Archive | março, 2014

Escolas de Nova York têm maior índice de segregação racial dos EUA

30 mar

Estudo da UCLA revela modelo “apartheid” na educação: em 32 distritos escolares, pelos menos 19 não têm nem 10% de alunos brancos

Wikicommons

Foto histórica dos anos 70 de DJ Afrika Bambaataa no Bronx: negros sofrem com educação precária em Nova York

“Alunos das escolas públicas da cidade estão cada vez mais isolados em grupos étnicos, econômicos e sociais, evidenciando a severa segregação racial de Nova York”. Está é a conclusão do estudo divulgado nesta quinta-feira (27/03) pela UCLA (Universidade de Los Angeles, Califórnia) sobre a educação norte-americana. A pesquisa foi feita entre 1989 e 2010 e revela que os problemas educacionais da cidade estão intimamente ligados “à perpetuação da pobreza, à discriminação policial com negros e, principalmente, à separação entre negros e brancos nas escolas.” Clique aqui e leia (em inglês) o relatório completo.

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De acordo com os autores da pesquisa – Gary Orfield e John Kucsera-, nos 32 distritos escolares da cidade, 19 não tinham, em 2010, nem 10% de alunos brancos. “As pessoas visitam Manhattan e vêem pessoas de todas as raças, de todas as origens e nacionalidades, vão até a Times Square, etc.. Mas não enxergam o que acontece nas escolas”, critica Gary Orfield na conclusão do relatório. “Nenhum dos estados do Sul dos Estados Unidos – historicamente considerados locais de alta segregação – chegam sequer perto do que acontece em Nova York”, analisa.

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O relatório critíca principalmente as “Charter Schools”, instituições de ensino que são financiadas pelo governo e administradas por um grupo privado. Elas trabalham com um modelo de gerenciamento “que distancia negros e brancos, pobres e ricos”, analisa o relatório. Chamadas de escolas do “apartheid”, essas instituições – 183, no total – não tinham em 2010% nem 1% de alunos brancos.

A diferença é tamanha que as escolas com mais de 14,5% de alunos brancos são consideradas multirraciais. “O estado de Nova York reagrupa o maior número de escolas onde reina a segregação”, afirmam Gary Orfield e John Kucsera. “A cidade de Nova York, que tem o maior sistema escolar público do país, é um buraco negro da segregação”, criticam.

 

 

Além de segregação racial, o estudo também aponta a segregação social como grande responsável pelo mau desempenho das escolas públicas “As escolas com grande concentração de pobres e de minorias limitam as oportunidades educativas”. “Existem muitos problemas adicionais nesta escolas, como, por exemplo, professores inexperientes, prédios mal conservados e material escolar inadequado.

Em entrevista ao Los Angeles Times, o diretor das “Charter Schools”, James Merriman, considerou as conclusões do estudo dos investigadores da UCLA como “injustificadas” e criticou a utilização da palavra “apartheid, que disse ser “odiosa” e contrária à missão de insersão das escolas.

(*) Com informações do Los Angeles Times, UCLA, AFP e NY Times

Pipoca, por favor, enquanto os “Agitadores de Putin” mandam em Kiev

29 mar

26/3/2014, [*] Moon of AlabamaPopcorn Please While “Putin’s Agitators” Rule in KievTraduzido por João Aroldo

Enquanto assistem TV, Medvedev e Putin saboreiam cerveja com pipoca…

Enquanto tudo parece possível, a suposição operacional entre alguns funcionários norte-americanos e europeus é que o Sr. Putin não vai invadir abertamente o leste da Ucrânia, mas ao invés disso, vai optar por um plano intermediário obscuro, usando agitadores locais e forças especiais talvez disfarçados para causar ainda mais agitação em grandes áreas de língua russa do país. U.S. Challenge Now Is to Stop Further Putin Moves, NYT.
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Putin está assistindo TV. Chama seu Chefe de Inteligência: Dê uma medalha a Tyagnibok por banir o uso da língua russa na Ucrânia. Você quer dizer que ele não é um dos nossos? Ok, dê uma medalha a Yarosh pela ideia de explodir linhas de gasodutos. O que você quer dizer, isso é coisa dele? Que tal o cretino do Lyashko? Que tal os cretinos do Svoboda—Miroshnichenko e outros? Será que nós temos algum agente em campo na Ucrânia? Onde diabos eles estão? Que diabos você quer dizer que eles compraram um caminhão de pipoca e um caminhão-tanque de cerveja e estão assistindo como um filme?!!! Desliga com nojo. Liga novamente: Como foi que você deixou Muzychko ser morto?via Cluborlov.

Muzychko, com o braço estendido numa saudação nazista, ainda na Praça Maidan

Realmente, Putin pode ficar sentado e curtir a pipoca. O governo golpista está fazendo o melhor para se arruinar, para brigar internamente com seus amigos ideológicos e para empurrar os ucranianos de língua russa para mais perto da Rússia. Notem apenas a decisão de hoje de suspender mais serviços de TV de língua russa na Ucrânia. Como isso vai convencer os falantes de russo da Ucrânia de que suas vozes serão ouvidas?

Arsen Avakov

A briga entre os paramilitares de extrema-direita do Setor de Direita (Pravy Sektor) e os fascistas do Svobodaapenas começou:
O grupo ucraniano radical Setor de Direita (Pravy Sektor) exige a imediata demissão do Ministro do Interior, Arsen Avakov e a prisão dos membros da força tarefa especial Sokil (Falcão), envolvida na morte do líder nacionalista Oleksandr Muzychko (Sashko Bily) na região de Rivne nas primeiras horas de quinta-feira. 

resposta do ministro do partido Svoboda:
O Ministério do Interior da Ucrânia iniciou uma série de prisões contra a organização nacionalista Setor da Direito, depois que seus ativistas ameaçaram vingança pela morte de um de seus líderes, Oleksandr Muzychko, pela polícia, segundo uma reportagem.
Pipoca mesmo
De acordo com uma busca de notícias no Google, nenhuma mídia dos EUA noticiou o telefonema que veio a público de Timoshenko no qual ela fala ao seu aliado político, Shufrych, sobre matar russos em massa. O Yahoo News publicou um texto da agência AFP e um artigo no blog do Washington Posttentou turvar o conteúdo da conversa. Exceto que não há nada na mídia dos EUA sobre isso, enquanto os jornais alemães só falam disso. É interessante não apenas a conversa vulgar, mas o fato de ter sido realizada em russo. Isto enquanto a falsa princesa loira do gás e seus amigos sempre usam a língua ucraniana em discursos públicos para promover seu falso nacionalismo. O telefonema vazado vai não só alienar os falantes de russo de Timoshenko, mas também falantes de ucraniano que ela tenta enganar.

