“No País Errado” por Marcelo Zero

21 maio

A política externa brasileira tornou-se alvo preferencial de disputas partidárias menores e míopes.

A rejeição do brilhante embaixador Guilherme Patriota para nos representar na OEA, a primeira de um embaixador de carreira no plenário do Senado Federal, é sintoma preocupante do grau de histeria e desinformação que tomou conta do debate sobre as relações internacionais do Brasil.

No Congresso, surgiu uma espécie de “bancada da Guerra Fria”, que pensa a posição do Brasil no mundo como se ainda estivéssemos na década

de 60 do século passado. Seus integrantes parecem envolvidos numa cruzada contra o “bolivarianismo”, o “esquerdismo”, o “terceiro-mundismo” e outros “males ideológicos” que, segundo eles, vêm desvirtuando a política externa brasileira, retirando-a de seu “leito natural”.

Na mídia conservadora, não faltam parvas plumas que escrevem diatribes raivosas contra a política externa do país, revelando inacreditável desconhecimento sobre questões elementares das relações internacionais.

Desconhecimento e má-vontade.

Assim, os extraordinários acordos assinados este semana entre Brasil e China, que envolvem, apenas em seus aspectos iniciais, investimentos da ordem de US$ 53 bilhões, foram recebidos, por muitos desses nostálgicos da Guerra Fria, com estudada frieza e indisfarçável má-vontade.

Tenta-se, a todo custo, minimizar um golaço da política externa do Brasil e uma manifestação concreta e substancial de confiança no País.

Mas não pode haver dúvida da extensão, do alcance e do alto significado estratégico desses acordos.

Em primeiro lugar, os US$ 53 bilhões de investimentos que a China deverá fazer na infraestrutura brasileira vão contribuir decisivamente para que o Brasil volte a crescer. Num quadro de constrangimentos orçamentários e de ataques políticos ao BNDES, nosso grande banco de investimentos, esse fluxo de dinheiro chinês não poderia ter vindo em melhor hora. Também não poderia ter vindo em melhor hora a decisão da China de financiar projetos da Petrobras em US$ 7 bilhões, em claro contraste com a campanha que, em nome do combate a corrupção, procura fragilizar essa grande empresa e entregar o pré-sal aos abutres internos e externos.

Em segundo lugar, os acordos se estendem ao setor financeiro, crucial para a recuperação econômica do país e do mundo. Assim, Brasil e China decidiram criar fundo de 50 bilhões de dólares destinados à infraestrutura no Brasil, envolvendo a Caixa Econômica Federal e o Banco Industrial e Comercial da China, maior banco do mundo em ativos. Essa nova iniciativa complementa a adesão do Brasil ao Asian Infrastructure Investiment Bank (AIIB), grande banco de investimentos criado pela China para financiar projetos de infraestrutura, e ao Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, bem como ao Acordo Contingente de Reservas desse bloco.

Esses fundos e bancos criados por China, Brasil e outros países emergentes constituirão uma arquitetura financeira alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, instituições que impõem pesadas e, por vezes, recessivas condicionalidades para emprestar dinheiro a países em desenvolvimento.

Para o Brasil, isso significará um volume bem maior de investimentos e financiamentos mais facilitados. Para a China, essas iniciativas, além de possibilitarem a construção de infraestrutura em parceiros estratégicos, contribuirão para propiciar a progressiva libertação do “império do dólar”, em suas transações internacionais.

Em terceiro lugar, alguns dos projetos previstos nos acordos são estruturantes e de alto valor logístico. A Ferrovia Transoceânica, por exemplo, permitirá ao Brasil ter acesso facilitado ao Oceano Pacífico, de modo a poder escoar sua produção à região que mais cresce no planeta. Não há “aliança do pacífico” melhor do que essa.

Entretanto, o significado maior desses acordos não é econômico, é geopolítico.

Com efeito, eles evidenciam profundas mudanças geoeconômicas e geoestratégicas que vêm ocorrendo na ordem mundial. Mudanças que nossos nostálgicos da Guerra Fria têm dificuldades de perceber.

A partir do final dos anos 90 e início deste século, há um nítido descolamento entre a dinâmica dos países emergentes e a dos países desenvolvidos. Os países emergentes passaram a apresentar um crescimento substantivamente mais intenso que o dos países desenvolvidos.

Isso provocou profunda mudança geoeconômica no mundo. A China e outros países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, etc. adquiriram um protagonismo econômico muito maior. Obviamente, esse maior protagonismo abriu novas e grandes janelas de oportunidades para o Brasil, especialmente no campo do comércio exterior e dos investimentos. Deve-se levar em consideração que, devido a esse crescimento maior, os países emergentes e em desenvolvimento aumentaram enormemente a sua participação no comércio mundial. No início dos anos 90, tais países respondiam por somente um terço do comércio internacional. Nos últimos anos, porém, esses países passaram a responder por cerca da metade desse fluxo.

Inevitavelmente, o Brasil mudou sua inserção econômica no mundo.

Assim, os países em desenvolvimento já absorvem, hoje, cerca de 60% das nossas exportações, ao passo que os países desenvolvidos absorvem 40%. No início deste século, tal equação era inversa. E os países em desenvolvimento e emergentes são também muito importantes para as nossas exportações de manufaturados, especialmente pela vertente da integração regional e do Mercosul. De fato, esses países já respondem por 60% das exportações brasileiras de produtos industrializados. Não se trata somente de commodities, como erroneamente se afirma.

Além disso, na presente crise, são justamente esses países que estão nos assegurando um comércio mais equilibrado, apesar da redução crescente de nossos superávits e do pequeno déficit registrado em 2014. Entre 2009 e 2014, obtivemos superávit de US$ 103 bilhões com países emergentes e em desenvolvimento, mas amargamos mais de US$ 60 bilhões de déficit com países desenvolvidos, US$ 45 bilhões dos quais com os EUA.

Com essas mudanças geoeconômicas vieram, é claro, as mudanças geopolíticas.

O Brasil aproveitou bem e de forma realista essas mudanças na ordem mundial.

Em outras palavras, a economia mundial mudou, surgiram novos polos dinâmicos entre os países emergentes, novas articulações de poder no cenário internacional, e o Brasil, graças à nova política externa, aproveitou bem, de modo pragmático, esses câmbios ocorridos na geoeconomia internacional e na geopolítica mundial.

Não há, assim, nada de ideológico ou partidarizado nessas vertentes exitosas da nova política externa do Brasil, ao contrário do que parecem acreditar os nostálgicos da Guerra Fria e os que propõem a suicida agenda do fim do Mercosul.

Se os acordos dessa semana tivessem sido celebrados com os EUA ou com a UE, a recepção teria sido bem outra. O ceticismo e a má-vontade cederiam a festejos incontidos e a uivos de vira-latas, em nome da volta da diplomacia brasileira ao seu “leito natural”. Leito natural que, se retomado, provavelmente implicará a adesão do país à Alca “bilateralizada” contida nos acordos de livre comércio celebrados com os EUA.

A China, também pragmática, aposta no Brasil e confia no novo país que está sendo construído. Olha à frente, muito à frente, e fortalece a parceria estratégica com o Brasil.

Já os nossos nostálgicos da Guerra Fria só conseguem olhar para trás, buscando um mundo velho e um Brasil apequenado que já não existem mais.

Míopes em estratégia, enxergam errado e votam errado.

Estão no país errado.

Marcelo Zero  

(sociólogo e especialista em Relações Internacionais)

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