Uma conversa com William Shakespeare

17 jan

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Há cerca de um ano, publicamos no Diário uma entrevista fictícia com Liev Tolstói, na qual o célebre autor russo questionava a genialidade de Shakespeare. Achamos sinceramente que o bardo inglês merece a chance de defender sua obra.

P: Mr. Shakespeare, você foi duramente criticado por Tolstói, um romancista russo que viveu alguns séculos depois do senhor. Se você por acaso o encontrasse, de que maneira defenderia sua obra?

R: Se eu encontrasse esse senhor, diria: “Como advogados procedamos, os quais, embora com calor discutam, depois comem e bebem como amigos”. Muitas vezes, críticas são ofensivas – mas é melhor saber que é desprezado do que sê-lo sob a capa da lisonja. Os amigos me adulam e me fazem de asno, enquanto meus inimigos dizem abertamente o que sou, de forma que com os inimigos aprendo a me conhecer e com os amigos me sinto prejudicado.

P: Você é considerado um dos maiores dramaturgos de todos os tempos – se não o maior. Desde que começou a escrever, já imaginava que seria tão bem sucedido? Considera sua obra digna de tantos elogios?

R: Nenhum poeta deveria escrever sem que, primeiro, a tinta temperasse nos suspiros do amor – a minhatinta temperou nos suspiros do amor, e suponho que meu sucesso seja devido à isso. É necessário ter uma boa auto-estima, uma vez que o amor próprio é um pecado menos grave do que o descuido próprio. Mesmo assim, é raro; contemplo o mundo há muitos anos, e desde que me tornei capaz de distinguir uma injúria de um benefício, nunca encontrei um homem que soubesse como amar a si mesmo.

P: Então, em sua concepção, uma pessoa deve se amar sem ser vaidosa?

R: A vaidade falaz, corvo insaciável, após consumir tudo, se devora. Uma pessoa muito vaidosa tem em tão alta conta o seu espírito que tudo mais para ela é sem valia.

P: Mas e quanto a amar outra pessoa? Como o senhor acha que procede a paixão entre amantes?

R: O amor não vê com os olhos, mas com a mente. Por isso é alado e, cego, é tão potente. Nunca deu provas de apurado gosto e é um verdadeiro emblema de desgosto. É apelidado de eterna criança, por ser sempre na escolha malogrado. O mel mais delicioso é repugnante por sua própria delícia, fazendo com que amar seja comprar escárnio às custas de gemidos.

P: Isso é uma coisa má?

R: Sim, mas nem tanto. Onde não há prazer, não há proveito.

P: É muito difícil encontrar uma alma gêmea?

R: Tal como a sombra, o amor corre de quem o segue: foge, se o perseguir; se fugir, o persegue.

P: Além de ter escrito lindos sonetos, você escreveu algumas das maiores peças do mundo. Como reconhecemos um bom ator? Ou melhor, como um bom ator deve se portar no palco?

R: Que a discrição lhe sirva de guia; um bom ator acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira não ultrapassar a modéstia da natureza, porque o exagero é contrário aos propósitos da representação, cuja finalidade sempre foi, e continuará sendo, como que apresentar o espelho à natureza, mostrar à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de representar, podem provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado às pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mais em sua apreciação do que os aplausos de quantos enchem o teatro.

P: Muitas de suas peças são históricas, e protagonizadas por reis ingleses. Ao contrário de outros dramaturgos, você não os idealizou; mas também não os retratou como vilões detestáveis. O que o incentivou a manter um ponto de vista imparcial?

R: Muitas coisas ou pessoas em si mesmas não são nem boas nem más, é o pensamento que as torna desse ou daquele jeito. Aos homens, sobrevive o mal que fazem, mas o bem quase sempre com seus ossos fica enterrado. As ações más, embora as terras as cubra, não se subtraem aos olhos dos mortais. Os defeitos dos homens são gravados no bronze, as boas qualidades são escritas na água.

P: Isso é curioso. Você poderia voltar no primeiro ponto – isto é, que as coisas não são boas nem más em si mesmas? Como assim?

R: A teia de nossa vida é composta de fios misturados: de bens e de males. Nossas virtudes se tornariam orgulhosas sem os açoites de nossos defeitos, como os nossos vícios desesperariam, se não fossem alentados pelas virtudes. A alma humana é muito contraditória, e esta é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem – muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos – colocamos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, mentirosos e adúlteros pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda a nossa ruindade atribuída à influência divina. Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode.

P: Qual é sua opinião sobre a religião e as experiências religiosas?

R: Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Quanto às instituições religiosas, considero uma tola idolatria tornar o culto mais solene do que o próprio Deus.

P: Você viveu em uma época em que a honra e a palavra eram muito importantes – pelo menos na teoria. Muitos de seus personagens arriscaram a vida por suas honras, e por suas reputações. O que acha disso?

R: A reputação é um apêndice ocioso e enganador, obtido muitas vezes sem merecimento e perdido sem nenhuma culpa. Já a honra, é diferente. Quem da bolsa me priva, rouba-me uma ninharia; é qualquer coisa, nada; pertenceu-me, é dele, escravo foi de mil pessoas. Mas quem do nome honrado me espolia, priva-me de algo que não o enriquece, mas me deixa paupérrimo. O ser grande não é empenhar-se em grandes causas: grande é quem luta por uma palha, quando a honra está em jogo.

Por Camila Nogueira-DCM

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