A Estratégia Atlanticista para Atacar a Rússia Através das Privatizações

10 fev

por Paul Craig Roberts e Michael Hudson – tradução btpsilveiraNOTA: Os leitores querem saber quem são – além das ONGs financiadas pelo capital ocidental – os quinta colunas dentro da Rússia. Michael Hudson e eu sempre os descrevemos como Integracionistas Atlanticistas e economistas neoliberais. O Saker revelou alguns nomes específicos, deu nome aos bois(leia aqui, já traduzido). Entre os quinta colunas estão o Primeiro Ministro Russo, a presidenta do Banco Central e dois ministros da área econômica. Eles estão armando uma armadilha de privatização contra Putin que poderia fazer ruir tudo o que foi realizado de bom na Rússia até este momento e entregar a Rússia para o controle ocidental.


À venda?
Fevereiro de 2016 “Information Clearing House” – Dois anos atrás autoridades russas discutiam planos para privatizar um grupo de empresas estatais russas, entre as quais as principais seriam a Rosneft, produtora de petróleo, o Banco VTB, a companhia de aviação Aeroflot e as Rodovias Russas. 

O objetivo declarado era o de aperfeiçoar a gestão dessas companhias, e também o de induzir o retorno do dinheiro dos oligarcas para investimentos, depois de duas décadas nas quais o capital fugiu da Economia Russa para o ocidente. A participação estrangeira seria permitida naqueles casos em que a transferência de tecnologia ocidental e técnicas de gestão provavelmente seriam benéficas para a economia.

No entanto, o panorama econômico da Rússia se deteriorou na medida em que os Estados Unidos forçaram governantes ocidentais a impor sanções econômicas contra a Rússia e o preço do petróleo baixou. 

Tais acontecimentos fizeram a economia russa menos atrativa para investidores estrangeiros. Então, a venda dessas companhias teria preços muito mais baixos atualmente que teriam em 2014.
Nesse meio tempo, um déficit crescente no orçamento, combinado com o déficit na balança de pagamentos deu aos apologistas russos da privatização um argumento para que se prosseguisse com as liquidações de empresas.

 No entanto, há um vício nessa argumentação: é o viés neoliberal de que a Rússia não pode simplesmente monetarizar seu déficit, mas para sobreviver, teria que vender alguns de seus ativos mais importantes. Nós advertimos a Rússia de que não pode ser tão ingênua a ponto de aceitar o perigosíssimo argumento neoliberal. A privatização jamais auxiliará na reindustrialização da economia russa e por outro lado deverá se transformar em uma economia rentista. A partir daí, os lucros serão extraídos apenas em benefício dos proprietários/investidores estrangeiros.

Yeltsin, o bêbado
Para estar seguro, o Presidente Putin estabeleceu uma série de conduções em 01 de fevereiro para impor que novas privatizações não seguissem o modelo desastroso das vendas efetuadas no malfadado regime de Yeltsin.

 Desta vez as privatizações não aconteceriam se os preços de venda fossem irrisórios, tendo que refletir o real valor de mercado das companhias. As empresas vendidas permaneceriam sob jurisdição russa, e não seriam operadas por proprietários sediados em terceiros países (offshore owners no original – NT).

 Estrangeiros poderiam participar, mas as companhias continuariam sujeitas às regulações e legislações russas, incluindo-se a manutenção do seu capital dentro do território russo.
Além disso, as empresas objeto de privatização não podem ser vendidas a partir de financiamento de bancos estatais russos. O objetivo é a obtenção de “dinheiro vivo” com as vendas – de preferência a partir das divisas armazenadas por oligarcas russos em Londres e outros locais.
Putin, de forma sensata, descartou a possibilidade de venda do maior banco da Rússia, o Sperbank, que detém a maior parte das contas individuais de poupança. A banca evidentemente deve permanecer como uma utilidade pública, porque a capacidade de criar crédito a partir do dinheiro é um monopólio natural e inerentemente de caráter público.

