USP: A INCLUSÃO SOCIAL NO LIXO

3 jun

Tristíssima, para não dizer grotesca, é imagem da “inclusão social” feita à moda da USP , com pobres, pretos e egressos da escola pública tendo aulas sobre um lixão tóxico

 

É profunda a desmoralização em que se encontra a mais importante universidade do país, a Universidade de São Paulo. Era a instituição-líder entre todas as universidades da América Latina. Não é mais. Perdeu o posto para a Pontifícia Universidade Católica do Chile, mais bem avaliada pela consultoria britância QS, especializada em rigorosos estudos comparativos entre instituições de ensino superior.

A queda vai ao encontro do apontado por outro ranking de universidades, o THE (Times Higher Education), que no ano passado fez a USP desabar 68 posições na classificação das melhores do mundo – passou de 158º lugar em 2012 para 226º.

É grave porque mostra, entre outras coisas, a perda da relevância científica da USP. Mas é muito pior.

Relatório do Tribunal de Contas do Estado provou que a burocracia universitária soube cuidar muito bem dos seus próprios interesses.

Assim é que a casta que domina a USP, fingindo-se de morta em relação à lei federal que proíbe os funcionários públicos estaduais de ganhar acima do salário do governador, permitiu-se a festa com recursos públicos:

O próprio reitor e mais 166 docentes foram flagrados pelo tribunal ganhando mais do que Geraldo Alckmin (PSDB) em 2011. Enquanto o governador recebia um contra-cheque mensal de R$ 18.725, os hierarcas uspianos abocanhavam proventos de até R$ 26.000.

Para complicar, agora se sabe, a universidade comprometeu 105% dos R$ 6 bi que recebe anualmente do Estado de São Paulo em pagamento de salários. Está falida. Não tem verba para comprar equipamentos, para atualizar as bibliotecas, para investir no futuro. Para pagar as empresas de limpeza e segurança etc. etc. etc.

Mas o mais vergonhoso é o estado atual do campus Leste da USP, que sedia a Escola de Artes, Ciências e Humanidades, em Ermelino Mattarazzo, periferia pobre de São Paulo. Na sua inauguração, em 28 de fevereiro de 2005, estiveram presentes, entre outros, o governador Geraldo Alckmin, o vice-governador, Cláudio Lembo; e o então prefeito da Capital, José Serra. “Isso mostra que a USP Leste é uma vitoriosa experiência de inclusão social”, empolgou-se o reitor Adolpho Jose Melfi, em discurso.

Para demonstrar a tese, a reitoria evocou a configuração da primeira turma da USP Leste. Dos 1.020 alunos selecionados pelo vestibular, 31% moravam na zona leste (42% se considerados os municípios vizinhos), 47% cursaram o ensino médio em escolas públicas, 21% eram negros e 39% tinham renda familiar de até R$ 1.500,00.

Na USP de maneira geral, em 2013, apenas 2,4% dos calouros eram pretos. Os pardos constituíam 11,3% do total de aprovados no vestibular. Os amarelos eram 6,5% e os indígenas apenas 0,2%. O resto (79,6%) era uma Escandinávia branca.

“Estamos levando a universidade às regiões mais necessitadas, para alavancar o desenvolvimento de nosso Estado”, disse Alckmin na inauguração. “Hoje foi dado apenas o primeiro passo da USP Leste, que vai continuar crescendo. O Estado de São Paulo tem um compromisso permanente com a Educação”, asseverou o governador.

Agora se sabe o tamanho da mentira por detrás dos discursos, já que a USP, sempre tão arrogante e palavrosa a respeito de sua própria excelência, foi de um desleixo acintoso com a sua ala “pobre” na zona Leste. Na prática, “a vitoriosa experiência de inclusão social” produziu uma USP podre.

E não por culpa dos alunos…

Pois não é que os gênios que projetaram a USP Leste, “o projeto mais participativo em toda a história da Universidade”, nas palavras do professor Celso de Barros Gomes, tiveram a capacidade de colocar estudantes, professores e funcionários para conviver sobre um lixão coalhado de substâncias tóxicas, gás metano e riscos de contaminação?

Um mapa com as sondagens feitas em 2013 no terreno da USP Leste mostra a presença –em concentrações superiores aos padrões de referência ambiental– de produtos como cianeto (veneno usado nas câmaras de gás nos campos de extermínio nazistas), arsênio (extremamente tóxico, responde por milhões de doentes e mortos em todo o mundo), além de moléculas menos famosas, como o benzo(b)fluoranteno, de comprovada ação carcinogênica (que causa câncer) ou compostos organoclorados como os PCBs, relacionados a alterações na função do fígado, problemas oculares, elevação do índice de mortalidade por câncer, fadiga, dor de cabeça e nascimentos prematuros com deformações.

Todo esse veneno, é bom que se esclareça, foi localizado ao lado de salas de aula, quadras esportivas e restaurante. No estacionamento.

Um relatório elaborado a pedido da Reitoria da USP considera que a situação teve origem “no recebimento de terra de origem não especificada em grande volume, a qual foi empregada para retificação do solo”. Um erro primário.

Mas a situação seria ruim mesmo sem a terra de origem desconhecia, já que o campus da USP Leste foi construído sobre uma montanha de lama preta, resíduos da dragagem do leito do rio Tietê!

Nem precisa ter estudo. Qualquer catador de lixo sabe que esses resíduos cheios de matéria orgânica, ao apodrecerem, geram bolhas subterrâneas, cheias de gás metano (o mesmo usado nos postos de combustível e chamado de gás natural). E foi o que aconteceu no solo da USP Leste.

Medições da concentração de metano em um edifício construído para abrigar o restaurante universitário no campus demonstraram que o gás penetrou por fissuras no prédio. Podia ir tudo pelos ares, em explosão.

Tamanhos problemas e o resultado foi a interdição total do campus com o remanejamento dos cursos de graduação e pós-graduação para pelo menos 14 diferentes lugares, distantes em até 40 km, distribuídos entre as dependências alugadas de uma universidade privada localizada na zona leste de São Paulo, as cedidas por outra faculdade pública, e pelos demais campus da USP, em Pinheiros e no Butantã, no extremo oposto da cidade.

“Estou cansado de ser tratado pior que um animal sem condições de ter a aula de qualidade que sempre almejei. [Me esforcei] por três anos para entrar na USP só para acabar tendo aulas improvisadas. Não quero ser um profissional que se formou de qualquer maneira”, escreveu um estudante de obstetrícia no site “Each e Seus Problemas“, com depoimentos de professores, estudantes e funcionários.

Segundo o Diretório Central de Estudantes da USP, a construção das instalações da USP Leste custou R$ 40 milhões aos cofres públicos. Agora, tudo está às moscas e não há um prazo definido para que as aulas sejam ali retomadas. São necessárias obras para a correção dos problemas.

Tristíssima, para não dizer grotesca, é imagem da “inclusão social” feita à moda da USP , com pobres, pretos e egressos da escola pública tendo aulas sobre um lixão tóxico.

Em tempo 1: quem escolhe o reitor da USP é o governador do Estado, a partir de uma lista tríplice de candidatos indicados por um conselho formado em sua maioria por burocratas universitários.

Em tempo 2: o Estado de São Paulo é administrado há 20 anos por sucessivas gestões do PSDB.

Publicado em seu blog, no Yahoo

Laura Capriglione

LAURA CAPRIGLIONE

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