EUA: por trás da Casa Branca, o Estado profundo .Por Mike Lofgren

8 nov

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Como o Pentágono e mega-instituições financeiras norte-americanas constituíram um “governo das sombras”, que pressiona incessantemente por  guerra, vigilância e concentração de riquezas

Por Mike Lofgren | Tradução: Inês Castilho

 

Roma viveu de seu capital até que a ruína a encarou de frente.
A indústria é a única fonte de riqueza verdadeira, e não havia nenhuma indústria em Roma.
Durante o dia, o caminho de Ostia ficava lotado de carroças e tropeiros
transportando para a cidade grande sedas e especiarias do Oriente,
mármore da Ásia Menor, madeira do Atlas, grãos da África e do Egito;
e na volta as carroças não traziam nada além de um monte de esterco.
Essa era sua carga no retorno( Winwood Reade, “The Martyrdom of Man” (“O Martírio do Homem”, 1871   )

 

Há o governo visível localizado em torno do National Mall, em Washington, mas também há outro governo, mais sombrio e indefinido, que não é explicado na escola secundária ou observável por turistas na Casa Branca ou no Capitólio. O primeiro consiste na política partidária tradicional de Washington: a ponta do iceberg que os jornais e TVs enxergam diariamente e que, em teoria, pode ser controlado via eleições. O subsolo do iceberg será denominado Estado Profundo, que opera por sua própria bússola, independentemente de quem está, em teoria, no poder [1].

Durante os últimos cinco anos, a mídia vem sendo inundada por especialistas que criticam a política fragmentada de Washington. O saber convencional diz que desacordo e impasses entre os partidos são a nova normalidade. Certamente é isso mesmo, e tenho sido um dos críticos mais severos desse estado de coisas. Mas é também imperativo reconhecer os limites dessa crítica, quando se trata do sistema de governo norte-americano. Por um lado, a crítica é evidente: naquilo que pode ser observado pelo público, o Congresso está num impasse irremediável, o pior desde os anos 1850, década violentamente rancorosa anterior à Guerra Civil.

Como escrevi emThe Party is Over , o objetivo atual dos congressistas republicanos é debilitar o poder executivo, pelo menos até que um presidente republicano seja eleito (uma meta que as leis de exclusão de eleitores, em estados controlados pelo Partido Republicano [ou Great Old Party – GOP, como também é conhecido] pretendem claramente alcançar). O presidente Obama não pode executar seu orçamento e políticas domésticas; por causa do incessante obstrucionismo do GOP, ele não apenas não pode preencher um grande número de vagas na magistratura federal, como sequer consegue a nomeação de suas mais inócuas indicações para a administração federal. Democratas que controlam o Senado responderam enfraquecendo a obstrução das nomeações, mas os republicanos vão com certeza reagir com outras táticas parlamentares protelatórias. Esta estratégia resulta na anulação dos braços do Poder Executivo no Congresso, por um partido que tem maioria em apenas uma das casas do Congresso.

A despeito dessa aparente impotência, o presidente Obama pode matar cidadãos americanos sem o devido processo, deter indefinidamente prisioneiros sem acusação, exercer vigilância tipo “arrastão”, sem mandado judicial, contra o povo norte-americano, e envolver-se em caça às bruxas sem precedentes – ao menos desde a era McCarthy – contra funcionários federais (o chamado Insider Threat Program, ou “Programa de Ameaça Interna”). Nos Estados Unidos, esse poder caracteriza-se pela exibição de força intimidatóriamaciça, pelas polícias de nível local, estadual e federal. No exterior, o presidente Obama pode iniciar guerras à vontade e envolver-se em praticamente qualquer outra atividade, sem muita licença do Congresso Nacional, incluindo aí a organização do pouso forçado de um avião que transportava um presidente de Estado soberano sobre território estrangeiro. Apesar da hipocrisia habitual sobre a expansão de poderes do Executivo por Obama, suposto aspirante a ditador, até recentemente ouvimos muito pouco de congressistas republicanos sobre essas ações – com a exceção menor de um provocador como o senador Rand Paul, de Kentucky. Os democratas, salvo alguns independentes como Ron Wyden, do Oregon, não estão tampouco perturbados – a ponto de permitirem aparente perjúrio de funcionários do Executivo, em depoimento ao Congresso, sob juramento, sobre vigilância ilegal.

Estas não são casos isolados de uma contradição; eles têm sido tão onipresentes que a tendência é ignorá-los como ruído de fundo. Em 2011, no período em que a guerra política em torno do teto da dívida começava a paralisar o serviço de governança em Washington, o governo dos Estados Unidos de alguma forma conseguiu recursos para derrubar o regime de Muammar Kadhafi na Líbia, e quando a instabilidade criada pelo golpe respingou até o Mali, providenciou assistência aberta e encoberta para que houvesse ali uma intervenção francesa. Num momento em que havia um debate acalorado sobre inspeções contínuas da carne e do controle de tráfego aéreo civil, por causa da crise orçamentária, nosso governo foi de algum modo capaz de comprometer 115 milhões de dólares para manter uma guerra civil na Síria, e pagar ao menos 100 milhões de libras para o Escritório de Comunicações do governo do Reino Unido para comprar influência e acesso à inteligência daquele país. Desde 2007, duas pontes que ligam rodovias interestaduais desabaram devido à falta de manutenção da infra-estrutura, uma delas matando treze pessoas; durante esse mesmo período, o governo gastou 1,7 bilhões de dólares na construção de um edifício do tamanho de dezessete campos de futebol, em Utah. Essa estrutura gigantesca destina-se a permitir que a Agência de Segurança Nacional (NSA) armazene um yottabyte de informações, a maior que os cientistas da computação jamais tiveram. Um yottabyte é igual a 500 quintilhões de páginas de texto. Eles precisam disso tudo para armazenar cada traço eletrônico que você faz.

Sim, há outro governo oculto por trás daquele que é visível em cada extremidade da Pennsylvania Avenue, uma entidade híbrida de instituições públicas e privadas a governar o país, oportuna e inoportunamente, conforme padrões consistentes, conectados, mas apenas intermitentemente controlados pelo Estado visível cujos líderes escolhemos. Minha análise desse fenômeno não é a exposição de uma cabala secreta e conspirativa; em sua maioria, o Estado dentro do Estado esconde-se à vista de todos, e seus operadores atuam principalmente à luz do dia. Também não pode ser chamado com precisão de “establishment”. Todas as sociedades complexas têm um “establishment”, uma rede social comprometida com seu próprio enriquecimento e perpetuação. Quanto ao seu escopo, recursos financeiros e alcance global direto, o estado norte-americano híbrido, o Estado Profundo, consiste numa única classe. Isso posto, ela não é nem onisciente nem invencível. Nem é a instituição tão sinistra (embora tenha aspectos altamente sinistros) quanto implacavelmente bem entrincheirada. Longe de ser invencível, seus fracassos, como no Iraque, Afeganistão e Líbia, são bastante rotineiros, de modo que só a proteção do Estado Profundo a seu pessoal de alto escalão lhes permite escapar das consequências de sua tão frequente inépcia [2].

Como consegui fazer uma análise do Estado Profundo, e por que estaria eu apto a fazê-la? Como membro da equipe do Congresso especializado em segurança nacional, por 28 anos, e detentor de um certificado de segurança top secret, eu me encontrava pelo menos nas franjas do mundo que estou descrevendo, ainda que não totalmente, pela adesão plena e disposição psicológica. Mas, como praticamente todas as pessoas empregadas, fui até certo ponto assimilado pela cultura da instituição em que trabalhava, e só lentamente  – a partir de pouco antes da invasão do Iraque – , é que passei a questionar fundamentalmente as razões de Estado que motivam as pessoas que são “os decisores”, para citar George W. Bush.

Assimilação cultural é parte daquilo que o psicólogo Irving L. Janischamou de “pensamento de grupo”, a capacidade camaleônica das pessoas assimilaram os pontos de vista dos seus superiores e colegas. Esta síndrome é endêmica em Washington: a cidade é caracterizada por modismos repentinos, sejam eles orçamento bienal, grandes negócios ou invasão de países. Então, depois de um tempo, todos os garotos espertos da cidade largam mão dessas ideias, como se contivessem material radioativo. Assim como os militares, todo mundo tem de embarcar na missão, e questionar a missão não é um movimento propulsor da carreira. O universo de pessoas que analisam criticamente os fatos nas instituições em que trabalham sempre será pequeno. Como disse Upton Sinclair: “É difícil fazer um homem entender alguma coisa quando seu salário depende de não entender essa coisa.”

