Poemas de Valter Antonio Teixeira Krausche

21 dez

Valtinho Krause e Lizete

Do Portal Luís Nassif

Publicado por Carlos Roberto Rocha III

Valter Krausche além de sido meu parceiro e amigo, era um grande erudito que transitava tranquilamente no popular.

Lia Marx no original;Merleau-Ponty idem;Walt Whitman também no original,sabia tudo de Adoniram Barbosa sobre o qual escreveu um livro para a coleção Pequenos Passos da Brasiliense,sabia tudo de Chico Buarque,Tom Jobim e claro tudo de poesia.

Eu ficava pasmo diante de tanta erudição e de tanta humildade;sim Valtinho era super humildade e de um coração do tamanho de um bonde.

Creio que foi por isso que me aceitou como parceiro e companheiro da “Desejos e Unhas” ,banda que formamos juntamente com a poetiza Lizete Mercadante Machado,mais os músicos Jorge Carvalho,Maria Auxiliadora Zan ,Chico Pupo,Luisinho Carioca e Magno Bissoli.

Tenho muita saudade, desse tempo que eu convivi com o poeta,por isto através de um gesto nobre da poetiza  Lizete Mercadante da Revista O Caixote vou passar pra vocês aqui do Portal do Luis Nassif.

O Sangue das Frutas

1975 – 1978

pela morte das aves fáceis
por saber
que a manhã não é mais
o libertar da noite

para Magda
o resgate das plantas
verdadeiramente carnívoras

os personagens deste livro
como todos os expulsos da República
não estão fora dela
quanto mais expulsos
mais lhe pertencem
pois esta é a natureza da República
e a contaminam

para Lizete anjo clandestino

o dilúvio de Rimbaud
e a maldição que veio depois
pra desorganizar o espírito

o poema de amor traz manchas de óleo
Baudelaire ainda pode ser visto
no final das tardes
passeando em alguns bairros periféricos
desta capital

o poema é a destruição da vigência

CAMINHO SOB LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO ENTRE PRONOME E VERBO

com uma aranha negra refazendo teias antigas
uma serpente cerebral que iludiu a criação
perseguido pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha abandonada no interior dos anos
estrangulador de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o feijão à flor na escuridão proibida

na praça abandonada
no pequeno quarto do hotel do exílio
com meu veneno para sempre

feito um rio sem entardecer de brilhos
entre suas selvas
no ato pétreo de caminhar
feito rio refazendo-se em rio sempre
mão lavando coisa alguma
de rio negando o mar
de rio por sua esperança de rio

A AUGUSTO DOS ANJOS

as paredes do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino nascerá uma flor

PRA SER O CORPO

a modinha dá início ao final do século
o punhal da tarde
coagulado na memória
que bebi no chapéu de meu avô

*******

as palavras afiam a alma
para ser
um punhal cravado no corpo

pra ser o corpo
que é o ser do punhal

*******

a magia das palavras sem mágicas
faz a faca dos teus olhos
corta a veia dos teus seios
brota um sol entre tuas tetas

recolho a terra em teu útero
durmo em teu estômago

ANTONIO BITUCA

uma criança vermelha como nuvem
se precipita
uma criança feito planta
incêndio
raízes
um braço feito lança

uma criança pontiaguda como ave
te espeta
à beira de um abismo
e voa

FRUTO

abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário da infância
árvore sapotácea da América Equatorial
além do dicionário

branco temperado por dentro
equatorial quanto o quintal
de meu avô
branco guardando a infância negra
amarelo liso externo chamando

ESTAVA SENTADA NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA

NASCIMENTO

Mariana amanhecendo pelo mar
pela mão do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré

Mariana vela branca anunciando pazes e peixes
emergindo dos livros subterrâneos
Mariana folha branca
onde termina a luta entre deus e o diabo

Mariana a distribuir novos mistérios
mulher dos dilúvios e das escarpas
Mariana amante dos bagres e dos peixes miúdos

Mariana nascendo dos homens condenados à morte
Mariana tateando as paredes deste mundo

ROCK NA VITROLA

não voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me foi uma tarde branca transitória
estou quase nu
com o chegar das novas gerações

OLHANDO AGORA A TUA FOTOGRAFIA

Quando olhávamos o vento nas cortinas
e a oscilação da linha do horizonte
quando nesta parte do século
as casas térreas intercalavam-se
com os terrenos baldios formando a rua
quando tua mãe visitava a benzedeira
e às sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance precocemente sombrio
cujos frutos ficaram para sempre
sobre a grama morna
dos nossos desejos submersos

FECHADO PELA POLÍCIA

o corpo forte branco
de minha tia
sob o chuveiro das minhas férias
as coxas lisas
de minhas primas
sob a caramboleira
o primeiro gozo
com medo de minha avó
que vinha dar comida aos pássaros
pela boca de Zé Lumumba
que mais tarde foi morto pela polícia
e tinha ódio de minha tia
de chuveiros de coxas lisas de carambolas
finalmente o meu corpo nu
comprimido na fechadura de um templo antigo
que há muito não se abre mais

