Archive | dezembro, 2013

Por que o sonho americano se transformou num pesadelo

31 dez

Os americanos estão muito mais para isso que para Bill Gates

Morris Berman, 67 anos, é um acadêmico americano que vale a pena conhecer.

Recomendo a leitura de “Por Que os Estados Unidos Fracassaram”, dele. A primeira coisa que me ocorre é: tomara que alguma editora brasileira se interesse por este pequeno – 196 páginas — grande livro.

A questão do título é respondida amplamente. Você fecha o livro com uma compreensão clara sobre o que levou os americanos a um declínio tão dramático.

O argumento inicial de Berman diz tudo. Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar.

Berman cita um episódio que viu na televisão. Uma mulher desabou com o rosto no chão em um hospital em Nova York. Ela ficou tal como caiu por uma hora inteira, sob indiferença geral, até que finalmente alguém se movimentou. A mulher já estava morta.

“O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade”, diz Berman. “Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior.”

Berman afirma que você sente no ar um “autismo hostil” nas relações entre as pessoas nos Estados Unidos. “Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro.”

Berman

O americano médio, diz ele, acredita no “mito” da mobilidade social. Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa “alucinação”, em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de 60 bilhões de dólares, como Bill Gates.

“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de Setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. A nossa política (econômica) interna criou a crise mundial de 2008.”

A soberba americana é sublinhada por Berman  em várias situações. Ele cita, por exemplo, uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra americano derrubou por alegado engano um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.

Berman evoca também a Guerra do Vietnã. “Como entender que, depois de termos matado 3 milhões de camponeses vietnamitas e torturado dezenas de milhares, o povo americano ficasse mais incomodado com os protestos antiguerra do que com aquilo que nosso exército estava fazendo? É uma ironia que, depois de tudo, os reais selvagens sejamos – nós.”

Você pode perguntar: como alguém que tem uma visão tão crítica – e tão justificada – de seu país pode viver nele?

A resposta é que Berman desistiu dos Estados Unidos. Ele vive hoje no México, que segundo ele é visceralmente diferente do paraíso do narcotráfico pintado pela mídia americana — pela qual ele não tem a menor admiração. “Mudei para o México porque acreditava que ainda encontraria lá elementos de uma cultura tradicional, e acertei”, diz ele. “Só lamento não ter feito isso há vinte anos. Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos.”

Clap, clap, clap.

Paulo Nogueira
Sobre o Autor

O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Revista diz que NSA capta dados de cabos submarinos entre Europa e Ásia

30 dez

Reportagem da revista alemã “Spiegel” denuncia que a Agência de Segurança Nacional dos EUA obteve dados sobre as maiores redes de comunicação entre a Europa e o Oriente.

O sistema de cabos – na maior parte, submarinos – SEA-ME-WE-4 tem 18 mil quilômetros de extensão. Completado em dezembro de 2005, ele se tornou o principal meio de conexão para internet e telefonia entre a Ásia e a Europa.

De acordo com uma reportagem da revista alemã Spiegel, a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) teria conseguido obter informações sobre o gerenciamento da rede do sistema.

Segundo a reportagem, o Departamento de Operações Customizadas (Tailored Access Operations) da NSA teria conseguido penetrar no site do consórcio que opera a rede e obter dados sobre a infraestrutura técnica do sistema de cabos. Os especialistas da agência americana estariam de posse de informações sobre uma “parte significativa” do sistema, publicou o semanário em sua mais recente edição.

Apenas um passo inicial

O sistema SEA-ME-WE-4 de cabos submarinos vai da cidade portuária de Marselha, na França, através do Mediterrâneo até o norte da África, passa então pelos países do Golfo até chegar ao Paquistão, Índia, Cingapura, Malásia e Tailândia. Ao longo do percurso existem 17 pontos de conexão onde os dados associados a cada região são conectados com o continente e a informação é ao mesmo tempo transmitida e recebida das redes locais.

O nome do sistema é composto das siglas em inglês das regiões de destino e de tráfego da rede: o Sudeste Asiático (em inglês: Southeast Asia – SEA), Oriente Médio (Middle East – ME) e Europa Ocidental (Western Europe – WE). Um total de 16 operadoras de telecomunicações compõe o consórcio que administra o sistema. Entre estas, a francesa Orange, a Telecom Itália e a indiana Tata Communications.

