Prender o arquiteto do submarino nuclear, ou como cutucar a onça com vara curta

1 ago
Vamos dizer- para efeito de qualquer delação premiada – que, no Brasil do Lava a Jato, haja realmente justiça – aquela limpidamente cristã, cantada em rezas tonintroantes por certos pastores, principalmente no Congresso Nacional. E que as provas que o juiz Moro tem em mãos a partir de uma Polícia Federal (até segunda ordem, escancaradamente parcial), sejam, desta vez, respeitáveis, irrefutáveis – algo que, num julgamento regular, em princípio, só existe se devidamente estribada, não no juízo singular de um juiz – mas ao fim de um julgamento regular, sem interferência de nada que lhe seja estranho ( tais como as opiniões de alguns jornalistas). Será aceitável – até quando ? – que um juiz de primeira instância ponha na cadeia qualquer cidadão a seu talante; e que tudo fique em brancas nuvens para Suprema Corte do Brasil?

Os negócios da Petrobrás estão à beira da inação. O homem que dirigia a construção do submarino nuclear, um dos maiores cientistas nucleares brasileiros – o tal submersível em construção, que é a menina dos olhos das Forças Armadas – foi detido. Está preso. Delação premiada.

Até quando?

O clima é de absoluta perplexidade. Há, ao que tudo indica, uma revolução. (reboliço na verdade) no Brasil de hoje, só que comandada, inacreditavelmente, pela Justiça brasileira. Para muitos é, de fato, a glória redentora. Segmentos da classe media, na melhor das hipóteses, julgam que, com a paralisação do país, com o fim inclusive dos próprios empregos, os brasileiros iremos para o paraíso almejado e merecido. Em miúdos e para dizer o que , para alguns, julgam dever ser dito. Tudo será melhor quando os petralhas forem presos; é o que afirmam inclusive muitos leitores dos blogs que conhecemos.

A desgraça seria o PT: Lula não fez o Brasil crescer – é mentira dos petralhas. A saída do Brasil do mapa da pobreza absoluta é uma invenção da ONU. A Odebrecht é uma empresa corrupta que tem, “por acaso: , mais de cem mil funcionários. Ela está estagnada à espera do que a aguarda ao fim da prisão de seus diretores e de seu proprietário.

Que assim seja –reza esta parte da opinião pública. Nao importa o fim do projeto do submarino nuclear ( aliás, é o que importa); os ‘Moros”da justiça brasileira querem pôr tudo a limpo. Vamos que vamos.

Mas há complicadores, evidentemente. Até agora os “russos”( isto é, as Forças Armadas brasileiras) não foram consultados sobre o projeto sub-reptício na construção dos juízes e procuradores do Lava a Jato, de desmontarem o Brasil, num golpe “legalista que extirpa a economia e, por tabela, o PT.

Sem alarmismos, talvez ocorra aos mais avisados, e é bom advertir mesmo, que, a essas alturas talvez estejam mexendo na onça com vara curta.

Valeria, aliás, uma pequena ilação.

Na antiga Florença, da Renascença, deu-se que um monge – Girolamo Savonarola (1452-14980) – diante da corrupção da Igreja da época, resolveu tomar para si e seus acólitos, a tarefa de reformar o catolicismo. Que fez ele? Começou por derrubar todas as autoridades. Ato contínuo, principiou por clamar pela reforma dos costumes e então, como primeira providência, passou a queimar e a ameaçar tudo o que lhe parecia fruto da perversão: as obras de arte, os livros, e logicamente os prevaricadores, os suspeitos de ladroagem e os pecadores – não apenas os governantes, mas os artistas. Um dos convertidos pelo puritanismo fundamentalista do religioso florentino, foi exatamente um dos maiores pintores de todos os tempos: Sandro Botticelli (1495-1510). Ele acedeu em queimar suas obras consideradas obcenas- muitos nus, obras maravilhosamente “licenciosas” que evidentemente eram um dos alvos de Savanarola.

O monge e outros, inclusive Boticcelli, talvez tenham sido um dos primeiros proto-evangélicos daqueles tempos. Botticelli devia ser um cristão sincero. Repugnava-lhe a decadência da Igreja, a corrupção, o cinismo, a hipocrisia e tutti quanti. Mas literalmente assassinou seus quadros. Matou-os para nós, a posteridade, que o tem como um dos maiores artistas de todos os tempos. Só que a história evidentemente teve um fim trágico, não para o artista, -ainda bem, -mas para o tal monge. Depois de uma glória efêmera, em que foi reverenciado por toda Florença, aconteceu a reação. E, infelizmente, para os não fanáticos, ao contrário dele próprio, Savanarola – prenderam-no, torturaram-no e o queimaram sob todos os suplícios possíveis, que era o que aqueles tempos também malfadados cultivavam.