Yulia Timoshenko quer matar todos os russos residentes na Ucrânia

Por que a Rússia deveria tentar criar instabilidade no leste e no sul da Ucrânia, quando o governo golpista em Kiev está fazendo o seu melhor para criar por si mesmo? À agitação crescente pode-se acrescentar o provável colapso econômico que logo virá. Qualquer ajuda “ocidental” será condicionada à austeridade e empobrecimento das pessoas, bem à reforma política que os oligarcas e os políticos atuais não vão permitir. Nessa condição, mais agitação é certa, enquanto a Ucrânia desmorona e não há necessidade alguma para a Rússia intervir para causar isso.
A Rússia não vai fazer nada nefasto, ela não vai fazer nada mesmo. A Rússia não vai ajudar, nem econômica nem politicamente, a menos que Kiev e o “ocidente” estejam dispostos a pagar o preço: uma Ucrânia federalizada com regiões fortes e um governo central fraco._________________



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

POSTADO POR CASTOR FILHO

Pesadelo de Noam Chomsky: Mais uma vez, você não pode confiar no New York Times

27 mar

Pesadelo de Noam Chomsky: Mais uma vez, você não pode confiar no New York Times
Novas histórias sobre o show NSA, mais uma vez, como o Times permite que a administração defina o debate permissível
PATRICK SMITH

Pesadelo de Noam Chomsky: Mais uma vez, você não pode confiar no New York Times

Edward Snowden (Crédito: AP / Mark Lennihan / colagem da foto por profissional)
Dois novos comunicados do estado de vigilância, esta semana. No fim de semana, o New York Times e Der Spiegel, a revista alemã, veio com outro lote de documentos divulgados por Edward Snowden, o ex-empreiteiro Agência de Segurança Nacional, que nos disse em um ano mais verdade sobre o mundo em que vivemos do que os nossos meios de comunicação parecem dispostos a nos dizer nas próximas duas décadas.

Este caso se concentra em ciberguerra do NSA contra a China, em particular, a grande empresa de telecomunicações emergentes chamado Huawei Technologies. Acontece que a NSA foi invadir redes e infra-estrutura da Huawei desde 2009. Este foi certa, porque a Huawei pode ter sido (sintaxe nota) invadir redes e infra-estrutura, que, nesse caso, teria sido errado americanos.

Um par de dias atrás, veio a notícia de que o governo Obama tenha finalmente chegado a um plano para conter a coleção indiscriminada da NSA de nossos registros telefônicos. The Times está lá fora, chamando este “uma reforma de longo alcance.” Esta frase é a chave – uma estaca no chão. Na minha leitura, é código para “Os ajustes que estamos prestes a contar é o limite do que você está indo para obter por meio de restrições sobre a NSA, por isso todos nós devemos concordar agora que eles vão ter que fazer.”

Eu não concordo. A presente passagem é importante porque o que permanece em seu fim agora parece que vai ser quase tudo Snowden revelou e tudo o que ele não tem. A NSA como agora constituída é efetivamente a ser confirmada como uma característica permanente de um governo que é a metade ou menos visível e metade ou menos sob controle político, uma intrusão permanente em soberania pessoal de todos os americanos, e uma cicatriz sobre a integridade do nosso público esburacada espaço. Dissidência Permanente é um pensamento triste, mas é a única posição defensável para quem aceita a responsabilidade ideais da América nos impôs.

O caso Huawei é notório, para o que é feito eo que é girada. A empresa por alguns anos foi o alvo de uma campanha de medo que não cai muito aquém do “perigo amarelo” bit de Hearst, no início do século americano. Há dois anos, o Comitê de Inteligência da Câmara alertou as empresas americanas não fazer negócios com a Huawei, porque é perto de o Exército Popular de Libertação e seus produtos pode, em conseqüência, ser canais para o governo chinês programas de coleta de inteligência.

Há um ano, mais: O governo barrou vários departamentos governamentais – NASA, Justiça, Comércio – desde a compra de equipamentos Huawei por causa da ameaça potencial que representa para a segurança americana.

Como você pode ler qualquer momento, o tema é escrito sobre, fundador da Huawei, Ren Zhengfei, era uma vez um engenheiro de PLA, mais tarde, que você pode ler que Ren estava no PLA quase 50 anos atrás, na década de 1970. Sendo um veterano PLA não é notável na China, para dizer o mínimo. Ren começou a Huawei para assumir empresas estatais – empresas estatais, as empresas de Pequim usa para desenvolver a economia chinesa. Agora, é uma operação de US $ 40 bilhões por ano com alcance global.

Quem pode ver em laços de uma empresa chinesa com o governo? Eu não posso, não mais do que eu posso ver nos laços entre Washington e United Technologies, Raytheon ou qualquer uma das outras empresas no núcleo do complexo de vigilância militar-industrial. (Ouvi o swoosh de muitas portas giratórias ultimamente?)

Aqui está a coisa: A NSA não pode ver em conexões ou serviços políticos para a liderança chinesa da Huawei, também.

A operação da NSA contra Huawei é chamado – outro grande apelido dos fantasmas – Shotgiant. Ele tem 4 anos, até onde se pode fazer para fora ele permanece em funcionamento, e no próximo parágrafo vou explicar em detalhes o que o esforço desenterrou.

Nada.

Você começa contas fulsome de crimes da Huawei, com certeza. Mas há um par de coisas para assistir. Assista os verbos: Eles são todos condicional. Assista as fontes: Estas são histórias de uma única fonte do e-andorinha-todo de boca aberta variedade. Aqui está o Número de conta esta semana. É tudo poderia ter, iria, mighta e “ameaça potencial”, vindo de “entrevistas com funcionários da inteligência”, “funcionários americanos atuais e antigos”, e que navio da imparcialidade individual, a RAND Corp

Um exec Huawei começa a pesar e unhas bem o suficiente. “A ironia é que exatamente o que estão fazendo com a gente é o que eles sempre carregada que os chineses estão fazendo através de nós”, diz William Plummer, um homem Huawei na América. “Se tal espionagem foi realmente realizado, então sabe-se que a empresa é independente e não tem nenhum vínculo incomuns para qualquer governo, e que o conhecimento deve ser retransmitida publicamente para pôr fim a uma era de mis-e desinformação.”

“Sem laços incomuns.” Pode-se extrapolar que a Huawei tem provavelmente o valor a relações com Pequim of-the-mill de gerência. Mais uma vez, quem sabe o que estes viriam?

O documento Snowden dá bons detalhes sobre exatamente o que a NSA tem sido até, por outro lado. Não só querem seguir alguma linha-despercebidos tão longe da Huawei para o PLA ea liderança chinesa, mas também quer usar a empresa chinesa para cyber-atacar seus muitos clientes que o utilizam para evitar a execução de dados por meio de controladas pelos EUA sistemas – os cubanos, os iranianos, afegãos e assim por diante. Isso é uma bola de neve rolando, uma vez que agora é relatado que mais e mais governos, empresas e pessoas estão usando servidores não-americanos a fim de evitar, sim, os tentáculos da NSA.

Os motivos que nada têm a ver com a Huawei ou China não se encaixam na narrativa, mas devem ser comunicados porque estão nos documentos Snowden. E assim este, desde os tempos da conta:

“A administração Obama faz uma distinção entre a pirataria eo roubo corporativo que a conduta chinesa contra empresas americanas para reforçar as suas próprias empresas estatais, e as operações de inteligência que os Estados Unidos conduzem contra alvos chineses e outros. Autoridades americanas disseram repetidas vezes que a NSA invade redes estrangeiras apenas para fins de segurança nacional legítimos “.

Por favor, não escreva na caixa de comentário que você aceita tal distinção. Por favor, não perca como “hacking” se transforma em agosto as “operações de inteligência” em uma frase ideologicamente carregado. Por favor, não nos diga que você aceitar pelo valor de face os protestos de funcionários americanos citados na última frase: Ele simplesmente não é possível até aqui nas divulgações Snowden.

O relatório Spiegel sobre esta ronda de documentos lança mais luz sobre atos da NSA, bem como o velho “poder de deixar de fora”, como praticado na mídia americana. Aqui está.

