Arquivo | março, 2015

Propaganda dos EUA na Coreia: TV como ferramenta de “engenharia social”

28 mar

O policial Kim Heung-kwang e as fitas apreendidas

Quando a revista Wired publicou o artigo “Plano para libertar a Coreia do Norte (com cópias contrabandeadas de episódios do seriado Friends)”, a revista provavelmente contava com que seu público leitor, impressionável e politicamente ignorante, não captaria os fatos subjacentes e respectivas implicações, e leria ali apenas mais uma matéria “engraçadinha”, que cobriria de (mais) ridículo o país do leste da Ásia e reforçaria, naquele mesmo público leitor ignorante consumidor de Wired, a sensação de imorredoura superioridade cultural.

O que a revista não viu, claro, é que o programa divulgado por Wired como se fosse trabalho do “Centro Estratégico Coreia do Norte” e de seu fundador Kang Chol-hwan, 46 anos é, na verdade, organizado e financiado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Fato é que o Centro Estratégico Coreia do Norte trabalha em parceria muito íntima com o Gabinete de Direitos Humanos, Democracia e Trabalho do Departamento de Estado dos EUA, com a Rádio “Free Asia” da rede de propaganda do Departamento de Estado dos EUA e com a Dotação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy, NED), também do Departamento de Estado dos EUA, que é um verdadeiro departamento para “mudança de regime”, mantido pelos “500” de Wall Street da revista Fortune eexclusivamente a serviço dos interesses dos “500”.

Leitores da mais recente ação de propaganda paga pelos EUA e divulgada pela revista Wired tampouco viram que, se os seriados norte-americanos são considerados ferramentas para engenharia social na Coreia do Norte, eles também, muito provavelmente, são usados para a mesma finalidade de engenharia social também nos EUA.

A degradação da educação nos EUA, o esvaziamento da família, o enfraquecimento das comunidades locais versus a dominação cada vez mais uniformizante e centralizada, pelos grandes monopólios empresariais-financeiros – e o estado de vigilância e sua Polícia cada vez mais draconiana – são resultados diretos do mesmo processo.

Os “desinteressados” patrocinadores da NED…

Wired até admite, no artigo citado que:

Para Kang, os seriados são semelhantes à pílula vermelha de Matrix: tratamento para modificar a mente que tem o poder de estilhaçar um mundo de ilusões. “Quando os norte-coreanos assistem a Desperate Housewives, eles veem que os norte-americanos não são todos imperialistas obcecados por guerras –diz Kang – São simplesmente pessoas que têm negócios, que têm casos. Eles tomam conhecimento do que seja lazer, liberdade. Aprendem que nada disso os ameaça, que os norte-americanos não são o inimigo. Que o que veem é o que desejam também para eles. A experiência cancela tudo que eles tenham ouvido. E quando isso acontece, começa neles uma revolução mental.

Não há dúvidas de que convencer um povo inteiro a ser cada dia mais autista e autorreferente no plano moral, e mais degenerado no plano social, é altamente modificador de mentes, mas tem pouco, ou nada, a ver com a busca pela liberdade. A fragilidade que é disseminada entre as populações, ensinadas a burlar primeiro a própria família, depois a própria comunidade, é o correspondente “doméstico” de uma campanha militar-sociopolítica de “dividir para conquistar”.

Em comunidades locais incapazes de se auto-organizar, porque os próprios indivíduos são incapazes de viver em família ou em comunidade, é baixa a probabilidade de que brotem concorrentes capazes de ameaçar o status quo que Wall Street e Washington demarcaram.

Mais importante, a campanha de “dividir para conquistar” encoraja um determinado tipo de paradigma de consumo desenvolvido, aperfeiçoado e exclusivamente dominado por interesses ocidentais, que opera como retroalimentador do comportamento autista e autorreferente infindavelmente propagandeado pela mídia-empresa ocidental.

Kang Chol-hwan e George Bush

Na verdade, o Centro Estratégico Coreia do Norte não está trabalhando para “libertar” ninguém. Em vez disso, está trabalhando para encurralar os norte-coreanos, fazendo-os trocar uma gaiola por outra. Há quem argumente que a “outra gaiola” é mais confortável. Bobagem. Nenhuma gaiola será jamais confortável e nem se fosse confortabilíssima deixaria de ser gaiola.

Nada disso é feito para objetivos altruístas, mas, simplesmente, para “alistar” mais alguns milhões de seres humanos, de outra região do planeta, no mesmo paradigma de consumo globalizante de exploração, não sustentável, de Wall Street – paradigma que estrangula o meio ambiente, a sociedade e os seres humanos.

Como o tal Centro Estratégico Coreia do Norte poderia mostrar alguma “verdade” aos norte-coreanos, se não diz a verdade nem sobre quem o mantém e paga os salários dos seus “especialistas”?

Aí está também um paradigma de consumo que está sendo assumidamente construído e ampliado com dinheiro dos contribuintes norte-americanos, pelo Departamento de Estado dos EUA, cuja missão deveria ser a de representar o povo dos EUA e seus interesses legítimos, mas que, em vez disso, vive a impor os interesses de empresários e banqueiros dos EUA sobre outros povos, mediante truques de propaganda, onde possível; e por força militar, quando necessário.

O artigo publicado em Wired, como muitos outros que essa revista publica, foi escrito para gerar “pauta” dita “jornalística” de propaganda do que se pode chamar “colonialismo 2.0”: para dar aos leitores uma sensação de superioridade moral sobre os muitos inimigos que o ocidente “designa” para ele mesmo.