Segundo a reportagem da Spiegel, a obtenção das informações internas sobre o sistema pela NSA é apenas o primeiro passo. “Futuras operações estão sendo planejadas para a obtenção de informações adicionais sobre este e outros sistemas de cabos”, afirmou a revista.

Tática repetida

Entre as revelações feitas pelo ex-consultor da NSA, Edward Snowden, consta uma denúncia de que a NSA compartilha informações com outras agências de inteligência – como a GCHQ do Reino Unido – obtidas de dados de conexões transatlânticas da rede de cabos SEA-ME-WE-3, de 39 mil quilômetros de extensão, que entrou em operação em 1999.

A denúncia foi divulgada na Alemanha pelo diário Süddeutsche Zeitung e pela emissora pública NDR, no final de agosto de 2013.

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

28 dez

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?
ELIANE BRUM

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
– Você é evangélico? – ela perguntou.
– Sou! – ele respondeu, animado.
– De que igreja?
– Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
– Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
– Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
– Legal.
– De que religião você é?
– Eu não tenho religião. Sou ateia.
– Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
– Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
– Por que as boas ações não salvam.
– Não?
– Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
– Mas eu não quero ser salva.
– Deus me livre!
– Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é espírita.
– Não, já disse a você. Sou ateia.
– É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
– Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
– Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)

ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
É autora de um romance -Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum

ELEIÇÕES 2014: NÃO DEVEMOS PERMITIR A PAULISTINIZAÇÃO DO BRASIL

27 dez

A bandeira paulista traz um lema emblemático: Non ducor duco[conduzo, não sou conducido].  Como estamos em espírito natalino, que o Menino-Deus nos livre desta praga. São Paulo é o símbolo da arrogancia e selvageria de certa elite brasileira com sua face retocada sob a social democracia.

Meu foco neste artigo é São Paulo não porque minimize o sempre decisivo peso de Minas Gerais nas eleições presidenciais – tampoco desconsidero os desastres da administração do PSDB mineiro -, mas porque a tucanagem paulista é a vitrine eleitoral e a cara intelectual do projeto anti-povo do partido em geral. 

Sob o PSDB, São Paulo acumulou números que deveriam ser suficientes para expor o projeto reacionário e conservador dos que mais uma vez irão se apresentar como a “renovação” em 2014. Em seus vinte anos no poder, o PSDB mostra que não tem nenhuma tecnología “nova” para governar a não ser a combinação explosiva que a periferia das cidades paulistas conhece bem: policía, porrada e prisão.

Ainda que o programa de governo de Aécio Neves tente convencer do contrário, nem ele nem o seu partido acreditam nas políticas sociais que o Brasil conquistou nos últimos anos, como bem expresssado nas campanhas contra o Bolsa-Familia, no boicote ao Mais Médico e na extinção da CPMF que de uma tacada retirou R$ 40 bi do SUS. Para agradar ao deus-mercado, e sob o manto cínico do “choque de gestão”, suas lideranças travam uma guerra contra os pobres.

 Se o PT não fosse tão incompetente em sua comunicação social – em que pese a blindagem da mídia “sudestina” – o fracasso da gestão tucana em São Paulo seria mais do que suficiente para jogar uma pá de cal nas pretenções do mineiro Aécio Neves.

A chamada “locomotiva do país” não conduz nada. Ela abriga uma elite política (um complexo financeiro-politíco-midiático) que é na verdade a principal ameaça ao Brasil independente, plural e justo. Enquanto os intocáveis da mídia seguem firmes em seu atentado diário ao jornalismo – brigando com os fatos – há uma crescente militância social na blogosfera que tem apresentado um contraponto `as fantasias da mídia e deixado o rei (PSDB) nú. Escolho três áreas mas o leitor é livre para nomeiar outras tantas:

a) A expansão do metrô paulistano anda a passos de tartaruga. Os 74 quilômetros de extensão (incluidos os trens) são ridículos frente ao metrô de Londres (408 km), ou ao sistema metroviário da Cidade do México (220km). O pior é que os paulistanos já se acostumaram com as projeções cada vez mais distantes para o metrô chegar na periferia: em 2018, 2022……2050. 

