Por que o novo projeto de Glenn Greenwald é importante

14 dez

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Por Henry Farrell em 22/10/2013 na edição 769

Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de Henry Farrell [“Why Glenn Greenwald’s new media venture is a big deal”, Washington Post, 17/10/13]

Glenn Greenwald, que publicou muitos dos principais furos sobre os vazamentos de Edward Snowden, está saindo do Guardian e começando um novo empreendimento jornalístico com os veteranos jornalistas Laura Poitras e Jeremy Scahill, do semanário The Nation. A iniciativa é patrocinada por Pierre Omidyar, fundador do site eBay, que disse estar preparado para investir mais de 250 milhões de dólares no novo projeto.

Isso é uma grande notícia para o jornalismo. E também é uma grande notícia para quem se interessa na relação entre a tecnologia da informação e a política. Martha Finnemore e eu esboçamos um texto, há uns dois anos, sobre como as organizações do tipo do WikiLeaks estavam mudando a relação entre conhecimento, política e hipocrisia. Nossas ideias sobre hipocrisia desembocaram num artigo sobre as verdadeiras consequências dos vazamentos de Snowden que vai ser publicado na próxima edição da revista Foreign Affairs. E nossas ideias sobre conhecimento e política talvez digam alguma coisa sobre as consequências deste novo empreendimento (mas tenham paciência comigo; nossa argumentação é um pouco complicada).

Essencialmente, nós achamos que boa parte dos comentários sobre o WikiLeaks e as revelações de Snowden está errada. A maioria das pessoas acha que o WikiLeaks, Snowden etc são politicamente importantes porque revelam informações confidenciais até então desconhecidas. Muitos dos defensores do WikiLeaks – e isso, inicialmente, incluía o próprio Julian Assange – achavam que, ao revelar informações que o governo pretendia esconder, a organização mudaria a política e contribuiria para a deposição de regimes corruptos. E, na verdade, os críticos de Snowden e do WikiLeaks concordam com isso – eles alegam que os EUA (e talvez o mundo) foram feridos ao serem reveladas informações que deveriam continuar secretas.

Quando a informação se torna conhecimento

Nenhum deles tem razão. Assim como nem o WikiLeaks nem Snowden revelaram alguma informação surpreendente ou prejudicial. Os governos europeus e sul-americanos já sabiam que os EUA os espionavam. É claro que a China tinha consciência de que agências norte-americanas estavam tentando invadir seus sistemas. Por outro lado, a esperança inicial de Assange – que mudaria o mundo ao publicar informações prejudiciais – revelou-se sem fundamento algum. O WikiLeaks passou por uma grande frustração tentando conseguir que alguém (exceto blogueiros) desse atenção a suas primeiras revelações. Ninguém parecia se preocupar com isso.

O motivo do por quê é importante. Existe informação demais para que a maioria das pessoas possa prestar atenção – muito menos, decidir se acreditam ou não. Portanto, a maioria das pessoas confia em outras instituições, como as organizações jornalísticas, que lhes digam quais as informações que merecem atenção. As pessoas não só deixam de dar atenção às informações antes que estas sejam reconhecidas por uma instituição de autoridade, como as transformam, pois todo mundo sabe que todo mundo está prestando atenção a elas. E aí as coisas deixam de ser informações e passam a ser conhecimento – fatos aceitos, de maneira geral, que as pessoas usam para construir sua compreensão daquilo que todo mundo sabe sobre política.

Jornais bem montados, como o New York Times, o Washington Post e o Financial Times, desempenham um papel sociológico fundamental ao decidirem qual a informação que é importante e confiável e qual não é. Quando um desses jornais publica uma informação, ela é legitimada como conhecimento – o que as próprias pessoas não só irão provavelmente levar a sério, como terão que levar a sério porque sabem que outras pessoas estão levando a sério. Os governos da União Europeia sabiam perfeitamente que os EUA vinham violando suas comunicações (e se você tivesse acesso a fontes especializadas, também o saberia). Entretanto, esses governos consideraram politicamente mais conveniente desconhecer a espionagem norte-americana do que fazer um espalhafato. Quando essa informação se tornou conhecimento – quando foi publicada e tratada como informação oficial pelos principais jornais –, ficou impossível continuar a desconhecê-la.