Divisa fortificada entre as Coreia do Norte e do Sul

Mas Wired nunca se refere ao papel do Departamento de Estado nessa específica campanha de propaganda. Isso mostra que não apenas os leitores “comuns” estão sendo manipulados, mas muitos “especialistas” e muitos “jornalistas” também estão sendo igualmente manipulados nessa campanha extraordinariamente desonesta. Será que a ação de Kang seria igualmente bem recebida pelos norte-coreanos, se eles fossem honestamente informados de que tudo aquilo é mantido e sustentado – que, na verdade, tudo aquilo foi inventado – pelo Departamento de Estado dos EUA?

Será que essa informação verdadeira, devidamente divulgada, confirmaria a opinião de Kang, de que os norte-coreanos seriam injustificadamente paranoicos, sempre temerosos de que os EUA apareçam para subverter, destruir e esmagar o país deles? Ou o fato de que Kang está integralmente a serviço dos EUA e de que seu trabalho é controlado e supervisionado pelo Departamento de Estado dos EUA exporia as mentiras que Kang usa para defender o próprio salário?

Verdade e transparência são indispensáveis a quem queira oferecer “liberdade” a outros. Gente mal informada ou desinformada não pode tomar decisões realmente consequentes sobre o próprio futuro. Se o crime da Coreia do Norte seria enganar o próprio povo sobre o mundo fora de suas fronteiras, nesse caso Kang e a campanha de propaganda do Centro Estratégico Coreia do Norte para mostrar-lhes o “mundo de verdade”, mas com ações pagas pelo Departamento de Estado dos EUA são, no mínimo, igualmente criminosos.

Como diz o ditado, dois erros não fazem um acerto (e, isso, só se alguém acreditasse que o Departamento de Estado dos EUA estaria tentando fazer alguma coisa certa).

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[*] Tony Cartalucci é pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

POSTADO POR CASTOR FILHO

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Que restará do império americano quando tiver chegado ao fim?

23 mar

Louis Wiznitzer, brasileiro, correspondente de jornais francófonos nos Estados Unidos, nos anos 1960 e 1970, gostava de citar uma frase que ficou famosa, atribuída ao membro dos Panteras Negras H. Rap Brown: “Este país nasceu da violência. A violência é tão norte-americana como a torta de maçã”, para explicar que os negros deveriam libertar-se da opressão por “todos os meios”, violentos ou não. Autor de biografia famosa, com o nome de Morra, Negro, Morra, H. Rap Brown foi condenado pela morte, no ano 2000, de um policial negro, Ricky Kinchen, e cumpre pena de prisão perpétua.

A violência encontra-se historicamente enraizada, no entanto, não apenas dentro da sociedade, mas também na relação da república dos Estados Unidos da América com outros países, e talvez seja essa a razão do fascínio que ela exerce naquela sociedade, na política e na cultura.

A violência também caracteriza o cinema típico norte-americano, das “séries” de TV aos westerns e filmes de gângster e de guerra, que retratam a relação da sua população com cada época, e a visão que ela tem de si mesma, e do restante do mundo. É o caso do filme American Sniper, campeão de bilheteria deste início de 2015, nos Estados Unidos, baseado em best-seller de Chris Kyle, um ex-membro de “forças especiais” na Guerra do Iraque.

Branco, cristão e republicano, incensado pelos radicais do Tea Party, Chris Kyle não foi, ironicamente, morto por um terrorista contrário às intervenções norte-americanas. Mas por um soldado compatriota, “branco” e “convencional”, o ex-marine Eddie Ray Routh, condenado também à prisão perpétua pela morte de Kyle e de outro ex-soldado, Chad Littlefield. Se a história de H. Rap Brown e de Ricky Kinchen reflete as contradições da luta pelos direitos civis e a questão racial, a de Chris Kyle, Chad Littelfield e Eddie Ray Routh é emblemática da espetacularização e “patriotização” das relações exteriores norte-americanas.

Em seu livro American Sniper, Chris Kyle afirma ter matado, no Iraque, 160 pessoas, entre elas uma mulher que carregava em um braço uma criança e, no outro, uma granada. Seria herói o invasor que atira contra uma mulher que protege sua pátria, e coloca em risco a vida do próprio filho? Em tempos em que as crianças aprendem a matar em jogos de computador, nunca é demais lembrar que, por mais eficaz que seja militarmente, o sniper é basicamente um covarde, combate de longe, em condição de desigual vantagem contra o inimigo.

Por essa razão, para nossa geração, o maior sniper da história continuará sendo não o herói de American Sniper, o “O Diabo de Rahmadi”, mas Vassili Zaitsev, o soviético que matou 242 soldados e oficiais alemães na Batalha de Stalingrado. Camuflado em uniforme branco, que naquele inverno de 1942 se confundia com a neve, e armado com um rifle Mosin-Nagant com mira telescópica, Zaitsev matou soldados aos quais se opunha ideologicamente, que haviam, com armas potentes e modernas, invadido o seu país, e que ao sair do território da União Soviética, escorraçados e perseguidos pelo Exército Vermelho, deixaram rastro de tortura, estupros e 20 milhões de mortos, a imensa maioria civis.

No Antigo Testamento, Jeová pede a Moisés que grave, nas Tábuas da Lei, em quinto lugar, um mandamento que deveria ter sido o primeiro. Afinal, se Deus fez o Homem à sua imagem e semelhança, a melhor maneira de amá-lo sobre todas as coisas é amar e respeitar o Deus que reside nos outros seres humanos. “Não matarás”, poderiam dizer alguns, talvez, a não ser que o faças quando em defesa da tua pátria.

Chris Kyle, que afirma ter “cumprido seu dever”, matou 160 seres humanos não para defender seus filhos, seu sangue, ou a sua terra, mas sob uma desculpa hipócrita, de que havia armas de destruição em massa no Iraque, nunca encontradas até hoje. Ferido no final da guerra por um morteiro, o capitão Vassili Zaitsev, que depois trabalhou em uma fábrica, nunca foi atingido por outro soldado russo. Morreu em 1991, em sua cama.

por Mauro Santayana publicado 21/03/2015 10:58

O jornal anti-nacional exibido à noite pela Tevê Globo

20 mar

reprodução

Não há rede de televisão no mundo mais contrária a iniciativas diplomáticas abertas pelo seu país. Por lá, só o que é americano é que é bom.

