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UFC :. Pérolas do embate Lula x Moro

11 maio

09.03.2016  DD dia a dia --  Lula   --  CONTRA -- Foto: Divulgaçao

1) MORO: Senhor ex-presidente, preciso lhe advertir que talvez sejam feitas perguntas difíceis para você.
LULA: Não existe pergunta difícil pra quem fala a verdade.

***

2) MORO: Esse documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura, o senhor sabe quem o rasurou?
LULA: A Polícia Federal não descobriu quem foi? Não? Então, quando descobrir, o senhor me fala, eu também quero saber.

***

3) MORO: O senhor não sabia dos desvios da Petrobras?
LULA: Ninguém sabia dos desvios da Petrobras. Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o Ministério Público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef.
MORO: Mas eu não tinha que saber. Não tenho nada com isso.
LULA: Tem sim. Foi o senhor quem soltou o Youssef. O senhor deve saber mais que eu [referindo-se ao escândalo do Banestado].

***

4) LULA: O Dallagnol não tá aqui. Eu queria o Dallagnol aqui pra me explicar aquele PowerPoint.

***

5) MORO: Saíram denúncias na Folha de S. Paulo e no jornal O Globo de que…
LULA: Doutor, não me julgue por notícias, mas por provas.

***

6) LULA: Esse julgamento é feito pela e para a imprensa.
MORO: O julgamento será feito sobre as provas. A questão da imprensa está relacionada a liberdade de imprensa e não tem ligação com o julgamento.
LULA: Talvez o senhor tenha entrado nessa sem perceber, mas seu julgamento está sim ligado a imprensa e os vazamentos. Entrou nessa quando grampeou a conversa da presidente e vazou, conversas na minha casa e vazou, quando mandou um batalhão me buscar em casa, sem me convidar antes, e a imprensa sabia. Tem coisas nesse processo que a imprensa fica sabendo primeiro que os meus advogados. Como pode isso? E, prepare-se, porque estes que me atacam, se perceberem que não há mesmo provas contra mim e que eu não serei preso, irão atacar o senhor com muito mais força.

***

7) MORO: Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque roubava a Petrobras?
LULA: Doutor, o filho quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: “Pai, tirei nota vermelha”.
MORO: Os meus filhos falam.
LULA: Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho.

***

8) LULA: Doutor Moro, o senhor já deve ter ido com sua esposa numa loja de sapatos e ela fez o vendedor baixar 30 ou 40 caixas de sapatos, experimentou vários e no final, vocês foram embora e não compraram nenhum. Sua esposa é dona de algum sapato, só porque olhou e provou os sapatos? Cadê uma única prova de que eu sou dono de algum tríplex? Apresente provas doutor Moro?

***

9) MORO: O senhor solicitou à OAS que fosse instalado um elevador no tríplex?
LULA: O senhor está vendo essa escada caracol nessa foto? Essa escada tem dezesseis degraus e é do apartamento em que eu moro há 18 anos em São Bernardo. Dezoito anos a Dona Marisa, que tinha problema nas cartilagens do joelho passou subindo e descendo essa escada. O senhor acha que eu iria pedir um elevador no apartamento que eu não comprei, ao invés de pedir um elevador no apartamento em que eu moro, para que a Dona Marisa não precisasse mais subir essa escada?

***

10) LULA: O vazamento das conversas da minha mulher e dela com meus filhos foi o senhor quem autorizou.

***

11) MORO: Tem um documento aqui que fala do tríplex…
LULA: Tá assinado por quem?
MORO: Hmm… A assinatura tá em branco…
LULA: Então, o senhor pode guardar por gentileza!

Rindo até 2030…  ( Via Marcos Alexandre de Moraes- Facebook)

moro e lula para o blog

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Ocupação Cambridge une luta e arte pelo direito à cidade

19 out

 

Experiência de cinema colaborativo em São Paulo aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática
por Carolina Caffé publicado 16/10/2016 11:00, última modificação 17/10/2016 06:40
JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO
Ocupação Cambridge

Filme reúne atores consagrados, como José Dumont, e personagens da vida real, como a líder da ocupação Carmen

Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.

PAULO CÉSAR LIMA/ERA O HOTEL CAMBRIDGEEliana
A diretora Eliane Caffé conviveu com moradores durante quase três anos

Situado no primeiro quarteirão da Avenida 9 de Julho, vizinho do Vale do Anhangabaú, o Hotel Cambridge é dos tempos da “terra da garoa”, inaugurado em 1951. Cerrou as portas em 2002, resistindo ainda algum tempo – antes de fechar de vez – como espaço de festas e eventos, num lobby agitado encimado por andares abandonados. Acabou ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). O edifício sem elevador tem 15 pavimentos e 241 quartos. Após a ocupação, um mutirão de limpeza removeu 15 toneladas de lixo em caçambas de quase 60 caminhões. A reciclagem não era apenas do lixo, mas também do espaço, que deixava de ser um lugar sem função social para abrigar mais de 170 famílias, cerca de 500 pessoas.

