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SACRIFICARAM O BANESTADO PARA ESCONDER A GRANDE CORRUPÇÃO DO GOVERNO FHC.

19 out

 

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Por Serginho Athayde

É preciso ter coragem para noticiar a verdadeira história da privatização do BANESTADO. O banco oficial estadual era um dos mais enxutos financeiramente do país, com um quadro profissional reconhecido nacionalmente, como um dos mais capazes do sistema financeiro oficial, tanto é verdade, que vinham de todos os cantos do Brasil, funcionários de outros bancos oficiais para serem treinados em nosso RH.

Eram tempos da quadrilha de FHC, o Brasil enfrentava uma grande crise econômica, e interessava aos tucanos privatizar todos os bancos oficiais, principalmente o BANESTADO, para esconder a grande negociata de evasão de divisas conhecida como Privataria Tucana. Nesse contexto de crise econômica e privatização levaram o BANESTADO a uma profunda crise. O BANESTADO era a joia cobiçada da farra das privatizações dos bancos oficiais, processo iniciado no governo da quadrilha FHC, que terminará no atual governo da quadrilha Temer, com a privatização do BANRISUL, e dos bancos federais CAIXA e BB.

A privatização do BANESTADO levou para os cofres públicos do governo do Paraná, só do PROES (Programa de Incentivo a Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária) mais de 6 bilhões, e mais o valor que o Banco Itaú S.A pagou pela “compra”, que ao certo ninguém sabe quanto foi, mas que enriqueceu vários parlamentares e figuras importantes do governo Lerner e da República.

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O que também não se revelou, é que as dívidas do governo Lerner com os servidores públicos, foram jogadas para o BANESTADO, era a estratégia desse governo, jogar todas as suas dívidas na conta do banco, para que o governo federal pagasse, tinham que enxugar financeiramente o banco, para “vende-lo”. É uma falácia escandalosa apontar o BANESTADO como culpado das dívidas não pagas pelo governo Lerner ao funcionalismo e a outros credores.

A falta de notícias do PIG em relação as negociatas do governo FHC, escondia a necessidade imperiosa de privatizar o BANESTADO, para não trazer a público a negociata da evasão de divisas e de seus documentos, ou seja, do bilionário valor pago em propinas aos tucanos pelos compradores das empresas privatizadas, a fantástica e escandalosa Privataria Tucana, ou seja, a lavagem do dinheiro mandado para o exterior pelas agências do BANESTADO de Nova Iorque, Foz do Iguaçu e outras, valores que chegaram, conforme a CPMI do BANESTADO, a R$ 150 bilhões em dezembro de 2004, que transformaram o banco num das maiores empresas de lavagem de dinheiro ilegal do país, ou quem sabe do mundo.

A mega corrupção precisava ser escondida a qualquer custo, a estratégia era a de quebrar o BANESTADO com uma má gestão proposital, colocar nas contas de sua responsabilidade todas as dívidas do governo Lerner, para ganhar a participação do governador, e mais, impedir a possibilidade da denúncia dos ladrões tucanos. Para que isso acontecesse, era necessário que o BANESTADO fosse rapidamente “vendido”, e os papéis da mega negociata, as provas, sumissem, não se importando com o funcionalismo de carreia e concursado do banco, que a partir da sua privatização iriam amargar a tragédia das demissões, e passar a viver no próprio inferno.

O governo Lerner ganhou muito dinheiro de FHC para pagar as dívidas do seu governo, estrategicamente já tinha jogado todas para a conta do BANESTADO, e o Itaú ficou com a joia cobiçada pelo sistema financeiro privado nacional. O banco foi “vendido”, acreditem, “vender” um banco de massas, 550.000 clientes naquela época, com uma forte inserção na economia do Paraná, amado pelos paranaenses e seu funcionalismo, e com uma fundação de previdência dos funcionários, com um ativo fabuloso na época, que hoje está em mais 5 bilhões de reais.

