Archive | setembro, 2013

ALERTA: EUA E que o rodeia todas as bases militares 76 AMÉRICA LATINA E CARIBE

30 set

Sob o pretexto de combate ao tráfico de drogas Forças Especiais do país norte-venture para a América Latina. Você está 76 bases militares em torno da América Latina e do Caribe.

De acordo com um relatório do Centro de Política Internacional (CIP), o Grupo de Trabalho sobre a América Latina (LAWGEF) eo Escritório de Washington sobre a América Latina (Wola), sob o pretexto de defender as políticas de segurança para a região e a luta contra o narcotráfico, EUA cada vez mais utilizados os comandos especiais para treinamento e trabalho de inteligência em solo sul-americano.

Este posicionamento estratégico militar dinâmica responde a mesma intenção que os Estados Unidos usaram como desculpa na questão das armas de destruição em massa no Irã e agora a Síria. Só neste caso é mais assustador, porque de acordo com o relatório, uma vez em território latino-americano, e recolher informação secreta a partir de pontos estratégicos, os militares gringos se familiarizar com as peculiaridades de cada lugar, da cultura e funcionários-chave países em que eles poderiam operar mais tarde.

Muitos cientistas políticos, especialistas, pensadores críticos que vêem claramente como instalações dos EUA na América Latina não são para controlar o tráfico de drogas, mas para espionar.

Pablo Ruiz, membro de Observadores Escola das Américas, disse que o caso especial que ocorre no Peru, um país com um governo desenvolve política de direita é aliado dos Estados Unidos, onde de acordo com as queixas dos agricultores da região Cusco, sua propriedade foi desapropriada para a construção de um aeródromo militar para combater as drogas com a ajuda dos Estados Unidos.
ativista Pablo Ruiz, disse que os EUA tem uma forte presença “governos que são pró-americano” militares, Panamá, Peru, Chile e México.

Além disso, Ruiz afirmou que “estas bases militares são usados ​​para espionar contra países. ‘S A justificativa para militarizar a América Latina com outros propósitos ocultos. EUA treina oficiais latino-americanos no Peru sob a mesma doutrina e sob o lógica do Comando Sul dos EUA para tentar semear a suposta luta contra o terrorismo “, mas sublinhou que” a guerra contra as drogas tem sido um fracasso no México e será certamente no Peru “.

Mesmo o filósofo, sociólogo e cientista político Atilio Boron, deixou sua advertência sobre o assunto: “Temos de nos preparar. Para algo que tem sido cercado por bases militares. ”

Boron insistiu que “vem da água, vem do petróleo” em uma entrevista que foi realizada recentemente por ocasião da 68 Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas.

Está se tornando cada vez mais claro que a interferência externa dos EUA entra em declínio após as gafes, onde a questão da ameaça de guerra para a Síria, sob as mesmas desculpas sempre enseada já não crenças de ninguém. Ninguém come a história que o North Country tem altruísta em suas ações ao redor do mundo, mais e mais povos insurgentes, como seria o comandante Chávez, e até mesmo representantes da direita política reconhecida.

Isto é o que é conhecido como “a lei da queda dos impérios”, onde os processos mais violentos ocorreram durante a decadência do mesmo.

Neste sentido, o cientista político argentino disse Estratégia Yankee “, de modo que eles estão olhando para ele em torno da Aliança do Pacífico para ver se enfraquecer Unasul se a Argentina se isolar espionando Brasil. Eles estão vendo como consertar a situação que consideram ideal, que é a situação que tinha América Latina final do ano 50 dC “.

Nesse sentido, o doutor em ciência política pela Universidade de Harvard, Atilio Boron, disse que mesmo “os teóricos mais importantes do direito norte-americano, todos reconhecem que se iniciou uma fase de declínio do poder global dos Estados Unidos” e portanto, “tornar-se mais belicoso”.

Assim, a cada dia, o mundo está expondo as políticas hegemônicas dos Estados Unidos, fazendo com que as políticas visíveis e neocolonial de olho como militarme é o posicionamento em torno da área com mais recursos naturais, água, petróleo, gás, minerais estratégicos, alimentos, biodiversidade , América Latina, um continente que tem um grande potencial.

http://laiguana.tv/noticias/2013/09/28/8668/ALERTA-ESTADOS-UNIDOS-YA-TIENE-76-BASES-MILITARES-RODEANDO-TODA-AMERICA-LATINA-Y-EL-CARIBE.html

Pepe Escobar: “Como os EUA estão criando o Siriastão”

30 set

Terroristas da Frente al-Nusra /al-Qaeda armados e pagos pelos EUA e Arabia Saudita
Se ainda faltasse alguma prova extra para destroçar o mito de uma luta “revolucionária” para alguma futura Síria “democrática”, as manchetes da semana acabaram com qualquer dúvida remanescente.
11, 13 ou 14 brigadas “rebeldes” (o número varia conforme a fonte) já fizeram descarrilar o tal Conselho Nacional Sírio, dito “moderado” e mantido pelos EUA, e o nada livre Exército Sírio Livre. Os líderes do bando são os jihadistas dementes da Frente al-Nusra – mas o bando inclui outras imundícies, como as brigadas Tawhid e Tajammu Fastaqim Kama Ummirat em Aleppo, algumas imundícies das quais eram, até recentemente, parte do Exército Sírio Livre, já em pleno colapso.
Na prática, os jihadis ordenaram que a miríade de “moderados” se submetessem, que se “unificassem num quadro claramente islamista” e que jurassem fidelidade a uma Síria futura na qual a lei da Xaria seja “a fonte única da legislação”.
 
Ayman al-Zawahiri
Um certo Ayman al-Zawahiri deve estar em festa, dançando em seu esconderijo confortável, à prova dedrones, em algum ponto dos Waziristões. Não só porque sua conclamação para uma jihad multinacional – à moda do Afeganistão nos anos 1980s – está funcionando; também porque o Conselho Nacional Sírio comandado pelos EUA já está exposto como o roedor desdentado que de fato é.
E fatos em campo só fazem comprovar exatamente isso. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, promovido pela al-Qaeda, acaba de tomar uma cidade próxima do ponto de passagem de Bab al-Salam na fronteira com a Turquia, que estava sob controle do Exército Sírio Livre, porque o Exército Sírio Livre foi acusado de lutar por “democracia” e de manter laços com o Ocidente. Errado. O Exército Sírio Livre deseja esses laços com o ocidente, sim; mas sob regime controlado pela Fraternidade Muçulmana. E o Estado Islâmico do Iraque e do Levante – do qual a Frente al-Nusra é o principal membro sírio – deseja um Siriastão talibanizado.
As gangues de jihadis linha duríssima na Síria somam cerca de 10 mil jihadistas; mas correspondem a cerca de 90% dos combates pesados, porque são os únicos com real experiência de combate (incluindo iraquianos que combateram contra norte-americanos, e chechenos que combateram contra russos).
 
Bandar bin Sultan
Paralelamente, e não por acaso, desde que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, foi nomeado pelo rei saudita Abdullah para comandar a jihad síria, com instruções para não deixar nem levar prisioneiros vivos, o Conselho Nacional Sírio dito “moderado” e aliado da Fraternidade Muçulmana do Qatar passou a ser cada dia mais deixado de lado.
Cortem a cabeça desses “pacifistas”
 
E, em matéria de descarrilamento catastrófico, nada se compara à desculpa do governo Obama para uma “estratégia”, a qual, teoricamente, se resume a armar e treinar extensivamente o elo mais fraco – gangues selecionadas do Exército Sírio Livre infiltradas por agentes da CIA – e que “impediriam” que as armas caíssem em mãos de jihadistas. Como se a CIA tivesse inteligência local confiável sobre as fontes do Golfo que garantem dinheiro e apoio logístico aos milhares de jihadistas.
O Conselho Nacional Sírio, o Exército Sírio Livre e o chamado “Comando Militar Supremo” (de exilados) comandado pelo grandiloquente general Salim Idriss já não passam, hoje, de piada.
A coisa toda aconteceu enquanto o presidente da Coalizão de Oposição Síria [Ahmed Asi] Al-Jerba, estava na Assembleia Geral da ONU em New York – onde se encontrou com o secretário de Estado John (“Assad é como Hitler”) Kerry. Kerry não falou sobre armas, mas sobre mais “ajuda” e futuras negociações na perenemente adiada Conferência Genebra-2. Al-Jerba ficou furioso. E, para piorar, várias das gangues do seu Exército Sírio Livre declaradamente bandearam-se para a al-Qaeda.
 
A Frente al-Nusra/al-Qaeda executa civis na região de Aleppo (Síria)
Por quê? Sigam o dinheiro. É assim que funciona. Pelo menos metade das “brigadas” do Exército Sírio Livre são mercenários – financiados do exterior. Lutam onde os patrões – que lhes pagam e lhes fornecem armas – mandam lutar. O “Comando Supremo” controla, no máximo, 20% das brigadas. E essa gente sequer vive na Síria; têm bases do lado turco ou jordaniano da fronteira.
Mas esses jihadis mercenários combatem em tempo integral. Eles são a efetiva força combatente, recebem salários em dia e suas famílias são protegidas e mantidas.
Assim sendo, trata-se hoje de guerra entre o Exército Sírio Árabe e um bando de jihadistas. Claro: nada disso será JAMAIS bem explicado pela imprensa-empresa à opinião pública ocidental.
Imaginem, então, se esses degoladores, comedores de fígados, fãs da Xaria, teriam algum desejo de aparecer na conferência Genebra-2 para negociar um cessar-fogo com o governo sírio e um possível acordo de paz com o eixo OTAN-Casa de Saud. Evidentemente nunca acontecerá – como Bandar Bush deixou bem claro, pessoalmente, em Moscou, para o presidente Vladimir Putin.
O pior, do ponto de vista de Washington, é que não há como explicar por que não pode acontecer nenhuma negociação significativa. Até os mais descerebrados infiéis que habitam os círculos do poder em Washington já viram que há conexão direta entre todas as hordas de “rebeldes”, e também, é claro, com os “rebeldes” sírios que abraçaram a al-Qaeda imediatamente depois que o grupo al-Shabaab atacou o shopping center Westgate em Nairobi.
 
Os degoladores da Frente al-Nusra/al Qaeda (financiados e armados pelos EUA via Arabia Saudita, Jordânia e Turquia) distribuem fotos e vídeos de seus “feitos e conquistas”  na internet
Nem é preciso dizer que Bagdá entrou em surto, ante esses desenvolvimentos. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante já aumentou os atentados com carros-bomba e homens-bomba no próprio Iraque – porque o governo de al-Maliki, “apóstata” xiita, é tão alvo preferencial quando o governo do secular Bashar al-Assad.
Quase nem acredito que há apenas cinco meses, eu mesmo escrevi sobre o advento do Emirado Islâmico do Siriastão. Agora já está bem claro que e como o “invisível” al-Zawahiri e o esperto Bandar Bush se apropriaram da “estratégia” de Washington para chegar, realmente, onde querem chegar.

