O creme do crime. Histórias policiais, as mais populares do planeta

26 mar

Há quem diga que tudo começou quando Caim matou Abel e acabou apanhado em flagrante – uma covardia, pois o detetive era Deus. E as histórias policiais viraram a literatura mais popular do planeta

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Por falar em detetive e Deus, Agatha Christie­ só vendeu menos que a Bíblia. Daí que ignorar o assunto seja… um crime. Investiguemos as pistas dessa coqueluche. O arroz com feijão é um assassinato, a escrotice suprema que suscita uma reação atávica de repugnância e fascinação. Eis a pergunta crucial: quem matou o morto? Uma implicação traiçoeira é o risco de se folhear distraidamente um romance policial de trás para frente na livraria: o nome do assassino aparece sempre na última página.

A polícia parece ter sempre existido, mas, na acepção contemporânea do termo, só surgiu no século 19 – e os romances policiais no cangote dela. Durante a maior parte da história humana, o crime foi considerado uma questão entre indivíduos, que podia ser negociado e resolvido entre as partes. Por vezes, rolando um “olho por olho, dente por dente”. Com o advento do Poder Judiciário e de entidades como promotor e procurador, se consolida a ideia de crime como uma infração às leis do Estado – e do criminoso como um inimigo público.

Em 1800, os investigadores franceses eram recrutados entre ex-condenados. Um dos primeiros criminalistas foi um dos criminosos mais maledettos de todos os tempos – Vidocq. Uma espécie de Bin Laden daquela época, se regenerou e fundou a Sûreté Nationale (Segurança Nacional, uma força institucional) e uma pioneira agência de detetives particulares. Os escritores Balzac e Victor Hugo falaram dele, e o cinema calcificou-o sob as banhas de Gerard Depardieu.

Outra circunstância decisiva: a aparição da imprensa de massa, na Inglaterra e Estados Unidos, com jornais populares de grande tiragem. Eles satisfaziam o apetite dos leitores pelo suspense e o prazer mórbido da desgraça alheia. Por outro lado, as histórias policiais tranquilizavam o público com o fato de que os maus eram sempre descobertos e punidos.

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Antes e depois de Poe

Revistas especializadas – como a britânica Strand e a norte-americana Black Mask – emplacaram a chamada pulp fiction, com folhetins que faziam os leitores salivar. Aí estrearam os contos de Sherlock Holmes. Depois, as histórias se expandiram em romances. Como disse o intelectual britânico Gilbert Keith Chesterton (1874-1936): “A história longa é mais eficaz, sob um aspecto nada insignificante: torna possível perceber que um homem está vivo antes de morrer”.

Parece uma justiça poética que o pai do romance policial seja o norte-americano Edgar Allan Poe. Ele passou seus 40 anos de vida mais morto do que vivo e numa pindaíba só. Hoje, é ícone midiático. Tem a série The Following(no canal Warner), sobre uma seita de carniceiros inspirados em Poe. Tem Contos de Edgar (dirigida por Fernando Meirelles). Tem a homenagem de Tim Burton ao poema O Corvo, de Poe (traduzido por Machado de Assis e Fernando Pessoa), no desenho animado Frankweenie. Acreditem se quiser: até Zé do Caixão babou por ele.

Arthur Conan Doyle reconheceu a paternidade biológica de Poe. Doyle era um clínico geral recém-casado que resolveu dar um rolezinho na literatura – afinal, de médico e de louco ele tinha bastante. Baseou seu investigador num cirurgião escocês chamado Joseph Bell, célebre por diagnósticos infalíveis. Hoje, o lar de Sherlock em Londres – Baker Street, 21-B – é museu do personagem e atração mais visitada do que o Big Ben.

A popularidade de Holmes e Watson (por sinal, em nenhum dos quatro romances e 56 contos aparece a frase “elementar, meu caro Watson”) era tanta que, depois de matar Sherlock numa aventura, o autor se viu obrigado a ressuscitá-lo, para deixar de ser besta. Em 2008, uma sondagem indicou que mais da metade dos britânicos (58%) pensa que Holmes era uma pessoa real, e não um personagem de ficção.

