Arquivo | dezembro, 2015

Ipea: Brasil manteve conquistas sociais em 2014, mas poderia ter avançado mais

30 dez

 

desigualdade

RBA por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil publicado 30/12/2015 12:52

Nota técnica com base em dados de pesquisa do IBGE, lançada hoje (30), indica que extrema pobreza recuou 63% no período de dez anos, mas números ainda não refletem agravamento da crise econômica

Brasília – Em 2014, quando começaram a ser sentidos os primeiros indícios da crise econômica pela qual passa o país, o Brasil permaneceu em “franco processo de mudança social”, embora o país pudesse ter avançado mais. A conclusão é do estudo “Pnad 2014 – Breves análises”, uma nota técnica feita com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, lançado hoje (30) pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea).

Na análise do Ipea, a base estruturante dos avanços sociais que vêm sendo feitos desde 2003 permanece. Há o crescimento real da renda do trabalhador e a diminuição de desigualdades, o aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e a diminuição das brechas que separam negros de brancos, mulheres de homens, trabalhadores rurais de urbanos.

Os dados da Pnad mostram uma redução na taxa da pobreza extrema na última década. Em 2014, 2,48% da população estavam em situação de extrema pobreza, índice 63% menor que em 2004. De 2013 a 2014, a taxa de pobreza extrema caiu 29,8%, “uma redução importante”, analisa o texto, que associa a queda à manutenção do aumento da renda e redução das desigualdades.

O estudo pondera, no entanto, que a velocidade das transformações sociais nos últimos anos poderia ter sido maior, “especialmente nos grandes temas da desigualdade”. Apesar de vislumbrar alguns efeitos da crise em 2014, ainda não foi possível medir o impacto dela. Essa análise, segundo o Ipea, poderá ser feita com maior precisão em meados de 2016, quando forem divulgados os dados de 2015.

Educação e trabalho

No campo do trabalho, os dados já mostram indícios da crise. O estudo destaca que o crescimento do rendimento médio real do trabalhador – que foi superior a 7% em 2006 e próximo a 6% ainda em 2012 – ficou abaixo de 1% em 2014 pela primeira vez no intervalo considerado.

A área evidencia também grandes desigualdades de gênero e raça entre os brasileiros, cujas mudanças são mais perceptíveis no longo prazo. Em 2014, o Brasil possuía 2,4 milhões de mulheres negras desocupadas contra 1,2 milhão de homens brancos desempregados e, apesar de as distâncias terem diminuído desde 2004, os homens brancos ainda recebem rendimentos 60% superiores aos das mulheres negras.

Além disso, o aumento do desemprego impactou mais profundamente o grupo de mulheres e homens negros que o de brancos. Os negros concentraram 60,3% de todo o aumento de desemprego gerado entre 2013 e 2014. “Este grupo é mais precarizado e vulnerável ao desemprego. Sua informalidade atual é superior à taxa da informalidade de brancos de dez anos atrás”, diz o estudo.

A educação é uma das áreas em que o avanço poderia ter sido maior. Segundo o estudo, é preciso avançar com mais velocidade para que o país cumpra as metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE), lei que institui metas para melhorar a educação até 2024. As disparidades sociais, regionais e raciais permanecem. Embora o país tenha alcançado a média nacional de dez anos de estudo, em 2014, o Nordeste tinha 9,2 anos de estudo, e o Norte, 9,3; os 25% mais pobres do Brasil possuem apenas 8,2 anos de estudo em média, o mesmo nível da população rural brasileira. As médias das mulheres (9,8 anos de estudo) e homens negros (9 anos) também estão abaixo da nacional.

“Observa-se uma lentidão estrutural na taxa de alfabetização da população brasileira de 15 anos ou mais, que subiu de 88,6% em 2004 para 91,7% em 2014. Essa lenta progressão dá-se fundamentalmente pela existência de um elevado contingente de adultos e idosos analfabetos. Os programas de alfabetização voltados a esse público não têm conseguido atingi-lo”, acrescenta.

Aumento do trabalho infantil

Após reduções sistemáticas na população de crianças e adolescentes, entre 5 e 14 anos, ocupados no mercado de trabalho, de quase 2 milhões em 2004 para 839,6 mil em 2013, a Pnad de 2014 apontou um pequeno, porém, inédito, aumento nesta população para 897 mil, segundo ressalta o Ipea. Mais da metade (53,3%) está no campo. Segundo o texto é preciso considerar que, nas áreas rurais, muitas das crianças e adolescentes trabalham junto com a família.

Em dez anos a queda do trabalho infantil no campo foi de 57%. Apesar das crianças não abandonarem os estudos “preocupa os alunos que trabalham e estudam, pois eles tendem a estar mais defasados em relação aos alunos que somente estudam”, diz a nota técnica.

O estudo “Pnad 2014 – Breves análises” foi organizado pelo diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, André Calixtre. É composto por textos de vários pesquisadores, cada um analisando um conjunto de dados de um tema específico. Trata-se de uma interpretação do Ipea dos dados da Pnad, do IBGE.

Poemas de Valter Antonio Teixeira Krausche

21 dez

Valtinho Krause e Lizete

Do Portal Luís Nassif

Publicado por Carlos Roberto Rocha III

Valter Krausche além de sido meu parceiro e amigo, era um grande erudito que transitava tranquilamente no popular.

Lia Marx no original;Merleau-Ponty idem;Walt Whitman também no original,sabia tudo de Adoniram Barbosa sobre o qual escreveu um livro para a coleção Pequenos Passos da Brasiliense,sabia tudo de Chico Buarque,Tom Jobim e claro tudo de poesia.

Eu ficava pasmo diante de tanta erudição e de tanta humildade;sim Valtinho era super humildade e de um coração do tamanho de um bonde.

Creio que foi por isso que me aceitou como parceiro e companheiro da “Desejos e Unhas” ,banda que formamos juntamente com a poetiza Lizete Mercadante Machado,mais os músicos Jorge Carvalho,Maria Auxiliadora Zan ,Chico Pupo,Luisinho Carioca e Magno Bissoli.

Tenho muita saudade, desse tempo que eu convivi com o poeta,por isto através de um gesto nobre da poetiza  Lizete Mercadante da Revista O Caixote vou passar pra vocês aqui do Portal do Luis Nassif.

O Sangue das Frutas

1975 – 1978

pela morte das aves fáceis
por saber
que a manhã não é mais
o libertar da noite

para Magda
o resgate das plantas
verdadeiramente carnívoras

os personagens deste livro
como todos os expulsos da República
não estão fora dela
quanto mais expulsos
mais lhe pertencem
pois esta é a natureza da República
e a contaminam

para Lizete anjo clandestino

o dilúvio de Rimbaud
e a maldição que veio depois
pra desorganizar o espírito

o poema de amor traz manchas de óleo
Baudelaire ainda pode ser visto
no final das tardes
passeando em alguns bairros periféricos
desta capital

o poema é a destruição da vigência

CAMINHO SOB LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO ENTRE PRONOME E VERBO

com uma aranha negra refazendo teias antigas
uma serpente cerebral que iludiu a criação
perseguido pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha abandonada no interior dos anos
estrangulador de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o feijão à flor na escuridão proibida

na praça abandonada
no pequeno quarto do hotel do exílio
com meu veneno para sempre

feito um rio sem entardecer de brilhos
entre suas selvas
no ato pétreo de caminhar
feito rio refazendo-se em rio sempre
mão lavando coisa alguma
de rio negando o mar
de rio por sua esperança de rio

A AUGUSTO DOS ANJOS

as paredes do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino nascerá uma flor

PRA SER O CORPO

a modinha dá início ao final do século
o punhal da tarde
coagulado na memória
que bebi no chapéu de meu avô

*******

as palavras afiam a alma
para ser
um punhal cravado no corpo

pra ser o corpo
que é o ser do punhal

*******

a magia das palavras sem mágicas
faz a faca dos teus olhos
corta a veia dos teus seios
brota um sol entre tuas tetas

recolho a terra em teu útero
durmo em teu estômago

ANTONIO BITUCA

uma criança vermelha como nuvem
se precipita
uma criança feito planta
incêndio
raízes
um braço feito lança

uma criança pontiaguda como ave
te espeta
à beira de um abismo
e voa

FRUTO

abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário da infância
árvore sapotácea da América Equatorial
além do dicionário

branco temperado por dentro
equatorial quanto o quintal
de meu avô
branco guardando a infância negra
amarelo liso externo chamando

ESTAVA SENTADA NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA

NASCIMENTO

Mariana amanhecendo pelo mar
pela mão do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré

Mariana vela branca anunciando pazes e peixes
emergindo dos livros subterrâneos
Mariana folha branca
onde termina a luta entre deus e o diabo

Mariana a distribuir novos mistérios
mulher dos dilúvios e das escarpas
Mariana amante dos bagres e dos peixes miúdos

Mariana nascendo dos homens condenados à morte
Mariana tateando as paredes deste mundo

ROCK NA VITROLA

não voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me foi uma tarde branca transitória
estou quase nu
com o chegar das novas gerações

OLHANDO AGORA A TUA FOTOGRAFIA

Quando olhávamos o vento nas cortinas
e a oscilação da linha do horizonte
quando nesta parte do século
as casas térreas intercalavam-se
com os terrenos baldios formando a rua
quando tua mãe visitava a benzedeira
e às sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance precocemente sombrio
cujos frutos ficaram para sempre
sobre a grama morna
dos nossos desejos submersos

FECHADO PELA POLÍCIA

o corpo forte branco
de minha tia
sob o chuveiro das minhas férias
as coxas lisas
de minhas primas
sob a caramboleira
o primeiro gozo
com medo de minha avó
que vinha dar comida aos pássaros
pela boca de Zé Lumumba
que mais tarde foi morto pela polícia
e tinha ódio de minha tia
de chuveiros de coxas lisas de carambolas
finalmente o meu corpo nu
comprimido na fechadura de um templo antigo
que há muito não se abre mais

ILHA PORCHAT

pra onde fugíamos
em nossas bicicletas voadoras
& os primeiros amantes
que desciam escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes rochas
que sustentavam
algumas mansões sombrias
criminosas

ESCOLA

Maria Batalhão
que exigia fila ordeira
no matinho que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo gira
& o mijo amargo
das noites altas

CONQUISTAS

Ana Maria era o menino
mais forte da minha rua
quando atacávamos uma rua adversária
ela sempre trazia duas escravas
penduradas no rabo
levava-as pra cabaninha
em cima da cajamangueira
depois as devolvia já magras sem luz
pros guerreiros famintos que as esperavam
em volta da fogueira

nos ensinava alguns truques
segredos que guardamos até hoje
no fundo do nosso carcomido
agradecido coração

WEEK-END

primas no quintal
maracujás carambolas abius
tias na varanda

PRAIA DO BOQUEIRÃO

& o português de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se perante o nosso cerco
de defensores do coração de jesus
que mamãe guardava na sala
mostrando as pernas de sua amante
e o seu grande coração peludo
era bem maior que o mundo
& nos disse que a sua amante
era Messalina nossa mãe
ou o esperado menino de olhos azuis
que geralmente pinta no final dos tempos
& a delícia áspera dos corpos
rolando na areia morna
de um final de tarde
feliz

MOMENTO DE PENUMBRA

& me prendeu os braços
contra as grades que davam pro terraço
na pequena sala
onde seu pai conversava sexta-feira
com os espíritos

JUNINHO

o pai vendo-o fraco e delicado
com aqueles olhos femininos
resolveu mandá-lo pr’um curso de ginástica
que acabou sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos grandes músculos
das noites quentes
onde as pernas morenas despertavam pela luz
suas bundas aquáticas

o pai vendo-o forte e feminino
arrancou-lhe aqueles olhos
do menino
que nunca mais eu vi

O RETORNO DAS SOMBRAS

Juninho voltou um dia vestido de filha
de santos dinâmicos
pra nos dizer
que só as sombras retornam

depois tomou um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente pelo mundo

LEMBRANÇA

Vilma era forte
& lutava jiujitz

TRADUZINDO EM MIÚDOS

Dna. Elvira
nas tardes de catecismo
& das antigas balas de mel
quando Deus escondia
a sua face clara de sol
no outro lado do mundo
nos dizia
que a punheta era pecado

mas havia Vilma
com suas pernas lisas morenas
seu andar de nadadora
sua arrogância de lutadora de jiujitz
& Juninho com a sua mão forte delicada
que amava todos os meninos
& os compreendia
quando eles ainda eram nuvens

veio a noite
vieram as árvores & as folhagens
& Dna. Elvira foi pro inferno

O FIM DA PRIMAVERA

as mães gritavam das janelas
os pais haviam chegado pro jantar
os filhos retornavam
docemente sangrando pelas pernas
com os aromas das folhagens
qie cercavam a última praça
da nossa infância
os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
& os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
pra aquela praça vazia escura
onde o vento fazia as últimas flores
da primavera
se balançar

CABARÉS

os cabarés da rua General Câmara
com suas damas volumosas
acetinadas vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro de bonde
que havia sido trombonista de vara
são verdadeiros
mas já anunciaram o fim do mundo
& hoje moram na cachola
desmemoriada dos deuses
que se evaporaram nas nuvens
da minha adolescência

DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança de Murilo Mendes)

a última face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret de nuvens

o último corpo úmido incandescente
que me espera há séculos
num lençol de linho

o último corpo nu
& os primeiros leites venenosos
no grande berço da vitória

o último leite vivo
com as cobras que o dilúvio revelou

A ÚLTIMA NOITE

na última noite
as irmãs se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram barcos úmidos
montanhas submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar sob luzes
fosforescentes
escorregadias

pela manhã
as irmãs expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas paredes
bolor nos quadros
das últimas revoluções

a última noite
unilateralmente
eterna

INCURSÃO MARÍTIMA

quando o teu corpo nu
se esconder nas trevas
já sabes
ele surgirá do lado oposto
do universo
& de teus neurônios
brilharão os novos raios
de sol

quando um grito grego africano
se ouvir na praia
já sabes

REMELEXO CAVALGADA

te remexes dentro de mim
mais do que aquele dia
em que ligaste as bocas do fogão
& te consumiste por inteira
teu corpo grande caboclo
tuas pernas ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce mais que sombra dentro de mim
& mal cabe

assim te agarras em minhas células
& reinventas o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo cercado de anjos clínicos
que te puxam como um câncer
& nada podem contra ti
viúva de São Jorge que me cavalga
como a um cavalo roubado
tu que perdes a máscara de família
quando me arranhas
com tuas unhas de esmalte vermelho
que nunca se acaba
iemanjá da volúpia da minha infância
da minha adolescência da minha eternidade
que remexes dentro de mim
todas estas vozes
que fazem parte de tua infinitude
eu que mal lembro o teu rosto

O ÚLTIMO POEMA

sabor de lua morna a te crescer no ventre
a te fazer crescente sol de moreno íntimo
produto de percurso líquido
poder explosivo de serpente do último bote
onde as metáforas se diluem
os campos se esgotam os mares se esvaziam
os músculos são brancos
& se dirigem para o incolor pro infinito
onde nada é literário & o tempo não respira
& o literário é isto re-posição do bote
para o nada para o íntimo
pra ser literário de novo & para o nada para o íntimo
circularidade obliquidade espiralidade asas
para a morte onde danças
o despertar do primeiro & último
mágico num balancê de nuvens
que se esvaem como a minha literatura
que nada vale comparada ao teu suor
tu pavão dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã da minha morte
tu a espera da explosão dos meus micróbios
onde finalmente as imagens se dissolvem
porque te fizeste absoluto em meu caminho
& o vento já invade o buraco fundo dos meus olhos

tu
já que não és
nada

SHINING ALONE

lembro-me de tua lua branca
sentada sobre o muro
anunciando
os primeiros pêlos da noite

o sol já se tornava escandinavo
por detrás do mamoeiro

metáforas fechavam os seus ovários
o último fio de sangue
escuro escorria pelo céu

os frutos escorriam com a noite

SHINING ALONE II

tias e primas morenas ocupavam
todos os espaços do meu sonho
até que rompeste num ato acrobático
de leoa de circo varando
o círculo de fogo
e depois o círculo de pano
onde brilhava escrito o teu nome
rasgando-me a lembrança e a tua imagem
tomou a forma diluída de um pássaro
que nunca mais foi visto

OLHANDO A TUA FOTOGRAFIA NOVAMENTE

teu olhar tua lua teu conhaque
cada trago que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno poema
que li numa cidade antiga
onde nasci
onde nossas pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer marítimo
de espumas cintilantes
e as palavras
se quebravam sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável

tua lua
teu conhaque

O BEIJO ÚLTIMO

o primeiro beijo foi
que nem areia movediça
afogamento inevitável

o primeiro beijo
foi da boca incompleta
de Dalva
que tinha a saliva grossa
digestão química da noite

o primeiro beijo
teve suas dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado de flautas
e a minha
que guardo no peito eternamente

o primeiro beijo
teve efeitos catastróficos
Dalva morreu logo depois
e eu continuo vivo até hoje

VIAGEM AO SEIO DE MACHADO
a Aníbal Machado

Duília morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo dos minutos da adolescência
Duília pétrea estrela presa
na presa dos meus olhos pedregulhos

no trem dos perdidos anos que nos separam
os seios gritam

descobrimos Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as grades de pedra
fuga de pássaro rastro e sangue
trilhando sonhos luzes

dor de bicho interno percorrendo o íntimo

quando cheguei à praia
o mar ardia as feridas do pensamento

era necessário conquistar a física das infâncias
os seios de Duília marejando os primeiros leites
(Duília passageira destes anos mortos)
espumando o primeiro beijo
que um trem em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao meio

Duília cidade antiga e inacessível

é necessário conquistar todas as cidades
remover todas as muralhas
encontrar Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados entre o amor e o medo
quando da chegada dos primeiros destacamentos de homens armados

BANHO DE LUA

noite alta céu risonho
um beijo amargo
& um besta a mais na vida

VERÃO 77

teu corpo foi soterrado
os homens que amaste estão soterrados

nossas vidas estão soterradas
naquela praça
onde não há mais espaço
pra tanta gente

a vida é dura meu amor
a vida é dura
as palavras não têm mais espelhos

não renascem mais
os mistérios das fontes límpidas

adeus sonetos de reconciliação
adeus pequenos poemas bucólicos
adeus palavras deslizando na nudez

aqui termina o poema
aqui termina o conhaque
mas a vida
a malograda vida
continua

PAUPÉRIA
a Torquato Neto

talvez te transportem na noite
alguns jovens de fogo
de cabelos de chamas apagadas

talvez te lêem mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho de dentro permanecem
fechadas

não descobrem o dia
e toquem um baião na Nicarágua

talvez a vida continue
e brilhe
a mesma estrela de ontem
que se apaga
com a luz do banheiro
enforcada no cano

talvez o provérbio vença
& não seremos mais nada

DESPEDIDA
homenagem à Praça da Luz

as luzes de mercúrio
envenenam os nossos últimos morcegos
a lua é de mercúrio
e a vida
não é mais o termômetro
de nossa febre

adeus morena
adeus minha ave rara
que aqui faz
esta imensa falta de música

no dia em que você se lembrar de mim
procure-me
ao pé das árvores
estupidamente floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano sinistro

adeus morena
e não se esqueça
de apagar a luz.