Em Brasília, criaram uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. “A CPI do Banestado foi uma das mais conturbadas investigações parlamentares já realizadas pelo Congresso Nacional. Ela só foi criada após a repercussão negativa do caso. O relator da CPI mista sugeriu o indiciamento de 91 pessoas, entre elas o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta e o dono das Casas Bahia (maior rede varejista do Brasil), Samuel Klein. Todos foram acusados de participar de um mega esquema de evasão de divisas, envio irregular de dinheiro a paraísos fiscais através de contas CC5, que pode ter chegado a R$ 150 bilhões. ”

O Caso BANESTADO foi um mega crime de corrupção. “O ex-presidente do BC do governo FHC, Gustavo Franco, de acordo com o relator, foi o responsável pela evasão de mais de R$ 30 bilhões entre os anos de 1996 e 2002, já que teria criado os mecanismos que permitiram o envio de dinheiro para contas no exterior. Desde o início das investigações havia a presunção de que mais de 130 políticos estavam envolvidos no esquema, além de empresários e pessoas ligadas ao tráfico de drogas, de armas e de mulheres. Se a remessa ilegal de R$ 150 bilhões ocorreu entre 1996 e 2002 só nos resta associar esses valores à chamada Privataria Tucana – tão bem descrita no livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr.”

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No Paraná foi aberta uma CPI na Assembleia Legislativa do estado, que o deputado estadual Neivo Beraldin presidiu, a negociata da Privataria Tucana em momento algum foi denunciada, se limitando à análise das operações registradas como CDL (Créditos em Difícil Liquidação) ou CL (Créditos em Liquidação), na verdade uma farra para os grandes, médios e pequenos empresários paranaenses da agricultura e da indústria não pagarem suas dívidas com o banco. Uma omissão que escondia a negociata do governo Lerner com o empresariado paranaense, que deve ter sido regiamente recompensada.

Diante desta negociata criminosa de evasão de divisas, o que fez o MPF? Abriu também uma investigação, que chegou ao fim sem denunciar ou penalizar os responsáveis, transformando-se numa farsa judiciária, para muitos. A surpresa é que as investigações eram comandadas pelo justiceiro Moro e atuavam também no caso os procuradores Dallagnol e Carlos Fernando, o Boquinha. Até Youssef foi o principal doleiro do caso, fez delação premiada, foi preso, depois solto, e continuou na corrupção. Pasmem, até Cunha participou da farra.

É de se perguntar se algum tucano foi denunciado? Não! Tem alguém condenado ou preso? Não! O Caso BANESTADO foi engavetado. Espero que neste dia 17 de outubro, data da privatização do banco, os ex-funcionários em suas manifestações exijam a reabertura do Caso BANESTADO, com base nos documentos e provas apresentadas no livro “Privataria Tucana”, tão bem descritas pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr”, a ser solicitado no Senado pelos Senadores Gleisi e Requião.

Serginho Athayde
Ex-gerente administrativo da agência especial Assembleia-Rio, aposentado, preso político, teve a anistia reconhecida pelo BANESTADO na gestão do presidente deputado federal-constituinte Norton Macedo, pelo governo Requião, e reconduzido ao seu cargo de gerência por ocasião da sua aposentadoria.

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Que espécie de povo é esse!!!!! Por Anna Christina

25 maio

 

Zappa para o blog
Que espécie de povo é esse que vem sendo usurpado todos os dias, que assiste seus dirigentes tramarem transações criminosas.

Que está prestes a perder direitos fundamentais.

Que assiste na TV a entrega de malas e malas de propina.

Que tem metade do congresso que elegeu atolado em corrupção e vendendo leis.

E que depois de tudo isso fica indignado quando a revolta popular se materializa em depredação?

Que sangue corre nas veias de quem não se comove em ver seu igual sob forte repressão, e ao contrário, toma as dores das vidraças e dos banheiros químicos?

Em qualquer outro lugar do mundo quem esteve hoje na resistência em Brasília seria considerado herói.

Que catatonia é essa que tomou conta do cidadão brasileiro?
Me expliquem!!!!
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Zap 2

Maia solicitou reforço da Força Nacional

Temer aproveitou a deixa e pediu Forças Armadas

Pegou mal até no STF, que se mostrou irritado com a medida

Governo do DF já declarou que a ação de depredação foi feita por alguns poucos baderneiros contratados ( por quem, ele não disseram)

Jungman acaba de dizer que não é bem assim…. que o exército só vai proteger os prédios públicos.

O que eu concluo disso tudo?

O governo temer acabou!

Zap 3

Temer perdeu as condições de governabilidade’, diz o tucano Carlos Sampaio.
Vice-presidente jurídico do PSDB defende rompimento imediato com governo.

Zap 4

Acredito que a polícia deva ter ainda a capacidade de preservar a ordem. Ficamos em uma situação de expectativa caso algo fuja ao controle”
General Villas Bôas, dizendo polidamente : “te vira, mixel”

 

Por Anna Christina ( Plantão de Notícias do Facebook)

 

Brincando com fogo.Por Geraldo Elísio M. Lopes

23 maio

 

Geraldo Elísio002

O governador Fernando Pimentel deve maiores explicações públicas referentes à exploração da jazida de nióbio situada na cidade de Araxá, no Alto Paranaíba, próximo ao Triângulo Mineiro. Maior do que ela só a existente em São Gabriel da Cachoeira, na Cabeça do Cachorro, no estado do Amazonas, região da tríplice fronteira com a Venezuela e Colômbia.

O Brasil produz 98% do nióbio existente no mundo, percentual que deve aumentar com a nova jazida descoberta em Catalão, no estado de Goiás, na região do Planalto Central do Brasil. Apesar do Brasil deter o recorde da produção mundial o produto é cotado na Bolsa de Londres e vendido a um preço muito aquém do seu valor. Este mineral é fundamental para as pesquisas aeroespaciais e tem profundo valor estratégico.

Afora isto encontra-se no âmbito das mil e uma denúncias que povoam a Lava Jato aquela que se refere ao contrabando de nióbio, envolvendo o senador afastado Aécio Neves, agora com um pedido de prisão nas costas, em percentuais que segundo se informa é desviado dos cofres do governo de Minas Gerais, não faltando comentários que o sistema é intocável ainda que aja ocorrido uma mudança de governo. O contrabando situa-se acima disto sabendo-se apenas render fortunas. E diz respeito a produto não processado (pedras) o que fez que potencias gigantescas perdessem o controle de qual material processado circula no mundo.

Estados Unidos da América do Norte, Rússia, China, Inglaterra, França, Israel, Paquistão, Índia e a Coreia do Norte compõem o seleto Clube Atômico do mundo com os seus arsenais nuclearizados. Como o potencial de eventuais guerras atômicas virem a ser deflagradas – recentemente o mundo se assustou com a possibilidade de um enfrentamento direto dos EUA com a Coreia do Norte – a questão ganhou maior profundidade.

Isto reflete a imprudência das transações comerciais entre países potencialmente inimigos, exigindo maiores cuidados. Lógico, País soberano o Brasil tem direito a explorar a comercialização das suas riquezas minerais, mas paradoxalmente isto exige um controle rígido sendo mais adequado num momento em que tanto se fala em privatização a criação da Nuclerbras, com sólido controle das Forças Armadas Brasileiras.

Há quem recomende uma profunda investigação retroativa no que diz respeito à exploração do nióbio, aferindo-se o quanto foi extraído e quanto os cofres brasileiros perderam diante das irregularidades praticas. A preocupação repito, interessa de perto a outras nações face ao perigo maior de eventuais guerras nucleares. Com a palavra a CBMM. –

Por Geraldo Elísio M. Lopes (Repórter)

Geraldo Elísio

UFC :. Pérolas do embate Lula x Moro

11 maio

09.03.2016  DD dia a dia --  Lula   --  CONTRA -- Foto: Divulgaçao

1) MORO: Senhor ex-presidente, preciso lhe advertir que talvez sejam feitas perguntas difíceis para você.
LULA: Não existe pergunta difícil pra quem fala a verdade.

***

2) MORO: Esse documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura, o senhor sabe quem o rasurou?
LULA: A Polícia Federal não descobriu quem foi? Não? Então, quando descobrir, o senhor me fala, eu também quero saber.