Segundo projeções feitas pela BBC Brasil, no ritmo atual de expansão de 1,9 km por ano, o metrô de São Paulo levaría 172 anos para se equiparar ao londrino.  Enquanto os paulistanos seguem sendo esprimidos como sardinhas, as investigações da Polícia Federal dão conta de um desvio bilionário em licitações envolvendo as administrações Covas, Alckmin e Serra. 

b) Mas o metrô é apenas uma das múltiplas faces da perversidade tucana. Sob os governos do PSDB, São Paulo viu a sua população carcerária subir de maneira estratosférica. Os dados são compilados da própria Secretaria de Segurança Pública e do Departamento Penitenciário Nacional: em 1995 havia 65 mil pesssoas atrás das grades no estado.

Hoje são aproximadamente 200 mil presos e os números seguem crescendo. São Paulo responde por quase 40% da população carcerária do país. E mais: embora sejam 31% da população, os negros representam 53% da população prisional. As recentes investidas de Geraldo Alckmin no Congresso Nacional em busca de apoio para a redução da maioridade penal ilustra bem a racionalidade tucana. 

c) No que diz respeito a policía, os fatos também não deixam dúvida sobre as respostas do PSDB aos desafíos urbanos. Aquí tudo é caso de policía e o nome das operações militares confirma a política da truculência: “operação saturação” em Paraisópolis, “operação sufoco” na  cracolândia, desocupação de Pinheirinhos,…. A lista é grande.

São Paulo registra um padrão de letalidade policial que já fez até a ONU  pedir a extinção da PM. Segundo dados da Human Rights Watch, a policía paulista mata mais do que toda a força policial dos Estados Unidos ou da Africa do Sul. Um dado interessante: depois do domínio do PCC sobre os homicidios na periferia, a polícia aparece como a responsável por 1/3 de todas as mortes violentas no Estado, ou seja, o PCC até que diminuiu a violencia homicida na periferia, mas os assassinatos pela polícia não permitem uma redução maior. 

Em 2012 a PM assassinou 563 pessoas sob a rubrica das “resistências seguidas de morte”.  Outra constatação óbvia para o movimiento negro: segundo o jornal Diário de São Paulo, a cada 3 pessoas assassinadas pela PM em São Paulo, 2 são negras.

Os jovens da classe média que seguramente  irão outra vez às ruas em junho de 2014 deveriam ter em mente este dado: sua geração nasceu e cresceu sob um governo que responde aos desafíos urbanos com policía, porrada e prisões. Quantos jovens foram assassinados pela polícia de São Paulo nos últimos vinte anos?

Quantos foram encarcerados na guerra insana contra os moradores das periferias, de maneira preferencial contra os negros? Quanto o governo do PSDB enterrou nos trilhos tortuosos das licitações públicas do metrô?  Porque, ao contrario de outros estados, São Paulo segue irredutível na adoção de ações afirmativas para a juventude negra? Para esta última pergunta a resposta é fácil. O encarceramento da juventude negra é a ação afirmativa ao inverso. 

O PSDB deveria responder a estas questões como parte de sua agenda de “um Brasil mais justo, democrático e desenvolvido”, como expresso na plataforma do seu candidato. Diluída em um discurso oportunista de “mudança” e  “combate à corrupção”, o programa não traz nada de novo a não ser a estratégia de mobilizar as frustrações e ressentimentos da classe média com os governos Dilma e Lula.

Na crítica tucana e da imprensa está implicito, como já disse o presidente Lula, a condenação do PT  por seus acertos.  Depois de boicotar o Mais Médico, por exemplo, o PSDB critica a demora do governo federal em criar o programa; depois do preconceito contra os beneficiários do Bolsa-Família, promete aperfeiçoa-lo; depois de tentar inviabilizar o ProUni, critica o baixo percentual de jovens nas universidades. 