—————————————————————————————————-Revista ” O Caixote” – Lizete Mercadante Machado

Revista O Caixote2_publicado por Lizete Mercadante Machado

http://www.ocaixote.com.br/caixote02/sangue_frutas.html

E se Dilma……

18 dez

 

E se Dilma tivesse vendido uma estatal, avaliada em mais de 100 bilhões, por 3,6 bilhões, como FHC (PSDB) fez com a Cia Vale do Rio Doce?

E se Dilma tivesse construído dois aeroportos, com dinheiro público, em fazendas da família, como fez Aécio Neves (PSDB)?

E se Dilma estivesse na lista de Furnas, junto com FHC, Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves (todos do PSDB)… Entre outros?

E se Dilma estivesse sendo acusada de receber propinas da Petrobrás, como Aloysio Nunes (PSDB)?

E se Dilma estivesse sendo processada no STF, por ter recebido propinas da empreiteira OAS e por ter achacado o Detran do seu estado, em um milhão de reais, como Agripino Maia (Dem)?

E se Dilma tivesse sido denunciada como beneficiária do contraventor Cachoeirinha, além de estar sendo processada, por exploração de trabalho escravo, em sua fazenda, como Ronaldo Caiado (Dem)?

E se Dilma estivesse sendo investigada na Operação Zelotes, por ter sonegado 1,8 milhão de reais e corrompido funcionários públicos, para que essa dívida sumisse do sistema da Receita Federal, como Nardes (Conselheiro do TCU, ligado ao PSDB)?

E se Dilma tivesse sido manchete de capa no New York Times, por suspeição de narcotráfico internacional, o que gerasse diversas reportagens na televisão norte americana, e agentes do DEA, Departamento Anti Drogas, dos Estados Unidos, tivessem vindo ao Brasil, para investigá-la, e um helicóptero com quase meia tonelada de pasta de cocaína fosse apreendido em uma fazenda de amigo pessoal e sócio dela, em negócios não muito claros, como Aécio Neves (PSDB)?

E se a filha da Dilma fosse assessora do presidente da CPI da Petrobrás e lobista junto a Nardes, um conselheiro do TCU, e tivesse uma conta secreta no HSBC suíço, por onde passaram milhões de dólares, como Daniele Cunha, a filha de Eduardo Cunha (PMDB)?

E se Dilma tivesse sido presa em 2004, por fraude em licitação de grandes obras, no Amapá, e tivesse sido condenada por corrupção, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, como Flexa Ribeiro (PSDB)?

E se Dilma, quando prefeita de Salvador, tivesse sumido com 166 milhões das obras do Metrô, como Antônio Imbassahy (PSDB)?

E se a filha da Dilma tivesse tido um único emprego, de assessora da mãe, e a revista Forbes a tivesse colocado como detentora de um das maiores fortunas brasileiras, caso da filha do Serra (PSDB)?

E se Dilma tivesse 18 processos por corrupção, como José Serra (PSDB)?

E se Dilma tivesse 22 processos por corrupção, como Eduardo Cunha (PMDB)?

E se Dilma tivesse dado dois Habeas Corpus, em menos de 48 horas, a um banqueiro que lesou o sistema financeiro nacional, para que ele fugisse do país; se tivesse dado um Habeas Corpus a um médico que dopava a suas clientes e as estuprava (foram 37 as acusadoras), para que ele fugisse para o Líbano; se tivesse feito uso sistemático de aviões do senador cassado por corrupção, Demóstenes Torres (Dem); se tivesse votado contra a Lei da Ficha Limpa por entender que tornar inelegível um ladrão é uma “atitude nazi-fascista” (sic), tendo a família envolvida em grilagem de terras indígenas, como Gilmar Mendes, Ministro do STF?

E se Dilma colocasse sob sigilo, por 25 anos, as contabilidades da Petrobras, Banco do Brasil e BNDES, como Geraldo Alckmin (PSDB) colocou as do Sistema Ferroviário paulista, das Sabesp e da Polícia Militar, após se iniciarem investigações da Polícia Federal, apontando desvios de muitos milhões?

E se Dilma tivesse sido governadora e como tal, cassada, por conta de compra de votos na campanha eleitoral, corrupção e caixa dois, como Cássio Cunha Lima (PSDB)?

E se Dilma, em sociedade com Mário Covas (PSDB) tivesse comprado uma enorme fazenda no município mineiro de Buritis, em pleno mandato, e recebesse de presente de uma empreiteira um aeroporto, construído gratuitamente, constatando-se depois que foi essa empreiteira a que mais ganhou licitações no governo FHC (PSDB), sócio de Covas?

E se Dilma declarasse à Receita Federal e ao TRE ter um patrimônio de 1,5 milhão e a sua filha entrasse na justiça, reclamando os seus direitos sobre 16 milhões, só parte do seu patrimônio, como aconteceu com Álvaro Dias (PSDB)?

E se Dilma estivesse sendo acusada de ter recebido 250 mil de uma empreiteira, na Operação Lava Jato, como Carlos Sampaio (PSDB)?

E se Dilma tivesse comprado um apartamento no bairro mais nobre de Paris e se, dividindo-se o valor do imóvel pelos seus rendimentos, se constatasse que ela teria que ter presidido este país por quase trezentos anos para tê-lo comprado, caso de FHC (PSDB)?

E se Dilma fosse proprietária da maior rede de televisão do país, devendo quase um bilhão de impostos e mais dois bilhões no sistema financeiro, e tivesse o compromisso de proteger corruptos e derrubar a presidente, em troca do perdão da dívida com o fisco e financiamento do BNDES, para quitar as dívidas da empresa, como no passado, caso dos irmãos Marinho, proprietários da Rede Globo de Televisão?

E se Dilma tivesse sido denunciada seis vezes, por seis delatores diferentes, na operação Lava Jato e fossem encontradas quatro contas suas, secretas, na Suíça, alimentadas por 23 outras contas, em paraísos fiscais, e o dinheiro tivesse sido bloqueado pelo Ministério público suíço, por entendê-lo fruto de fonte escusa, e tivesse mandado toda a documentação para o Brasil, com a assinatura dela, como aconteceu com Eduardo Cunha (PMDB)?
Certamente Dilma, investigada noite e dia, em todas as instâncias, sem um indiciamento, sem sequer evidências de crimes, “uma mulher honrada”, no dizer do promotor da Lava Jato e de um dos advogados dos réus, não estaria com os citados pedindo o seu impeachment.
O seu crime? Chegou o dia de pagar os carentes do Bolsa família e o tesouro não tinha dinheiro. A Caixa Econômica Federal pagou e recebeu três dias depois. Isto é “pedalada” e por isso todos os citados acima a querem fora do governo.

Por que é desonesta ou por que é um risco para os desonestos?

Para apressar a tramitação dos processos em curso ou para arquivá-los?”

O texto é do Francisco Costa.

Existem dois grandes campos na conjuntura de hoje: golpistas e não golpistas’

15 dez

Sul21 – Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Manuela d’Ávila foi eleita em 2004 a mais jovem vereadora de Porto Alegre, pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Em 2006, foi eleita a deputada federal mais votada do Rio Grande do Sul. Quatro anos depois, em 2010, foi a deputada mais votada do Brasil com quase meio milhão de votos. Em 2008 e 2012, concorreu à prefeitura de Porto Alegre, ficando em segundo lugar na segunda tentativa.

Em 2013, essa trajetória sofreu uma guinada radical, para os padrões da política tradicional. A deputada do PCdoB decidiu voltar a viver no Rio Grande do Sul e trocou a disputa pela reeleição a uma cadeira na Câmara dos Deputados pela eleição a cadeira na Assembleia Legislativa. Mas a mudança mais significativa foi o nascimento da filha Laura, sua prioridade e companheira inseparável desde então.

Agora, em 2015, ela aparece nas pesquisas, em primeiro lugar na preferência do eleitorado para a disputa pela prefeitura de Porto Alegre, em 2016. Em entrevista ao Sul21, Manuela d’Ávila fala sobre as razões que embalaram o seu retorno ao Rio Grande do Sul, analisa a atual conjuntura nacional e a relação desta com as eleições municipais do ano que vem. Para ela, a atual crise política modificou completamente o quadro de especulações sobre candidaturas e alianças que estava colocado até bem pouco tempo. Ela garante que não tomou uma decisão ainda sobre concorrer ou não à prefeitura de Porto Alegre e que não faz sentido especular sobre isso agora, pois há algo muito maior em jogo. A deputada adverte para o crescente clima de agressividade física entre os setores conservadores que querem derrubar a presidenta Dilma Rousseff e conta como ela e a filha Laura já foram alvo de agressões.