Um aspecto mais esquivo da assimilação cultural é sua completa normalidade, uma vez que você se plantou pela décima-milésima vez na sua cadeira de escritório. Sua vida não é propriamente uma vinheta de novela de Allen Drury a respeito de intrigas sob a cúpula do Capitólio. Sentar-se olhando para o relógio na parede quase branca do escritório às onze da noite, jurando nunca, jamais em sua vida comer outro pedaço de pizza pra viagem, não é uma experiência que convoca os mais altos instintos literários de um possível memorialista. Depois de um tempo, um funcionário estatal começa a ouvir coisas que, em outro contexto, seriam bastante impressionantes, ou pelo menos notáveis, e ainda assim elas simplesmente escapam da consciência: “Isso significa que o número de grupos terroristas contra os quais estamos lutando é informação confidencial?” Não se admira que poucas pessoas sejam denunciantes, para além da terrível retaliação que a denúncia de irregularidades frequentemente provoca: a menos que seja abençoado com imaginação e fino senso de ironia, é fácil tornar-se imune à curiosidade do próprio ambiente. Parafraseando o inimitável Donald Rumsfeld, eu não sabia tudo o que sabia, pelo menos até estar há um par de anos longe do governo para refletir sobre isso.

O Estado Profundo não abrange todo o governo. É um híbrido de segurança nacional e agências de aplicação da lei: o Departamento de Defesa, o Departamento de Estado, o Departamento de Segurança Interna, a Agência de Inteligência Central (CIA) e o Departamento de Justiça. Isso inclui  também o Departamento do Tesouro, por causa de sua jurisdição sobre os fluxos financeiros, sua aplicação de sanções internacionais e sua simbiose orgânica com Wall Street. Todas essas agências são coordenadas pelo Gabinete Executivo do Presidente via Conselho de Segurança Nacional. Certas áreas chaves do Judiciário pertencem ao Estado Profundo, como a Corte de Vigilância de Inteligência Exterior, cujas ações são um mistério até mesmo para a maioria dos membros do Congresso. Está também incluído um punhado de tribunais federais cruciais, tais como o Distrito Leste de Virgínia e o Distrito Sul de Manhattan, nos quais são conduzidos procedimentos sensíveis em casos de segurança nacional. O componente final do governo (e possivelmente o último em prioridade entre os ramos formais de governo estabelecidos pela Constituição) é uma espécie de filé do Congresso, que consiste na liderança do Congresso e alguns (mas não todos) membros dos comitês de Defesa e Inteligência. O resto do Congresso, normalmente tão turbulento e partidarizado, é em sua maioria apenas intermitentemente consciente do Estado Profundo e, quando necessário, normalmente resigna-se diante de algumas poucas e bem escolhidas palavras de emissários do Estado.

Eu assisti a esse tipo de submissão em várias ocasiões. Um incidente memorável foi a votação da Lei de Alterações da Vigilância de Inteligência Estrangeira, de 2008. Essa lei legalizou retroativamente a vigilância ilegal e inconstitucional revelada pela primeira vez pelo The New York Times em 2005 e indenizou as empresas de telecomunicações pela cooperação nesses atos. A lei passou facilmente: só se exigiu a invocação da palavra “terrorismo” e a maioria dos membros do Congresso respondeu como limalha de ferro a um imã. Um dos que responderam desse modo foi o senador Barack Obama, logo depois consagrado candidato presidencial pelos Democratas na Convenção Nacional, em Denver. Ele então já havia ganho a maioria dos delegados ao fazer campanha à esquerda de sua principal oponente, Hillary Clinton, sobre os excessos da guerra ao terrorismo e a erosão das liberdades constitucionais.

Como o voto sobre a indenização mostrou, o Estado Profundo não consiste apenas de agências governamentais. O que é eufemisticamente denominado empresa privada é parte integral das suas operações. Na série especial do The Washington Post denominada “Top Secret America”, Dana Priest e William K. Arkin descreveram o escopo do Estado Profundo privatizado, e o tanto de metástase que sofreu após os ataques de 11 de setembro. Existem hoje 854 mil funcionários do governo com autorização de confidencialidade – um número maior do que o dos principais funcionários civis. Embora eles estejam espalhados em todo o país e em todo o mundo, é inconfundível sua grande concentração em torno dos subúrbios de Washington: desde o 11 de Setembro, 33 instalações para a inteligência ultra secreta foram construídas ou estão em construção. Combinadas, elas ocupam o espaço de quase três Pentágonos – cerca de 17 milhões de metros quadrados. Setenta por cento do orçamento da comunidade de inteligência vão para o pagamento de contratos. E a separação entre o governo e as companhias prestadoras de serviços é altamente permeável: o diretor de Inteligência Nacional, James R. Clapper, é um ex-executivo do Booz Allen, um dos maiores empreiteiros de inteligência do governo. Seu antecessor, o almirante Mike McConnell, é o vice-presidente em exercício da mesma empresa. A Booz Allen é 99 por cento dependente de negócios com o governo. Esses empreiteiros agora dão o tom político e social em Washington, assim como estão cada vez mais definindo a direção do país, mas estão fazendo isso em silêncio, seus atos não constam dos Registros do Congresso ou no Registro Federal, e raramente são submetidos a audiências no Congresso.

Washington é o nódulo mais importante, mas não o único do Estado Profundo que dominou os EUA. Tramas invisíveis de dinheiro e ambição conectam a cidade a outros nódulos. Um é Wall Street, que fornece o dinheiro que mantém a máquina política em vigília e operação, como um teatro de marionetes. Se os políticos esquecem suas tramas e ameaçam o status quo, Wall Street inunda a cidade de dinheiro e advogados para ajudar mãos contratadas a lembrar dos seus próprios interesses. Os executivos das gigantes financeiras ainda têm imunidade penal de fato. Em 6 de março de 2013, ao testemunhar perante o Comitê Judiciário do Senado, o procurador-geral Eric Holder declarou o seguinte: “Estou preocupado que algumas dessas instituições se tornem tão grandes que fique difícil para nós processá-los, por haver indícios de que se os processarmos, se dirigirmos a eles uma acusação criminal, isso terá um impacto negativo sobre a economia nacional, talvez até mesmo a economia mundial.” Isso, dito pelo diretor de aplicação da lei de um sistema de justiça que praticamente aboliu o direito constitucional de julgamento para os réus mais pobres acusados de certos crimes. Não é demais dizer que Wall Street pode ser o proprietário final do Estado Profundo e suas estratégias. Se não por outra razão, porque possui dinheiro para premiar agentes do governo com uma segunda carreira que é lucrativa para além dos sonhos da avareza – certamente para além dos sonhos de um assalariado do governo [3].

O corredor entre Manhattan e Washington é uma estrada bem trilhada para as personalidades que tornaram-se conhecidas por todos nós desde a desregulamentação maciça de Wall Street: Robert Rubin, Lawrence Summers, Henry Paulson, Timothy Geithner e muitos outros. Nem todo o tráfego envolve pessoas ligadas às operações puramente financeiras do governo: em 2013, o general David Petraeus juntou-se à KKR (Kohlberg Kravis Roberts, anteriormente) da Rua 57, em New York, umaempresa de administração de fortunas privadas com 62,3 bilhões  de dólares em ativos. A KKR é especializada na gestão de aquisições e finanças alavancadas; a perícia do general Petraeus nessas áreas não é clara; sua capacidade de vender influência, no entanto, é uma mercadoria conhecida e valorizada. Ao contrário de Cincinato, os comandantes militares do Estado Profundo não pegam na enxada quando largam a espada. Patreus também obteve uma sinecura como membro sênior não-residente no Centro Belfer para Ciência e Assuntos Internacionais, na Universidade de Harvard. A Liga Ivy é, naturalmente, a banheira preferida para o branqueamento e a escola charmosa da oligarquia norte-americana [4].