Nada de comparações, com a licença da rememoração.

Mas os juízes que se fazem porta-vozes do STF, as coisas estão indo para o pior dos mundos no Brasil. Já foi dito: sem o consentimento dos ilustres ministros do STF, o dr. Sérgio Moro não estaria fazendo o que o estão permitindo que faça ( “obrar” seria talvez a palavra mais adequadda). Prender todos os que ele desconfia serem corruptos, lembra um pouco aquele personagem de “O alienista”de Machado de Assis , Simão Bacamarte, que se julgou o juiz dos juízes e prendeu quem lhe dava na telha, no manicômio modelo que ele fundou em sua cidade, Era um psiquiatra e diagnosticou que quase todos na sua comunidade eram malucos. E então internou em seu hospício quem a sua sanha e as suas convicções inamovíveis e preconceituosas julgavam ser doentes – ou corruptos.

Coisas de um fundamentalista.

Certo. Já se sabe que os antipetralhas, os antipetistas sem causa inteiramente injustas (pois ninguém lhes nega reivindicarem que muitos acusados do Lava a Jato merecem mesmo alguns anos de cadeia) vão protestar. São os coxinhas. Uma parcela da juventude tomadas pelo fanatismo, que troca a tradição da generosidade juvenil pelo moralismo senil que existe na nossa sociedade mais careta, estão prestes e prontos para protestar. E se sabe que vão desembocar no pior do bom-mocismo – que é o fanatismo, devidamente fomentado pela grande mídia – e que ignoram as conseqüências dos atos desses “meninos “do Paraná – como definiu muito bem os juízes do Lava a Jato de Curitiba, o conservador Cláudio Lembo

Ou seja, Sérgio Moro pensa ter chegado ao nirvana da sua visão de justiceiro ao prender um dos decanos da física nuclear brasileira, não por acaso, até ontem, membro da Marinha Brasileira. A ninguém ocorre que ao encarcerar um dos maiores arquitetos do submarino nuclear, o juiz Moro está furuncando um abelheiro. Pode a presidente Dilma, como é de seu hábito, não dizer nada, já que não tem mesmo nada a dizer. Mas aos “russos”, que não são petralhas ( com o perdão dos coxinhas), talvez não agrade de modo algum, serem tolhidos em seus projetos que são inegavelmente de interesse nacional. Ninguém de país algum que tenha um tesouro como o pré-sal vai pensar que os militares – apesar de sua submissão a Washington no passado – não tenham lá as suas veleidades de salvaguardarem um país como o Brasil – que essa é a sua obrigação.

E que projetos como as de compra da tecnologia de caças da Suécia não tenham importância. Ou de que o submarino nuclear prescinda de certas figuras como o vice-almirante, detido pelo dr. Sérgio Moro – que isso, em suma, seja um fato de somenos importância para aquilo que os membros das Forças Armadas considerem fundamental para a Soberania Nacional.

São reflexões que não ocorrem evidentemente às classes médias e seus correlatos, os coxinhas, dentre os quais se inclui o dr. Sérgio Moro. Como membro do todo poderoso judiciário, representante máximo do STF, talvez pouco se lhe dê que o Brasil possa voltar a sua condição de republiqueta, ainda que em nome da moralidade pública.

Enganam-se, provavelmente.

Savonarola pensava ter Deus a seu favor. Isso até o dia em que os realmente poderosos entrassem em Florença e o pusessem de joelhos.

Digamos, enfim, que haja justiça no Brasil e que o representante do STF ache poder fazer tudo o que lhe sugere uma PF sem controle. A idéia é a corrente: todos concordamos que a corrupção da Petrobrás e outras tantas devam ser exemplarmente punidas. Mas poupar os cartéis ligados ao PSDB, como os que se formaram no metrô de São Paulo e de Furnas em Minas – para só citar alguns crimes inconvincentemente esquecidos pelo Lava a Jato- não convencem. São um escândalo (o mais imbecil dos brasileiros deveria entender isso) . Ou melhor, convencem sim: não só os anti-petralhas, os convictos coxinhas do PSDB, do DEM, do PDS e aos incautos. Para eles é bom que o juiz Moro prenda e arrebente, mesmo que isso estropie o Brasil e seus projetos.

O difícil, porém, agora, vai ser convencer os “russos”. Hajam argumentos.

ENIO SQUEFF

Jornalista, escritor e artista plástico

Enio Squeff

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: