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A Globo é o golpe. Sempre será, enquanto existir. por Maria Luiza Quaresma Tonelli

16 maio

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Em tempos de normalidade democrática, numa sociedade civilizada, a condenação moral se dá após uma condenação judicial justa, de acordo com o devido processo legal, com o direito constitucional da ampla defesa.

Não estamos vivendo esse tempo. Para ser generosa, digo que estamos no limiar entre a democracia e a ditadura. Desde o famigerado “mensalão” a mídia (Globo à frente) vem promovendo uma cultura do ódio antipetista.

Lá começou o golpe, que continua e ainda não terminou. Desde então a condenação moral precede a condenação judicial, com provas ou sem provas. A condenação moral nessas condições é a mais perversa, pois destrói reputações. Desumaniza, nada respeita, nem as famílias.

É próprio de uma sociedade que se caracteriza cada vez mais pelo pensamento fascista. Contra a injustiça da condenação moral não há a quem recorrer, não há reparação possível. É a quintessencia da injustiça.

Toda a minha solidariedade ao ex-ministro Guido Mantega e a sua família e a todos os nossos que são vítimas dessa ignomínia patrocinada pela rede Globo, a inimiga da democracia e do sofrido povo brasileiro. Digo e repito: a Globo é o golpe. Sempre será, enquanto existir.

 Maria Luiza Quaresma Tonelli
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Caráter, artigo raro no Brasil

13 maio

 

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A Bancoop, cooperativa do Sindicato dos bancários de São Paulo, adquiriu um terreno e resolveu construir apartamentos em condomínio, para venda.
Dona Marisa Letícia Lula da Silva, falecida, decidiu comprar uma cota, referente a um apartamento, o que fez, com a anuência de Lula, claro.
Posteriormente a cooperativa não deu conta das obras, acumulando dívidas, e a empreiteira OAS, que vinha realizando as obras, assumiu o empreendimento.
Nesta transferência, da Bancoop para a OAS, abriu-se juridicamente a possibilidade de rescisão do contrato de compra e venda da cota (apartamento) ou renegociação de preço, o que comercialmente se chama janela.
Contra, a família Lula tinha que as obras estavam atrasadas e mais o argumento do ex-presidente, de que não poderia desfrutar da praia em frente, por causa do assédio.
Lembro que na ocasião Lula foi criticado pelos coxas, chamando-o de pop star e estrela, porque Lula afirmou que se fosse morar lá o local se tornaria ponto turístico e ele não teria paz.
O negócio foi desfeito, a rescisão contratual celebrada.
Esta é a história original, repetida por Dona Marisa Letícia, por Lula e que consta na documentação em poder do Moro.
Não há nem nunca houve nenhum documento no nome do Lula, quem comprou o apartamento foi Dona Marisa, quem desfez o negócio foi Dona Marisa
Esta foi a história que Lula contou em Moritiba, no dia 10, e que bate certinho com o que o casal Lula sempre falou e que foi amplamente noticiado pela mídia.
A partir daí, em surto de amnésia, a mídia mau caráter está noticiando que Lula jogou a culpa na mulher, comentarista$ de aluguel estão vomitando que Lula pôs a culpa na mulher e a beócia massa de energúmenos pautados pela mídia está repetindo.
Aí a Polícia Federal, a insuspeita Polícia Federal do Japonês Bonzinho, a Polícia Federal que descobriu em tempo recorde de quem era a meia tonelada de pasta de cocaína transportada pela Perrela’s Airlines, com um monte de delegados cabos eleitorais de Aécio, resolveu processar Lula porque ele insinuou que um contrato sem assinaturas, atribuindo a ele a propriedade de um triplex, foi plantado em sua casa.
As palavras plantado e forjado fazem parte do vocabulário policial em todos os estados, e pelo menos aqui no Rio de Janeiro não há quem não saiba de flagrantes plantados em blits de trânsito e batidas policiais.
Não há quem não saiba de armas postas nas mãos de cadáveres ou drogas nos bolsos de cadáveres, para justificar o assassinato de inocentes ou autos de resistência (assassinato em troca de tiros), inclusive com vídeos no Youtube, feitos clandestinamente, é só baixar.
Caráter vai se tornando coisa cada vez mais rara no Brasil.

Francisco Costa
Rio, 12/05/2017.