 
 
[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network Televison Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros
POSTADO POR CASTOR FILHO

LULA: “NÃO FOI JULGAMENTO, MAS SIM LINCHAMENTO”

29 set

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247 – No escritório do Instituto que leva seu nome, Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma agenda digna de presidente da República. Ele trabalha quase 10 horas por dia com um objetivo maior em mente: reeleger a presidente Dilma Rousseff. “Se houver alguém que se diz lulista e não dilmista, eu o dispenso de ser lulista”, diz o ex-presidente. Em entrevista aos repórteres Tereza Cruvinel e Leonardo Cavalcanti, do Correio Braziliense, ele confessa com certa melancolia que sente falta de Brasília: “O nascer e o pôr do sol no Alvorada são inesquecíveis”; e que, para evitar a tentação de dar palpites sobre o novo governo, disse que decidiu visitar 32 países nos primeiros 10 primeiros meses de 2011, até que o câncer foi descoberto, no dia de seu aniversário, 27 de outubro.

Leia a íntegra da entrevista, que acaba de ser postada no blog da jornalistaTereza Cruvinel:

Lula pronto para entrar no ringue

São Paulo – A casa discreta no tradicional bairro do Ipiranga em nada lembra os palácios de Brasília mas seu principal inquilino ali trabalha cerca de 10 horas por dia, com a mesma disposição que, nos oito anos em que governou o Brasil, extenuava auxiliares – hoje reduzidos a uma pequena equipe.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levanta-se em São Bernardo do Campo às seis horas da manhã, faz duas horas de exercícios físicos, toma café e chega ao instituto que leva seu nome por volta das 9h, raramente saindo antes das 20h. Ali recebe políticos, empresários, sindicalistas, intelectuais, agentes sociais e personalidades em busca de seu apoio a uma causa ou projeto. Quase três anos após deixar a Presidência e depois da vitória contra o câncer, Lula declara-se completamente “desencarnado” do cargo e com a saúde restaurada, o que a voz, agora limpa das sequelas do tratamento, confirma.

Por telefone, ele é alcançado também por interlocutores de diferentes países, por convites para viagens e palestras no Brasil e no exterior. No ano que vem, o ritmo vai cair, pois ele vai ajudar, “como puder”, na campanha da sucessora Dilma pela reeleição. “Se ela não puder ir para o comício num determinado dia, eu vou no lugar dela. Se ela for para o Sul, eu vou para o Norte. Se ela for para o Nordeste, eu vou para o Sudeste”, disse o ex-presidente.

Nas instalações simples da casa no Ipiranga, o que denuncia o inquilino são as fotografias nas paredes, de momentos especiais da Presidência, selecionadas pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, que continua a seu lado, assim como os assessores Clara Ant, Luiz Dulci e Paulo Okamoto. Na sala de trabalho, em vez das cigarrilhas, chicletes sabor canela. Foi lá que, na quinta, 26, Lula recebeu o Correio para uma entrevista de duas horas em que não parou de falar. Da vida no poder e fora dele, da disputa eleitoral do ano que vem, passando por espionagem, Mais Médicos, mensalão e novos partidos.

Lula também falou, pela primeira vez, sobre a Operação Porto Seguro, a investigação da Polícia Federal, que revelou um esquema de favorecimentos em altos cargos do governo federal e provocou a demissão de Rosemary Noronha, a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo. E disse ter saudades de Brasília: “O nascer e o pôr do sol no Alvorada são inesquecíveis”.

Considerado um eleitor de 58 milhões de votos por conta do total de apoios conquistados na última eleição que disputou, em 2006, Lula confessou, sem dissimulação, que deixar o poder foi “como se me tivessem desligado da tomada”. E que não foi fácil aprender a ser ex-presidente. Para evitar a tentação de dar palpites sobre o novo governo, disse que decidiu visitar 32 países nos primeiros 10 primeiros meses de 2011, até que o câncer foi descoberto, no dia de seu aniversário, 27 de outubro.

Vencido o calvário do tratamento, ele voltou à rotina no Instituto, vacinou-se contra o “Volta Lula”, antecipando o lançamento da candidatura Dilma, e agora se prepara para mais uma campanha eleitoral. Ele acha que a presidente será reeleita, lamenta o desenlace da aliança com Eduardo Campos, embora reconheça as qualidades do governador para a disputa, evita especular sobre o destino dos votos de Marina Silva, caso ela saia da corrida, e parece revelar preferência por José Serra como adversário tucano, ao dizer que o PSDB terá mais trabalho para tornar Aécio Neves conhecido. Uma contradição com o que ele mesmo fez, ao lançar uma também desconhecida Dilma como candidata em 2010. Uma coisa é certa. “Desencarnado” e em plena forma, Lula será um “grande eleitor” em 2014.

Deixar de ser presidente trouxe alívio ou pesar? 

Não é fácil falar sobre isso. Eu achava que seria simples deixar a Presidência. O (João) Figueiredo, que saiu pela porta dos fundos, até pediu para ser esquecido. Quando a pessoa não sai bem, quer esquecer mesmo. Mas eu saí no momento mais auspicioso da vida de um governante. Eu brincava com o Franklin (Martins): se eu ficar mais alguns meses, vou ultrapassar os 100% de aprovação. Foi como se me desligassem de uma tomada. Num dia você é rei, no outro dia não é nada. Depois de entregar o cargo, cheguei a São Bernardo e havia um comício, organizado por amigos e pessoas do sindicato. O Sarney me acompanhou. Antes, visitei o Zé Alencar, choramos juntos. Eu fiquei danado da vida porque achava que ele devia ter ido à posse e subido a rampa de maca, mas os médicos não deixaram. Participei do comício e quando deu 11 horas da noite eu subi para o apartamento. Ao me despedir dos que trabalharam comigo na segurança e voltariam a Brasília, o general me disse: “Olha presidente, daqui a três dias os celulares da Presidência serão desligados e os carros serão recolhidos”. Mas levaram apenas três minutos para me desconectarem. Este é o lado hilário da coisa. Mas ser ex-presidente é um aprendizado sobre como se comportar, evitando interferir no novo governo. Quem sai precisa limpar a cabeça, assimilar que não é mais presidente. Mas é difícil sair de um dia a dia alucinante, acordar de manhã e perguntar: e agora?

Mas como conseguiu resolver o “desligamento”?

Entre março de 2011 e a descoberta do meu câncer, em outubro, eu fiz 36 viagens internacionais, visitei dezenas de países africanos e latino-americanos. Eu queria ficar fora do Brasil para vencer a tentação de ficar dando palpites. Decidi voltar para o Instituto, que eu já tinha, e comecei a trabalhar aqui. No dia do meu aniversario fui levar a Marisa para fazer um exame mas acabaram descobrindo o câncer em mim. E aí foi um ano de tortura. Nunca pensei que fosse tão difícil fazer quimioterapia e radioterapia. A doença, a internação, o fato de não poder falar ajudaram no desligamento. Fui desencarnando e hoje isso está bem resolvido na minha cabeça. Este ano, no evento dos 10 anos de governos do PT, quando eu disse que a Dilma era minha candidata, eu queria tirar de vez da minha cabeça a história de voltar a ser candidato. Antes que os outros insistissem, antes que o PT viesse com gracinhas, antes que os adversários da Dilma viessem para o meu lado, eu resolvi dar um basta e fim de papo.

Mesmo com eventuais “Volta Lula”, com manifestações, crises?

Mesmo. Hoje há pessoas defendendo o fim da reeleição. Eu sempre fui contra a reeleição mas hoje posso dizer que ela é um beneficio, uma das poucas coisas boas que copiamos dos americanos. Em quatro anos, você não consegue realizar uma única obra estruturante no pais. Depois, o eleitor pode julgar o governante no meio do período. Bush pai não se reelegeu, Carter não se reelegeu. Mas foi bom para os Estados Unidos o Clinton ter governado oito anos.

O senhor não ficou tentado a buscar o terceiro mandato, quando o deputado Devanir apresentou aquela emenda?

Eu fui contra. Chamei o partido e disse: não quero brincar com a democracia. Se eu conseguir o terceiro, amanhã virá alguém querendo o quarto, o quinto. Sou amplamente favorável à alternância no poder, de pessoas e de segmentos sociais. Comigo, pela primeira vez um operário chegou à presidência. Com a Dilma, a primeira mulher. Quer mais mudança do que isso? Quero que o povo continue mudando. Para errar ou acertar, não importa.

Deixar o poder traz mais liberdade?

Eu nunca tive liberdade, nem antes nem depois. Fiquei oito anos em Brasília sem ir a um restaurante, a um aniversario, a um casamento, porque tinha medo daquele mundo futriqueiro de Brasília. Mesmo hoje, prefiro passar o final de semana em casa, de bermudas.

Mas afora os problemas do poder, alguma saudade de Brasília?

Olha, o nascer e o pôr do sol no Alvorada são para mim inesquecíveis. Todos os domingos de manhã, eu e Marisa pescávamos. Há um lago no Torto, outro no Alvorada, e há o Lago Paranoá. Houve um dia em que a Marisa pegou 26 tucunarés, ali no píer onde fica o barco da Presidência. Disso eu tenho saudade. Não pude conviver, por precaução minha. Mas o céu de Brasília é muito bonito. O clima é extraordinário, o padrão de vida do Plano Piloto é invejável. Não é mais aquela cidade criticada porque não tinha esquinas. O povo soube fazer suas esquinas.

O que considera como mudanças importantes deixadas por seu governo?

As coisas que foram feitas, se em algum momento foram negadas, a verdade foi mais forte que a versão. A ONU acaba de reconhecer, com dados irrefutáveis, que o Brasil foi o pais que mais combateu e reduziu a pobreza nos últimos 10 anos. Eu queria provar que quando o Estado assume a responsabilidade de cuidar dos pobres, isso tem efeitos. Tenho muito orgulho de ter sido um presidente que, sem ter diploma universitário, foi o que mais criou universidades no Brasil, o que mais fez escolas técnicas, o que colocou mais pobres na universidade… Já houve presidentes da República que tinham diplomas e mais diplomas, fizeram muito pouco pela educação. Nós provamos que era possível fazer porque decidimos que educação não era gasto, era investimento. A outra coisa de que muito orgulho é de ter sido o primeiro presidente que fez com que o povo se sentisse na Presidência.

