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Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

putin

Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

Ocupação Cambridge une luta e arte pelo direito à cidade

19 out

 

Experiência de cinema colaborativo em São Paulo aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática
por Carolina Caffé publicado 16/10/2016 11:00, última modificação 17/10/2016 06:40
JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO
Ocupação Cambridge

Filme reúne atores consagrados, como José Dumont, e personagens da vida real, como a líder da ocupação Carmen

Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.

PAULO CÉSAR LIMA/ERA O HOTEL CAMBRIDGEEliana
A diretora Eliane Caffé conviveu com moradores durante quase três anos

Situado no primeiro quarteirão da Avenida 9 de Julho, vizinho do Vale do Anhangabaú, o Hotel Cambridge é dos tempos da “terra da garoa”, inaugurado em 1951. Cerrou as portas em 2002, resistindo ainda algum tempo – antes de fechar de vez – como espaço de festas e eventos, num lobby agitado encimado por andares abandonados. Acabou ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). O edifício sem elevador tem 15 pavimentos e 241 quartos. Após a ocupação, um mutirão de limpeza removeu 15 toneladas de lixo em caçambas de quase 60 caminhões. A reciclagem não era apenas do lixo, mas também do espaço, que deixava de ser um lugar sem função social para abrigar mais de 170 famílias, cerca de 500 pessoas.

“Além de moradia, aqui promovemos ações e debates, para que o direito constitucional que garante a moradia seja cumprido pelo Estado, corrigindo as falhas cometidas há décadas pelo poder público na distribuição urbanística e habitacional das cidades brasileiras”, afirma Carmen Silva, líder da ocupação e da Frente de Luta por Moradia (FLM). O movimento atuou no centro, pois entende que a morada digna não é apenas “telhado e quatro paredes”, mas estar cercada por serviços públicos como transporte, escola, posto de saúde, creches, faculdades e oportunidades de trabalho. A luta é pelo direito à cidade.

CAROLINA CAFFÉCrianças
Horta no telhado, participação de crianças e continuidade do intercâmbio social e cultural depois das filmagens

Shopping rua

Chamam a atenção na ocupação diversos aspectos, entre os quais a gestão coletiva do espaço. As famílias dividem a limpeza e se responsabilizam pelas áreas comuns do prédio. Quando há um morador novo, uma força tarefa busca nas ruas móveis e objetos que possam ser reutilizados (o que eles chamam de “shopping rua”). Há horários limitados para visita, não se tolera o uso de drogas e todos devem participar das assembleias e ações do movimento pela cidade. Para quem vem de fora, impressiona o nível de participação dos moradores em assembleias, fóruns, conferências municipais, passeatas e decisões sobre o orçamento público da cidade. Uma verdadeira aula de cidadania e cuidado com o bem comum.

A liderança feminina também se destaca. “Temos muitas heroínas por aqui”, conta Carmen. “As mulheres ocupam cada vez mais o espaço de luta, defendendo suas famílias e a moradia digna.” Ela própria é uma dessas. Cansada das agressões domésticas, trocou Salvador por São Paulo. Deixou com a família os sete filhos e voltou para buscá-los anos depois. Chegou em São Paulo com as mãos vazias e cheia de esperança no peito. Morou de favor na casa de amigos até saber de uma ocupação no centro. Começava ali a emocionante trajetória de uma vida política marcada por lutas e conquistas, até se tornar líder do movimento que abriga, em mais de 60% dos casos, mães solteiras como ela.

Também nas ocupações do centro vários refugiados encontraram base para nova vida. A ausência de políticas públicas para imigrantes e refugiados faz das ocupações uma alternativa de adaptação e integração com a cidade. Vindos do Congo, Haiti, Senegal, Togo, Camarões, Benin, Colômbia, Peru, Bolívia, República Dominicana e Palestina, procuram, além de uma vida melhor, emprego e um meio de enviar dinheiro para seus familiares nos países de origem. “Quando o refugiado chega na cidade não tem onde dormir. O Brasil abriga cerca de 9 mil refugiados, e em São Paulo são apenas 340 leitos no centro de acolhida”, afirma Pitchou Luambo, refugiado da guerra pelo minério na República Democrática do Congo – e morador da Ocupação Cambridge.

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Tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia

Cinema colaborativo

A diversidade cultural resultante desse encontro entre brasileiros de diferentes regiões, imigrantes e refugiados, inspirou a cineasta Eliane Caffé a produzir o filme Era o Hotel Cambridge. “O que me interessava retratar era o choque cultural entre refugiados e brasileiros, e aí apareceu o tema das ocupações. Mas no lugar do choque encontramos semelhanças: tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia”, diz.

Nas oficinas preparatórias, em que Eliane reuniu os refugiados para o estudo e escolha dos “personagens”, foi formado o Grupo dos Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que decidiu expandir os encontros para além do filme. Hoje, o Grist promove debates e palestras sobre refúgio, história africana, xenofobia, racismo e descriminação e promove cursos, campanhas, festivais e shows para difusão e valorização da cultura. Em um ano, o grupo realizou o 1º Fórum dos Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo, o 1º Festival Musical dos Refugiados de São Paulo (no Largo da Batata, tradicional palco de manifestações na zona oeste) e o evento Conexão Cultural (no Museu da Imagem e do Som, o MIS).

E não foi o único coletivo que se originou no contexto da gravação de Era o Hotel Cambridge. O filme inspirou a formação e o cruzamento de novas ações e movimentos. Um verdadeiro laboratório social e cultural, fazendo São Paulo despertar para uma forma incomum de pensar o cinema: como um legado social. A experiência desafiou as estruturas hierárquicas e tradicionais de direção e produção, propondo uma forma participativa, colaborativa e inclusiva.

O filme mistura ficção e documentário e narra a trajetória de um grupo de refugiados recém-chegados, que se unem aos sem-teto e dividem a ocupação de um antigo edifício no centro de São Paulo. Foi realizado por meio de um processo colaborativo entre a Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da ­Escola da Cidade e o MSTC. O elenco reúne atores profissionais, como José Dumont e Suely Franco, e atores sociais: os moradores, que interpretam a própria história.

Durante a fase de criação do roteiro, pesquisa e seleção dos personagens, além dos encontros dominicais com o grupo dos refugiados, foram realizadas oficinas de vídeo com os moradores da ocupação, e o observatório web, com exibições e debates. Toda a produção artística envolveu moradores, não apenas como parte da equipe, mas usando dos seus saberes e tecnologias, como o shopping rua.

A professora de Desenho e Arquitetura Carla Caffé, da Escola da Cidade, também diretora de arte de Era o Hotel Cambridge, elaborou um curso para que os alunos colaborassem com o desenho e produção de arte, como na definição de cores, tecidos, imagens, animações, figurinos e cenários. A ideia foi fazer um “cinema de intervenção”em vez de um “cinema de passagem”. Tudo o que fosse construído para os cenários não deveria ser desfeito, e sim ter uma função, um legado, enquanto a ocupação existir.