“Além de moradia, aqui promovemos ações e debates, para que o direito constitucional que garante a moradia seja cumprido pelo Estado, corrigindo as falhas cometidas há décadas pelo poder público na distribuição urbanística e habitacional das cidades brasileiras”, afirma Carmen Silva, líder da ocupação e da Frente de Luta por Moradia (FLM). O movimento atuou no centro, pois entende que a morada digna não é apenas “telhado e quatro paredes”, mas estar cercada por serviços públicos como transporte, escola, posto de saúde, creches, faculdades e oportunidades de trabalho. A luta é pelo direito à cidade.

CAROLINA CAFFÉCrianças
Horta no telhado, participação de crianças e continuidade do intercâmbio social e cultural depois das filmagens

Shopping rua

Chamam a atenção na ocupação diversos aspectos, entre os quais a gestão coletiva do espaço. As famílias dividem a limpeza e se responsabilizam pelas áreas comuns do prédio. Quando há um morador novo, uma força tarefa busca nas ruas móveis e objetos que possam ser reutilizados (o que eles chamam de “shopping rua”). Há horários limitados para visita, não se tolera o uso de drogas e todos devem participar das assembleias e ações do movimento pela cidade. Para quem vem de fora, impressiona o nível de participação dos moradores em assembleias, fóruns, conferências municipais, passeatas e decisões sobre o orçamento público da cidade. Uma verdadeira aula de cidadania e cuidado com o bem comum.

A liderança feminina também se destaca. “Temos muitas heroínas por aqui”, conta Carmen. “As mulheres ocupam cada vez mais o espaço de luta, defendendo suas famílias e a moradia digna.” Ela própria é uma dessas. Cansada das agressões domésticas, trocou Salvador por São Paulo. Deixou com a família os sete filhos e voltou para buscá-los anos depois. Chegou em São Paulo com as mãos vazias e cheia de esperança no peito. Morou de favor na casa de amigos até saber de uma ocupação no centro. Começava ali a emocionante trajetória de uma vida política marcada por lutas e conquistas, até se tornar líder do movimento que abriga, em mais de 60% dos casos, mães solteiras como ela.

Também nas ocupações do centro vários refugiados encontraram base para nova vida. A ausência de políticas públicas para imigrantes e refugiados faz das ocupações uma alternativa de adaptação e integração com a cidade. Vindos do Congo, Haiti, Senegal, Togo, Camarões, Benin, Colômbia, Peru, Bolívia, República Dominicana e Palestina, procuram, além de uma vida melhor, emprego e um meio de enviar dinheiro para seus familiares nos países de origem. “Quando o refugiado chega na cidade não tem onde dormir. O Brasil abriga cerca de 9 mil refugiados, e em São Paulo são apenas 340 leitos no centro de acolhida”, afirma Pitchou Luambo, refugiado da guerra pelo minério na República Democrática do Congo – e morador da Ocupação Cambridge.

ERA O HOTEL CAMBRIDGE/DIVULGAÇÃOfilmagens.jpg
Tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia

Cinema colaborativo

A diversidade cultural resultante desse encontro entre brasileiros de diferentes regiões, imigrantes e refugiados, inspirou a cineasta Eliane Caffé a produzir o filme Era o Hotel Cambridge. “O que me interessava retratar era o choque cultural entre refugiados e brasileiros, e aí apareceu o tema das ocupações. Mas no lugar do choque encontramos semelhanças: tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia”, diz.

Nas oficinas preparatórias, em que Eliane reuniu os refugiados para o estudo e escolha dos “personagens”, foi formado o Grupo dos Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que decidiu expandir os encontros para além do filme. Hoje, o Grist promove debates e palestras sobre refúgio, história africana, xenofobia, racismo e descriminação e promove cursos, campanhas, festivais e shows para difusão e valorização da cultura. Em um ano, o grupo realizou o 1º Fórum dos Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo, o 1º Festival Musical dos Refugiados de São Paulo (no Largo da Batata, tradicional palco de manifestações na zona oeste) e o evento Conexão Cultural (no Museu da Imagem e do Som, o MIS).

E não foi o único coletivo que se originou no contexto da gravação de Era o Hotel Cambridge. O filme inspirou a formação e o cruzamento de novas ações e movimentos. Um verdadeiro laboratório social e cultural, fazendo São Paulo despertar para uma forma incomum de pensar o cinema: como um legado social. A experiência desafiou as estruturas hierárquicas e tradicionais de direção e produção, propondo uma forma participativa, colaborativa e inclusiva.

O filme mistura ficção e documentário e narra a trajetória de um grupo de refugiados recém-chegados, que se unem aos sem-teto e dividem a ocupação de um antigo edifício no centro de São Paulo. Foi realizado por meio de um processo colaborativo entre a Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da ­Escola da Cidade e o MSTC. O elenco reúne atores profissionais, como José Dumont e Suely Franco, e atores sociais: os moradores, que interpretam a própria história.