E o quê o senhor considera o maior erro de seu governo?

Certamente cometi muitos erros. Os adversários devem se lembrar mais deles do que eu. Mas fiz as coisas que achava que poderia fazer. Há quem me pergunte se não me arrependo de ter indicado tais pessoas para a Suprema Corte. Eu não me arrependo de nada. Se eu tivesse que indicar hoje, com as informações que eu tinha na época, indicaria novamente.

E com as informações atuais?

Eu teria mais critério. Um presidente recebe listas e mais listas com nomes, indicados por governadores, deputados, senadores, advogados, ministros de tribunais. E é preciso ter quem ajude a pesquisar e avaliar as pessoas indicadas. Eu tinha o Márcio Tomas Bastos no Ministério da Justiça, o (Dias) Toffoli na Casa Civil… Uma coisa que lamento é não ter aprovado a reforma tributaria, e tentei duas vezes. Hoje estou convencido de que não poderá ser feita como pacote, mas fatiada, tema por tema. Eu mandava um projeto com apoio de todo mundo mas as forças ocultas de que falava o Jânio se apresentavam nas comissões do Congresso e paravam tudo. Eu receava também que segundo mandato fosse repetitivo, com ministros não querendo trabalhar. Foi aí que tivemos a ideia do PAC. Mas acho que poucos conseguirão repetir o que fizemos entre 2007 e 2010. Era o time do Barcelona jogando. Tudo fluiu bem. Posso ter errado mas não tenho arrependimentos. Tenho frustração de não ter feito mais.

Voltando à indicação dos ministros do STF. Hoje, se o senhor pudesse voltar no tempo…

Nem podemos pensar nisso. Eu não sou mais presidente, eles já estão indicados e irão se aposentar lá.

O senhor continua fazendo palestras?

Tenho feito mas vou reduzir. No ano que vem vou me dedicar um pouco à campanha. Vocês sabem que um ex-presidente da Republica não tem aposentadoria. Não tendo aposentadoria de outra origem, terá que ser mantido pelo partido dele ou terá que se virar. Mas você só é convidado para fazer palestras se tiver sido exitoso no governo. O Fernando Henrique inovou e passou a fazer palestras. O PT ofereceu-me um salário e eu agradeci. Eu mesmo ia tratar da minha sobrevivência.

O que acha das criticas de que existiria conflito de interesses quando as empresas têm contratos com o governo? 

Acho uma cretinice. Primeiro porque não faço nada além do que eu fazia como presidente. Eu tinha orgulho de chegar a qualquer pais e falar da soja, do etanol, da carne, da fruta, da engenharia, dos aviões da Embraer… Eu vendia isso com o maior prazer do mundo. Com orgulho. Eu achava que isso era papel do presidente da Republica. Quando Bush veio aqui, fomos a um posto que vendia etanol. E havia lá um carro da Ford e outro da GM. Chamei o Bush para tirarmos uma foto e ele disse que não podia fazer merchandising de carro americano. Só que ele estava com um capacete da Petrobras na cabeça. Eu falei: “Então fica você aqui que eu vou lá”. Se eu puder vender as empresas brasileiras na Nigéria, no Catar, na Líbia, no Iraque, na África, eu vou vender. Estas críticas também refletem o complexo de vira-lata. É não compreender o sentido disso. Tenho orgulho de saber que quando cheguei à Presidência não havia uma só fabrica brasileira na Colômbia e hoje existem 44. Havia duas no Peru e hoje são 66. De termos ampliado nossa presença na Argentina ou na África. Se não formos nós, serão os chineses, os ingleses, os franceses. E não são apenas empresas de engenharia. Hoje temos fábrica de retro virais em Moçambique, SENAI e escolinhas de futebol do Corinthians em mais de 13 países africanos. Agora mesmo me pediram para tentar levar o vôlei para a África, onde o esporte não existe. E vou ajudar com o maior prazer. Só não vou jogar porque tenho bursite. Mas veja a malandragem. Todas as empresas, inclusive as de jornais e de televisão, têm lobistas em Brasília. Mas são chamados de diretor corporativo ou institucional. Agora, se alguém faz pelo pais, é lobista. Faz parte da pequenez brasileira. Veja o caso da Copa do Mundo. Todo país quer sediar uma Copa do Mundo. O Brasil não pode. Ah, porque temos problemas de saúde e moradia! Todos os países têm problemas, e por não pode ter Copa do Mundo e Olimpíada? E o quanto uma nação ganha com isso, do ponto de vista cultural, do ponto de vista do desenvolvimento? Qual é a denúncia contra as obras?

Nos protestos, a crítica era ao custo das obras…

Ora, se em 1960 o Brasil pôde fazer um estádio para a Copa do Mundo, em 2013 não podemos fazer outros? Pergunto qual é a denuncia? Eu deixei dois decretos, um sobre a Copa outro sobre a Olimpíada, que estão no site da CGU. Perguntem ao Jorge Hage onde tem corrupção na Copa. O TCU designou um ministro, o Valmir Campelo, encarregado de fiscalizar especificamente os gastos com a Copa. Perguntem a ele onde há corrupção. A Copa está marcada e tem que ser feita com a maior grandeza. Se alguém praticar corrupção, que seja posto na cadeia. Já conversei com os patrocinadores sobre a necessidade de uma narrativa diferente para a Copa do Mundo. Vi na TV pessoas chorando no Japão, que vai sediar uma Olimpíada. E vi um jornalista dizer que tudo bem, o Japão está retomando o crescimento, diferentemente do Brasil, que ainda é pobre. Então Olimpíada é só para países doG-8? E ainda que fosse, o Brasil está no G-6. Não me conformo com o complexo de vira lata e com o denuncismo infundado. Precisamos de uma lei que puna também o autor de denúncia falsa.

Falando nas manifestações, o que mudou com elas no Brasil?

Eu acho que fizeram muito bem ao Brasil. Com exceção dos mascarados. Todas as reivindicações que apresentaram, um dia nós também pedimos. Veja o discurso de (Fernando) Haddad na campanha de São Paulo: “Da porta da casa para dentro a vida melhorou, mas da porta para fora ainda precisa melhorar.” Hoje muito mais gente anda de carro mas o transporte público não melhorou. Eu andava de ônibus lotados como latas de sardinha em 1959, e continua a mesma coisa. O Haddad agora me disse: “Precisando de tanto dinheiro, conseguimos reduzir em 50 minutos o tempo de viagem só com latas de tinta”. As faixas exclusivas para ô ônibus tiveram uma aprovação de 93% das pessoas. O povo nos disse o seguinte: “Já conquistamos algumas coisas e queremos mais”. As pessoas querem mais, mais salário, mais transporte, melhorarias na rua, e isso é extraordinário. Nem dá mais para ficar dividindo tarefa: isso é com o prefeito, isso com o governador, aquilo com o presidente. Agora é tudo junto.

Haddad não errou, quando demorou a recuar na tarifa?

Houve muita gente ponderando para o Haddad que era preciso recuar. Se ele tivesse dado o aumento em janeiro, não tinha acontecido o que aconteceu. Ele e o prefeito do Rio foram convencidos de que, adiando o aumento, ajudariam no controle da inflação. Eles concordaram e tudo caiu nas costas deles. Meu primeiro movimento foi mostrar ao Haddad que aquilo não era contra ele, que ainda estava muito novo no cargo: “Haddad, levante a cabeça, tira proveito disso, que bom que o povo esta se manifestando”. Acho que ele demorou uns dois ou três dias mas foi correto. E o transporte é caro mesmo… Enfim, as manifestações nos ensinaram que o desejo do povo de mudar as coisas é infinito. Nós todos queremos sempre mais. Quem consegue um aumento de 10% nos salários e logo depois quer outro. Quem consegue comprar carne de segunda passa a querer carne de primeira. Tínhamos 48 milhões de pessoas que andavam de avião em 2007. Em 2012, eram 103 milhões. Hoje tem gente que entra no avião e não sabe nem guardar a mala. Alguns acham isso ruim. Eu acho ótimo. Tem mais gente indo a restaurantes, a museus, a institutos de beleza, e isso é um bom sinal. A única coisa que eu critico é a negação da política. Ela sempre resulta em algo pior, como o fascismo, o nazismo. Tenho dito ao PT para enfrentar o debate. Vamos perguntar aos tucanos por que eles derrotaram a CPMF, tirando 40 bilhões da saúde por ano em meu governo, achando que iam me prejudicar. E eu disse: quem vai pagar é o povo.

E o programa Mais médicos, é uma boa solução?

É uma coisa fantástica mas vai fazer com que o povo fique ainda mais exigente com a saúde. O sujeito vai subir o primeiro degrau. Vai ter um médico que vai lhe pedir os primeiros exames, e a saúde vai ser problema outra vez. Discutir saúde sem discutir dinheiro, não acredito. E não adianta dizer, como fazem os hipócritas, que o problema é só de gestão. Chamem os 10 melhores gestores do planeta e perguntem como oferecer tomografia, ressonância, tratamento de câncer, sem dinheiro. O hipócrita diz: “Eu pago caro por um plano de saúde, porque o SUS ao me entende”. Mas quando ele vai fazer a declaração de renda, desconta tudo do imposto a pagar. Então quem paga a alta complexidade para ele é o povo brasileiro. E aí vem a FIESP fazer campanha para acabar com a CPF. Não foi para reduzir custos mas para tirar do governo o instrumento de combate à sonegação.

O Mais Médicos é uma marca de governo para Dilma?

Os médicos brasileiros que protestaram sabem que cometeram um erro gravíssimo. O (Alexandre) Padilha tem dito, corretamente: “Não queremos tirar o emprego de médico brasileiro. Queremos trazer médicos para atender nos locais onde faltam médicos brasileiros”. Em vez de protestar, eles deveriam ter feito um comitê de recepção aos colegas estrangeiros. E Deus queira que um dia o Brasil forme tantos médicos que possa mandar médicos os para um pais africano. É admirável que um pais pequeno como Cuba, que sofre um embargo comercial há 60 anos, tenha médicos para nos ceder. Hoje há maquinas que descobrem o câncer com menos de um milímetro. Mas quantos têm acesso a isso? Saúde boa e barata e não existe, alguém tem que pagar a conta. Num país em construção, como o nosso, sempre haverá protestos. Temos de consolidar a democracia, sabendo que ela não pode ser exercitada fora da política. Tem gente que diz “eu não sou político” e começa a dar palpite na política. Esse é o pior político. Como eu fui ignorante, dou meu exemplo. Em 1978, no auge das greves do ABC, eu achava o máximo dizer: “Não gosto de política nem de quem gosta de política”. A imprensa paulista me tratava como herói. Eu era “o metalúrgico”. Dois meses depois, eu estava fazendo campanha para Fernando Henrique, que disputava o Senado por uma sublegenda do MDB. Dois anos depois, eu estava criando um partido político. Ninguém deve ser como o analfabeto político do Bertolt Brecht. Não se muda o país sem política.