“Quem serão nossos aliados no ano que vem? Para mim existem dois grandes campos: golpistas e não golpistas. Há sete meses não era isso. Eu entendo que as pessoas especulem sobre a prefeitura, mas eu não sei qual o ambiente político que o Brasil vai ver daqui a uma semana, quiçá daqui a oito ou nove meses. Eu tenho um sonho de administrar Porto Alegre, mas o que está em jogo agora é muito mais sério e grave do que disputar uma prefeitura.”

Marco Weissheimer (RBA)

Você foi eleita muito jovem vereadora em Porto Alegre e depois deputada federal, com grandes votações. Mais recentemente, fez um movimento que não é típico entre a maioria dos políticos. Trocou a disputa pela reeleição a deputada federal para se tornar deputada estadual. Voltou ao Rio Grande do Sul, sendo apontada como uma possível candidata à prefeitura de Porto Alegre e, há cerca de três meses, nasceu a Laura. Isso em um momento de agravamento da crise política no país. Como definiria este momento onde se cruzam o acirramento da conjuntura política e mudanças significativas na tua vida?

Manuela D’ávila

Há muitas coisas dentro da tua pergunta que são importantes. A primeira delas é que, se eu não tivesse sido eleita tão jovem vereadora e depois duas vezes, deputada federal, e se não tivesse tido todas as oportunidades que a vida e o meu partido me permitiram ter em Brasília, talvez eu não tivesse feito esse movimento de voltar para o Rio Grande do Sul. Eu voltei por três razões que acho que a vida mostrou estarem certas. Em primeiro lugar, eu fiquei oito anos em Brasília e cumpri muitos desafios e tarefas partidárias. Presidi a Comissão de Direitos Humanos, fui líder do meu partido, coordenei a bancada do nosso estado. Eu vivi boa parte da minha juventude em Brasília, dos 25 aos 32, 33 anos de idade. Isso representa um ciclo da vida muito importante. Só que realmente eu comecei a me sentir muito distante fisicamente da minha origem política, que é o movimento social. Eu fui eleita vereadora estando no movimento estudantil. Eu me licenciei da UNE para concorrer a vereadora.

Em 2013, que foi o ano da minha decisão, já houve um prenúncio do que a gente vive agora. Eu queria entender o que estava acontecendo. Por mais que eu voltasse todos os finais de semana e por mais que a minha vida sempre tenha sido aqui, era como se o que eu tinha acumulado na minha militância antes de ser parlamentar tivesse se esgotado. Eu sentia que precisava me reenvolver, reanimar e me ressignificar nesta militância. É como se a gente tivesse uma fonte de energia e Brasília a sugasse. Para ter uma boa atuação em Brasília é preciso se dedicar 24 horas por dia. É preciso ter uma atitude de Dom Quixote o tempo inteiro. De onde tirar essa força? A minha vem do movimento social, da militância no meu partido, naquilo que eu acredito. Então, eu decidi voltar, politicamente, por isso.

Mas também houve um motivo de ordem pessoal. Eu jamais teria um filho indo e voltando de Brasília o tempo todo. É uma opção minha que tem a ver com coisas relacionadas à primeira infância nas quais acredito. Se eu ficasse mais quatro anos de Brasília, sairia de lá com 38 anos. Ainda poderia engravidar, mas decidi que só teria um filho se eu pudesse morar na mesma cidade com essa criança nos seus três primeiros anos. A terceira razão é que eu queria voltar a estudar. Um militante que se propõe a ser um quadro de um partido como é o PCdoB precisa estudar. Não sou uma fanfarrona. Sempre estudei. Eu não consegui, talvez por limite meu, conciliar uma pós-graduação com o meu mandato de deputada federal.

MW:. Você chegou a tentar fazer uma pós-graduação?

Eu cogitei fazer Relações Internacionais na UFRGS, que tinha aulas aos sábados. Mas sábado é o dia em que os deputados federais fazem roteiros pelo estado. Então, quando eu chegasse aqui teria que ir para as aulas na UFRGS e ainda fazer roteiros. A minha decisão, portanto, englobou três coisas e eu acho que agi certo. O meu mandato na Assembleia tem conseguido manter um diálogo permanente com os movimentos sociais. Assim que chegamos na Assembleia houve aquele episódio de combate às religiões afro, no qual o nosso mandato teve uma atuação muito forte.

Neste período, fiz uma cadeira como aluna especial em um mestrado na Comunicação da PUC e fui aprovada agora no mestrado em Políticas Públicas na UFRGS. E engravidei da Laura. Foi uma combinação de coisas. Mas essa combinação não foi toda planejada. A minha decisão era voltar e ter um mandato ligado ao povo. Eu engravidei um mês depois que tomei a decisão de engravidar. Tem um elemento de sorte aí. Eu poderia ainda estar tentando engravidar e poderia ter sido reprovada nas provas. Eu estudei para as provas com a Laura no colo.

Quanto ao tema “prefeitura de Porto Alegre” eu acho que não é o momento de discutirmos 2016. Não é o meu momento e tenho direito a isso. Tenho dezessete anos de militância política onde a minha prioridade foi ser militante e dirigente do meu partido. Agora, envolve outra pessoa que não sou eu e que tenho a responsabilidade de cuidar. Mas também acho que não é momento porque o clima político exija que a gente debata o dia de hoje. Especulações sobre candidaturas e alianças perderam o sentido que tinham até bem pouco tempo. Aliança com quem? Quem vai estar em que posição no ano que vem? Há sete meses, as alianças políticas se desenhavam dentro de um campo…

RBA:. A conjuntura parece ter alterado radicalmente esse quadro de possibilidade de alianças…

Mudou tudo. Quem serão nossos aliados no ano que vem? Para mim existem dois grandes campos: golpistas e não golpistas. Há sete meses não era isso. Há dois anos, era completamente diferente. Eu entendo que as pessoas especulem sobre a prefeitura, mas eu não sei qual o ambiente político que o Brasil vai ver daqui a uma semana, quiçá daqui a oito ou nove meses. Então, acho precipitado abrir esse debate agora. Eu fui candidata a prefeita duas vezes e sei que candidato a prefeito se veste para a guerra desde sempre. Eu não estou vestida para a guerra, pelas minhas razões pessoais, mas também porque acho que, quem se veste para essa guerra da prefeitura agora, não entendeu o que está acontecendo no nosso país. O que está em jogo é muito mais sério e grave do que disputar uma prefeitura. Eu tenho um sonho de administrar Porto Alegre porque amo viver nesta cidade. Eu saio com a Laura caminhando às sete da manhã e levo horas para voltar, pois adoro caminhar pela cidade.

RBA:. Na última semana, o jornal ‘Zero Hora’ chegou a anunciar que você já tinha decidido não disputar a prefeitura. De fato, já tomou uma decisão sobre isso?

MD:. Não, eu não tomei uma decisão sobre isso, mas, como eu disse, não estou vestida para a guerra pela prefeitura neste momento. A disputa central que o país vive agora não é por uma prefeitura municipal. Acho que vivemos um momento de unir forças para garantir que o Brasil siga uma democracia estável com uma economia estável. Brincar com democracia tem impactos na economia. O que o pessoal que brinca de democracia não se dá conta é que eles estão prejudicando a economia e a vida do povo brasileiro, para além do ambiente democrático. Esse é o momento que o Brasil vive.

Se, por um lado, a conjuntura parece não exigir vestir-se para a guerra para uma eleição municipal, por outro, parece justamente colocar essa exigência no tema da defesa da democracia, não acha?

Para essa guerra eu estou pintada, tanto é que os poucos momentos que eu tive de militância desde que estou de licença maternidade foram relacionados a esse tema. É para isso que a nossa militância tem que estar preparada. A eleição de 2016 vai ser uma consequência do que está acontecendo agora. Tratá-la como algo dissociado disso é algo pirado. Quem faz isso não está percebendo o que o nosso país e o nosso campo político está vivendo. Essa não é uma crise do PT. O PT tem seus problemas e tem que discuti-los internamente. O que é preciso ter em mente é que essa é uma crise da esquerda e da democracia brasileira.

A gente não sabe o que vai acontecer na semana que vem. O que o Supremo vai decidir? Vai valer aquela comissão paralela antipartidos eleita na Câmara dos Deputados? Vai valer uma comissão onde quem julga a presidente da República é um bando de gente envolvida em crimes, inclusive do Rio Grande do Sul. Não vi isso em nenhum jornal. O Bairrista debocha que, em tudo o que acontece, a gente sempre encontra um gaúcho. O cara que limpou a prancha do Gabriel Medina morou em Bagé. Agora, onde apareceu que os dois gaúchos que estão na comissão são investigados na Lava Jato? Não li isso em lugar nenhum. São essas pessoas que vão julgar uma presidenta eleita pelo povo. Esse é o grau de problemas e desafios políticos que o país vive. 2015 ainda tem muito pano para manga antes de nos preocuparmos com 2016.

RBA:. Na última semana, o vice-presidente Michel Temer esteve em Porto Alegre para participar de uma palestra e de um encontro com o governador José Ivo Sartori no Palácio Piratini. A impressão que deu a que acompanhou essas agendas, é que já havia um séquito em torno dele como se fizessem parte de um futuro novo governo. Além disso, também na semana que passou, o PSDB anunciou apoio formal ao impeachment. Como é que qualificaria a evolução deste cenário político nos últimos dias?