J. Carlos de Assis

Em artigo anterior expus os vícios praticados pelos noticiaristas e comentaristas da Globo na cobertura distorcida do noticiário nacional. Agora vou acabar o serviço fazendo uma análise sumária do noticiário internacional. Este é o campo preferido de William Waack, onde, com seus esgares característicos, ele nada de braçadas, ora vocalizando os interesses do Departamento de Estado americano, ora fulminando com a política de integração sul americana iniciada na gestão de Lula e aprofundada no governo Dilma.
 
As duas mais brilhantes conquistas da diplomacia brasileira há décadas, a construção da Unasul e o apoio decidido à organização dos BRICS, pareceram à Globo um passo insignificante ou nulo para os interesses brasileiros objetivos. Por puro viés ideológico, ela desmereceu o momento político mais positivo da região, em décadas, criado por afinidades democráticas entre os presidentes da América do Sul. E relegou a Arnaldo Jabor a tarefa de caracterizar a Unasul como uma entidade ideológica esquerdista e insignificante.
 


A motivação óbvia é o descompasso potencial entre Unasul e os interesses norte-americanos, defendidos diligentemente por Jabor, algo que ficou ainda mais explícito com a organização dos BRICS. Neste caso, ao interesse econômico concreto, a diplomacia brasileira adicionou um aspecto adicional geoeconômico e geopolítico, tendo em vista a aproximação política do Brasil com a China e, principalmente, com a Rússia – o grande rival nuclear pós-Guerra Fria dos Estados Unidos no plano mundial. A atitude da Globo aqui não foi principalmente de oposição mas de omissão ou desmerecimento.
 
Talvez o fato mais significativo em outro nível, a subserviência da Globo à política racista americana pró-Israel e contra os muçulmanos, tenha sido a cobertura pela tevê da iniciativa do Governo Lula no sentido de uma solução para a questão nuclear iraniana. Com prévio conhecimento de Obama, Brasil e Turquia propuseram um caminho ao Irã e aos Estados Unidos para se chegar a um acordo aceitável para as partes. Israel ficou contra, e obrigou os Estados Unidos a voltarem atrás e abortar a iniciativa. Obama se comportou, portanto, como um mau-caráter servil aos belicistas, e o Jornal de Waack tomou o lado dos belicistas.
 
A Globo regozijou-se com o mau resultado da legítima tentativa do Brasil, como membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, de tentar ajudar no encaminhamento pacífico do mais prolongado e difícil conflito no mundo contemporâneo. O comentarista Arnaldo Jabor festejou o que teria sido um monumental fracasso brasileiro, condenando publicamente a interferência de Lula num jogo político que lhe parecia ser destinado exclusivamente aos “grandes”. Não houve uma única referência ao fato de que, pela primeira vez nas negociações dos Estados Unidos (ou, como querem, do “ocidente”) com o Irã, chegou-se muito próximo de um acordo por uma audaciosa e oportuna intervenção brasileira e turca, quebrando o gelo das negociações.
 


Não posso imaginar nenhuma televisão no mundo que se coloque tão abertamente contra iniciativas diplomáticas abertas de seu país, em especial quando se trata de iniciativas de paz, como a rede Globo. Claro, para Waack e Jabor mais vale uma gracinha na mão que um noticiário responsável voando.  A parcialidade em favor da direita anti-palestina de Israel, assim como da direita norte-americana salta à vista. No caso do Irã, assim como foi anteriormente no caso do Iraque, o interesse norte-americano vem descaradamente coberto por um ente de razão chamado “ocidente”, como se houvesse uma real coligação de países ocidentais coordenados pelo hegemon decadente. O que se tem, hoje, na Europa é apenas medo da pressão diplomática e econômica norte-americana.
 
Não fossem a internet e as redes sociais, jamais saberíamos que o avião derrubado na Ucrânia o foi provavelmente por forças radicais do governo de Kiev, e não pelos insurgentes russófilos; que o assassinato de Allende foi orquestrado pelo Departamento de Estado; que o golpe brasileiro teve o patrocínio direto americano; que a direita belicista israelense sequestrou corações e mentes americanas; que o noticiário vindo dos Estados Unidos está contaminado por uma visão parcial da história mediante o controle direto pelo aparato de informação da notícia distribuída pelas agências.
 
Os repórteres da Globo enviados para o exterior, com raríssimas exceções – posso citar Renato Machado, com medo de prejudicá-lo no meio da mediocridade e da negatividade -, absorvem a cultura local pela ótica norte-americana, e não pela brasileira. Em matéria de política e de economia o que vale é o que agrada o Tio Sam. Em geral, são mal formados, porque a Globo dá atenção máxima à forma, não ao conteúdo. De qualquer modo, as meninas bonitas da Globo defendem suas promoções seguindo rigorosamente a cartilha de direita extremada da emissora.
 
Conheci Waack décadas atrás, na cobertura de uma reunião dos Sete Grandes em Bonn, na Alemanha. Na época, a cobertura política tinha total precedência sobre a econômica, pois o neoliberalismo ainda não estava plenamente instalado no mundo.  Waack se revelou contente de me entregar a parte econômica da cobertura porque, dizia ele, não sabia nada de economia. Fiz minha parte. Testemunhei o que foi a completa capitulação da França e da Itália socialistas ao credo neoliberal defendido por Reagan e Thatcher no comunicado final. Claro, Waack e a maioria dos jornalistas políticos não tiveram ideia do que estava acontecendo.
 