A disciplina foi realizada com 21 estudantes e o professor Luís Felipe Abbud. A atividade experimental uniu ensino de arquitetura ao de direção de arte cinematográfica. A disciplina trouxe à tona problemáticas urbanas como a compreensão e atuação com um movimento social de luta por moradia (MSTC) e o reúso inteligente de materiais descartados, em oficinas com o Coletivo Basurama. “Equipamos a biblioteca, o brechó, a área das costureiras e o saguão de entrada do hotel”, diz Carla. “Equipamos os pontos de encontro e interação dos espaços comuns do edifício, para incentivar o espírito de coletividade do movimento.”

Os encontros de pesquisa e criação com os personagens sociais começaram a reunir entusiastas de todos os campos e ganhar vida própria. Mesmo depois de as gravações terminarem, o intercâmbio social e cultural era tão forte que muitos da equipe do filme resolveram continuar­ suas ações e oficinas, e novos movimentos começaram a brotar na ocupação: a fome dos paulistanos em ocupar, sair das bolhas, cruzar fronteiras e desafiar a ordem.

A construção da horta comunitária no telhado do prédio – com o Coletivo Habitacidade –, aulas de dança africana, intervenções de jornalistas independentes, grupos de trabalho em psicanálise – conduzidos por profissionais do Instituto Sedes Sapientiae –, a formação do Centro de Assistência à Saúde dos Imigrantes e Refugiados (Casir) e ações do coletivo interdisciplinar Linha de Frente e da Residência Artística Cambridge são algumas das ações que acontecem hoje no local.

Era o Hotel Cambridge ganhou prêmio e foi lançado em setembro deste ano no Festival San Sebastián, na Espanha, um dos mais importantes do mundo. Ganhou reconhecimento internacional em exposições como no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o MIT, nos Estados Unidos), em março. No Brasil, deve entrar em cartaz no início de 2017.

“Eu gostaria de seguir esta experiência de um filme expandido também na fase de comercialização”, diz Eliane. “Os festivais convidam, pagam passagem ­aérea geralmente para diretor e produtor. Quando você chega lá no tapete vermelho tem a mídia imensa esperando você passar, e quando a gente fala em lançamento expandido, quer dizer não deixar o pessoal do movimento fora dessa, e aproveitar a oportunidade para fazer novas articulações similares em evento que estão acontecendo no mundo, de ocupação e de refugiados.”

Na Espanha, Carmen Silva, do MSTC, conheceu e fez alianças com lideranças da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), associação surgida em fevereiro de 2009 em Barcelona. “Estamos conseguindo levar para fora a nossa luta”, celebra Carmen. “É uma grande oportunidade de dar visibilidade ao movimento que sempre foi muito discriminado pela mídia. O filme permitiu mostrar que não somos vândalos, e sim famílias e trabalhadores lutando pelos direitos garantidos na nossa Constituição.”

PAULO CÉSAR LIMAocupacao12_foto_paulo_cesar_lima.jpg

Fachada do Cambrige, no centro de São Paulo: ocupação em hotel fechado em 2002 reúne 500 pessoasDireito de ocupar

Em tempos em que o espaço público das cidades se vê ultrajado por bombas de efeito moral e balas de borracha, ocupar virou palavra de ordem para quem defende a democracia e a vida. Como diz o poeta Hamilton Faria, sociólogo do Instituto Pólis: “É preciso desobedecer as práticas antidemocráticas: na vida cotidiana, nas instituições e na sociedade em geral. Ocupar não é invadir. É entrar pacificamente e dizer ‘olha, eu tenho voz e isso me pertence’. A Funarte não é do Ministério da Cultura, as escolas não são do governo estadual, os espaços públicos não são do governo. Eles são públicos”.

O conceito do Direito à Cidade tem ganhado visibilidade e reconhecimento, não apenas entre a sociedade civil mas também dos governos mundiais (como a inclusão do termo na Nova Agenda Urbana, documento oficial da Organização das Nações Unidas). A arquiteto e curador Guilherme Wisnik lembra que a ideia de Direito à Cidade para Henri Lefebvre (filósofo francês, autor do conceito) implicava não em um direito aos serviços da cidade exatamente, mas um direito de transformar a cidade. Inventar uma nova cidade a partir do real.

Segundo Wisnik, o pensamento ficou esquecido por no mínimo duas décadas (de 1980 e 1990) de predominância do pensamento neoliberal de que tudo aquilo que foi postulado como possibilidade transformadora nos anos 60 tinha se revelado impossível, segundo o raciocínio pragmático. “Mas na virada do século aconteceu por diversas frentes uma espécie de ataque ao coração do sistema, e essas manifestações se desdobraram em possibilidades reais de que o sistema pudesse ser mudado”, afirma.

A Ocupacão Cambridge não é apenas um marco de resistência ao modelo individualista, competitivo e alienado das cidades modernas capitalistas. É, ao mesmo tempo, um modelo a ser observado e aprendido como paradigma de cidade e relações humanas. As soluções para os grandes problemas que vivemos nas cidades não precisam ser inventadas, mas reconhecidas e fortalecidas. Era o Hotel Cambridge é um exemplo de apropriação das tecnologias e saberes produzidos nas ocupações.Assista à reportagem da TVT sobre o filme

RBA

Vou revelar meu segredo de tranquilidade.Por Míriam Márcia Morais

12 maio

http://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2014/10/

Vi Cardozo enquanto ministro fazer baixar a PF na casa dos golpistas graúdos e pegar os computadores, o que a gente sabe o que significa.

Vi o aeroporto de Aécio ser colocado nas telas de TV, na cara de todo mundo, e vi ele continuar em paz com seu aeroporto sem ninguém da política, imprensa ou judiciário abrir a boca.

Vi Eduardo Campos morrer de uma queda de avião no dia D, no último segundo do prazo que se não houvesse a troca por Marina, não haveria segundo turno, e quem teve prejuízos com a queda até hoje não foram compensados porque o avião não tem dono.

Vi Moro brincar de Hitler, Genoíno ir para a cadeia, Vaccari (o mais pobre dentre todos os citados) ser preso e permanecer até hoje numa cela da qual Moro livrou todos os envolvidos da Abreu e Lima só porque eram tucanos.

Vi Dirceu ser preso duas vezes num país onde corruptos aparecem mais nas telas de TV do que os artistas da hora. Vi a França enviar denúncia contra José Serra e a Suíça enviar as contas de Cunha e não acontecer absolutamente nada.
Então minha suposição é que assistir a tudo isso sem fazer nada é uma estratégia para, na hora certa, agir de forma dura para lançar tudo isso para o esgoto, mostrar pra todo mundo, esfregar na cara de quem não quer ver e recomeçar sobre novas bases.
Tenho esperado por esse momento. Não acredito que Exército, Marinha, Aeronáutica, seja compostas por covardes omissos em sua maioria, que estejam ignorando de fato, e não de mentirinha, as provas de que o alto escalão do Congresso seja composto de pessoas do alto escalão do tráfico de drogas, como nos provou o helicóptero.