***

3) MORO: O senhor não sabia dos desvios da Petrobras?
LULA: Ninguém sabia dos desvios da Petrobras. Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o Ministério Público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef.
MORO: Mas eu não tinha que saber. Não tenho nada com isso.
LULA: Tem sim. Foi o senhor quem soltou o Youssef. O senhor deve saber mais que eu [referindo-se ao escândalo do Banestado].

***

4) LULA: O Dallagnol não tá aqui. Eu queria o Dallagnol aqui pra me explicar aquele PowerPoint.

***

5) MORO: Saíram denúncias na Folha de S. Paulo e no jornal O Globo de que…
LULA: Doutor, não me julgue por notícias, mas por provas.

***

6) LULA: Esse julgamento é feito pela e para a imprensa.
MORO: O julgamento será feito sobre as provas. A questão da imprensa está relacionada a liberdade de imprensa e não tem ligação com o julgamento.
LULA: Talvez o senhor tenha entrado nessa sem perceber, mas seu julgamento está sim ligado a imprensa e os vazamentos. Entrou nessa quando grampeou a conversa da presidente e vazou, conversas na minha casa e vazou, quando mandou um batalhão me buscar em casa, sem me convidar antes, e a imprensa sabia. Tem coisas nesse processo que a imprensa fica sabendo primeiro que os meus advogados. Como pode isso? E, prepare-se, porque estes que me atacam, se perceberem que não há mesmo provas contra mim e que eu não serei preso, irão atacar o senhor com muito mais força.

***

7) MORO: Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque roubava a Petrobras?
LULA: Doutor, o filho quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: “Pai, tirei nota vermelha”.
MORO: Os meus filhos falam.
LULA: Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho.

***

8) LULA: Doutor Moro, o senhor já deve ter ido com sua esposa numa loja de sapatos e ela fez o vendedor baixar 30 ou 40 caixas de sapatos, experimentou vários e no final, vocês foram embora e não compraram nenhum. Sua esposa é dona de algum sapato, só porque olhou e provou os sapatos? Cadê uma única prova de que eu sou dono de algum tríplex? Apresente provas doutor Moro?

***

9) MORO: O senhor solicitou à OAS que fosse instalado um elevador no tríplex?
LULA: O senhor está vendo essa escada caracol nessa foto? Essa escada tem dezesseis degraus e é do apartamento em que eu moro há 18 anos em São Bernardo. Dezoito anos a Dona Marisa, que tinha problema nas cartilagens do joelho passou subindo e descendo essa escada. O senhor acha que eu iria pedir um elevador no apartamento que eu não comprei, ao invés de pedir um elevador no apartamento em que eu moro, para que a Dona Marisa não precisasse mais subir essa escada?

***

10) LULA: O vazamento das conversas da minha mulher e dela com meus filhos foi o senhor quem autorizou.

***

11) MORO: Tem um documento aqui que fala do tríplex…
LULA: Tá assinado por quem?
MORO: Hmm… A assinatura tá em branco…
LULA: Então, o senhor pode guardar por gentileza!

Rindo até 2030…  ( Via Marcos Alexandre de Moraes- Facebook)

moro e lula para o blog

Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

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Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

Obama comuta sentença de Chelsea Manning, delatora do WikiLeaks

18 jan

WASHINGTON – A poucos dias de deixar o cargo, o presidente americano Barack Obama comutou nesta terça-feira a sentença de prisão de Chelsea Manning, ex-analista de inteligência do Exército americano que vazou informações sigilosas sobre ação militar do país através do Wikileaks. A pena original dela é de 35 anos. Com a redução da pena, a sentença vai expirar em 17 de maio ao invés de 2045.

No total, Obama comutou 209 sentenças na terça-feira, e concedeu 64 perdões presidenciais.

Chelsea já tentou cometer suicídio duas vezes no ano passado diante do futuro incerto como transgênero em uma prisão militar masculina em Fort Leavenworth, Kansas. Ela está presa há quase sete anos e foi condenada em 2013 por ter fornecido mais de 700 mil documentos, vídeos, comunicações diplomáticas e relatos de guerras ao Wikileaks, no maior vazamento de material secreto da História dos EUA.