Como isso aconteceu em 1985, teria bons motivos para acreditar que, desde então, aprendera alguma coisa de economia. Não é, porém, o que revela nos comentários. Na verdade, ele trava uma tremenda guerra com Jabor, outro fundamentalista da superficialidade, para saber qual dos dois é o mais raivoso, mais insolente, mais anti-nacional. A propósito, Waack fez uma longa pesquisa militar na Alemanha e na Itália para produzir um livro em que pretendeu demonstrar cabalmente que a FEB fez verdadeiro fiasco na Segunda Guerra, e que Monte Castelo foi um vexame. Bons, mesmo, verdadeiros heróis foram os norte-americanos!
 

J. Carlos de Assis

*Jornalista, economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, entre os quais “A Razão de Deus”.

Vocês que vestiram verde e amarelo ontem me envergonham. por Plinio Zúnica

18 mar

Vocês que vestiram verde e amarelo ontem me envergonham.

Ontem, amigos, conhecidos e parentes apoiaram a maior imbecilidade que eu já vi. Não é questão de ser contra o governo, porque, francamente, existem milhares de pontos a serem altamente criticados na Dilma sim.

A questão é que vocês não fazem a menor ideia do que estão criticando. Eu não apoio o que tem sido o governo Dilma, mas sei escolher as minhas bandeiras e com quem me misturo.

Eu tive dezenas de conversas com gente de todo o tipo nos últimos meses, e o ponto em comum é que a maioria das pessoas não faz ideia do que reclamar. Falam de uma corrupção que não sabem o que é, não sabem diferenciar o que é uma presidenta da Republica do que é uma rainha absolutista, não fazem ideia do que são as atribuições de cada esfera do governo.

Gente que não conhece história, que não sabe o que foi o Collor,que não sabe o que foi a ditadura, que não sabe o que foi a era FHC, que não entende os programas mais simples e básicos do governo do PT.

Gente botando a culpa até dos serviços de telefone nas costas da Dilma. Gente que se informa por memes burros de Facebook, que acredita no Revoltados On Line, que ouve o que dizem e dá poder para escrotos como o Lobão, Danilo Gentili, Silas Malafaia, Jair Bolsonaro, Paulinho da Força.

Gente que tem medo da “Ameaça Comunista”, que acha de verdade que o PT tá tentando transformar o Brasil em Cuba. Gente que repete os chavões burros de “bolsa esmola”, “bolsa bandido”.

Que acha que a corrupção do país vem toda do PT, e que não é capaz de fazer os raciocínios mais basais sobre as porcarias que afirmar. gente que protesta contra a corrupção usando uma camisa da CBF, cara!!! Cadê o senso de ridículo de vocês???

Gente que é burra o suficiente pra falar que o PT faz o Brasil passar fome. De todos os argumentos, acho que esse é um dos mais imbecis. Pode-se criticar o PT por muita coisa, mas falar sobre fome é de uma boçalidade impressionante.

Vocês, meus amigos, conhecidos e parentes, podem ter a melhor das intenções, mas estavam hoje marchando numa micareta com milhares de pessoas que pediam claramente a volta da ditadura militar.

Vocês fizeram coro com gente carregando suásticas, enforcando bonecos da Dilma e do Lula, carregando cartazes com dizeres de puro ódio e violência. Vocês marcharam ao lado de gente com um cartaz de “Femicídio sim!” (qualquer pessoa que tenha visto essa foto e não tenha ficado enjoado é um imbecil).

Vocês juntaram sua voz com o que há de mais podre na sociedade. Deram poder pra gente como os revoltados On Line, Lobão, Danilo Gentili, Coronel Telhada, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, TV Globo.

Vocês choraram pateticamente ao som do hino nacional, se enrolaram em bandeira, caíram na ladainha nacionalista que é a base dos fundamentalismos modernos, e fizeram isso ao lado de centenas de cartazes pedindo pela intervenção militar.

Teve até um dos grupos mais acéfalos e míopes da esquerda universitária lançando um panfletinho safado pedindo que os grupos de esquerda se unissem ao coro da demência.

Gente que vive num mundinho de revolução vila-madalena e tem uma capacidade de avaliação política pífia. Uma galera muito boa de pintar kraft bonito e muito ruim de juntar 2+2. Não interessa qual foi a intenção de vocês. O que vocês fazem, com sua ignorância política e histórica, é dar força para os fundamentalistas religiosos, para os militares, para os assassinos da polícia, para grupos que pregam a violência contra mulheres, que promovem a perseguição de gays, lésbicas e transexuais, que alimentam o racismo, machismo, elitismo e homofobia.

É um erro grande da Esquerda achar que esse é um movimento feito só por grupos de elite. A ideologia é da elite, os interesses são da elite, o dinheiro é da elite, os porta-vozes são da pior das elites, mas essa ideologia é ardilosa o suficiente pra infectar as mentes de todas as camadas sociais.

É uma ideologia baseada em medo, ódio e ignorância, e infelizmente esses elementos têm uma força de mobilização muito poderosa, mais do que a razão e a solidariedade.

Não fosse assim, teria sido o movimento hippie a dominar o mundo, e não ideologias fascistas, imperialistas, colonialistas, eugenistas e elitistas.

Não subestimem o poder do ódio, do medo e da ignorância. Não faltam exemplos do estrago que eles são capazes de fazer nas pessoas mais bem intencionadas. Ontem foi um dia muito, muito triste.

Sabedoria Indigena.

Há dois lobos lutando no coração do homem. Um é o Amor, o outro é o ódio. Quem vence ? Aquele que é mais alimentado! 

Cerca de 35% dos norte-americanos sobrevivem à base do vale-alimentação

10 mar

Segundo a Feeding America, o fim do subsídio ao vale-alimentação afetará, principalmente, a população infantil.

Os números oficiais do governo norte-americano mostram também que pelo menos 49,5% da população dos EUA recebeu algum tipo de subsídio para sobreviver até 2012. Alguns desses subsídios retirados pelo Congresso em 2013.