Não acredito que não passem de moleques os nossos comandantes. Não acredito que os juristas sejam conviventes com o crime em sua maioria. Há bandidos de toga, mas nunca acreditei em maioria.
Também não acredito que Lula e Dilma tenham todo esse arsenal para carregar na mala quando terminar o tempo deles.
Quanto mais fundo mergulhamos na investigação dos fatos e da política, mais sabemos que só o anseio de mudar esse estado de coisas justifica a atuação nessa área.
O momento agora é decisivo, definitivo. Saberei se estive enganada ou se há um limite traçado entre o admissível e o intolerável na cabeça dos que assistem isso ainda mais de perto.
O momento é decisivo, é momento limite ao menos para mim. Já fui aqui muito criticada por dizer que se nada acontecer eu me despeço da política.

Não vivi duas vidas nem a ditadura militar para julgar a História, mas posso afirmar que no tempo em que vivi, nunca houve momento melhor para atirar tudo de uma vez no ventilador e decretar o BASTA!

Se nada acontecer e Dilma simplesmente sair, teremos atravessado o meu limite pessoal do que é admissível e tolerável.

Para mim o ativismo político termina.

Posso continuar pedagoga, posso continuar escrevendo livros ou gravando aulas sobre política, mas o que caracteriza o militante é a fé na possibilidade de mudanças.
Se Dilma simplesmente sair, não me interessa se será Temer, Aécio ou Tiririca a ocupar a presidência.

Se Dilma simplesmente sair, saio junto, e assim como ela, nessa vida não voltaremos mais.
Estou feliz de finalmente chegar o meu momento limite.

Acredito que algo acontecerá.

E serei ainda mais dedicada e atenta do que tenho sido até aqui.

Se Dilma não sair.

Por Míriam Márcia Morais(Direto da Central de Debates do Facebook)

Ler para entender e conviver

2 maio

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por Xandra Stefanel

Além de divertir, literatura infantil e infanto-juvenil pode ajudar a promover a diversidade e o respeito.

Era uma vez… uma princesa que nasceu príncipe. Em outro reino, uma princesa se apaixona pela costureira que faria seu vestido de casamento. A Princesa e a Costureira e Joana Princesa, da escritora e psicóloga Janaína Leslão, trazem a mesma magia que permeia os contos de fada. A diferença é que suas histórias abarcam uma diversidade muito maior de personagens: uma princesa transgênero que tem uma irmã com deficiência física, outra princesa negra que cai de amores por uma costureira ruiva. Em comum, os dois livros trazem as aventuras de pessoas que se amam, querem viver o amor de forma plena e livre, com o bom e velho final “E viveram felizes para sempre”.

Não são muitos os livros infantis e infanto-juvenis que representam a diversidade social em suas narrativas, nem que busquem, além de entreter, ensinar as mais diversas questões ligadas à cidadania: o respeito ao próximo, o combate ao preconceito, o consumo consciente. Mesmo que ainda seja uma pequena parcela do que se encontra nas prateleiras das livrarias, há um número crescente de obras que abordam essas temáticas.

Um exemplo são os livros do selo Boitatá, da Editora Boitempo, criado no final de 2015 com o objetivo de apresentar temas de interesse social e de cidadania para crianças. Até agora, o selo lançou quatro obras: A Democracia Pode Ser Assim, A Ditadura É Assim, As Mulheres e os Homens e O que São Classes Sociais? Para os próximos meses, devem ser lançados livros que abordarão a prática do bullying, o respeito às diferenças e à diversidade e sobre deficiência física.

Para a editora da Boitatá, Thaisa Burani, é importante que não apenas a literatura, mas todas atividades infantis contribuam para formar um imaginário tolerante e cidadão. “Se o indivíduo não possui nem acredita em valores cidadãos (respeito ao próximo, tolerância, cidadania, justiça social, direitos humanos), de muito pouco adianta o discurso ou a ideologia, por mais bem intencionados que sejam. E a experiência da infância, o ato de ser criança, é onde mais podemos explorar e enriquecer nosso imaginário. Livros, filmes e brincadeiras, além de nos entreter, exercitam justamente isso: a forma como vemos, compreendemos e participamos no mundo. É por isso que uma heroína mulher é importante, é por isso que protagonistas negros são importantes, é por isso que falar de diversidade amorosa e de arranjos familiares diversos é importante, porque tudo isso se soma e também forma o imaginário. Se uma criança cresce entendendo que tudo isso é ‘normal’, que todos são iguais e merecem respeito, ela naturalmente será mais tolerante e cidadã”, opina.
Identificação

Em 2007, a psicóloga Janaí­na Leslão trabalhava questões ligadas à sexualidade, gênero e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e aids com um grupo de adolescentes. Uma das atividades que eles deveriam realizar no final do ano era montar esquetes baseadas em histórias conhecidas, com uma roupagem atual e que abordasse as questões discutidas. “O referencial de final feliz que eles tinham ainda era o dos contos de fadas. Quando conversávamos sobre questões de sexualidade e gênero de pessoas trans ou do amor entre dois homens ou duas mulheres, não tinham nenhum referencial na literatura, muito menos nos contos de fadas. Só pelo noticiário de jornal, que mostra uma lâmpada na cara, uma travesti esfaqueada. Isso me despertou a vontade de escrever. Fui pesquisar e não tinha nada nesse gênero de literatura, com essas temáticas trabalhadas em uma linguagem mais leve e acessível”, lembra.

Foi assim que nasceu seu primeiro livro, A Princesa e a Costureira, escrito em 2009 e publicado em 2015 pela Metanoia Editora. “Ele vendeu bem, superou nossas expectativas, tanto que estamos indo para uma segunda edição e vamos lançar em e-book também. Muitas pessoas, especialmente jovens adultos, me procuram e dizem: ‘Nossa, que maravilha! Queria tanto ter lido isso quando eu era adolescente. Acho que não teria passado por tanto conflito’. Ou então: ‘Eu me senti representada, nunca tinha visto uma princesa negra e ainda por cima lésbica, como eu’. As pessoas me dizem que os contos de fadas com os quais todo mundo sonhava, nunca puderam representá-las. Então, a ideia principal era incluir pessoas que não estavam nas narrativas originais”, afirma a autora, que em maio deve lançar seu segundo livro, Joana Princesa.