UFC :. Pérolas do embate Lula x Moro

11 maio

09.03.2016  DD dia a dia --  Lula   --  CONTRA -- Foto: Divulgaçao

1) MORO: Senhor ex-presidente, preciso lhe advertir que talvez sejam feitas perguntas difíceis para você.
LULA: Não existe pergunta difícil pra quem fala a verdade.

***

2) MORO: Esse documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura, o senhor sabe quem o rasurou?
LULA: A Polícia Federal não descobriu quem foi? Não? Então, quando descobrir, o senhor me fala, eu também quero saber.

***

3) MORO: O senhor não sabia dos desvios da Petrobras?
LULA: Ninguém sabia dos desvios da Petrobras. Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o Ministério Público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef.
MORO: Mas eu não tinha que saber. Não tenho nada com isso.
LULA: Tem sim. Foi o senhor quem soltou o Youssef. O senhor deve saber mais que eu [referindo-se ao escândalo do Banestado].

***

4) LULA: O Dallagnol não tá aqui. Eu queria o Dallagnol aqui pra me explicar aquele PowerPoint.

***

5) MORO: Saíram denúncias na Folha de S. Paulo e no jornal O Globo de que…
LULA: Doutor, não me julgue por notícias, mas por provas.

***

6) LULA: Esse julgamento é feito pela e para a imprensa.
MORO: O julgamento será feito sobre as provas. A questão da imprensa está relacionada a liberdade de imprensa e não tem ligação com o julgamento.
LULA: Talvez o senhor tenha entrado nessa sem perceber, mas seu julgamento está sim ligado a imprensa e os vazamentos. Entrou nessa quando grampeou a conversa da presidente e vazou, conversas na minha casa e vazou, quando mandou um batalhão me buscar em casa, sem me convidar antes, e a imprensa sabia. Tem coisas nesse processo que a imprensa fica sabendo primeiro que os meus advogados. Como pode isso? E, prepare-se, porque estes que me atacam, se perceberem que não há mesmo provas contra mim e que eu não serei preso, irão atacar o senhor com muito mais força.

***

7) MORO: Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque roubava a Petrobras?
LULA: Doutor, o filho quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: “Pai, tirei nota vermelha”.
MORO: Os meus filhos falam.
LULA: Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho.

***

8) LULA: Doutor Moro, o senhor já deve ter ido com sua esposa numa loja de sapatos e ela fez o vendedor baixar 30 ou 40 caixas de sapatos, experimentou vários e no final, vocês foram embora e não compraram nenhum. Sua esposa é dona de algum sapato, só porque olhou e provou os sapatos? Cadê uma única prova de que eu sou dono de algum tríplex? Apresente provas doutor Moro?

***

9) MORO: O senhor solicitou à OAS que fosse instalado um elevador no tríplex?
LULA: O senhor está vendo essa escada caracol nessa foto? Essa escada tem dezesseis degraus e é do apartamento em que eu moro há 18 anos em São Bernardo. Dezoito anos a Dona Marisa, que tinha problema nas cartilagens do joelho passou subindo e descendo essa escada. O senhor acha que eu iria pedir um elevador no apartamento que eu não comprei, ao invés de pedir um elevador no apartamento em que eu moro, para que a Dona Marisa não precisasse mais subir essa escada?

***

10) LULA: O vazamento das conversas da minha mulher e dela com meus filhos foi o senhor quem autorizou.

***

11) MORO: Tem um documento aqui que fala do tríplex…
LULA: Tá assinado por quem?
MORO: Hmm… A assinatura tá em branco…
LULA: Então, o senhor pode guardar por gentileza!

Rindo até 2030…  ( Via Marcos Alexandre de Moraes- Facebook)

moro e lula para o blog

Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

putin

Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

Ocupação Cambridge une luta e arte pelo direito à cidade

19 out

 

Experiência de cinema colaborativo em São Paulo aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática
por Carolina Caffé publicado 16/10/2016 11:00, última modificação 17/10/2016 06:40
JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO
Ocupação Cambridge

Filme reúne atores consagrados, como José Dumont, e personagens da vida real, como a líder da ocupação Carmen

Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.

PAULO CÉSAR LIMA/ERA O HOTEL CAMBRIDGEEliana
A diretora Eliane Caffé conviveu com moradores durante quase três anos

Situado no primeiro quarteirão da Avenida 9 de Julho, vizinho do Vale do Anhangabaú, o Hotel Cambridge é dos tempos da “terra da garoa”, inaugurado em 1951. Cerrou as portas em 2002, resistindo ainda algum tempo – antes de fechar de vez – como espaço de festas e eventos, num lobby agitado encimado por andares abandonados. Acabou ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). O edifício sem elevador tem 15 pavimentos e 241 quartos. Após a ocupação, um mutirão de limpeza removeu 15 toneladas de lixo em caçambas de quase 60 caminhões. A reciclagem não era apenas do lixo, mas também do espaço, que deixava de ser um lugar sem função social para abrigar mais de 170 famílias, cerca de 500 pessoas.

