ELEIÇÕES 2014: NÃO DEVEMOS PERMITIR A PAULISTINIZAÇÃO DO BRASIL

27 dez

A bandeira paulista traz um lema emblemático: Non ducor duco[conduzo, não sou conducido].  Como estamos em espírito natalino, que o Menino-Deus nos livre desta praga. São Paulo é o símbolo da arrogancia e selvageria de certa elite brasileira com sua face retocada sob a social democracia.

Meu foco neste artigo é São Paulo não porque minimize o sempre decisivo peso de Minas Gerais nas eleições presidenciais – tampoco desconsidero os desastres da administração do PSDB mineiro -, mas porque a tucanagem paulista é a vitrine eleitoral e a cara intelectual do projeto anti-povo do partido em geral. 

Sob o PSDB, São Paulo acumulou números que deveriam ser suficientes para expor o projeto reacionário e conservador dos que mais uma vez irão se apresentar como a “renovação” em 2014. Em seus vinte anos no poder, o PSDB mostra que não tem nenhuma tecnología “nova” para governar a não ser a combinação explosiva que a periferia das cidades paulistas conhece bem: policía, porrada e prisão.

Ainda que o programa de governo de Aécio Neves tente convencer do contrário, nem ele nem o seu partido acreditam nas políticas sociais que o Brasil conquistou nos últimos anos, como bem expresssado nas campanhas contra o Bolsa-Familia, no boicote ao Mais Médico e na extinção da CPMF que de uma tacada retirou R$ 40 bi do SUS. Para agradar ao deus-mercado, e sob o manto cínico do “choque de gestão”, suas lideranças travam uma guerra contra os pobres.

 Se o PT não fosse tão incompetente em sua comunicação social – em que pese a blindagem da mídia “sudestina” – o fracasso da gestão tucana em São Paulo seria mais do que suficiente para jogar uma pá de cal nas pretenções do mineiro Aécio Neves.

A chamada “locomotiva do país” não conduz nada. Ela abriga uma elite política (um complexo financeiro-politíco-midiático) que é na verdade a principal ameaça ao Brasil independente, plural e justo. Enquanto os intocáveis da mídia seguem firmes em seu atentado diário ao jornalismo – brigando com os fatos – há uma crescente militância social na blogosfera que tem apresentado um contraponto `as fantasias da mídia e deixado o rei (PSDB) nú. Escolho três áreas mas o leitor é livre para nomeiar outras tantas:

a) A expansão do metrô paulistano anda a passos de tartaruga. Os 74 quilômetros de extensão (incluidos os trens) são ridículos frente ao metrô de Londres (408 km), ou ao sistema metroviário da Cidade do México (220km). O pior é que os paulistanos já se acostumaram com as projeções cada vez mais distantes para o metrô chegar na periferia: em 2018, 2022……2050. 

Segundo projeções feitas pela BBC Brasil, no ritmo atual de expansão de 1,9 km por ano, o metrô de São Paulo levaría 172 anos para se equiparar ao londrino.  Enquanto os paulistanos seguem sendo esprimidos como sardinhas, as investigações da Polícia Federal dão conta de um desvio bilionário em licitações envolvendo as administrações Covas, Alckmin e Serra. 

b) Mas o metrô é apenas uma das múltiplas faces da perversidade tucana. Sob os governos do PSDB, São Paulo viu a sua população carcerária subir de maneira estratosférica. Os dados são compilados da própria Secretaria de Segurança Pública e do Departamento Penitenciário Nacional: em 1995 havia 65 mil pesssoas atrás das grades no estado.

Hoje são aproximadamente 200 mil presos e os números seguem crescendo. São Paulo responde por quase 40% da população carcerária do país. E mais: embora sejam 31% da população, os negros representam 53% da população prisional. As recentes investidas de Geraldo Alckmin no Congresso Nacional em busca de apoio para a redução da maioridade penal ilustra bem a racionalidade tucana. 

c) No que diz respeito a policía, os fatos também não deixam dúvida sobre as respostas do PSDB aos desafíos urbanos. Aquí tudo é caso de policía e o nome das operações militares confirma a política da truculência: “operação saturação” em Paraisópolis, “operação sufoco” na  cracolândia, desocupação de Pinheirinhos,…. A lista é grande.

São Paulo registra um padrão de letalidade policial que já fez até a ONU  pedir a extinção da PM. Segundo dados da Human Rights Watch, a policía paulista mata mais do que toda a força policial dos Estados Unidos ou da Africa do Sul. Um dado interessante: depois do domínio do PCC sobre os homicidios na periferia, a polícia aparece como a responsável por 1/3 de todas as mortes violentas no Estado, ou seja, o PCC até que diminuiu a violencia homicida na periferia, mas os assassinatos pela polícia não permitem uma redução maior. 

Em 2012 a PM assassinou 563 pessoas sob a rubrica das “resistências seguidas de morte”.  Outra constatação óbvia para o movimiento negro: segundo o jornal Diário de São Paulo, a cada 3 pessoas assassinadas pela PM em São Paulo, 2 são negras.

