Livro de Alex Polari, INVENTÁRIO DE CICATRIZES, por Maisa Paranhos

9 fev

Durante a Campanha da Anistia eu vendia material do CBA (Comitê Brasileiro pela Anistia) na Faculdade de Medicina , no Centro de Ciências da Saúde, na Ilha do Fundão, RJ. 
Também vendia um sanduíche “salada de ovo”, gostosíssimo, cujo lucro , ia para o CBA. 
Era um tempo de paixão. Total paixão. Entrega generosa que a juventude lindamente fazia pelo país, pelo fim da Ditadura, e quiçá, pelo socialismo…aquela história de Frente Ampla, Frente Popular…Reforma ou Revolução…
Líamos Lênin, mas não líamos Vargas…sabíamos mais de lá do que de cá…
Bom, isso para dizer que uma das coisas que eu vendia era o livro do Alex Polari, INVENTÁRIO DE CICATRIZES, lindo, pungente, eletrizante…e não sei porque ,me lembrei dele hoje . Eu o tinha, mas me levaram, e graças à nossa querida internet, consegui achá-lo.
Segue um dos poemas que mais me comoviam (e ainda me comove, como pude constatar)

POEMA DE 22 DE MARÇO (Alex Polari)

(Para Gerson e Maurício)

Ele caiu no asfalto
não pode reagir
faltou o pente sobressalente
faltou a cobertura
faltou a sorte
faltou o ar.

Ele foi levado ainda com vida
dentro de um porta-malas
a camisa rasgada
a calça Lee suja de sangue.

Era preciso avisar Teresa
era preciso fingir serenidade no espelho
era preciso comer rápido o sanduíche de queijo
era preciso cobrir os pontos
era preciso esvaziar o aparelho
era necessário escravizar o medo
e domesticar o ódio

Quando cheguei em casa era noite
vi as portas abertas
as lâmpadas acesas
as mariposas alertas
as certezas cobertas de poeira
a chave na janela
os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio
e a chuva que caía no telhado
como os passos de pássaros
esparsos

E saí por aí, sozinho,
com as mãos nos bolsos
pensando no impasse da luta nas cidades
pensando no isolamento político
pensando na nossa situação
e no nosso despreparo,
me dividindo entre o esforço
de analisar as coisas com frieza
e a ânsia de encher de tiros
o primeiro camburão que passasse.

Adiei as reflexões maiores
adiei as conclusões mais penosas
visto que o cerco se fechava em meu redor
e um bom guerrilheiro
respeita sua própria paranóia
por uma questão de sobrevivência,
por uma questão de instinto.

NOITES NO PP (Presidio H. Gomes)

Estou aqui, pessoal, na C-8
nossa cela de passagem
nesse famigerado
Presídio Hélio Gomes
ex-Pp,
Presídio Policial,
rodeado de faqueiros
bichas, fanchones
guardas e faxinas.
No alto de minha beliche de pedra
leio o semanário Opinião,
autores latino-americanos
e vez ou outra espio a TV.
Porto apenas uma cueca Zorba
fumo incontáveis cigarros
Hollywood
bebo infindáveis canecas
de café Pelé
e em vez de grilhetas,
calço as legítimas sandálias
Havaianas.
Discuto a formação do Partido
os males da monogamia
relembro tiroteios e trepadas
e breve, após o confere,
ainda com as feridas da última visita
na capela,
sonharei com os anjos
pendurados em paus-de-arara
celestes.

Alex Polari de Alverga (João Pessoa – PB, 1951). Foi preso e torturado durante a Ditadura Militar no Brasil. Publicou dois livros de poemas, Inventário de Cicatrizes (1978) e Camarim de Prisioneiro (1980)

Maisa Paranhos

Maisa Paranhos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: