Ainda sobre o Templo de Salomão Ayala: por Antonio Celso Ferreira

3 ago

Ainda sobre o Templo de Salomão Ayala:

Há quem pergunte porque essa implicância pelo fato de Dilma e todos os políticos terem ido à inauguração do templo fake. Por que não nos incomodamos tanto quando essas mesmas autoridades frequentam a Basílica de Aparecida ou quando Dilma vai ao papa?
Creio que nesse caso pode-se evocar o mesmo argumento usado por Zizek recentemente ao explicar porque a violência de Israel tanto nos incomoda. Para ele, o que a guerra contra Gaza mostra ao vivo e em tempo real é algo que nós havíamos jogado para o fundo na nossa inconsciência: a violência que preside o nascimento de todos os Estados.

Só que isso ficou para trás na maioria dos outros. Já nos esquecemos das atrocidades passadas. Iludidos com a democracia liberal, pensamos que a paz e harmonia estavam asseguradas. Nada disso, toda violência do passado não resolvido voltou com a força do que foi escondido, reprimido.


A construção do Templo Fake de Salomão também nos traz ao vivo a violência, o horror, a exploração da ignorância, a corrupção moral, econômica e política que presidiram a criação de todas as religiões do passado, de todos os templos.


Já estávamos acostumados com uma Igreja Católica domada por dois ou três séculos de iluminismo, de laicidade, de ciência, branqueada pelos pedidos de desculpa dos papas quanto à Inquisição e suas fogueiras. O catolicismo já ganhara a forma de ritual descarnado.

As manchas de sangue das toalhas cristãs já haviam sido lavadas com detergentes eficazes. Os templos cristãos viraram objetos estéticos da História da Arte, pontos de turismo. A violência foi sublimada pela Arte e pelo Mercado. E o próprio papa se tornou, afinal, a consciência culpada e angustiada de seu reino terminal.


Eis que de repente todo o horror retorna do fundo do corpo histórico, fake, cínico, kitschie, aterrador.
Não podemos responder a ameaça do retorno da intolerância religiosa simplesmente com o receituário liberal norte-americano da tolerância e do respeito à diversidade religiosa. Temos de conter esse mal, domá-lo como a Igreja Católica foi domada.

 

Antonio Celso Ferreira

Antonio Celso Ferreira

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