Segunda parte

São Paulo – Em segunda parte de entrevista exclusiva concedida ao Correio , o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que Marina Silva tem o direito de ser candidata à Presidência. Porém, o líder histórico do PT afirma que, caso o projeto da ex-colega de partido dê errado, é necessário brigar pelos votos que ela receberia.

Além disso, Lula também falou sobre temas sensíveis, como a reforma política, a divisão interna do Partido dos Trabalhadores e sobre o escândalo envolvendo a ex-chefe do Gabinete da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha.

Na semana passada, foram criados dois novos partidos políticos, houve um grande troca-troca de deputados, para lá e para cá. Como você vê isso? 

O fato de você legalizar um partido é o menos importante. Levar 10, 15 deputados, também. Eu quero saber é se na próxima eleição estes partidos passarão pelo teste das urnas.

Marina Silva talvez não consiga registrar o partido dela.. .

Quando nós fomos construir o PT, as exigências legais eram até maiores. Na primeira eleição, eu achava que seria eleito governador de São Paulo. Eu era uma figura estranha, um metalúrgico, levava muita gente aos comícios. Fiquei em quarto lugar. O Estadão fez uma pesquisa, dizendo que eu tinha 10%. Eu logo xinguei a imprensa burguesa (risos). E eu tive exatamente 10% (risos). Então, essas pessoas que estão criando partidos vão ter de trabalhar muito. E precisamos evitar as legendas de aluguel. Não serei contra, depois de tudo que fiz pela criação do PT. Eu não sei se a Marina vai cumprir as exigências legais. Ela é uma personalidade política do país, tem todo direito de criar um partido. Agora, tem de ter coragem de dizer que é partido, não tem que inventar outro nome, dizer que não é partido, é uma rede. É partido e vai ter deputado, como todo partido. Mas o que vai contar nas eleições de 2014 são os partido existentes, o PT, o PMDB, o PSB, o PSDB e outros mais.

Agora, sem a candidatura de Marina, a disputa presidencial se alteraria, não?

Ela ainda tem tempo. Ela tem de assistir o dia final do julgamento com a ficha de um outro partido do lado. Eu acho que a Marina tem o direito de ser candidata. Marina é um quadro político importante para o país. Caso ela não consiga o partido e não seja candidata, será importante saber para onde irão os votos dela. Ninguém pode perder o pé da realidade do país, achar-se melhor que o Congresso, que lá só tem corrupto, como vejo alguns dizerem.

O senhor mesmo já falou, quando disse que no Congresso havia 300 picaretas…
O Congresso é a cara da sociedade brasileira. Ulysses Guimarães dizia: “Toda vez que a sociedade começa a falar em muita mudança no Congresso, o Congresso piora”.

Quase 300, na realidade 280 deputados, foram responsáveis de alguma forma pela absolvição do deputado Natan Donadon em plenário…

Veja que eu não errei. O que acontece no Congresso acontece num clube de futebol, acontece no condomínio que a gente mora, na sauna… Você tem gente de qualidade, você tem gente de menos qualidade, gente comprometida com os setores mais à esquerda, gente comprometida com os setores mais à direita. Se as pessoas fossem de direita ou de esquerda era melhor do que serem simplesmente fisiológicas. O que eu acho que mata na política é o fisiologismo. E você não vai acabar com isso. É uma cultura política que está estabelecida no mundo, não é só no Brasil. E não é uma questão nacional, senão a Itália não tinha o Berlusconi.

Mas o senhor defende a reforma política, não é buscando superar estes problemas?

Eu defendo a reforma política mas acho que ela só virá quando tivermos Constituinte própria para fazê-la. O Congresso não vai aprovar. Pode fazer uma mudança aqui, outra ali, mas não uma reforma profunda. Defendo o financiamento público porque eu acho que é a forma mais barata e mais honesta de fazer campanha. Por que os empresários não defendem o financiamento público? Não seria melhor para eles, não ter que dar dinheiro para candidato? Mas eles preferem que os políticos dependam deles. Eu li a biografia do Juscelino, os dois volumes do (Getúlio) Vargas, do Lira Neto (escritor cearense), estou lendo a biografia de Napoleão Bonaparte e a do Padre Cícero. A política é sempre a mesma. Nos Estados Unidos, Abraham Lincoln precisou vencer os mesmo obstáculos. Penso que com partidos mais sérios e valorizados, com mais seriedade nas campanhas, a política irá se qualificando e motivando mais. Eu sempre digo aos jovens: mesmo que você não acredite em mais ninguém, e ache que todos são corruptos, não desista. O político honesto que você procura pode estar dentro de você. Ao invés de negar a política, entre na política.

O momento mais delicado da Dilma ocorreu durante as manifestações. E naquele momento, o PMDB, o principal aliado do PT, tentou emparedar a presidente no Congresso…

O ideal de um partido político é eleger um presidente da República, eleger a maioria dos governadores, eleger a maioria dos senadores, a maioria dos deputados federais. Isso é o ideal. Não parece maravilhoso? Pois bem, em 1987, o PMDB teve isso. O PMDB elegeu 306 constituintes e 23 governadores. O (José) Sarney teve moleza? Não teve. O principal adversário do Sarney era Ulysses Guimarães. Por isso eu prezo a democracia. Eu fico imaginando se o PT tivesse 400 deputados, 79 senadores. Iria ser fácil? Temos de aprender a lidar com a realidade. Angela Merkel acabou de ganhar as eleições na Alemanha mas, para governar, terá que fazer aliança.

E a divisão interna dentro do PT, entre lulistas e dilmistas?

Se houver alguém que se diz lulista e não dilmista, eu o dispenso de ser lulista. A Dilma é a presidenta da República e ela representa o PT. Eu não estou pedindo que as pessoas gostem de Dilma. Eu quero que as pessoas a respeitem na função institucional e saibam que o PT está lá para apoiá-la. O povo de Brasília votou no (José Roberto) Arruda porque acreditou que o Arruda ia fazer as mudanças prometidas. Não deu certo. Você vai dizer que o eleitor do Roriz era pior do que o eleitor do Agnelo? Não era. O eleitor vota esperando que as coisas melhorem. Se tivermos agora como candidatos Dilma, Aécio, Eduardo Campos e Marina, o Brasil está qualificado. Todos candidatos de centro-esquerda para a esquerda.

O senhor tentou evitar o rompimento de Eduardo Campos com o governo . Agora que aconteceu, como ficará este relacionamento. Ele pode sair do campo de sua influência, o campo da esquerda? 

Eu não tenho influência. Mas eu gostaria que não tivesse acontecido o que aconteceu.

Quem errou?

Não sei, acho que todo mundo errou. E eu posso estar errado também. Pode ser que o governo e o Eduardo estejam certos no rompimento, e eu errado. Mas eu não dou de barato que o Eduardo é candidato. Ele tem potencial? Ele tem estrutura, sabedoria política? Tem. Ele pode ser candidato, como o Aécio, a Marina. Eu só acho que foi um prejuízo para a gente ter o PSB, e sobretudo o Eduardo Campos, do outro lado. Isso aconteceu apenas quando o Garotinho foi candidato contra mim, em 2002. Se ele vai ser candidato, nós temos de ter uma regra de comportamento. Se a eleição não terminar no primeiro turno, poderemos ter aliança no segundo turno. Ma eu não dou de barato que as coisas estão definidas na eleição. Nem para o Eduardo Campos ser candidato, nem para o Aécio ser candidato. Sabe-se lá o que o Serra vai tramar contra o Aécio? Nem para a Marina. Eu acho que a gente tem de ver o seguinte: temos de esperar, até março do próximo ano. São mais seis meses pela frente, até as pessoas anunciarem de fato suas candidaturas. Sei apenas que, entre todos, a Dilma é a que tem mais credenciais e é mais qualificada para governar o Brasil. Eu vou percorrer o Brasil como se eu fosse candidato.

Qual será a diferença, na disputa com o PSDB, em ter o Aécio como candidato, e não o Serra?

Eu acho que vai trazer mais dificuldades para o PSDB. O Aécio vai ter que se tornar conhecido. O Serra já é conhecido, tem o recall de outras disputas. Não é fácil criar um candidato novo num país do tamanho do Brasil. Então eu não sei como o PSDB vai conseguir se livrar do Serra ou se o Serra vai conseguir provar que tem mais qualidades para ser candidato. Mas o PT não pode escolher adversário . Tem que enfrentar quem aparecer, e acho que pode ganhar dos dois.

Sua participação na campanha da Dilma agora será diferente da que teve em 2010?

Tem de ser diferente. Em 2010 a Dilma não era conhecida. Fizemos uma campanha para que ela se tornasse conhecida, e para mostrar ao eleitor o grau de confiança que eu tinha nela. Obviamente que depois de quatro anos de governo a Dilma passou a ser muito conhecida e conseguiu construir a sua própria personalidade. Então já tem muita gente que vai votar na Dilma independentemente do Lula pedir. Naquilo que eu tiver influência, nas pessoas que eu tiver influência, eu vou pedir para votar na Dilma. O que eu vou fazer na campanha depende dela. Eu não quero estar na coordenação, eu quero ser a metamorfose ambulante da Dilma. Estou disposto. Se ela não puder ir para o comício num determinado dia, eu vou no lugar dela. Se ela for para o Sul, eu vou para o Norte. Se ela for para o Nordeste, eu vou para o Sudeste. Isso quem vai determinar é ela. Eu tenho vontade de falar, a garganta está boa. Eu estou com mais disposição, mais jovem. Apesar da idade, eu estou fisicamente mais preparado. Estou com muita saudade de falar. Faz tempo que eu não pego um microfone na rua para falar. Conversar um pouco com o povo brasileiro. Vou ajudar. Se for importante ficar quieto, eu vou ficar quieto. A única que coisa que eu não vou fazer é cantar, porque eu sou desafinado, mas no resto, ela pode contar comigo.

A prorrogação do julgamento do mensalão, levando as prisões de petistas no próximo ano, em plena campanha, pode atrapalhar os candidatos do PT e a própria Dilma?