ILHA PORCHAT

pra onde fugíamos
em nossas bicicletas voadoras
& os primeiros amantes
que desciam escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes rochas
que sustentavam
algumas mansões sombrias
criminosas

ESCOLA

Maria Batalhão
que exigia fila ordeira
no matinho que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo gira
& o mijo amargo
das noites altas

CONQUISTAS

Ana Maria era o menino
mais forte da minha rua
quando atacávamos uma rua adversária
ela sempre trazia duas escravas
penduradas no rabo
levava-as pra cabaninha
em cima da cajamangueira
depois as devolvia já magras sem luz
pros guerreiros famintos que as esperavam
em volta da fogueira

nos ensinava alguns truques
segredos que guardamos até hoje
no fundo do nosso carcomido
agradecido coração

WEEK-END

primas no quintal
maracujás carambolas abius
tias na varanda

PRAIA DO BOQUEIRÃO

& o português de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se perante o nosso cerco
de defensores do coração de jesus
que mamãe guardava na sala
mostrando as pernas de sua amante
e o seu grande coração peludo
era bem maior que o mundo
& nos disse que a sua amante
era Messalina nossa mãe
ou o esperado menino de olhos azuis
que geralmente pinta no final dos tempos
& a delícia áspera dos corpos
rolando na areia morna
de um final de tarde
feliz

MOMENTO DE PENUMBRA

& me prendeu os braços
contra as grades que davam pro terraço
na pequena sala
onde seu pai conversava sexta-feira
com os espíritos

JUNINHO

o pai vendo-o fraco e delicado
com aqueles olhos femininos
resolveu mandá-lo pr’um curso de ginástica
que acabou sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos grandes músculos
das noites quentes
onde as pernas morenas despertavam pela luz
suas bundas aquáticas

o pai vendo-o forte e feminino
arrancou-lhe aqueles olhos
do menino
que nunca mais eu vi

O RETORNO DAS SOMBRAS

Juninho voltou um dia vestido de filha
de santos dinâmicos
pra nos dizer
que só as sombras retornam

depois tomou um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente pelo mundo

LEMBRANÇA

Vilma era forte
& lutava jiujitz

TRADUZINDO EM MIÚDOS

Dna. Elvira
nas tardes de catecismo
& das antigas balas de mel
quando Deus escondia
a sua face clara de sol
no outro lado do mundo
nos dizia
que a punheta era pecado

mas havia Vilma
com suas pernas lisas morenas
seu andar de nadadora
sua arrogância de lutadora de jiujitz
& Juninho com a sua mão forte delicada
que amava todos os meninos
& os compreendia
quando eles ainda eram nuvens

veio a noite
vieram as árvores & as folhagens
& Dna. Elvira foi pro inferno

O FIM DA PRIMAVERA

as mães gritavam das janelas
os pais haviam chegado pro jantar
os filhos retornavam
docemente sangrando pelas pernas
com os aromas das folhagens
qie cercavam a última praça
da nossa infância
os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
& os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
pra aquela praça vazia escura
onde o vento fazia as últimas flores
da primavera
se balançar

CABARÉS

os cabarés da rua General Câmara
com suas damas volumosas
acetinadas vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro de bonde
que havia sido trombonista de vara
são verdadeiros
mas já anunciaram o fim do mundo
& hoje moram na cachola
desmemoriada dos deuses
que se evaporaram nas nuvens
da minha adolescência

DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança de Murilo Mendes)

a última face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret de nuvens

o último corpo úmido incandescente
que me espera há séculos
num lençol de linho

o último corpo nu
& os primeiros leites venenosos
no grande berço da vitória

o último leite vivo
com as cobras que o dilúvio revelou

A ÚLTIMA NOITE

na última noite
as irmãs se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram barcos úmidos
montanhas submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar sob luzes
fosforescentes
escorregadias

pela manhã
as irmãs expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas paredes
bolor nos quadros
das últimas revoluções

a última noite
unilateralmente
eterna

INCURSÃO MARÍTIMA

quando o teu corpo nu
se esconder nas trevas
já sabes
ele surgirá do lado oposto
do universo
& de teus neurônios
brilharão os novos raios
de sol

quando um grito grego africano
se ouvir na praia
já sabes

REMELEXO CAVALGADA

te remexes dentro de mim
mais do que aquele dia
em que ligaste as bocas do fogão
& te consumiste por inteira
teu corpo grande caboclo
tuas pernas ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce mais que sombra dentro de mim
& mal cabe

assim te agarras em minhas células
& reinventas o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo cercado de anjos clínicos
que te puxam como um câncer
& nada podem contra ti
viúva de São Jorge que me cavalga
como a um cavalo roubado
tu que perdes a máscara de família
quando me arranhas
com tuas unhas de esmalte vermelho
que nunca se acaba
iemanjá da volúpia da minha infância
da minha adolescência da minha eternidade
que remexes dentro de mim
todas estas vozes
que fazem parte de tua infinitude
eu que mal lembro o teu rosto

