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Ocupação Cambridge une luta e arte pelo direito à cidade

19 out

 

Experiência de cinema colaborativo em São Paulo aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática
por Carolina Caffé publicado 16/10/2016 11:00, última modificação 17/10/2016 06:40
JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO
Ocupação Cambridge

Filme reúne atores consagrados, como José Dumont, e personagens da vida real, como a líder da ocupação Carmen

Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.

PAULO CÉSAR LIMA/ERA O HOTEL CAMBRIDGEEliana
A diretora Eliane Caffé conviveu com moradores durante quase três anos

Situado no primeiro quarteirão da Avenida 9 de Julho, vizinho do Vale do Anhangabaú, o Hotel Cambridge é dos tempos da “terra da garoa”, inaugurado em 1951. Cerrou as portas em 2002, resistindo ainda algum tempo – antes de fechar de vez – como espaço de festas e eventos, num lobby agitado encimado por andares abandonados. Acabou ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). O edifício sem elevador tem 15 pavimentos e 241 quartos. Após a ocupação, um mutirão de limpeza removeu 15 toneladas de lixo em caçambas de quase 60 caminhões. A reciclagem não era apenas do lixo, mas também do espaço, que deixava de ser um lugar sem função social para abrigar mais de 170 famílias, cerca de 500 pessoas.

“Além de moradia, aqui promovemos ações e debates, para que o direito constitucional que garante a moradia seja cumprido pelo Estado, corrigindo as falhas cometidas há décadas pelo poder público na distribuição urbanística e habitacional das cidades brasileiras”, afirma Carmen Silva, líder da ocupação e da Frente de Luta por Moradia (FLM). O movimento atuou no centro, pois entende que a morada digna não é apenas “telhado e quatro paredes”, mas estar cercada por serviços públicos como transporte, escola, posto de saúde, creches, faculdades e oportunidades de trabalho. A luta é pelo direito à cidade.

CAROLINA CAFFÉCrianças
Horta no telhado, participação de crianças e continuidade do intercâmbio social e cultural depois das filmagens

Shopping rua

Chamam a atenção na ocupação diversos aspectos, entre os quais a gestão coletiva do espaço. As famílias dividem a limpeza e se responsabilizam pelas áreas comuns do prédio. Quando há um morador novo, uma força tarefa busca nas ruas móveis e objetos que possam ser reutilizados (o que eles chamam de “shopping rua”). Há horários limitados para visita, não se tolera o uso de drogas e todos devem participar das assembleias e ações do movimento pela cidade. Para quem vem de fora, impressiona o nível de participação dos moradores em assembleias, fóruns, conferências municipais, passeatas e decisões sobre o orçamento público da cidade. Uma verdadeira aula de cidadania e cuidado com o bem comum.

A liderança feminina também se destaca. “Temos muitas heroínas por aqui”, conta Carmen. “As mulheres ocupam cada vez mais o espaço de luta, defendendo suas famílias e a moradia digna.” Ela própria é uma dessas. Cansada das agressões domésticas, trocou Salvador por São Paulo. Deixou com a família os sete filhos e voltou para buscá-los anos depois. Chegou em São Paulo com as mãos vazias e cheia de esperança no peito. Morou de favor na casa de amigos até saber de uma ocupação no centro. Começava ali a emocionante trajetória de uma vida política marcada por lutas e conquistas, até se tornar líder do movimento que abriga, em mais de 60% dos casos, mães solteiras como ela.

Também nas ocupações do centro vários refugiados encontraram base para nova vida. A ausência de políticas públicas para imigrantes e refugiados faz das ocupações uma alternativa de adaptação e integração com a cidade. Vindos do Congo, Haiti, Senegal, Togo, Camarões, Benin, Colômbia, Peru, Bolívia, República Dominicana e Palestina, procuram, além de uma vida melhor, emprego e um meio de enviar dinheiro para seus familiares nos países de origem. “Quando o refugiado chega na cidade não tem onde dormir. O Brasil abriga cerca de 9 mil refugiados, e em São Paulo são apenas 340 leitos no centro de acolhida”, afirma Pitchou Luambo, refugiado da guerra pelo minério na República Democrática do Congo – e morador da Ocupação Cambridge.

ERA O HOTEL CAMBRIDGE/DIVULGAÇÃOfilmagens.jpg
Tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia

Cinema colaborativo

A diversidade cultural resultante desse encontro entre brasileiros de diferentes regiões, imigrantes e refugiados, inspirou a cineasta Eliane Caffé a produzir o filme Era o Hotel Cambridge. “O que me interessava retratar era o choque cultural entre refugiados e brasileiros, e aí apareceu o tema das ocupações. Mas no lugar do choque encontramos semelhanças: tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia”, diz.