MD:. Acho que este é o momento mais grave que a gente vive desde a redemocratização. As últimas eleições, em 2010 e 2014, já tinham dado uma reconfigurada nos partidos tradicionais do país. O PSDB é um exemplo disso. Era um partido neoliberal, mas não era propriamente um partido conservador. Era um partido com quadros, como o próprio Fernando Henrique Cardoso, com posturas muito avançadas relacionadas a temas morais, por exemplo. Em 2014, o PSDB já virou algo novo e que não mereceu muita atenção até aqui, tornando-se um partido neoliberal conservador. Estamos tratando agora com um partido que se aliou aos segmentos mais conservadores da sociedade brasileira pela disputa de poder.

Hoje, a oposição à presidente Dilma perde completamente sua identidade e seu vínculo com as lutas democráticas. Isso era algo que não existia no Brasil. Os Democratas e o PP, que têm origem no partido da ditadura, sempre tiveram essas pautas guardadas na gaveta. Hoje, esses setores reassumem e comandam partidos que tinham um alinhamento de direita, mas não flertando com esses segmentos que na Europa já existem há muito tempo e que namoram o fascismo.

Outra coisa são os movimentos do PMDB. Em primeiro lugar, é importante assinalar que o governador Sartori, ao não assinar o manifesto contra o impeachment, frustra todos aqueles que acharam que ele tinha essa tradição democrática. Sartori, embora tenha posições econômicas bastante ortodoxas e muito próximas ao que a gente convencionou chamar de neoliberalismo, era um homem com posições progressistas. Na votação do Plano Estadual de Educação, por exemplo, o secretário Vieira da Cunha foi à Assembleia e trouxe a questão de gênero. Conseguimos vitórias que a Câmara de Vereadores de Porto Alegre não conseguiu. É óbvio que isso tem vínculo com uma determinada história de integrante do pecebão (PCB). Ao não assinar o manifesto contra o impeachment, ele esquece isso pela mera disputa de poder. Foi o que questionei no texto que escrevi em relação ao posicionamento da Luciana (Genro). Se há insatisfação popular, ele que não paga salário em dia pode ser “impitimado” também? Se vamos seguir essa lógica, qualquer coisa é impeachment. É diferente do episódio da Yeda que alguns, como o Ricardo Noblat, invocaram como comparação. A Yeda virou ré em uma investigação na época. A Dilma não.

O PMDB do Rio Grande do Sul nunca apoiou o governo Dilma. Tem cargos no governo e gosta de ter, mas nunca apoiou o governo. Então não surpreende que eles estivessem pintados ao lado do Temer, como se estivessem prontos a assumir o governo. E acho que o Temer está cumprindo o papel que ele melhor sabe cumprir, que é o de uma eminência parda que não é parda. Fica nos bastidores, como se fosse sombra, mas sendo luz. Ele tem essa característica. Foi assim como presidente da Câmara, foi assim na construção da aliança com a presidente Dilma e está sendo assim agora, um pouco mais magoado talvez, como a gente vê nas cartas que ele escreve.

RBA:. Na última semana, tivemos também o episódio da ministra Kátia Abreu jogando um copo de vinho na cara do senador José Serra, que parece indicar duas coisas. Uma delas é a elevação da temperatura dos ânimos políticos no país. Outra é uma questão de gênero que também está relacionada à figura de Dilma Rousseff como presidenta. Na tua opinião, há essa dimensão de gênero presente também na crise atual?

MD:.Sim, acho que existe. Um repórter da Zero Hora chegou a comentar que a Kátia Abreu tinha vingado a legião de repórteres maltratados pelo Serra. Todo mundo que conviveu com o Serra foi vítima de alguma piada infeliz ou de algum comentário agressivo e não apropriado dele. Essa é uma marca do Serra e todo mundo sabe disso. Esse não é, porém, um caso isolado. Todos os meses, em Brasília, nós temos algum episódio forte de gênero.

Quando saí de lá, no meu último mês, houve o episódio com o deputado Duarte Nogueira, presidente do PSDB de São Paulo. A deputada Jandira Feghali tomou um tabefe do Roberto Freire, presidente nacional do PPS. Em outro episódio, ela foi agredida verbalmente pelo deputado Alberto Fraga, que disse que, quem lutava que nem homem, tinha que apanhar que nem homem. A deputada Alice Portugal teve o microfone cortado pelo secretário da mesa da Câmara, que não era deputado. Na última sessão que eu participei no Congresso, enquanto a senadora Vanessa Grazziotin falava, deputados da oposição gritavam “vagabunda, vagabunda”. Estou falando só de alguns casos que eu me lembro de cabeça, pois a bancada do PCdoB tem o maior número de mulheres no Congresso.

O que a Kátia Abreu viveu foi algo que as mulheres vivem na política sempre. As críticas a Marta Suplicy, para falar de alguém que agora está do outro lado, sempre foram que ela se separou, que era namoradeira, que fazia plástica, que usava joias, que a saia era curta ou que a saia era comprida. Quando me elegi com uma votação elevada, disseram que foi porque eu era bonitinha. Sempre tem uma valoração do que é privado, do que é íntimo da mulher na vida pública. Sempre. É a mal comida, a mal amada ou a puta. São as duas opções: ou tu dá pra todo mundo ou não dá pra ninguém. Além disso, o que a Kátia Abreu fez é sintomático do ambiente de tensão política que Brasília vive hoje. Todas nós fomos agredidas e nenhuma de nós jogou um copo em alguém, porque o ambiente era mais tranquilo.

Em relação a presidente Dilma, desde sempre Brasília teve problemas com o fato de ela ser mulher. Lembra no primeiro governo, em que estava tudo bem e em um período de lua de mel, que ela reivindicou que os partidos indicassem mulheres para os ministérios. Teve chefe da Casa Civil mulher e Graça Foster presidindo a Petrobras. Tereza Campello foi e segue sendo uma ministra importante, Miriam Belchior era ministra do Planejamento. Houve um momento de demarcação com o fato de que Brasília não reconhece suas mulheres. E todas essas mulheres acabaram sendo escolha pessoal dela. Nenhuma delas era tida como uma indicação partidária. A própria Kátia Abreu se enquadra nesta categoria.

No caso da presidenta Dilma há um elemento agravante que é o fato de ela ser uma mulher com uma trajetória política diferente da dos políticos tradicionais que passa muito por dentro do Congresso. Ela chegou à presidência vinda de fora desse ambiente político. Talvez a caricatura do machismo do nosso Congresso seja aquele adesivo feito em Recife que mostrava a Dilma de pernas abertas no tanque de gasolina. Nunca vi algo similar acontecer com o Lula.

RBA:. Com o Lula se explorou muito o fato dele não ter um dos dedos da mão…

MA:. “O grau de agressividade física desses setores conservadores, que têm um elemento que os representa dentro da Assembleia, é assustador”

Sim, foi isso e, mais recente, a figura dele preso, com o tal de pixuleco que eles fizeram. Mas não foi o Lula com mulheres ou de pinto pra fora. Outra coisa são os adjetivos usados para se referir a ela. O tempo todo são comentários do tipo “ah, tu defende aquela puta da Dilma, aquela vagabunda da Dilma. Além disso, devemos lembrar que ela é a primeira presidente que não é a líder do seu partido. Fernando Henrique Cardoso era o principal tucano e Lula era o principal petista.

RBA:. Na tua avaliação, há um risco real dessa elevação de temperatura política transbordar para as ruas?

MD:. Eu acho que não há risco, já é uma realidade. Na última vez que ocorreu uma marcha pró-impeachment, num domingo, eu estava na rua com a minha filha e tive que voltar meio que escondida pra casa. Já fui agredida sozinha, fui agredida grávida e fui agredida amamentando a minha filha.

RBA :. Como foi este episódio?

MD:. Foi num show do Duca (Leindecker) em Garibaldi. Eu estava amamentando a Laura que estava neste sling e uma mulher se aproximou, agarrou e começou a bater no sling, perguntando se era da Coreia do Norte, de Cuba, de Miami ou de Nova York. Com a Laura dentro, ou seja, bater no sling significa bater nela. Quando eu estava grávida e houve aquele episódio do Humaniza, a minha perplexidade não foi a raiva deles, que eu conheço de muito tempo, mas sim foram os comentários deles saindo da Assembleia dizendo que não tinham conseguido me desestabilizar apesar de eu estar grávida. Eles certamente sabem como uma mulher grávida fica mais fragilizada. Eu podia ter perdido a minha filha naquele momento em que eles armaram aquele circo.

Às vezes, quando a gente fala que esse pessoal é fascista, algumas pessoas de direita reagem. Quem quiser ser neoliberal ou liberal – apesar de o liberalismo não ser nada disso que essa gente diz que é – que seja. Agora, quem agride uma mulher amamentando por diferença de opinião política, é um fascista. Se não quiserem ser chamados de fascistas, que não se juntem com essa gente. Então, não é que eu ache que o clima vai esquentar. Se o clima esquentar mais do que está, o que vai acontecer?

RBA:. A tua licença maternidade termina agora. Você deve reassumir na Assembleia ainda este ano?

MDF:. Volto para as sessões extraordinárias do Sartori. E a Laura vai junto. Algumas pessoas podem pensar que é algum privilégio pelo fato de eu ser deputada. Não se trata disso. É um direito dela, não meu, ser amamentada exclusivamente até o sexto mês. A Assembleia, que faz leis e concede esse direito a suas funcionárias, deveria fazer uma reflexão levando em conta que somos poucas mulheres na política, em idade de engravidar menos ainda, e que se não transformarmos essas mulheres em um símbolo do que nós defendemos – a amamentação exclusiva até o sexto mês -, a gente serve para quê mesmo? Fazemos um monte de discursos na semana do bebê, sobre a importância da amamentação exclusiva, do aumento de imunidade, da diminuição dos gastos com saúde. Então, esse direito é dela. Eu nem queria que ela estivesse lá, queria me dedicar exclusivamente a ela até o sexto mês como tenho feito até aqui. Mas, para garantir o direito dela, terá que ir e aguentar todos aqueles discursos.