Petraeus, e a maioria dos avatares do Estado Profundo – os conselheiros da Casa Branca que impeliram Obama a não impor limites à remuneração dos executivos (CEOs) de Wall Street, os especialistas do think tank ligado à empreiteira que pediram para “manter o curso” no Iraque, os gurus econômicos que demonstraram perpetuamente que a globalização e a desregulamentação são uma bênção que nos torna melhores no longo prazo – são cuidadosos ao fingir que não têm ideologia. Sua pose preferida é a do tecnocrata politicamente neutro que oferece conselhos bem considerados, com base em conhecimento profundo. Isso é nonsense. Eles estão completamente tingidos pela cor da ideologia oficial da classe governante, uma ideologia que não é especificamente nem democrata nem republicana. No plano interno, seja qual for sua crença particular sobre questões sociais essencialmente polêmicas, como o aborto ou o casamento gay, quase sempre acreditam no “Consenso de Washington”: financeirização, terceirização, privatização, desregulamentação e mercantilização do trabalho. Internacionalmente, defendem o excepcionalismo norte-americano do século XXI: o direito e o dever de os Estados Unidos se intrometerem em todas as regiões do mundo, a diplomacia coercitiva, de botas no chão, e o direito de ignorar as normas internacionais de comportamento civilizado dolorosamente conquistadas. Parafraseando o que Sir John Harrington disse mais de 400 anos atrás sobre a traição, agora que a ideologia do Estado Profundo prosperou, ninguém se atreve a chamá-lo de ideologia [5]. É por isso que descrever a tortura com a denominação de tortura na televisão aberta é considerado menos como heresia política do que como um lapso imperdoável de etiqueta de Washington: como fumar um cigarro diante das câmeras, simplesmente “não se faz” nos dias de hoje.

Depois das revelações de Edward Snowden sobre a extensão e profundidade da espionagem praticada pela Agência Nacional de Segurança [NSA, National Security Agency], tornou-se publicamente evidente que as grandes empresas de tecnologia da informação do Vale do Silício também são um nódulo vital do Estado Profundo. Ao contrário dos contratantes militares e de inteligência, o Vale do Silício vende  especialmente para o mercado privado; mas seus negócios são tão importantes para o governo que surgiu um estranho relacionamento. Embora o governo pudesse simplesmente obrigar as empresas de alta tecnologia a cumprir as ordens da NSA, ele prefere cooperar com tão importante motor da economia do país, talvez com um quid pro quoimplícito. Isso talvez explique a extraordinária indulgência do governo com as práticas do Vale em matéria de propriedade intelectual. Se um norte-americano “desbloqueia” seu smartphone (ou seja, modifica-o para que possa usar outro provedor que não o determinado pelo fabricante), pode sofrer uma multa de até 500mil dólares e vários anos de prisão; tudo isso apesar dos alardeados direitos de propriedade do cidadão consumidor. A pose libertária dos magnatas do Vale do Silício, tão cuidadosamente cultivada por seus relações públicas, foi sempre uma farsa. Há muito o Vale do Silício vem rastreando para fins comerciais as atividades de cada pessoa que usa um dispositivo eletrônico; não é de surpreender que o Estado Profundo deva igualar o Vale e fazer o mesmo para os seus próprios fins. Também não é surpreendente que ele recrute o apoio do Vale.

Ainda, apesar do papel essencial desempenhado pela Baixa Manhattan (Lower Manhattan, onde está situado Wall Street) e o Vale do Silício, o centro de gravidade do Estado Profundo está firmemente localizado dentro e no entorno do anel rodoviário de Washington (o Beltway),  isto é, junto aos fornecedores e lobistas do governo federal, em oposição aos interesses da populaçãonorte-americana. A expansão e consolidação do Estado Profundo em torno do Beltway parece ser uma paródia dos frequentes pronunciamentos de que a governança em Washington é disfuncional e fragmentada. Que o Estado Profundo, oculto e não-responsável, flutue livremente acima do engarrafamento entre as duas extremidades da Pennsylvania Avenue é o paradoxo do governo americano no século XXI: ataques aéreos, extração de dados, prisões secretas e controle tipo panóptico, por um lado; e, por outro, as visíveis, ordinárias instituições parlamentares de governo em declínio, até o status de uma república de bananas, em meio  ao colapso gradual da infraestrutura pública.

Os resultados dessa contradição não são abstratos, como se poderá atestar num passeio pelas falidas, deterioradas, apodrecidas cidades do meio-oeste norte-americano. Nem sequer estão limitados àquelas partes do país largadas pra trás por um Consenso de Washington que decretou a financeirização e desindustrialização da economia no interesse da eficiência e lucros para o acionista. Esse paradoxo é evidente até mesmo dentro do próprio Beltway, a região metropolitana mais rica da nação. Embora demógrafos e urbanistas invariavelmente considerem Washington como “cidade global”, isso nem sempre é evidente para aqueles que vivem ali. Praticamente toda vez que há uma forte tempestade de verão, dezenas – ou mesmo centenas – de milhares de residentesficam sem energia elétrica, muitas vezes por vários dias. Há racionamentos de água ocasionais em grandes áreas, em razão doestouro de adutoras mal construídas e inadequadamente mantidas [6]. Para a área metropolitana de Washington, é uma tarefa hercúlea construir uma ligação ferroviária para o seu aeroporto internacional – com sorte, ela poderá ser concluída até 2018.

É como se a Muralha de Adriano ainda estivesse totalmente guarnecida e as fortificações ao longo da fronteira com a Germânia nunca tivessem estado mais fortes, mesmo enquanto Roma desintegrava-se por dentro e os aquedutos de sustentação da vida, descendo a ladeira, começavam a desmoronar. As classes dirigentes do Estado Profundo podem continuar a enganar-se com seus sonhos de onipotência tipo Zeus, mas há quem discorde. A pesquisa Pew Poll 2013, que entrevistou 38 mil pessoas em todo o mundo, descobriu que em 23 dos 39 países pesquisados uma enormidade de entrevistados disse acreditar que a China já substituia ou viria no futuro a substituir os Estados Unidos como maior potência econômica do mundo.

O Estado Profundo é a maior história do nosso tempo; é o fio vermelho que corre através da guerra ao terrorismo, da financeirização e desindustrialização da economia norte-americana, o ascenso de uma disfuncionalidade política e estrutura social plutocráticas. Washington é a sede do Estado Profundo, e seu tempo sob o sol como rival de Roma, Constantinopla ou Londres pode ter seu termo limitado pelo senso arrogante de autoimportância e seu hábito, como Winwood Reade disse de Roma, a “viver do seu capital até a ruína encará-la de frente.” Viver em cima de seu capital, neste caso, significa que o Estado Profundo vem extraindo valor do povo americano à moda de um vampiro.

Estamos face a face com duas implicações desagradáveis. Primeiro, o Estado Profundo está tão fortemente enraizado, tão bem protegido por vigilância, poder de fogo, dinheiro e capacidade de cooptar resistências que é quase impermeável a mudanças. Em segundo lugar que, assim como tantos impérios anteriores, o Estado Profundo está entupido por aqueles cuja reação instintiva ao fracasso de suas políticas é dobrar a aposta nessas mesmas políticas para o futuro. O Iraque foi um fracasso brevemente camuflado pelo sucesso total propagandístico da chamada “ofensiva”; esta prestidigitação permitiu uma ofensiva no Afeganistão, que deu igualmente em nada. Sem deixar-se abater por essa falha, os funcionários do Estado Profundo mergulharam na Líbia; os destroços fumegantes do consulado de Benghazi, ao invés de desencorajar mais desventura, pareceu apenas aumentar a coceira para bombardear a Síria. Irá o passeio do Estado Profundo de fracasso em fracasso, pelas costas do povo americano, até que o próprio país, apesar das suas enormes reservas de capital humano e material, esteja lentamente esgotado? A estrada empoeirada do império estásemeada com os ossos de ex-grandes potências que se esgotaram de maneira semelhante.

Mas há sinais de resistência ao Estado Profundo e suas demandas. Na sequência das revelações de Snowden, a Câmara quase conseguiu aprovar uma emenda que teria compartilhado a coleção de dados pessoais de norte-americanos sem mandato da NSA. Pouco depois o presidente, ao defender mais uma intervenção militar no Oriente Médio, desta vez na Síria, defrontou-se com ceticismo tão avassalador no Congresso que mudou de assunto, agarrando-se a um salva-vidas diplomático lançado a ele por Vladimir Putin [7].