“Além de moradia, aqui promovemos ações e debates, para que o direito constitucional que garante a moradia seja cumprido pelo Estado, corrigindo as falhas cometidas há décadas pelo poder público na distribuição urbanística e habitacional das cidades brasileiras”, afirma Carmen Silva, líder da ocupação e da Frente de Luta por Moradia (FLM). O movimento atuou no centro, pois entende que a morada digna não é apenas “telhado e quatro paredes”, mas estar cercada por serviços públicos como transporte, escola, posto de saúde, creches, faculdades e oportunidades de trabalho. A luta é pelo direito à cidade.

CAROLINA CAFFÉCrianças
Horta no telhado, participação de crianças e continuidade do intercâmbio social e cultural depois das filmagens

Shopping rua

Chamam a atenção na ocupação diversos aspectos, entre os quais a gestão coletiva do espaço. As famílias dividem a limpeza e se responsabilizam pelas áreas comuns do prédio. Quando há um morador novo, uma força tarefa busca nas ruas móveis e objetos que possam ser reutilizados (o que eles chamam de “shopping rua”). Há horários limitados para visita, não se tolera o uso de drogas e todos devem participar das assembleias e ações do movimento pela cidade. Para quem vem de fora, impressiona o nível de participação dos moradores em assembleias, fóruns, conferências municipais, passeatas e decisões sobre o orçamento público da cidade. Uma verdadeira aula de cidadania e cuidado com o bem comum.

A liderança feminina também se destaca. “Temos muitas heroínas por aqui”, conta Carmen. “As mulheres ocupam cada vez mais o espaço de luta, defendendo suas famílias e a moradia digna.” Ela própria é uma dessas. Cansada das agressões domésticas, trocou Salvador por São Paulo. Deixou com a família os sete filhos e voltou para buscá-los anos depois. Chegou em São Paulo com as mãos vazias e cheia de esperança no peito. Morou de favor na casa de amigos até saber de uma ocupação no centro. Começava ali a emocionante trajetória de uma vida política marcada por lutas e conquistas, até se tornar líder do movimento que abriga, em mais de 60% dos casos, mães solteiras como ela.

Também nas ocupações do centro vários refugiados encontraram base para nova vida. A ausência de políticas públicas para imigrantes e refugiados faz das ocupações uma alternativa de adaptação e integração com a cidade. Vindos do Congo, Haiti, Senegal, Togo, Camarões, Benin, Colômbia, Peru, Bolívia, República Dominicana e Palestina, procuram, além de uma vida melhor, emprego e um meio de enviar dinheiro para seus familiares nos países de origem. “Quando o refugiado chega na cidade não tem onde dormir. O Brasil abriga cerca de 9 mil refugiados, e em São Paulo são apenas 340 leitos no centro de acolhida”, afirma Pitchou Luambo, refugiado da guerra pelo minério na República Democrática do Congo – e morador da Ocupação Cambridge.

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Tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia

Cinema colaborativo

A diversidade cultural resultante desse encontro entre brasileiros de diferentes regiões, imigrantes e refugiados, inspirou a cineasta Eliane Caffé a produzir o filme Era o Hotel Cambridge. “O que me interessava retratar era o choque cultural entre refugiados e brasileiros, e aí apareceu o tema das ocupações. Mas no lugar do choque encontramos semelhanças: tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia”, diz.

Nas oficinas preparatórias, em que Eliane reuniu os refugiados para o estudo e escolha dos “personagens”, foi formado o Grupo dos Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que decidiu expandir os encontros para além do filme. Hoje, o Grist promove debates e palestras sobre refúgio, história africana, xenofobia, racismo e descriminação e promove cursos, campanhas, festivais e shows para difusão e valorização da cultura. Em um ano, o grupo realizou o 1º Fórum dos Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo, o 1º Festival Musical dos Refugiados de São Paulo (no Largo da Batata, tradicional palco de manifestações na zona oeste) e o evento Conexão Cultural (no Museu da Imagem e do Som, o MIS).

