tinham capacidade mental limitada e uma tendência natural à criminalidade.

No final do século XIX, Nina Rodrigues combatia a miscigenação por acreditar que qualquer mistura poderia degenerar a raça superior branca. Mais ainda, defendia a existência de dois códigos penais: uma para os brancos e outro para as raças inferiores. Esses e outros absurdos podem ser observados em seu livro “As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil’.

399362_342166102548032_1068443305_nA população negra perfaz mais de 50% da população brasileira, mas entre os formados em medicina o percentual foi de 2,66% em 2010. Na USP, por exemplo, são comuns listas de aprovados nos vestibulares mais concorridos sem sequer um único auto-declarado negro, como foi o caso deste ano de 2013. Isso se repete na Bahia, onde mais 70% da população é negra. Simbólica e triste a foto ao lado,que traz a turma de 2011 da Universidade Federal da Bahia.

A DECLARAÇÃO DE CÍNTIA, DO CAPÃO

Cintia Santos Cunha foi uma exceção. E ao a ouvi-la falar, ao perceber a postura de dignidade que todo ser humano pode – se quiser, carregar, independente de sua profissão, é possível entender o porquê de tanta oposição por parte das classes dominantes em relação à presença dos doutores de pele preta: a descoberta de sua mediocridade.

Médicos, imprensa e Conselho Federal de Medicina corporativistas, reacionários, cínicos e racistas, é para vocês a grande lição deixada pela estudante de medicina em CUBA, Cíntia Santos Cunha, que retornou a Ilha para concluir o curso em Fevereiro de 2014.

É do povo que vocês tem medo! E devem mesmo ter medo! Toda sua riqueza não é suficiente para compensar os mais de 500 anos de opressão.

Assistam e assustem-se!

Socialista Morena_http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/08/29/quem-tem-medo-de-mulheres-negras-de-jaleco-branco/

Cade impõe derrota à Globo e seu cartel publicitário

30 ago
grilhaoglobo
Alertado pelo Paulo Henrique Amorim – e seu afiadíssimo Conversa Afiada – fico sabendo que a Globo terá de por fim à prática anticoncorrencial de captação de anúncios nos jornais do grupo: O Globo, Extra e Expresso.

A coisa funcionava assim: preços especiais para quem anunciasse em todos os jornais, ou com exclusividade para estes ou, ainda, de forma “casada” com a Rede Globo de Televisão. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica – o Cade –  determinou ontem a cessação imediata “das práticas com possíveis efeitos anticompetitivos”.

A investigação começou em 2005 a partir de denúncia dos veículos Jornal do Brasil e O Dia. A prática anticompetitiva adotada pela Infoglobo, emprega global controladora dos jornais, segundo a representação,  ”consistiria na imposição de exclusividade na compra de espaços para publicação de anúncios publicitários; concessão de descontos condicionados à compra de espaços publicitários em mais de um jornal editado pelo grupo Globo; concessão de condições diferenciadas para divulgação de propaganda em televisão aberta, em decorrência de a Rede Globo de Televisão pertencer ao mesmo grupo econômico da acusada; comercialização do jornal Extra com preço de venda ao leitor abaixo do custo; e fornecimento de espaço de propaganda abaixo do preço de custo no Extra”.

O Cade impôs uma multa de R$ 2 milhões à Infoglobo.

Pena que demorou tanto que o Jornal do Brasil teve de sumir das bancas e se limitar à internet.

Antes tarde do que nunca, porém.

Por: Fernando Brito

Gasto dos EUA com espionagem será de 52,6 bilhões de dólares em 2013

30 ago

As agências de inteligência dos EUA criaram uma rede de coleta de informações multi-bilionária depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que chegará a custar mais de U$S 52,6 bilhões neste ano, diz o jornal The Washington Post, com base em documentos fornecidos pelo ex-analista da CIA Edward Snowden.

O “orçamento negro” de U$S 52,6 bilhões, como foi chamado pelo Post, nunca foi submetido a escrutínio público. Embora o governo divulgue anualmente seus gastos com espionagem desde 2007, nunca esclareceu como esses fundos são utilizados ou como age diante dos objetivos firmados pelo presidente e pelo Congresso.

O orçamento, que contém 178 páginas e está resumido em infográficos no site do Washington Post, detalha os sucessos e os fracassos das 16 agências de espionagem que compõem a comunidade de inteligência norte-americana, a qual conta com 107.035 funcionários no total.

O resumo do documento descreve tecnologias de ponta, recrutamento de agentes e operações em curso. O jornal afirma que optou por não publicar todo o conteúdo a que teve acesso depois de conversar com autoridades, que expressaram preocupação quanto ao risco para as fontes e os métodos de inteligência.

Agência Efe

Os documentos fornecidos por Edward Snowden revelam complexo de espionagem montado pelos EUA contra o terrorismo 

“Os Estados Unidos têm feito um investimento considerável na comunidade de inteligência desde o ataque terrorista de 11/09, um período que inclui as guerras no Iraque e no Afeganistão, a Primavera Árabe, a proliferação de armas de destruição em massa e ameaças assimétricas em áreas como guerra online”, disse o diretor de Inteligência Nacional, James R. Clapper Jr., ao Post

“Nossos orçamentos são sigilosos, uma vez que podem fornecer informações a serviços de inteligência estrangeiros sobre quais são nossas prioridades nacionais, capacidades, fontes e métodos que nos permitem coletar dados para combater ameaças externas”, justificou.

Principais revelações

Segundo o documento, a CIA tem sido a agência privilegiada, recebendo um total de U$S 14,7 bilhões em 2013. O valor é consideravelmente maior do que as estimativas e está cerca de 50% acima do orçamento destinado à NSA (Agência de Segurança Nacional, na sigla em inglês), que realiza operações de espionagem e tem sido considerada a “gigante” do grupo.

Essas duas agências, conjuntamente, lançaram novos esforços agressivos para invadir redes de computadores estrangeiras para roubar informação ou sabotar sistemas inimigos, abraçando aquilo a que o orçamento se refere como “operações cibernéticas ofensivas”.

A NSA planejava investigar ao menos 4 mil possíveis “ameaças internas” em 2013, casos em que a agência suspeitava que informação sensível poderia ser comprometida por um de seus próprios funcionários. O documento mostra ainda que os EUA se preocupavam com “comportamento anômalo” de pessoas com acesso a dados secretos bem antes das revelações de Snowden.

Wikicommons

O ex-presidente  Bush conversa com soldados sobre guerra ao terror: orçamento anual na época era menor que o de 2013

As quatro categorias da inteligência que mais demandam recursos são: coleta de dados; análise; gerenciamento, instalações e apoio e processamento e exploração de informações. A “constelação” de agências de espionagem se concentra, basicamente, em cinco tópicos: combater o terrorismo, impedir a disseminação de armas nucleares ou não convencionais, alertar os líderes dos EUA sobre eventos críticos no exterior, defesa contra espionagem estrangeira e condução de operações cibernéticas.

O atual orçamento foi 2,4% menor do que o requisitado no ano passado, mas cerca de duas vezes maior que o de 2001 e 25% acima do de 2006, período conhecido como “guerra global ao terror”. Durante o final da década de 1980, coincidente com o final da Guerra Fria, os gastos dos EUA com espionagem provavelmente chegaram ao que hoje equivaleria a U$S 71 bilhões. 

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