Nas oficinas preparatórias, em que Eliane reuniu os refugiados para o estudo e escolha dos “personagens”, foi formado o Grupo dos Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que decidiu expandir os encontros para além do filme. Hoje, o Grist promove debates e palestras sobre refúgio, história africana, xenofobia, racismo e descriminação e promove cursos, campanhas, festivais e shows para difusão e valorização da cultura. Em um ano, o grupo realizou o 1º Fórum dos Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo, o 1º Festival Musical dos Refugiados de São Paulo (no Largo da Batata, tradicional palco de manifestações na zona oeste) e o evento Conexão Cultural (no Museu da Imagem e do Som, o MIS).

E não foi o único coletivo que se originou no contexto da gravação de Era o Hotel Cambridge. O filme inspirou a formação e o cruzamento de novas ações e movimentos. Um verdadeiro laboratório social e cultural, fazendo São Paulo despertar para uma forma incomum de pensar o cinema: como um legado social. A experiência desafiou as estruturas hierárquicas e tradicionais de direção e produção, propondo uma forma participativa, colaborativa e inclusiva.

O filme mistura ficção e documentário e narra a trajetória de um grupo de refugiados recém-chegados, que se unem aos sem-teto e dividem a ocupação de um antigo edifício no centro de São Paulo. Foi realizado por meio de um processo colaborativo entre a Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da ­Escola da Cidade e o MSTC. O elenco reúne atores profissionais, como José Dumont e Suely Franco, e atores sociais: os moradores, que interpretam a própria história.

Durante a fase de criação do roteiro, pesquisa e seleção dos personagens, além dos encontros dominicais com o grupo dos refugiados, foram realizadas oficinas de vídeo com os moradores da ocupação, e o observatório web, com exibições e debates. Toda a produção artística envolveu moradores, não apenas como parte da equipe, mas usando dos seus saberes e tecnologias, como o shopping rua.

A professora de Desenho e Arquitetura Carla Caffé, da Escola da Cidade, também diretora de arte de Era o Hotel Cambridge, elaborou um curso para que os alunos colaborassem com o desenho e produção de arte, como na definição de cores, tecidos, imagens, animações, figurinos e cenários. A ideia foi fazer um “cinema de intervenção”em vez de um “cinema de passagem”. Tudo o que fosse construído para os cenários não deveria ser desfeito, e sim ter uma função, um legado, enquanto a ocupação existir.

A disciplina foi realizada com 21 estudantes e o professor Luís Felipe Abbud. A atividade experimental uniu ensino de arquitetura ao de direção de arte cinematográfica. A disciplina trouxe à tona problemáticas urbanas como a compreensão e atuação com um movimento social de luta por moradia (MSTC) e o reúso inteligente de materiais descartados, em oficinas com o Coletivo Basurama. “Equipamos a biblioteca, o brechó, a área das costureiras e o saguão de entrada do hotel”, diz Carla. “Equipamos os pontos de encontro e interação dos espaços comuns do edifício, para incentivar o espírito de coletividade do movimento.”

Os encontros de pesquisa e criação com os personagens sociais começaram a reunir entusiastas de todos os campos e ganhar vida própria. Mesmo depois de as gravações terminarem, o intercâmbio social e cultural era tão forte que muitos da equipe do filme resolveram continuar­ suas ações e oficinas, e novos movimentos começaram a brotar na ocupação: a fome dos paulistanos em ocupar, sair das bolhas, cruzar fronteiras e desafiar a ordem.

A construção da horta comunitária no telhado do prédio – com o Coletivo Habitacidade –, aulas de dança africana, intervenções de jornalistas independentes, grupos de trabalho em psicanálise – conduzidos por profissionais do Instituto Sedes Sapientiae –, a formação do Centro de Assistência à Saúde dos Imigrantes e Refugiados (Casir) e ações do coletivo interdisciplinar Linha de Frente e da Residência Artística Cambridge são algumas das ações que acontecem hoje no local.

Era o Hotel Cambridge ganhou prêmio e foi lançado em setembro deste ano no Festival San Sebastián, na Espanha, um dos mais importantes do mundo. Ganhou reconhecimento internacional em exposições como no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o MIT, nos Estados Unidos), em março. No Brasil, deve entrar em cartaz no início de 2017.

“Eu gostaria de seguir esta experiência de um filme expandido também na fase de comercialização”, diz Eliane. “Os festivais convidam, pagam passagem ­aérea geralmente para diretor e produtor. Quando você chega lá no tapete vermelho tem a mídia imensa esperando você passar, e quando a gente fala em lançamento expandido, quer dizer não deixar o pessoal do movimento fora dessa, e aproveitar a oportunidade para fazer novas articulações similares em evento que estão acontecendo no mundo, de ocupação e de refugiados.”

Na Espanha, Carmen Silva, do MSTC, conheceu e fez alianças com lideranças da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), associação surgida em fevereiro de 2009 em Barcelona. “Estamos conseguindo levar para fora a nossa luta”, celebra Carmen. “É uma grande oportunidade de dar visibilidade ao movimento que sempre foi muito discriminado pela mídia. O filme permitiu mostrar que não somos vândalos, e sim famílias e trabalhadores lutando pelos direitos garantidos na nossa Constituição.”

