ADEUS, BRETTON WOODS, OS BRICS CHEGARAM por Leopoldo Vieira

16 jul


14 DE JULHO DE 2014 ÀS 16:30
Hoje começa a cúpula que tornará BRICS um bloco econômico de fato porque serão oficialmente sócios no Novo Banco de Desenvolvimento-NDB e no Arranjo Contingente de Reservas-CRA. É o pior pesadelo do mundo para a direitona brava
Para Marcos, que insurgiu armas indígenas de poesia e som desde a selva Lacandona, em 1994, quando mentiam às nossas crianças dizendo que a História havia acabado.

Quando, nos anos 90, Caetano Veloso denunciou que alguma coisa estava fora da nova ordem mundial, o planeta ainda tentava acreditar nas promessas de democracia, paz e prosperidade que adviriam do fim da Guerra Fria. Só que o cano da pistola que as crianças mordiam, o asfalto, a ponte, o viaduto ganindo para a lua, o monte de lixo baiano, só piorariam.

A maior tragédia geopolítica do século XXI não seria a queda em si das URSS, nas palavras de Vladimir Putin, mas as consequências dela: um mundo unipolar, cujo Consenso (de Washington) de quem passara a mandar era democracias de fachada, privatização do poder público, desregulação do comércio, fim do Estado-Nação e apropriação das riquezas dos povos por meia dúzia de rentistas que enriqueceriam sem produzir.

O que aconteceu todos sabem: o mundo foi implodido.

Como jovem, enfrentei o neoliberalismo nas ruas e na organização de uma geração que, passados dez anos da tragédia da eleição de FHC em 1994, pode celebrar uma real nova ordem mundial nascente, o que parecia absolutamente impensável naquele quadrante da História.

A #CopadasCopas latino-americana foi parte disso, sucedendo a Copa da África, não menos histórica. Símbolos da capacidade de gestão do que se chamava de Terceiro Mundo. Conceito este que, nos anos 90, foi atucanado para o eufemismo “emergente”, usado pelos neoliberais para escamotear o verdadeiro rumo para o qual conduziam a humanidade.

Trumann fez o mesmo em histórico discurso onde dividiu o mundo em desenvolvidos e subdesenvolvidos, ocasião em que foi erguido o sistema de Bretton Woods, com FMI e Banco Mundial na “vanguarda do atraso”.

Ironia dos acontecimentos, quando as pessoas em ação fizeram o globo girar e provaram que Fukuyama era apenas um farsante, o conceito de emergentes virou contra os feiticeiros, passou a ser real quando a resistência ganhou eleições nos parâmetros daquelas democracias idealizadas por Jimmy Carter, arrombadas pelas lutas sociais em seu processo de transição. E como? Redescobrindo o que era proibido, tido e vendido como pré-histórico: a mão visível do Estado.

Um a um, os sonhos dos especuladores se converteram em terríveis pesadelos.

A abertura econômica chinesa fez o “rato” caçar o “gato”. O bloco instalado no Cone Sul para integrar a produção de multinacionais despertou a Pátria Grande de Bolívar, sob a liderança do então Gigante Adormecido pela pobreza, despertado por Lula com sua “fábrica” de empregos. A democracia russa, fachada para o desenvolvimento de máfias privateiras associadas aos EUA e Europa, foi o canal por onde passou a retomada do orgulho da Mãe Rússia . A democracia racial (mas desde que neoliberal) sul-africana constituiu uma fórmula imbatível para a fusão da soberania nacional e popular: a conversão dos trabalhadores em maioria política através da condição de maioria étnica. O pacifismo indiano, disseminado como um espantalho contra os setores mais exaltados dos movimentos sociais, produziu uma potência econômica e nuclear soberana e altiva.

Por terem se tornado o anti-neoliberalismo em estado bruto e, portanto, passado a apresentar um crescimento econômico cada vez mais robusto, ampliando o peso deste grupo de países na economia global (25% dela), o inglês Jim O’neill os batizou de BRICS (vale a autoria, mesmo com o S vindo depois). Para ele, entretanto, nada além de um acrônimo contrastando com um EUA e uma Europa contaminados pelo seu próprio veneno.