Os jovens da classe média que seguramente  irão outra vez às ruas em junho de 2014 deveriam ter em mente este dado: sua geração nasceu e cresceu sob um governo que responde aos desafíos urbanos com policía, porrada e prisões. Quantos jovens foram assassinados pela polícia de São Paulo nos últimos vinte anos?

Quantos foram encarcerados na guerra insana contra os moradores das periferias, de maneira preferencial contra os negros? Quanto o governo do PSDB enterrou nos trilhos tortuosos das licitações públicas do metrô?  Porque, ao contrario de outros estados, São Paulo segue irredutível na adoção de ações afirmativas para a juventude negra? Para esta última pergunta a resposta é fácil. O encarceramento da juventude negra é a ação afirmativa ao inverso. 

O PSDB deveria responder a estas questões como parte de sua agenda de “um Brasil mais justo, democrático e desenvolvido”, como expresso na plataforma do seu candidato. Diluída em um discurso oportunista de “mudança” e  “combate à corrupção”, o programa não traz nada de novo a não ser a estratégia de mobilizar as frustrações e ressentimentos da classe média com os governos Dilma e Lula.

Na crítica tucana e da imprensa está implicito, como já disse o presidente Lula, a condenação do PT  por seus acertos.  Depois de boicotar o Mais Médico, por exemplo, o PSDB critica a demora do governo federal em criar o programa; depois do preconceito contra os beneficiários do Bolsa-Família, promete aperfeiçoa-lo; depois de tentar inviabilizar o ProUni, critica o baixo percentual de jovens nas universidades. 

O PSDB carece de um projeto político. Os defeitos do PT estão aí, mas não são nem de longe as “virtudes” apontadas pelo PSDB. O problema do PT é sua inabilidade de se comunicar com o povo, sua crença doentia na “liberdade de i(e)mprensa”, o afastamento/cooptação dos movimentos sociais, e a capitulação aos pressupostos do deus-mercado. 

Faria bem à democracia (e ao PT) se os protestos do próximo ano fossem por um governo bem mais à esquerda. O povo sustentaria o momento de virada de mesa que estamos esperando desde a reeleição de Lula em 2006? Não sei, até porque o PT nasceu das lutas populares mas se perdeu na máquina burocrática. E, como prova a letargia frente a AP470 e o abandono dos “companheiros” Dirceu, Delúbio e Genoino `a própria sorte, o PT se acovadou em nome da governabilidade/reeleição…. 

A hesitação com o Mais Médico (um projeto do qual o governo já tinha desistido), a entrega a Paulo Bernardes (Deus meu!) de pasta essencial para o projeto político do novo Brasil, e a falta de visão estratégica para criar um pacto urgente que dê resposta imediata aos apelos pela Educação ( alguém chutou idéia que caiu em ouvidos surdos:  “Mais Professores”, antecipando recursos dos royalties do petróleo por meio de uma linha de crédito especial aos municipios com IDH médio e baixo) são outros exemplos da falta de sintonía com o povo. 

Quanto custaria ao governo federal uma ação emergencial deste tipo, levando em consideração a inevitável comparação com os financiamentos do BNDES para a construção dos estádios “padrão-Fifa”? A pergunta pode parecer cínica e injusta, dado os destinos do pré-sal já anunciados pela presidenta Dilma Roussef,  mas ela será feita ano que vem nas ruas tanto pelos movimentos sociais engajados na luta por uma educação pública de qualidade, quanto pela classe média ‘ressentida e raivosa’ com as políticas sociais do PT.

Ironicamente, nenhum outro partido tem  a história de lutas do PT, mas é aí mesmo que vai estar o campo de batalhas do bloco de oposição instrumentalizando a “nova” classe média em torno de bandeiras que nunca defenderam mas que são consenso. Quem seria contra mais recursos para a educação e para a saúde? Quem não defenderia a luta contra a corrupção? É possível levar a sério candidato com a bandeira do “é possível fazer mais”? A força da agenda está aí na capacidade de agregar gregos e troianos sob a cínica bandeira da “mudança”.  Mesmo que a “classe dirigente” do país seja o alvo das manifestações, quem estará no limbo será o PT porque distante dos movimentos sociais e trucidado pela  mídia corporativa. 

O que nos resta? Enquanto lutamos para expandir os horizontes políticos muito além do PT, aumenta a responsabilidade histórica e a vigilancia permanente para não sucumbirmos à mudança conservadora. Sim, debemos ir às ruas exigir mais. Mas se a razão de ser das próximas eleições são “qualquer um menos o PT”, como profetizou FHC, e se policía, porrada e prisão é a tecnología social do PSDB, então é hora de batermos os tambores: um compromisso moral dos lutadores e lutadoras sociais é não permitir a paulistinização do Brasil. É com essa promessa que temos que começar 2014. ¡No pasarán!

Jaime Amparo Alves-Brasil247

Jaime Amparo Alves

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