PAULO CÉSAR LIMAocupacao12_foto_paulo_cesar_lima.jpg

Fachada do Cambrige, no centro de São Paulo: ocupação em hotel fechado em 2002 reúne 500 pessoasDireito de ocupar

Em tempos em que o espaço público das cidades se vê ultrajado por bombas de efeito moral e balas de borracha, ocupar virou palavra de ordem para quem defende a democracia e a vida. Como diz o poeta Hamilton Faria, sociólogo do Instituto Pólis: “É preciso desobedecer as práticas antidemocráticas: na vida cotidiana, nas instituições e na sociedade em geral. Ocupar não é invadir. É entrar pacificamente e dizer ‘olha, eu tenho voz e isso me pertence’. A Funarte não é do Ministério da Cultura, as escolas não são do governo estadual, os espaços públicos não são do governo. Eles são públicos”.

O conceito do Direito à Cidade tem ganhado visibilidade e reconhecimento, não apenas entre a sociedade civil mas também dos governos mundiais (como a inclusão do termo na Nova Agenda Urbana, documento oficial da Organização das Nações Unidas). A arquiteto e curador Guilherme Wisnik lembra que a ideia de Direito à Cidade para Henri Lefebvre (filósofo francês, autor do conceito) implicava não em um direito aos serviços da cidade exatamente, mas um direito de transformar a cidade. Inventar uma nova cidade a partir do real.

Segundo Wisnik, o pensamento ficou esquecido por no mínimo duas décadas (de 1980 e 1990) de predominância do pensamento neoliberal de que tudo aquilo que foi postulado como possibilidade transformadora nos anos 60 tinha se revelado impossível, segundo o raciocínio pragmático. “Mas na virada do século aconteceu por diversas frentes uma espécie de ataque ao coração do sistema, e essas manifestações se desdobraram em possibilidades reais de que o sistema pudesse ser mudado”, afirma.

A Ocupacão Cambridge não é apenas um marco de resistência ao modelo individualista, competitivo e alienado das cidades modernas capitalistas. É, ao mesmo tempo, um modelo a ser observado e aprendido como paradigma de cidade e relações humanas. As soluções para os grandes problemas que vivemos nas cidades não precisam ser inventadas, mas reconhecidas e fortalecidas. Era o Hotel Cambridge é um exemplo de apropriação das tecnologias e saberes produzidos nas ocupações.Assista à reportagem da TVT sobre o filme

RBA

CURSO PARA O COXINHA ESCLARECIDO. Por Azenha Luis

15 jul

 

http://www.coxinharei.com.br/wp-content/uploads/2016/05/

Agora que você conseguiu derrubar uma presidente da República com premissas e argumentos falsos, é hora de sofisticar sua capacidade de debate.

Não seja confundido com um mero seguidor do intelectual pornô Alexandre Frota. Pega mal na turma. Você certamente é muito mais sofisticado que isso.

Provavelmente você é admirador dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, do Estado Mínimo, escrito assim em maiúsculas para denotar a centralidade deste item na pauta neoliberal.

Nunca confunda uma coisa com outra. Por mais que a Miriam Leitão sugira isso, os Estados Unidos NÃO SÃO um Estado Mínimo.

Palavra de quem morou lá duas décadas e tem duas filhas novaiorquinas (na verdade, de tripla nacionalidade, dentre as quais preferem a brasileira), com direito a tirar proveito do estado de bem estar social dos Estados Unidos.

Você costuma confundir estado de bem estar social com comunismo (como em Bolsa Família, médicos cubanos, etc.). Nos Estados Unidos, ele é resultado do ANTICOMUNISMO.

Prestenção: quem implantou o estado de bem estar social nos Estados Unidos foi o presidente Roosevelt. O país vinha do crash econômico de 1929. Depressão econômica. Os sindicatos eram fortes. Para cooptar os sindicatos e evitar a ascensão dos comunistas, Roosevelt resolveu implantar programas sociais e SALVAR O CAPITALISMO. Portanto, as coisas que ele bolou e implantou eram uma forma de combater o comunismo. Portanto, anticomunistas.

Chamar o Roosevelt de comunista é tão absurdo quanto chamar o Lula ou a Dilma ou o PT de comunista. Eles são SOCIAL DEMOCRATAS.

No Brasil, o partido que tem social e democratas no nome não é nem uma coisa, nem outra.

Voltemos aos Estados Unidos. Por mais que a partir daquele seu grande herói, o Reagan, os EUA tenham dilapidado o estado de bem estar social, os pilares deles subsistem: Social Security, Medicare, Medicaid e Food Stamps.

Pode chamar de Previdência Social, Bolsa Terceira Idade, Bolsa Plano de Saúde e Bolsa Família.

Essa ideia, de que o Estado deve ajudar a cuidar dos mais fodidos, é uma coisa antiga, que surgiu em outro país que você admira muito, a Alemanha. Mas não quero dar overload de informação no seu cérebro.

Basta você registrar isso: por causa dos programas sociais acima — e de outros FATOS que apresentarei em seguida — os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Pelo contrário, os EUA se assentam sobre um MEGAESTADO, muito maior que o brasileiro.