A sentença de 35 anos foi a punição mais longa já imposta nos Estados Unidos pelo crime de vazamento de informações sigilosas.

Chelsea ainda era conhecida como Bradley Manning em 2010, quando atuava como analista de inteligência em Bagdá, Iraque. Naquele ano, ela passou ao Wikilieaks a vasta documentação que revelava atividades sigilosas dos Estados Unidos no país e no Afeganistão.

Ela decidiu revelar o material na esperança de incitar uma “discussão global, debates, e reformas”. Foi nesse período que o Wikileaks e seu fundador, Julian Assange, ganharam notoriedade.

Em seu pedido de comutação, Chelsea disse que não imaginava que receberia a sentença “extrema” de 35 anos, “sem precedente histórico”:

“Eu assumo responsabilidade integral pela minha decisão de revelar esse material ao público”, escreveu. “Nunca tinha pedido quaisquer desculpas pelo que fiz. Assumi culpa sem proteção de um acordo de conformidade porque acreditei que o sistema judiciário militar entenderia minha motivação para a revelação e determinaria uma sentença justamente. Estava errada”.

A comutação também reduz a pressão sobre o Departamento de Defesa pela responsabilidade do encarceramento, já que Chelsea pressiona por tratamento diante da intenção de passar por uma cirurgia de mudança de sexo — algo que o órgão não tem experiência.

CHELSEA X SNOWDEN

Na sexta-feira, o porta-voz do governo americano, Josh Earnest, chegou a sinalizar a possibilidade da redução de pena de Chelsea era possível, em contraste com uma solicitação de perdão de outro whistle-blower, Edward Snowden, ex-funcionário da CIA que revelou arquivos sobre vigilância e que atualmente vive como foragido na Rússia.

Earnest explicou que há uma “forte diferença” entre os dois casos, apesar de crimes similares.

“Chelsea Manning é alguém que passou por um processo criminal de justiça, foi exposta ao processo e considerada culpada, sentenciada pelos crimes, e ela reconheceu má conduta”, disse. “Já Snowden fugiu para os braços do adversário, e buscou refúgio em um país que recentemente fez esforço para minar a confiança em nossa democracia”.

Na véspera, Assange tinha dito que aceitaria ser extraditado aos Estados Unidos se Chelsea fosse libertada. Assange mora na embaixada do Equador em Londres desde junho de 2012 para evitar a extradição à Suécia, onde enfrenta acusação de agressão sexual.

Snowden comemorou muito a libertação pendente da ex-analista de inteligência:

“Obrigado pelo que fez a todos, Chelsea. Fique firme um pouquinho a mais”, escreveu no Twitter o ex-agente da CIA que revelou segredos sobre a vigilância internacional em massa praticada pela Agência de Segurança Nacional (NSA).

O jornalista Glenn Greenwald, que expôs ao mundo o drama de Snowden, ressaltou os feitos da militar e de sua “coragem por ter anunciado a transição de gênero durante a prisão”.

“Visitei Chelsea Manning e passei incontáveis horas com ela ao telefone. O dano é palpável. A ONU diz que ela foi alvo de abuso. A clemência é a única opção moral”, disse Greenwald no Twitter. “Ele é provavelmente a pessoa mais empática que já conheci”.

O site Wikileaks considerou a comutação uma vitória:

“VITÓRIA: Obama comuta a pena de Chelsea Manning de 35 anos a sete. A data de liberação a partir de agora é 17 de maio”, escreveu a organização no Twitter.

Entre os perdões presidenciais concedidos nesta terça-feira, Obama eliminou a pena do general aposentado James Cartwright, que admitiu culpa de perjúrio ao fazer falsos testemunhos para o FBI durante uma investigação sobre vazamentos de material confidencial. Cartwright foi vice-chefe do Estado-Maior e era investigado após a publicação de um livro que expunha um software feito para hacker o programa nuclear do Irã — com quem os EUA e outras nações chegaram a um acordo para diminuir o poder atômico do país persa.