Durante a fase de criação do roteiro, pesquisa e seleção dos personagens, além dos encontros dominicais com o grupo dos refugiados, foram realizadas oficinas de vídeo com os moradores da ocupação, e o observatório web, com exibições e debates. Toda a produção artística envolveu moradores, não apenas como parte da equipe, mas usando dos seus saberes e tecnologias, como o shopping rua.

A professora de Desenho e Arquitetura Carla Caffé, da Escola da Cidade, também diretora de arte de Era o Hotel Cambridge, elaborou um curso para que os alunos colaborassem com o desenho e produção de arte, como na definição de cores, tecidos, imagens, animações, figurinos e cenários. A ideia foi fazer um “cinema de intervenção”em vez de um “cinema de passagem”. Tudo o que fosse construído para os cenários não deveria ser desfeito, e sim ter uma função, um legado, enquanto a ocupação existir.

A disciplina foi realizada com 21 estudantes e o professor Luís Felipe Abbud. A atividade experimental uniu ensino de arquitetura ao de direção de arte cinematográfica. A disciplina trouxe à tona problemáticas urbanas como a compreensão e atuação com um movimento social de luta por moradia (MSTC) e o reúso inteligente de materiais descartados, em oficinas com o Coletivo Basurama. “Equipamos a biblioteca, o brechó, a área das costureiras e o saguão de entrada do hotel”, diz Carla. “Equipamos os pontos de encontro e interação dos espaços comuns do edifício, para incentivar o espírito de coletividade do movimento.”

Os encontros de pesquisa e criação com os personagens sociais começaram a reunir entusiastas de todos os campos e ganhar vida própria. Mesmo depois de as gravações terminarem, o intercâmbio social e cultural era tão forte que muitos da equipe do filme resolveram continuar­ suas ações e oficinas, e novos movimentos começaram a brotar na ocupação: a fome dos paulistanos em ocupar, sair das bolhas, cruzar fronteiras e desafiar a ordem.

A construção da horta comunitária no telhado do prédio – com o Coletivo Habitacidade –, aulas de dança africana, intervenções de jornalistas independentes, grupos de trabalho em psicanálise – conduzidos por profissionais do Instituto Sedes Sapientiae –, a formação do Centro de Assistência à Saúde dos Imigrantes e Refugiados (Casir) e ações do coletivo interdisciplinar Linha de Frente e da Residência Artística Cambridge são algumas das ações que acontecem hoje no local.

Era o Hotel Cambridge ganhou prêmio e foi lançado em setembro deste ano no Festival San Sebastián, na Espanha, um dos mais importantes do mundo. Ganhou reconhecimento internacional em exposições como no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o MIT, nos Estados Unidos), em março. No Brasil, deve entrar em cartaz no início de 2017.

“Eu gostaria de seguir esta experiência de um filme expandido também na fase de comercialização”, diz Eliane. “Os festivais convidam, pagam passagem ­aérea geralmente para diretor e produtor. Quando você chega lá no tapete vermelho tem a mídia imensa esperando você passar, e quando a gente fala em lançamento expandido, quer dizer não deixar o pessoal do movimento fora dessa, e aproveitar a oportunidade para fazer novas articulações similares em evento que estão acontecendo no mundo, de ocupação e de refugiados.”

Na Espanha, Carmen Silva, do MSTC, conheceu e fez alianças com lideranças da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), associação surgida em fevereiro de 2009 em Barcelona. “Estamos conseguindo levar para fora a nossa luta”, celebra Carmen. “É uma grande oportunidade de dar visibilidade ao movimento que sempre foi muito discriminado pela mídia. O filme permitiu mostrar que não somos vândalos, e sim famílias e trabalhadores lutando pelos direitos garantidos na nossa Constituição.”

PAULO CÉSAR LIMAocupacao12_foto_paulo_cesar_lima.jpg

Fachada do Cambrige, no centro de São Paulo: ocupação em hotel fechado em 2002 reúne 500 pessoasDireito de ocupar

Em tempos em que o espaço público das cidades se vê ultrajado por bombas de efeito moral e balas de borracha, ocupar virou palavra de ordem para quem defende a democracia e a vida. Como diz o poeta Hamilton Faria, sociólogo do Instituto Pólis: “É preciso desobedecer as práticas antidemocráticas: na vida cotidiana, nas instituições e na sociedade em geral. Ocupar não é invadir. É entrar pacificamente e dizer ‘olha, eu tenho voz e isso me pertence’. A Funarte não é do Ministério da Cultura, as escolas não são do governo estadual, os espaços públicos não são do governo. Eles são públicos”.