Via Telesur

Na semana passada, foi divulgado nos EUA um estudo revelando que, até 2012, 34,5% da população norte-americana recebeu o vale-alimentação do governo para poder sobreviver. De acordo com a estatística, pelo menos, 109,6 milhões de pessoas foram beneficiados com esse programa.

Por outro lado, o número de pessoas que receberam alguma ajuda de programas sociais do governo norte-americano – incluindo os subsídios aos desempregados e aos veteranos de guerra – totalizou 154 milhões, o que equivale a 49,5% da população.

Estes planos, que são oferecidos aos setores menos favorecidos da sociedade – hispânicos e afro-americanos em sua maioria –, foram afetados significativamente em 2013 quando os republicanos bloquearam no Congresso o vale-alimentação que viria da Lei Agrícola. Segundo estimativas da organização Feeding America, a medida coloca em condição de insegurança alimentar cerca de 17 milhões de crianças.

Fim da compaixão ? por Renato Janine Ribeiro

10 mar

Na terça-feira, dois relatos me surpreenderam. Um eu li no Facebook, replicado centenas de vezes: a jornalista Neli Pereira, da BandNews, dizia ter sido mal atendida por um médico do Hospital Sírio Libanês. Contou que ele usou o tempo de consulta para sugerir que consultasse um colega, a quem ela pagaria R$ 700 pelo atendimento, e encerrou a conversa pedindo para participar do programa de rádio dela.

Outro, todos vimos nos jornais: a forma como o ex-ministro Guido Mantega, que estaria levando a mulher para se tratar de câncer no Hospital Israelita Albert Einstein, foi ofendido na lanchonete do mesmo, a ponto de ter que se retirar. A coincidência é que essas condutas indesculpáveis ocorreram em dois hospitais top de linha de São Paulo.
Mas o chocante mesmo é que ambientes que deveriam ser de acolhida, de cuidado, foram poluídos, num caso, pela ganância, no outro, pelo desdém pelo sofrimento alheio.

Estaremos vivendo o fim da compaixão? Ninguém vai a um hospital para se divertir. É um lugar onde a maior parte se dirige preocupada, quase sempre adoentada e com sintomas desagradáveis. Um hospital, mais que isso, por vezes respira morte.
O câncer, de que sofre a mulher do ex-ministro, é doença de difícil e doloroso tratamento, embora a cura seja cada vez mais frequente. Nesses lugares se espera tudo, menos agressão. Na primeira narrativa, o médico falta com a ética mais elementar de sua profissão; mais que isso, com o respeito devido a um ser humano.

Pode alguém escolher um ofício da saúde, para usar as palavras de um médico no filme Montenegro (1981), de Markavejev, porque “só lhe interessa o dinheiro”? Sem dúvida, o caso narrado tem de ser exceção entre milhares de médicos, mas infelizmente só reforça o descontentamento com eles – e juízes (mas esse desprestígio de duas das três grandes profissões tradicionais – a terceira são os engenheiros – seria assunto para outro momento). Minorias podem impopularizar uma profissão. Esse caso precisa ser apurado pelo hospital e pelo Conselho de Medicina.

Os insultos na lanchonete do Einstein causaram mais polêmica. Deixemos de lado a questão da presença, ou não, de médicos na turba mal-educada. Cabe lembrar que um lugar dedicado à saúde deve ter caráter quase de santuário. Sempre foi tradição, no Brasil, não falar mal de mortos, pelo menos por ocasião da morte.

Essa praxe pode ter raiz em alguma superstição, mas consiste – ou consistia – na convicção de que há um limite para todas as pendências e conflitos que tenhamos em vida. Tudo é transitório, “é pó”, como diz a religião cristã. Não é o medo de que o cadáver venha nos puxar pelo pé no meio da noite.

É a crença de que a morte põe termo a todas as vaidades humanas. Vaidade é um termo com dois sentidos, que se ilustram e complementam. Refere-se ao vaidoso, à pessoa exibida, que se considera especial, superior aos outros – o que, numa sociedade democrática, tende a ser intolerável. Mas também se refere ao que é vão, inútil, ocioso, ao que dá em nada. You’re So Vain, a música de Carly Simon (1972), joga com os dois sentidos, que por sinal em inglês são dados por uma palavra só: “Você é tão vaidoso / Você o que faz é tudo em vão / De que adianta ser tão besta…”.
A morte põe fim a isso tudo. Por isso, os lugares da morte são lugares de respeito. Não se imagina ofender alguém num cemitério, no velório, na missa pelas almas. Isso se estende ao lugar de fragilidade que é o hospital, o posto de saúde, a unidade básica. Instauramos um cessar-fogo em meio às guerras do cotidiano. Recordo expressões como salvo-conduto, suspensão de hostilidades, trégua.

Nesses lugares, não devemos enfatizar o que nos divide. Médicos de países em conflito armado atendem aos feridos do inimigo – assim ordenam as leis de guerra. Em combate, podemos, talvez devamos, matar o inimigo; mas, quando ele é aprisionado ou se rende, da inimizade só restam o direito de mantê-lo preso e a obrigação de alimentá-lo, tratá-lo, resguardá-lo. Isso foi violado na lanchonete do hospital.
Há gente que trata aqueles de quem discorda como se estivéssemos em guerra civil. Pior que isso: porque, como afirmei, a doença ou a desvalia implicam uma bandeira branca. Nem mesmo isso está sendo respeitado. Fiquei horrorizado com certas manifestações de facebookers e de leitores de jornais. Um dizia que o PT tem que ser tratado à bala. É uma clara degradação do espaço político em território de guerra. É esquecer que a construção do Estado consiste, antes de mais nada, na substituição da guerra pelas palavras, da matança pela convivência.