Acontece que a Huawei é apenas uma parte do plano de Shotgiant. Entre os seus outros “alvos” foram Hu Jintao, quando ele era presidente, o ministério do comércio chinês e os bancos chineses sem nome. Entre as preocupações da agência, Spiegel é bom o suficiente para nos dizer, é esta:

“No passado, o negócio de infra-estrutura de rede tem sido dominado por empresas ocidentais, mas os chineses estão trabalhando para tornar as empresas norte-americanas e ocidentais” menos relevante “. Esse impulso chinês está começando a se abrir padrões de tecnologia que foram por muito tempo determinados por empresas norte-americanas, ea China está controlando uma quantidade crescente do fluxo de informações na rede. “

Entre as empresas mais vulneráveis ​​para o dinamismo evidente da Huawei no mercado de telecomunicações é a Cisco Systems. Mas nada disso poderia figurar em que o Times garante nós são estritamente da NSA “fins de segurança legítimos nacionais.”

Tenho passado muito tempo sobre o caso Huawei porque manifesta tendências no pensamento americano sobre a China que rodam raízes profundas. Ninguém defende conscientemente a Hearst-era lixo mais. Mas os restos apodrecidos desses preconceitos obscurecendo-medos tornam possível colocar todas as insinuações sobre os feitos inescrutável dos chineses em nossos meios de comunicação e ser levado a sério.

A maioria dos americanos estão convencidos de que os chineses são agressores perigosos em nosso tempo, possuindo pouca capacidade de imaginar como o mundo olha para uma nação que ainda luta para se alimentar, para pavimentar todas as suas estradas, para se resolver politicamente, para puxar-se para além de séculos de humilhação nas mãos de outros. Esta falha está se tornando crítica.

Há uma guerra cibernética em curso, claramente. Reagindo aos documentos Snowden, Pequim exortou Washington a cortá-lo e vir para a mesa a desenvolver de forma ordenada passado o problema.

Aqui é onde eu terra: Uma conta Chinesa de esta questão não pode ser descontado porque é chinês, assim como uma prestação de contas americano não pode, por qualquer lógica ser creditado porque é americano.

Agora, brevemente, para as reformas prometidas de práticas NSA. O pessoal de Obama pretende levar uma proposta para a Capitol Hill que eu acho magro ao ponto de amargura.

Primeiro de tudo, o mandato da NSA é continuar intocado por pelo menos mais três meses e, talvez mais, e como isso é para que a vontade e determinação na Casa Branca? Além disso, tudo está envolto em algodão termos legais Washington geralmente emprega quando não há muita coisa acontecendo, mas o efeito da comoção é desejada. Comumente o suficiente, os jornais reproduzem o juridiquês de tal forma que a pessoa tem que ler cada parágrafo, pelo menos duas vezes para descobrir o que ele está dizendo – ou não dizer.

Até onde eu posso fazer para fora, o NSA, um dia, não serão autorizados a manter os registros telefônicos, mas será capaz de obter qualquer que quer de as empresas de telefonia, mediante solicitação. Uma nova ordem judicial será necessária, mas a ordem será emitida pela Vigilância de Inteligência Estrangeira Tribunal, que é tão invisível como a NSA, é claro. Dividir infinitivo e tudo, o Times relata, “O novo tipo de ordens judiciais de vigilância previsto pela administração exigiria empresas de telefonia a fornecer rapidamente registros em um formato de dados tecnologicamente compatível.”

É um toque dizendo: Nós queremo-lo agora e queremos que a forma como queremos.

Alguns outros detalhes são consertou com. A NSA podem penetrar dados do telefone dois passos para fora de um número de telefone associado a um suspeito de terrorismo, contra os três passos agora permitidas. Como esse tipo de coisa sugere, a proposta evidencia nenhuma intenção séria para deter a queda do país para uma era de lei pós-constitucional.

Duas coisas parecem graves. Um, as pessoas mais vigilantes das liberdades civis e direitos constitucionais durante a Guerra Fria parecem estar desabando. A American Civil Liberties Union: “. Estamos de acordo com a administração, que coleta a granel do NSA de registros de chamadas devem terminar” Algo curto de ousadia, eu diria.

Dois, quando Obama anunciou em janeiro seus planos para “freios calibrados” (frase do Times), os relatórios de Washington era claro que ele tinha para não provocar o conjunto de vigilância. Encontrei o pensamento arrepiante, e eu faço de novo, agora que esses planos estão indo para o Hill.

O que estamos presenciando? O que significa a expressão “lei pós-constitucional” Quer dizer, se quisermos usá-lo? Estamos assistindo a uma espécie de câmera lenta golpe em que os estabelecimentos de segurança e vigilância, tendo finalmente conseguido inundando entre nós, um medo generalizado eterno, são cortadas solto, imune de toda a lei, mas a lei que eles fazem como eles precisam? Estamos todos a ser vigiado por máquinas de graça amorosa, tão antiga Brautigan colocá-lo há muitos anos?

Patrick Smith foi chefe da sucursal do jornal International Herald Tribune, em Hong Kong e, em seguida, Tóquio 1985-1992. Durante este tempo, ele também escreveu “Carta de Tóquio” para a New Yorker. Ele é o autor de quatro livros anteriores e contribuiu com freqüência para o New York Times, a Nação, o Washington Quarterly, e outras publicações.

 

Texto Original__http://www.salon.com/2014/03/26/noam_chomskys_nightmare_once_again_you_cant_trust_the_new_york_times/

 

Noam Chomsky’s nightmare: Once again, you can’t trust the New York Times

New stories about the NSA show, once more, how the Times lets the administration define the permissible debate

Two new communiqués from the surveillance state this week. Over the weekend, the New York Times and Der Spiegel, the German newsmagazine, came up with another batch of documents released by Edward Snowden, the former National Security Agency contractor, who has told us in a year more truth about the world we live in than our media seem prepared to tell us in the next two decades.

This case focuses on the NSA’s cyberwar against China, in particular the large, emergent telecommunications company called Huawei Technologies. It turns out that the NSA has been breaking into Huawei’s networks and infrastructure since 2009. This was right because Huawei may have been (note syntax) breaking into American networks and infrastructure, which, if so, would have been wrong.

A couple of days ago came news that the Obama administration has finally come up with a plan to rein in the NSA’s indiscriminate collection of our telephone records. The Times is out there calling this “a far-reaching overhaul.” This phrase is key — a stake in the ground. In my reading it is code for, “The tweaks we are about to recount are the limit of what you’re going to get by way of restraints on the NSA, so we should all agree now that they will have to do.”

I do not agree. The present passage is significant because what remains at its end now looks as though it will be almost everything Snowden has revealed and all that he has not. The NSA as now constituted is effectively to be confirmed as a permanent feature of a government that is half or less visible and half or less under political control, a permanent intrusion into every American’s personal sovereignty, and a scar on the integrity of our pockmarked public space. Permanent dissent is a grim thought, but it is the sole defensible position for anyone who accepts the responsibility America’s ideals put upon us.

The Huawei case is egregious, for what is done and what is spun. The company has for a few years been the target of a scare campaign that falls not much short of Hearst’s “yellow peril” bit at the start of the American century. Two years ago the House Intelligence Committee warned American companies not to do business with Huawei because it is close to the People’s Liberation Army and its products could, in consequence, be conduits for Chinese government intelligence-gathering programs.

A year ago, more: The administration barred several government departments — NASA, Justice, Commerce — from purchasing Huawei equipment because of the potential threat it poses to American security.