RBA:. Como está o ambiente político na Assembleia. O acirramento do clima que ocorre em nível nacional chegou ao parlamento gaúcho?

MD:.Até aqui o ambiente na Assembleia tem sido bom e bastante respeitoso. Temos um foco de contaminação desse clima de acirramento, mas é alguém caricato que quer aparecer e, como diriam os mais antigos, se tem em alta conta. Mas é um caso isolado. Nenhum dos deputados reconhece as práticas desse elemento como práticas políticas adequadas na Assembleia. Por outro lado, é um momento muito difícil porque o governo Sartori estabeleceu um padrão de rupturas econômicas e de direitos com os trabalhadores, numa velocidade muito grande. Estou fora da Assembleia há três meses e meio. A dinâmica do governo é promover, a cada semana, uma esticada de corda, como o parcelamento e atraso no pagamento dos servidores, propostas de privatizações e extinção de fundações. O ambiente político é muito quente na política em função dessa agenda absolutamente conservadora e antagônica em relação a conquistas estabelecidas no governo Tarso Genro.

Mas precisamos ficar muito atentos. Tenho dito desde a eleição do ano passado que o grau de agressividade física desses setores conservadores, que têm um elemento que os representa dentro da Assembleia, é assustador. Na eleição de 2014, eu sempre dizia para o meu pessoal: "Eu não faço campanha sozinha”, eu tinha medo. Eu estava tomando um café com o meu marido e um cara me agrediu por causa da Palestina. Do ano passado para cá, isso só cresceu. Aquilo que o Olavo Carvalho pede, para que seus apoiadores nos constranjam, não é algo verbal, mas sim físico. Eu nunca havia processado ninguém. Agora, mudei de posição. Uma médica chegou a escrever questionando o meu parto, porque eu defendo o parto humanizado e depois de 24 horas de trabalho de parto tive que fazer uma cesariana. É um grau de loucura e fascismo impressionante. Entrei com um processo criminal contra o Políbio Braga pelas coisas que ele disse sobre mim. Atos criminosos têm que ser tratados como tal. Esses episódios demonstram que eles perderam absolutamente o controle. Não é uma brincadeira. Esse pessoal está enlouquecido mesmo.

RBA:. Você pertence a um partido que tem um histórico de enfrentamento muito duro contra a ditadura e uma memória dessa experiência histórica. Como é que está avaliando a posição da esquerda brasileira de um modo geral neste processo de crise política?

MD:. Eu estou muito feliz com o meu partido. Em dois episódios da história política recente do país, tivemos uma facilidade de nos posicionar com lucidez. Estamos tendo agora um papel protagonista neste processo de impeachment, não por conta de nossa relação com o PT, mas sim por uma questão de defesa da democracia. É até irônico. Quando querem nos atacar nos acusam de ser um partido autoritário. Mas o partido que tem mais episódios de sofrer com a falta de democracia, desde o Estado Novo e passando pela ditadura, é o nosso. A nossa capacidade de reação é muito rápida.

Acho que a esquerda, como campo político, passa e continuará passando por um grande processo de reorganização. A reflexão partidária e organizativa desse momento que a gente vive tem que acontecer. Existe algo que é a agenda que o outro lado nos impõe. Agora, por exemplo, estão nos impondo uma agenda golpista, que nos coloca como central a defesa da democracia. Mas existe também a nossa agenda que diz respeito à nossa capacidade de construir mudanças estruturais na política, à nossa forma de se relacionar com o povo. No início da década de 80, o PT reinventou uma forma de se organizar, de se relacionar com a sociedade e de absorver pautas. Eu tinha uma inveja boa de ver o Marcon, por exemplo, como deputado ligado ao MST, dando protagonismo aos que não tinham protagonismo e não só a quadros intelectuais.

Nós vamos ter que passar por isso de novo. Como é que a gente se relaciona com esses movimentos que estão surgindo, que têm uma identidade de esquerda, mas não querem se organizar nos nossos partidos? Será que eles estão errados, ou será que os nossos partidos são estruturas hoje sem capacidade de absorver essas lutas? Tendo a achar que é a segunda alternativa. Em 2001, no primeiro Fórum Social Mundial, os movimentos do nosso campo tinham um questionamento forte aos partidos. Os partidos não podiam nem participar, o que, na minha opinião, era um absurdo, pois eles são organizações que fazem parte da democracia. Nossa discussão tem que ser como tornar os partidos mais inclusivos. Isso ressurge agora. Ao mesmo tempo em que temos uma crise que atinge os governos do nosso campo no nosso continente, como vemos na Argentina e na Venezuela, também ressurge essa questão relacionada aos partidos. A nossa militância não vacilou, foi para dentro dos governos e construiu políticas e mudanças fantásticas no Brasil e na América Latina. Mas, na medida em que esse projeto vai mostrando que precisa ser renovado, a questão dos partidos ressurge.

Esse é um desafio que está diante de nós há 16 anos praticamente. Infelizmente, esse questionamento às vezes é dirigido para uma posição antipartido. Eu sou totalmente a favor dos partidos. Queremos disputar o poder e, numa democracia, poder se disputa com partidos. Mas precisamos repensar a forma de atuação dos nossos partidos e acho que isso vai acontecer, seja qual for o desfecho da crise atual.

http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2015/12/existem-dois-grandes-campos-na-conjuntura-de-hoje-golpistas-e-nao-golpistas-5399.html

Moniz Bandeira sobre o impeachment: O Brasil está na mira de Wall Street

11 dez

br.SputnikNews

Ao comentar a situação político-econômica do Brasil, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira afirma que “Wall Street está por trás da crise brasileira”, numa referência ao ambiente-sede das grandes corporações financeiras dos Estados Unidos.

De acordo com o cientista político Moniz Bandeira, professor aposentado da Universidade de Brasília e que há mais de 20 anos vive em Heidelberg, na Alemanha, “o objetivo das ações externas contra o Brasil é quebrar a economia e comprar as empresas estatais a preço de banana”.
Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Moniz Bandeira fala das ameaças imperialistas e também das questões de ordem política relacionadas à possível instauração de um processo de impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff. Para ele, está em curso um golpe no Brasil “que deve ser contido para não produzir graves consequências para a História do país”.
“É difícil precisar quais são os interesses”, diz o cientista político de Heidelberg. “Mas são interesses estrangeiros, eu creio, em grande parte, de Wall Street e através de outras entidades como The National Endowment for Democracy, USAID e outros que estão incentivando esse golpe no Brasil, aliados às forças internas da direita.”
Sputnik: O objetivo seria quebrar a economia e comprar as empresas brasileiras a preço de banana?
Moniz Bandeira: Exatamente, isso é verdade. Eles querem quebrar a economia brasileira – e é aí que eu vejo mais a ação de Wall Street – e comprar as empresas, como estão fazendo, a preço de nada, com o real desvalorizado a esse ponto.
S: Nós podemos acreditar, então, que o Brasil está na mira de Wall Street?
MB: Está na mira, claro, porque a questão não é só o Brasil, é internacional, é a luta contra a Rússia e a China, mas eles não podem muito contra a China. E querem derrubar a Rússia através da Síria e da Ucrânia. São duas frentes que os Estados Unidos abriram, porque a luta na Síria não é tanto por democracia, isso é bobagem, os EUA não estão se importando com isso. Eles querem mudar o regime para tirar a Base Naval de Tartus e também um ponto em Latakia, ambos da Rússia.
S: Voltando ao Brasil. O senhor entende que o país voltará a sofrer assaltos especulativos?
MB: É muito complicada a situação aí. Eu não estou certo de nada a respeito do Brasil, é muito difícil. Porque é muito difícil também dar um golpe – um golpe civil como eles querem. As Forças Armadas estão contra o golpe. Elas são um fator de resistência nacionalista no Brasil, assim como o Itamaraty.
S: O senhor disse que há órgãos no exterior financiando a grande mídia no Brasil. A mídia, ao pregar o golpe, facilita a entrada das grandes corporações internacionais em prejuízo das empresas brasileiras?
MB: Claro, sobretudo no setor de construção, que tem sido alvo principal desse inquérito, que, aliás, é inconstitucional, é tudo ilegal. O objetivo é destruir as grandes empresas brasileiras, as construtoras que são fatores de expansão mundial do Brasil, e permitir que entrem no mercado brasileiro as multinacionais americanas.
S: O senhor entende que as agências de inteligência dos EUA continuam a espionar a Presidenta Dilma Rousseff e as grandes empresas estatais do país?
MB: Claro, nunca deixaram de espionar. Espionam no Brasil e em todos os países. Se você ler meu livro “Formação do Império Americano”, publicado há dez anos, você verá como eu mostro isso documentado. Já no tempo de Clinton faziam isso. Não há novidade nenhuma na atuação dos EUA. Eu estudo essa questão dos EUA há muitos anos. Acompanhei de perto toda a problemática de Cuba. Estou com 80 anos, desde os meus 20 anos eu assisto a isso que eles fazem na América Latina.
S: O senhor fala em golpe em curso no Brasil. Qual a sua impressão, esse golpe pode ir avante?
MB: Tanto pode como não pode. As possibilidades são muitas. Ontem mesmo o Supremo Tribunal Federal tomou uma medida constitucionalmente correta, que foi anular essa comissão constituída na Câmara por meio de manobras. O que existe é uma luta de ratos e ladrões, um bando, uma gangue, montada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra uma mulher honrada e honesta como a Presidenta Dilma Rousseff, com todos os erros que ela possa ter cometido. Não há motivo legal nem constitucional para o impeachment.
S: A Presidenta Dilma Rousseff conseguirá superar todas essas dificuldades políticas e concluir o seu mandato em 31 de dezembro de 2018?
MB: É muito difícil avaliar a evolução da situação, porque ela é ruim internacionalmente. A situação internacional é muito ruim. Eu disse, em 2009, quando recebi o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, que uma potência é muito mais perigosa quando está em decadência do que quando conquista o seu império, e os EUA são uma potência em decadência. São muito mais perigosos do que antes.  