O conceito do Direito à Cidade tem ganhado visibilidade e reconhecimento, não apenas entre a sociedade civil mas também dos governos mundiais (como a inclusão do termo na Nova Agenda Urbana, documento oficial da Organização das Nações Unidas). A arquiteto e curador Guilherme Wisnik lembra que a ideia de Direito à Cidade para Henri Lefebvre (filósofo francês, autor do conceito) implicava não em um direito aos serviços da cidade exatamente, mas um direito de transformar a cidade. Inventar uma nova cidade a partir do real.

Segundo Wisnik, o pensamento ficou esquecido por no mínimo duas décadas (de 1980 e 1990) de predominância do pensamento neoliberal de que tudo aquilo que foi postulado como possibilidade transformadora nos anos 60 tinha se revelado impossível, segundo o raciocínio pragmático. “Mas na virada do século aconteceu por diversas frentes uma espécie de ataque ao coração do sistema, e essas manifestações se desdobraram em possibilidades reais de que o sistema pudesse ser mudado”, afirma.

A Ocupacão Cambridge não é apenas um marco de resistência ao modelo individualista, competitivo e alienado das cidades modernas capitalistas. É, ao mesmo tempo, um modelo a ser observado e aprendido como paradigma de cidade e relações humanas. As soluções para os grandes problemas que vivemos nas cidades não precisam ser inventadas, mas reconhecidas e fortalecidas. Era o Hotel Cambridge é um exemplo de apropriação das tecnologias e saberes produzidos nas ocupações.Assista à reportagem da TVT sobre o filme

RBA

QUERIDA AMIGA MARIANA MAYOR

4 fev

Por Sergio Ricardo

A memória como ja lhe disse, dentre milhões de acontecimentos vividos nessa trilha agitada de minha rota artística, recusou-se a armazenar detalhes, para me reservar o espirito compartilhado com amigos e correligionários, maior parte dos quais nem de seus nomes ou fatos me deixa lembrar com exatidão, o que me conduz a fazer uma síntese não dos fatos ou pessoas, mas da importância de uma luta vivida com tanta entrega, tanto amor à causa e ao povo brasileiro, como nunca mais vi em nossa história.

Eramos basicamente uma grande família de guerreiros dispostos a tudo para atingirmos nossos objetivos políticos e culturais e até mudamos radicalmente alguns caminhos, como a bossa nova, por exemplo, cedendo lugar a um canto mais abrangente de congregação e elucidação dos crimes morais contra nosso povo, exaltando e reinventando sua emancipação, a ponto de abrirmos mão das conquistas estéticas adquiridas pela Bossa, visando a comunicação de nossos ideais para alcançarmos a alma brasileira com a linguagem que lhes chegasse como a sua própria, tanto na música, no cinema, no teatro etc.

Um diálogo sem rodeios imposto pela falsa erudição dessa elite que acreditava estar reinventando um Brasil, arremedando outros povos e outras culturas que nos colonizavam em troca de nossos bens, e mergulhados cada vez mais na nossa ignorância, tão vasta quanto a dimensão de nossas matas por esse continente generoso.

A mesma chama que conduzia Chico de Assis, Vianinha, Boal, Guarnieri, João das Neves, Aracy Balabanian, Renato Consorte, Rolando Boldrim, Carlos Lyra, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Antonio Fagundes, Myriam Muniz, Plinio Marcos, Sidney Miller, era a mesma que conduzia uma infinidade de amigos, em CPCS, Feiras de Opinião, Teatro de Arena, palcos e shows e peças de teatro, na tela do Cinema Novo, pelas faculdades, caatingas nordestinas, passeatas, porta de fábricas, onde quer que o povo pudesse ter acesso para se esclarecer dos fatos e luta em busca da solução.

E já se avistava um novo Brasil ancorando nos portos de norte a sul do país. Foi uma época gloriosa e mesmo calados pela censura da ditadura, nossa semente germinou na alma dos artistas que posteriormente foram surgindo.

Chico de Assis, por exemplo, a quem você se refere, foi meu parceiro em Brincadeira de Angola, amigo e irmão, batizou minha filha Adriana e nos tornamos compadres.

Um dos fundadores do CPC, teatrólogo e líder nato, teve suas idéias e peças encenadas para camponeses, elucidou muitas cabeças pensantes, e deixou uma obra importante, volta e meia encenada por esse país a fora.

Devo à sua lucidez minha transformação ideológica e seus ensinamentos estão espalhados pelo meu trabalho como uma luz no fim do túnel.

A mesma luz que estamos todos, os que queremos libertar nosso pais, tentando alcançar, apesar das “cunhas” cravadas por essa corja tentando embarreirar nosso processo libertário.

Poemas de Valter Antonio Teixeira Krausche

21 dez

Valtinho Krause e Lizete

Do Portal Luís Nassif

Publicado por Carlos Roberto Rocha III

Valter Krausche além de sido meu parceiro e amigo, era um grande erudito que transitava tranquilamente no popular.