As you can read any time the topic gets written about, Huawei’s founder, Ren Zhengfei, was once a PLA engineer; later on, you might read that Ren was in the PLA nearly 50 years ago, in the 1970s. Being a PLA veteran is not remarkable in China, to put it mildly. Ren started Huawei to take on state-owned enterprises — SOEs, the companies Beijing uses to develop the Chinese economy. It is now a $40 billion-a-year operation with global reach.

Who can see into a Chinese company’s ties with government? I cannot, any more than I can see into the ties between Washington and United Technologies, Raytheon or any of the other companies at the core of the military-industrial-surveillance complex. (Heard the swoosh of many revolving doors lately?)

Here is the thing: The NSA cannot see into Huawei’s political connections or services to the Chinese leadership, either.

The NSA’s operation against Huawei is called — another great moniker from the spooks — Shotgiant. It is 4 years old, so far as one can make out it remains up and running, and in the next paragraph I will explain in detail what the effort has unearthed.

Nothing.

You get fulsome accounts of Huawei’s misdeeds, surely. But there are a couple of things to watch. Watch the verbs: They are all conditional. Watch the sources: These are single-source stories of the open-mouth-and-swallow-whole variety. Here is the Times account this week. It is all coulda, woulda, mighta and “potential threat,” coming from “interviews with intelligence officials,” “current and former American officials,” and that vessel of detached impartiality, the RAND Corp.

One Huawei exec gets to weigh in and nails it well enough. “The irony is that exactly what they are doing to us is what they have always charged that the Chinese are doing through us,” says William Plummer, a Huawei man in America. “If such espionage has been truly conducted, then it is known that the company is independent and has no unusual ties to any government, and that knowledge should be relayed publicly to put an end to an era of mis- and disinformation.”

“No unusual ties.” One can extrapolate that Huawei probably has what amount to run-of-the-mill dealings with Beijing. Again, who knows what these would come to?

The Snowden document gives good detail on exactly what the NSA has been up to, on the other hand. Not only does it want to follow some so-far-undetected thread from Huawei to the PLA and the Chinese leadership; it also wants to use the Chinese company to cyber-attack its many customers who use it to avoid running data through U.S.-controlled systems — the Cubans, the Iranians, the Afghans and so on. This is a rolling snowball, since it is now reported that more and more governments, companies and people are using non-American servers to avoid, yes, the NSA’s tentacles.

The motives that have nothing to do with Huawei or China do not fit the narrative but must be reported because they are in the Snowden documents. And so this, from the Times account:

“The Obama administration distinguishes between the hacking and corporate theft that the Chinese conduct against American companies to buttress their own state-run businesses, and the intelligence operations that the United States conducts against Chinese and other targets. American officials have repeatedly said that the NSA breaks into foreign networks only for legitimate national security purposes.”

Please do not write in the Comment box that you accept any such distinction. Please do not miss how “hacking” morphs into the august “intelligence operations” in one ideologically loaded sentence. Please do not tell us you accept at face value the assurances of American officials cited in the last sentence: It is simply not possible this far into the Snowden disclosures.

The Spiegel report on this round of documents sheds more light on the NSA’s doings, as well as the old “power of leaving out” as practiced in the American media. Here it is.

It turns out that Huawei is only part of the Shotgiant plan. Among its other “targets” have been Hu Jintao when he was president, the Chinese trade ministry and unnamed Chinese banks. Among the agency’s concerns, Spiegel is kind enough to tell us, is this one:

“In the past, the network infrastructure business has been dominated by Western firms, but the Chinese are working to make American and Western firms ‘less relevant.’ That Chinese push is beginning to open up technology standards that were long determined by US companies, and China is controlling an increasing amount of the flow of information on the net.”

Among the companies most vulnerable to Huawei’s evident dynamism in the telecoms market is Cisco Systems. But none of this could possibly figure into what the Times assures us are strictly the NSA’s “legitimate national security purposes.”

I have gone long on the Huawei case because it manifests tendencies in American thinking about China that run deep roots. No one consciously espouses the Hearst-era garbage anymore. But the rotted remains of those prejudices-obscuring-fears make it possible to put all the innuendo about the inscrutable doings of the Chinese into our media and be taken seriously.

Most Americans are convinced that the Chinese are dangerous aggressors in our time, possessing little capacity to imagine how the world looks to a nation still struggling to feed itself, to pave all its roads, to sort itself out politically, to pull itself beyond centuries of humiliation at the hands of others. This shortcoming is becoming critical.

There is a cyberwar in progress, plainly. Reacting to the Snowden documents, Beijing called on Washington to cut it out and come to the table to develop an orderly way past the problem.

Here is where I land: A Chinese account of this question cannot be discounted because it is Chinese, just as an American accounting cannot by any logic be credited because it is American.

Now, briefly, to the promised reforms of NSA practices. Obama’s people plan to take a proposal to Capitol Hill that I find meager to the point of bitterness.

First of all, the NSA’s mandate is to continue untouched for at least three more months and perhaps more, and how is this for will and determination in the White House? Beyond this, it is all wrapped in the cotton wool legalese Washington typically employs when not much is going on but the effect of commotion is desired. Commonly enough, the newspapers reproduce the legalese such that one has to read every paragraph at least twice to figure out what it is saying — or not saying.

So far as I can make out, the NSA will someday not be allowed to retain telephone records but will be able to obtain any it wants from the telephone companies upon request. A new court order will be required, but the order will be issued by the Foreign Intelligence Surveillance Court, which is as invisible as the NSA, of course. Split infinitive and all, the Times reports, “The new type of surveillance court orders envisioned by the administration would require phone companies to swiftly provide records in a technologically compatible data format.”

It is a telling touch: We want it now and we want it the way we want it.

Some other details are tinkered with. The NSA can burrow into phone data two steps out from a telephone number associated with a terrorism suspect, as against the three steps now permitted. As this kind of thing suggests, the proposal evinces no serious intent to halt the nation’s slide into an era of post-constitutional law.

Two things do seem serious. One, the people most vigilant of civil liberties and constitutional rights during the Cold War appear to be caving. The American Civil Liberties Union: “We agree with the administration that the N.S.A.’s bulk collection of call records should end.” Something short of daring, I would say.

Two, when Obama announced in January his plans for “calibrated curbs” (the Times’ phrase), the reporting from Washington was plain that he had to avoid provoking the surveillance set. I found the thought chilling, and I do again now that these plans are headed for the Hill.

What are we witnessing? What does the phrase “post-constitutional law” mean, if we are to use it? Are we watching some kind of slow-mo coup wherein the security and surveillance establishments, having finally succeeded in suffusing among us an eternal, pervasive fear, are cut loose, immune from all law but the law they make as they need it? Are we all to be watched over by machines of loving grace, as old Brautigan put it long years ago?

 

Patrick Smith was the International Herald Tribune’s bureau chief in Hong Kong and then Tokyo from 1985 to 1992. During this time he also wrote “Letter from Tokyo” for the New Yorker. He is the author of four previous books and has contributed frequently to the New York Times, the Nation, the Washington Quarterly, and other publications.

Salon.com

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O creme do crime. Histórias policiais, as mais populares do planeta

26 mar

Há quem diga que tudo começou quando Caim matou Abel e acabou apanhado em flagrante – uma covardia, pois o detetive era Deus. E as histórias policiais viraram a literatura mais popular do planeta

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Por falar em detetive e Deus, Agatha Christie­ só vendeu menos que a Bíblia. Daí que ignorar o assunto seja… um crime. Investiguemos as pistas dessa coqueluche. O arroz com feijão é um assassinato, a escrotice suprema que suscita uma reação atávica de repugnância e fascinação. Eis a pergunta crucial: quem matou o morto? Uma implicação traiçoeira é o risco de se folhear distraidamente um romance policial de trás para frente na livraria: o nome do assassino aparece sempre na última página.

