Educação, opção política e preconceito acadêmico

10 mar

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A vitória do candidato Lula no primeiro turno produziu análises interessantes. Houve quem viu no mapa da distribuição dos votos um país cindido entre pobres e ricos, o “atraso” e a “modernidade”, os “grotões” e as “metrópoles”. Governo e oposição passaram a discutir a quem interessava o discurso da divisão social. Líderes governistas chegaram a insinuar o risco da política brasileira se “venezualizar”. Assim, colocavam o PT e o governo como fator de manutenção da ordem social. O candidato da oposição, por sua vez, tratou de fazer o discurso a favor do “bolsa família” e dos pobres.

Os resultados do segundo turno jogaram por terra as análises apressadas. O candidato eleito ampliou sua votação mesmo nas regiões onde seu opositor foi vitorioso no primeiro turno. Mesmo na região Sul, onde a oposição venceu, a diferença foi menor.

Primeiro e Segundo turnos – Região Sul – Eleições 2006 [1]

O mapa eleitoral também mostrou o crescimento do presidente-candidato nos seguimentos de melhor renda e maior grau de escolaridade. Mesmo assim, a depender do analista, a “culpa” da eleição do Lula é dos pobres. Lançam-lhes à face a acusação de terem se vendido pelo preço de uma “bolsa família”. Os críticos “mais sensatos” contemporizam. Afinal, é inaceitável que os pobres tenham agido dessa forma por uma espécie de “lulismo genético” ou algo inerente à sua natureza humana. Para tais críticos o problema principal está na educação. Os pobres optaram pela reeleição de Lula porque são ignorantes, mal educados. De qualquer forma, a culpa é dos pobres![2]

Goya – Asta su Abuelo (1797/99) – Serie CaprichosQual a influência do grau de escolaridade dos eleitores sobre os resultados? O fato do eleitor não ter acesso à cultura dita erudita e aos títulos acadêmicos determina a opção política? Se considerarmos todas as pesquisas divulgadas entre os 1º e 2º turnos, que a votação do candidato Lula sempre foi menor entre os eleitores com maior grau de escolaridade e de renda. Porém, com o passar do tempo, ampliou-se a intenção de voto para o candidato eleito. Na primeira pesquisa do Datafolha para o segundo turno, realizada nos dias 5 e 6 de outubro, Alckmin tinha 56% dos votos entre os eleitores com ensino superior, contra 36% de Lula. Ou seja, o candidato derrotado estava com 21 pontos à frente.[3] Na última pesquisa, às vésperas da eleição, essa diferença caiu para 6% (50% a 44%).

Grau de escolaridade e renda estão intimamente vinculados. Portanto, os números relativos à intenção de voto segundo a renda familiar seguem a mesma tendência. Quanto maior esta menor a percentagem dos votos no candidato Lula. Desde o primeiro turno ele perdia de goleada para o outro candidato. Não obstante, a evolução dos números mostra o crescimento do candidato vitorioso no estrato com renda familiar acima de 10 salários mínimos. No início de outubro Alckmin tinha 69% contra 24% de Lula (diferença de 45%); na última pesquisa divulgada pelo Datafolha, Lula havia subido para 43% e Alckmin caído para 53% (diferença de 10%).[4]

Considerei apenas o estrato social mais elevado, pela escolaridade e renda familiar, porque é neste que se notabiliza o argumento contra os pobres. É neste setor da classe média que a ideologia do mérito mais se vincula à titulação, isto é, à conquista do diploma universitário.

O típico membro deste setor social concede ao título acadêmico um caráter quase sagrado. Imaginemos o graduando esforçado, cuja família o preparou a vida inteira para assumir o “seu” posto na universidade pública. Por passar no funil do vestibular, ou serem titulados, certos acadêmicos têm dificuldade em compreender como um indivíduo sem diploma universitário torna-se presidente do Brasil, e, o pior, por duas vezes. Esta aversão é estendida aos pobres em geral. Não são eles os principais sustentáculos do presidente reeleito?

Estamos diante de várias deturpações sobre as relações entre educação e política. Confunde-se conhecimento com informação, memorização com saber, diploma com cultura, especialização acadêmica com grau de inteligência. A principal deformação é aquela que identifica titulação com consciência política, como se bastasse ingressar na universidade para ser capaz de tomar as melhores decisões políticas.

Estamos diante de duplo preconceito: 1) contra o conhecimento vinculado ao senso comum, o “saber popular”; e, 2) a negação da capacidade de agir politicamente aos não incluídos no sistema de ensino. A depender destes “democratas”, a cidadania deve ser qualificada, isto é, restrita à elite pensante.

