A era do gelo by Eduardo Guimarães

22 dez

Eduardo Guimarães, exclusivo para o Facebook

Outro dia, li no Twitter um comentário sobre o Facebook. O tuiteiro convicto dizia que aquela rede social em que ora se manifestava é que era boa e que não gostava do Facebook, que qualificou como “meio gay”.

Mas o que, diabos, significa alguma coisa ser “meio gay”? 

Não se trata do “meio-ambiente” dos gays – se é que existe tal coisa -, mas de uma forma “afeminada” de as pessoas se relacionarem. Que forma é essa? Gentileza, simpatia, cordialidade e, até, calor humano. 

Se isso é ser “gay”, apesar de só conseguir obter estímulo sexual com mulher – ah, as mulheres! –, também sou. Acho que um dos bálsamos da vida reside em quando conseguimos estar com amigos em clima alegre, afetuoso, camarada e gentil.

Se quiser pessoas refratárias ao calor humano eu pego um ônibus ou o metrô – e, mesmo assim, ainda haverá o “risco” de encontrar gente simpática mesmo na situação de sufoco do nosso transporte público.

Trata-se, pois, da “ideologia” do comportamento frio, indiferente, da postura blasé, do olhar por cima, da rejeição violenta ao que chamam “piegas”. Um comportamento que condiz com a “ideologia” daqueles “humoristas” que vivem de infringir o “politicamente correto” – o que seja, fazer piadas até com deficientes físicos ou mentais e mulheres estupradas.

No âmbito dessa nova ideologia que chamaremos de “meio macho”, há outro tabu: o Natal.

A comemoração cristã, ao longo das últimas décadas, foi se tornando fortemente repudiada em setores mais intelectualizados e de esquerda. Tal se dá, sobretudo, devido ao consumismo patético que toma as pessoas nessa época.

Contudo, essa justa percepção – como ocorre com todo dogma – já deriva para a obsessão. E para o autoritarismo. 

Recentemente, a cantora Simone ficou sabendo, ao participar de um programa de televisão, que sua interpretação de uma música natalina tradicional estava sendo recebida com legítima revolta por pessoas que a ouviam sendo entoada em lojas de discos. 

Essas pessoas, ao ouvir “Então é Natal”, deixavam os estabelecimentos. Furiosas e enojadas. 

A rejeição parece ser ao Espírito de Natal. O que seja, ao menos em uma época do ano ser costume a pessoa se tornar mais tolerante, mais alegre, mais simpática, mais generosa, mais piedosa, mais religiosa, mais reflexiva…

Concordo que a imposição de um estado de espírito para um só período do ano soa como hipocrisia, pois as pessoas deveriam adotar durante o ano inteiro esse comportamento. Todavia, até por conta do ritmo da vida moderna isso é impossível.

E não só pelo “ritmo da vida moderna”, mas porque os seres humanos temos variações de humor. Em certa medida, somos todos bipolares. Podemos acordar “virados”, ou seja, mal-humorados. E sem razão alguma. Então, “naqueles dias”, uns mais, outros menos agimos como “cavalos”.

Esse fenômeno também ocorre por razões biológicas. As mulheres, inclusive, têm seus períodos biológicos durante os quais ficam naturalmente mal-humoradas, ou mais sensíveis, ou menos dispostas ao contato humano. 

Como é impossível, pois, manter um “espírito natalino” o ano inteiro por mais que aquela pessoa seja um poço de bondade, será mesmo tão ruim termos uma época em que as pessoas tenham que se esforçar para ser melhores umas com as outras? 

Não é um alívio haver um período em que as pessoas tendam a agir melhor, com mais tolerância, com mais paciência, com mais simpatia, com mais generosidade?

Tudo bem, pode me fuzilar: eu gosto do espírito natalino. Confesso. E gosto desta época do ano. Meus filhos adoram. Minha mulher, também. E até minha neta, já uma mocinha de quase 13 anos. 

E, em nossa família, não há consumismo. Nossos Natais têm uma boa ceia – mas sem exageros. Costumamos fazer um pernil assado e um peru ou um tender. Algumas frutas secas. Uma champanha e, raramente, trocamos alguma lembrancinha. 

E, quando trocamos presentes, nunca são caros. Fazemos um “amigo secreto” com limite bem pequeno de gasto. Só pela brincadeira mesmo, que é sempre divertida, com as pessoas tecendo considerações bem-humoradas sobre quem irão presentear.

O Natal é a época em que – depois que meus filhos foram saindo de casa – nos reunimos o tempo todo durante os vários dias que antecedem e sucedem a data. Brincamos, rimos, conversamos e até calamo-nos juntos ouvindo música, vendo um filme após ou antes da ceia ou do almoço do dia 25.

Nada demais, nada faustoso. E não por falta de recursos. 

O Natal, para nós, acho que é tudo o que deveria ser. Saímos pelas ruas, antes da ceia do dia 25, entregando “quentinhas” com comida e embrulhos com presentes para moradores de rua, sobretudo para crianças.

Sempre dedicamos a esse costume algumas horas entre o fim da tarde e o início da noite do dia 24.

Claro que não fazemos nada demais, nada além de aliviar-nos as consciências. Mas essa prática nos une e nos emociona.

Há poucos anos, inclusive, alguns de nós passamos a manhã do dia 25 em uma favela que pegara fogo havia poucos dias – a favela Moinho. Fomos levar algumas doações, conversar com as pessoas, dedicarmo-nos um pouco a levar algum alento a quem precisa.

Não pedimos um prêmio por isso e não é só no Natal que agimos assim, mas o simbolismo nos é caro. É como um linimento para a alma. 

Em minha família – e em tantas outras – eclodem tais sentimentos com maior ímpeto nesta época. Por mais que, para alguns, o Natal e o espírito natalino sejam “meio gays”, servem-nos para manter algum calor nesta Era do Gelo em que vivemos.

Blog da Cidadania por Eduardo Guimarães

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