O PSDB carece de um projeto político. Os defeitos do PT estão aí, mas não são nem de longe as “virtudes” apontadas pelo PSDB. O problema do PT é sua inabilidade de se comunicar com o povo, sua crença doentia na “liberdade de i(e)mprensa”, o afastamento/cooptação dos movimentos sociais, e a capitulação aos pressupostos do deus-mercado. 

Faria bem à democracia (e ao PT) se os protestos do próximo ano fossem por um governo bem mais à esquerda. O povo sustentaria o momento de virada de mesa que estamos esperando desde a reeleição de Lula em 2006? Não sei, até porque o PT nasceu das lutas populares mas se perdeu na máquina burocrática. E, como prova a letargia frente a AP470 e o abandono dos “companheiros” Dirceu, Delúbio e Genoino `a própria sorte, o PT se acovadou em nome da governabilidade/reeleição…. 

A hesitação com o Mais Médico (um projeto do qual o governo já tinha desistido), a entrega a Paulo Bernardes (Deus meu!) de pasta essencial para o projeto político do novo Brasil, e a falta de visão estratégica para criar um pacto urgente que dê resposta imediata aos apelos pela Educação ( alguém chutou idéia que caiu em ouvidos surdos:  “Mais Professores”, antecipando recursos dos royalties do petróleo por meio de uma linha de crédito especial aos municipios com IDH médio e baixo) são outros exemplos da falta de sintonía com o povo. 

Quanto custaria ao governo federal uma ação emergencial deste tipo, levando em consideração a inevitável comparação com os financiamentos do BNDES para a construção dos estádios “padrão-Fifa”? A pergunta pode parecer cínica e injusta, dado os destinos do pré-sal já anunciados pela presidenta Dilma Roussef,  mas ela será feita ano que vem nas ruas tanto pelos movimentos sociais engajados na luta por uma educação pública de qualidade, quanto pela classe média ‘ressentida e raivosa’ com as políticas sociais do PT.

Ironicamente, nenhum outro partido tem  a história de lutas do PT, mas é aí mesmo que vai estar o campo de batalhas do bloco de oposição instrumentalizando a “nova” classe média em torno de bandeiras que nunca defenderam mas que são consenso. Quem seria contra mais recursos para a educação e para a saúde? Quem não defenderia a luta contra a corrupção? É possível levar a sério candidato com a bandeira do “é possível fazer mais”? A força da agenda está aí na capacidade de agregar gregos e troianos sob a cínica bandeira da “mudança”.  Mesmo que a “classe dirigente” do país seja o alvo das manifestações, quem estará no limbo será o PT porque distante dos movimentos sociais e trucidado pela  mídia corporativa. 

O que nos resta? Enquanto lutamos para expandir os horizontes políticos muito além do PT, aumenta a responsabilidade histórica e a vigilancia permanente para não sucumbirmos à mudança conservadora. Sim, debemos ir às ruas exigir mais. Mas se a razão de ser das próximas eleições são “qualquer um menos o PT”, como profetizou FHC, e se policía, porrada e prisão é a tecnología social do PSDB, então é hora de batermos os tambores: um compromisso moral dos lutadores e lutadoras sociais é não permitir a paulistinização do Brasil. É com essa promessa que temos que começar 2014. ¡No pasarán!

Jaime Amparo Alves-Brasil247

Jaime Amparo Alves

Os brucutus da timeline

25 dez
Democráticas e inclusivas em sua visão idílica, as redes sociais formam um Homo digitalis triste, solitário, invejoso e radicalizado pelos guetos virtuais, alertam pesquisas
facebook

A piada pronta é irresistível. Se aparecesse na timeline do Facebook, seria impossível dar um like para a pesquisa publicada pela Public Library of Science na segunda quinzena de agosto, conduzida pelo Laboratório de Estudos da Emoção e do Autocontrole da Escola de Psicologia da Universidade de Michigan. O estudo, comandado pelo professor do Instituto de Pesquisas Sociais da U-M Ethan Kross, em parceria com Phillipe Verduyn, da Universidade de Leuven, na Bélgica, concluiu que, quanto mais se usa o Facebook, mais infeliz e solitário o sujeito é.

