O Complexo de Vira-Latas por Marco Aurélio Neves

13 jun

american-mongrel - complexo de vira-lata

Nelson Rodrigues criou o termo “complexo de vira-latas” para caracterizar aqueles brasileiros que se rebaixam ao rés do chão, quando ficam diante de um gringo.Depois a gente passou a achar engraçado ver esse comportamento na cabeça de uma parte dos brasileiros.Não fico com raiva.Me divirto fazendo a hagiografia do viralatismo.Inclusive aceito contribuições a este projeto que inicio:UNDERDOG PROJECT.Tem por objetivo encontrar perfis rodriguianos no Brasil atual, usando crônicas de Nelson Rodrigues.Começo por Danuza ….
Grã-Fina das Narinas de Cadáver

Amigos, pensam vocês que o futebol tem a simplicidade dos outros esportes. Não, não tem. Não é apenas técnico e tático como os outros. O futebol é mágico. Quantas vitórias, quantas derrotas, desafiam todo o nosso raciocínio e toda a nossa experiência?

Vocês se lembram de 50 e quem não se lembra de 50? O Brasil não podia perder. Técnica e psicologicamente estava em condições muito superiores às do adversário. Só a presença da nossa torcida (duzentos e cinquenta mil brasileiros) bastava, ou devia bastar para esmagar o Uruguai. Mas perdemos o jogo. Não podíamos perder e perdemos. Aconteceu o seguinte: – vitoriosa, a “Celeste” ainda fez a volta olímpica. Tivemos que aplaudir a nossa própria humilhação. Pois este episódio negro na nossa história esportiva foi um milagre contra nós, um milagre pró-Uruguai.


Aí está dito tudo: – há milagres no futebol. E a reação da torcida é a mais imprevisível. Amanhã, há um Fla-Flu, mais um Fla-Flu. É um clássico que magnetiza toda a cidade. Ontem, encontrei-me com a grã-fina das narinas de cadáver. Ela veio para mim feliz do encontro. Disse: – Vou ao Fla-Flu. Imaginem vocês que, outro dia, ela me entra no “Mário Filho” e pergunta:- ” Quem é a bola? ” Não sabia quem era a bola, mas era tocada pela magia do Fla-Flu. Sabe quem é o Fla-Flu e não sabe quem é a bola.

Venho acompanhando o destino do clássico, desde a minha infância profunda. Naquele tempo, era Flamengo x Fluminense. Foi Mário Filho que alguns anos depois criou o diminutivo fascinante : – Fla-Flu. Eu queria dizer que o Fla-Flu apaixona até os neutros. Ou por outra: – diante do formidável clássico não há neutros, não há indiferentes. Há sujeitos que não gostam do Fluminense, não gostam do Flamengo, mas estão lá. Encontrei um desses, no último Fla-Flu. No intervalo, fui tomar um café. No caminho, vi o meu conhecido num canto, estrebuchante. E mais: – babava na gravata. Aquilo me escandalizou: – “O rapaz! Você não é Flamengo não é Fluminense. Estás torcendo por quem?” Arquejou: – “Torço contra os dois”. Mas torcia, o desgraçado…

Não interessa que seja ou não um grande jogo. Só as partidas medíocres precisam ter qualidade. O Fla-Flu vale emocionalmente. Ou por outra: – é Fla-Flu e basta.

Nélson Rodrigues Via Marco Aurélio Neves

Nelson Rodrigues

 

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Uma resposta to “O Complexo de Vira-Latas por Marco Aurélio Neves”

  1. Guto Guimaraes junho 17, 2014 às 6:39 pm #

    O complexo de vira-latas está associado a ato de escrever “o episódio negro” A vergonha de um país mestiço. O orgulho só aparece quando é para deixar os negros nos estratos mais baixo da escala social.

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