Ora, cultura não é sinônimo de sapiência, nem muito menos de consciência política. A adesão dos intelectuais a este ou àquele partido e líder político depende de fatores amplos e complexos e não simplesmente do título universitário. Isto deveria ser óbvio, mas aos preconceituosos não é. Claro, eles partem do princípio de que, por serem bem-informados, instruídos, acadêmicos, doutores e pós-qualquer-coisa, suas opções políticas são as corretas.

Ao criticarem os pobres, desconsideram que outros intelectuais, tão bem-informados e instruídos, têm a mesma posição daqueles. O argumento da ignorância cai por terra. Há aí uma dupla ofensa: aos pobres e aos acadêmicos que têm a mesma postura política destes. Da mesma forma que há uma intelectualidade de esquerda, sempre há os que apóiam os governos de direita. A opção política do acadêmico, discente ou docente com título de mestre e/ou doutor, é tao legítima quanto aquela do pobre analfabeto ou que não teve condições de ingressar na universidade. O que se questiona é a pretensa superioridade de uns sobre os outros.

Cultura não é igual a títulos acadêmicos; há uma cultura e sabedoria popular que não se fundamenta em livros ou títulos acadêmicos. Titulação e diplomas universitários não garantem por si uma opção consciente pela democracia; a opção pode ser oposta, ainda que em nome da democracia. Muitos destes críticos acadêmicos e pós-qualquer-coisa dissimulam tentações autoritárias. São indisfarçáveis elitistas.

Aliás, do ponto de vista da construção da democracia e da cidadania, muitas vezes é precisamente os que têm menor grau de escolaridade os que mais participam e demonstram consciência política da necessidade de transformar a realidade e o mundo em que estão inseridos. Há séculos são os titulados que governam. Se títulos acadêmicos fossem solução, o Brasil estaria numa situação bem melhor.

As posições políticas mudam. Ainda que o grau de escolaridade influencie, é equivocado vincular esta à opção política. Título acadêmico não é sinônimo de consciência política e não é a titulação que define se o indivíduo é de direita, esquerda ou se está nos extremos políticos. Há mestres, doutores e pós-doutores praticamente analfabetos em termos políticos. Há muitos que precisariam fazer uma espécie de curso fundamental com as pessoas simples que atuam politicamente.

Possuir títulos acadêmicos não significa automaticamente ter capacidade de discernimento. Muitos têm cultura acadêmica, mas não conseguem ver para além do próprio umbigo e nariz. Títulos acadêmicos não dão a ninguém qualquer superioridade natural. Tem muita gente por aí que nunca freqüentou a universidade mais que, podemos dizer, tem pós-doutorado em política.

Isto, é claro, numa análise geral que tem apenas o objetivo de refletir e ponderar, relativizando o peso dado à cultura, identificada com títulos acadêmicos, e ao preconceito que disto resulta em relação à cultura e saber popular e às opções políticas dos pobres.

Felizmente, também temos ótimos exemplos no meio acadêmico, tanto do ponto de vista da consciência de que também somos responsáveis diante dos dilemas políticos e sociais atuais quanto em relação ao reconhecimento da importância do que é comumente e preconceituosamente denominado como senso comum.

Sejamos humildes. Admitamos que o conhecimento acadêmico não é absoluto e que temos muito a aprender com o saber informal externo às nossas universidades; reconheçamos que nossos títulos não nos garantem infalibilidade política. Deixemos de lado a arrogância intelectual. Mesmo porque, a médio e longo prazo todos estaremos mortos. Eis a finitude que nos iguala e que põe a nu o engodo dos acadêmicos que se acreditam politicamente superiores, apenas porque os pobres não seguem os seus conselhos. Nossas escolhas políticas podem ser equivocadas ou corretas, independente da renda salarial e grau de escolaridade.
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Considerei apenas o estrato social mais elevado, pela escolaridade e renda familiar, porque é neste que se notabiliza o argumento contra os pobres. É neste setor da classe média que a ideologia do mérito mais se vincula à titulação, isto é, à conquista do diploma universitário.

O típico membro deste setor social concede ao título acadêmico um caráter quase sagrado. Imaginemos o graduando esforçado, cuja família o preparou a vida inteira para assumir o “seu” posto na universidade pública. Por passar no funil do vestibular, ou serem titulados, certos acadêmicos têm dificuldade em compreender como um indivíduo sem diploma universitário torna-se presidente do Brasil, e, o pior, por duas vezes. Esta aversão é estendida aos pobres em geral. Não são eles os principais sustentáculos do presidente reeleito?