E não foi o único coletivo que se originou no contexto da gravação de Era o Hotel Cambridge. O filme inspirou a formação e o cruzamento de novas ações e movimentos. Um verdadeiro laboratório social e cultural, fazendo São Paulo despertar para uma forma incomum de pensar o cinema: como um legado social. A experiência desafiou as estruturas hierárquicas e tradicionais de direção e produção, propondo uma forma participativa, colaborativa e inclusiva.

O filme mistura ficção e documentário e narra a trajetória de um grupo de refugiados recém-chegados, que se unem aos sem-teto e dividem a ocupação de um antigo edifício no centro de São Paulo. Foi realizado por meio de um processo colaborativo entre a Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da ­Escola da Cidade e o MSTC. O elenco reúne atores profissionais, como José Dumont e Suely Franco, e atores sociais: os moradores, que interpretam a própria história.

Durante a fase de criação do roteiro, pesquisa e seleção dos personagens, além dos encontros dominicais com o grupo dos refugiados, foram realizadas oficinas de vídeo com os moradores da ocupação, e o observatório web, com exibições e debates. Toda a produção artística envolveu moradores, não apenas como parte da equipe, mas usando dos seus saberes e tecnologias, como o shopping rua.

A professora de Desenho e Arquitetura Carla Caffé, da Escola da Cidade, também diretora de arte de Era o Hotel Cambridge, elaborou um curso para que os alunos colaborassem com o desenho e produção de arte, como na definição de cores, tecidos, imagens, animações, figurinos e cenários. A ideia foi fazer um “cinema de intervenção”em vez de um “cinema de passagem”. Tudo o que fosse construído para os cenários não deveria ser desfeito, e sim ter uma função, um legado, enquanto a ocupação existir.

A disciplina foi realizada com 21 estudantes e o professor Luís Felipe Abbud. A atividade experimental uniu ensino de arquitetura ao de direção de arte cinematográfica. A disciplina trouxe à tona problemáticas urbanas como a compreensão e atuação com um movimento social de luta por moradia (MSTC) e o reúso inteligente de materiais descartados, em oficinas com o Coletivo Basurama. “Equipamos a biblioteca, o brechó, a área das costureiras e o saguão de entrada do hotel”, diz Carla. “Equipamos os pontos de encontro e interação dos espaços comuns do edifício, para incentivar o espírito de coletividade do movimento.”

Os encontros de pesquisa e criação com os personagens sociais começaram a reunir entusiastas de todos os campos e ganhar vida própria. Mesmo depois de as gravações terminarem, o intercâmbio social e cultural era tão forte que muitos da equipe do filme resolveram continuar­ suas ações e oficinas, e novos movimentos começaram a brotar na ocupação: a fome dos paulistanos em ocupar, sair das bolhas, cruzar fronteiras e desafiar a ordem.

A construção da horta comunitária no telhado do prédio – com o Coletivo Habitacidade –, aulas de dança africana, intervenções de jornalistas independentes, grupos de trabalho em psicanálise – conduzidos por profissionais do Instituto Sedes Sapientiae –, a formação do Centro de Assistência à Saúde dos Imigrantes e Refugiados (Casir) e ações do coletivo interdisciplinar Linha de Frente e da Residência Artística Cambridge são algumas das ações que acontecem hoje no local.

Era o Hotel Cambridge ganhou prêmio e foi lançado em setembro deste ano no Festival San Sebastián, na Espanha, um dos mais importantes do mundo. Ganhou reconhecimento internacional em exposições como no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o MIT, nos Estados Unidos), em março. No Brasil, deve entrar em cartaz no início de 2017.

“Eu gostaria de seguir esta experiência de um filme expandido também na fase de comercialização”, diz Eliane. “Os festivais convidam, pagam passagem ­aérea geralmente para diretor e produtor. Quando você chega lá no tapete vermelho tem a mídia imensa esperando você passar, e quando a gente fala em lançamento expandido, quer dizer não deixar o pessoal do movimento fora dessa, e aproveitar a oportunidade para fazer novas articulações similares em evento que estão acontecendo no mundo, de ocupação e de refugiados.”

Na Espanha, Carmen Silva, do MSTC, conheceu e fez alianças com lideranças da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), associação surgida em fevereiro de 2009 em Barcelona. “Estamos conseguindo levar para fora a nossa luta”, celebra Carmen. “É uma grande oportunidade de dar visibilidade ao movimento que sempre foi muito discriminado pela mídia. O filme permitiu mostrar que não somos vândalos, e sim famílias e trabalhadores lutando pelos direitos garantidos na nossa Constituição.”