E aí floresceu a era dourada do policial. Estatisticamente, as mulheres não são grandes tietes do gênero. Contudo, alguns dos melhores autores policiais são do sexo feminino. Agatha Christie vendeu até outro dia 2 bilhões de exemplares, em 103 idiomas. OK: o estilo dela é tão rudimentar que até aquele tradutor do funeral de Mandela conseguiria vertê-la. Aliás, a própria Agatha se definiu como “uma fábrica de salsichas”. Os críticos metidos que me perdoem: a verdade é que ninguém jamais gostou das obras dela – exceto os zilhões de leitores.

Uma peça da chamada Duquesa da Morte, A ­Ratoeira, está em cena desde 10 de outubro de 1952 (o elenco já vai na terceira geração). O Sherlock dela é Hercule Poirot, um belga cheio de truques e triques: “Tenho uma atitude burguesa em relação ao assassinato: desaprovo-o”. A vida de Agatha Christie­ incluiu um mistério: em 1926, já mais colunável do que a rainha, ela simplesmente sumiu. Centenas de agentes e 15 mil voluntários (sem falar em cães adestrados) passaram o país a pente fino – e nadica de nada. Depois de 11 dias, foi encontrada num hotel jeca. Aparentemente amnésica, se registrara sob o nome de Tessa Neele – nome da amante de seu marido, que lhe pedira o divórcio duas semanas antes. Agatha nunca deu um pio sobre o assunto.

O jornalista Luís Antônio Giron é apreciador de romances policiais tanto pelo que trazem de lazer como pelo jogo narrativo, fonte de um prazer que faz do estilo “a verdadeira literatura de autoajuda”. O romance policial, segundo Giron, é recomendável como estímulo à leitura e também estimula a escrita. “Nada melhor que um romance desse tipo para fazer um escritor… escrever.” Ainda que gênero se valha de fórmulas que levam, com frequência, a estereótipos. “Os romances policiais que subvertem o estereótipo são os mais interessantes. Autores ­atuais como Michael Connelly, James Ellroy e Dennis Lehane conseguem surpreender o leitor com temas atuais e a capacidade de explorar a violência do ser humano”, diz.

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Nunca me esquecerei de você

Enquanto isso, nos Estados Unidos, um saído da agência de detetives Pinkerton se preparava para dar um peteleco na bolha de sabão do policial inglês, que descambara numa caricatura de si mesmo. O assassino podia não ser sempre o mordomo, mas quase. A vítima era um oficial reformado da Marinha, rechonchudo e gagá. O detetive era um esnobe que fumava cachimbo, jogava bridge e tomava chá com o mindinho empinado. O crime acontecia numa casa de campo, geralmente na biblioteca e o facínora, ao escapulir pela janela, espezinhava os canteiros e imprimia suas pegadas com tal veemência que até Mister Magoo poderia segui-las – o criminoso usava uma perna de pau e, no outro pé, calçava um ­coturno número 48.

Dashiell Hammett fez uma lipoaspiração naquilo tudo. Levou o crime para o meio da rua, que era seu hábitat. Para ele, o assassinato não era uma espécie de filatelia, mas uma profissão, praticado com um motivo concreto, nunca para combinar com a gravata. E nada de enxugar gelo: carros explodiam com passageiros dentro, balas esfacelavam miolos e inocentes morriam de morte matada. Tudo num estilo seco como o seu dry martini.

Por sinal, o detetive de Hammett, Sam Spade, não dava colher de chá nem para as mocinhas mais ergonômicas. No final de O Falcão Maltês, decide entregar a periguete prevaricadora à polícia. “Mas você me ama!” “Talvez, mas e daí? Não vou bancar o otário por sua causa. Com sorte, sairá da prisão com vida, daqui a 20 anos. Estarei esperando. E, se a enforcarem, nunca me esquecerei de você.”

Raymond Chandler, por sua vez, estudou em colégios finos da Inglaterra. Voltou para Los Angeles com 25 anos, e teve um chilique com a mania norte-americana de cuspir no chão. Ao contrário de ­Hammett, não entendia bulhufas do submundo, mas devorou tratados sobre direito penal, armas e venenos. Só estreou aos 45 anos, mas aí já era um ás no assunto. Ironicamente, desprezava o leitor típico do gênero: “Não sabem nada, não querem aprender e o que leem lhes entra por um ouvido, atravessa o vácuo e sai pelo outro”.