Estamos diante de várias deturpações sobre as relações entre educação e política. Confunde-se conhecimento com informação, memorização com saber, diploma com cultura, especialização acadêmica com grau de inteligência. A principal deformação é aquela que identifica titulação com consciência política, como se bastasse ingressar na universidade para ser capaz de tomar as melhores decisões políticas.

Estamos diante de duplo preconceito: 1) contra o conhecimento vinculado ao senso comum, o “saber popular”; e, 2) a negação da capacidade de agir politicamente aos não incluídos no sistema de ensino. A depender destes “democratas”, a cidadania deve ser qualificada, isto é, restrita à elite pensante.

Ora, cultura não é sinônimo de sapiência, nem muito menos de consciência política. A adesão dos intelectuais a este ou àquele partido e líder político depende de fatores amplos e complexos e não simplesmente do título universitário. Isto deveria ser óbvio, mas aos preconceituosos não é. Claro, eles partem do princípio de que, por serem bem-informados, instruídos, acadêmicos, doutores e pós-qualquer-coisa, suas opções políticas são as corretas.

Ao criticarem os pobres, desconsideram que outros intelectuais, tão bem-informados e instruídos, têm a mesma posição daqueles. O argumento da ignorância cai por terra. Há aí uma dupla ofensa: aos pobres e aos acadêmicos que têm a mesma postura política destes. Da mesma forma que há uma intelectualidade de esquerda, sempre há os que apóiam os governos de direita. A opção política do acadêmico, discente ou docente com título de mestre e/ou doutor, é tao legítima quanto aquela do pobre analfabeto ou que não teve condições de ingressar na universidade. O que se questiona é a pretensa superioridade de uns sobre os outros.

Cultura não é igual a títulos acadêmicos; há uma cultura e sabedoria popular que não se fundamenta em livros ou títulos acadêmicos. Titulação e diplomas universitários não garantem por si uma opção consciente pela democracia; a opção pode ser oposta, ainda que em nome da democracia. Muitos destes críticos acadêmicos e pós-qualquer-coisa dissimulam tentações autoritárias. São indisfarçáveis elitistas.

Aliás, do ponto de vista da construção da democracia e da cidadania, muitas vezes é precisamente os que têm menor grau de escolaridade os que mais participam e demonstram consciência política da necessidade de transformar a realidade e o mundo em que estão inseridos. Há séculos são os titulados que governam. Se títulos acadêmicos fossem solução, o Brasil estaria numa situação bem melhor.

As posições políticas mudam. Ainda que o grau de escolaridade influencie, é equivocado vincular esta à opção política. Título acadêmico não é sinônimo de consciência política e não é a titulação que define se o indivíduo é de direita, esquerda ou se está nos extremos políticos. Há mestres, doutores e pós-doutores praticamente analfabetos em termos políticos. Há muitos que precisariam fazer uma espécie de curso fundamental com as pessoas simples que atuam politicamente.

Possuir títulos acadêmicos não significa automaticamente ter capacidade de discernimento. Muitos têm cultura acadêmica, mas não conseguem ver para além do próprio umbigo e nariz. Títulos acadêmicos não dão a ninguém qualquer superioridade natural. Tem muita gente por aí que nunca freqüentou a universidade mais que, podemos dizer, tem pós-doutorado em política.

Isto, é claro, numa análise geral que tem apenas o objetivo de refletir e ponderar, relativizando o peso dado à cultura, identificada com títulos acadêmicos, e ao preconceito que disto resulta em relação à cultura e saber popular e às opções políticas dos pobres.

Felizmente, também temos ótimos exemplos no meio acadêmico, tanto do ponto de vista da consciência de que também somos responsáveis diante dos dilemas políticos e sociais atuais quanto em relação ao reconhecimento da importância do que é comumente e preconceituosamente denominado como senso comum.

Sejamos humildes. Admitamos que o conhecimento acadêmico não é absoluto e que temos muito a aprender com o saber informal externo às nossas universidades; reconheçamos que nossos títulos não nos garantem infalibilidade política. Deixemos de lado a arrogância intelectual. Mesmo porque, a médio e longo prazo todos estaremos mortos. Eis a finitude que nos iguala e que põe a nu o engodo dos acadêmicos que se acreditam politicamente superiores, apenas porque os pobres não seguem os seus conselhos. Nossas escolhas políticas podem ser equivocadas ou corretas, independente da renda salarial e grau de escolaridade.

Espaço Acadêmico

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