Eu não acredito, não. As pessoas têm o hábito de menosprezar a inteligência do povo. A história não é contada no dia seguinte, a história é contata 50 anos depois. E eu acho que a história vai mostrar de que mais do que um julgamento, o que nós tivemos foi um linchamento, por uma parte da imprensa brasileira, no julgamento. Eu tenho me recusado a falar disso porque sou ex-presidente, indiquei os ministros. Vou falar quando o julgamento terminar. Uma coisa eu não posso deixar de criticar. Se pegar o ultimo julgamento agora (dos embargos infringentes), o que a imprensa fez com o Celso de Mello foi uma coisa desrespeitosa à instituição da Suprema Corte, que é o último voto. Ou seja, depois dela, ninguém mais pode falar. Eu fiquei irritado certa vez, quando eu era presidente, o (Sepúlveda) Pertence tomou uma decisão e alguém escreveu que José Dirceu tinha ganho no tapetão, sem nenhum respeito a uma figura como o Pertence. Veja a arrogância e a petulância de algumas pessoas. Elas amanhã poderão ser julgadas e vão querer o direito de defesa. A sociedade brasileira já aprendeu a separar o joio do trigo, inclusive pelo que tentaram fazer comigo em 2006, na campanha. Ninguém poderia ter sido mais violento comigo do que foi o (Geraldo) Alckmin. Todo mundo sabe o que aconteceu na véspera da eleição, quando o delegado da Polícia Federal mentiu que tinham roubado a fita (na realidade, um CD), sendo que ele mesmo fez a entrega para quatro jornalistas. (Aqui, Lula se refere ao “Escândalo dos aloprados” e ao vazamento das fotos de fotos do dinheiro usado para comprar falsos dossiês contra José Serra e Geraldo Alckmin). Todo mundo sabe o que houve na eleição do (Fernando) Haddad. Aquele julgamento (do mensalão) no meio da eleição, qual era o objetivo? Tudo isso o povo percebe.

Então o senhor acha que não terá efeito?

O povo sabe separar as coisas. Agora, o que não se pode é negar o direito das pessoas de exigirem provas. Eu sinceramente tenho muita vontade de falar, mas eu preciso me calar. Alguns companheiros estão condenados. Se amanhã a Justiça falar que absolveu, estarão condenados do mesmo jeito. Ninguém se dá conta do que aconteceu com a família das pessoas, com os filhos das pessoas. Esta substituição da informação pela versão que interessa não pode ser adequada à construção de um país democrático.

Voltando à questão eleitoral, o senhor disse em determinado momento que não podia trincar a relação com o PMDB, mas ela tem problemas. O senhor está ajudando a montar essas alianças nos estados?

Não. Não sou eu. O PT vai ter as coordenações regionais, a coordenação de campanha e a direção nacional. Aliás, o PT sozinho não pode cuidar disso. Tem de ser cuidado junto com o PMDB. Não é a primeira vez que a gente faz uma campanha com dois palanques. Houve estados a que não fui durante determinada campanha porque tinha problemas entre os aliados. Em 2010, em Pernambuco, por exemplo, construímos uma coisa sui generis, que foi colocar dois candidatos no mesmo palanque. Eu ia lá e falava com os dois do meu lado. Se fosse possível repetir isso sem tiroteio, seria ótimo. Mas eu acho que vamos ter problemas em vários estados. Temos que dar tempo ao tempo, esperar as divergências diminuírem para a gente poder construir a unidade. Em março, o quadro estará mais claro.

No Rio de Janeiro inclusive?

Sim. Nós temos de saber quem são os nossos adversários e construir a partir daí as nossas alianças regionais. Mas como é que você vai convencer uma pessoa que quer ser candidato a governador a não ser candidato?

Isso vale para o senador Lindbergh Farias?

Não é só o Lindbergh. Vamos entrar na cabeça do Lindbergh. Ele tem o mandato de oito anos e tem um intervalo agora no meio. Se concorrer, ele não perde nada, ele só ganha. Como funciona a cabeça dele: se não for candidato agora, em 2018 terá de disputar com o Eduardo Paes ou com o Sérgio Cabral, sei lá. Ele acha então que o momento dele é agora. Como você vai tentar convencê-lo? O cara tem oito anos de mandato, não tem nada a perder… Na pior das hipóteses, se ele perder, estará fazendo campanha para ele mesmo ao Senado em 2018. Isso vale para todos. Vai convencer no Pará que o cidadão não deve ser candidato. Ele pode ter 1% nas pesquisas e fala (Lula bate no peito): “Eu vou ganhar”. Em janeiro do ano passo, eu estava em casa todo inchado, quase sem poder falar, e implorei ao Humberto Costa não ser candidato a prefeito em Recife. “Humberto, pelo amor de Deus, o povo te elegeu senador. É um mandato de oito anos, você vai virar uma figura nacional. O PT precisa de você. Você quer voltar para Recife para fazer o quê, Humberto?” Ele então disse: “Se é assim que o senhor pensa, não serei candidato”. E quem foi o candidato? Humberto. Foi candidato na pior situação (Humberto perdeu no primeiro turno para Geraldo Júlio, do PSB). Quando a pessoa quer, é difícil evitar. Vocês acham que eu aprovei o Wellington (Dias) ter sido candidato a prefeito de Teresina? Um cara que saiu com quase 80% de aprovação, que o povo elegeu para senador, que desgraça ele tinha de ser candidato a prefeito de Teresina? Mas ele foi. Aí, quando toma a porrada que tomou, ele fala: “(Lula faz careta e imita voz chorona) É, você tinha razão”. Então vamos dar tempo ao tempo. A única certa é que a Dilma é uma candidata com amplas condições de ganhar as eleições. Ela vai ter mais o que mostrar. A economia vai estar numa situação melhor.

O tema econômico da hora são as concessões. Na eleição, a oposição não irá explorá-las como uma forma de privatização feita pelo PT, que combateu as privatizações tucanas?

Não é privatização. Deixa eu dizer uma coisa: é urgente mudar a lei 8666/93,que regula as licitações nesse país, se quisermos que as coisas aconteçam. Hoje, para fazer uma obra, são tantos os obstáculos, como eu já disse…TCU, Ibama, CGU, Iphan…Uma verdadeira máquina de fiscalização que emperra a máquina da execução. Então, é melhor passar pelo crivo uma só vez e entregar o serviço para o serviço para a iniciativa privada explorar, com mais facilidade e rapidez. A segunda coisa é que o Estado também não tem recursos. As concessões são um convite à iniciativa privada, que pode suprir a deficiência do Estado para investir. A Dilma estava na casa Civil, nós reuníamos os ministros e órgãos envolvidos nos projetos. Eu falava todos os palavrões que tinha de falar mas as coisas não andavam. Um problema aqui, outro ali. Temos que encontrar uma solução. A Dilma anunciou as concessões em junho do ano passado e os leilões só estão saindo agora. Se estivéssemos em 1955, começando a construir Brasília, nem a picada para o avião do JK pousar tinha saído.

Como o senhor avalia a decisão da CGU de pedir a destituição do serviço público da ex-chefe do Gabinete da Presidência de São Paulo, Rosemary Noronha, por 11 irregularidades, incluindo propina, tráfico de influência e falsificação de documentos?

Ela já estava demitida. O que a CGU fez foi confirmar o que todo mundo já sabia o que ia acontecer.

Mas tudo ocorreu dentro de um escritório da Presidência, em São Paulo…
Deixa eu falar uma coisa. A CGU julgou um relatório feito pela Casa Civil. E pelo o que eu vi do relatório, ele confirma as conclusões da Casa Civil. Todo servidor que comete algum ilícito tem de ser exonerado. O que valeu para o escritório vale para qualquer lugar no Brasil, no setor público. Vale para banco, vale para a Receita Federal. Vejo isso com muita tranquilidade. (Lula se vira para o assessor de imprensa e pergunta). “Não foi exonerado esses dias um companheiro que trabalhava com a Ideli (Salvatti)? (Lula se refere ao assessor da Subchefia de Assuntos Federativos, Idaílson Vilas Boas Macedo, após notícias de que faria parte do esquema de lavagem de dinheiro descoberto pela Polícia Federal na Operação Miqueias).

O que o senhor achou da reação do governo brasileiro em relação à espionagem norte-americana?

Dilma agiu certo. O que não podia aceitar a ideia que o (Barack) Obama tentou passar, de que não aconteceu nada. Com aquele jeitão imperial do Obama falar.

Quase três anos depois de deixar a Presidência, como o senhor gostaria de ser lembrado?

O que me importa é a forma como serei lembrado pelas pessoas. Algo que me marcou foi meu ultimo encontro com os cantadores de material reciclado e moradores de rua de São Paulo. Uma menina, afro-descendente, pegou o microfone e perguntou: “presidente, você sabe o que mudou na minha vida nestes oito anos?” Eu não sabia. E ela disse: “Não foi o dinheiro que eu ganhei, nem as cooperativas que organizei. Foi o direito de andar de cabeça erguida que o senhor me restituiu. Hoje, não tenho vergonha de andar com o carrinho catando papelão na rua. Me sinto tão importante quanto os que passam de carro ao meu lado”. Nada é mais gratificante que isso. Foi o que me inspirou a pedir ao Fernando Morais para tentar fazer uma biografia do meu governo, conversando com quem ele quiser: banqueiro, dono de jornal, metalúrgico, bancário, catador de papel. Ouvir o que as pessoas pensam é mais importante, pois todo mundo tem tendência a falar bem de si mesmo.