Lia Marx no original;Merleau-Ponty idem;Walt Whitman também no original,sabia tudo de Adoniram Barbosa sobre o qual escreveu um livro para a coleção Pequenos Passos da Brasiliense,sabia tudo de Chico Buarque,Tom Jobim e claro tudo de poesia.

Eu ficava pasmo diante de tanta erudição e de tanta humildade;sim Valtinho era super humildade e de um coração do tamanho de um bonde.

Creio que foi por isso que me aceitou como parceiro e companheiro da “Desejos e Unhas” ,banda que formamos juntamente com a poetiza Lizete Mercadante Machado,mais os músicos Jorge Carvalho,Maria Auxiliadora Zan ,Chico Pupo,Luisinho Carioca e Magno Bissoli.

Tenho muita saudade, desse tempo que eu convivi com o poeta,por isto através de um gesto nobre da poetiza  Lizete Mercadante da Revista O Caixote vou passar pra vocês aqui do Portal do Luis Nassif.

O Sangue das Frutas

1975 – 1978

pela morte das aves fáceis
por saber
que a manhã não é mais
o libertar da noite

para Magda
o resgate das plantas
verdadeiramente carnívoras

os personagens deste livro
como todos os expulsos da República
não estão fora dela
quanto mais expulsos
mais lhe pertencem
pois esta é a natureza da República
e a contaminam

para Lizete anjo clandestino

o dilúvio de Rimbaud
e a maldição que veio depois
pra desorganizar o espírito

o poema de amor traz manchas de óleo
Baudelaire ainda pode ser visto
no final das tardes
passeando em alguns bairros periféricos
desta capital

o poema é a destruição da vigência

CAMINHO SOB LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO ENTRE PRONOME E VERBO

com uma aranha negra refazendo teias antigas
uma serpente cerebral que iludiu a criação
perseguido pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha abandonada no interior dos anos
estrangulador de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o feijão à flor na escuridão proibida

na praça abandonada
no pequeno quarto do hotel do exílio
com meu veneno para sempre

feito um rio sem entardecer de brilhos
entre suas selvas
no ato pétreo de caminhar
feito rio refazendo-se em rio sempre
mão lavando coisa alguma
de rio negando o mar
de rio por sua esperança de rio

A AUGUSTO DOS ANJOS

as paredes do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino nascerá uma flor

PRA SER O CORPO

a modinha dá início ao final do século
o punhal da tarde
coagulado na memória
que bebi no chapéu de meu avô

*******

as palavras afiam a alma
para ser
um punhal cravado no corpo

pra ser o corpo
que é o ser do punhal

*******

a magia das palavras sem mágicas
faz a faca dos teus olhos
corta a veia dos teus seios
brota um sol entre tuas tetas

recolho a terra em teu útero
durmo em teu estômago

ANTONIO BITUCA

uma criança vermelha como nuvem
se precipita
uma criança feito planta
incêndio
raízes
um braço feito lança

uma criança pontiaguda como ave
te espeta
à beira de um abismo
e voa

FRUTO

abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário da infância
árvore sapotácea da América Equatorial
além do dicionário

branco temperado por dentro
equatorial quanto o quintal
de meu avô
branco guardando a infância negra
amarelo liso externo chamando

ESTAVA SENTADA NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA

NASCIMENTO

Mariana amanhecendo pelo mar
pela mão do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré

Mariana vela branca anunciando pazes e peixes
emergindo dos livros subterrâneos
Mariana folha branca
onde termina a luta entre deus e o diabo

Mariana a distribuir novos mistérios
mulher dos dilúvios e das escarpas
Mariana amante dos bagres e dos peixes miúdos

Mariana nascendo dos homens condenados à morte
Mariana tateando as paredes deste mundo

ROCK NA VITROLA

não voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me foi uma tarde branca transitória
estou quase nu
com o chegar das novas gerações

OLHANDO AGORA A TUA FOTOGRAFIA

Quando olhávamos o vento nas cortinas
e a oscilação da linha do horizonte
quando nesta parte do século
as casas térreas intercalavam-se
com os terrenos baldios formando a rua
quando tua mãe visitava a benzedeira
e às sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance precocemente sombrio
cujos frutos ficaram para sempre
sobre a grama morna
dos nossos desejos submersos

FECHADO PELA POLÍCIA

o corpo forte branco
de minha tia
sob o chuveiro das minhas férias
as coxas lisas
de minhas primas
sob a caramboleira
o primeiro gozo
com medo de minha avó
que vinha dar comida aos pássaros
pela boca de Zé Lumumba
que mais tarde foi morto pela polícia
e tinha ódio de minha tia
de chuveiros de coxas lisas de carambolas
finalmente o meu corpo nu
comprimido na fechadura de um templo antigo
que há muito não se abre mais

ILHA PORCHAT

pra onde fugíamos
em nossas bicicletas voadoras
& os primeiros amantes
que desciam escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes rochas
que sustentavam
algumas mansões sombrias
criminosas