Para a pedagoga Daniela Auad, professora de Sociologia da Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora, livros como os de Janaína fazem com que as crianças vindas de lares homoparentais se sintam representadas. “Os livros infantis, infanto-juvenis e outras produções na televisão e no teatro mostram para crianças casais compostos por alguém do sexo feminino e alguém do sexo masculino: um homem e uma mulher, um menino e uma menina, um cachorrinho e uma cachorrinha… Mas não se tem usualmente casais compostos por pessoas do mesmo sexo. Esta falta de representação pode fazer com que as crianças que estão em um lar homoparental e, eventualmente crianças e adolescentes que se percebam tendo desejo por pessoas do mesmo sexo, não se sintam representadas”, diz Daniela, responsável pelo prefácio da segunda edição de A Princesa e a Costureira.

Olívia Tem Dois Papais (Cia. das Letrinhas), da escritora Márcia Leite, conta a história de uma menininha muito esperta que tem uma família um pouco diferente e totalmente encantadora: seu pai Raul ama brincar de filhinho e mamãe e quando ela se diz desfalecendo (ela adora esta palavra!) de fome, seu pai Luís vai para a cozinha e prepara deliciosas refeições. A autora afirma que a constituição desta narrativa não se deu por meio do tema (a família homoafetiva), mas sim de uma escolha que potencializa o campo de atuação da personagem principal. “A família homoparental é um tipo de família e ponto final. Se aceitamos que as famílias podem ter diferentes composições, o natural é explorar também nas narrativas as relações afetivas (ou a ausência delas) que as estruturam ou desestruturam, que estabilizam ou desestabilizam essa organização familiar. No caso da família da Olívia, o que tentei evidenciar foram situações de rotina, cuidado e amorosidade recíproca entre pais e filha, independentemente de sua composição.”

Neste caso, os questionamentos da personagem principal estão mais ligados às questões de gênero. “Procurei fazer com que Olívia fizesse perguntas e tivesse dúvidas pertinentes à idade e ao meio social em que vive sobre questões de gênero e não sobre questões de orientação sexual. Olívia deixa claro que se surpreende por um homem saber cozinhar, pentear a filha e cuidar tão bem dela. Esse é um questionamento de gênero e não de orientação sexual. Olívia não questiona porque os pais se amam, ou estão juntos, ou porque não tem uma mãe. Perguntas que também acontecem entre famílias heteroparentais, mas que quase sempre reforçam a noção de gênero dominante (menina faz isso, menino faz aquilo)”, afirma Márcia, também autora de Do Jeito que a Gente É (Editora Ática), em que um dos protagonistas é um menino gay.
Consumo consciente

Além de gênero e sexualidade, também há livros infantis e infanto-juvenis que abordam questões ligadas ao consumo e promovem, por exemplo, reflexões sobre a finitude dos recursos naturais, como é o caso de Eu Produzo Menos Lixo (Cortez Editora). Nele, a bióloga Cristina Santos faz um alerta ecológico para as crianças e contextualiza as mudanças que os hábitos de consumo modernos trouxeram para a sociedade. “Essas questões são contemporâneas e fazem parte de um grande problema mundial. Tentar apresentar esses assuntos numa linguagem que pudesse ser facilmente compreendida pelo público infanto-juvenil e que estimulasse o leitor a refletir sobre a sua maneira de consumir foram as grandes motivações para a preparação desse livro. Além disso, as ilustrações muito criativas de Freekje Veld foram fundamentais para apresentar o assunto de maneira mais descontraída, deixar o livro atraente, além de auxiliar na tarefa da compreensão de um tema considerado tão importante nos dias atuais”, diz a autora.

Com Bicicleta Amarela, previsto para ser lançado em abril, o designer recifense Igor Colares trata de forma lúdica sobre a importância da bicicleta para a mobilidade urbana. Em 2012, o autor lançou Bezerro Escritor, sobre o consumo do leite a partir do ponto de vista de Bombom, um bezerro desmamado que apresenta como o processo de industrialização atinge de forma cruel as vacas e seus filhotes.

O que motivou Igor a escrever as duas histórias é fazer com que as crianças veganas (que não consomem alimentos derivados de animais) e que os filhos de ciclistas e cicloativistas se sentissem representados na literatura. “Minha ideia não era convencer as pessoas a passarem a andar de bicicleta ou deixar de tomar leite. O que eu queria com os dois livros é que a galera que anda de bicicleta e a galera que não toma leite se identificassem. Para eles, é muito raro encontrar conteúdo em quase qualquer lugar, e na literatura infantil não é diferente. É como se as pessoas que estão engajadas nesses movimentos fossem meio alienígenas para o senso comum. A minha ideia era criar conteúdo com o qual eles se identificassem”, enfatiza.

A professora universitária Bárbara Eduarda Nóbrega Bastos, de 36 anos, leu a história de Bombom para o filho. “Sou vegana e queria um livro que me ajudasse a passar pro meu filho a realidade dos animais explorados para produção de alimentos numa linguagem adequada para a idade dele. Existem poucas publicações com essa temática, então o livro de Igor foi muito bem-vindo. Considero muito importante para a formação cidadã que as crianças conheçam os problemas da sociedade e entendam seu papel no combate a essas questões. Acredito que os temas devem ser apresentados de acordo com a idade, pois o objetivo não é deixar a criança assustada ou triste, então, deve-se levar em conta o que ela está preparada para aprender”, opina a mãe de Mateus Bastos Barretos, de 6 anos.

Entreter, ensinar, conscientizar
Estes são alguns exemplos de como a literatura também pode contribuir com a construção de um mundo melhor, mais tolerante, com menos ódio e mais respeito às pessoas e suas diferentes formas de viver. Thaisa Burani, do Boitatá, acredita que há muito a ser feito para a publicação de mais livros voltados para os pequenos cidadãos. “O mercado se verga muito facilmente a qualquer coisa que dê retorno financeiro alto e imediato – basta ver as gôndolas das livrarias abarrotadas de bobagens com personagens de grandes franquias da animação”, diz. “Mas não podemos negar toda a riqueza da história da literatura infanto-juvenil brasileira. Há mais de três décadas já tínhamos, por exemplo, uma Ana Maria Machado enaltecendo a beleza das meninas negras, ou mesmo um Pedro Bandeira e seu tão incisivo e politizado É Proibido Miar, sem contar a vasta obra de Tatiana Belinky, com todas as experimentações de linguagem e o caldeirão cultural que ela oferecia.”

“Ler um livro sobre uma menina que tem dois pais ou duas mães, ou um pai apenas, ou nenhum dos dois, apenas amplia a condição de percepção do mundo, de si e do outro. Acredito que a literatura que fala/toca em temas considerados difíceis (não apenas sobre a homoafetividade) provoca espaços de conversa e de reflexão que acabam atuando como um acolchoado simbólico para a compreensão do mundo e de si mesmo junto aos pequenos e grandes leitores. Na minha opinião, isso ajuda os leitores a serem melhores pessoas e melhores cidadãos”, resume a escritora Márcia Leite.