Kissinger e Nixon, Chile-1970: O “Documento n. 4”

26 set
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu
 
 O mais importante aniversário de 2013 são os 40 anos do 11/9/1973 – quando o general Augusto Pinochet e Henry Kissinger, então secretário de Estado, esmagaram o governo democrático do Chile. O Arquivo de Segurança Nacional em Washington acaba de distribuir, afinal liberados, novos documentos que mostram muito do papel de Kissinger. (20/9/2013, redecastorphoto em:Otimismo? Em tempos de “realistas” e vigilantes, John Pilger, Counterpunch, traduzido)
 O Documento n. 4 é a transcrição (e inclui imagem do manuscrito) do memorando que Kissinger redigiu, para explicar a Nixon a urgente necessidade e a grande importância, para “os interesses dos EUA”, de os EUA derrubarem Allende. (11/9/2013, The National Security Archives,em inglês)
MEMORANDUM
CASA BRANCA, Washington
5/11/1970
SECRETO/SENSÍVEL

MEMORANDO PARA O PRESIDENTE RICHARD NIXON
De: Henry A. Kissinger
ASSUNTO: REUNIÃO 6/11/1970 – Chile
Para a reunião na qual se considerará a questão de que estratégia devemos adotar para lidar com um governo Allende no Chile
_____________________________________________
 
A.- DIMENSÕES DO PROBLEMA
 
A eleição de Allende como presidente do Chile nos cria um dos mais graves desafios que jamais enfrentamos no hemisfério.
A decisão que o presidente tomar sobre o que fazer sobre O PROBLEMA pode ser a mais histórica e difícil decisão de assuntos externos que o presidente terá de tomar esse ano, porque o que acontecer no Chile nos próximos de seis a 12 meses terá ramificações que vão muito além de apenas as relações EUA-Chile. Aqueles eventos terão efeito sobre o que acontecerá no resto da América Latina e do mundo em desenvolvimento; sobre qual será nossa posição no hemisfério; e sobre o grande quadro mundial, incluindo nossas relações com a URSS. Aqueles eventos afetarão até nossa própria concepção sobre qual é o nosso papel no mundo.
Allende é marxista duro, dedicado. Chega ao poder com um profundo viés anti-EUA. Os partidos Comunista e Socialista constituem o núcleo duro da coalizão política que é sua base de poder. Todos concordam que Allende se dedicará empenhadamente a tentar:
– estabelecer um estado socialista marxista no Chile;
– eliminar a influência dos EUA sobre o Chile e o hemisfério;
– estabelecer relações e vínculos com a URSS, Cuba e outros estados socialistas.
A consolidação de Allende no poder no Chile, [*] portanto, criará algumas sérias ameaças a nossos interesses e posição no hemisfério, e afetará desenvolvimentos e nossas relações no resto do mundo:
– Investimentos dos EUA (totalizando cerca de 1 bilhão de dólares) podem ser perdidos, pelo menos em parte; o Chile pode deixar de pagar (‘calote’) dívidas (cerca de $1,5 bilhão) devidos ao governo e a bancos privados dos EUA.
– O Chile provavelmente se converterá em um líder da oposição contra os EUA no sistema interamericano, fonte de rompimento no hemisfério e ponto focal do apoio à subversão no resto da América Latina.
– Tornar-se-á parte do mundo soviético/socialista, não apenas filosoficamente, mas em termos da dinâmica de poder; e pode vir a constituir-se em base de apoio e ponto de entrada para a expansão da presença soviética e cubana em atividade na região.
– O exemplo de um governo marxista eleito com sucesso no Chile com certeza terá impacto em – e até terá valor de precedente para – outras partes do mundo, especialmente na Itália; o efeito de difusão por imitação de fenômenos semelhantes em outros pontos afetará significativamente o equilíbrio mundial e nossa posição nele.
Além de os eventos no Chile implicarem essas consequências potencialmente adversas para nós, eles também estão assumindo uma forma que os torna extremamente difíceis para que nós lidemos com eles com efeitos deles, o que, de fato, cria alguns dilemas muito dolorosos para nós:
a) Allende foi eleito legalmente, o primeiro governo marxista a ter algum dia chegado ao poder mediante eleições livres. Ele temlegitimidade aos olhos dos chilenos e de muitos em todo o mundo; nada podemos fazer para negar aquela legitimidade ou pretender que o governo não seja legítimo.
Temos forte tradição de apoiar a autodeterminação e o respeito por eleição livre; o presidente tem forte presença pela não intervenção em assuntos internos nesse hemisfério e de aceitar as nações “como elas são”. Seria portanto muito custoso para nós agir de modo que pareçam violar aqueles princípios, e os latino-americanos e outros no mundo verão nossa política como um teste da credibilidade de nossa retórica.
b) Por outro lado, se deixarmos de reagir a essa situação, haverá o risco de nosso descaso ser visto na América Latina e na Europa como indiferença ou impotência ante desenvolvimentos claramente adversos na região que há muito tempo é considerada nossa esfera de influência.
c) O governo de Allende muito provavelmente se moverá por linhas que tornarão muito difícil organizar contra ele a censura internacional ou do hemisfério – o mais provável é que apareça como país socialista “independente”, não como satélite soviético ou “governo comunista”.
Mas um governo titoísta [Josip Broz Tito, presidente da Iugoslávia, de 1953-1980] na América Latina seria muito mais perigoso para nós, do que é na Europa, precisamente porque pode movimentar-se contra nossas políticas e interesses mais facilmente e ambiguamente; e porque seu “efeito modelo” pode ser traiçoeiro.
Allende começa com algumas fraquezas significativas em sua posição:
– Há tensões na coalizão que o apoia.
– Há resistência forte, embora difusa, na sociedade chilena, contra andar rumo a um estado marxista ou totalitário.
– Há desconfiança contra Allende entre os militares.
– Há sérios problemas e limitações econômicas.
Para enfrentar essa situação, o “plano de jogo” imediato de Allende é claramente evitar pressão impedir que a oposição amadureça prematuramente, e manter seus oponentes no Chile tão fragmentados que ele possa neutralizá-los um a um, conforme consiga. Com esse objetivo, ele procurará:
– ser internacionalmente respeitável;
– mover-se cautelosamente e pragmaticamente;
– evitar confrontações imediatas conosco; e
– mover-se devagar na formalização de relações com Cuba e outros países socialistas.
Há divergência entre as agências sobre o quanto Allende conseguirá ser bem-sucedido na superação de seus problemas e fraquezas, ou se é inevitável que ele siga o curso descrito ou se as ameaças observadas se materializarão.
Mas o peso das avaliações é que Allende e as forças que chegaram ao poder com ele têm, sim, a competência, os meios e a capacidade para manter-se e consolidar-se no poder, desde que possam fazer as coisas ao modo deles. A lógica com certeza indica que Allende terá a motivação para perseguir os objetivos que, afinal, foram mantidos por cerca de 25 anos. Dado que ele tem admitida má vontade profunda contra os EUA e acentuado viés anticapitalista, suas políticas sem dúvida tendem a constituir sérios problemas para nós, se ele tiver qualquer grau de capacidade para implementá-las.
B. A QUESTÃO BÁSICA
 
Tudo isso se resume a um dilema e a uma questão fundamental:
 
a) Esperaremos e tentaremos proteger nossos interesses no contexto de negociações com Allende porque:
 
– acreditamos que nada podemos fazer sobre ele, seja de que modo for;
– ele pode não vir a ser a ameaça que tememos, ou talvez se suavize com o tempo;
– nós não queremos arriscar que o nacionalismo vire-se contra nós nem queremos arranhar nossa imagem, credibilidade e posição no mundo;
E ASSIM arriscamos deixar que Allende consolide-se, ele mesmo, e consolide seus laços com Cuba e com a URSS, de tal modo que em um ou dois anos, a partir de agora, quando Allende já tiver estabelecido sua base, ele possa agir com mais força contra nós, e nós, então, já estaremos impossibilitados de fazer coisa alguma ou de reverter o processo. Allende de fato nos usaria para ganhar legitimidade e, depois, se voltaria contra nós em alguma questão econômica, o que nos empurraria para o papel de “imperialistas ianques” na questão que ele escolheria.
OU
 
b) Nós decidimos fazer alguma coisa para impedi-lo de consolidar-se agora, quando sabemos que ele está mais fraco do que jamais estará adiante e quando ele obviamente teme nossa pressão e hostilidade, porque:
– Nós podemos ter razoável certeza de que ele se dedica hoje a opor-se a nós;
– ele conseguirá consolidar-se e será capaz de opor-se a nós de modos cada vez mais intensos; e
– na medida em que ele se consolida e liga-se mais estreitamente à URSS e a Cuba, a tendência e a dinâmica dos eventos serão irreversíveis.
E COM ISSO também corremos os riscos de:
 
– dar a ele a questão nacionalista, como uma arma para entrincheirar-se;
– arranhar nossa credibilidade aos olhos do resto do mundo, como intervencionistas;
– transformar o nacionalismo e o medo latente da dominação dos EUA no resto da América Latina em intensa e violenta oposição aos EUA; e de
– talvez não conseguir, de modo algum, impedir que Allende e as forças que o apoiem se consolidem.
C. NOSSAS ESCOLHAS
 
Há diferenças profundas entre as agências, sobre essa questão básica. Essas diferenças manifestam-se essencialmente em três abordagens possíveis:
1. A Estratégia do Modus Vivendi:
Essa escola de pensamento, que é essencialmente posição de Estado, argumenta que nós não temos, realmente, a capacidade para impedir que Allende consolide-se, ou para forçar seu fracasso; que o principal curso dos eventos no Chile será determinado primariamente pelo governo Allende e suas reações à situação interna; e que a melhor coisa que podemos fazer nessas circunstâncias é manter nosso relacionamento e nossa presença no Chile, de modo que, no longo prazo, possamos estimular e influenciar tendências domésticas favoráveis aos nossos interesses.
Desse ponto de vista, ações para pressionar Allende ou para isolar o Chile não só será inefetivas, mas só conseguirão acelerar desenvolvimentos adversos no Chile e limitar nossa capacidade para ter qualquer influência sobre a tendência de longo prazo.
Para essa visão, os riscos de que Allende consolide-se e as consequências disso, para o longo prazo, são menos perigosas para nós, que a reação imediata provável a ações de oposição a Allende. Essa percepção do desenvolvimento de longo termo de Allende é essencialmente otimista e benigna. Há aí implícito o argumento de que nada assegura que Allende consiga superar suas fraquezas internas, que é possível que ele, pragmaticamente, limite a oposição a nós, e que, se ele se converter em outro Tito não será mau, dado que, de um modo ou de outro, já lidamos com outros governos desse tipo.
2. A Abordagem Hostil:
O Departamento de Defesa, a CIA e gente do Estado, por outro lado, argumentam que é patente que Allende é nosso inimigo, que se movimentará contra nós no instante em que se sentir pronto e com a maior força que possa, e que quando essa hostilidade se manifestar contra nós, será porque consolidou seu poder e então já será tarde demais para fazer grande coisa – o processo é irreversível. Desse ponto de vista, portanto, temos de tentar impedir que ele se consolide agora, quando está no ponto de maior fraqueza.
É implícita, nessa escola de pensamento, o pressuposto de que nós somos capazes de influir nos acontecimentos; e que os riscos de que nossa posição seja criticada em outros pontos é menos perigoso para nós que a consolidação de longo prazo de um governo marxista no Chile.
Dentro dessa abordagem, há, por sua vez, duas escolas de pensamento:
 
a) Hostilidade Aberta.
 
