O mundo e o terrorismo midiático

7 set

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Por Dandara Lima, no site da UJS:

O terceiro encontro ComunicaSul aconteceu nessa quinta-feira (04) e contou com a presença do editor do Portal Vermelho, José Reinaldo Carvalho, e da jornalista do Opera Mundi, Marina Terra, debatendo a comunicação no cone sul e a interferência midiática no atuais conflitos pelo mundo.

José Reinaldo traçou um panorama dos conflitos atuais e sua relação com a função da mídia. Ele começou sua fala comentando o 100º aniversário da 1ª Guerra Mundial e o 75ª aniversário da 2ª Guerra, e como de tempos em tempos as potências políticas e econômicas semeiam conflitos, para exercer domínio sob riquezas naturais, combustível e rotas de comércio.

Segundo ele, a base de sustentação desses conflitos é a luta ideológica, através da propaganda, da mídia e da indústria cultural. Na medida em que os grandes veículos de comunicação se transformaram em grandes conglomerados capitalistas, que possuem laços com o capital financeiro, a luta ideológica se tornou unilateral, pois a diversidade de proprietários diminuiu.

“O monopólio nesse setor não é exclusivo do Brasil, no mundo inteiro existe meia dúzia de canais, agências de notícias, jornais impressos e estúdios cinematográficos que controlam esse setor. A notícia produzida hoje e distribuída para todo o mundo, possui o mesmo texto e uma só versão”, declara José Reinaldo.

Na medida em que chegamos nesse grau de unilateralidade podemos falar em terrorismo midiático. Temos uma só ideia fabricada cotidianamente e bombardeada pelo mundo sem contraponto. É a ditadura do pensamento único.

De acordo com ele, esse terrorismo se tornou uma das armas mais importantes da grande burguesia para exercer sua dominação e justificar suas guerras e as suas ações. O terrorismo midiático é a continuação do plano da luta de ideias das políticas imperiais.

“A arma principal dessa guerra midiática é a mentira. A mídia se transformou em uma usina de mentiras”, afirma José Reinaldo.

Para ele os principais eixos dessa usina são: 1) A exaltação do modelo econômico capitalista imperialista neoliberal como modelo ideal de funcionamento dos países e da economia; 2) A exaltação do modelo político da democracia burguesa como único modelo capaz de assegurar a democracia; e 3) A venda da ideologia burguesa e de seus teóricos como a única ideologia viável e a única capaz de assegurar as liberdades individuais.

Sendo uma usina da mentiras e estando a serviço da política de guerras do imperialismo, através do que ele chama de terrorismo midiático, a mídia fomenta crises contra regimes democráticos, golpes de estado contra governos progressistas, guerras, magnicídio (assassinato de presidentes), entre outras coisas.

Para fomentar esses conflitos a mídia possui o seguinte roteiro: 1) Demonização do presidente – começa a construir uma imagem de golpista, ditador, ou genocida (Venezuela, Cuba, Líbia, Síria, Ucrânia); 2) Apropriação de manifestações populares, inflando alguns grupos; 3) Criação de um ambiente favorável a uma operação militar, usando principalmente a questão de violação de direitos humanos.

O conflito Israel e Palestina obedece a esse roteiro. A mídia justifica o massacre a Gaza com a desculpa da “guerra ao terror”.

“Gaza é o maior campo de concentração do mundo, não entra água, comida ou remédios. As lideranças daquela região não iam assistir a isso de braços cruzados, e acabaram ganhando o título de terroristas pela mídia controlada pelo lobby imperialista sionista. O Hamas pode errar na metodologia, mas eles tem razão, estão defendendo o seu povo da ocupação e da violência de Israel”, declara José Reinaldo.

A construção da imagem do Oriente Médio como um local atrasado também seguiu esse roteiro.

Ele encerrou sua fala dizendo que nesse momento está em construção uma operação militar na Ucrânia.

“A população venezuelana não confia na mídia”

Marina Terra, jornalista do portal Opera Mundi falou sobre sua cobertura das eleições presidências venezuelanas do começo do ano, do golpe midiático de 2002, e do atual modelo de comunicação da Venezuela.

A Lei Orgânica de Telecomunicação da Venezuela foi aprovada em 2000. Na primeira eleição de Hugo Chávez, em 1998, 80% do espectro televisivo aberto era explorado por empresas privadas, atualmente com a aprovação e aplicação dessa lei, baixou para 60%.

O enfrentamento de Chávez contra o monopólio da comunicação levou ao golpe midiático de abril de 2002, instigado principalmente pelos canais RCTV e Globovision. De acordo com Marina, nessa época existia um programa de televisão que terminava com os apresentadores batendo em um boneco com o rosto de Hugo Chávez.

Ela contou também que a população não sabia o que estava acontecendo, os canais não davam notícias sobre Chávez. Grupos de pessoas se organizaram para distribuir panfletos, para avisar a população que Chávez não tinha renunciado, segundo ela “uma espécie de Twitter físico” e que deu certo.

Quando Chávez retorna ao poder ele continua enfrentando forte oposição midiática. Segundo ela, mesmo com os espaços recuperados com a Lei Orgânica, que permitiu a criação de veículos comunitários, há um conflito entre chavistas e oposição, o que se produz de informação é usado como munição, propaganda e contrapropaganda. De acordo com ela, após o golpe de 2002, a população venezuelana não confia na mídia.

“A grande trincheira escolhida pela mídia governista é a internet. Esse conflito entre o governo e os grupos econômicos que ainda controlam os veículos de comunicação não vai mudar tão cedo. Todas as tentativas de mudanças tiveram reações muito fortes”, afirma Marina.

Para ela os episódios de março e abril mostram esse quadro e a grande influência que a mídia internacional possui. As manifestações lideradas por Leopoldo López e o assassinato de algumas pessoas tiveram repercussão imediata nos jornais internacionais, inclusive com montagens de manifestações de outros países como se fossem na Venezuela.

“Tiveram episódios de você estar em algum local e ver pelo Twitter pessoas e jornais alegando que esse local estava pegando fogo, mas você está lá e o local está normal. Ficou muito claro que a matriz de desespero e de instabilidade foi produzida pelos meios de comunicação”, comenta Marina.

Ela conta também que era normal fotógrafos de veículos internacionais dirigirem as cenas, pedindo para a pessoa ajoelhar, abrir a bandeira, entre outras coisas. E que quando questionados sobre isso, contavam que tinham um roteiro para seguir.

* O encerramento dos Encontros ComunicaSul acontecerá na próxima quinta-feira, dia 11 de setembro, a partir das 19h no ECLA (Rua da Abolição, 244,Bixiga), e terá a apresentação da primeira parte do documentário “Batalha do Chile”, em memória dos 41 anos da morte de Salvador Allende, e depois discotecagem de Radio Maíz.

 

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