Parceria com a imprensa

Assange e o WikiLeaks descobriram uma versão disto há bastante tempo. Foi por isso que começaram a trabalhar em conjunto com jornais importantes, como o Guardian e o New York Times – pois somente dessa maneira conseguiam atrair uma atenção sistemática para a informação que revelavam, transformando-a num conhecimento aceito por todos. Nada tem de surpreendente, entretanto, que essa relação tenha se tornado difícil. Os jornais – mesmo os pioneiros – têm relações políticas com os governos, que os deixam nervosos por publicar (e, portanto, validar) alguns tipos de informações. Isso também ajuda a explicar a grosseria que muitos jornalistas têm para com Greenwald. Embora reconheçam que ele revelou muito furos valiosos, não o veem vinculado às mesmas regras a que obedecem.

Por um lado, pessoas como Assange, Greenwald e Snowden precisam de jornais ou veículos de mídia semelhantes. Sem um tal veículo, ficam falando sozinhos. Por outro lado, e justamente porque os jornais desempenham um papel essencial em validar o conhecimento, eles têm relações complicadas com governos e políticos. Isso os leva a ações que pessoas como Assange e Greenwald provavelmente veem como concessões ao poder.

E é por isso que este novo empreendimento é tão interessante. Provavelmente irá desenvolver-se como uma empresa jornalística séria. Um capital de 250 milhões de dólares pode contratar gente muito boa. A iniciativa tem o potencial para tornar-se uma fonte de informação que pode transformar informação em conhecimento. No entanto, não parece que venha a estar vinculada aos tipos de relações políticas nas quais está embutida a maioria dos jornais. A Columbia Journalism Review ressalta bem esse aspecto quando descreve o empreendimento como o semanário de I.F. Stone, caso este tivesse contado com o pródigo patrocínio de um bilionário amigo.

Conhecimento público sem as velhas regras

Se a iniciativa der certo, é provável que mude a relação entre informação, conhecimento e política de maneiras bastante interessantes. O mais óbvio é que torne ainda mais difícil para o governo norte-americano o controle da política de vazamentos por meio de pressões sobre os jornais para que não publiquem matérias que entende como prejudiciais ao interesse nacional. A esse respeito, Bill Keller, ex-editor-chefe do New York Times, diz o seguinte:

“A tensão entre nossa obrigação de informar e a obrigação do governo de proteger obedece a uma série de rituais. Como escreveu um de meus antecessores no cargo, Max Frankel, “para a grande maioria dos ‘segredos’, desenvolveu-se entre o governo e a imprensa (e o Congresso) uma regra muito simples: o governo esconde o que pode, alegando necessidade enquanto o consiga fazer, e a imprensa bisbilhota tudo o que pode, alegando necessidade e direito à informação. Cada lado neste ‘jogo’ ‘ganha’ ou ‘perde’ uma ou duas jogadas. Cada um luta com as armas de que dispõe. Quando o governo perde um ou dois segredos, ajusta-se, simplesmente, a uma nova realidade.”

É difícil imaginar que Greenwald (ou Laura Poitras) tenha interesse em envolver-se nestes rituais. Se os governos começarem a perder o controle sobre o conhecimento público na era da informação, certamente não será porque a informação “quer ser livre”. Será devido à criação de novos empreendimentos como este, que criam conhecimento público sem aderir às velhas regras de como o governo tem voz na decisão sobre o que vai e o que não vai ser publicado.

Henry Farrell é professor de Ciência Política e Assuntos Internacionais na Universidade George Washington. Além de seu trabalho acadêmico, ele já contribuiu com as publicações Foreign Affairs, Foreign Policy, Financial Times, Democracy, Washington Monthly e The American Prospect

 

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