O ÚLTIMO POEMA

sabor de lua morna a te crescer no ventre
a te fazer crescente sol de moreno íntimo
produto de percurso líquido
poder explosivo de serpente do último bote
onde as metáforas se diluem
os campos se esgotam os mares se esvaziam
os músculos são brancos
& se dirigem para o incolor pro infinito
onde nada é literário & o tempo não respira
& o literário é isto re-posição do bote
para o nada para o íntimo
pra ser literário de novo & para o nada para o íntimo
circularidade obliquidade espiralidade asas
para a morte onde danças
o despertar do primeiro & último
mágico num balancê de nuvens
que se esvaem como a minha literatura
que nada vale comparada ao teu suor
tu pavão dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã da minha morte
tu a espera da explosão dos meus micróbios
onde finalmente as imagens se dissolvem
porque te fizeste absoluto em meu caminho
& o vento já invade o buraco fundo dos meus olhos

tu
já que não és
nada

SHINING ALONE

lembro-me de tua lua branca
sentada sobre o muro
anunciando
os primeiros pêlos da noite

o sol já se tornava escandinavo
por detrás do mamoeiro

metáforas fechavam os seus ovários
o último fio de sangue
escuro escorria pelo céu

os frutos escorriam com a noite

SHINING ALONE II

tias e primas morenas ocupavam
todos os espaços do meu sonho
até que rompeste num ato acrobático
de leoa de circo varando
o círculo de fogo
e depois o círculo de pano
onde brilhava escrito o teu nome
rasgando-me a lembrança e a tua imagem
tomou a forma diluída de um pássaro
que nunca mais foi visto

OLHANDO A TUA FOTOGRAFIA NOVAMENTE

teu olhar tua lua teu conhaque
cada trago que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno poema
que li numa cidade antiga
onde nasci
onde nossas pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer marítimo
de espumas cintilantes
e as palavras
se quebravam sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável

tua lua
teu conhaque

O BEIJO ÚLTIMO

o primeiro beijo foi
que nem areia movediça
afogamento inevitável

o primeiro beijo
foi da boca incompleta
de Dalva
que tinha a saliva grossa
digestão química da noite

o primeiro beijo
teve suas dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado de flautas
e a minha
que guardo no peito eternamente

o primeiro beijo
teve efeitos catastróficos
Dalva morreu logo depois
e eu continuo vivo até hoje

VIAGEM AO SEIO DE MACHADO
a Aníbal Machado

Duília morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo dos minutos da adolescência
Duília pétrea estrela presa
na presa dos meus olhos pedregulhos

no trem dos perdidos anos que nos separam
os seios gritam

descobrimos Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as grades de pedra
fuga de pássaro rastro e sangue
trilhando sonhos luzes

dor de bicho interno percorrendo o íntimo

quando cheguei à praia
o mar ardia as feridas do pensamento

era necessário conquistar a física das infâncias
os seios de Duília marejando os primeiros leites
(Duília passageira destes anos mortos)
espumando o primeiro beijo
que um trem em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao meio

Duília cidade antiga e inacessível

é necessário conquistar todas as cidades
remover todas as muralhas
encontrar Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados entre o amor e o medo
quando da chegada dos primeiros destacamentos de homens armados

BANHO DE LUA

noite alta céu risonho
um beijo amargo
& um besta a mais na vida

VERÃO 77

teu corpo foi soterrado
os homens que amaste estão soterrados

nossas vidas estão soterradas
naquela praça
onde não há mais espaço
pra tanta gente

a vida é dura meu amor
a vida é dura
as palavras não têm mais espelhos

não renascem mais
os mistérios das fontes límpidas

adeus sonetos de reconciliação
adeus pequenos poemas bucólicos
adeus palavras deslizando na nudez

aqui termina o poema
aqui termina o conhaque
mas a vida
a malograda vida
continua

PAUPÉRIA
a Torquato Neto

talvez te transportem na noite
alguns jovens de fogo
de cabelos de chamas apagadas

talvez te lêem mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho de dentro permanecem
fechadas

não descobrem o dia
e toquem um baião na Nicarágua

talvez a vida continue
e brilhe
a mesma estrela de ontem
que se apaga
com a luz do banheiro
enforcada no cano

talvez o provérbio vença
& não seremos mais nada

DESPEDIDA
homenagem à Praça da Luz

as luzes de mercúrio
envenenam os nossos últimos morcegos
a lua é de mercúrio
e a vida
não é mais o termômetro
de nossa febre

adeus morena
adeus minha ave rara
que aqui faz
esta imensa falta de música

no dia em que você se lembrar de mim
procure-me
ao pé das árvores
estupidamente floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano sinistro

adeus morena
e não se esqueça
de apagar a luz.

—————————————————————————————————-Revista ” O Caixote” – Lizete Mercadante Machado

Revista O Caixote2_publicado por Lizete Mercadante Machado

http://www.ocaixote.com.br/caixote02/sangue_frutas.html

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