Inovadora por ser a primeira a acompanhar a rotina de dezenas de usuários da rede social por um período determinado, a análise empírica, centrada em jovens com menos de 30 anos, possibilita entender um pouco melhor os contornos do Homo digitalis anunciado na década de 90 pelo americano Nicholas Negroponte, um dos criadores do celebrado Media Lab do Massachusetts Institute of Technology. Outras pesquisas divulgadas neste ano revelam um aparente paradoxo: ao mesmo tempo que redes sociais, notadamente o Facebook e o Twitter, são apresentadas como importantes ferramentas para o ativismo social e político, estudiosos apontam para o incremento da sensação de solidão e um aumento de polarização ideológica, com a tendência de os usuários dialogarem com indivíduos de posição política e comportamental similares às suas, e criticam a ideia de que essas plataformas, por sua natureza, exporiam os usuários a uma quantidade anteriormente inimaginável de pontos de vista.

“A contradição existe, mas não me surpreende. A amizade é algo que vai além da comunicação, é a sensação de comunhão com o outro. Esse sentimento pode dar-se pela troca de ideias, ou mesmo de imagens, como no Instagram. Mas é mais intensamente realizado pela proximidade humana. Frequentemente, os momentos em que nos sentimos mais próximos de outro ser humano são aqueles em que estamos fisicamente juntos, mas não dizemos nada”, filosofa o sociólogo Stephen Duncombe, especialista em novas mídias do Departamento de Mídia, Cultura e Comunicação Social da Universidade de Nova York.

A investigação sobre o perfil do usuário das redes sociais não é uma novidade em si. Artigos que conectam o Facebook ao aumento de ciúme nas relações amorosas, à tensão social em nível individual (bullying, preconceito), à tendência ao isolamento e ao aumento de depressão são recorrentes, com base científica ou mesmo a partir de exemplos cotidianos, como a quantificação da manifestação de ódio por nordestinos após o resultado das eleições presidenciais brasileiras em 2010 ou o infográfico elaborado por um grupo de advogados especializado em divórcios nos EUA para demonstrar como a traição digital pode ser um problema real na hora da separação. A diferença fundamental no estudo da U-M é a de se propor a ir além do mero registro de tendências ou da captura de um momento específico.

A equipe de Kross recrutou 82 jovens para o experimento. Curiosamente, quem topasse responder aos questionários elaborados pelos especialistas concorria à rifa de um tablet, o iPad. As perguntas eram enviadas diariamente cinco vezes, das 10 da manhã à meia-noite, por 14 dias, de forma ininterrupta, via mensagens de texto por celular. Os participantes também receberam uma pequena gratificação, 20 dólares cada. A periodicidade da consulta é um dos fundamentos do estudo. “Com isso fomos capazes de mostrar como o ânimo dos usuários mudava de acordo com o uso que cada um fazia do Facebook”, explica Kross.

Independentemente da quantidade de amigos, indicam os resultados finais, das condições psicológicas destes e da motivação para o uso da rede social, a cada passagem pelo Facebook aumentavam a preocupação e a sensação de isolamento e infelicidade dos jovens. “Em princípio, o Facebook parece oferecer recursos inestimáveis para satisfazer a necessidade humana de conexão social. Em vez de incrementar a sensação de bem-estar, nossa pesquisa sugere, no entanto, que o Facebook diminui a percepção de felicidade do usuário”, escreve o acadêmico na apresentação da pesquisa.

Os 82 jovens de Ann Arbor, no Michigan, centro universitário do Meio–Oeste americano com cerca de 345 mil habitantes, foram instados a dar uma nota para a satisfação obtida consigo mesmo antes do início da pesquisa e no derradeiro dia de estudo. A exposição ao Facebook apareceu diretamente ligada à sensação de infelicidade: quem passava mais tempo no site, mais infeliz havia ficado duas semanas depois da largada da pesquisa. Por outro lado, quanto maior o contato social direto, com amigos de carne e osso, sem mediação digital, maior a sensação de felicidade.

