“Era uma vez” by Sergio Ricardo

5 mar

Reluto por começar dizendo que “era uma vez”. E fico procurando um jeito de trazer meu pensamento para as histórias recentes e de repente tropeço num feito, numa tragédia qualquer, num comentário midiático colocando o baralho na mesa com cartas marcadas e referentes às coisas tão negativas, tão repetitivas feito as melodias que se ouvem no rádio, mas tento dar a volta por cima e procuro o lado positivo das coisas pra extrair uma história, não diria para embalar um infante carente, simplesmente para servir de alento ao cidadão macambúzio, em seu canto. Cacetada! Estamos no carnaval, nem mesmo assim consigo extrair um alegre tema desse cotidiano carioca, onde habita o povo mais alegre do país. Que diabo anda acontecendo? 

Fui fumar na janela da cozinha por onde todo ano nesse mesmo dia o bloco do Vidigal desce a ladeira cantando o seu samba do ano, atraído pelo rufar das caixas e tamborins e vozes distantes. La veio ele mirrado, cansado, com menos de cinquenta pessoas, entoando inintendivel samba sem vigor, com poucos insistentes foliões, com fantasias parecendo confeccionadas no armazém ou na cozinha de casa, todas tronchas e mirradas, sambando com a lentidão, sem nenhuma energia. Fiquei a achar que o problema era de algum pessimismo próprio meu, já que perdera o entusiasmo pelo carnaval. Mas lembrei-me da exuberância de anos anteriores, quando numerosa e altissonante, irradiando vida e alegria, interrompia o transito da ladeira tirando com força a alma pela garganta num samba buliçoso e contagiante. Dava pena vê-la acabar de passar. Desta vês alguém grita no rabo do bloco já parado, sem vontade de continuar. 

—Cadê o surdo, porra!!! como é que se toca um samba sem o surdo. Que diabo é isso!!

Realmente, tinha razão. Ausência de surdo no samba é o mesmo que ausência de mulher na cama de núpcias. Realmente vimos passar um samba masturbado. Era como se nada houvesse acontecido. Lamentável. Pensei que voltaria ao trabalho de alma lavada como de outras vezes, mas pura ilusão. Era uma vês. Por ironia busco a janela do quarto pra fumar e ouço de longe surgir o som de uma boate fechada numa euforia carnavalesca de encher a alma de alegria de todos, em coro, cantando ao som da banda sofisticada, cujo som do surdo chegava claro ao meu ouvido, dando vida ao samba na pulsação do batuque. A gringaiada misturada aos nossos tupiniquins se esbaldava na euforia de belas melodias inflamadas :

— “Ó jardineira porque estás tão triste”… e iam se ligando à outras marchinhas: Alalaô ô ô ô ô ô ô ô. Mais que calor ô ô ô ˆø ô ô…. Sa-sa-saricando. Levo a vida pendurado no arame… e por aí a fora enchendo o ar de alegria, que até fora da boite ouvia-se o favelado cantar. Engraçado: não ouvi nenhuma música feita para este carnaval. Eram todas músicas de saudosos carnavais. Que chato! Eu não queria começar nem terminar com “Era uma vês” …

Sergio Ricardo

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