 

QUERIDA AMIGA MARIANA MAYOR

4 fev

Por Sergio Ricardo

A memória como ja lhe disse, dentre milhões de acontecimentos vividos nessa trilha agitada de minha rota artística, recusou-se a armazenar detalhes, para me reservar o espirito compartilhado com amigos e correligionários, maior parte dos quais nem de seus nomes ou fatos me deixa lembrar com exatidão, o que me conduz a fazer uma síntese não dos fatos ou pessoas, mas da importância de uma luta vivida com tanta entrega, tanto amor à causa e ao povo brasileiro, como nunca mais vi em nossa história.

Eramos basicamente uma grande família de guerreiros dispostos a tudo para atingirmos nossos objetivos políticos e culturais e até mudamos radicalmente alguns caminhos, como a bossa nova, por exemplo, cedendo lugar a um canto mais abrangente de congregação e elucidação dos crimes morais contra nosso povo, exaltando e reinventando sua emancipação, a ponto de abrirmos mão das conquistas estéticas adquiridas pela Bossa, visando a comunicação de nossos ideais para alcançarmos a alma brasileira com a linguagem que lhes chegasse como a sua própria, tanto na música, no cinema, no teatro etc.

Um diálogo sem rodeios imposto pela falsa erudição dessa elite que acreditava estar reinventando um Brasil, arremedando outros povos e outras culturas que nos colonizavam em troca de nossos bens, e mergulhados cada vez mais na nossa ignorância, tão vasta quanto a dimensão de nossas matas por esse continente generoso.

A mesma chama que conduzia Chico de Assis, Vianinha, Boal, Guarnieri, João das Neves, Aracy Balabanian, Renato Consorte, Rolando Boldrim, Carlos Lyra, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Antonio Fagundes, Myriam Muniz, Plinio Marcos, Sidney Miller, era a mesma que conduzia uma infinidade de amigos, em CPCS, Feiras de Opinião, Teatro de Arena, palcos e shows e peças de teatro, na tela do Cinema Novo, pelas faculdades, caatingas nordestinas, passeatas, porta de fábricas, onde quer que o povo pudesse ter acesso para se esclarecer dos fatos e luta em busca da solução.

E já se avistava um novo Brasil ancorando nos portos de norte a sul do país. Foi uma época gloriosa e mesmo calados pela censura da ditadura, nossa semente germinou na alma dos artistas que posteriormente foram surgindo.

Chico de Assis, por exemplo, a quem você se refere, foi meu parceiro em Brincadeira de Angola, amigo e irmão, batizou minha filha Adriana e nos tornamos compadres.

Um dos fundadores do CPC, teatrólogo e líder nato, teve suas idéias e peças encenadas para camponeses, elucidou muitas cabeças pensantes, e deixou uma obra importante, volta e meia encenada por esse país a fora.

Devo à sua lucidez minha transformação ideológica e seus ensinamentos estão espalhados pelo meu trabalho como uma luz no fim do túnel.

A mesma luz que estamos todos, os que queremos libertar nosso pais, tentando alcançar, apesar das “cunhas” cravadas por essa corja tentando embarreirar nosso processo libertário.

A INTERNET CRIA UM LEITOR MAIS BURRO E MAIS VIOLENTO

3 fev

A Internet cria um leitor mais burro e mais violento

Este romance parece ter nascido de um impulso. Foi assim?

Sim, um pouco por uma urgência que veio de uma observação política. Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual.

O estudante de chinês, protagonista do romance, encerra essa contradição.
Sim, foi quando comecei a imaginar esse discurso.

É esse estudante que diz que “a contradição é a força e a fraqueza da democracia”. O livro interroga-se sobre o que acontece quando se acaba com o contraditório no discurso. Também no discurso ficcional?

Claro. A grandeza da democracia é que se pode conviver com a contradição e essa contradição não precisa de ser eliminada, faz parte da estrutura social. Nas sociedades autoritárias não existe contradição, existe uma deliberação única de uma fonte única. Uma vez entrevistei o Lévi-Strauss e ele dizia que a grandeza e a fraqueza das sociedades ocidentais é que elas trazem dentro um gene suicida. A sua grandeza é mostrar a própria vulnerabilidade. Mas ao mesmo tempo possibilita muitos extremismos. Como é que uma sociedade que defende os direitos humanos faz o que faz com os palestinianos, por exemplo? Há muitas contradições internas que enfraquecem o próprio discurso da democracia. É aí que está a força desse mundo que se deixa contaminar, se expõe à contradição. Isso é incrível, mas muito difícil de manter. Vejo uma espécie de oportunismo generalizado de apropriação dos discursos, o que é muito assustador. O livro não apresenta solução; é o retrato dessa perplexidade e desse incómodo; dessa impotência perante a apropriação dos discursos que antes estavam bem definidos.

O discurso está sempre em forma de monólogo. Essa escolha pretende sublinhar uma ilusão de diálogo?

É outra urgência. Não há a fala de um interlocutor. Expressa a ideia da Internet, um lugar de espelho em que se acha que se está numa relação com o outro e na verdade se está sempre a reproduzir o mesmo. É quase uma relação narcisista.

Falta o contraditório?

Exacto. Tudo o que é contradição você apaga. Parece que há abertura ao outro mas só se procura o mesmo. Posso aprender algumas coisas, mas estão sempre dentro de uma circunscrição que já domino por antecedência. É uma espécie de espaço hedonista e isso é muito perverso porque a partir do momento em que se entra nisso é como uma droga; é uma fonte de prazer absoluto e elimina qualquer necessidade de esforço, de contradição.

Ilusão de companhia, ilusão e conhecimento; ilusão de opinião; ilusão de informação e ao mesmo tempo uma crítica ao modo como o discurso jornalístico está a reagir a esse novo espaço, recusando o seu papel de mediação; ilusão sobre a capacidade do discurso actual para reflectir a realidade actual. Ou seja, há uma incapacidade de comunicar?

Acho que sim. Parece que com esta proliferação de opiniões todo o mundo passou a se expressar e no final talvez não haja muita diferença entre os milhões de opiniões; elas acabam no lugar-comum.

É a tal reprodução de que fala o título?

É. Mas iludida. As opiniões são insatisfatórias. Isso é estranho. Dá uma sensação de incompletude, de uma opacidade que não permite que se enxergue o mundo de verdade. E é infinito.

Qual é a sua relação com a Internet?

Sou viciado. Não passo dez minutos fora da Internet. Sou um doente. Quis dar a perspectiva crítica de uma situação na qual estou realmente perdido.

Voltando ao discurso jornalístico que também conhece e que põe aqui em causa: os jornais e os meios de informação que têm função de mediar a realidade passaram a ser decididos pelos leitores, com o mercado a definir conteúdos e o leitor a transformar-se em decisor. Se o leitor não gostar, o jornal não dá.