Globo

Ocupação Cambridge une luta e arte pelo direito à cidade

19 out

 

Experiência de cinema colaborativo em São Paulo aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática
por Carolina Caffé publicado 16/10/2016 11:00, última modificação 17/10/2016 06:40
JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO
Ocupação Cambridge

Filme reúne atores consagrados, como José Dumont, e personagens da vida real, como a líder da ocupação Carmen

Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.

PAULO CÉSAR LIMA/ERA O HOTEL CAMBRIDGEEliana
A diretora Eliane Caffé conviveu com moradores durante quase três anos

Situado no primeiro quarteirão da Avenida 9 de Julho, vizinho do Vale do Anhangabaú, o Hotel Cambridge é dos tempos da “terra da garoa”, inaugurado em 1951. Cerrou as portas em 2002, resistindo ainda algum tempo – antes de fechar de vez – como espaço de festas e eventos, num lobby agitado encimado por andares abandonados. Acabou ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). O edifício sem elevador tem 15 pavimentos e 241 quartos. Após a ocupação, um mutirão de limpeza removeu 15 toneladas de lixo em caçambas de quase 60 caminhões. A reciclagem não era apenas do lixo, mas também do espaço, que deixava de ser um lugar sem função social para abrigar mais de 170 famílias, cerca de 500 pessoas.

“Além de moradia, aqui promovemos ações e debates, para que o direito constitucional que garante a moradia seja cumprido pelo Estado, corrigindo as falhas cometidas há décadas pelo poder público na distribuição urbanística e habitacional das cidades brasileiras”, afirma Carmen Silva, líder da ocupação e da Frente de Luta por Moradia (FLM). O movimento atuou no centro, pois entende que a morada digna não é apenas “telhado e quatro paredes”, mas estar cercada por serviços públicos como transporte, escola, posto de saúde, creches, faculdades e oportunidades de trabalho. A luta é pelo direito à cidade.

CAROLINA CAFFÉCrianças
Horta no telhado, participação de crianças e continuidade do intercâmbio social e cultural depois das filmagens

Shopping rua

Chamam a atenção na ocupação diversos aspectos, entre os quais a gestão coletiva do espaço. As famílias dividem a limpeza e se responsabilizam pelas áreas comuns do prédio. Quando há um morador novo, uma força tarefa busca nas ruas móveis e objetos que possam ser reutilizados (o que eles chamam de “shopping rua”). Há horários limitados para visita, não se tolera o uso de drogas e todos devem participar das assembleias e ações do movimento pela cidade. Para quem vem de fora, impressiona o nível de participação dos moradores em assembleias, fóruns, conferências municipais, passeatas e decisões sobre o orçamento público da cidade. Uma verdadeira aula de cidadania e cuidado com o bem comum.

A liderança feminina também se destaca. “Temos muitas heroínas por aqui”, conta Carmen. “As mulheres ocupam cada vez mais o espaço de luta, defendendo suas famílias e a moradia digna.” Ela própria é uma dessas. Cansada das agressões domésticas, trocou Salvador por São Paulo. Deixou com a família os sete filhos e voltou para buscá-los anos depois. Chegou em São Paulo com as mãos vazias e cheia de esperança no peito. Morou de favor na casa de amigos até saber de uma ocupação no centro. Começava ali a emocionante trajetória de uma vida política marcada por lutas e conquistas, até se tornar líder do movimento que abriga, em mais de 60% dos casos, mães solteiras como ela.

Também nas ocupações do centro vários refugiados encontraram base para nova vida. A ausência de políticas públicas para imigrantes e refugiados faz das ocupações uma alternativa de adaptação e integração com a cidade. Vindos do Congo, Haiti, Senegal, Togo, Camarões, Benin, Colômbia, Peru, Bolívia, República Dominicana e Palestina, procuram, além de uma vida melhor, emprego e um meio de enviar dinheiro para seus familiares nos países de origem. “Quando o refugiado chega na cidade não tem onde dormir. O Brasil abriga cerca de 9 mil refugiados, e em São Paulo são apenas 340 leitos no centro de acolhida”, afirma Pitchou Luambo, refugiado da guerra pelo minério na República Democrática do Congo – e morador da Ocupação Cambridge.

