O futuro do jornalismo na Era Digital

1 nov

Glenn Greenwald

Um debate fundamental sobre o jornalismo na Era Digital se deu recentemente no site do New York Times. O ex-editor do jornal, Bill Keller, abriu espaço em sua coluna para uma troca de mensagens com Glenn Greewald, responsável pelo furo mais importante do ano: o dos documentos que provam o esquema de espionagem dos EUA no mundo.

O título é um pouco maroto — “Glenn Greenwald é o futuro do jornalismo?” (A resposta é sim, ele é o futuro; e não, ele já é o presente). A discussão entre os dois modelos, representados por dois homens de épocas diferentes, porém, é enriquecedora e vale cada minuto do seu tempo.

No início do mês, Greenwald virou notícia depois que o bilionário Pierre Omidyar, dono do eBay, anunciou que estava fazendo com ele um novo site. Além de rico, Omydiar é engajado e se diz preocupado com a falta de transparência do governo americano e com as ameaças à liberdade individual. Está colocando US$ 250 milhões na parada.

O diálogo Keller/Greenwald tratou, basicamente, do embate entre “imparcialidade” versus “ativismo”. Para resumir, Keller argumenta que sendo imparcial “você fica mais perto da verdade porque impõe uma disciplina de testar todas as hipóteses, incluindo a sua própria”. Greenwald acha que os jornalistas devem divulgar seus preconceitos e suposições, ao invés de se investirem de “uma voz de Deus”, um tom que implica falsamente na noção de que estão “acima dos pontos de vista” .

Greenwald rebateu todos os argumentos de Keller com contundência e elegância. Imparcialidade não existe. Lembrou da cobertura do New York Times favorável à Guerra do Iraque. De como a palavra “tortura” só foi utilizada para descrever interrogatórios de países inimigos. Falou de como pretende encarar o desafio com Omidyar. “Temos a intenção de tratar as facções mais poderosas com ceticismo, não reverência”.

A influência do novo jornalismo praticado por gente como Greenwald — combativo, assertivo, ativista, transparente — não tem retorno. Ainda falta saber como ele e sua equipe lidarão com a grande estrutura da empresa bancada por Omidyar. Como disse o blogueiro Andrew Sullivan, a competição vai melhorar o NYTimes “com Glenn mordendo seus calcanhares”.

Abaixo, alguns bons momentos de Greenwald:

“Eu não acho que ninguém duvida que o que se tornou (recentemente) o modelo padrão para um repórter – ocultando perspectivas subjetivas ou o que parecem ser ‘opiniões’ – impede o bom jornalismo. Mas este modelo também tem produzido muito jornalismo atroz e alguns hábitos tóxicos que estão enfraquecendo a profissão. Um jornalista que fica petrificado de expressar quaisquer opiniões, muitas vezes, afasta-se de sentenças declarativas sobre o que é ou não verdadeiro, optando por um covarde e inútil ‘isso é o que dizem os dois lados e eu não vou resolver esse conflito’.”

“Todo jornalismo é uma forma de ativismo. Cada escolha jornalística necessariamente envolve suposições altamente subjetivas – culturais, políticas ou nacionalistas – e serve os interesses de uma ou outra facção.”

“Por que jornalistas que escondem suas opiniões são menos tentados pela natureza humana para manipular suas reportagens do que aqueles que são honestos sobre suas opiniões?”.

“Por exemplo, eu não sabia até bem mais tarde que [o correspondente do Times] John Burns tinha algumas opiniões bastante favoráveis​sobre o ataque ao Iraque. Ele não só admitiu em 2010 e 2011 que não conseguiu antecipar a carnificina e a destruição maciça que a invasão iria causar, como via os soldados norte-americanos como “anjos ministradores” e “libertadores”. Isso faz dele um ativista em vez de um jornalista? Acho que não. Mas, como leitor, eu realmente gostaria de ter conhecido seus pontos de vista na época em que ele estava escrevendo para que pudesse levá-los em conta”.

“Em essência, eu vejo o valor do jornalismo como algo baseado em uma dupla missão: contar ao público informações precisas e vitais; e sua capacidade única de dar um xeque-mate em quem está no poder. Todas as regras não escritas e que interfiram em qualquer uma dessas duas pontas são aquelas que vejo como a antítese do jornalismo real e que devem ser desconsideradas”.

“Quanto ao novo empreendimento que estamos construindo com Pierre Omidyar: cremos firmemente que editores fortes e experientes são vitais para o bom jornalismo e pretendo ter muito disso. Os editores são necessários para garantir o mais alto nível de precisão factual, para verificar as alegações-chaves e para ajudar os jornalistas a fazer escolhas que evitem danos a inocentes”.

“O jornalismo requer absolutamente tanto a equidade quanto a aderência rigorosa aos fatos. Mas eu acho que esses valores são promovidos por sermos honestos sobre nossas perspectivas e pressupostos subjetivos”.

Kiko Nogueira
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
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