É muito perverso. O princípio seria mais democrático. Questiona-se a autoridade do jornal porque tem na origem um interesse económico preciso. A ideia é que a Internet pulveriza essa autoridade dos media, o que parece bom, dá um sentido de democratização à informação, mas perdem-se noções de hierarquia, padrões, modelos, e é difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo se não houver um parâmetro… Esses parâmetros perderam-se na barafunda de opiniões e de informações e acreditamos em absolutamente tudo o que se publica na Internet. Tudo o que surge na Internet vira facto. Talvez isso estivesse nos media, mas lá há mediação, uma auto-censura que não permitia reproduzir qualquer coisa. Isso põe muitas coisas em causa, sobretudo a ideia da verdade, é como se fosse uma segunda natureza.

Uma verdade absoluta?

Exactamente.

Há uma interrogação sobre a função do romance quando uma personagem questiona o género e o remete para um lugar de facilidade, que não reflecte nem reage à realidade. Este romance tem também o propósito de mostrar ser o contrário dessa ideia?

Eu não tenho qualquer tipo de crença, não acredito em Deus, mas tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que, de alguma forma, se pode chegar à verdade por meio da literatura e da ficção literária. Acho que a verdade só pode ser alcançada de uma maneira indirecta, transversal, mediada, e vejo a literatura como uma forma de reflexão muito sofisticada. Uma forma não só de retratar a realidade, ou de ser reflexo da realidade, mas também de aceder à verdade. Com a Internet isso foi pelo ar, não há ironia na Internet. É sempre um discurso de primeiro grau. Cria leitores iletrados para a literatura, para a ironia, para a reflexão.

A Internet muda o leitor?

Muda, mas para um leitor mais burro e mais violento. É o mesmo leitor que não suporta ver uma caricatura do profeta Maomé, que a ficção possa ser uma reflexão sobre a realidade e não a própria realidade. Acho assustador esse leitor que a Internet incentiva, sem instrumentos para entender a ironia e o distanciamento. A ideia de romance que defendo é uma resistência a essa facilidade, a essa naturalidade da Internet. O romance, como o entendo, é um instrumento de guerra contra a percepção naturalista do texto em geral, como se a letra fosse necessariamente a verdade e não uma reflexão sobre o mundo. Faço isso ao mesmo tempo que brinco, que vou dizendo coisas de que discordo com muita convicção. Quanto mais eu dizia coisas horríveis, mais prazer eu tinha, mais feliz eu ficava. O facto de no livro o discurso da resposta estar em elipse criou um mecanismo estranho na minha cabeça, uma espécie de automatismo; eu ia escrevendo aquilo como se fosse um vómito, e foi com muito prazer.

Tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que se pode chegar à verdade por meio da literatura

O modo como o faz torna difícil distinguir autor de personagem. Alguma vez sentiu essa colagem de identidade?

A aventura e o risco eram justamente esses, me confundir. Eu queria criar essa dificuldade, essa personagem que não era absolutamente a caricatura do meu oposto, mas me confundia nessa voz horrível. Há um pouco de autobiografia, ele diz algumas coisas em que acredito, e também estudei chinês ao longo de seis anos, também tive uma professora como a dele. E ele vai perdendo a ironia, o riso se esvai numa espécie de desconforto e mal-estar. Nos discursos do horror é difícil detectar fronteiras. É aí que está o horror. Tudo vem da inabilidade de discernir onde está o bem e onde está o mal.

Já escreveu muito sobre o Oriente, volta lá agora para encontrar o sítio de que se tem medo, o sítio da língua do futuro, sem memória, sem passado. Porquê?

Há uma personagem que refere um livro que fala do desaparecimento das línguas e que diz que quantas mais línguas houver no mundo menos chances há de o ser humano desaparecer, e que quanto menos línguas houver mais o ser humano fica vulnerável. Eu queria falar de uma certa pasteurização pela língua, e o chinês seria essa língua hegemónica. Podia ser o inglês, mas escolhi o chinês porque era uma língua periférica para o Ocidente e ganhou hegemonia. Hoje é uma língua do poder. Há a ideia da língua absoluta, que se impõe e vai destruindo as outras, tornando o homem mais vulnerável pela falta de diversidade, de variedade. O português fez isso com as línguas indígenas. O Brasil tinha centenas de línguas que foram desaparecendo.

O estudante diz: “o que eu estou querendo dizer só pode ser dito na língua do futuro”. Sendo escritor, esta incapacidade da língua em relação ao presente de que fala inquieta-o?

Ele fala também da língua oral. Como escritor, o que toca mais é a ideia da língua escrita. No Brasil isso é muito peculiar, sendo um país iletrado. Escrevo num país onde não se lê. Isso é muito estranho. Por um lado, há uma coisa interessante, de que pode ser um excelente exemplo o Machado de Assis quando escreveu o Memórias Póstumas de Brás Cubas e passou dos romances mais tradicionais para uma espécie de revolução: ele teve consciência de que não devia nada a ninguém e isso deu-lhe liberdade e a possibilidade de escrever uma coisa incrível e revolucionária. Mas há também uma angústia de fundo: escrever sem leitores, escrever para um mundo que não lê. Toda a literatura brasileira foi feita, desde sempre, com o pensamento de que se está num lugar para o qual não fomos feitos e mesmo assim você continua fazendo, reage a esse mal-estar, a essa não-pertença. No livro há esse desespero de uma língua, de uma escrita feita para um mundo que não quer recebê-la. É como se fosse uma teimosia, uma resistência.

Por Equipe do Blog Publicado 30 de janeiro de 2016 Em Destaques, Literatura

Isabel Lucas. Jornalista.

Rogerio Cerqueira Leite Blog

Poemas de Valter Antonio Teixeira Krausche

21 dez

Valtinho Krause e Lizete

Do Portal Luís Nassif

Publicado por Carlos Roberto Rocha III

Valter Krausche além de sido meu parceiro e amigo, era um grande erudito que transitava tranquilamente no popular.

Lia Marx no original;Merleau-Ponty idem;Walt Whitman também no original,sabia tudo de Adoniram Barbosa sobre o qual escreveu um livro para a coleção Pequenos Passos da Brasiliense,sabia tudo de Chico Buarque,Tom Jobim e claro tudo de poesia.

Eu ficava pasmo diante de tanta erudição e de tanta humildade;sim Valtinho era super humildade e de um coração do tamanho de um bonde.

Creio que foi por isso que me aceitou como parceiro e companheiro da “Desejos e Unhas” ,banda que formamos juntamente com a poetiza Lizete Mercadante Machado,mais os músicos Jorge Carvalho,Maria Auxiliadora Zan ,Chico Pupo,Luisinho Carioca e Magno Bissoli.

Tenho muita saudade, desse tempo que eu convivi com o poeta,por isto através de um gesto nobre da poetiza  Lizete Mercadante da Revista O Caixote vou passar pra vocês aqui do Portal do Luis Nassif.