A polícia parece ter sempre existido, mas, na acepção contemporânea do termo, só surgiu no século 19 – e os romances policiais no cangote dela. Durante a maior parte da história humana, o crime foi considerado uma questão entre indivíduos, que podia ser negociado e resolvido entre as partes. Por vezes, rolando um “olho por olho, dente por dente”. Com o advento do Poder Judiciário e de entidades como promotor e procurador, se consolida a ideia de crime como uma infração às leis do Estado – e do criminoso como um inimigo público.

Em 1800, os investigadores franceses eram recrutados entre ex-condenados. Um dos primeiros criminalistas foi um dos criminosos mais maledettos de todos os tempos – Vidocq. Uma espécie de Bin Laden daquela época, se regenerou e fundou a Sûreté Nationale (Segurança Nacional, uma força institucional) e uma pioneira agência de detetives particulares. Os escritores Balzac e Victor Hugo falaram dele, e o cinema calcificou-o sob as banhas de Gerard Depardieu.

Outra circunstância decisiva: a aparição da imprensa de massa, na Inglaterra e Estados Unidos, com jornais populares de grande tiragem. Eles satisfaziam o apetite dos leitores pelo suspense e o prazer mórbido da desgraça alheia. Por outro lado, as histórias policiais tranquilizavam o público com o fato de que os maus eram sempre descobertos e punidos.

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Antes e depois de Poe

Revistas especializadas – como a britânica Strand e a norte-americana Black Mask – emplacaram a chamada pulp fiction, com folhetins que faziam os leitores salivar. Aí estrearam os contos de Sherlock Holmes. Depois, as histórias se expandiram em romances. Como disse o intelectual britânico Gilbert Keith Chesterton (1874-1936): “A história longa é mais eficaz, sob um aspecto nada insignificante: torna possível perceber que um homem está vivo antes de morrer”.

Parece uma justiça poética que o pai do romance policial seja o norte-americano Edgar Allan Poe. Ele passou seus 40 anos de vida mais morto do que vivo e numa pindaíba só. Hoje, é ícone midiático. Tem a série The Following(no canal Warner), sobre uma seita de carniceiros inspirados em Poe. Tem Contos de Edgar (dirigida por Fernando Meirelles). Tem a homenagem de Tim Burton ao poema O Corvo, de Poe (traduzido por Machado de Assis e Fernando Pessoa), no desenho animado Frankweenie. Acreditem se quiser: até Zé do Caixão babou por ele.

Arthur Conan Doyle reconheceu a paternidade biológica de Poe. Doyle era um clínico geral recém-casado que resolveu dar um rolezinho na literatura – afinal, de médico e de louco ele tinha bastante. Baseou seu investigador num cirurgião escocês chamado Joseph Bell, célebre por diagnósticos infalíveis. Hoje, o lar de Sherlock em Londres – Baker Street, 21-B – é museu do personagem e atração mais visitada do que o Big Ben.

A popularidade de Holmes e Watson (por sinal, em nenhum dos quatro romances e 56 contos aparece a frase “elementar, meu caro Watson”) era tanta que, depois de matar Sherlock numa aventura, o autor se viu obrigado a ressuscitá-lo, para deixar de ser besta. Em 2008, uma sondagem indicou que mais da metade dos britânicos (58%) pensa que Holmes era uma pessoa real, e não um personagem de ficção.

E aí floresceu a era dourada do policial. Estatisticamente, as mulheres não são grandes tietes do gênero. Contudo, alguns dos melhores autores policiais são do sexo feminino. Agatha Christie vendeu até outro dia 2 bilhões de exemplares, em 103 idiomas. OK: o estilo dela é tão rudimentar que até aquele tradutor do funeral de Mandela conseguiria vertê-la. Aliás, a própria Agatha se definiu como “uma fábrica de salsichas”. Os críticos metidos que me perdoem: a verdade é que ninguém jamais gostou das obras dela – exceto os zilhões de leitores.

Uma peça da chamada Duquesa da Morte, A ­Ratoeira, está em cena desde 10 de outubro de 1952 (o elenco já vai na terceira geração). O Sherlock dela é Hercule Poirot, um belga cheio de truques e triques: “Tenho uma atitude burguesa em relação ao assassinato: desaprovo-o”. A vida de Agatha Christie­ incluiu um mistério: em 1926, já mais colunável do que a rainha, ela simplesmente sumiu. Centenas de agentes e 15 mil voluntários (sem falar em cães adestrados) passaram o país a pente fino – e nadica de nada. Depois de 11 dias, foi encontrada num hotel jeca. Aparentemente amnésica, se registrara sob o nome de Tessa Neele – nome da amante de seu marido, que lhe pedira o divórcio duas semanas antes. Agatha nunca deu um pio sobre o assunto.

O jornalista Luís Antônio Giron é apreciador de romances policiais tanto pelo que trazem de lazer como pelo jogo narrativo, fonte de um prazer que faz do estilo “a verdadeira literatura de autoajuda”. O romance policial, segundo Giron, é recomendável como estímulo à leitura e também estimula a escrita. “Nada melhor que um romance desse tipo para fazer um escritor… escrever.” Ainda que gênero se valha de fórmulas que levam, com frequência, a estereótipos. “Os romances policiais que subvertem o estereótipo são os mais interessantes. Autores ­atuais como Michael Connelly, James Ellroy e Dennis Lehane conseguem surpreender o leitor com temas atuais e a capacidade de explorar a violência do ser humano”, diz.

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Nunca me esquecerei de você

Enquanto isso, nos Estados Unidos, um saído da agência de detetives Pinkerton se preparava para dar um peteleco na bolha de sabão do policial inglês, que descambara numa caricatura de si mesmo. O assassino podia não ser sempre o mordomo, mas quase. A vítima era um oficial reformado da Marinha, rechonchudo e gagá. O detetive era um esnobe que fumava cachimbo, jogava bridge e tomava chá com o mindinho empinado. O crime acontecia numa casa de campo, geralmente na biblioteca e o facínora, ao escapulir pela janela, espezinhava os canteiros e imprimia suas pegadas com tal veemência que até Mister Magoo poderia segui-las – o criminoso usava uma perna de pau e, no outro pé, calçava um ­coturno número 48.

Dashiell Hammett fez uma lipoaspiração naquilo tudo. Levou o crime para o meio da rua, que era seu hábitat. Para ele, o assassinato não era uma espécie de filatelia, mas uma profissão, praticado com um motivo concreto, nunca para combinar com a gravata. E nada de enxugar gelo: carros explodiam com passageiros dentro, balas esfacelavam miolos e inocentes morriam de morte matada. Tudo num estilo seco como o seu dry martini.

Por sinal, o detetive de Hammett, Sam Spade, não dava colher de chá nem para as mocinhas mais ergonômicas. No final de O Falcão Maltês, decide entregar a periguete prevaricadora à polícia. “Mas você me ama!” “Talvez, mas e daí? Não vou bancar o otário por sua causa. Com sorte, sairá da prisão com vida, daqui a 20 anos. Estarei esperando. E, se a enforcarem, nunca me esquecerei de você.”