Lá, seja sob liderança da social-democracia ou da própria direita liberal, de Democratas ou Republicanos, o neoliberalismo também foi implementado, fazendo o tradicional centro mundial percorrer um caminho que os deixou à beira do terceiro mundismo. E chegaram à decadência pelas mãos do velho sistema de Bretton Woods, com as receitas e o tacão de FMI e Banco Mundial, por sua vez governados pela tecnocracia gerencial do sistema financeiro e suas agências de investimentos e riscos, que tentam (ainda) governar as nações desde as Bolsas de Valores e por meio de sua mais letal arma, a bomba de um trilhão de dólares que destruía países em questão de segundos.

Mas não era só para O’Neill que os BRICS não passavam de um amontoado de letras.

A imprensa brasileira e latino-americana, de modo geral, tratava o acrônimo quase como uma piada. A relação com os outros países dos BRICS foi constantemente questionada, embora, economicamente e tecnologicamente seja uma oportunidade incrível, até porque entre iguais. Novamente em campo o tal complexo de vira-lata, que tem alergia a tudo que possa significar soberania política, independência econômica e justiça social. Em 28/03 do ano passado, um editorial do Estadão se chamou “Mais encenação dos BRICS”, afirmando que se tratava de uma fantasia iniciada por Lula e continuada por Dilma e que só o Brasil tomava a frente na briga pela reforma do FMI.

Ainda bem que a vida é dura para esta turma, pois exatamente hoje começa a cúpula que tornará BRICS um bloco econômico de fato porque serão oficialmente sócios no Novo Banco de Desenvolvimento-NDB (aporte inicial de US$ 10 bi) e no Arranjo Contingente de Reservas-CRA (aporte de 150 bi, quase 2/3 do montante disponível no FMI). É o pior pesadelo do mundo para a direitona brava. Todavia, ao contrário de FMI e BIRD, o crédito das novas instituições não será vinculado à privatização, demissão de funcionários, corte de pensões, arrocho de salários, desemprego, juros altos e, sim, ao investimento social, em infraestrutura e ciência e tecnologia. Será o anti-Bretton Woods, expressando perfeitamente os caminhos postos para o mundo hoje.

Nunca, nos marcos do capitalismo, desde 1945, houve sequer uma tentativa consistente de se criar um sistema paralelo ao carcomido criado sob inspiração de Keynes (e deturpado pelos inimigos dele, epígonos da Escola de Chicago). Juntos, os BRICS não se contiveram no mimimi sempre ignorado quanto a reformar Bretton Woods e, com estas novas forças, haverá chance real é de transformar as próprias Nações Unidas. A Rússia já fala em apoiar o Brasil para a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Neste sentido, a cúpula é mais do que oportuna, uma vez que ocorre bem no momento em que a Argentina é acuada pela justiça estadunidense. Esta, ao arrepio do direito internacional, tenta impor a legislação americana à soberania dos argentinos em negociarem o pagamento de suas dívidas – a tal disputa contra os Fundos Abutres – num gesto desesperado – porém com perspectiva generalizante – do sistema financeiro internacional ante a sua perda crescente de poder político sob a batuta do G-7.

Agora, a intenção ganhou concretude. População, economia, poder militar, território, desenvolvimento tecnológico, conexão intrínseca com o processo de integração da América Latina, África e Eurásia se consolidam em uma institucionalidade alternativa e, como é uma sociedade, pode, formalmente, se ampliar. Aliás, a Argentina foi convidada especial para a reunião justamente para isso.

Este inédito fato, pode-se dizer, sem embargo, funda a Nova Ordem Mundial. Uma ordem plena de, como também dissera Caetano na canção citada no prelúdio deste artigo, não esperar pelo dia em que todos os homens concordem, mas sabedora de diversas harmonias possíveis sem juízo final.

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