Apesar das proteções acrescentadas pelo Presidente Putin, há razões sérias para que não se vá em frente com as privatizações recentemente anunciadas. Tais razões não se esgotam no fato de que as vendas estariam ocorrendo em cenário de recessão econômica que resultou das sanções impostas pelo ocidente e pela queda dos preços do petróleo.

As desculpas apresentadas pelas autoridades russas já citadas para vender companhia agora, é a necessidade de financiar o déficit do orçamento doméstico. Essas desculpas demonstram que a Rússia ainda não se livrou do mito ocidental atlanticista de que o país deve obrigatoriamente depender de bancos estrangeiros e obrigacionistas (cotistas) para criar dinheiro, como se o Banco Central da Rússia não pudesse fazer isso por si mesmo, com a monetarização do déficit orçamentário.

A monetização dos débitos orçamentais é precisamente o que os Estados Unidos tem feito, e o que os Bancos Centrais ocidentais vêm fazendo desde a Segunda Guerra Mundial. A monetização do débito é prática comum no ocidente. Os governos podem dessa forma revitalizar a economia através da impressão de dinheiro em vez de endividar o país junto a credores privados que drenam os fundos do setor público através do pagamento de juros aos credores privados.

Não há razão lógica em obter dinheiro junto a bancos privados na intenção de prover o governo de numerário quando o Banco Central desse mesmo governo pode criar o dinheiro necessário sem ter que pagar juros sobre eventuais empréstimos contraídos junto a organismos privados. 

Apesar disso, os economistas russos foram imbuídos da “verdade gravada em pedra” do que se trata apenas de uma crença ocidental de que apenas os bancos comerciais devem criar dinheiro e que os governos tem que vender títulos gravados com juros para poder levantar numerário. Foi essa mesma crença que está sendo agora incutida ao governo russo que levou a União Europeia inteira a um beco sem saída, economicamente falando. Ao privatizar a criação de crédito, a Europa tirou dos governos a determinação dos destinos dos países e a entregou nas mãos do setor bancário.

A Rússia não tem necessidade de aceitar uma filosofia econômica pro rentistas que sangrará o país de suas receitas públicas. Os neoliberais não querem ajudar a Rússia, e sim colocar o país de joelhos.

Essencialmente, o que os russos aliados ao ocidente – “Atlanticistas Integracionistas – que querem que a Rússia sacrifique sua soberania em nome de uma integração com o Império Ocidental estão fazendo é usar economistas neoliberais para enganar Putin e tomar de volta o controle da economia russa que Putin reestabeleceu para o governo depois dos malfadados anos Yeltsin, quando a Rússia foi literalmente saqueada pelos interesses estrangeiros.

Apesar de ter tido algum sucesso na redução do poder adquirido pelos oligarcas russos que emergiram das privatizações promovidas por Yeltsin, o governo russo precisa reter as empresas estatais como um contrapeso ao poder econômico. 

A razão pela qual o Estado deve operar ferrovias e outras estruturas básicas é manter uma atividade empresarial ao mesmo tempo em que reduz o máximo possível o custo de vida para a população. O objetivo dos empresários privados, por sua vez, é aumentar o preço o máximo que possam. A isso, chamam de “extração de rendimentos”. Empresários privados colocam pedágios nas obras de infraestrutura que são privatizadas para aumentar o custo de manutenção. É o oposto exato do que os economistas clássicos querem dizer quando mencionam o “mercado livre”.

Fala-se que está sendo feito um acordo com os oligarcas. Eles comprariam as companhias estatais russas com dinheiro que esconderam no exterior durante a onda de privatizações da era Yeltsin e fariam um novo “negócio do século” quando a economia se recuperasse, permitindo-lhes mais uma vez fazer ganhos exorbitantes com as privatizações.

A questão é que, quanto mais o poder econômico se move do governo para o setor privado, menos poder de compensação tem o governo contra os interesses privados. Desse ponto de vista, não é o momento de permitir mais privatizações.