Raymond Chandler, por sua vez, estudou em colégios finos da Inglaterra. Voltou para Los Angeles com 25 anos, e teve um chilique com a mania norte-americana de cuspir no chão. Ao contrário de ­Hammett, não entendia bulhufas do submundo, mas devorou tratados sobre direito penal, armas e venenos. Só estreou aos 45 anos, mas aí já era um ás no assunto. Ironicamente, desprezava o leitor típico do gênero: “Não sabem nada, não querem aprender e o que leem lhes entra por um ouvido, atravessa o vácuo e sai pelo outro”.

O detetive dele, Philip Marlowe, não é um cético cínico como Sam Spade. É uma espécie de santo cuja auréola consiste num três-oitão. Convive com a escória, mas sai sempre impoluto: neste mundo imundo, alguém tem de permanecer puro e duro. Ou seja: Marlowe tinha tudo para ser um chato de galocha, mas é um quixotesco pragmático – sabe que o mundo não lhe dá pelota. Ficava assim evidente a dimensão moral que o policial podia alcançar. E, por mais diferentes que fossem, no cinema um mesmo ator imortalizou Sam Spade e Philip Marlowe: Humphrey Bogart (cuja primeira providência foi transformar os dois em… Humphrey Bogart).

Herdeiro da dupla americana é o belga Georges Simenon, criador do inspetor Maigret. Simenon enxugava três garrafas de vinho por dia, além de um aperitivo antes de cada refeição e de um conhaque para começar o trabalho. Escreveu 192 romances, 158 novelas, memórias e dezenas de contos – sem mencionar uma vasta obra com 27 pseudônimos diferentes. E arrumou tempo para transar com cerca de 10 mil mulheres (devidamente catalogadas). Terminava um livro a cada oito dias. E Maigret parece mais interessado em seu cachimbo do que no universo. De sua escrita tipo torpedo, volta e meia brotam sacadas avassaladoras sobre a alma humana – raramente flor que se cheire.

Ficou para trás o tempo em que o gênero policial era o sem-teto no panteão da literatura universal. O melhor exemplo foi a adesão de um acadêmico pimpão como Umberto Eco. Com 50 anos, o semiólogo italiano publicou um policial situado na Idade Média: O Nome da Rosa. Foi um gol de placa, que vendeu até agora 20 milhões de exemplares. Contém um tributo explícito a Conan Doyle, na figura do franciscano detetive Guilherme de Baskerville (alusão ao Sherlock de O Cão dos Baskerville).

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No século 21, o gênero globalizou-se. Despontou, por exemplo, o nordic noir, ou o policial escandinavo. Puxando a fila, Stieg Larsson causou, passando o rodo em 60 milhões de exemplares da trilogia Millennium, estrelada por uma hacker com um dragão tatuado nas costas. Larsson morreu prematuramente, aos 49 anos, mas deixou uma prole do balacobaco, com nomes impronunciáveis e atravancados de consoantes: Camilla Lackberg, Nibs Jakkebtif, Klas Ostren, Lars Kepler.

No Brasil, autores apaparicados como Luis Fernando Verissimo e Rubem Fonseca deitam e rolam nos policiais. O primeiro talhou o detetive Ed Mort, um matusquela que divide seu escritório em Copacabana (tão minúsculo que ele chama só de “escri”) com 117 baratas e um rato albino, Voltaire. Já ­Rubem Fonseca entende do riscado: foi comissário numa delegacia carioca. Seu protagonista é Mandrake, um advogado criminalista chegado a um vinho português no capricho.

Ed e Mandrake fuçaram tanto no cinema como na TV, confirmando uma tendência que não vem de hoje: desde a invenção da câmera de filmar, um em cada três de todos os filmes e séries de TV já rodados são policiais. E ninguém explicou melhor o assunto do que o mestre do suspense, Alfred Hitchcock: “Não sei se aprovo a atual onda de violência cinematográfica. Sempre achei que o crime precisava ser tratado com delicadeza. E que, com a ajuda da TV, deveria ser levado para dentro do lar, que é o lugar dele. Alguns dos crimes mais lindos foram domésticos – cometidos com doçura, em locais simples e acolhedores como a mesa da cozinha ou o banheiro. Nada me revolta mais que o assassino de rua, capaz de matar até pessoas a quem não foi formalmente apresentado. Ora, o crime deveria ser uma experiência agradável, inclusive para a vítima”.

É crime não ler
Uma Certa Justiça, PD James
O Assassino Dentro de Mim, Jim Thompson
O Longo Adeus, Raymond Chandler
A Chave de Vidro, Dashiell Hammett
O Talentoso Ripley, Patricia Highsmith

Por Paulo Nogueira-DCM e RBA

Assunto:ELOGIO por Dadinha Piedade Peixoto

26 mar

Segue abaixo o e-mail que enviei hoje ao deputado Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados. Quem quiser pode enviar para o e-mail dep.henriqueeduardoalves@camara.gov.br
Assunto:ELOGIO 

Excelentíssimo Deputado Henrique Eduardo Alves:

Parabéns à Vossa Excelência por não ter permitido que nas dependências dessa casa se fizesse o ato de homenagem que o DEPUTADO Jair Bolsonaro pretendia fazer ao golpe militar de março de 1964 na figura do homenageado, o torturador coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-CODI em São Paulo, considerado um dos símbolos máximos da tortura praticada pelos militares.

Estamos a dias de completar meio século da data do golpe militar; é um desrespeito à memória dos mortos e desaparecidos, às suas famílias, aos torturados que sobreviveram e principalmente à chefe do Estado brasileiro, presidente Dilma, que foi perseguida, presa e torturada em sua corajosa luta contra a ditadura. 


Nada justifica comemorar o Estado autoritário em plena democracia. Eu mesma lhe afirmo que tive uma amiga que foi assassinada por esse Coronel Ustra, que se diz “apenas cumpria ordens.”


Que Vossa Excelência, no exercício de seus poderes frente a essa casa, não permita que tal “comemoração” aconteça NUNCA! 


Em nome da democracia e do respeito aos Direitos Humanos, em respeito à sociedade brasileira, à memória dos mortos e desaparecidos, às suas famílias, aos torturados sobreviventes e em respeito a essa casa legislativa, receba as minhas congratulações por essa sábia decisão e por sua frase de hoje:

“NUNCA ESSA CASA HOMENAGEARIA UM GOLPE QUE A FECHOU TRÊS VEZES E CASSOU OS DIREITOS POLÍTICOS DE 173 DE SEUS MEMBROS”. 


PARABÉNS , NOBRE deputado por não permitir que essa casa do povo sofra tamanha violência.

MARIA DA PIEDADE PEIXOTO DOS SANTOS, 64 ANOS, APOSENTADA DA UNESP

UMA ESTUDANTE QUE como tantos brasileiros VIVEU E SOFREU ESSES TEMPOS DA DITADURA

Dadinha Piedade Peixoto

Dadinha Piedade Peixoto

As semelhanças entre 1964 e 2014 by Luis Nassif

23 mar

Santos Vahlis, hoje em dia, é mais conhecido pelos edifícios que deixou no Rio de Janeiro e pelas festas que proporcionou nos anos 50. Foi um dos grandes construtores do bairro de Copacabana.

Venezuelano, mudou-se para o Brasil, trabalhou com a importação de gasolina e tentou se engatar nas concessões de refinarias no governo Dutra. Foi derrotado pela maior influência dos grupos cariocas já estabelecidos.

Nos anos seguintes, foi um dos financiadores da campanha do general Estillac Leal para a presidência do Clube Militar, em torno da bandeira do monopólio estatal do petroleo. Torna-se amigo de Leonel Brizola, defensor de Jango.

Provavelmente graças ao fato de ser bom cliente dos jornais, com seus anúncios imobiliários, tinha uma coluna no Correio da Manhã, cujo ghost writer era o grande Franklin de Oliveira.

Tentou adquirir o jornal “A Noite” para fortalecer a imprensa pró-Jango. Foi atropelado pelo pessoal do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) que, em vez de comprar o jornal, comprou sua opinião por Cr$ 5 milhões. A CPI que investigou a transação teve como integrante o deputado Ruben Paiva.

Por sua atuação, Vahlis sofreu ataques de toda ordem. Contra ele, levantaram a história de que teria feito uma naturalização ilegal. Em 1961, em pleno inverno, foi preso e jogado nu em uma cela de cadeia, a ponto do detetive que o prendeu temer por sua vida.

Como era possível a perseguição implacável dos IPMs (Inquéritos Policial Militares), de delegados e dos Ministérios Públicos estaduais, contra aliados do próprio governo?

Esse mesmo fenômeno observou-se nos últimos anos, com os abusos cometidos no julgamento da AP 470, envolvendo não um ou dois Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), mas cinco, seis deles, endossando arbitrariedades que escandalizaram juristas conservadores.

Características da democracia

Para tentar entender o fenômeno, andei trabalhando em um estudo que pretendo apresentar no evento “50 anos da ditadura”, que ocorrerá a partir da semana que vem no Recife.

Aqui, um pequeno quadro esquemático que explica porque 2014 é tão semelhante a 1964 – embora torçamos por um desfecho diferente.

1.     A democracia é um processo permanente de inclusões sucessivas. Também é o regime de maior instabilidade (e medo) das pessoas. Nos regimes autoritários, na monarquia, nos sistemas de castas, não há ascensão vertical das pessoas – nem sua queda. Na democracia de mercado há a instabilidade permanente, mesmo para os bem situados. Teme-se o dia seguinte, a perda do emprego, das posses, do status.

2.     Além disso, há repartição entre os poderes que abre espaço para a montagem de alianças e acordos econômicos, nos quais os grandes grupos econômicos se aliam aos grupos de mídia, através deles infuenciam os diversos poderes de Estado.

3.     Cada época de inclusão gera novas classes de incluídos que cumprem seu papel de entrar no mercado de trabalho, ganhar capacidade de consumo e, no momento seguinte, cidadania e capacidade de organização. Gera resistências tanto na classe média (medo da perda de status) quanto nos de cima (perda de influência).

Aí, cria-se uma divisão no mercado de opinião que será explorado a seguir.

O mercado de opinião

Simplificadamente, dividi o mercado de opinião em dois grupos.

O primeiro é o mercado liderado pelos Grupos de Mídia. Por definição, é um mercado que influencia preponderantemente os setores já estabelecidos que já passaram pela fase da inclusão, do emprego, da carreira, integrando-se no mercado de opinião aos estabelecidos da fase anterior.

Por suas características, os grupos mais resistentes ao novo são os estamentos militar,  jurídico, alta hierarquia pública e a alta e média classes médias – especialmente os estamentos que trabalham em grandes companhias hierarquizadas. E também a classe média profissional liberal, que depende de redes de relacionamentos.

A razão é simples. Vivem em estruturas burocráticas, hierarquizadas, nas quais cumprem uma carreira, sujeitando-se a promoções ao longo de sua vida útil. Por isso mesmo, a renovação se dá de forma muito lenta, proporcional à lentidão com que mudam os lugares nessas corporações. São os mais apegados ao status quo.

Por todas essas características – da insegurança, da carreira construída passo a passo – esses grupos são extremamente influenciados por movimentos de manada. Por segurança, querem pensar do mesmo modo que a maioria, ou que o status quo do seu grupo (ou de suas chefias).

Esse grupo pode ser denominado conceitualmente de opinião pública midiática. Ele detém o poder, a capacidade de influenciar leis, julgamentos, posições.

Mas não detém voto. Mesmo porque, quem têm votos é a maioria.

O segundo grupo é o dos novos incluídos econômicos e dos incluídos políticos mas que não tem posição de hegemonia. Entram aí sindicatos, organizações sociais, o povão pré-organização etc, enfim, a maioria da população – especialmente em países com tão grandes diferenças de renda. E entra o Congresso Nacional.

Os canais de informação desse público são os sindicatos, organizações sociais e os partidos políticos.

É um público que detém os votos, mas não detém poder.

O conflito entre poder e voto

Em cada período de inclusão, o partido que entende as necessidades dos novos incluídos ganha as eleições. Foi assim nos EUA com o Partido Republicano no século 19, com o Partido Democrata no século 20.

Processos de inclusão diminuem as diferenças de renda, ampliam a classe média e, quando o país se civiliza, garantem a estabilidade política – porque a maioria se torna classe média.

Mas em países culturalmente atrasados – como o Brasil – qualquer gesto em direção à inclusão sofre enormes resistências dos setores tradicionais.

Não se trata de viés político, ideológico (no sentido mais amplo), mas de atraso mesmo, um atraso entranhado, anti-civilizatório,  que atinge não apenas os hommers simpsons, mas acadêmicos conservadores, magistrados, empresários sem visão. E, especialmente, os grupos de mídia. Os de baixo temem perder status; os de cima, temem perder poder.

O partido que entende os novos movimentos colhe leitor de baciada.

O único fator capaz de derrubá-lo são as crises econômicas (o fenômeno do populismo é o de procurar satisfazer de qualquer maneira as massas descuidando-se da economia) ou o golpe.

A reação através do golpe

Sem perspectivas eleitorais, os segmentos incluídos na chamada opinião pública midiática recorrem ao golpismo puro e simples.

Consiste em fomentar diuturnamente o discurso do ódio e levar a vendetta para o campo jurídico-policial. É o que levou à prisão de Santos Vahlis e aos abusos da AP 470.

O movimento foi bem sucedido em 1964 e consistia no seguinte:

1.     Para mobilizar a classe média, a mídia levanta fantasmas capazes de despertar medos ancestrais: o fantasma do comunismo, que destroi famílias e propriedades, do golpe que estaria sendo preparado pelo governo, da corrupção que se alastra etc.

2.     A campanha midiática cria o clima de ódio que se torna cada vez mais vociferante quanto menores são as chances de mudar o governo pela via eleitoral.

3.     Com a influência sobre o Judiciário e o Ministério Público, além de denúncias concretas, qualquer fato vira denúncia grave e, na ponta, haverá um inquérito para criminaliza-lo.

4.     Aí se entra no ponto central: as agressões, os atentados ao direito, as manipulações provocam reações entre aliados do governo. Qualquer reação, por mais insignificante, serve para alimentar a versão de que o governo planeja um golpe. O ponto central do golpe consiste em fomentar reações que materializem as suspeitas de que é o governo que planeja o golpe.

É nesse ponto que o golpismo e o radicalismo de esquerda se dão as mãos.

Confiram esse vídeo aqui do Arnaldo Jabor, sobre uma proposta de um deputado obscuro do PT. O próprio Jabor considera-o obscuro. Mas repare nas conclusões que tira. Foi buscá-las em uma nave do tempo diretamente de 1964

O grande problema de Jango foram os aliados iludidos pela revolução cubana e pela própria campanha da mídia – que superestimava, intencionalmente, os poderes das ligas camponesas e quetais.