Terá o Estado visível, constitucional, aquele contemplado por Madison e os outros Fundadores da nação norte-americana, finalmente começado a agitar-se contra as reivindicações e usurpações do Estado Profundo? Talvez, até certo ponto. O desdobramento das revelações no âmbito da vigilância sem mandado da NSA tornou-se tão notório que até mesmo apologistas institucionais, como a senadora Diane Feinstein, começaram a recuar – ainda que apenas retoricamente – de suas intempestivas defesas  da agência. À medida que mais pessoas começam a despertar do estado sugestionável e de medo que 11 de Setembro criou em suas mentes, é possível que a tática de uma década, já, do Estado Profundo, de gritar “terrorismo!” cada vez que enfrenta resistência, não esteja mais provocando a mesma resposta pavloviana de dócil obediência. E o povo norte-americano, possivelmente até mesmo os seus legisladores, estão ficando cada vez mais cansados dos intermináveis pesadelos no Oriente Médio.

Mas há outra razão mais estrutural pela qual o Estado Profundo pode ter  atingido o pico de sua posição de domínio. Embora pareça flutuar acima do estado de direito, sua natureza essencialmente parasitária, capturadora de riquezas, significa que ainda está amarrado a processos formais de governança. O Estado Profundo prospera quando há funcionalidade tolerável nas operações cotidianas do governo federal. Enquanto os dotações são aprovadas a tempo, as listas de promoção são confirmadas, orçamentos negros (ou seja, secretos) são chancelados, vantagens fiscais especiais para certas corporações são aprovados sem controvérsias, enquanto não são feitas muitas perguntas embaraçosas, as engrenagens do estado híbrido rodam sem fazer barulho. Mas quando uma casa do Congresso é tomada por ultra-fundamentalistas do Tea Party, a vida torna-se mais difícil para a classe dominante .

Se há alguma coisa que o Estado Profundo requer é fluxo de recursos silencioso, ininterrupto, e a confiança de que as coisas se darão como aconteciam no passado. Ele está até mesmo disposto a tolerar um grau de impasse: disputas partidárias sobre questões culturais podem ser uma distração útil para sua agenda. Mas recentes palhaçadas do Congresso envolvendo o sequestro, a paralisação do governo e a ameaça de calote sobre a extensão do teto da dívida têm perturbado esse equilíbrio. E uma dinâmica de extremo impasse desenvolveu-se entre as duas partes, de tal modo que continuar algum nível de sequestro é politicamente a opção menos má para ambas as partes, embora por razões diferentes. Por mais que muitos republicanos queiram aliviar o orçamento para os órgãos de segurança nacional, eles não podem reverter totalmente o sequestro sem os democratas demandarem aumentos de receita. E democratas, ao querer gastar mais em programas domésticos arbitrários, não podem anular o sequestro em programas nacionais ou de defesa sem que os republicanos insistam em cortes de direitos.

Por isso, no futuro previsível, o Estado Profundo deve restringir seu apetite por dinheiro do contribuinte: ofertas limitadas podem suavizar o sequestro, mas é improvável que pedidos de agências sejam totalmente financiados no futuro próximo. Mesmo operações rentistas de Wall Street foram afetadas: depois de ajudar a financiar o Tea Party para fazer avançar suas próprias ambições plutocráticas, o Big Moneyda América está agora lamentando ter criado o monstro Frankenstein. Como crianças brincando com dinamite, a compulsão do Tea Party para levar a nação ao calote de crédito alarmou os adultos que comandam as alturas do capital; estes agora dizem aos políticos quepensavam ter sido contratados para desbaratá-los.

O voto da Câmara para desfinanciar os programas de vigilância ilegal da NSA foi igualmente ilustrativo da natureza disruptiva da insurgência do Tea Party. Democratas comprometidos com as liberdades civis, sozinhos, nunca teriam chegado tão perto da vitória; o inflexível deputado Justin Amash (R-MI), do Tea Party, que inclusive aborreceu a comunidade de negócios por seu fundamentalismo sobre limite da dívida, foi o principal patrocinador republicano da emenda do NSA, e a maioria dos republicanos que votaram com ele estavam alinhados com o Tea Party.

O fator final é o Vale do Silício. Devido ao sigilo e à obscuridade, é difícil saber o quanto do relacionamento da NSA com o Vale é baseado em cooperação voluntária, o quanto é obrigação legal através de mandados de FISA e o quanto é uma questão de a NSA sorrateiramente invadir sistemas de empresas de tecnologia. Dada a exigência de relações públicas do Vale para acalmar seus clientes preocupados com a privacidade, é difícil tomar pelo valor de face os protestos libertários das empresas de tecnologia sobre o acordo do governo com seus sistemas, especialmente porque eles se envolvem em atividades semelhantes, contra seus próprios clientes, por razões comerciais. Isso posto, acumulam-se evidências de que o Vale do Silício está perdendo bilhões em negócios no exterior para empresas, indivíduos e governos que querem manter a privacidade. Para os empreendedores de alta tecnologia, o nexo da grana é, em última análise, mais atraente do que a demanda do Estado Profundo por cooperação patriótica. Mesmo a compulsão legal pode ser combatida: ao contrário do cidadão individual, empresas de tecnologia têm bolsos profundos e montes de advogados com os quais combater as imposições do governo.

Esta resistência foi tão longe que, em 17 de janeiro, o presidente Obama anunciou revisão nos programas de coleta de dados da NSA, incluindo a retirada de custódia do NSA de um banco de dados de registros de telefones domésticos, ampliando os requisitos para mandados judiciais e acabando com a espionagem de (indefinidos) “líderes estrangeiros amigáveis”. Os críticos denunciaram as alterações como uma jogada de relações públicas cosmética, mas ainda assim elas são significativas, já que o clamor tornou-se tão alto que o presidente sentiu a necessidade política de enfrentá-lo.

Quando as contradições internas de uma ideologia dominante vão tão longe, os antagonismos aparecem e aquela ideologia começa lentamente a desintegrar-se. Oligarcas corporativos como os irmãos Koch já não estão totalmente satisfeitos com o grupo de frente político pseudo-populista que ajudaram a constituir e financiar. O Vale do Silício, por todas as tendências tipo Ayn Rand de seus principais jogadores, suas estratégias off-shore e consequente exacerbação da desigualdade de renda, está agora pressionando o Congresso para restringir a NSA, um componente central do Estado Profundo. Algumas empresas de tecnologia estão se mobilizando para criptografar seus dados. Empresas de alta tecnologia, assim como governos, buscam o domínio sobre as pessoas pela coleta de dados pessoais, mas as empresas estão abandonando o barco, agora que a reação adversa do público aos escândalos da NSA ameaça seus lucros.

O resultado de todos esses desdobramentos é incerto. O Estado Profundo, baseado nos pilares gêmeos do imperativo da segurança nacional e hegemonia corporativa, parecia até recentemente inabalável, e os últimos eventos podem ser uma perturbação apenas temporária em sua trajetória. Mas a história tem uma maneira de derrubar o altar dos poderosos. Embora as duas grandes ideologias materialistas e deterministas do século XX, o marxismo e o Consenso de Washington, tenham decretado sucessivamente que a ditadura do proletariado e a ditadura do mercado eram inevitáveis, o futuro na verdade é indeterminado. Pode ser que as correntes econômicas e sociais profundas criem o quadro da história, mas essas correntes podem ser canalizadas, sofrer reviravoltas ou mesmo ser revertidas pelas circunstâncias, o acaso e a ação humana. Temos apenas que refletir sobre despotismos glaciais extintos, como a URSS ou Alemanha Oriental, para conscientizar-nos de que nada é para sempre.

Ao longo da história, sistemas estatais com pretensões agigantadas de poder reagiram ao seu meio de duas maneiras. A primeira estratégia, refletindo a esclerose das elites dirigentes, consiste em repetir que não há nada errado, que o status quo reflete a boa sorte única da nação favorecida por Deus, e que aqueles que pedem mudanças são apenas arruaceiros subversivos. Como descobriram o Velho Regime francês, a dinastia Romanov e os imperadores Habsburgo, a estratégia funciona esplendidamente por um tempo, em especial se a pessoa tem talento para desconsiderar fatos desagradáveis. Os resultados finais, contudo, provavelmente serão totalmente decepcionantes.

A segunda estratégia é adotada, em graus diferentes e com diversos objetivos, por figuras de personalidades tão contrastantes como Mustafa Kemal Attatürk,  Franklin D. Roosevelt, Charles de Gaulle e Deng Xiaoping. Eles com certeza não eram revolucionários por temperamento; sua natureza era conservadora, se tanto. Mas eles entenderam que as culturas políticas em que viviam estavam fossilizadas e incapazes de adaptar-se aos tempos. No impulso de reformar e modernizar os sistemas políticos que herdaram, o primeiro obstáculo a ser superado eram os mitos ultrapassados que estavam incrustados no pensamento das elites do seu tempo.