Se você quer alguns exemplos de Estado Mínimo, eu os ofereço: México, Honduras e Paraguai, países que você certamente despreza e NUNCA utiliza como exemplo para reforçar seus argumentos.

Portanto, sempre que você falar em Estado Mínimo, esqueça os Estados Unidos e diga: “Devemos fazer como lá no Paraguai, que…” Acrescente, em seguida, os argumentos pelos quais o Brasil deve seguir o mesmo caminho. A gente quer coxinhas sofisticados E intelectualmente honestos!

Foto do perfil de Azenha Luiz

Luis Carlos Azenha

É um jornalista brasileiro, já tendo trabalhado em várias emissoras do país, como Globo, SBT e Manchete, e contratado em outubro de 2008 pela Rede Record.

É fundador do famoso site “Viomundo”

Os inimigos de Lula e os milhões de Silvas

11 fev

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O que não é razoável é o silencio das esquerdas com a violência politica da qual o ex-presidente Lula é vitima

Por Jaime Amparo Alves – de Nova York:

“Não parece razoável o que estão fazendo com o Lula”. A frase do tucano Luís Carlos Bresser-Pereira poderia ser o sinal da tão esperada distensão política, mas não é por um único motivo: Lula não é adversário, é inimigo. Ao adversário se estende a mão, reconhece-se a sua dignidade humana e se respeita as regras do jogo. Lula nunca foi aceito.
Desde o primeiro dia do primeiro mandato, Lula tem sido submetido a um ataque sistemático. A Folha de São Paulo investigou uma tal propensão genética da família Silva ao álcool, a RevistaVeja já celebrou o ‘câncer do presidente’ e o Globo já apresentou Lula como presidiário em suas charges. Tudo isso sem falar na violência sanitarizada dos telejornais da Globo com seus apresentadores cinicamente consternados com a corrupção no país, enquanto a empresa segue mergulhada em fraudes fiscais. Na ausência absoluta de padrões éticos jornalísticos, nos resta perguntar se a raiva irracional de William Waack contra Lula, Hugo Chavez e Cristina Kirchner, por exemplo, não seria o caso de tratamento psiquiátrico.

No fundo no fundo, até os incendiários Aécio Neves e Carlos Sampaio sabem que “não é razoável” como a imprensa trata o ex-presidente Lula. Mas Lula da Silva foi longe demais em sua loucura política de desafiar o establishment; e olhe que, para aqueles de nós frustrados com o PT, Lula fez muitas concessões e perdeu a oportunidade de fazer as mudanças radicais que o Brasil tanto precisa; entre elas, a urgente e cara ley dos médios, a reforma agrária, e a justiça tributária. Inútil chorar o leite derramado aqui porque segue derramando. O governo Dilma Rousseff segue implacável no mesmo script com o agravante de que em sua tecnicidade Dilma nega a política, se afasta do povo e afasta de vez a esperança na tão sonhada virada de mesa do primeiro governo, do segundo, do terceiro, do quarto.

Ainda que Lula tenha alimentado os seus próprios predadores na esperança inútil de que fazendo concessões estratégicas, a elite permitiria um governo popular, ir às ruas defendê-lo é um dever de todos aqueles com um mínimo de educação politica e de perspectiva histórica. A perseguição implacável que sofre é um indicativo das suas virtudes, não dos seus defeitos. Lula não é atacado porque fez menos do que o Brasil precisa, mas sim porque ousou arranhar a centenária estrutura hierárquica do país trazendo os pobres para o debate nacional. A não ser que as forças políticas de esquerda corroborem com o moralismo dirigido do conglomerado policial-midiático segundo o qual o PT é o partido mais corrupto da história, a perseguição implacável a Lula deveria despertar uma solidariedade política estratégica. A mensagem é clara aqui: se Lula, com suas concessões pragmáticas, se converteu em inimigo mortal, imagine a máquina de guerra que seria montada contra um hipotético governo muito mais à esquerda? Talvez o tratamento editorial da Globo ao presidente venezuelano Hugo Chavez – o sorriso mal disfarçado dos apresentadores da Globo News com a sua morte – nos dê uma milésima dimensão de como seria o terror midiático a um projeto político radical que as forças mais à esquerda do PT defendem e que o Brasil urgentemente precisa.

Que a imprensa trate Lula como inimigo é explicável e deveria até fazer bem ao ego do ex-presidente. Ter a mídia como inimiga é um termômetro importante. O que não é razoável é o silencio das esquerdas com a violência politica da qual o ex-presidente é vitima, como se os movimentos sociais e os partidos neste espectro políticos não fossem os próximos da fila. Eles virão por nós!