O histórico trabalho de Wanderley Guilherme dos Santos, em 1962, expos de forma magistral e trágica  como se dava essa manipulação das reações.

Esse mesmo clima em relação às ligas camponesas, a mídia tentou recriar com as fantasias sobre a influências das Farcs no Brasil, sobre os dólares cubanos transportados em garrafas de rum e um sem-número de artigos de colunistas denunciando o suposto autoritarismo de Lula.

Lula e Dilma fugiram à armadilha, recorrendo ao que chamei, na época, de republicanismo ingênuo, às vezes até com um cuidado excessivo.

Não tomaram nenhuma atitude contra a mídia; não pressionaram o STF; têm sido cautelosos de maneira até exagerada; não permitiram que o PT saísse às ruas em protesto contra os abusos da AP 470.

Apesar de entender esse caminho, Jango não conseguiu segurar os seus. Houve radicalização intensa, conduzida por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, pelo PCB de Luiz Carlos Prestes e por lideranças sindicais, que acabaram proporcionando o álibi de que os golpistas precisavam.

Hoje em dia não há mais a guerra fria, não há uma republiqueta encravada em um continente golpista, não há o descuido com a economia.

No entanto, há um ponto em comum nos dois períodos: o ódio que a campanha midiática provocou em diversos setores de classe média crescerá em razão inversamente proporcional ao crescimento eleitoral da oposição. E o mote central será  a Copa do Mundo e a convicção  de que o governo gastou em estádios o dinheiro da saúde.

Há uma guerra de comunicação central.

O “escudo”da nova Guerra Fria por Manlio Dinucci

22 mar

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Washington está tirando vantagem de sua derrota na Ucrânia: está fazendo os europeus se isolarem economicamente da Rússia, e já está impondo sobre eles a expansão de sua cobertura de míssil. Enquanto os meios de comunicação ocidentais focam na narrativa de eventos da OTAN (a assim chamada ” anexação militar” da Criméia), a Aliança está implantando silenciosamente seu aparato imperial.

ice-presidente Joe Biden fez uma rápida visita à Polônia e a Estônia para garantir que, em face de “incursão desavergonhada da Rússia” na Ucrânia – um país determinado a construir “um governo para o povo” (garantido pelos neo-nazistas [1] que alçaram o poder pelo golpe de estado do “novo Gladio” [2]) –, os Estados Unidos reiteram o seu firme compromisso em conformidade com o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte na “defesa coletiva”. Como a Ucrânia é agora um membro de fato, mas não oficial, da OTAN, há sempre um “não-Artigo 5º”, incitando membros a “executar missões em evolução não descritas nos termos do Artigo 5º”, que foi promovido pelo governo italiano de Massimo D’Alema durante a guerra da OTAN na Iugoslávia em 1999, e mais tarde também aplicado para as guerras no Afeganistão, na Líbia e na Síria.

Para ajudar “a OTAN a emergir desta crise mais forte… do que ’nunca’”, os Estados Unidos retomaram seu compromisso com a “defesa contra míssil” da Europa. No entanto, correlacionando a “defesa contra mísseis” à crise ucraniana, Joe Biden entregou o jogo. Washington manteve persistentemente que”escudo” dos EUA na Europa não é dirigido contra a Rússia, mas contra a ameaça dos mísseis iranianos. Em Moscou, pelo contrário, isso foi sempre entendido como uma tentativa de ganhar uma vantagem estratégica decisiva sobre a Rússia: os EUA poderiam manter isso sob a ameaça de um primeiro ataque nuclear, contando com a capacidade do “escudo” para neutralizar os efeitos de retaliação. [3] O novo plano lançado pelo Presidente Obama, em comparação com o anterior, prevê um maior número de mísseis alinhados às portas da Rússia. Desde que estão sob controle dos EUA, ninguém pode descobrir se eles são interceptores ou mísseis nucleares.

Tendo rejeitado a proposta para gerenciar em conjunto com a Rússia a estação de radar de Gabala no Azerbaijão, os Estados Unidos começaram a construir na Polônia o local que hospedará 24 mísseis SM-3 do sistema Aegis. Além disso, o governo polaco comprometeu-se a dispor de mais de 30 bilhões euros para alcançar (com tecnologias dos EUA) o seu próprio “escudo” destinado a se integrar à estrutura dos Estados Unidos e da OTAN. E Joe Biden aplaudiu a Polônia pela sua disponibilidade a assumir “parte dos encargos financeiros, algo que todos os aliados devem fazer” (a Itália considerada). Outro local de míssil 24 SM-3, atualmente em construção na base aérea Deveselu na Romênia, vai se tornar operacional em 2015 e vai ser comandado por 500 soldados americanos. Essas instalações de mísseis compõem um super poderoso radar instalado na Turquia e radares móveis que pode ser rapidamente transportado para “posições avançadas”.

O “escudo” também inclui a implantação no Mediterrâneo de navios de guerra equipados com radares e mísseis Aegis SM – 3. O primeiro – um míssil destróier USS Donald Cook – chegou no início de fevereiro na Base Naval de Rota, na Espanha, onde 1.200 marinheiros e 1.600 membros das suas famílias serão eventualmente alojados. Será seguido por outras três unidades (USS Ross, USS Porter e USS Carney). Mas é provável que o número será maior, pois a Marinha dos EUA já tem cerca de 30 desses navios. Eles patrulham continuamente o Mediterrâneo, prontos a entrar em ação a qualquer momento, conduzindo ao mesmo tempo, de acordo com a OTAN, “uma gama completa de operações de segurança marítima e exercícios bilaterais e multilaterais com as marinhas aliadas”. A Marinha Espanhola já tem quatro fragatas equipadas com o sistema de combate integrado Aegis, o que os faz inter-operacionais com os navios dos EUA. O mesmo será feito com o Fremmfrigates da marinha italiana.

Um papel cada vez mais importante no “escudo” será desempenhado pelas diretivas e bases os EUA e da NATO na Itália: em Nápoles, casa do quartel-general dos EE e das forças navais aliadas; na Sicília, onde se situa a Estação Naval e Aérea Sigonella (que atenderá as unidades Aegis no Mediterrâneo); além do Sistema Objetivo Móvel do Usuário (Mobile User Objective System – MUOS), em Niscemi [4], para comunicações por satélite de alta freqüência. Todas as unidades navais Aegis no Mediterrâneo, novamente de acordo com a OTAN, estarão “sob o comando e o controle dos EUA.” Isto significa que a decisão de lançar o míssil interceptador, presume-se, será prerrogativa exclusiva do Pentágono.

Enquanto prepara o “escudo”, os EUA afiam suas facas. Para a crise ucraniana, eles implantaram outros 12 bombardeiros F-16na Polônia e outros 10 F-15 na Estônia, Letônia e Lituânia. Em breve, eles serão capazes de transportar as novas bombas nucleares B61-12 armazenadas na Europa (incluindo a Itália), para ser usadas como abrigo contra bombas Bunker. Moscou está tomando medidas defensivas, mas Washington marcou o primeiro ponto: a crescente tensão na Europa permite que os Estados Unidos aumentem sua influência sobre seus aliados europeus.

Com o Artigo 5º ou o não-Artigo 5º.

Manlio DinucciGeógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

Tradução 

Marisa Choguill

Fonte 
Il Manifesto (Itália)

 

 

 

 

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