ESCOLA

Maria Batalhão
que exigia fila ordeira
no matinho que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo gira
& o mijo amargo
das noites altas

CONQUISTAS

Ana Maria era o menino
mais forte da minha rua
quando atacávamos uma rua adversária
ela sempre trazia duas escravas
penduradas no rabo
levava-as pra cabaninha
em cima da cajamangueira
depois as devolvia já magras sem luz
pros guerreiros famintos que as esperavam
em volta da fogueira

nos ensinava alguns truques
segredos que guardamos até hoje
no fundo do nosso carcomido
agradecido coração

WEEK-END

primas no quintal
maracujás carambolas abius
tias na varanda

PRAIA DO BOQUEIRÃO

& o português de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se perante o nosso cerco
de defensores do coração de jesus
que mamãe guardava na sala
mostrando as pernas de sua amante
e o seu grande coração peludo
era bem maior que o mundo
& nos disse que a sua amante
era Messalina nossa mãe
ou o esperado menino de olhos azuis
que geralmente pinta no final dos tempos
& a delícia áspera dos corpos
rolando na areia morna
de um final de tarde
feliz

MOMENTO DE PENUMBRA

& me prendeu os braços
contra as grades que davam pro terraço
na pequena sala
onde seu pai conversava sexta-feira
com os espíritos

JUNINHO

o pai vendo-o fraco e delicado
com aqueles olhos femininos
resolveu mandá-lo pr’um curso de ginástica
que acabou sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos grandes músculos
das noites quentes
onde as pernas morenas despertavam pela luz
suas bundas aquáticas

o pai vendo-o forte e feminino
arrancou-lhe aqueles olhos
do menino
que nunca mais eu vi

O RETORNO DAS SOMBRAS

Juninho voltou um dia vestido de filha
de santos dinâmicos
pra nos dizer
que só as sombras retornam

depois tomou um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente pelo mundo

LEMBRANÇA

Vilma era forte
& lutava jiujitz

TRADUZINDO EM MIÚDOS

Dna. Elvira
nas tardes de catecismo
& das antigas balas de mel
quando Deus escondia
a sua face clara de sol
no outro lado do mundo
nos dizia
que a punheta era pecado

mas havia Vilma
com suas pernas lisas morenas
seu andar de nadadora
sua arrogância de lutadora de jiujitz
& Juninho com a sua mão forte delicada
que amava todos os meninos
& os compreendia
quando eles ainda eram nuvens

veio a noite
vieram as árvores & as folhagens
& Dna. Elvira foi pro inferno

O FIM DA PRIMAVERA

as mães gritavam das janelas
os pais haviam chegado pro jantar
os filhos retornavam
docemente sangrando pelas pernas
com os aromas das folhagens
qie cercavam a última praça
da nossa infância
os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
& os filhos retornavam das folhagens
& as mães gritavam das janelas
pra aquela praça vazia escura
onde o vento fazia as últimas flores
da primavera
se balançar

CABARÉS

os cabarés da rua General Câmara
com suas damas volumosas
acetinadas vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro de bonde
que havia sido trombonista de vara
são verdadeiros
mas já anunciaram o fim do mundo
& hoje moram na cachola
desmemoriada dos deuses
que se evaporaram nas nuvens
da minha adolescência

DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança de Murilo Mendes)

a última face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret de nuvens

o último corpo úmido incandescente
que me espera há séculos
num lençol de linho

o último corpo nu
& os primeiros leites venenosos
no grande berço da vitória

o último leite vivo
com as cobras que o dilúvio revelou

A ÚLTIMA NOITE

na última noite
as irmãs se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram barcos úmidos
montanhas submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar sob luzes
fosforescentes
escorregadias

pela manhã
as irmãs expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas paredes
bolor nos quadros
das últimas revoluções

a última noite
unilateralmente
eterna

INCURSÃO MARÍTIMA

quando o teu corpo nu
se esconder nas trevas
já sabes
ele surgirá do lado oposto
do universo
& de teus neurônios
brilharão os novos raios
de sol

quando um grito grego africano
se ouvir na praia
já sabes

REMELEXO CAVALGADA

te remexes dentro de mim
mais do que aquele dia
em que ligaste as bocas do fogão
& te consumiste por inteira
teu corpo grande caboclo
tuas pernas ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce mais que sombra dentro de mim
& mal cabe

assim te agarras em minhas células
& reinventas o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo cercado de anjos clínicos
que te puxam como um câncer
& nada podem contra ti
viúva de São Jorge que me cavalga
como a um cavalo roubado
tu que perdes a máscara de família
quando me arranhas
com tuas unhas de esmalte vermelho
que nunca se acaba
iemanjá da volúpia da minha infância
da minha adolescência da minha eternidade
que remexes dentro de mim
todas estas vozes
que fazem parte de tua infinitude
eu que mal lembro o teu rosto