Não é uma incongruência defender o legado de Lula da Silva e criticar o pragmatismo político que nos trouxe ao momento atual. Tampouco se trata de relativização moral porque o que está em questão aqui não é provar sua inocência. Tarefa inútil. Há neste momento toda uma estrutura estatal, incrivelmente sob o comando do ministro da Justiça do PT, para encontrar um ‘crime’ praticado pelo ex-presidente. Perguntar não ofende: quem de nós sobreviveria a tamanha cruzada policial-midiática? Não me refiro a uma checagem de antecedentes criminais ou a uma varredura em contas no exterior, mas a todo um aparelho policial estatal orientado a encontrar um crime, um arranhão na biografia, um desvio na conduta dos filhos, dos vizinhos, dos amigos.

Não há tempo a perder. Se há alguma lição a se aprender do julgamento do ‘mensalão’ é que a defesa de Lula da Silva deve acontecer nas ruas e nas mídias sociais porque é perda de tempo lamentar a inimputabilidade tucana sob a plutocracia judiciária. Juízes, promotores e delegados têm alma, classe social e partido político. Senão, como explicar as aberrações jurídicas com assento na suprema corte e com suas retóricas anti-petistas nos e fora dos autos? Leigos nos assuntos legais, eu e meu sobrinho de sete anos sabemos que “não é razoável” que um juiz falastrão utilize suas prerrogativas (e o nosso dinheiro!) para militância político-partidária e que seja endossado pelo silêncio ensurdecedor dos seus pares. Mania de perseguição? Nas mãos petistas um cartão corporativo, uma tapioca, uma canoa de lata ou o empréstimo de um sítio em Atibaia têm mais peso policial-midiático do que um apartamento na Avenida Foch, no centro de Paris, um helicóptero com 450 toneladas de cocaína, as fraudes do metro paulistano, ou cinco milhões de dólares em bancos suíços.

A tentativa de assassinato da biografia da figura mais marcante da vida política nacional contemporânea tem um outro significado importante. Com o assassinato político de Lula abre-se caminho para o desmonte da política soberana do pré-sal e para o retrocesso nas conquistas sociais como o Bolsa Família e as cotas raciais nas universidades públicas. É o que está por trás da violência contra Lula da Silva e é o que deveria nos unir em sua defesa.

A história haverá de colocar em seus devidos lugares dois presidentes, em dois brasis e com duas trajetórias distintas. Um, o presidente sociólogo, poliglota, membro da Academia Brasileira de Letras, descendente de imigrantes portugueses, frequentador dos círculos acadêmicos norte-americanos – levou a cabo um criminoso programa de privatizações do patrimônio público e alienação da soberania nacional. O outro, o presidente nordestino, metalúrgico, sem formação superior, e sem etiquetas no falar – resgatou a esperança de milhões de brasileiros submetidos à humilhação da fome e da seca. Nossos netos lerão nos livros de história sobre um presidente semi-analfabeto, que abriu as portas do ensino superior para milhões de jovens condenados por um presidente-sociólogo a repetir os passos dos seus pais envelhecendo fora das universidades. A história não poderá apagar o nome do presidente nordestino que, não sendo poliglota como o presidente-sociólogo, inseriu o Brasil como país soberano na cena política mundial. Talvez quem hoje tenha 20 anos de idade ou nasceu sob o governo do PT não tenha um parâmetro para comparar o que era a vida dos mais pobres há uma década. Eu tenho. Como jovem e membro da Pastoral da Criança, durante os últimos resquícios da teologia da libertação no interior da Bahia, eu conheci de perto a fome, a desnutrição e a morte. Pesávamos crianças raquíticas, de pais raquíticos, com salários raquíticos. Era morte produzida pelas políticas sociais do presidente sociólogo e sua turma. Agora eles perseguem a capa do jornal matutino com Lula da Silva algemado. Talvez ganhem a foto, mas perderão o sono. Somos Lula! #‎LulaEuConfio.

Jaime Amparo Alves, é Doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas em Austin e professor de sociologia e antropologia da City University of New York (CUNY/CSI)

Correio do Brasil

QUERIDA AMIGA MARIANA MAYOR

4 fev

Por Sergio Ricardo

A memória como ja lhe disse, dentre milhões de acontecimentos vividos nessa trilha agitada de minha rota artística, recusou-se a armazenar detalhes, para me reservar o espirito compartilhado com amigos e correligionários, maior parte dos quais nem de seus nomes ou fatos me deixa lembrar com exatidão, o que me conduz a fazer uma síntese não dos fatos ou pessoas, mas da importância de uma luta vivida com tanta entrega, tanto amor à causa e ao povo brasileiro, como nunca mais vi em nossa história.

Eramos basicamente uma grande família de guerreiros dispostos a tudo para atingirmos nossos objetivos políticos e culturais e até mudamos radicalmente alguns caminhos, como a bossa nova, por exemplo, cedendo lugar a um canto mais abrangente de congregação e elucidação dos crimes morais contra nosso povo, exaltando e reinventando sua emancipação, a ponto de abrirmos mão das conquistas estéticas adquiridas pela Bossa, visando a comunicação de nossos ideais para alcançarmos a alma brasileira com a linguagem que lhes chegasse como a sua própria, tanto na música, no cinema, no teatro etc.