PAULO CÉSAR LIMAocupacao12_foto_paulo_cesar_lima.jpg

Fachada do Cambrige, no centro de São Paulo: ocupação em hotel fechado em 2002 reúne 500 pessoasDireito de ocupar

Em tempos em que o espaço público das cidades se vê ultrajado por bombas de efeito moral e balas de borracha, ocupar virou palavra de ordem para quem defende a democracia e a vida. Como diz o poeta Hamilton Faria, sociólogo do Instituto Pólis: “É preciso desobedecer as práticas antidemocráticas: na vida cotidiana, nas instituições e na sociedade em geral. Ocupar não é invadir. É entrar pacificamente e dizer ‘olha, eu tenho voz e isso me pertence’. A Funarte não é do Ministério da Cultura, as escolas não são do governo estadual, os espaços públicos não são do governo. Eles são públicos”.

O conceito do Direito à Cidade tem ganhado visibilidade e reconhecimento, não apenas entre a sociedade civil mas também dos governos mundiais (como a inclusão do termo na Nova Agenda Urbana, documento oficial da Organização das Nações Unidas). A arquiteto e curador Guilherme Wisnik lembra que a ideia de Direito à Cidade para Henri Lefebvre (filósofo francês, autor do conceito) implicava não em um direito aos serviços da cidade exatamente, mas um direito de transformar a cidade. Inventar uma nova cidade a partir do real.

Segundo Wisnik, o pensamento ficou esquecido por no mínimo duas décadas (de 1980 e 1990) de predominância do pensamento neoliberal de que tudo aquilo que foi postulado como possibilidade transformadora nos anos 60 tinha se revelado impossível, segundo o raciocínio pragmático. “Mas na virada do século aconteceu por diversas frentes uma espécie de ataque ao coração do sistema, e essas manifestações se desdobraram em possibilidades reais de que o sistema pudesse ser mudado”, afirma.

A Ocupacão Cambridge não é apenas um marco de resistência ao modelo individualista, competitivo e alienado das cidades modernas capitalistas. É, ao mesmo tempo, um modelo a ser observado e aprendido como paradigma de cidade e relações humanas. As soluções para os grandes problemas que vivemos nas cidades não precisam ser inventadas, mas reconhecidas e fortalecidas. Era o Hotel Cambridge é um exemplo de apropriação das tecnologias e saberes produzidos nas ocupações.Assista à reportagem da TVT sobre o filme

RBA

Vou revelar meu segredo de tranquilidade.Por Míriam Márcia Morais

12 maio

http://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2014/10/

Vi Cardozo enquanto ministro fazer baixar a PF na casa dos golpistas graúdos e pegar os computadores, o que a gente sabe o que significa.

Vi o aeroporto de Aécio ser colocado nas telas de TV, na cara de todo mundo, e vi ele continuar em paz com seu aeroporto sem ninguém da política, imprensa ou judiciário abrir a boca.

Vi Eduardo Campos morrer de uma queda de avião no dia D, no último segundo do prazo que se não houvesse a troca por Marina, não haveria segundo turno, e quem teve prejuízos com a queda até hoje não foram compensados porque o avião não tem dono.

Vi Moro brincar de Hitler, Genoíno ir para a cadeia, Vaccari (o mais pobre dentre todos os citados) ser preso e permanecer até hoje numa cela da qual Moro livrou todos os envolvidos da Abreu e Lima só porque eram tucanos.

Vi Dirceu ser preso duas vezes num país onde corruptos aparecem mais nas telas de TV do que os artistas da hora. Vi a França enviar denúncia contra José Serra e a Suíça enviar as contas de Cunha e não acontecer absolutamente nada.
Então minha suposição é que assistir a tudo isso sem fazer nada é uma estratégia para, na hora certa, agir de forma dura para lançar tudo isso para o esgoto, mostrar pra todo mundo, esfregar na cara de quem não quer ver e recomeçar sobre novas bases.
Tenho esperado por esse momento. Não acredito que Exército, Marinha, Aeronáutica, seja compostas por covardes omissos em sua maioria, que estejam ignorando de fato, e não de mentirinha, as provas de que o alto escalão do Congresso seja composto de pessoas do alto escalão do tráfico de drogas, como nos provou o helicóptero.