À medida que os Estados Unidos confrontam-se com seu futuro após experimentar duas guerras fracassadas, uma economia precária e 17 trilhões de dólares de dívida acumulada, a controvérsia nacional encontra-se dividida em dois campos: o primeiro, dos “declinistas”, enxerga um sistema político fragmentado, disfuncional e impossível de reformar, e uma economia que em breve será ultrapassada pela China. O outro campo, dos “reformadores”, oferece uma profusão de panaceias para transformar a nação: financiamento público das eleições para cortar a artéria de dinheiro entre os componentes corporativos do Estado Profundo e os funcionários dependentes de financiamento para eleger-se; reverter a maré da terceirização nas funções de governo e os conflitos de interesse que ela cria; uma política fiscal que valorize o trabalho humano mais que as transações financeiras; e uma política comercial que privilegie a exportação de produtos manufaturados sobre a exportação de capitais para investimento.

Tudo isso é necessário, mas não suficiente. As revelações de Snowden, cujo impacto foi surpreendentemente forte; a iniciativa descarrilada de intervenção militar na Síria; e um Congresso turbulento, cujas disfunções tornaram-se grave inconveniente para o Estado Profundo, mostram que há agora um profundo, embora ainda incipiente apetite por mudança. O que os EUA não tem é uma figura com autoconfiança serena para nos dizer que os ídolos gêmeos de segurança nacional e do poder corporativo são dogmas ultrapassados, que não têm nada mais a oferecer-nos . Assim libertas, as próprias pessoas irão desvendar o Estado Profundo com velocidade surpreendente.

[1] A expressão “Estado Profundo” foi cunhada na Turquia, e denomina um sistema composto de elementos de alto nível nos serviços de inteligência, militar, de segurança, judiciário e crime organizado. No último romance do autor britânico John Le Carré, A Delicate Truth(“Uma Verdade Delicada”), um personagem descreve o Estado Profundo como “… o círculo eternamente em expansão de iniciados não-governamentais dos bancos, indústria e comércio liberados para receber informação altamente confidencial negada a grande parte da Whitehall e Westminster.” Uso o termo para designar uma associação híbrida de elementos do governo e parcela do nível superior das finanças e da indústria que são efetivamente capazes de governar os Estados Unidos sem submeter-se ao consentimento dos governados como se expressa pelo processo político formal.

[2] Vinte e cinco anos atrás o sociólogo Robert Nisbet descreveu esse fenômeno como “o atributo da Não Culpa. … Presidentes, secretários e generais e almirantes nos EUA aparentemente apoiam a doutrina de que nenhuma culpa é atribuída à política e suas operações. Esta convicção da Não Culpa os impede de levar muito a sério desastres notórios como o do Desert One, de Granada, do Líbano e, agora, do Golfo Pérsico”. À sua lista podemos acrescentar o 11 de Setembro, o Iraque, o Afeganistão e a Líbia.

[3] A atitude de vários membros do Congresso diante de Wall Street foi memoravelmente expressa pelo deputado Spencer Bachus (Republicano de Alabama), o novo presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, em 2010: “Em Washington, a visão é de que os bancos devem ser regulados, e minha visão é de que Washington e os reguladores estão lá para servir os bancos.”

[4] Todos os presidentes dos EUA, desde 1988, formaram-se em Harvard ou Yale. Desde 2000, todo candidato presidencial perdedor também formou-se em Harvard ou Yale, com exceção de John McCain em 2008.

[5] Recentemente, a população norte-americana assistiu a um vívido exemplo de operador do Estado Profundo que faz propaganda de sua ideologia sob a bandeira do pragmatismo. O ex-Secretário de Defesa Robert M. Gates – um antigo oficial de carreira da CIA e empregado profundamente engajado na política da família Bush – camuflou sua defesa da escalada militar (que ofereceu ao país apenas vítimas e aflição fiscal), como se fosse um livro de memórias de um típico filho do Kansas, que desdenha Washington e seus políticos.

[6] Enquanto isso, o governo norte-americano assumiu a liderança na restauração do sistema de esgotos de Bagdá, a um custo de US$ 7 bilhões.

[7] A abrupta meia-volta de Obama sugere que ele pode ter sido o tempo todo cético em relação a uma intervenção militar na Síria, mas só abandonou a ideia quando o Congresso e Putin deram-lhe a saída para fazê-lo. Em 2009, ele foi em frente com a “ofensiva” no Afeganistão, em parte porque a campanha de relações públicas do general Petraeus e lobbies nos bastidores de Washington, para a implementação de sua estratégia militar preferida, frustraram outras opções. Estes incidentes levantam a questão perturbadora de o quanto um presidente democraticamente eleito – qualquer presidente – define a política do estado de segurança nacional, e o quanto a política é definida, para ele, pelos agentes profissionais daquele Estado, que engendram fatos consumados a forçar sua mão.

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POR QUE DEUS ESTÁ SENDO ASSIM TÃO DURO COM O BRASIL?