Essa visão argumenta que não podemos demorar muito em começar a pressionar Allende e que, portanto, não podemos esperar mais para reagir aos movimentos dele, com contragolpes nossos. Eles entendem que os perigos de tornar pública a nossa hostilidade, ou de iniciar a luta, são menos importantes que qualquer ambiguidade no momento de declarar nossa posição e onde estamos. Esses assumem que Allende não precisa de fato de nossa hostilidade para ajudá-lo a consolidar-se, porque, se precisasse, ele nos confrontaria agora. Que, de fato, Allende parece temer nossa hostilidade.
Essa abordagem, portanto, exige (1) que iniciemos medidas punitivas, como o fim da ajuda que damos ao Chile ou um embargo econômico; (2) que mobilizemos todos os esforços para organizar o apoio internacional à fraca oposição que há no Chile; e que (3)declaremos e divulguemos nossa preocupação e hostilidade.
b) Pressão fria não declarada, abordagem correta.
Essa abordagem concorda com a ideia de que devemos pressionar Allende agora e de que devemos fazer-lhe oposição. Mas argumentam que o modo como embalemos a pressão e a oposição é crucial e pode fazer a diferença entre efetividade e inefetividade. Argumentam que uma imagem dos EUA iniciando medidas punitivas permitirá que Allende mobilize apoio doméstico e a simpatia internacional, por um lado; e que, por outro lado, dificulta, para nós, obtermos cooperação internacional. Argumentam também que é o efeito da pressão, não a posição de pressionarmos, que fere Allende; que a pressão declarada dá a ele oportunidades táticas para neutralizar o impacto de nossa oposição.
Implícita nessa abordagem está a ideia de que o quanto e como nossa opinião pública seja mais clara ou menos clara, e fazer registro público dela, são menos importantes no longo prazo que maximizar nossa pressão e minimizar os riscos de nossa posição no resto do mundo.
Essa abordagem, portanto, exige essencialmente o mesmo tipo de pressões que a abordagem anterior, mas a aplicaria de forma encoberta e silenciosa; na superfície, nossa abordagem seria correta, mas fria. Qualquer declaração ou manifestação pública de hostilidade dependerá das ações dele, sempre para negar-lhe a vantagem de poder declarar que é a parte agredida.
D. AVALIAÇÕES
 
Como já ficou dito, a questão básica é se vamos esperar e tentar nos ajustar, ou se vamos agir já, para nos opor.
A grande fraqueza na abordagem modus vivendi é que:
– dá a Allende a iniciativa estratégica;
– faz-se o jogo dele e quase assegura que conseguirá consolidar-se;
– se Allende se consolidar, terá ainda mais liberdade para agir contra nós depois de um período no qual o aceitamos, do que se nos opusermos a ele desde já;
– não há razões conhecidas nem inteligência disponível que justifique qualquer visão benigna ou otimista de um governo Allende no longo prazo. De fato, como já ficou dito, um estado socialista racional “independente” ligado a Cuba e à URSS pode ser até mais perigoso para nossos interesses de longo prazo que um regime muito radical.
Nada há nessa estratégia que prometa conter ou impedir ações adversas, anti-EUA, quando e se o Chile quiser empreendê-las – e há razões de muito mais peso para crer que o Chile empreenderá essas ações, tão logo sinta que está estabelecido, do que para crer que não as empreenderá.
O principal problema da abordagem hostil é saber se ela pode, efetivamente, impedir que Allende consolide seu poder. Há pelo menos alguma possibilidade de que nós possamos conseguir isso. Mas também é possível argumentar que, ainda que não formos bem-sucedidos, desde que não causemos a nós mesmos danos excessivos no processo, dificilmente o resultado poderá ser pior do que permitir que Allende se entrincheire; que há, sim, boa vantagem em nos posicionarmos na oposição, como meio para, pelo menos, contê-lo; e melhorar nossas chances de conseguir induzir outros a nos ajudar a contê-lo, mais adiante, se for preciso.
Minha avaliação é que os perigos de nada fazer são maiores que os riscos que corremos tentando fazer alguma coisa, especialmente se tivermos flexibilidade no desenho de nossos esforços, com vistas a minimizar aqueles riscos.
RECOMENDO, portanto, que o senhor [presidente Richard Nixon] tome a decisão de que faremos oposição a Allende, a mais forte que pudermos; e que faremos tudo que pudermos para impedi-lo de consolidar-se no poder; tomando o cuidado de dar a esses nossos esforços uma embalagem e um estilo que façam parecer que estamos reagindo aos movimentos de Allende.
E. A REUNIÃO DO CONSELHO DE SEGURANÇA NACIONAL
 
Ao contrário de seu hábito, de não tomar decisões em reuniões do Conselho de Segurança Nacional, é essencial que o senhor [presidente Richard Nixon] deixe absoluta e completamente clara a sua posição sobre essa questão, durante a reunião de hoje.
Se os envolvidos não compreenderem completamente que o senhor deseja que o governo Allende receba o peso máximo de nossa máxima oposição, o resultado será uma deriva a favor da abordagem modus vivendi. A questão é, em primeiro lugar, questão de prioridades e nuances. Toda a ênfase na reunião de hoje tem de ser “oposição a Allende” e “impedir que se consolide”; e, não, em “minimizar riscos”.
RECOMENDO que, depois de suas observações de abertura, na reunião, o senhor convoque Dick Helms, para que o atualize sobre a situação e sobre o que devemos esperar. Em seguida, eu apresentarei as questões principais e as opções (como já delineadas nesse memorando). Depois disso, o senhor convocará os secretários Rogers e Laird para que apresentem suas ideias e observações.
Seus “Pontos de Conversação” estão aqui anexados, redigidos conforme o que aqui lhe expus.
Sobre sua mesa, estão:
– Uma relação de opções para o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa.

Notas dos tradutores

 

[*] Todos os negritos aparecem sublinhados no original.
POSTADO POR CASTOR FILHO

Soneguetes da Globo agitam a Internet

23 set

Soneguetes” da Globo agitam internet

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte III

20 set

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte III

Terceira e última parte dedicada às guerras dos Estados Unidos.
Esta é a vez das operações encobertas desde o fim da Guerra Fria até hoje.

As acções encobertas: 1964 – 1986

1992-1995: Iraque

Saddam Hussein

De acordo com ex-agentes da intelligence dos EUA entrevistados pelo The New York Times, a CIA orquestrou uma campanha de bombas e sabotagem entre 1992 e 1995 no Iraque, através de uma das organizações revoltosas, o Iraqi National Accord, liderado por Iyad Allawi. A campanha não teve efeito na tentativa de derrubar o governo de Saddam Hussein.

De acordo com o governo iraquiano na época e com o testemunho do ex-agente da CIA Robert Baer, a campanha de bombardeios contra Bagdad incluiu tanto o governo quanto alvos civis: um cinema e um atentado contra um autocarro escolar (o que provocou a morte de estudantes). Iyad Allawi foi depois nomeado primeiro-ministro interino pela coligação internacional liderada pelos EUA que invadiu o Iraque em 2003.

1993: Guatemala

Em 1993, a CIA ajudou a derrubar o governo de Jorge Serrano Elías. Jorge, então, tentou um segundo golpe, suspendeu a constituição, dissolveu o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, instituiu a censura. Foi substituído por Ramiro de León Carpio.

2000: Sérvia 

Os Estados Unidos são acusados de ter feito esforços secretos para derrubar o socialista Slobodan Milosevic na Sérvia, durante e após os eventos da Guerra do Kosovo. A Revolução de 5 de Outubro removeu Milošević e instalou um governo pró-ocidental que permitiu a extradição de Milosevic e outros suspeitos de crimes de guerra.

2001: Afeganistão

Em 2001, as unidades da Special Activities Division (Divisão de Actividades Especiais, SAD) da CIA foram as primeiras forças norte-americanas a entrar no Afeganistão. Organizaram a Aliança do Norte para a chegada posterior das novas forças das expedição internacional. O plano da invasão do Afeganistão foi desenvolvido pela CIA e foi a primeira vez na história dos Estados Unidos que uma operação militar tão importante foi planeada pela central da intelligence.

2002: Venezuela 

Pedro Carmona

Em 2002, Washington foi acusada de ter aprovado e apoiado um golpe contra o governo venezuelano. Os golpistas, incluindo Pedro Carmona, o homem instalado durante o golpe como o novo presidente, visitaram a Casa Branca meses e semanas antes do golpe.

Sempre segundo as acusações, os EUA também financiaram os grupos da oposição no ano que antecedeu ao golpe, centenas de milhares de Dólares teriam sido canalizados em doações dos EUA para os grupos de oposição, incluindo os grupos trabalhistas cujos protestos desencadearam o golpe. Os fundos, alegadamente, foram fornecidos pela National Endowment for Democracy (NED), uma organização sem fins lucrativos. Oficiais da administração Bush e fontes anónimas reconheceram a reunião com alguns dos golpistas nas semanas que antecederam o 11 de Abri (data do golpe), mas negaram veementemente o suporte directo. O relatório do Gabinete do Inspector-Geral do Departamento de Estado dos Estados Unidos não encontrou nenhuma irregularidade acerca do assunto, nem nos ficheiros da embaixada dos EUA na Venezuela..

2002-2003: Iraque 

Tal como na invasão do Afeganistão do ano anterior, equipas da SAD foram as primeiras forças norte-americanas a entrar no Iraque, em Julho de 2002. Uma vez no território, prepararam as condições para a chegada das Forças Especiais do Exército dos EUA.

As equipas SAD realizaram missões atrás das linhas inimigas para identificar alvos, tal como greves contra o regime. Ataques contra generais iraquianos foram bem sucedidos e degradou significativamente a capacidade de comando dos iraquianos. Oficiais da SAD também foram bem sucedidos em convencer elementos-chave do exército iraquiano a entregar as suas unidades uma vez que a luta começou.

2004: Haiti

A revolta contra o governo do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide foi alegadamente apoiada pelos Estados Unidos: Aristide afirma que foi fisicamente retirado do País pelo pessoal dos EUA, contra a sua vontade.

2005-hoje: Irão

O presidente George W. Bush autorizou a CIA a empreender operações encobertas no Irão, num esforço para desestabilizar o governo local. Um artigo de 2005 do The New York Times afirmou que a administração Bush estava a aumentar os esforços para influenciar a política interna do Irão, com a ajuda de grupos pró-democracia exteriores e da oposição interior. Funcionários do governo (não identificados) afirmaram que o Departamento de Estado também estava a estudar dezenas de propostas para investir 3 milhões de Dólares “para o benefício dos iranianos que vivem dentro do Irão”.