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Tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia

Cinema colaborativo

A diversidade cultural resultante desse encontro entre brasileiros de diferentes regiões, imigrantes e refugiados, inspirou a cineasta Eliane Caffé a produzir o filme Era o Hotel Cambridge. “O que me interessava retratar era o choque cultural entre refugiados e brasileiros, e aí apareceu o tema das ocupações. Mas no lugar do choque encontramos semelhanças: tanto os refugiados como os trabalhadores de baixa renda dividem esse problema em comum: a falta da moradia”, diz.

Nas oficinas preparatórias, em que Eliane reuniu os refugiados para o estudo e escolha dos “personagens”, foi formado o Grupo dos Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que decidiu expandir os encontros para além do filme. Hoje, o Grist promove debates e palestras sobre refúgio, história africana, xenofobia, racismo e descriminação e promove cursos, campanhas, festivais e shows para difusão e valorização da cultura. Em um ano, o grupo realizou o 1º Fórum dos Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo, o 1º Festival Musical dos Refugiados de São Paulo (no Largo da Batata, tradicional palco de manifestações na zona oeste) e o evento Conexão Cultural (no Museu da Imagem e do Som, o MIS).

E não foi o único coletivo que se originou no contexto da gravação de Era o Hotel Cambridge. O filme inspirou a formação e o cruzamento de novas ações e movimentos. Um verdadeiro laboratório social e cultural, fazendo São Paulo despertar para uma forma incomum de pensar o cinema: como um legado social. A experiência desafiou as estruturas hierárquicas e tradicionais de direção e produção, propondo uma forma participativa, colaborativa e inclusiva.

O filme mistura ficção e documentário e narra a trajetória de um grupo de refugiados recém-chegados, que se unem aos sem-teto e dividem a ocupação de um antigo edifício no centro de São Paulo. Foi realizado por meio de um processo colaborativo entre a Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da ­Escola da Cidade e o MSTC. O elenco reúne atores profissionais, como José Dumont e Suely Franco, e atores sociais: os moradores, que interpretam a própria história.

Durante a fase de criação do roteiro, pesquisa e seleção dos personagens, além dos encontros dominicais com o grupo dos refugiados, foram realizadas oficinas de vídeo com os moradores da ocupação, e o observatório web, com exibições e debates. Toda a produção artística envolveu moradores, não apenas como parte da equipe, mas usando dos seus saberes e tecnologias, como o shopping rua.

A professora de Desenho e Arquitetura Carla Caffé, da Escola da Cidade, também diretora de arte de Era o Hotel Cambridge, elaborou um curso para que os alunos colaborassem com o desenho e produção de arte, como na definição de cores, tecidos, imagens, animações, figurinos e cenários. A ideia foi fazer um “cinema de intervenção”em vez de um “cinema de passagem”. Tudo o que fosse construído para os cenários não deveria ser desfeito, e sim ter uma função, um legado, enquanto a ocupação existir.

A disciplina foi realizada com 21 estudantes e o professor Luís Felipe Abbud. A atividade experimental uniu ensino de arquitetura ao de direção de arte cinematográfica. A disciplina trouxe à tona problemáticas urbanas como a compreensão e atuação com um movimento social de luta por moradia (MSTC) e o reúso inteligente de materiais descartados, em oficinas com o Coletivo Basurama. “Equipamos a biblioteca, o brechó, a área das costureiras e o saguão de entrada do hotel”, diz Carla. “Equipamos os pontos de encontro e interação dos espaços comuns do edifício, para incentivar o espírito de coletividade do movimento.”

Os encontros de pesquisa e criação com os personagens sociais começaram a reunir entusiastas de todos os campos e ganhar vida própria. Mesmo depois de as gravações terminarem, o intercâmbio social e cultural era tão forte que muitos da equipe do filme resolveram continuar­ suas ações e oficinas, e novos movimentos começaram a brotar na ocupação: a fome dos paulistanos em ocupar, sair das bolhas, cruzar fronteiras e desafiar a ordem.