8 nov

Plenário do Senado

Por Roberto Requião.
“Um silêncio ensurdecedor foi “ouvido” nesta segunda-feira (6) após o estridente discurso do senador Roberto Requião que cobrou da tribuna:”
Abaixo, leia a íntegra do discurso de Requião:
“Lava Jato, trair a Pátria não é crime? Vender o país não é corrupção?
O juiz Sérgio Moro sabe; o procurador Deltan Dallagnol tem plena ciência. Fui, neste plenário, o primeiro senador a apoiar e a conclamar o apoio à Operação Lava Jato. Assim como fui o primeiro a fazer reparos aos seus equívocos e excessos.
Mas, sobretudo, desde o início, apontei a falta de compromisso da Operação, de seus principais operadores, com o país. Dizia que o combate à corrupção descolado da realidade dos fatos da política e da economia do país era inútil e enganoso.
E por que a Lava Jato se apartou, distanciou-se dos fatos da política e da economia do Brasil?
Porque a Lava Jato acabou presa, imobilizada por sua própria obsessão; obsessão que toldou, empanou os olhos e a compreensão dos heróis da operação ao ponto de eles não despertarem e nem reagirem à pilhagem criminosa, desavergonhada do país.
Querem um exemplo assombroso, sinistro dessa fuga da realidade?
Nunca aconteceu na história do Brasil de um presidente ser denunciado por corrupção durante o exercício do mandato. Não apenas ele. Todo o entorno foi indigitado e denunciado. Mas nunca um presidente da República desbaratou o patrimônio nacional de forma tão açodada, irresponsável e suspeita, como essa Presidência denunciada por corrupção.
Vejam. Só no último o leilão do petróleo, esse governo de denunciado como corrupto, abriu mão de um trilhão de reais de receitas.
Um trilhão, Moro!
Um trilhão, Dallagnoll!
Um trilhão, Polícia Federal!
Um trilhão, PGR!
Um trilhão, Supremo, STJ, Tribunais Federais, Conselhos do Ministério Público e da Justiça.
Um trilhão, brava gente da OAB!
Um trilhão de isenções graciosamente cedidas às maiores e mais ricas empresas do planeta Terra. Injustificadamente. Sem qualquer amparo em dados econômicos, em projeções de investimentos, em retorno de investimentos. Sem o apoio de estudos sérios, confiáveis.
Nada! Absolutamente nada!
Foi um a doação escandalosa. Uma negociata impudica.
Abrimos mão de dinheiro suficiente para cobrir todos os alegados déficits orçamentários, todos os rombos nas tais contas públicas.
Abrimos mão do dinheiro essencial, vital para a previdência, a saúde, a educação, a segurança, a habitação e o saneamento, as estradas, ferrovias, aeroportos, portos e hidrovias, para os próximos anos.
Mas suas excelentíssimas excelências acima citadas não estão nem aí. Por que, entendem, não vem ao caso…
Na década de 80, quando as montadoras de automóveis, depois de saturados os mercados do Ocidente desenvolvido, voltaram os olhos para o Sul do mundo, os governantes da América Latina, da África, da Ásia entraram em guerra para ver quem fazia mais concessões, quem dava mais vantagens para “atrair” as fábricas de automóveis.
Lester Turow, um dos papas da globalização, vendo aquele espetáculo deprimente de presidentes, governadores, prefeitos a oferecer até suas progenitoras para atrair uma montadora de automóvel, censurou-os, chamando-os de ignorantes por desperdiçarem o suado dinheiro dos impostos de seus concidadãos para premiarem empresas biliardárias.
Turow dizia o seguinte: qualquer primeiroanista de economia, minimamente dotado, que examinasse um mapa do mundo, veria que a alternativa para as montadoras se expandirem e sobreviverem estava no Sul do Planeta Terra. Logo, elas não precisavam de qualquer incentivo para se instalarem na América Latina, Ásia ou África. Forçosamente viriam para cá.
No entanto, governantes estúpidos, bocós, provincianos, além de corruptos e gananciosos deram às montadoras mundos e fundos.
Conto aqui uma experiência pessoal: eu era governador do Paraná e a fábrica de colheitadeiras New Holland, do Grupo Fiat, pretendia instalar-se no Brasil, que vivia à época o boom da produção de grãos.
A Fiat balançava entre se instalar no Paraná ou Minas Gerais. Recebo no palácio um dirigente da fábrica italiana, que vai logo fazendo numerosas exigências para montar a fábrica em meu estado. Queria tudo: isenções de impostos, terreno, infraestrutura, berço especial no porto de Paranaguá, e mais algumas benesses.
Como resposta, pedi ao meu chefe de gabinete uma ligação para o então governador de Minas Gerais, o Hélio Garcia. Feito o contanto, cumprimento o governador: “Parabéns, Hélio, você acaba de ganhar a fábrica da New Holland”. Ele fica intrigado e me pergunta o que havia acontecido.
Explico a ele que o Paraná não aceitava nenhuma das exigências da Fiat para atrair a fábrica, e já que Minas aceitava, a fábrica iria para lá.
O diretor da Fiat ficou pasmo e se retirou. Dias depois, ele reaparece e comunica que a New Holland iria se instalar no Paraná.
Por que?
Pela obviedade dos fatos: o Paraná à época, era o maior produtor de grãos do Brasil e, logo, o maior consumidor de colheitadeiras do país; a fábrica ficaria a apenas cem quilômetros do porto de Paranaguá; tínhamos mão-de-obra altamente especializada e assim por diante.
Enfim, o grande incentivo que o Paraná oferecia era o mercado.
O que me inspirou trucar a Fiat? O conselho de Lester Turow e o exemplo de meu antecessor no governo, que atraiu a Renault, a Wolks e a Chrysler a peso de ouro e às custas dos salários dos metalúrgicos paranaenses, pois o governador de então chegou até mesmo negociar os vencimentos dos operários, fixando-os a uma fração do que recebiam os trabalhadores paulistas.
Mundos e fundos, e um retorno pífio.
Pois bem, voltemos aos dias de hoje, retornemos à história, que agora se reproduz como um pastelão.
O pré-sal, pelos custos de sua extração, coisa de sete dólares o barril, é moranguinho com nata,, uma mamata só!
A extração do óleo xisto, nos Estados Unidos, o shale oil , chegou a custar até 50 dólares o barril;
o petróleo extraído pelos canadenses das areias betuminosas sai por 20 a 30 dólares o barril; as petrolíferas, as mesmas que vieram aqui tomar o nosso pré-sal, fecharam vários projetos de extração de petróleo no Alasca porque os custos ultrapassavam os 40 dólares o barril.
Quer dizer: como no caso das montadoras, era natural, favas contadas que as petrolíferas enxameassem, como abelhas no mel, o pré-sal. Com esse custo, quem não seria atraído?
Por que então, imbecis, por que então, entreguistas de uma figa, oferecer mais vantagens ainda que a já enorme, incomparável e indisputável vantagem do custo da extração?
Mais um dado, senhoras e senhores da Lava Jato, atrizes e atores daquele malfadado filme: vocês sabem quanto o governo arrecadou com o último leilão? Arrecadou o correspondente a um centavo de real por litro leiloado.
Um centavo, Moro!
Um centavo, Dallagnoll!
Um centavo, Carmem Lúcia!
Um centavo, Raquel Dodge!
Um centavo, ínclitos delegados da Policia Federal!
Esse governo de meliantes faz isso e vocês fazem cara de paisagem, viram o rosto para o outro lado.
Já sei, uma das razões para essa omissão indecente certamente é, foi e haverá de ser a opinião da mídia.
Com toda a mídia comercial, monopolizada por seis famílias, todas a favor desse leilão rapinante, como os senhores e as senhoras iriam falar qualquer coisa, não é?
Não pegava bem contrariar a imprensa amiga, não é, lavajatinos?
Renovo a pergunta: desbaratar o suado dinheiro que é esfolado dos brasileiros via impostos e dar isenção às empresas mais ricas do planeta é um ou não é corrupção?
Entregar o preciosíssimo pré-sal, o nosso passaporte para romper com o subdesenvolvimento, é ou não é suprema, absoluta, imperdoável corrupção?
É ou não uma corrupção inominável reduzir o salário mínimo e isentar as petroleiras?
Será, juízes, procuradores, policiais federais, defensores públicos, será que as senhoras e os senhores são tão limitados, tão fronteiriços, tão pouco dotados de perspicácia e patriotismo ao ponto de engolirem essa roubalheira toda sem piscar?
Bom, eu não acredito, como alguns chegam a acusar, que os senhores e as senhoras são quintas-colunas, agentes estrangeiros, calabares, joaquins silvérios ou, então, cabos anselmos.
Não, não acredito.
Não acredito, mas a passividade das senhoras e dos senhores diante da destruição da soberania nacional, diante da submissão do Brasil às transnacionais, diante da liquidação dos direitos trabalhistas e sociais, diante da reintrodução da escravatura no país…. essa passividade incomoda e desperta desconfianças, levanta suspeitas.
Pergunto, renovo a pergunta: como pode um país ser comandado por uma quadrilha, clara e explicitamente uma quadrilha, e tudo continuar como se nada estivesse acontecendo?
Responda, Moro.
Responda, Dallagnoll.
Responda, Carmem Lúcia.
Responda, Raquel Dodge.
Respondam, oh, ínclitos e severos ministros do Tribunal de Contas da União que ajudaram a derrubar uma presidente honesta.
Respondam, oh guardiões da moral, da ética, da honestidade, dos bons costumes, da família, da propriedade e da civilização cristã ocidental.
Respondam porque denunciaram, mandaram prender, processaram e condenaram tantos lobistas, corruptores de parlamentares e de dirigentes de estatais, mas pouco se dão se, por exemplo, lobistas da Shell, da Exxon e de outras petroleiras estrangeiras circulem pelo Congresso obscenamente, a pressionar, a constranger parlamentares em defesa da entrega do pré-sal, e do desmantelamento indústria nacional do óleo e do gás?
Eu vi, senhoras e senhores. Eu vi com que liberdade e desfaçatez o lobista da Shell, semanas atrás, buscava angarias votos para aprovar a maldita, indecorosa MP franqueando todo o setor industrial nacional do petróleo à predação das multinacionais.
Já sei, já sei…. isso não vem, ao caso.
Fico cá pensando o que esses rapazes e essas moças, brilhantíssimos campeões de concursos públicos, fico pensando…..o que eles e elas conhecem de economia, da história e dos impasses históricos do desenvolvimento brasileiro?
Será que eles são tão tapados ao ponto de não saberem que sem energia, sem indústria, sem mercado consumidor, sem sistema financeiro público, para alavancar a economia, sem infraestrutura não há futuro para qualquer país que seja? Esses são os ativos imprescindíveis para o desenvolvimento, para a remissão do atraso, para o bem-estar social e para a paz social.
Sem esses ativos, vamos nos escorar no quê? Na produção e exportação de commodities? Ora…
Mas, os nossos bravos e bravas lavajatinos não consideram o desbaratamento dos ativos nacionais uma forma de corrupção.
Senhoras, senhores, estamos falando da venda subfaturada –ou melhor, da doação- do país todo! Todo!
E quem o vende?
Um governo atolado, completamente submerso na corrupção.
E para que vende?
Para comprar parlamentares e assim escapar de ser julgado por corrupção.
Depois de jogar o petróleo pela janela, preparando assim o terreno para a nossa perpetuação no subdesenvolvimento, o governo aproveita a distração de um feriado prolongado e coloca em hasta pública o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Eletrobrás, a Petrobrás e que mais seja de estatal.
Ladrões de dinheiro público vendendo o patrimônio público.
Pode isso, Moro?
Pode isso, Dallagnoll?
Pode isso, Carmem Lúcia?
Pode isso, Raquel Dodge?
Ou devo perguntar para o Arnaldo?
À véspera do leilão do pré-sal, semana passada, tive a esperança de que algum juiz intrépido ou algum procurador audacioso, iluminados pelos feéricos, espetaculosos exemplos da Lava Jato, impedissem esse supremo ato de corrupção praticado por um governo corrupto.
Mas, como isso não vinha ao caso, nada tinha com os pedalinhos, o tríplex, as palestras, o aluguel do apartamento, nenhum juiz, nenhum procurador, nenhum delegado da polícia federal, e nem aquele rapaz do TCU, tão rigoroso com a presidente Dilma, ninguém enfim, se lixou para o esbulho.
Ah, sim, não estava também no power point….
É com desencanto e o mais profundo desânimo que pergunto: por que Deus está sendo tão duro assim com o Brasil?”