Não acredito que não passem de moleques os nossos comandantes. Não acredito que os juristas sejam conviventes com o crime em sua maioria. Há bandidos de toga, mas nunca acreditei em maioria.
Também não acredito que Lula e Dilma tenham todo esse arsenal para carregar na mala quando terminar o tempo deles.
Quanto mais fundo mergulhamos na investigação dos fatos e da política, mais sabemos que só o anseio de mudar esse estado de coisas justifica a atuação nessa área.
O momento agora é decisivo, definitivo. Saberei se estive enganada ou se há um limite traçado entre o admissível e o intolerável na cabeça dos que assistem isso ainda mais de perto.
O momento é decisivo, é momento limite ao menos para mim. Já fui aqui muito criticada por dizer que se nada acontecer eu me despeço da política.

Não vivi duas vidas nem a ditadura militar para julgar a História, mas posso afirmar que no tempo em que vivi, nunca houve momento melhor para atirar tudo de uma vez no ventilador e decretar o BASTA!

Se nada acontecer e Dilma simplesmente sair, teremos atravessado o meu limite pessoal do que é admissível e tolerável.

Para mim o ativismo político termina.

Posso continuar pedagoga, posso continuar escrevendo livros ou gravando aulas sobre política, mas o que caracteriza o militante é a fé na possibilidade de mudanças.
Se Dilma simplesmente sair, não me interessa se será Temer, Aécio ou Tiririca a ocupar a presidência.

Se Dilma simplesmente sair, saio junto, e assim como ela, nessa vida não voltaremos mais.
Estou feliz de finalmente chegar o meu momento limite.

Acredito que algo acontecerá.

E serei ainda mais dedicada e atenta do que tenho sido até aqui.

Se Dilma não sair.

Por Míriam Márcia Morais(Direto da Central de Debates do Facebook)

Ler para entender e conviver

2 maio

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por Xandra Stefanel

Além de divertir, literatura infantil e infanto-juvenil pode ajudar a promover a diversidade e o respeito.

Era uma vez… uma princesa que nasceu príncipe. Em outro reino, uma princesa se apaixona pela costureira que faria seu vestido de casamento. A Princesa e a Costureira e Joana Princesa, da escritora e psicóloga Janaína Leslão, trazem a mesma magia que permeia os contos de fada. A diferença é que suas histórias abarcam uma diversidade muito maior de personagens: uma princesa transgênero que tem uma irmã com deficiência física, outra princesa negra que cai de amores por uma costureira ruiva. Em comum, os dois livros trazem as aventuras de pessoas que se amam, querem viver o amor de forma plena e livre, com o bom e velho final “E viveram felizes para sempre”.

Não são muitos os livros infantis e infanto-juvenis que representam a diversidade social em suas narrativas, nem que busquem, além de entreter, ensinar as mais diversas questões ligadas à cidadania: o respeito ao próximo, o combate ao preconceito, o consumo consciente. Mesmo que ainda seja uma pequena parcela do que se encontra nas prateleiras das livrarias, há um número crescente de obras que abordam essas temáticas.

Um exemplo são os livros do selo Boitatá, da Editora Boitempo, criado no final de 2015 com o objetivo de apresentar temas de interesse social e de cidadania para crianças. Até agora, o selo lançou quatro obras: A Democracia Pode Ser Assim, A Ditadura É Assim, As Mulheres e os Homens e O que São Classes Sociais? Para os próximos meses, devem ser lançados livros que abordarão a prática do bullying, o respeito às diferenças e à diversidade e sobre deficiência física.

Para a editora da Boitatá, Thaisa Burani, é importante que não apenas a literatura, mas todas atividades infantis contribuam para formar um imaginário tolerante e cidadão. “Se o indivíduo não possui nem acredita em valores cidadãos (respeito ao próximo, tolerância, cidadania, justiça social, direitos humanos), de muito pouco adianta o discurso ou a ideologia, por mais bem intencionados que sejam. E a experiência da infância, o ato de ser criança, é onde mais podemos explorar e enriquecer nosso imaginário. Livros, filmes e brincadeiras, além de nos entreter, exercitam justamente isso: a forma como vemos, compreendemos e participamos no mundo. É por isso que uma heroína mulher é importante, é por isso que protagonistas negros são importantes, é por isso que falar de diversidade amorosa e de arranjos familiares diversos é importante, porque tudo isso se soma e também forma o imaginário. Se uma criança cresce entendendo que tudo isso é ‘normal’, que todos são iguais e merecem respeito, ela naturalmente será mais tolerante e cidadã”, opina.
Identificação