Um diálogo sem rodeios imposto pela falsa erudição dessa elite que acreditava estar reinventando um Brasil, arremedando outros povos e outras culturas que nos colonizavam em troca de nossos bens, e mergulhados cada vez mais na nossa ignorância, tão vasta quanto a dimensão de nossas matas por esse continente generoso.

A mesma chama que conduzia Chico de Assis, Vianinha, Boal, Guarnieri, João das Neves, Aracy Balabanian, Renato Consorte, Rolando Boldrim, Carlos Lyra, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Antonio Fagundes, Myriam Muniz, Plinio Marcos, Sidney Miller, era a mesma que conduzia uma infinidade de amigos, em CPCS, Feiras de Opinião, Teatro de Arena, palcos e shows e peças de teatro, na tela do Cinema Novo, pelas faculdades, caatingas nordestinas, passeatas, porta de fábricas, onde quer que o povo pudesse ter acesso para se esclarecer dos fatos e luta em busca da solução.

E já se avistava um novo Brasil ancorando nos portos de norte a sul do país. Foi uma época gloriosa e mesmo calados pela censura da ditadura, nossa semente germinou na alma dos artistas que posteriormente foram surgindo.

Chico de Assis, por exemplo, a quem você se refere, foi meu parceiro em Brincadeira de Angola, amigo e irmão, batizou minha filha Adriana e nos tornamos compadres.

Um dos fundadores do CPC, teatrólogo e líder nato, teve suas idéias e peças encenadas para camponeses, elucidou muitas cabeças pensantes, e deixou uma obra importante, volta e meia encenada por esse país a fora.

Devo à sua lucidez minha transformação ideológica e seus ensinamentos estão espalhados pelo meu trabalho como uma luz no fim do túnel.

A mesma luz que estamos todos, os que queremos libertar nosso pais, tentando alcançar, apesar das “cunhas” cravadas por essa corja tentando embarreirar nosso processo libertário.

COMPLEXO DE CACHORRO DE RAÇA (nada contra os adoráveis vira-latas) por Carlos Castro

7 jul

Carlos Castro Via Dislene de Lemos

Artigo do meu amigo Carlos Castro. Leiam e compartilhem!!!FIFA intransigente!!
COMPLEXO DE CACHORRO DE RAÇA (nada contra os adoráveis vira-latas):
No início da década de 1980 veio à Fortaleza, cidade em que moro, uma comissão da FIFA para avaliar o estádio Castelão, que à época tinha um gramado excelente para os padrões de então, fato raro no Brasil.

O motivo era uma dupla remota possibilidade: primeiro o Brasil ser sede de uma copa do mundo e segundo Fortaleza ser sub-sede do evento, quando teria a chance de ter alguns jogos de menor importância.

Mesmo assim, um sonho distante para um adolescente apaixonado por futebol.

O tempo passou, tornei-me médico, as coisas mudaram, até um ex operário conseguiu se tornar Presidente da República. Homem sensível ao “lado” pobre da nação, não viu no Nordeste apenas um lugar em que as pessoas mais pobres, de forma emergencial, precisavam ter suas necessidades básicas atendidas.

Mais que isso, criou universidades, criou empregos, melhorou a infra-estrutura, desenvolveu projetos agrícolas….. Deu o peixe e ensinou a pescar, embora se saiba o processo é longo e contínuo, afinal são quinhentos anos de carência.
Bom, mas esse Homem trouxe uma copa do mundo para o Brasil e não nos esqueceu, nossa região teria quatro sedes de jogos. Dentre esses jogos uma quarta de final com a possível participação de nossa Seleção em Fortaleza. Não tive dúvidas, quando abriram as inscrições para compra de ingressos lancei todas as fichas no referido jogo. Duas grandes alegrias: quando fui sorteado para efetuar a compra e quando recebi o ingresso. Guardei como um tesouro a “jóia rara”.
Tudo conspirou a meu favor, Brasil classificado para enfrentar a Colômbia no Castelão, hoje não mais aquela obra inacabada dos anos 80, mas um estádio monumental. Um jogo decisivo de copa do mundo com a participação da “Amarelinha”, simplesmente surreal. Dias de ansiedade e finalmente uma noite inteira acordado, exatamente aquela que precedeu o grande dia.
Com o ingresso no bolso e a alegria estampada na face, a despeito do sono, parti para o estádio acompanhado de alguns amigos. Começamos a enfrentar a intransigência da “dona” FIFA a dois quilômetros do estádio, imposição da mesma, quando descemos do ônibus e com sol a pino entramos nas grades de “proteção” a caminho do evento. Já praticamente nas escadas do Castelão, um pequeno tumultorepentino de torcedores próximo a nós. Começamos a subir as escadas, coloco a mão no bolso para pegar e apresentar o ingresso na entrada… Desespero, ele não mais estava lá, tinha-se “ido” no tumulto…
Depois entendi que o mesmo golpe havia ocorrido com mais de cem pessoas e da mesma forma. Era o início do fim do sonho. Fui à delegacia mais próxima, registrei um boletim de ocorrência, dirigi-me ao setor de tickets da FIFA, verificaram que ainda ninguém havia entrado com o meu, cancelei então o ingresso e a seguir recebi a sentença: ninguém mais ocuparia meu assento no jogo, nem eu mesmo mais poderia… Assisti ao jogo pela TV em uma delegacia dentro do estádio.
Não me roubaram um bem material representado por aquele pedaço de papel, roubaram-me um sonho com mais de trinta anos de duração… e não foi o desafortunado que cometeu o furto o autor, foi a incompreensão e a incapacidade de empatia da gestora dos destinos do futebol.
Muito imediato e fácil seria por a culpa no país, no nosso povo, no governo… Não, não seria justo. Na Europa esse tipo de furto é corriqueiro, não são poucos os avisos com os quais se depara quem por lá anda. Não somos piores ou melhores que nenhum outro lugar, não por fatos como este aqui relatado. Mas temos algo de sobra enquanto Nação: sensibilidade para acatar e boa vontade para solucionar as dores alheias, algo muito distante de uma entidade cujo único objetivo parece ser o lucro desmedido, entidade esta que se comporta de forma arrogante e ditatorial.