*Roberto Requião é senador da República no segundo mandato. Foi governador de estado por 3 mandatos, 12 anos, prefeito de Curitiba, secretário de estado, deputado, industrial, agricultor, oficial do exército brasileiro e advogado de movimento sociais. É graduado em direito e jornalismo com pós graduação em urbanismo e comunicação.

Tacla Durán diz que procuradores da Lava Jato ameaçaram sua família para forçar delação

4 nov

 

tacla duran

Na quarta matéria da séria sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, destacamos os principais trechos do áudio do encontro dos deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous com o advogado Rodrigo Tacla Durán. As anteriores estão aqui.

 

Tacla Durán diz que procuradores da Lava Jato ameaçaram sua família para forçar delação

 

por Joaquim de Carvalho

Os deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous, integrantes da CPI da JBS, viajaram por conta própria a Madri, na Espanha, e ouviram o advogado Rodrigo Tacla Durán, processado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro.

O áudio foi protocolado na CPI e divulgado por alguns sites. O DCM e GGN têm o áudio desde segunda-feira, mas, antes de ser publicado, foram checadas as informações e colocadas em seu contexto, com observações ao final dos trechos separados por tema.

Também se preferiu transcrever, para facilitar o entendimento e dar oportunidade para reflexão e assimilação, dada a complexidade das informações e situações tratadas.

É uma forma de explicar um caso complexo, não apenas jogar gasolina na fogueira.

Tacla Durán é um homem-bomba. Pode aprofundar cada caso abordado por ele. Fala com propriedade.

Mas, é claro, acusado, tem interesse de fazer sua defesa.

É um direito dele, mas não se pode esquecer que ele vai até onde a lei não o alcance.

Foi, efetivamente, operador da Odebrecht. Trabalhou lá.

O depoimento de Tacla Durán à CPI da JBS é uma oportunidade para revelar ao Brasil as entranhas de um sistema que parece apodrecer antes mesmo de se tornar maduro.

É uma operação que atinge alvos pré-definidos, daí a plausibilidade das informações de que provas são montadas e versões criadas, como se juntassem peças de um enredo.

Os leitores desta série já estão tomando conhecimento dessa máquina perversa, que está longe de produzir justiça. Com o depoimento à CPI, transmitido ao vivo, o alcance será muito maior.

A CPI, se não não deve nada a ninguém, precisa aprovar o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.

 

A TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO

Nós estamos aqui em Madri. Eu, deputado Paulo Pimenta, deputado Wadih Damous, juntamente com o Dr. Rodrigo Tacla Durán, e seu advogado, Emílio Naranjo, para buscarmos uma série de informações relativas a questões relevantes sobre a conjuntura do Brasil, que têm sido recorrentes objeto da atenção da imprensa, do País, a partir de informações prestadas pelo advogado Rodrigo Tacla Durán.

 

QUEM É RODRIGO TACLA DURÁN

Deputado Wadih: Rodrigo, os procuradores da chamada Operação Lava Jato sustentam que o senhor, na verdade, não atuava como advogado, o senhor não prestava serviço de advocacia à empresa Odebrechet, que seriam serviços de lavagem de dinheiro. O senhor pode esclarecer esta afirmação para nós? O senhor efetivamente prestava serviço de advocacia para a empresa Odebrecht?

Tacla Durán: Sim, eu trabalhei como advogado da Odebrecht de 2011 a 2016, é público que eles solicitaram a banco a abertura de conta para pagar meus honorários. E eu estou, inclusive, hoje respondendo a um processo de ética no Tribunal de Ética da OAB de São Paulo, justamente em razão de suposta violação de sigilo profissional. Isso não aconteceria se eu não tivesse trabalhado, de fato, como advogado da empresa.

Damous: O senhor recebia honorários da empresa pela prestação de serviços advocatícios?

Tacla Durán: Correto.

Damous: Esses honorários eram declarados para o imposto de renda brasileiro?

Tacla Durán: Todos. Todo o meu patrimônio no Brasil e no exterior foram declarados à Receita, inclusive os honorários que eu recebia da Odebrecht no exterior. Tanto é verdade que, depois de dois anos de fiscalização, eu não fui multado, não tive nenhuma sanção da Receita Federal.

Pimenta: Consta dos registros contáveis da construtora Norberto Odebredht pagamentos mensais de aproximadamente 10 mil reais ao seu escritório. Que pagamentos são esses?

Tacla Durán: Esse pagamento de valor aproximado de 10 mil reais não foi pago ao meu escritório, foi pago à minha pessoa física. Ele consta da minha declaração de imposto de renda pessoa física. E na verdade se trata de recebimentos de aluguéis, uma vez que eu alugava um apartamento de minha propriedade em São Paulo, para uso de seu Hilberto Silva, que era custeado, pago, pela Odebrecht.

Damous: Quem é Hilberto Silva?

Tacla Durán – Hilberto Silva era diretor da Odebrecht, diretor que coordenava o Departamento de Operações Estruturadas, meu superior hierárquico.

Pimenta: O apartamento que o senhor Hilberto Silva alugava em São Paulo, a empresa Odebrecht alugava diretamente do senhor?

Tacla Durán: Sim. Por isso, as acusações que me fazem, de doleiro, etc., não têm o menor cabimento porque jamais você iria alugar o apartamento do seu doleiro.

Pimenta: Evidentemente que esse pagamento, por si só, revela uma relação formal pública entre a empresa Odebrecht e a pessoa física do senhor.

Tacla Durán: Sim.

Pimenta: É atribuída ao senhor a propriedade de doze empresas. Essas empresas controladas, ou de propriedade do senhor, o senhor confirma a existência de todas essas empresas?

Tacla Durán: A existência sim, nem todas são de minha propriedade. Isso já foi, inclusive, esclarecido, porque a Odebrecht… Essas doze empresas foram declaradas pelo sr. Vinícius Borin.

Damous: Quem é o senhor Vinícius Borin?

Tacla Durán: Vinícius Borin foi um testa de ferro da Odebrecht como acionista do Meinl Bank Antígua. Ele declarou que havia doze empresas de minha propriedade. Na realidade, não são doze, são seis.

Damous: Quais são?

Tacla Durán: As minhas empresas são Vivosant Corporation, que não é offshore, é uma empresa espanhola, cuja tributação é inclusive mais cara que a do Brasil. A GVTEL, idem, é uma empresa espanhola, não é offshore, a Ocean, a Cumberland, a Bonarda, e a Nevada, e Discovery.

Damous: As demais não são suas.

Tacla Durán: Não são minhas. A Vivosant é uma empresa holding, está aqui o manual, as demais são subsidiárias delas. Estão declaradas tanto no imposto de renda pessoa física quanto da CBE (Capitais Brasileiros no Exterior) do Banco Central Brasileiro.

Pimenta: As demais empresas o senhor reconhece?

Tacla: Essas outras empresas são de pessoas ligadas ao Meinl Bank.

Pimenta: Nicolas James Baker?.

Tacla: Nicolas James Baker é genro do Thimoty Lee. Thimoty Lee é amigo do Luiz França, um dos acionistas do Meinl Bank, inglês. Thimoty foi, ou é, testa de ferro das empresas offshore da Odebrecht. O Thimoty é inclusive proprietário do domínio web do Meinl Bank Antígua.

Pimenta: Importante que a gente consiga obter mais informações do Meinl Bank Antígua. O Meinl Bank é um banco que já existia nas Antígua. Ele já prestava serviços para a Odebrecht antes da mudança de seu nome, do banco?

Tacla: Eu não tenho conhecimento para te falar isso com precisão porque, nessa ocasião, eu não trabalhava para a Odebrecht. Mas entendo que não. Essa relação começou a partir da aquisição do banco.