Gente que diz isso passa o atestado de que não está preparada para o convívio no Estado de Direito. Quem defende o assassínio é criminoso. Pena que o Brasil seja tão leniente com o crime.
Há dois pontos finais a assinalar. Começo pela compaixão. Recentemente, num debate com psicanalistas lacanianos, eles a criticaram. Afirmam que há uma cumplicidade ruim entre quem sente pena do outro e aquele que se vitimiza.

Assim se forma uma situação viciada da qual não se sai. Mas essa ideia, embora correta em seu enunciado, parte de um equívoco quanto ao que compaixão significa. Compaixão não é ter pena. Não é dar esmola. Não é manter o outro no estado de dependência.

A compaixão, a “piedade” de Jean-Jacques Rousseau, é a reação, quase instintiva, que nos faz sofrer junto a qualquer ser vivo que sofra. Como bem observa Lévi-Strauss, ela vai além do mundo humano: abrange os animais (penso que hoje se pode discutir se chegaria também aos vegetais; a jovem lapsariana do filme Um Lugar Chamado Notting Hill diria que sim). Ela realiza a ideia de John Donne: “Nenhum homem é uma ilha isolada; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Não é o atendimento no varejo, que meus amigos criticavam: é uma postura diante da sociedade, mesmo da vida. Compaixão, mais que dar esmolas, envolve lutar pela supressão da pobreza e da miséria. Não é só cuidar de um cão machucado; é – no mínimo – lutar pela morte sem dor dos animais que comemos. Para vários, é também recusar-se a comer cadáveres, mesmo de animais não pensantes.
Ora, o que mostram esses episódios que dessacralizam os templos do cuidado é que está se desvalorizando o respeito ao sofrimento. Parece que regredimos a antes de Rousseau. Até o século 18, o grande espetáculo de mídia eram os suplícios em público, em alguns casos, precedidos de demorada tortura. Até a década de 1930, se enforcava ou guilhotinava na praça. Fizemos bem em substituir esses shows pela televisão, mas muita gente ainda quer dar vazão a essa barbárie, ao anseio de matar, destruir, fazer sofrer.

Gostemos ou não, é mais frequente esse tipo de desrespeito ocorrer contra petistas e esquerdistas do que contra tucanos ou direitistas. Isso significa que ações de desrespeito são mais cometidas pela direita do que pela esquerda. Esse ponto deveria chamar nossa atenção como educadores. Uma parte de nossa sociedade, mesmo tendo dinheiro, está sendo mal-educada. Não respeita os princípios do convívio social, a ponto de violar o último bastião do respeito, o silêncio perante a dor ou sofrimento alheio. Era o refúgio da humanidade. Parece que nem isso.
Assim, há quem substitua a vida em sociedade pela guerra de todos contra todos. Os desrespeitosos da lanchonete justificarão o que fizeram acusando o ex-ministro de criminoso. Mas todo país que entra em guerra alega isso. Acredita quem for bobo. Na 1ª Guerra Mundial, quantos não ficavam chocados de saber que, depois de uma vitória alemã, os bispos germânicos rezavam um Te Deum – e o mesmo faziam os franceses após uma vitória de seu país? Como se Deus fizesse guerra. O mesmo vale quando se proclama um lado inteiro como criminoso.
Há um problema no modo como a oposição conduziu nestes anos a discussão política no Brasil. Ela a reduziu a uma crônica policial. Em vez de construir projetos alternativos de qualidade – e poderia, sim, ter proposto para o País coisa melhor do que o PT fez, ou pelo menos coisa boa, que preservasse as conquistas sociais do petismo e promovesse por exemplo o pequeno empreendedor -, limitou-se a torcer para que polícia, promotores e juízes fizessem o trabalho que ela não conseguia ou não queria fazer.

O resultado é que parte significativa da população, em alguns poucos Estados, como São Paulo, criminalizou a simples simpatia pelo PT.
Isso traz uma consequência preocupante: quando o outro lado é visto como criminoso, é claro que não pode ser tratado com respeito. Uma coisa é reconhecer a vitória eleitoral de um adversário, outra a de um inimigo. Ora, se o adversário é pintado como ladrão, ele se torna inimigo. Isso deslegitima, aos olhos de uma parte minoritária, mas falante da população, o próprio processo eleitoral – e a própria democracia. Voltam alguns a querer a intervenção cirúrgica dos militares, para que rapidamente sanitizem o ambiente e o deixem pronto para os homens de bem exercerem o poder. É um 1964 redivivo, com a diferença de que os militares não querem mais esse papel, os empresários serão malucos se trocarem Joaquim Levy por uma aventura de tal ordem e a embaixada norte-americana certamente não quer criar problemas novos para seu país. No pequeno varejo das lanchonetes, das praças de alimentação, das filas de cinema e de supermercado, isso pode tornar impossível o convívio entre diferentes. Perde quem só frequenta seus próprios clones e não saboreia a diversidade de opiniões e valores.

DILMA ROUSSEFF, PRESIDENTA DO BRASIL, PAÍS MEMBRO DO GRUPO BRICS, É O PRÓXIMO ALVO DE WASHINGTON

3 mar

O artigo BRICS’ Brazil President Next Washington Target foi nos EUA em novembro. Mas a sua atualidade faz a gente reproduzir ele aqui no Blog.
DILMA ROUSSEFF, PRESIDENTA DO BRASIL, PAÍS MEMBRO DO GRUPO BRICS, É O PRÓXIMO ALVO DE WASHINGTON

Publicado no “NEO – New Eastern Outlook”. Escrito por F. William Engdahl, norte-americano, engenheiro (Princeton) e pós-graduado em economia comparativa (Estocolmo). Transcrito no “Patria Latina” com tradução de Renato Guimarães para a “Vila Vudu” e republicado do Blog Democracia e Política

BRICS’ Brazil President Next Washington Target
“O porquê do terceiro turno…
Para ganhar o segundo turno das eleições contra o candidato apoiado pelos Estados Unidos, Aécio Neves, em 26 outubro de 2014, a presidenta recém-reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, sobreviveu a uma campanha maciça de desinformação do Departamento de Estado estadunidense. Não obstante, já está claro que Washington abriu uma nova ofensiva contra um dos líderes chave dos BRICS, o grupo não alinhado de economias emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Com a campanha de guerra financeira total dos Estados Unidos para enfraquecer a Rússia de Putin e uma série de desestabilizações visando a China, inclusive, mais recentemente, a “Revolução dos Guarda-Chuvas” financiada pelos Estados Unidos em Hong Kong, livrar-se da presidente “socialmente propensa” do Brasil é uma prioridade máxima para deter o polo emergente que se opõe ao bloco da Nova (des)Ordem Mundial de Washington.