O detetive dele, Philip Marlowe, não é um cético cínico como Sam Spade. É uma espécie de santo cuja auréola consiste num três-oitão. Convive com a escória, mas sai sempre impoluto: neste mundo imundo, alguém tem de permanecer puro e duro. Ou seja: Marlowe tinha tudo para ser um chato de galocha, mas é um quixotesco pragmático – sabe que o mundo não lhe dá pelota. Ficava assim evidente a dimensão moral que o policial podia alcançar. E, por mais diferentes que fossem, no cinema um mesmo ator imortalizou Sam Spade e Philip Marlowe: Humphrey Bogart (cuja primeira providência foi transformar os dois em… Humphrey Bogart).

Herdeiro da dupla americana é o belga Georges Simenon, criador do inspetor Maigret. Simenon enxugava três garrafas de vinho por dia, além de um aperitivo antes de cada refeição e de um conhaque para começar o trabalho. Escreveu 192 romances, 158 novelas, memórias e dezenas de contos – sem mencionar uma vasta obra com 27 pseudônimos diferentes. E arrumou tempo para transar com cerca de 10 mil mulheres (devidamente catalogadas). Terminava um livro a cada oito dias. E Maigret parece mais interessado em seu cachimbo do que no universo. De sua escrita tipo torpedo, volta e meia brotam sacadas avassaladoras sobre a alma humana – raramente flor que se cheire.

Ficou para trás o tempo em que o gênero policial era o sem-teto no panteão da literatura universal. O melhor exemplo foi a adesão de um acadêmico pimpão como Umberto Eco. Com 50 anos, o semiólogo italiano publicou um policial situado na Idade Média: O Nome da Rosa. Foi um gol de placa, que vendeu até agora 20 milhões de exemplares. Contém um tributo explícito a Conan Doyle, na figura do franciscano detetive Guilherme de Baskerville (alusão ao Sherlock de O Cão dos Baskerville).

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No século 21, o gênero globalizou-se. Despontou, por exemplo, o nordic noir, ou o policial escandinavo. Puxando a fila, Stieg Larsson causou, passando o rodo em 60 milhões de exemplares da trilogia Millennium, estrelada por uma hacker com um dragão tatuado nas costas. Larsson morreu prematuramente, aos 49 anos, mas deixou uma prole do balacobaco, com nomes impronunciáveis e atravancados de consoantes: Camilla Lackberg, Nibs Jakkebtif, Klas Ostren, Lars Kepler.

No Brasil, autores apaparicados como Luis Fernando Verissimo e Rubem Fonseca deitam e rolam nos policiais. O primeiro talhou o detetive Ed Mort, um matusquela que divide seu escritório em Copacabana (tão minúsculo que ele chama só de “escri”) com 117 baratas e um rato albino, Voltaire. Já ­Rubem Fonseca entende do riscado: foi comissário numa delegacia carioca. Seu protagonista é Mandrake, um advogado criminalista chegado a um vinho português no capricho.

Ed e Mandrake fuçaram tanto no cinema como na TV, confirmando uma tendência que não vem de hoje: desde a invenção da câmera de filmar, um em cada três de todos os filmes e séries de TV já rodados são policiais. E ninguém explicou melhor o assunto do que o mestre do suspense, Alfred Hitchcock: “Não sei se aprovo a atual onda de violência cinematográfica. Sempre achei que o crime precisava ser tratado com delicadeza. E que, com a ajuda da TV, deveria ser levado para dentro do lar, que é o lugar dele. Alguns dos crimes mais lindos foram domésticos – cometidos com doçura, em locais simples e acolhedores como a mesa da cozinha ou o banheiro. Nada me revolta mais que o assassino de rua, capaz de matar até pessoas a quem não foi formalmente apresentado. Ora, o crime deveria ser uma experiência agradável, inclusive para a vítima”.

É crime não ler
Uma Certa Justiça, PD James
O Assassino Dentro de Mim, Jim Thompson
O Longo Adeus, Raymond Chandler
A Chave de Vidro, Dashiell Hammett
O Talentoso Ripley, Patricia Highsmith

Por Paulo Nogueira-DCM e RBA

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