Em 2007, a psicóloga Janaí­na Leslão trabalhava questões ligadas à sexualidade, gênero e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e aids com um grupo de adolescentes. Uma das atividades que eles deveriam realizar no final do ano era montar esquetes baseadas em histórias conhecidas, com uma roupagem atual e que abordasse as questões discutidas. “O referencial de final feliz que eles tinham ainda era o dos contos de fadas. Quando conversávamos sobre questões de sexualidade e gênero de pessoas trans ou do amor entre dois homens ou duas mulheres, não tinham nenhum referencial na literatura, muito menos nos contos de fadas. Só pelo noticiário de jornal, que mostra uma lâmpada na cara, uma travesti esfaqueada. Isso me despertou a vontade de escrever. Fui pesquisar e não tinha nada nesse gênero de literatura, com essas temáticas trabalhadas em uma linguagem mais leve e acessível”, lembra.

Foi assim que nasceu seu primeiro livro, A Princesa e a Costureira, escrito em 2009 e publicado em 2015 pela Metanoia Editora. “Ele vendeu bem, superou nossas expectativas, tanto que estamos indo para uma segunda edição e vamos lançar em e-book também. Muitas pessoas, especialmente jovens adultos, me procuram e dizem: ‘Nossa, que maravilha! Queria tanto ter lido isso quando eu era adolescente. Acho que não teria passado por tanto conflito’. Ou então: ‘Eu me senti representada, nunca tinha visto uma princesa negra e ainda por cima lésbica, como eu’. As pessoas me dizem que os contos de fadas com os quais todo mundo sonhava, nunca puderam representá-las. Então, a ideia principal era incluir pessoas que não estavam nas narrativas originais”, afirma a autora, que em maio deve lançar seu segundo livro, Joana Princesa.

Para a pedagoga Daniela Auad, professora de Sociologia da Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora, livros como os de Janaína fazem com que as crianças vindas de lares homoparentais se sintam representadas. “Os livros infantis, infanto-juvenis e outras produções na televisão e no teatro mostram para crianças casais compostos por alguém do sexo feminino e alguém do sexo masculino: um homem e uma mulher, um menino e uma menina, um cachorrinho e uma cachorrinha… Mas não se tem usualmente casais compostos por pessoas do mesmo sexo. Esta falta de representação pode fazer com que as crianças que estão em um lar homoparental e, eventualmente crianças e adolescentes que se percebam tendo desejo por pessoas do mesmo sexo, não se sintam representadas”, diz Daniela, responsável pelo prefácio da segunda edição de A Princesa e a Costureira.

Olívia Tem Dois Papais (Cia. das Letrinhas), da escritora Márcia Leite, conta a história de uma menininha muito esperta que tem uma família um pouco diferente e totalmente encantadora: seu pai Raul ama brincar de filhinho e mamãe e quando ela se diz desfalecendo (ela adora esta palavra!) de fome, seu pai Luís vai para a cozinha e prepara deliciosas refeições. A autora afirma que a constituição desta narrativa não se deu por meio do tema (a família homoafetiva), mas sim de uma escolha que potencializa o campo de atuação da personagem principal. “A família homoparental é um tipo de família e ponto final. Se aceitamos que as famílias podem ter diferentes composições, o natural é explorar também nas narrativas as relações afetivas (ou a ausência delas) que as estruturam ou desestruturam, que estabilizam ou desestabilizam essa organização familiar. No caso da família da Olívia, o que tentei evidenciar foram situações de rotina, cuidado e amorosidade recíproca entre pais e filha, independentemente de sua composição.”

Neste caso, os questionamentos da personagem principal estão mais ligados às questões de gênero. “Procurei fazer com que Olívia fizesse perguntas e tivesse dúvidas pertinentes à idade e ao meio social em que vive sobre questões de gênero e não sobre questões de orientação sexual. Olívia deixa claro que se surpreende por um homem saber cozinhar, pentear a filha e cuidar tão bem dela. Esse é um questionamento de gênero e não de orientação sexual. Olívia não questiona porque os pais se amam, ou estão juntos, ou porque não tem uma mãe. Perguntas que também acontecem entre famílias heteroparentais, mas que quase sempre reforçam a noção de gênero dominante (menina faz isso, menino faz aquilo)”, afirma Márcia, também autora de Do Jeito que a Gente É (Editora Ática), em que um dos protagonistas é um menino gay.
Consumo consciente