FIFA não dá a devida proteção nos ambientes que administra e não resolve os problemas advindos. Não cabe um sonho tão grande em um pedaço de papel. Como em tudo, a sua intransigência conservadora impera.
Essa é sim, apesar da FIFA, a copa das copas, é verdade. Não poderia ser diferente no país do futebol, com o povo que temos, com as belas cidades que temos. Mas não é só por isso, como alguns querem passar. É também porque os estádios são belíssimos, nossos aeroportos e sistema de transportes funcionaram de forma competente, nossos hotéis e serviços deram conta do recado, nossa culinária é das melhores do mundo, nossas belezas naturais são incríveis… Somos um grande cachorro de raça que traz consigo todas as qualidades e defeitos dos adoráveis vira-latas….

Carlos Castro
Carlos Castro

Via Dislene de Lemos

Dislene de Lemos

Vinícius de Morais é da época dos gênios generosos……. by Edú Franco

20 out

twitter022_Doogle em homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes

Vinícius de Morais é da época dos gênios generosos, época em que a realização era um prazer que incluía o outro, o contrário da vaidade exacerbada do individualismo contemporâneo, muitos parceiros de Vinícius, segundo a lenda, constam na parceria por estarem presentes no momento e local da criação .De uma geração de gênios incomparáveis que conquistaram o mundo sem nada querer além de se juntarem em uma sala para beber e cantar, Vinícius centralizou, sem querer, um núcleo criativo em que todos contribuíam para a criação de verdadeiros clássicos da música mundial num ambiente em que o que menos importava era a projeção pessoal deste ou daquele, importava aquilo que podia ser estendido ao outro, compartilhado, esse era o conceito de parceria de Vinícius, a parceria da vida, da condição humana, por essa compaixão ele estendia a sua teia de afeto que possibilitava a alguém que estivesse na mesa virar parceiro sem ter escrito um verso sequer. Algo impensável hoje em um mundo de artistas mínimos com egos máximos, gente que assobia, chupa cana, é empresária, modelo, atriz, apresentadora e o que render mais a vaidade e o vil metal, gente obcecada por ostentação, fama, grana, adulação, preocupados o tempo todo com quem vai abrir o show para quem e outras coisas tão importantes do ofício artístico.

Vinícius é a antípoda desse mundo, seu prazer era a partilha, em nome da parceria humana um letrista genial como Chico ou Jobim abriam mão de fazer a letra para fazer uma parceria, um compositor desconhecido como João Bosco podia sonhar com o parceiro mais prestigiado do país, não havia essa roda viva de vaidades e fortunas entre esses gênios, quando penso nos dias atuais, na hipocrisia que permeia tudo, num idiota invejoso como Lobão que impossibilitado pelo seu talento medíocre de fazer sucesso além do quarteirão de Ipanema dedica a sua vida a tentar ofender alguém para se auto-promover, fico pensando num velho bordão desse poeta generoso “Se todos fossem iguais a você”.Na prática artística hoje há uma dificuldade absurda da criação e produção dos trabalhos, sobra pretensão e falta humildade, espírito de grupo, impera a régua das vaidades, por isso Chico disse no filme que não via em que lugar Vinícius estaria hoje, em um mundo em que tudo o que o poetinha abominava se tornou a razão de viver dos candidatos ao ofício da criação artística.Saravá Vininha, meu guru, meu amigo e parceiro imaginário.

Por Edú Franco-músico e jornalista

Grã-Bretanha retrocede para a era vitoriana

16 out

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Um estudo aponta que, se continuar crescendo no ritmo atual, em 2025 a desigualdade social do Reino Unido será igual à do século 19
por Envolverde — publicado 13/10/2013 11:12

Por Roberto Sávio

Um informe recente do Centro de Análises de Exclusão Social na London School of Economics prevê que, se continuar no atual ritmo de desigualdade, em 2025 a Grã-Bretanha voltará a viver a realidade social injusta que a caracterizava no final do século 19. Em outras palavras, estamos retrocedendo aos tempos da rainha Vitória!

