A MALDIÇÃO DE MARGARET THATCHER por Maria Lucia de Andrade Pinto

20 maio

Só pode ser maldição da Margaret: o neoliberalismo não dá certo em lugar nenhum, mas, vira e mexe, lá vem ele nos assombrar. É a vitória póstuma de Thatcher?

Quanta dificuldade para construir uma alternativa ao neoliberalismo e suas políticas de austeridade e aumento da desigualdade social, provocada pela perda de direitos trabalhistas e mesmo de direitos de cidadania.
Temos de reconstruir uma alternativa a partir da batalha ideológica, criticando os termos que nos são impostas e propor uma outra língua, em vez de combater o inimigo no chão.
O inimigo dos 99% é o neoliberalismo hegemônico nos EUA e seus seguidores em vários continentes. Neoliberalismo entendido não só como um sistema político e econômico, mas também como um modelo que produz padrões culturais, ideias científicas e filosóficas, leis, proibições etc
A propaganda neoliberal feita 24 horas por dia pela parafernália midiática condiciona os sujeitos a pautarem seus debates como se não houvesse outra alternativa se não idolatrar o capitalismo em sua fase neoliberal e imperialista.
Tal como são os fatos apresentados pelos diversos atores políticos do espectro que vai da posição de centro-esquerda até a de direita, puríssimo sangue, esse é o nosso destino.
A cada eleição, políticos em campanha, prometem que haverá avanços, que a “mudança” será agora. Que todos os legítimos anseios populares abafados em 1964,com a ajudinha dos EUA, enfim terão voz e vez. Mas as políticas não mudam: logo vem a assombração de Margaret Thatcher e decreta que a única via é austeridade para a classe trabalhadora e lucros, muitos lucros, para os bancos, as transnacionais, a classe dominante em particular e no geral.
Diante desse rolo compressor neoliberal tem havido um processo de desmobilização de esquerda: a vitória póstuma de Margaret Thatcher. O slogan do direito “não há alternativa” tornou-se um lema para os centro-esquerdistas no governo. A desmobilização das esquerdas, a incapacidade de criar uma frente popular de esquerda, gera desmoralização, como acreditar na democracia se uma mudança de presidente não vai mudar nada? Ou muda para pior?
Para alguns socialistas ou comunistas, isso funciona como um impulso para retirar-se para a vida privada; para outros, como uma tentação antidemocrática ; para os outros, especialmente para os militantes, a dificuldade de pensar politicamente a impotência é, por vezes, até mesmo depressão. É para evitar isso que é preciso reconhecer o desapontamento, a frustração pela confiança depositada, talvez ingenuamente, talvez equivocadamente.
Há um futuro, novas gerações estão chegando à idade da razão, à possibilidade de desenvolver um espírito crítico e ousar criar, inventar rumos humanizadores, que propiciem a maior soma possível de felicidade para todos: é preciso reconstruir uma alternativa a partir da batalha ideológica, criticando os termos que são impostos como “realismo”, um realismo negado pela própria realidade.
Há que propor outra linguagem, outra pauta e propor uma outra língua, em vez de combater o inimigo no seu próprio terreno, onde não temos chance de vitória, tal o formidável poder econômico e político.
Muitos vaticinam: a esquerda pode morrer. Propagandeiam uma decepção geral com o socialismo. Se torna-se difícil de toda e qualquer oposição porque na verdade todos os partidos burgueses se acertam e se entendem, mesmo quando fingem ódios mortais entre si: pura manobra para evitar que se discutam os reais problemas do povo trabalhador.

Às vezes, dá até a impressão que o neoliberalismo conquista a maioria das mentes e corações e transforma a nossa relação com o mundo. É um regime que não só se impõe contra os nossos constrangimentos externos, mas também ajuda a nos definir como sujeitos, a partir de dentro.

A subjetividade neoliberal nos apresenta, o que queremos ou não, na sua lógica. Então, tentamos aumentar o nosso valor dentro desse sistema bandido: não só o nosso capital econômico, mas tudo mais, – nós valorizamos, a nossa formação profissional, aspecto físico, relacional, etc. Nós aceitamos o jogo. Sob estas condições, como manter a pensar que “um outro mundo é possível?”. Portanto, não é surpreendente que a fronteira entre a direita e a esquerda desaparecem nos partidos do governo e mesmo naqueles da oposição.
Todos considerando que as maldades, os crimes, a corrupção, são inevitáveis e que os grandes dramas e tragédias nacionais não devem sequer ser abordados.
Que forças políticas hoje, agora, aqui no Brasil, oferecem esperança para quem resiste ao desespero?
Estranhamente parece que a hegemonia dos partidos no governo impôs seu discurso econômico, um discurso claramente neoliberal.
A “esquerda da esquerda”, que rejeita esse discurso econômico sem se juntar ao fatalismo dominante é inaudível ou quase isso.
Mas essa degradação mais progressista e menos brutal não está conseguindo entorpecer as tentativas de protesto. A esquerda esquerda, pequena, quase inaudível é abusada: manifesta-se em greves e passeatas, diz que não temos nada mais a perder, e, portanto, temos de lutar,e tenta salvar o que ainda resta. Assim, o egoísmo, o isolamento vai dando lugar as mobilizações em todo país.
De novo poderá surgir a solidariedade, novos tipos de organização, diante do crescente e já bem visível descontentamento popular.
No final, uma coisa é certa: a política de austeridade continua e as reformas neoliberais vão continuar. E o descontentamento popular vai aumentar.
E a História não tem o costume de parar pra descansar.

Maria Lucia Andrade Pinto

Maria Lucia de Andrade Pinto

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