Além de gênero e sexualidade, também há livros infantis e infanto-juvenis que abordam questões ligadas ao consumo e promovem, por exemplo, reflexões sobre a finitude dos recursos naturais, como é o caso de Eu Produzo Menos Lixo (Cortez Editora). Nele, a bióloga Cristina Santos faz um alerta ecológico para as crianças e contextualiza as mudanças que os hábitos de consumo modernos trouxeram para a sociedade. “Essas questões são contemporâneas e fazem parte de um grande problema mundial. Tentar apresentar esses assuntos numa linguagem que pudesse ser facilmente compreendida pelo público infanto-juvenil e que estimulasse o leitor a refletir sobre a sua maneira de consumir foram as grandes motivações para a preparação desse livro. Além disso, as ilustrações muito criativas de Freekje Veld foram fundamentais para apresentar o assunto de maneira mais descontraída, deixar o livro atraente, além de auxiliar na tarefa da compreensão de um tema considerado tão importante nos dias atuais”, diz a autora.

Com Bicicleta Amarela, previsto para ser lançado em abril, o designer recifense Igor Colares trata de forma lúdica sobre a importância da bicicleta para a mobilidade urbana. Em 2012, o autor lançou Bezerro Escritor, sobre o consumo do leite a partir do ponto de vista de Bombom, um bezerro desmamado que apresenta como o processo de industrialização atinge de forma cruel as vacas e seus filhotes.

O que motivou Igor a escrever as duas histórias é fazer com que as crianças veganas (que não consomem alimentos derivados de animais) e que os filhos de ciclistas e cicloativistas se sentissem representados na literatura. “Minha ideia não era convencer as pessoas a passarem a andar de bicicleta ou deixar de tomar leite. O que eu queria com os dois livros é que a galera que anda de bicicleta e a galera que não toma leite se identificassem. Para eles, é muito raro encontrar conteúdo em quase qualquer lugar, e na literatura infantil não é diferente. É como se as pessoas que estão engajadas nesses movimentos fossem meio alienígenas para o senso comum. A minha ideia era criar conteúdo com o qual eles se identificassem”, enfatiza.

A professora universitária Bárbara Eduarda Nóbrega Bastos, de 36 anos, leu a história de Bombom para o filho. “Sou vegana e queria um livro que me ajudasse a passar pro meu filho a realidade dos animais explorados para produção de alimentos numa linguagem adequada para a idade dele. Existem poucas publicações com essa temática, então o livro de Igor foi muito bem-vindo. Considero muito importante para a formação cidadã que as crianças conheçam os problemas da sociedade e entendam seu papel no combate a essas questões. Acredito que os temas devem ser apresentados de acordo com a idade, pois o objetivo não é deixar a criança assustada ou triste, então, deve-se levar em conta o que ela está preparada para aprender”, opina a mãe de Mateus Bastos Barretos, de 6 anos.

Entreter, ensinar, conscientizar
Estes são alguns exemplos de como a literatura também pode contribuir com a construção de um mundo melhor, mais tolerante, com menos ódio e mais respeito às pessoas e suas diferentes formas de viver. Thaisa Burani, do Boitatá, acredita que há muito a ser feito para a publicação de mais livros voltados para os pequenos cidadãos. “O mercado se verga muito facilmente a qualquer coisa que dê retorno financeiro alto e imediato – basta ver as gôndolas das livrarias abarrotadas de bobagens com personagens de grandes franquias da animação”, diz. “Mas não podemos negar toda a riqueza da história da literatura infanto-juvenil brasileira. Há mais de três décadas já tínhamos, por exemplo, uma Ana Maria Machado enaltecendo a beleza das meninas negras, ou mesmo um Pedro Bandeira e seu tão incisivo e politizado É Proibido Miar, sem contar a vasta obra de Tatiana Belinky, com todas as experimentações de linguagem e o caldeirão cultural que ela oferecia.”

“Ler um livro sobre uma menina que tem dois pais ou duas mães, ou um pai apenas, ou nenhum dos dois, apenas amplia a condição de percepção do mundo, de si e do outro. Acredito que a literatura que fala/toca em temas considerados difíceis (não apenas sobre a homoafetividade) provoca espaços de conversa e de reflexão que acabam atuando como um acolchoado simbólico para a compreensão do mundo e de si mesmo junto aos pequenos e grandes leitores. Na minha opinião, isso ajuda os leitores a serem melhores pessoas e melhores cidadãos”, resume a escritora Márcia Leite.

 

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