O Sangue das Frutas

1975 – 1978

pela morte das aves fáceis
por saber
que a manhã não é mais
o libertar da noite

para Magda
o resgate das plantas
verdadeiramente carnívoras

os personagens deste livro
como todos os expulsos da República
não estão fora dela
quanto mais expulsos
mais lhe pertencem
pois esta é a natureza da República
e a contaminam

para Lizete anjo clandestino

o dilúvio de Rimbaud
e a maldição que veio depois
pra desorganizar o espírito

o poema de amor traz manchas de óleo
Baudelaire ainda pode ser visto
no final das tardes
passeando em alguns bairros periféricos
desta capital

o poema é a destruição da vigência

CAMINHO SOB LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO ENTRE PRONOME E VERBO

com uma aranha negra refazendo teias antigas
uma serpente cerebral que iludiu a criação
perseguido pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha abandonada no interior dos anos
estrangulador de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o feijão à flor na escuridão proibida

na praça abandonada
no pequeno quarto do hotel do exílio
com meu veneno para sempre

feito um rio sem entardecer de brilhos
entre suas selvas
no ato pétreo de caminhar
feito rio refazendo-se em rio sempre
mão lavando coisa alguma
de rio negando o mar
de rio por sua esperança de rio

A AUGUSTO DOS ANJOS

as paredes do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino nascerá uma flor

PRA SER O CORPO

a modinha dá início ao final do século
o punhal da tarde
coagulado na memória
que bebi no chapéu de meu avô

*******

as palavras afiam a alma
para ser
um punhal cravado no corpo

pra ser o corpo
que é o ser do punhal

*******

a magia das palavras sem mágicas
faz a faca dos teus olhos
corta a veia dos teus seios
brota um sol entre tuas tetas

recolho a terra em teu útero
durmo em teu estômago

ANTONIO BITUCA

uma criança vermelha como nuvem
se precipita
uma criança feito planta
incêndio
raízes
um braço feito lança

uma criança pontiaguda como ave
te espeta
à beira de um abismo
e voa

FRUTO

abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário da infância
árvore sapotácea da América Equatorial
além do dicionário

branco temperado por dentro
equatorial quanto o quintal
de meu avô
branco guardando a infância negra
amarelo liso externo chamando

ESTAVA SENTADA NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA

NASCIMENTO

Mariana amanhecendo pelo mar
pela mão do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré

Mariana vela branca anunciando pazes e peixes
emergindo dos livros subterrâneos
Mariana folha branca
onde termina a luta entre deus e o diabo

Mariana a distribuir novos mistérios
mulher dos dilúvios e das escarpas
Mariana amante dos bagres e dos peixes miúdos

Mariana nascendo dos homens condenados à morte
Mariana tateando as paredes deste mundo

ROCK NA VITROLA

não voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me foi uma tarde branca transitória
estou quase nu
com o chegar das novas gerações

OLHANDO AGORA A TUA FOTOGRAFIA

Quando olhávamos o vento nas cortinas
e a oscilação da linha do horizonte
quando nesta parte do século
as casas térreas intercalavam-se
com os terrenos baldios formando a rua
quando tua mãe visitava a benzedeira
e às sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance precocemente sombrio
cujos frutos ficaram para sempre
sobre a grama morna
dos nossos desejos submersos

FECHADO PELA POLÍCIA

o corpo forte branco
de minha tia
sob o chuveiro das minhas férias
as coxas lisas
de minhas primas
sob a caramboleira
o primeiro gozo
com medo de minha avó
que vinha dar comida aos pássaros
pela boca de Zé Lumumba
que mais tarde foi morto pela polícia
e tinha ódio de minha tia
de chuveiros de coxas lisas de carambolas
finalmente o meu corpo nu
comprimido na fechadura de um templo antigo
que há muito não se abre mais

ILHA PORCHAT

pra onde fugíamos
em nossas bicicletas voadoras
& os primeiros amantes
que desciam escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes rochas
que sustentavam
algumas mansões sombrias
criminosas

ESCOLA

Maria Batalhão
que exigia fila ordeira
no matinho que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo gira
& o mijo amargo
das noites altas

CONQUISTAS

Ana Maria era o menino
mais forte da minha rua
quando atacávamos uma rua adversária
ela sempre trazia duas escravas
penduradas no rabo
levava-as pra cabaninha
em cima da cajamangueira
depois as devolvia já magras sem luz
pros guerreiros famintos que as esperavam
em volta da fogueira

nos ensinava alguns truques
segredos que guardamos até hoje
no fundo do nosso carcomido
agradecido coração

WEEK-END

primas no quintal
maracujás carambolas abius
tias na varanda

PRAIA DO BOQUEIRÃO

& o português de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se perante o nosso cerco
de defensores do coração de jesus
que mamãe guardava na sala
mostrando as pernas de sua amante
e o seu grande coração peludo
era bem maior que o mundo
& nos disse que a sua amante
era Messalina nossa mãe
ou o esperado menino de olhos azuis
que geralmente pinta no final dos tempos
& a delícia áspera dos corpos
rolando na areia morna
de um final de tarde
feliz

MOMENTO DE PENUMBRA

& me prendeu os braços
contra as grades que davam pro terraço
na pequena sala
onde seu pai conversava sexta-feira
com os espíritos

JUNINHO

o pai vendo-o fraco e delicado
com aqueles olhos femininos
resolveu mandá-lo pr’um curso de ginástica
que acabou sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos grandes músculos
das noites quentes
onde as pernas morenas despertavam pela luz
suas bundas aquáticas

o pai vendo-o forte e feminino
arrancou-lhe aqueles olhos
do menino
que nunca mais eu vi

O RETORNO DAS SOMBRAS

Juninho voltou um dia vestido de filha
de santos dinâmicos
pra nos dizer
que só as sombras retornam

depois tomou um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente pelo mundo

LEMBRANÇA

Vilma era forte
& lutava jiujitz

TRADUZINDO EM MIÚDOS

Dna. Elvira
nas tardes de catecismo
& das antigas balas de mel
quando Deus escondia
a sua face clara de sol
no outro lado do mundo
nos dizia
que a punheta era pecado

mas havia Vilma
com suas pernas lisas morenas
seu andar de nadadora
sua arrogância de lutadora de jiujitz
& Juninho com a sua mão forte delicada
que amava todos os meninos
& os compreendia
quando eles ainda eram nuvens

veio a noite
vieram as árvores & as folhagens
& Dna. Elvira foi pro inferno

O FIM DA PRIMAVERA

as mães gritavam das janelas
os pais haviam chegado pro jantar
os filhos retornavam
docemente sangrando pelas pernas
com os aromas das folhagens
qie cercavam a última praça
da nossa infância
os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
& os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
pra aquela praça vazia escura
onde o vento fazia as últimas flores
da primavera
se balançar

