Sobre o velho novo mundo do trabalho.Por David Deccache

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SOBRE O VELHO NOVO MUNDO DO TRABALHO.

“O mundo do trabalho está mudando”. Será? E seria o empreendedorismo a solução para este novo mundo?

O mundo do trabalho está mudando? Sim, está. E desde o nascimento do capitalismo. A natureza do capital é substituir cada vez mais — e com velocidade crescente — mão-de-obra por máquinas. Nada de novo sob o sol. Produzimos cada vez mais necessitando cada vez menos de trabalho. Keynes, em 1930, dizia que :

“O aumento da eficiência técnica aconteceu de modo mais rápido do que nós podemos lidar com o problema da absorção da mão-de-obra (…) Nós estamos sendo afligidos por uma doença nova em cujo nome alguns leitores podem ainda não ter ouvido falar, mas com a qual eles lidarão nos anos vindouros – a saber, o “desemprego tecnológico”. Isto significa desemprego devido a nossas descobertas de meios de economizar o uso da mão-de-obra ocorrendo em ritmo maior que o passo no qual nós podemos achar novos usos para a força de trabalho.”

Marx, ainda no século XIX, também apontava tal contradição como sendo a própria natureza do capital.

Dada uma economia baseada no livre-mercado, três efeitos são derivados desta mudança: concentração de renda na mão dos detentores dos meios de produção, desemprego para a grande maioria da população e um processo de superacumulação de capital que não consegue se realizar. Este é o efeito da tecnologia a serviço única e exclusivamente dos lucros.

Contudo, Keynes acreditava que o avanço tecnológico seria essencial para que no futuro o homem finalmente se libertasse do seu mais primitivo problema econômico: o fardo do trabalho na luta pela subsistência. Sob a nova condição, Keynes previa que haveria possibilidades únicas para que, finalmente, o homem pudesse desfrutar de toda a sua verdadeira humanidade. O Lord indagava: por que não apenas 3 ou 4 horas de trabalho e todo o restante do dia destinado ao lazer, à família e amigos, às artes e poesia, ao esporte, enfim, à contemplação da vida e do belo?

É claro que em um sistema de produção baseado única e exclusivamente na geração de mais-valor, de lucro, o paraíso na terra esperado por Keynes nunca chegará. É preciso avançarmos para outro modo de organização social. Contraditoriamente, todo o avanço tecnológico que acumulamos, ao contrário do que Keynes previa em 1930, não nos permitiu trabalhar menos e ter mais tempo para às artes, esportes, poesia, ou seja, para o belo. Aliás, como é no caso da uberização – a especificidade histórica atual da exploração do trabalho – a tecnologia tem servido, em grande parte, para otimizar a exploração do trabalho. Vende-se como solução para o desemprego tecnológico a possibilidade do trabalhador se tornar um empreendedor de si mesmo sob o falso signo das chamadas parcerias. As propagandas da Uber, para ficarmos em um exemplo, focam em slogan como: “seja livre, seja seu próprio patrão”. Livre para quê? Para trabalhar 16 horas por dia como um operário inglês durante a primeira revolução industrial há séculos atrás?

Por fim, para um problema não tão novo assim, velhas soluções – necessárias e talvez não suficientes – podem ser colocadas sobre a mesa.

Devemos taxar de forma pesada os ganhos do capital para redistribuirmos o excedente produzido. Ao mesmo tempo, este excedente taxado deveria ser direcionado à expansão do estado de bem-estar social: creches em tempo integral, cuidados de saúde e proteção para a população idosa (que é crescente), melhorias no sistema de transporte público, geração de empregos nas áreas da cultura e do esporte. Desenvolvimento de tecnologias sustentáveis em termos de energia limpa e recuperação do meio-ambiente também devem ser colocadas na agenda. Enfim, para a realização das necessidades anteriores será preciso de muitos trabalhadores. No caso de países periféricos as possibilidades são ainda maiores: por que não usarmos o nosso imenso número de desempregados para resolver o problema do saneamento básico e da falta de acesso de grande parte da população à água encanada. E o problema da moradia, quantos hoje vivem nas ruas das grandes capitais?

E poderíamos construir tudo isso com uma jornada de trabalho muito reduzida sem redução salarial. Claro, os desafios de se encarar a natureza do capital são gigantes, mas devemos ousar. E, para ousarmos, é necessária muita luta de classe.

Há o epitáfio tradicional escrito para si própria pela velha arrumadeira (Keynes, 1930):

Não chorem por mim, amigos,
nunca por mim se lamentem,
Pois eu irei fazer nada,
sempre e para todo o sempre
(…)
Com salmos e doce música
os céus estarão tocando,
Mas aí não terei nada…
nada que ver com tais cantos

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