O ÚLTIMO POEMA

sabor de lua morna a te crescer no ventre
a te fazer crescente sol de moreno íntimo
produto de percurso líquido
poder explosivo de serpente do último bote
onde as metáforas se diluem
os campos se esgotam os mares se esvaziam
os músculos são brancos
& se dirigem para o incolor pro infinito
onde nada é literário & o tempo não respira
& o literário é isto re-posição do bote
para o nada para o íntimo
pra ser literário de novo & para o nada para o íntimo
circularidade obliquidade espiralidade asas
para a morte onde danças
o despertar do primeiro & último
mágico num balancê de nuvens
que se esvaem como a minha literatura
que nada vale comparada ao teu suor
tu pavão dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã da minha morte
tu a espera da explosão dos meus micróbios
onde finalmente as imagens se dissolvem
porque te fizeste absoluto em meu caminho
& o vento já invade o buraco fundo dos meus olhos

tu
já que não és
nada

SHINING ALONE

lembro-me de tua lua branca
sentada sobre o muro
anunciando
os primeiros pêlos da noite

o sol já se tornava escandinavo
por detrás do mamoeiro

metáforas fechavam os seus ovários
o último fio de sangue
escuro escorria pelo céu

os frutos escorriam com a noite

SHINING ALONE II

tias e primas morenas ocupavam
todos os espaços do meu sonho
até que rompeste num ato acrobático
de leoa de circo varando
o círculo de fogo
e depois o círculo de pano
onde brilhava escrito o teu nome
rasgando-me a lembrança e a tua imagem
tomou a forma diluída de um pássaro
que nunca mais foi visto

OLHANDO A TUA FOTOGRAFIA NOVAMENTE

teu olhar tua lua teu conhaque
cada trago que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno poema
que li numa cidade antiga
onde nasci
onde nossas pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer marítimo
de espumas cintilantes
e as palavras
se quebravam sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável

tua lua
teu conhaque

O BEIJO ÚLTIMO

o primeiro beijo foi
que nem areia movediça
afogamento inevitável

o primeiro beijo
foi da boca incompleta
de Dalva
que tinha a saliva grossa
digestão química da noite

o primeiro beijo
teve suas dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado de flautas
e a minha
que guardo no peito eternamente

o primeiro beijo
teve efeitos catastróficos
Dalva morreu logo depois
e eu continuo vivo até hoje

VIAGEM AO SEIO DE MACHADO
a Aníbal Machado

Duília morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo dos minutos da adolescência
Duília pétrea estrela presa
na presa dos meus olhos pedregulhos

no trem dos perdidos anos que nos separam
os seios gritam

descobrimos Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as grades de pedra
fuga de pássaro rastro e sangue
trilhando sonhos luzes

dor de bicho interno percorrendo o íntimo

quando cheguei à praia
o mar ardia as feridas do pensamento

era necessário conquistar a física das infâncias
os seios de Duília marejando os primeiros leites
(Duília passageira destes anos mortos)
espumando o primeiro beijo
que um trem em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao meio

Duília cidade antiga e inacessível

é necessário conquistar todas as cidades
remover todas as muralhas
encontrar Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados entre o amor e o medo
quando da chegada dos primeiros destacamentos de homens armados

BANHO DE LUA

noite alta céu risonho
um beijo amargo
& um besta a mais na vida

VERÃO 77

teu corpo foi soterrado
os homens que amaste estão soterrados

nossas vidas estão soterradas
naquela praça
onde não há mais espaço
pra tanta gente

a vida é dura meu amor
a vida é dura
as palavras não têm mais espelhos

não renascem mais
os mistérios das fontes límpidas

adeus sonetos de reconciliação
adeus pequenos poemas bucólicos
adeus palavras deslizando na nudez

aqui termina o poema
aqui termina o conhaque
mas a vida
a malograda vida
continua

PAUPÉRIA
a Torquato Neto

talvez te transportem na noite
alguns jovens de fogo
de cabelos de chamas apagadas

talvez te lêem mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho de dentro permanecem
fechadas

não descobrem o dia
e toquem um baião na Nicarágua

talvez a vida continue
e brilhe
a mesma estrela de ontem
que se apaga
com a luz do banheiro
enforcada no cano

talvez o provérbio vença
& não seremos mais nada

DESPEDIDA
homenagem à Praça da Luz

as luzes de mercúrio
envenenam os nossos últimos morcegos
a lua é de mercúrio
e a vida
não é mais o termômetro
de nossa febre

adeus morena
adeus minha ave rara
que aqui faz
esta imensa falta de música

no dia em que você se lembrar de mim
procure-me
ao pé das árvores
estupidamente floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano sinistro

adeus morena
e não se esqueça
de apagar a luz.