Em 2006, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Iran Freedom and Support Act (Lei de Liberdade e Suporte para o Irão), que canalizou 10 milhões de Dólares para os grupos de oposição ao governo iraniano.
Em 2007, a ABC News relatou que o presidente Bush havia autorizado uma operação secreta de 400.000.000 de Dólares para criar instabilidade no Irão. De acordo com o The Daily Telegraph, a CIA também prestou apoio a uma organização militante sunita chamada Jundullah, que lançou ataques contra o Irão a partir de bases no Paquistão. O The New Yorker alegou que os EUA forneceram fundos e treino para a People’s Mojahedin Organization of Iran e o Party for a Free Life in Kurdistan, ambos grupos militantes de oposição ao atual governo iraniano. Até 2012, o Departamento de Estado dos EUA considerava a People’s Mojahedin Organization of Iran como uma organização terrorista.

2006-2007: Somália

Embora os Estados Unidos sempre tiveram um particular interesse na Somália, só no início de 2006 a CIA começou um programa de financiamento em favor duma coligação anti-islâmica de “senhores da guerra”. Isto envolveu a CIA para canalizar os pagamentos de centenas de milhares de Dólares para a aliança para aAlliance for the Restoration of Peace and Counter-Terrorism, adversária da Islamic Court Union.

2006-hoje: Faixa de Gaza

Depois de vencer as eleições legislativas em 2006, Hamas e Fatah formaram a Autoridade Palestina, o governo de unidade nacional de 2007 liderado por Ismail Haniya. Em Junho do mesmo ano, Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza e os elementos do Fatah removidos, mas as autoridades americanas prometeram continuar a financiar esta última com 84 milhões Dólares, na tentativa de melhorar a capacidade de combate da Guarda Presidencial Abbas leal ao Fatah. Os EUA justificaram-se afirmando que a ajuda era “não-letal”, consistindo em treino, uniformes e materiais bem como o pagamento de infra-estruturas.

2011: Líbia
2012: Somália

Esta é história dos nossos dias.

Ipse dixit.

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte II

20 set

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte II

…e vamos com a segunda parte do artigo acerca das guerras dos Estados Unidos.
Em análise, as intervenções para derrubar os regimes estrangeiros.

As acções encobertas: 1964 – 1986
Rio de Janeiro, 1964

1964: Brasil

O governo democraticamente eleito liderado pelo presidente João Goulart foi derrubado por um golpe apoiado pela CIA, em Março de 1964.

Tendo previsto uma guerra civil, o presidente dos EUA Johnson autorizou que material logístico fosse enviado para apoiar os rebelde, como parte da Operação Brother Sam (“Tio Sam”): entre outros, munições, carburantes foram enviados do porto de Aruba (Pequenas Antilhas) enquanto outras 110 toneladas de munições e gás CS ficaram prontas em New Jersey para o envio até o aeroporto de Campina.

Poucos dias após o golpe, um oficial da CIA enviou uma comunicação para Washington:
A mudança do governo irá criar uma grande mudança benéfica para os investimentos estrangeiros.

Os documentos da CIA acerca do envolvimento no golpe do 1964 permanecem secretos.

1966: Gana

Em Fevereiro de 1966, Kwame Nkrumah, o Presidente do Gana, foi derrubado com um golpe militar apoiado pela CIA, enquanto se encontrava em visita de Estado no Vietnam do Norte e na China.

1968: Iraque

Em 1966, Abdul Rahman Arif assumiu a presidência do País e o ano seguinte o governo estava perto de dar novas concessões para a exploração de petróleo por parte de França e URSS. Robert Anderson, ex-Secretário do Tesouro sob o presidente Dwight D. Eisenhower, encontrou-se secretamente com o Partido Ba’ath e chegou a um acordo segundo a qual tanto as concessões petrolíferas quanto o enxofre extraído no norte do País iriam para empresas dos Estados Unidos com o Ba’ath no poder novamente. Em 1968, a CIA apoiou o golpe de Ahmed Hassan al-Bakr, do Partido Baath, que trouxe Saddam Hussein no poder (após uma série de contra-golpes).

Em Junho de 1972, o governo do Iraque nacionalizou os recursos petrolíferos de British Petroleum, Royal Dutch Shell, Compagnie Française des Petroles, Mobil Oil e Standard Oil de New Jersey.

1973: Chile

Salvador Allende

A CIA esteve envolvida em várias missões destinadas a eliminar o Presidente Salvados Allende: tentou
subornar o Congresso chileno para impedir a nomeação dele, tentou fazê-lo exilar, trabalhou para influenciar a opinião pública contra ele, tentou frustrar suas aspirações políticas durante a administração de Lyndon B. Johnson e financiou protestos planeados para levar o País à uma paralisação.
Convencidos de que uma revolta militar convencional não era ainda possível no Chile, a CIA planeou um golpe de Estado constitucional: fazer que o Congresso chileno reconhecesse Jorge Alessandri como vencedor das últimas eleições.

A situação precipitou em 1973, quando o General Pinochet avançou com um golpe de Estado e Allende morreu (ou suicida ou assassinado, ainda não há certezas).

1976: Argentina

O governo democraticamente eleito da Argentina, liderado por Isabel Martínez de Perón foi derrubado por um golpe militar em Março de 1976. Oito dias antes do golpe, o almirante Emilio Eduardo Massera, chefe da Marinha da Argentina e um dos golpistas, tinha pedido ajuda ao embaixador dos EUA Robert Hill: este afirmou que o governo dos Estados Unidos não poderia interferir directamente mas forneceu ao Massera uma lista de empresas que trabalhavam pela Embaixada. Washington incentivou os golpistas e já poucos dias depois do golpe os EUA reconheceram o novo governo.

1978-1989: Afeganistão

Bin Laden e Z. Brzezinski

Uma das mais longas e caras operações secretas da CIA foi o fornecimento de biliões de Dólares em
armas para os militantes afegãos mujahideens que lutavam contra o exército da União Soviética. A CIA forneceu assistência aos insurgentes fundamentalistas através dos serviços secretos paquistaneses num programa chamado Operação Ciclone: algo entre 2 e 20 biliões em fundos dos EUA foram canalizados para treinar e equipar as tropas com armas

Com o financiamento americano, foram armados e treinados mais de 100.000 insurgentes. Em 20 de Julho de 1987, a retirada das tropas soviéticas do País foi anunciada em conformidade com as negociações que levaram aos Acordos de Genebra de 1988, enquanto os últimos soviéticos deixaram o solo afegão em 15 de Fevereiro de 1989.

Os alicerces iniciais da Al-Qaeda foram construídos com as relações e o armamento que vieram dos biliões de Dólares de apoio dos EUA para os mujahideens afegãos durante a guerra para expulsar as forças soviéticas do país. O atentado inicial do World Trade Center em 1993, os ataques contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia, o ataque ao USS Cole e os ataques de 11 de setembro de 2001 foram todos supostamente ligados a indivíduos e grupos que foram armados e treinados pelos Estados Unidos.

1980: Turquia

Um dia antes do golpe militar de 12 de Setembro de 1980, cerca de 3.000 soldados norte-americanos começaram a manobra militar Anvil Express em solo turco.

O apoio estadunidense ao golpe foi reconhecido pelo chefe de estação da CIA em Ancara, Paul Henze. Depois do governo ter sido derrubado, Henze telegrafou para Washington, dizendo: “Os nossos rapazes [em Ancara] fizeram isso”. O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou o golpe durante a noite entre 11 e 12 de setembro: os militares haviam telefonado para a embaixada dos Estados Unidos em Ancara para alertá-los do golpe com uma hora de antecedência.

1980-1981: Polónia

Os EUA apoiaram o movimento Solidarność na Polónia, e com a CIA, actuou numa campanha de relações públicas para impedir que “um iminente movimento de grandes forças militares soviéticas na Polónia”.Quando o governo polaco lançou uma ofensiva em 1981, Solidarność não foi alertada. Possíveis explicações para isso variam: alguns acreditam que a CIA foi encontrada desprevenida, enquanto outros sugerem que osdecisores políticos americanos viram uma repressão interna como preferível a uma intervenção soviética.

1980: Angola

A intervenção militar cubana em apoio da ditadura comunista do MPLA em Angola levou a décadas de guerra civil que custou 1 milhão de vidas. A administração Reagan ofereceu ajuda secreta a um grupo de rebeldes anti-comunistas liderados por Jonas Savimbi, chamado UNITA, cuja insurgência forçou o fim à ocupação de Cuba. 

1980-1995 Camboja 

A administração Reagan auxiliou os movimentos de resistência anti-soviéticos no exterior da que encontrava-se sob a ocupação vietnamita após o genocídio cambojano realizado pelos comunistas do Khmer Vermelho. Os vietnamitas tinham instalado uma ditadura comunista liderada por um dissidente do Khmer Vermelho, portanto Reagan autorizou a concessão de ajuda a um movimento de resistência chamado Frente Popular de Libertação Nacional do Khmer (KPNLF), dirigido por Son Sann. Mais tarde, os vietnamitas se retiraram, as tropas americanas (com as forças da ONU) invadiram o País onde se realizaram novas eleições.

1981-1990: Nicarágua

Daniel Ortega

Entre 1980 e 1990, a CIA temtou derrubar o governo sandinista na Nicarágua.

Em 1983, a CIA criou o grupo Unilaterally Controlled Latino Assets ( UCLAs ), cuja tarefa era sabotar portos, refinarias, barcos e pontes, e tentar inculpar os Contras para desencadear uma guerra civi. Em Janeiro de 1984 , as UCLA realizaram a operação para a qual seriam mais conhecidas, o posicionamento de minas explosivas em vários portos da Nicarágua, o que implicou o afundamento de vários barcos e navios e danificou pelo menos cinco embarcações estrangeiras.

O governo sandinista liderada por Daniel Ortega venceu as eleições de 1984 mas a guerrilha continuou até 1990, ano em que os Sandinistas perderam o poder. Tanto os Sandinistas quanto os Contras foram sucessivamente acusados pela Comissão Permanente do Nicarágua pelos Direitos Humanos ​​de matar milhares pessoas, estupro, incêndio e outros crimes de guerra. 

1986: Filipinas 

Os Estados Unidos tinham há muitas décadas pressionado o ditador Ferdinand Marcos, assim como o regime que abusou dos direitos humanos e a esposa Imelda Marcos. O apoio dos EUA estavam preocupados com as bases navais norte-americanas nas ilhas, mas alguns presidentes americanos, como Ronald Reagan, não quiseram intervir (definindo Marcos qual “combatente da liberdade”).
Não obstante o apoio dos EUA, o regime vacilou, Washington, por temer que o antigo aliado se afastasse, desempenhou um papel significativo em pressionar Marcos a renunciar e para transição pacífica até a democracia.

Ipse dixit.

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