Leia mais: http://br.sputniknews.com/opiniao/20151209/3020980/Brasil-na-mira-Wall-Street.html#ixzz3u2rC4CL0

É política sim, Geraldo.Por Eliane Brum

8 dez

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por Eliane Brum, no El País

O Brasil no final de 2015: a bacia do Rio Doce foi destruída, e a lama avança sobre o oceano; o presidente da Câmara dos Deputados,Eduardo Cunha (PMDB), um homem investigado por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção, que escondeu contas na Suíça, dá início ao processo que pode resultar no impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), depois de constatar que deputados petistas votariam contra ele no Conselho de Ética, numa ação que pode cassar seu mandato; a Polícia Militar do Rio de Janeiro dispara 111 tiros e fuzila cinco jovens negros porque passeavam de carro à noite; as brasileiras não podem engravidar porque há um surto de microcefalia causado por vírus transmitido pelo Aedes aegypti e aquelas que estão grávidas foram condenadas a viver em pânico diante do zumbido de um mosquito; o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), autoriza a PM a jogar bombas de gás e a bater em estudantes de escolas públicas.

Obscenidade é a palavra que chega mais perto, mas é fraca demais para representar o Brasil atual. E também ela fracassa. Procuram-se palavras que deem conta do excesso de real da realidade. A crise de representação assumiu proporções inéditas. E o ano ainda não acabou.

Diante desse despedaçamento, há que se cuidar para que as palavras disponíveis, aquelas que dão nome a conceitos cuja construção são o que de melhor a humanidade criou, não sejam pervertidas e restem também elas obscenas. É neste ponto, profundo, que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) cometeu um ato simbólico de extrema violência, para além da truculência concreta de sua polícia nas ruas de São Paulo. Em 2 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes, ele afirmou:

– Não é razoável obstrução de via pública, é nítido que há uma ação política no movimento. Há uma nítida ação política.

A frase do governador foi amplificada pela imprensa, em títulos de jornais e chamadas nas rádios, TV, internet. O governador denunciando o movimento dos estudantes que ocupavam as escolas públicas de São Paulo em protesto contra um plano que, em nome da “reorganização escolar”, fecharia mais de 90 escolas e remanejaria mais de 300.000 alunos. Mas, vale repetir, o que o governador denuncia? Que o movimento é político. Qual seria a acusação? É óbvio que o movimento é político. E a melhor qualidade do movimento é justamente a de que é político.

É pelo exercício da política que se alcançou o que de melhor existe na experiência humana. E não pela força, pela imposição, pelo extermínio do diálogo e das ideias e, vezes demais, das pessoas que discordam. Onde a política é suspensa, a aniquilação se instaura. Para Alckmin, porém, a julgar pela sua declaração e pelos seus atos, a política é obscena. Tanto que ele precisa denunciá-la. E insinuar que os estudantes estão sendo instrumentalizados por interesses partidários e ideológicos. É fundamental que se preste atenção a um governador, com ambições de ser presidente da República, que iguala a política à obscenidade. Ou à abominação, outra palavra que pode nos iluminar nesse momento em que a crise de representação alcança também as palavras.

Para avançar com seu decreto sem escutar os que interrompiam o trânsito, o governador autorizou a PM a usar violência

Voltemos à declaração do governador: “Não é razoável obstrução de via pública”. É assim que a frase começa. Para ele, protesto, manifestação, algo do cerne da democracia, é “obstrução da via pública”. O que se impõe nesta afirmação de Alckmin? A de que a voz que vale é a daquele que quer passar. A via pública pertence àqueles que querem passar com seus carros. Passar, portanto, sem parar para escutar. É forte, porque Alckmin tem demonstrado governar assim, passando sem escutar. Se necessário, passando por cima, como se viu.

O que foi a imposição da “reorganização escolar” sobre a comunidade, senão um “passar sem escutar”? E o que aconteceu? O ato autoritário foi enfrentado com política. Os estudantes ocuparam o espaço público para reafirmar a necessidade de dialogar, para dizer que imposição não era possível num regime democrático. A reação foi recebida pelo governo como uma afronta à ordem e à autoridade. Mas como, se esta é uma democracia? Quem não dialoga é ditador. Diante do impasse, entre considerar a política uma obscenidade e, ao mesmo tempo, governar num estado democrático, Alckmin fez o quê? Se ele queria passar sem escutar, com seu carro e com seu decreto, o governador fez o quê? Chamou aquela que restou da ditadura: a Polícia Militar.

Como afirmou Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete da Secretaria de Educação, é “guerra”. A palavra reveladora de como o governo se relaciona com aqueles que discordam, neste caso os estudantes, foi usada mais de uma vez numa reunião cujoáudio foi divulgado pela repórter Laura Capriglione, do coletivo Jornalistas Livres. O encontro com cerca de 40 dirigentes de ensino contou também com a anunciada presença de um militante da Ação Popular, movimento de jovens do PSDB. Na reunião, Padula demonstrou a necessidade de “desqualificar” o movimento de resistência e mostrar que a “radicalização” estava “do lado de lá”.

E, assim, na lógica de “guerra”, Geraldo Alckmin respondeu ao exercício da política com bombas de gás, com golpes de cassetete e agressões físicas e psicológicas, como humilhar e carregar à força um garoto de 18 anos pendurado de cabeça para baixo. Respondeu com repressão, como já tinha feito nas manifestações de 2013. Respondeu como um general alinhado ao golpe de 1964 responderia durante os anos de chumbo. A Polícia Militar é o que sobrou de lá, aqui. E, se como analistas de segurança pública têm dito, a polícia está descontrolada, está descontrolada porque governantes precisam controlar. E impor: passar sem escutar. Passar sobre a política. “Limpar” as ruas dos pretos e dos pobres e também dos que fazem política.

Enquanto as imagens nas ruas expunham a violência da Polícia Militar contra os estudantes, a maioria deles adolescentes, este era o discurso do governador: “A polícia dialoga, a polícia conversa, a polícia pede para as pessoas saírem, a polícia dá tempo para as pessoas saírem. Agora, não pode prejudicar quem precisa trabalhar. Então, é preciso ter o mínimo de bom senso. A polícia faz todo o trabalho, ela é capacitada, é treinada, tem paciência…”. O governador, e esta não é uma constatação banal, está satisfeito com a ação da PM. A desconexão entre o discurso da autoridade máxima do estado de São Paulo e a realidade documentada por vídeos e fotografias nas ruas de São Paulo é um fato a ser levado a sério.

Enquanto os profissionais de Brasília rebaixavam a política à chantagem, os estudantes paulistas deram uma lição ao país

É uma enormidade o que os estudantes paulistas deram ao país neste mês de resistência. Enquanto a política em Brasília, aquela feita por profissionais do ramo, era rebaixada a chantagens e tomaladacá, adolescentes deram ao país uma lição de política em sua expressão mais completa. Organizaram-se, ocuparam 196 escolas, responsabilizaram-se por elas –consertando, limpando e cuidando– e impediram que, num país e num estado em que a péssima educação pública escava um abismo, mais de 90 escolas fossem fechadas por decreto. Foram reprimidos violentamente por isso. Muitos apanharam, dezenas foram detidos, centenas sofreram as consequências das bombas de gás. Mas resistiram. E venceram. E, como o que venceu foi a política contra o autoritarismo da verdade única e da força bruta da PM, vencemos todos.

Em 4 de dezembro, o governador foi obrigado a recuar: suspendeu a “reorganização escolar”. O secretário de Educação, Herman Voorwald, deixou o cargo. Geraldo Alckmin recebeu uma lição de política dada por crianças e adolescentes. Ao ver sua popularidade despencar, conforme pesquisa do Datafolha publicada no mesmo dia em que anunciou o adiamento das mudanças até 2017, o político que iguala a política à obscenidade descobriu que não era mais possível mandar a Polícia Militar passar por cima do povo para sua verdade única passar.

Geraldo Alckmin recuou com uma frase do Papa Francisco: “Sempre que perguntado entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma solução sempre possível, o diálogo”. Ainda que óbvio, é uma questão de respeito restabelecer os fatos para não perverter as palavras. “Indiferença egoísta”: pode ser relacionada ao governo, que tentou impor sem debate um projeto controverso, criticado por educadores, que fechava quase uma centena de escolas e atingia centenas de milhares de alunos. “Protesto violento”: fotografias e imagens documentam a violência da PM contra os estudantes. “Diálogo”: é o que os alunos reivindicavam, enquanto no interior do governo se anunciava “guerra”. Diálogo é justamente política. Como aquilo que se faz é mais revelador do que aquilo que se fala, o governador fez seu anúncio e deixou a sala sem falar com a imprensa.