A construção da horta comunitária no telhado do prédio – com o Coletivo Habitacidade –, aulas de dança africana, intervenções de jornalistas independentes, grupos de trabalho em psicanálise – conduzidos por profissionais do Instituto Sedes Sapientiae –, a formação do Centro de Assistência à Saúde dos Imigrantes e Refugiados (Casir) e ações do coletivo interdisciplinar Linha de Frente e da Residência Artística Cambridge são algumas das ações que acontecem hoje no local.

Era o Hotel Cambridge ganhou prêmio e foi lançado em setembro deste ano no Festival San Sebastián, na Espanha, um dos mais importantes do mundo. Ganhou reconhecimento internacional em exposições como no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o MIT, nos Estados Unidos), em março. No Brasil, deve entrar em cartaz no início de 2017.

“Eu gostaria de seguir esta experiência de um filme expandido também na fase de comercialização”, diz Eliane. “Os festivais convidam, pagam passagem ­aérea geralmente para diretor e produtor. Quando você chega lá no tapete vermelho tem a mídia imensa esperando você passar, e quando a gente fala em lançamento expandido, quer dizer não deixar o pessoal do movimento fora dessa, e aproveitar a oportunidade para fazer novas articulações similares em evento que estão acontecendo no mundo, de ocupação e de refugiados.”

Na Espanha, Carmen Silva, do MSTC, conheceu e fez alianças com lideranças da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), associação surgida em fevereiro de 2009 em Barcelona. “Estamos conseguindo levar para fora a nossa luta”, celebra Carmen. “É uma grande oportunidade de dar visibilidade ao movimento que sempre foi muito discriminado pela mídia. O filme permitiu mostrar que não somos vândalos, e sim famílias e trabalhadores lutando pelos direitos garantidos na nossa Constituição.”

PAULO CÉSAR LIMAocupacao12_foto_paulo_cesar_lima.jpg

Fachada do Cambrige, no centro de São Paulo: ocupação em hotel fechado em 2002 reúne 500 pessoasDireito de ocupar

Em tempos em que o espaço público das cidades se vê ultrajado por bombas de efeito moral e balas de borracha, ocupar virou palavra de ordem para quem defende a democracia e a vida. Como diz o poeta Hamilton Faria, sociólogo do Instituto Pólis: “É preciso desobedecer as práticas antidemocráticas: na vida cotidiana, nas instituições e na sociedade em geral. Ocupar não é invadir. É entrar pacificamente e dizer ‘olha, eu tenho voz e isso me pertence’. A Funarte não é do Ministério da Cultura, as escolas não são do governo estadual, os espaços públicos não são do governo. Eles são públicos”.

O conceito do Direito à Cidade tem ganhado visibilidade e reconhecimento, não apenas entre a sociedade civil mas também dos governos mundiais (como a inclusão do termo na Nova Agenda Urbana, documento oficial da Organização das Nações Unidas). A arquiteto e curador Guilherme Wisnik lembra que a ideia de Direito à Cidade para Henri Lefebvre (filósofo francês, autor do conceito) implicava não em um direito aos serviços da cidade exatamente, mas um direito de transformar a cidade. Inventar uma nova cidade a partir do real.

Segundo Wisnik, o pensamento ficou esquecido por no mínimo duas décadas (de 1980 e 1990) de predominância do pensamento neoliberal de que tudo aquilo que foi postulado como possibilidade transformadora nos anos 60 tinha se revelado impossível, segundo o raciocínio pragmático. “Mas na virada do século aconteceu por diversas frentes uma espécie de ataque ao coração do sistema, e essas manifestações se desdobraram em possibilidades reais de que o sistema pudesse ser mudado”, afirma.

A Ocupacão Cambridge não é apenas um marco de resistência ao modelo individualista, competitivo e alienado das cidades modernas capitalistas. É, ao mesmo tempo, um modelo a ser observado e aprendido como paradigma de cidade e relações humanas. As soluções para os grandes problemas que vivemos nas cidades não precisam ser inventadas, mas reconhecidas e fortalecidas. Era o Hotel Cambridge é um exemplo de apropriação das tecnologias e saberes produzidos nas ocupações.Assista à reportagem da TVT sobre o filme

RBA

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