Se comparado ao universo do Facebook – mais de 1 bilhão de indivíduos no planeta possuem uma conta do serviço – o estudo da U-M é estatisticamente limitado. E os pesquisadores não buscaram respostas para os motivos de resultados diferenciados entre a socialização virtual e a presencial. Em entrevista à Fast Company, o cientista levanta a possibilidade de o Facebook ativar um poderoso processo de comparação social. “Os indivíduos tendem a postar informação, fotos e anúncios que fazem com que suas vidas pareçam sensacionais. Exposição frequente a esse tipo de informação pode levar o outro a sentir que sua vida é, em comparação, pior. Essa é uma das possíveis explicações. Mas outro fator pode ser a falta de interação direta com os outros.”

Outra pesquisa apresentada em fevereiro pelos cientistas sociais alemães das universidades de Humboldt e Darmstadt aventurou-se por esse campo ao entrevistar 584 usuários da principal rede social da internet. Foi positiva a resposta à pergunta proposta no título do estudo: “Inveja no Facebook: uma Ameaça Escondida à Felicidade dos Usuários?” A inveja, dizem os alemães, foi a emoção mais comum entre os voluntários (jovens com menos de 30 anos), despertada justamente pela comparação entre as vidas dos usuários e aquelas dos amigos cuja existência idealizada aparentava estar à beira da perfeição.

Os professores Peter Bauxmann e Hanna Krasnova criaram a imagem de uma “espiral da inveja”, especialmente dolorosa para os “usuários passivos”, que postam menos e experimentam a rede como testemunhas das conquistas sociais dos outros, tal qual estes as editam nas redes sociais. “Os usuários percebem o Facebook como um ambiente estressante, o que poderá, no longo prazo, ameaçar a sustentabilidade da plataforma”, anotam os pesquisadores.

O Facebook vai muito bem, obrigado. Na mesma semana em que a pesquisa da U-M recebia os holofotes da mídia, Mark Zuckerberg & cia. anunciavam que pouco mais de 40% dos norte-americanos, ou 128 milhões de indivíduos, se conectavam ao site diariamente. Segundo estimativa do banco Morgan Stanley, o mercado de vídeos de propaganda vai garantir cerca de 1 bilhão de dólares em 2014 e 6,5 bilhões em 2020. Em janeiro, a empresa anunciou ter alcançado a marca de 1,06 bilhão de usuários. O Brasil aparece entre as cinco nações com o maior número de conectados, ao lado de EUA, Índia, Indonésia e México.

A imagem de um brucutu na frente do computador, do Homo digitalis triste, solitário, invejoso e radicalizado pelos guetos virtuais, antítese da ideia de que as redes sociais seriam plataformas intrinsecamente democráticas e inclusivas, é obviamente repudiada pelos criadores do Facebook. Retratado no filme A Rede Social, de David Fincher, vencedor de três prêmios Oscar em 2011, como um autista social, Zuckerberg anunciou, juntamente com os números acima citados, a criação da internet.org, um consórcio do site com o browser Opera, a empresa especializada em tecnologia wireless Mediatek e os fabricantes de smartphones Nokia, Samsung e Ericsson para estimular a conexão digital de indivíduos de baixa renda. O objetivo, dizem os envolvidos, é combater o fosso digital e a desigualdade social. Zuckerberg defende a ideia de que o direito à conexão, para o Homo digitalis, se equipara aos direitos humanos essenciais como a liberdade de expressão e alimentação.

Os muitos artigos sobre a importância das mídias sociais para o apoio social aos movimentos políticos, como a Primavera Árabe e o Ocupem Wall Street, também levaram pesquisadores a investigar recentemente, e de forma mais detalhada, o uso, no longo prazo, dessas plataformas na obtenção de informação e debate de ideias. Dois cientistas especializados em computação social do Instituto de Pesquisa e Informática do Catar, Ingmar Weber e Venkata Garimella, investigaram, com o apoio de um analista do canal de tevê Al-Jazira, o papel das redes sociais no acirramento das posições políticas no Egito. Baseados em uma amostra de 17 milhões de tuítes publicados por 7 mil egípcios de janeiro a junho deste ano, os pesquisadores separaram as mensagens em duas categorias, secularistas e islamitas. E investigaram a evolução das hashstags, o #, um dos principais símbolos do Twitter, usadas na classificação de tópicos: se elas apontariam para uma ênfase na multiplicação de guetos ou, ao contrário, se permitiriam maior troca de ideias, ainda que aparentemente alienígenas para um grupo ou outro.

Na conclusão, os pesquisadores criaram o termo “barômetro da tensão”, em que hashstags como Morsi (em referência ao presidente deposto Mohamed Morsi) ao mesmo tempo incrementavam a polarização na rede e eram coincidentes com um aumento de violência no mundo real. Ainda assim, Weber e Garimella não chegaram a nenhuma conclusão sobre “causa-efeito” e não chegaram à conclusão sobre se as redes sociais transportariam o estresse e a insatisfação pessoal para o universo político.

Doutora pela UFRJ, professora de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense e estudiosa dos dilemas éticos nas novas mídias, Sylvia Moretzsohn considera ser esta uma tarefa dificílima. “É possível que Weber e Garimella estejam no caminho certo, o de se verificarem a repercussão e a realimentação de tuítes na relação mundo virtual/mundo presencial, mas a tendência das redes sociais sempre foi a guetização, oposta à disseminação de ideias conflitantes que permitiriam a ampliação da capacidade de conhecimento e de crítica dos usuários. Veem-se, em geral, a cristalização de opiniões, a rejeição ao contraditório e a reprodução de certos clichês ideológicos que apaziguam a consciência daqueles que têm convicções e não estão abertos ao debate. Mas esse é também o comportamento normal do senso comum, e não é surpresa que ele se reproduza nas mídias sociais.”

Kika Serra, também da UFRJ, é mais otimista. “Entre os extremos de comportamento, entre islamitas e secularistas, entre a tolerância e a intolerância, existe um mar de indivíduos que não têm o hábito de formular opinião sobre nada. Elas buscam nas redes sociais interpretações de mundo. O filtro é mais permeável, justamente por não terem perfil político definido.”

Para Moretzsohn, as pesquisas mais recentes não devem ser analisadas a partir da premissa de que novidades tecnológicas têm a capacidade de transformar profundamente as relações sociais. “É o equívoco de se maximizar a importância da tecnologia em nossas vidas e atribuir a ela as benesses e mazelas do mundo contemporâneo.”

No estudo dos meios de comunicação de massa, diz Ducombe, da NYU, cada nova mídia tende a ser apontada como a origem dos males ou a solução dos problemas intrínsecos de uma sociedade brutalizada. “As sociedades tendem a se apropriar das tecnologias e usá-las de modo utilitário, reflexo de suas próprias necessidades. O livro foi tanto uma resposta quanto um alavancador do nascente individualismo. Os filmes são uma consequência e retrato direto da sociedade de massas. Seria mesmo um acidente o Facebook e afins, com sua ênfase em uma rede de ‘amigos’, termo largamente reduzido ao histórico da carreira profissional e às preferências de consumo, se tornarem a escolha preferencial de comunicação da sociedade neoliberal globalizada? Simples assim: temos o tipo de comunicação que merecemos.”

O pior analfabeto é o analfabeto midiático. by Celso Vicenzi

23 dez

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O pior analfabeto é o analfabeto midiático. Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos.

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O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país. Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens.

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Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%. O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo.

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Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.

Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados.

A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada. O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.

O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos.

Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade.

Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.

” O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público.

Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

— O analfabeto político__

O pior analfabeto, é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha ,do aluguel, do sapato e do remédio,depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.

Não sabe o imbecil, que da sua ignorância nasce a prostituta, o menor abandonado,o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, Pilanta, o corrupto e o espoliador

Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto midiático. by Celso Vicenzi

23 dez

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O pior analfabeto é o analfabeto midiático. Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos.

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O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país. Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens.

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Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%. O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo.

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Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.

Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados.

A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada. O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.

O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos.

Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade.

Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.

” O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público.

Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

— O analfabeto político__

O pior analfabeto, é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha ,do aluguel, do sapato e do remédio,depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.

Não sabe o imbecil, que da sua ignorância nasce a prostituta, o menor abandonado,o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, Pilanta, o corrupto e o espoliador

Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

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