Não foi apenas Geraldo Alckmin que aprendeu algo importante com os alunos da escola pública –ou deveria ter aprendido. Há dois pontos aos quais é preciso prestar bastante atenção. Um deles, que já havia se tornado claro nas manifestações de 2013, é o de como uma parcela da imprensa da redemocratização ainda está intoxicada pelos tempos da ditadura e da censura, entre outras hipóteses para a escolha dos termos usados na cobertura. Adolescentes levam bombas e borrachadas das forças de segurança do Estado e parte da imprensa chama de “confronto”. A cada protesto nas ruas, várias reportagens começavam pelas agruras causadas pela interrupção do trânsito, como se o trânsito fosse a entidade mais importante desse acontecimento político, relacionado à grande tragédia nacional, a educação, numa hierarquia de valores bastante iluminadora. Adolescentes eram encurralados e agredidos pela PM e parte da imprensa definia como “confusão”. A PM reprimia violentamente os alunos que protestavam e uma parcela da mídia descrevia o fato como um ato de “dispersão”. Nomear os fatos com precisão é tarefa obrigatória do jornalismo.

Os estudantes “violentos” e “perdidos” da escola pública se reapropriaram do espaço coletivo e passaram a cuidar do que ninguém mais cuidava nem acreditava

Ao pensar nas manifestações contra o aumento das passagens do transporte público, em 2013, desponta outro ponto crucial: qual é o limite da opinião pública? Ou, de forma mais explícita: em quem a polícia pode bater sem causar assombro e reação, ou sem que isso provoque a queda de popularidade do governador? O que os protestos contra o fechamento das escolas mostraram é que usar violência contra alunos adolescentes é um limite para os cidadãos. Desta vez, não foi possível transformar os estudantes em “vândalos” e ganhar a opinião pública, como ocorreu em 2013, usando como justificativa a ação violenta dos black-blocs. Geraldo Alckmin apostou que conseguiria repetir 2013, quando num primeiro momento houve uma reação massiva contra a violência da polícia e, em seguida, com a conversão de manifestantes em “vândalos”, na narrativa de parte da imprensa, a opinião pública passou a apoiar a repressão policial, por ação ou omissão.

É importante pensar sobre isso, porque enquanto a violação da lei pela polícia não for rechaçada, independentemente de contra quem for, seguiremos muito mal. Se pode bater neste, mas não naquele (ou matar, como acontece nas periferias e favelas), continuaremos involuindo no pacto civilizatório. E os governantes autoritários seguirão com chance de passar sua verdade única sobre a política, calando a democracia com bombas de gás e golpes de cassetete.

O fracasso na conversão de estudantes em “vândalos” para a opinião pública, apesar de todos os esforços, revela que a escola ainda têm um lugar forte no imaginário coletivo. A educação pública, tão abandonada, tão desrespeitada, tão desinvestida nestas últimas décadas, ainda ecoa na população como um valor. Ainda ressoa a consciência de que uma escola, neste país, não pode ser fechada. Muito menos dessa maneira. A escola, tão maltratada, ainda é um símbolo positivo.

Há aqui uma lição profunda que os estudantes das escolas públicas deram não apenas ao governador, mas ao conjunto da sociedade que acredita em saídas individuais, em geral na de matricular o filho na escola privada para pelo menos salvar o seu da tragédia educacional brasileira. Quando já se tornava difícil acreditar que houvesse uma saída, os estudantes se apropriaram das escolas e, com a ajuda de parte dos pais, passaram a cuidar dela. Coletivamente, como comunidade, como cidadãos. Cuidam do que ninguém mais de fato cuidava.

Acho que ainda não chegamos perto de alcançar o tamanho desse gesto, que nestas últimas semanas levou gente que nunca tinha pisado numa escola pública a oferecer de comida a serviços. Pessoas de todas as áreas têm se apresentado para dar aulas nasescolas ocupadas. Alunos de universidades prestigiadas, aquelas em que os estudantes da escola pública foram ensinados a acreditar que nunca entrariam, pediram para os secundaristas irem até a faculdade explicar o movimento. Os estudantes conseguiram derrubar muros que quase ninguém acreditava que ainda poderiam cair. E uma estudante ouviu de uma visitante no domingo, na Escola Estadual Fernão Dias Paes, a primeira ocupada na capital paulista, uma frase simbólica: “Tenho orgulho de viver numa cidade em que você existe”. Como escreveram os repórteres Felipe Resk e Rafael Italiani, do Estadão, a escola que tem o nome de um bandeirante “se tornaria símbolo da resistência ao Palácio dos Bandeirantes”. Recusando tal pai-fundador, os alunos cobriram a estátua do “matador de índios”, na frente da escola, com um saco preto.

Os adolescentes “sem futuro”, porque pessimamente educados nas escolas, ensinaram aos adultos que política é estar com o outro no espaço público

Os estudantes que ocuparam escolas e ruas estavam até então na posição de restos. Eram os estudantes que o Estado fingia educar, em escolas abandonadas, caindo aos pedaços, em aulas com professores muito mal pagos, desmotivados e despreparados. Eram os alunos que nunca teriam muita chance na vida porque recebem uma péssima educação. Eram os estudantes “violentos” e “perdidos” da escola pública, eram também os pretos e os pobres da escola pública. Eram aqueles que restavam na condição de objetos, também de discursos eleitoreiros e de slogans indecentes. Os herdeiros do processo de redemocratização lento, frágil e precário que vivemos há 30 anos, das ações imperfeitas de inclusão social, provaram que, se a moldura do espaço público for a democracia, há lugar para as diferenças, há lugar para o outro. Aqueles que muitos acreditavam “sem futuro”, porque sem presente, ensinaram aos adultos que a política é o exercício de estar com o outro no espaço público.

De onde veio a boa notícia no rio de lama e de obscenidades que se transformou o país, no concreto e no simbólico? Dos meninos e meninas das escolas públicas. Educaram o governador, educaram a sociedade. E fizeram o que parecia impossível no atual momento do Brasil: resgataram a política.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.

Site:desacontecimentos.com

Email:elianebrum.coluna@gmail.com

Twitter:@brumelianebrum

Do que depende o futuro de Dilma e do PT.

4 dez

Por Leandro Fortes

Esse pedido de impeachment acolhido por Eduardo Cunha poderá, quem sabe, trazer de volta a coragem que os anos de poder roubaram ao PT, às suas lideranças e a grande parte de sua militância.

Os dias que antecederam à reunião da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, na qual ainda se pretende votar a admissibilidade do processo de cassação de Eduardo Cunha, foram fundamentais para que a parte do PT ainda ligada à realidade obrigasse àquela outra, encastelada no Palácio de Versalhes, a honrar a história do partido.

De certa forma, é triste perceber que não foi o sentido de honra e dignidade, mas as ameaças de desfiliação em massa amplamente anunciadas nas redes sociais, que obrigaram o PT a tomar uma decisão fechada contra Cunha.

Até então, especulava-se, vergonhosamente, a possibilidade de a sigla e o governo Dilma se submeterem à chantagem de um marginal de longa ficha corrida.

E pela mesma razão que, nos últimos anos, petistas e muitos de seus fiéis seguidores se curvaram a pilantras de toda espécie (e ainda se curvam), na política, nas ruas e na mídia: medo.

Enfrentar esse processo de impeachment será extremamente depurador, tanto para Dilma como para o PT.

Dará a ambos uma oportunidade real de fazer um enfrentamento político que foi sendo deixado de lado, primeiro, por estratégia política, depois, por covardia.

Desse embate depende o futuro de Dilma e do PT.

Não há dúvida que, mesmo sendo o escroque que é, Eduardo Cunha terá o apoio massivo dos barões da imprensa e de seus colunistas cães de guarda, sem falar em outros prepostos bem colocados no Poder Judiciário.

Para vencer essa guerra, Dilma terá que abandonar a estratégia sem sentido de tentar se compor com uma mídia que a despreza e ridiculariza todo o tempo.

Terá que fazer sua própria comunicação e ter coragem de tomar as medidas necessárias para enfrentar de frente as crises políticas e econômicas.

Terá, em suma, que reassumir o protagonismo político do País e fazer o que deve ser feito.

Votei em Dilma e votaria de novo, caso a eleição fosse, novamente, uma disputa entre um projeto popular e um de direita, ultrapassado e reacionário, como era o de Aécio e, desde sempre, o do PSDB.

Mas, como boa parte de seus eleitores, estou profundamente irritado com a tibieza com a qual a política e a economia foram conduzidas até aqui.

Com esses lamentáveis arranjos políticos de quinta categoria que levaram gente como Kátia Abreu para dentro de um governo dito de esquerda.

Com essa bancada gelatinosa no Congresso Nacional, tardia e envergonhada, que mal usa uma tribuna que deveria ser, diária e permanentemente, o campo de batalha contra essa oposição hipócrita e corrupta que, descaradamente, empunha a bandeira da corrupção para justificar seus desejos golpistas.

Ao enfrentar o impeachment de frente, Dilma e o PT têm a chance de virar esse jogo.

Mas apenas se aceitarem o fato de que, até agora, estavam fazendo tudo errado.

Leandro Fortes;. é jornalista, professor e escritor. Trabalhou para o Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense, Estadão, Revista Época e Carta Capital.

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