—————————————————————————————————-Revista ” O Caixote” – Lizete Mercadante Machado

Revista O Caixote2_publicado por Lizete Mercadante Machado

http://www.ocaixote.com.br/caixote02/sangue_frutas.html

AO SABOR DO TECLADO MUDO por Sergio Ricardo

23 jun

 

Ja é tempo de dizer algo. Alguma bobagem ou coisa atraente. Já não sei o que está por sair. Mas algo me impulsiona e escrevo. Durante todo o tempo em silêncio, meu ser me insinuava temas, mas que diabo, só por ter que dizer alguma coisa que se fizesse interessante na junção das palavras de uma motivação digna de vir à tona? Várias se delinearam sem que eu tivesse o desejo de invadir o universo das palavras, como se fora uma obrigação para atender cobranças de amigos ao que eu viesse dizer.

Talvez não saberiam que eu não sei de nada, que apenas junto vocábulos que expressam uma pretensão momentânea como quem se arvora em dizer algo importante que a soma dos neurônios conclui por pretensas alusões sobre o embaralhamento de conceitos e verdades tão desmentíveis como pneu que súbito se fura e lá vamos nós troca-lo por novo, cheio de vento, para a rodagem das novas verdades.

Sou cheio de boas intenções, já cansado dessa rodagem sem fim de linha, prenhe de desvios e encruzilhadas, sem cheganças, e por mais que faça lá meus gols, eu e meu time nunca vencemos as partidas. Ah, como eu desejaria salvar a humanidade, se nem tanto, pelo menos o meu povo, que ja virou um retrato na parede se esgarçando no templo das providências, pé sem chão a caminho do nada.

Assim como as insistentes tentativas, ao menos para a salvação de nossa lavoura cultural, vencida pelo caruncho dos chamados avanços tecnológicos e contemporaneidades, que se detonam como tiro de pólvora sem sequer destruir o potente passado, resistindo estética e humanamente às agressões sem sustância, sustentados pelos bancos e mídias do sistema, imbatíveis e prepotentes.

Do que valem as vozes contrárias? Partidos dispersos de esquerda, teses científicas, o óbvio ululante e outras milongas? Eu poderia me ater aos temas mais amenos, falar do amor a dois e descobrir atalhos e achados preciosos como pérolas de linguagem para ressaltar em versos a beleza interminável da relação humana e até me tornar um estilista no assunto, para que? Para desembocar num rio estático que não avança para o mar? Ficar preso em lagoas enlodadas só porque suas aguas não se agitam e só espelham a beleza do luar? Estou fora. Até que não me surja outro chamamento de fé, só me resta o humor, que sempre resvala nalguma desgraça de onde arranca deliciosas gargalhadas.

Por isto o extraio de minha própria agonia atual, mancando de bengala entre quatro paredes, já pensando no dia em que ao passar pelo detector de metais do primeiro aeroporto, onde fatalmente as luzes se acenderão, por conta da platina que me cobre o femur. Farei pose de suspeito, até que me façam baixar as calças para mostrar minha cicatriz na altura da bunda, para provar que não sou um terrorista. Tomara que eu tenha coragem suficiente para, em contra partida, soltar uma bela risada que ecoe pelo aeroporto, como uma cutucada no medo reinante.

Sergio Ricardo

 

Não deixes -Walt Witman via Anna Zappa

1 jun

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Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco, sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém retire o direito de te expressares, que é quase um dever.
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta.
Somos seres cheios de paixão. A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua: tu podes tocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre.

 

Walt Whitman – (31 de maio de 1819- 26 de março de 1892)

Um poema de uma médica cubana para o Senador Eduardo Suplicy.

5 abr

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Trecho do pronunciamento feito pelo Senador Suplicy no plenário do Senado hoje e a foto que registra o fato contado por ele. (assessoria)

“Eu tive a oportunidade […] de conversar com médicos cubanos, os setecentos que estão realizando seu treinamento de três semanas em São Paulo. Na última segunda-feira, eu fiz uma palestra para eles, de duas horas, falando sobre as experiências do Brasil com o Bolsa Família e a perspectiva da Renda Básica de Cidadania. E eis que, uma das médicas cubanas, Drª Elisa Maria Rivero, datado de 31 de março, segunda-feira, me escreveu um poema que aqui gostaria de ler para todos conhecerem a forma como os médicos cubanos estão se colocando ao virem para o Brasil:

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‘Estimado Senador,
Estes médicos cubanos
Vêm semear amor
Na floresta e lhano [ou seja: sinceramente].

Temos muito prazer
De ficar neste País
E nós vamos vencer
Toda a dor de raiz

Este povo brasileiro
Pode abrir seu coração
Porque os médicos cubanos
Darão toda sua paixão

Ao entrar no consultório,
Podem se sentir seguros,
Haverá sorriso de ouro
E olhos muito puros.

Somos colaboradores,
Mulheres e homens de ciência,
Levantando as cores
Da paz e consciência.

Um mundo melhor é possível
Amar a humanidade
É a maior tarefa
Repartir felicidade!'”

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