A razão por que Washington quer se livrar de Rousseff é clara. Como presidente, ela é uma das cinco cabeças do BRICS que assinaram a formação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com capital inicial autorizado de 100 bilhões de dólares e um fundo de reserva de outros 100 bilhões de dólares. Ela também apoia uma nova Moeda de Reserva Internacional para complementar e eventualmente substituir o dólar. No Brasil, ela é apoiada por milhões de brasileiros mais pobres, que foram tirados da pobreza por seus vários programas, especialmente o Bolsa Família, um programa de subsídio econômico para mães e famílias da baixa renda. O Bolsa Família tirou uma população estimada de 36 milhões de famílias da pobreza através das políticas econômicas de Rousseff e de seu partido, algo que incita verdadeiras apoplexias em Wall Street e em Washington.
Líderes dos países BRICS

Apoiado pelos Estados Unidos, seu rival na campanha, Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), serve aos interesses dos magnatas e de seus aliados de Washington.

O principal assessor econômico de Neves, que se tornaria Ministro da Fazenda no caso de uma presidência de Neves, era Armínio Fraga Neto, [cidadão norte-americano e brasileiro] amigo íntimo e ex-sócio de Soros e seu fundo hedge “Quantum”. O principal conselheiro de Neves, e provavelmente seu Ministro das Relações Exteriores, tivesse ele ganhado as eleições, era Rubens Antônio Barbosa, ex-embaixador em Washington e hoje Diretor da ASG em São Paulo.

A ASG é o grupo de consultores de Madeleine Albright, ex-Secretária de Estado norte-americana durante o bombardeio da Iugoslávia em 1999. Albright, dirigente do principal grupo de reflexão dos Estados Unidos, o “Conselho sobre Relações Exteriores”, também é presidente da primeira ONG da “Revolução Colorida” financiada pelo governo dos Estados Unidos, o “Instituto Democrático Nacional” (NDI). Não é de surpreender que Barbosa tenha conclamado, numa campanha recente, o fortalecimento das relações Brasil-Estados Unidos e a degradação dos fortes laços Brasil-China, desenvolvidos por Rousseff na esteira das revelações sobre a espionagem norte-americana da Agência de Segurança Nacional (NSA) contra Rousseff e o seu governo.

Surgimento de escândalo de corrupção

Durante a áspera campanha eleitoral entre Rousseff e Neves, a oposição de Neves começou a espalhar rumores de que Rousseff, que até então jamais fora ligada à corrupção tão comum na política brasileira, estaria implicada num escândalo envolvendo a gigante estatal do petróleo, a Petrobras. Em setembro, um ex-diretor da Petrobras alegou que membros do governo Rousseff tinham recebido comissões em contratos assinados com a gigante do petróleo, comissões essas que depois teriam sido empregadas para comprar apoio congressional. Rousseff foi membro do conselho de diretores da companhia até 2010.

Agora, em 2 de novembro de 2014, apenas alguns dias depois da vitória arduamente conquistada por Rousseff, a maior firma de auditoria financeira dos Estados Unidos, a “Price Waterhouse Coopers” se recusou a assinar os demonstrativos financeiros do terceiro trimestre da Petrobras. A PWC exigiu uma investigação mais ampla do escândalo envolvendo a companhia petrolífera dirigida pelo Estado.


Dilma Rousseff

A Price Waterhouse Coopers é uma das firmas de auditoria, consultoria tributária e societária e de negócios mais eivadas de escândalos nos Estados Unidos. Ela foi implicada em 14 anos de encobrimento de uma fraude no grupo de seguros AIG, o qual estava no coração da crise financeira norte-americana de 2008. E a Câmara dos Lordes britânica criticou a PWC por não chamar atenção para os riscos do modelo de negócios adotado pelo banco “Northern Rock”, causador de um desastre de grandes proporções na crise imobiliária de 2008 na Grã-Bretanha, cliente que teve que ser resgatado pelo governo do Reino Unido.

Intensificam-se os ataques contra Rousseff, disso podemos ter certeza.

A estratégia global de Rousseff

Não foi apenas a aliança de Rousseff com os países dos BRICS que fez dela um alvo principal da política de desestabilização de Washington. Sob seu mandato, o Brasil está agindo com rapidez para baldar a vulnerabilidade à vigilância eletrônica norte-americana da NSA.

Dias após a sua reeleição, a companhia estatal Telebras anunciou planos para a construção de um cabo submarino de telecomunicações por fibra ótica com Portugal através do Atlântico. O planejado cabo da Telebras se estenderá por 5.600 quilômetros, da cidade brasileira de Fortaleza até Portugal. Ele representa uma ruptura maior no âmbito das comunicações transatlânticas sob domínio da tecnologia norte-americana. Notadamente, o presidente da Telebras, Francisco Ziober Filho, disse numa entrevista que o projeto do cabo será desenvolvido e construído sem a participação de nenhuma companhia estadunidense.