Muito menos deve se permitir que estrangeiros possam adquirir ativos nacionais russos. Para obter um pagamento uma única vez, em moeda estrangeira, o governo russo não deve anuir que o fluxo de pagamentos oriundo de suas reservas naturais possa ir pouco a pouco se revertendo em rendimentos futuros que poderão ser, e serão, tirados da Rússia e enviados para o exterior, mesmo que a gestão e controle das empresas mantenha-se geograficamente na Rússia.

A venda de ativos públicos em troca de um único pagamento foi o que fez o governo da cidade de Chicago, quando vendeu os direitos dos medidores fixos de estacionamento (parquímetros), que representava um fluxo de dinheiro que já tinha 75 anos, recebendo pagamento único. O dinheiro pago ao governo de Chicago durou um ano e para isso, vendeu uma fonte de receitas que já durava 75 anos. Sacrificando as fontes de receitas públicas, os governantes de Chicago impediram a taxação de bens imobiliários, coibiram a taxação da riqueza e permitiram aos bancos de Wall Street condições potenciais para fazer uma fortuna.

Criaram também revolta e clamor público contra a medida. Assim que puderam os novos proprietários dos estacionamentos fixos aumentaram drasticamente os preços cobrados para estacionar nas ruas de Chicago, além de processar a administração da cidade por supostos danos ao fechar ruas para paradas e em feriados, “interferindo” dessa forma na possibilidade de lucro dos novos  proprietários. Em vez de ajudar a cidade, a venda ajudou foi a empurrar a cidade em direção da falência. Não admira que os Atlanticistas gostariam de ver a Rússia amarrada ao mesmo destino.

Se usar a privatização para cobrir um problema orçamentário de curto prazo, a Rússia criará um problema orçamentário de longo prazo. Os lucros das empresas russas fluirão para fora do país, reduzindo a taxa de poder de troca do rublo. Se os lucros forem pagos em rublos, estes serão despejados no mercado e trocados por dólares, comprimindo a taxa de câmbio do rublo e aumentando a do dólar. Na realidade, ao permitir que estrangeiros possam adquirir ativos nacionais russos, a Rússia estará lhes dando uma arma para especular contra o rublo no futuro.

É evidente que os novos proprietários russos também podem enviar seus lucros para o exterior. Mas pelo menos o governo russo pretende que esses elementos estariam sujeitos à jurisdição russa e são mais facilmente obrigados a seguir regulamentos russos que aqueles estrangeiros que controlam suas companhias do exterior e mantém seu capital em Londres e outros centros bancários no estrangeiro (todos sujeitos às influência diplomáticas dos Estados Unidos e a sanções da Guerra Fria II).

Na raiz de todas as discussões sobre privatização está a questão: o que é dinheiro, porque tem que ser criado por bancos privados e não por bancos centrais? O governo russo pode perfeitamente financiar seu déficit orçamental através da criação de dinheiro pelo seu Banco Central, que é exatamente o que fazem Estados Unidos e Reino Unido. 

Não há a necessidade de que o governo russo conceda fontes de receitas perpetuamente pelo futuro afora para cobrir o déficit orçamentário de um ano. Se fizer isso, estará dando um passo a mais para o empobrecimento e para a perda de independência econômica e política.

A globalização não passa de uma ferramenta inventada e usada pelo Império Americano. A Rússia deve evitar abrir-se para a globalização, não aceitá-la. A privatização, por sua vez, é o veículo usado para minar a soberania dos países e permitir lucros crescentes através do constante aumento de preços.

Da mesma forma que as ONGs financiadas pelo capital ocidental operando na Rússia são uma quinta coluna contra os interesses nacionais russos, assim também o são os economistas russos neoliberais, compreendam eles ou não. A Rússia jamais estará livre das manipulações maquinadas pelo ocidente enquanto sua economia não estiver fechada para as tentativas de remodelar a economia russa no interesse de Washington e não no interesse da Rússia.

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