CABARÉS

os cabarés da rua General Câmara
com suas damas volumosas
acetinadas vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro de bonde
que havia sido trombonista de vara
são verdadeiros
mas já anunciaram o fim do mundo
& hoje moram na cachola
desmemoriada dos deuses
que se evaporaram nas nuvens
da minha adolescência

DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança de Murilo Mendes)

a última face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret de nuvens

o último corpo úmido incandescente
que me espera há séculos
num lençol de linho

o último corpo nu
& os primeiros leites venenosos
no grande berço da vitória

o último leite vivo
com as cobras que o dilúvio revelou

A ÚLTIMA NOITE

na última noite
as irmãs se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram barcos úmidos
montanhas submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar sob luzes
fosforescentes
escorregadias

pela manhã
as irmãs expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas paredes
bolor nos quadros
das últimas revoluções

a última noite
unilateralmente
eterna

INCURSÃO MARÍTIMA

quando o teu corpo nu
se esconder nas trevas
já sabes
ele surgirá do lado oposto
do universo
& de teus neurônios
brilharão os novos raios
de sol

quando um grito grego africano
se ouvir na praia
já sabes

REMELEXO CAVALGADA

te remexes dentro de mim
mais do que aquele dia
em que ligaste as bocas do fogão
& te consumiste por inteira
teu corpo grande caboclo
tuas pernas ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce mais que sombra dentro de mim
& mal cabe

assim te agarras em minhas células
& reinventas o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo cercado de anjos clínicos
que te puxam como um câncer
& nada podem contra ti
viúva de São Jorge que me cavalga
como a um cavalo roubado
tu que perdes a máscara de família
quando me arranhas
com tuas unhas de esmalte vermelho
que nunca se acaba
iemanjá da volúpia da minha infância
da minha adolescência da minha eternidade
que remexes dentro de mim
todas estas vozes
que fazem parte de tua infinitude
eu que mal lembro o teu rosto

O ÚLTIMO POEMA

sabor de lua morna a te crescer no ventre
a te fazer crescente sol de moreno íntimo
produto de percurso líquido
poder explosivo de serpente do último bote
onde as metáforas se diluem
os campos se esgotam os mares se esvaziam
os músculos são brancos
& se dirigem para o incolor pro infinito
onde nada é literário & o tempo não respira
& o literário é isto re-posição do bote
para o nada para o íntimo
pra ser literário de novo & para o nada para o íntimo
circularidade obliquidade espiralidade asas
para a morte onde danças
o despertar do primeiro & último
mágico num balancê de nuvens
que se esvaem como a minha literatura
que nada vale comparada ao teu suor
tu pavão dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã da minha morte
tu a espera da explosão dos meus micróbios
onde finalmente as imagens se dissolvem
porque te fizeste absoluto em meu caminho
& o vento já invade o buraco fundo dos meus olhos

tu
já que não és
nada

SHINING ALONE

lembro-me de tua lua branca
sentada sobre o muro
anunciando
os primeiros pêlos da noite

o sol já se tornava escandinavo
por detrás do mamoeiro

metáforas fechavam os seus ovários
o último fio de sangue
escuro escorria pelo céu

os frutos escorriam com a noite

SHINING ALONE II

tias e primas morenas ocupavam
todos os espaços do meu sonho
até que rompeste num ato acrobático
de leoa de circo varando
o círculo de fogo
e depois o círculo de pano
onde brilhava escrito o teu nome
rasgando-me a lembrança e a tua imagem
tomou a forma diluída de um pássaro
que nunca mais foi visto

OLHANDO A TUA FOTOGRAFIA NOVAMENTE

teu olhar tua lua teu conhaque
cada trago que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno poema
que li numa cidade antiga
onde nasci
onde nossas pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer marítimo
de espumas cintilantes
e as palavras
se quebravam sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável

tua lua
teu conhaque

O BEIJO ÚLTIMO

o primeiro beijo foi
que nem areia movediça
afogamento inevitável

o primeiro beijo
foi da boca incompleta
de Dalva
que tinha a saliva grossa
digestão química da noite

o primeiro beijo
teve suas dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado de flautas
e a minha
que guardo no peito eternamente

o primeiro beijo
teve efeitos catastróficos
Dalva morreu logo depois
e eu continuo vivo até hoje

VIAGEM AO SEIO DE MACHADO
a Aníbal Machado

Duília morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo dos minutos da adolescência
Duília pétrea estrela presa
na presa dos meus olhos pedregulhos

no trem dos perdidos anos que nos separam
os seios gritam

descobrimos Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as grades de pedra
fuga de pássaro rastro e sangue
trilhando sonhos luzes

dor de bicho interno percorrendo o íntimo

quando cheguei à praia
o mar ardia as feridas do pensamento

era necessário conquistar a física das infâncias
os seios de Duília marejando os primeiros leites
(Duília passageira destes anos mortos)
espumando o primeiro beijo
que um trem em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao meio

Duília cidade antiga e inacessível

é necessário conquistar todas as cidades
remover todas as muralhas
encontrar Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados entre o amor e o medo
quando da chegada dos primeiros destacamentos de homens armados

BANHO DE LUA

noite alta céu risonho
um beijo amargo
& um besta a mais na vida

VERÃO 77

teu corpo foi soterrado
os homens que amaste estão soterrados

nossas vidas estão soterradas
naquela praça
onde não há mais espaço
pra tanta gente

a vida é dura meu amor
a vida é dura
as palavras não têm mais espelhos

não renascem mais
os mistérios das fontes límpidas

adeus sonetos de reconciliação
adeus pequenos poemas bucólicos
adeus palavras deslizando na nudez

aqui termina o poema
aqui termina o conhaque
mas a vida
a malograda vida
continua

PAUPÉRIA
a Torquato Neto

talvez te transportem na noite
alguns jovens de fogo
de cabelos de chamas apagadas

talvez te lêem mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho de dentro permanecem
fechadas

não descobrem o dia
e toquem um baião na Nicarágua

talvez a vida continue
e brilhe
a mesma estrela de ontem
que se apaga
com a luz do banheiro
enforcada no cano

talvez o provérbio vença
& não seremos mais nada

DESPEDIDA
homenagem à Praça da Luz

as luzes de mercúrio
envenenam os nossos últimos morcegos
a lua é de mercúrio
e a vida
não é mais o termômetro
de nossa febre

adeus morena
adeus minha ave rara
que aqui faz
esta imensa falta de música

no dia em que você se lembrar de mim
procure-me
ao pé das árvores
estupidamente floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano sinistro

adeus morena
e não se esqueça
de apagar a luz.

—————————————————————————————————-Revista ” O Caixote” – Lizete Mercadante Machado

Revista O Caixote2_publicado por Lizete Mercadante Machado

http://www.ocaixote.com.br/caixote02/sangue_frutas.html

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