As revelações de Snowden sobre a NSA em 2013 elucidaram, entre outras coisas, os vínculos íntimos existentes entre empresas estratégicas chave de tecnologia da informática, como a “Cisco Systems”, a “Microsoft” e outras, e a comunidade norte-americana de inteligência. Ele declarou que:

“A questão da integridade e vulnerabilidade de dados é sempre uma preocupação para todas as companhias de telecomunicações”.

O Brasil reagiu aos vazamentos da NSA periciando todos os equipamentos de fabricação estrangeira em seu uso, a fim de obstar vulnerabilidades de segurança e acelerar a evolução do país rumo à autossuficiência tecnológica, segundo o dirigente da Telebras.

Até agora, virtualmente todo tráfego transatlântico de TI encaminhado via costa leste dos Estados Unidos para a Europa e a África representou uma vantagem importante para espionagem de Washington.


Espionagem! O Expresso está 100 por cento sob nosso controle.

Se verdadeiro ou ainda incerto, o fato é que sob Rousseff e seu partido o Brasil está trabalhando para fazer o que ela considera ser o melhor para interesse nacional do Brasil.

A geopolítica do petróleo também é chave

O Brasil também está se livrando do domínio anglo-americano sobre sua exploração de petróleo e de gás. No final de 2007, a Petrobras descobriu o que considerou ser uma nova e enorme bacia de petróleo de alta qualidade na plataforma continental no mar territorial brasileiro da Bacia de Santos. Desde então, a Petrobras perfurou 11 poços de petróleo nessa bacia, todos bem-sucedidos. Somente em Tupi e em Iara, a Petrobras estima que haja entre 8 a 12 bilhões de barris de óleo recuperável, o que pode quase dobrar as reservas brasileiras atuais de petróleo. No total, a plataforma continental do Brasil pode conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo, transformando o país numa potência de petróleo e gás de primeira grandeza, algo que a Exxon e a Chevron, as gigantes do petróleo norte-americano, se esforçaram arduamente para controlar.

Em 2009, segundo cabogramas diplomáticos norte-americanos vazados e publicados pelo Wikileaks, a Exxon e a Chevron foram assinaladas pelo consulado estadunidense no Rio de Janeiro por estarem tentando, em vão, alterar a lei proposta pelo mentor e predecessor de Rousseff em seu Partido dos Trabalhadores, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, ou Lula, como ele é chamado.[Foi revelado pelo Wikileaks que José Serra, o então candidato do PSDB que competia contra Dilma pela presidência, prometera confidencialmente à Chevron que, se eleito, afastaria a Petrobras do pré-sal para dar espaço às petroleiras estadunidenses].

Essa lei de 2009 tornava a estatal Petrobras operadora-chefe de todos os blocos no mar territorial. Washington e as gigantes estadunidenses do petróleo ficaram furiosos ao perderem controles-chave sobre a descoberta da potencialmente maior jazida individual de petróleo em décadas.


Dilma Rousseff e Joe Biden

Para tornar as coisas piores aos olhos de Washington, Lula não apenas afastou a Exxon Mobil e a Chevron de suas posições de controle em favor da estatal Petrobras, como também abriu a exploração do petróleo brasileiro aos chineses. Em dezembro de 2010, num dos seus últimos atos como presidente, ele supervisionou a assinatura de um acordo entre a companhia energética hispano-brasileira Repsol e a estatal chinesa Sinopec. A Sinopec formou uma joint venture, a Repsol Sinopec Brasil, investindo mais de 7,1 bilhões de dólares na Repsol Brasil. Já em 2005, Lula havia aprovado a formação da Sinopec International Petroleum Service of Brazil Ltd, como parte de uma nova aliança estratégica entre a China e o Brasil, precursora da atual organização do BRICS.

Washington não gostou

Em 2012, uma perfuração conjunta, da Repsol Sinopec Brazil, Norway’s Stateoil e Petrobras, fez uma descoberta de importância maior em Pão de Açúcar, a terceira no bloco BM-C-33, o qual inclui Seat e Gávea, esta última uma das 10 maiores descobertas do mundo em 2011. As maiores [empresas] do petróleo estadunidenses e britânicas absolutamente sequer estavam presentes.

Com o aprofundamento das relações entre o governo Rousseff e a China, bem como com a Rússia e com outros parceiros do BRICS, em maio de 2013, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, veio ao Brasil com sua agenda focada no desenvolvimento de gás e petróleo. Ele se encontrou com a presidenta Dilma Rousseff, que havia sucedido ao seu mentor Lula em 2011. Biden também se encontrou com as principais companhias energéticas no Brasil, inclusive a Petrobrás.

Embora pouca coisa tenha sido dita publicamente, Rousseff se recusou a reverter a lei do petróleo de 2009 de maneira a adequá-la aos interesses de Biden e de Washington. Dias depois da visita de Biden, surgiram as revelações de Snowden sobre a NSA, de que os Estados Unidos também estavam espionando Rousseff e os funcionários de alto escalão da Petrobras. Ela ficou furiosa e, naquele mês de setembro, denunciou a administração Obama diante da Assembleia Geral da ONU por violação da lei internacional. Em protesto, ela cancelou uma visita programada a Washington. Depois disso, as relações Estados Unidos-Brasil sofreram grave resfriamento.


Dilma e Lula

Antes da visita de Biden em maio de 2013, Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado “Movimento Passe Livre”, relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica “Revolução Colorida”, ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento.”

FONTE: publicado no “NEO – New Eastern Outlook”. Escrito por F. William Engdahl, norte-americano, engenheiro e jurisprudente (Princeton, EUA-1966), pós-graduado em economia comparativa (Estocolmo, Suécia-1969). Artigo transcrito no “Patria Latina” com tradução de Renato Guimarães para a “Vila Vudu” (http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&cod=14736).[Título e trechos entre colchetes acrescentados por este blog ‘democracia&política’].

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