Menos hipocrisia na Cultura, por favor…

24 ago

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A decisão de demitir e contratar apresentadores no “Roda Viva” é política. Não tem nada a ver com “rumos do jornalismo”

 É bom controlar a hipocrisia quando se fala sobre mudanças no programa “Roda Viva”.
O antepenúltimo apresentador, Heródoto Barbeiro, perdeu o posto depois de perguntar sobre pedágios ao governador José Serra.
Marília Gabriela, penúltima apresentadora, deixou o programa após um ano de casa, apenas, para seguir sua carreira em canais de grande audiência.
Naquele período a equipe do programa enfrentou pressões fortes e óbvias quando entrevistava personalidades que não agradavam ao governo ou quando demorava um pouquinho a mais para convidar nomes que agradavam.
A mais nova mudança foi consumada depois que se bateu um recorde tucano. O “Roda Viva” entrevistou José Serra e Fernando Henrique Cardoso de uma enfiada só, em duas semanas seguidas, sem pausa.
O ato gerou protestos formais na Assembleia Legislativa e assim surgiu o convite para o deputado Rui Falcão, presidente do PT, prestar depoimento.
Não vamos exagerar, portanto.
Queiramos ou não, a Cultura é um aparelho político do PSDB paulista há bastante tempo e o único aspecto a lamentar, mais uma vez, é que nada deve mudar daqui para a frente.
Seu novo presidente, Marco Mendonça, chega ao posto pelas mãos de Geraldo Alckmin, de quem é aliado e protegido.
O antecessor, João Sayad, ali chegou por decisão de Serra – de quem era aliado e protegido – que então poderia dispor de uma tribuna para a campanha presidencial de 2010.
Com Mendonça, Alckmin terá auxílio em 2014.
Sinto vontade de rir quando leio repórteres e colunistas de TV falando do “projeto” de quem chega, ou das “ideias” de quem sai.
Sayad chegou a publicar artigo, nos jornais, dizendo-se “indignado” no momento em que sua saída foi resolvida.
A decisão de demitir e contratar envolve pura política. Não tem nada a ver com “rumos do jornalismo”. É esquema de poder.
Foi essa decisão que levou a troca de Paulo Markun, nascido e criado na TV brasileira, por um economista que mal conhecia os programas da casa, como Sayad.
A permanente decadência da Cultura é deprimente para quem se recorda de seu passado de programas inovadores e de interesse público. Mas é perseguida com tamanho empenho por seus gestores que parece obedecer a um instinto político claro. Jamais dar certo, nunca crescer, para não desafiar as emissoras privadas.
É uma situação grave e estranha.
Mesmo durante o regime militar, havia uma certa tensão entre o jornalismo e os governantes, como se verificou, de forma trágica, nas pressões que Vladimir Herzog sofreu depois que procurou dar um caráter mais autônomo ao Departamento de Jornalismo.
As denúncias que ajudaram a levar Herzog para a prisão onde foi assassinado tiveram início com críticas canalhas a seu trabalho na Cultura.
Aliados da ditadura diziam que fazia um jornalismo não-alinhado com a ditadura militar.
Olha a ironia. Será que alguém faria essa crítica hoje?
Num país que não teve capacidade de discutir formas de assegurar a democratização dos meios de comunicação, consolida-se a vitória do pior. Embora sobreviva com verbas públicas, a principal emissora pública brasileira é administrada como se fosse uma instituição privada no pior sentido da expressão.
Atende aos interesses políticos e eleitorais de quem ocupa o governo de Estado, enquanto emissoras comerciais respondem aos interesses econômicos de seus acionistas.
O verdadeiro compromisso é este, sendo o resto exatamente o resto.
As mudanças que nada mudam na Cultura são assistidas como se fossem o processo mais natural do mundo, sem dizer respeito ao cidadão comum, a sua família, a seus filhos. Nem parece que se trata de uma emissora sustentada com recursos públicos.
É espantoso.
Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de “A Outra História do Mensalão”. Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu “A Mulher que Era o Outro General da Casa”
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