Em 2010, a renda dos principais executivos das cem maiores empresas britânicas aumentaram 49%, enquanto o aumento salarial médio foi de 2,7%. Segundo um informe da Autoridade Bancária Europeia, em 2011 havia 2.436 banqueiros britânicos que ganhavam por ano mais de um milhão de euros (US$ 1,3 milhão), contra 162 na França e 36 na Holanda com essa renda.

A tendência mundial é a mesma. Na China há 1,3 milhão de milionários.

A Forbes, a revista dos ricos, informa alegremente que registra 1.426 multimilionários no mundo, incluídos 122 na China, com patrimônio líquido de US$ 5,4 trilhões.

Isto significa que a riqueza combinada dos multimilionários da Forbes supera o orçamento federal dos Estados Unidos para este ano, de US$ 3,8 trilhões. E se somarmos as fortunas conjuntas dos dez primeiros multimilionários teremos o resultado de US$ 451 bilhões.

Se colocássemos em um avião as 300 pessoas mais ricas do mundo, sua fortuna superaria o patrimônio combinado de três bilhões de pessoas, quase metade da humanidade.

Paul Krugman e Joseph Stigliz, ganhadores do prêmio Nobel de Economia, escreveram extensivamente sobre como as injustiças sociais freiam o desenvolvimento e fomentam crises econômicas.

Krugman documentou que as crises de 1929 e 2008 foram acompanhadas de aumento da desigualdade.

Na década de 1930 foram tomadas medidas contundentes para enfrentar a desigualdade e os interesses ocultos. No mundo atual, esta deve ser nossa principal reflexão, algo que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não fez. Não esqueçamos que nos tempos de Charles Dickens, Karl Marx denunciava a exploração infantil nas minas britânicas.

Em 1848, a Europa foi sacudida por uma série de convulsões sociais provocadas pela exploração extrema dos trabalhadores. Apesar da repressão, os sindicatos se expandiram e nasceu um movimento político progressista. Marx deu um contexto científico a esta onda crescente, e em 1917, quando triunfou a Revolução Russa, o capitalismo se sentiu ameaçado.

Para conjurar o perigo, muitos países adotaram reformas. Foram legalizados os sindicatos, integrando-os ao sistema político, a esquerda entrou nos parlamentos e houve uma série de iniciativas para dar respostas às demandas populares.

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo se transformou rapidamente. Os valores de governança tinham uma forte carga social, que também constava das constituições nacionais: a justiça social, a igualdade, a participação, os direitos trabalhistas, os direitos humanos, a promoção da mulher, a educação para todos, etc.

Mas, façamos uma pausa: seria possível hoje em dia adotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Os Estados Unidos se comprometeriam a pagar 25% do orçamento da Organização das Nações Unidas (ONU)?

Com a queda do Muro de Berlim (1989) surgiu um novo mundo. O capitalismo, e não o Ocidente, foi o ganhador. E quiseram nos fazer crer que a globalização, entendida como total liberdade para o capital e os investimentos (não para os bens e pessoas), produziria e difundiria bem-estar, segundo a teoria do derrame.

O resultado foi diferente: concentração, iniquidade e evasão de impostos. E já que tanto se publicou sobre paraísos fiscais, espero que baste recordar que eles abrigam US$ 32 trilhões.

A Associação de Bancos Americanos reconhece ter gasto US$ 800 milhões no ano passado fazendo lobby contra a lei de reforma financeira norte-americana, chamada Dodd-Frank, aprovada há mais de três anos. Mas, graças à campanha dos banqueiros, 240 das 398 regras incluídas nessa lei não entraram em vigor.

Desta forma, a verdadeira pergunta é, se em uma sociedade profundamente injusta, a democracia pode funcionar. Ou simplesmente se converte em um mecanismo formal a serviço dos que fazem parte do sistema, ignorando os excluídos? Compartilham a mesma visão do mundo os 300 multimilionários a bordo do avião com os três bilhões de pobres? E, se não é assim, sua visão do mundo conta tanto como a dos 300 multimilionários?

Sabemos que para o tipo de democracia da época vitoriana os indivíduos não eram iguais e estamos conscientes da quantidade de sangue e sacrifícios que foram necessários para alcançar o período de expansão e harmonia social do qual pudemos desfrutar até 1989. Mas, ouviu-se os Obama, as (Angela) Merkel, os (David) Cameron, questionarem sobre esta volta ao passado?

Não esqueçamos o caso de Silvio Berlusconi, o magnata italiano que criou e financiou seu próprio partido, exerceu quatro vezes o cargo de primeiro-ministro, foi declarado culpado de fraude contra o Estado e agora dele depende a estabilidade de seu país. É um expoente da democracia atual, mas, esta é um autêntica democracia? Envolverde/IPS

* Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.

Fonte:. http://www.cartacapital.com.br/economia/gra-bretanha-retrocede-para-a-era-vitoriana-5325.html

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