Pimenta: Como se deu esse processo de aquisição do banco?

Tacla: Eu soube, já trabalhando na defesa, que foi comprado pelo Luiz França, pelo Vinícius Borin Marco Bilinski, Olívio Rodrigues, e pelo Luiz Eduardo Soares e Fernando Migliaccio, esses dois já vinculados diretamente à Odebrecht e, então, eles não apareciam no quadro de acionistas do banco. E, ao meu ver, e eu fiquei sabendo, a Odebrecht sequer sabia que eles eram sócios desse banco.

Pimenta: Foi adquirido um banco em Antígua para operar internacionalmente para a Odebrecht e parte dos acionistas desse banco era de executivos da própria Odebrecht…

Tacla: Sim, correto. Na verdade, esse time, esses seis nomes que estamos falando, eles operam aí juntos há muitos anos. Antes do Meinl Bank, eles trabalhavam via Antígua Overseas Bank (AOB), que era o mesmo sistema. Esse banco teve um problema de liquidez e foi o que levou eles a adquirir um novo banco. Inclusive essa relação desses seis personagens veio de antes do AOB, prestando serviços para inúmeras empresas, bancos, para a Odebrecht. Uma relação de mais de dez anos aí. Eles são sócios. Eles são funcionários da Odebrecht os dois, os outros não, prestam serviço para a Odebrecht em razão dos dois, mas na verdade eles têm um negócios à parte, em sociedade.

 

EXTRATOS MONTADOS

Pimenta – Parte deles são delatores da Odebrecht?

Tacla: Os dois: Fernando Migliaccio e Luiz Eduardo Soares.

Pimenta: Os extratos apresentados pela Odebrecht na sustentação das delações, emitidos pelo Meinl Bank…

Tacla: Não, não foram emitidos pelo Menl Bank. Aqueles extratos não são do padrão do banco. Pelo menos os que eu vi. Aqueles a que eu tive acesso. Não são do padrão do sistema do banco. Tem incongruência do sistema de datas. Tem incongruências de referência, de descrição de movimento.

Pimenta: O senhor afirma que aqueles extratos apresentados pela Odebrecht e aceitos pelo Ministério Público na delação da Odebrecht…

Tacla: São montados.

Pimenta: Não são extratos do padrão do Meinl Bank?

Tacla: Não.

Damous: O que leva o senhor a afirmar isso?

Tacla: Porque eu tenho contas no Meinl. As minhas contas no Meinl foram declaradas. Eu tenho os  extratos verdadeiros, como o sistema emitia os extratos. Usei esses extratos em diversas situações legais porque minhas contas, ao contrário do que eles alegam, eram declaradas. E me estranha muito que eles tenham declarado que minhas contas são irregulares porque eles têm perfeito conhecimento de que o dinheiro chegava na minha conta no Meinl Bank Antígua via Banco Central do Brasil. Saía, debitava da minha conta no Banco Itaú, eu enviava o contrato de câmbio fechado com o Banco Itaú e ele sabia muito bem que a conta era de minha propriedade. Inclusive eu sempre documentei isso.

Damous: Perfeito. Em relação à sua conta, a seus extratos. Mas, em relação a terceiros, o senhor pôde verificar pelo padrão de emissão de extratos dos bancos que aquele que foi apresentado aos procuradores e os procuradores aceitaram como verdadeiros são planilhas de extratos falsos?

Tacla: Sim. Além dos extratos verdadeiros que são os da minha conta, tem outras incongruências, como movimentação na mesma data quando as pessoas já estavam presas e o sistema do banco travado. Ou seja, não era possível ter a movimentação.

Damous: O senhor pode apresentar algum caso concreto que o senhor pode constatar ao verificar esses documentos?

Tacla: Em um dos inquéritos que estão correndo no Supremo Tribunal Federal, um dos anexos apresenta um extrato que tem uma determinada data que tem saldo positivo. No mesmo anexo, juntado por um delator, no mesmo inquérito, o saldo está negativo. Com a mesma data. Ou seja.

Damous: Quem era o delatado?

Tacla: Os delatados eram o deputado Pedro Paulo, o ex-prefeito Eduardo Paes e, se não me engano, o senador Humberto Costa. Esse extrato só poderia ser verídico se houvesse movimentação nessa data, no mesmo dia, entre a emissão de um extrato e outro. Entretanto, essa movimentação é impossível. Primeiro porque as contas deveriam estar bloqueadas devido aos crimes, e de fato estão. Segundo porque o beneficiário das contas estava detido em Curitiba.Terceiro porque ninguém mais movimentava conta nesse banco porque o sistema estava totalmente travado. Então era impossível haver movimentação nessa data.

Damous – Nós poderíamos chegar à conclusão de que se trata de uma tentativa de comprometer essas pessoas?

Tacla Durán – Sim, como com relação a mim próprio.

Pimenta – Se fosse fornecida a documentação original do Meinl Bank, ficaria evidente que esses extratos são falsos?

Tacla Durán — Correto. Entretanto, o sistema do banco também foi fraudado para impossibilitar o tracking (rastreamento) do dinheiro.

Pimenta — Na medida em que sócios do banco são também executivos da Odebrecht.

Tacla Durán — Aí havia interesse duplo. Um dos interesses era atender a empresa. Qual o interesse da empresa? Cortar o tracking do dinheiro. O dinheiro, a origem era da Odebrecht e tinha saída para um determinado pack estrangeiro ou o que seja. Com a fraude que foi feita no sistema, é inviável, como é inviável se rastrear o dinheiro, do momento que entrou, por exemplo a Odebrechet, até a saída ilegal. Então não dá para saber que a saída ilegal que aconteceu tem como origem a Odebrecht. Esse tracking foi cortado. E outro interesse que aí existe, é interesse deles próprios, evidente que havia dinheiro nessas contas e ninguém vai lá reclamar. E eles tiveram oito meses entre a delação do Vinícius e a intervenção no banco para movimentar. E mesmo antes da delação, houve um tempo para a movimentação.

 

SUBORNO A AUTORIDADE DE ANTÍGUA

Pimenta – O suposto pagamento ao primeiro ministro de Antígua (Gaston Alphanso Browne) teria por objetivo também omitir informações a respeito da movimentação do Meinl Bank?

Tacla Durán — A idéia…

Pimenta — Aconteceu esse pagamento?

Tacla Durán — Sim, aconteceu. A ideia era brecar a resposta à cooperação jurídica formulada pelo Brasil.

Pimenta — A respeito da transação do Meinl Bank.

Tacla Durán — Correto.

 

NEM TODAS AS CONTAS FORAM REVELADAS PELA OPERAÇÃO LAVA JATO

Pimenta — No caso da suspeita de que em determinadas delações são obtidas informações a respeito de contas como uma estratégia de negociação, onde o delator recebe determinados benefícios, entre eles a proteção de contas, envolve também essa movimentação no Meinl Bank?

Tacla Durán—Tem contas no Meinl Bank que, por exemplo, eu não vi reveladas na delação do Vinícius. Isso a própria Polícia Federal já constatou.

Damous — Por exemplo?

Tacla Durán — Por exemplo, de uma pessoa que é vinculada ao presidente do Panamá (Michelle Lasso). Não foi vinculado ali.

 

LAVA JATO ESCONDEU CONTA DE JOÃO SANTANA NAS ILHAS CAYMAN

Pimenta — Mas, sobre as delações no Brasil, você já ouviu falar na conta Deltora Company?

Tacla Durán— Sim, mas Delatora é uma offshore (Deltora Entrerprise Group) que não tinha conta no Meinl Bank. Tinha conta em outro banco, nas Ilhas Cayman.

Pimenta — Chaobin (grafia pode estar incorreta) também operava em banco nas Ilhas Cayman?

Tacla Durán — Não, Chaobin era conta, se não me engano, na Suíça.

Damous — Deltora é vinculada a quem?

Tacla Durán — João Santana.

Damous — Publicidade João Santana, e a mulher,  Mônica Moura.

Tacla Durán — Sim.

Damous — E essa conta, Deltora, ela não aparece na delação da Mônica Moura e João Santana?

Tacla Durán — Não que eu tenha tomado conhecimento. Tudo que eu li, no que foi público, não vi nada mencionando.

Pimenta — E a conta Alpha Internacional Company, o senhor conhece?

Tacla Durán — Não, essa não.

Pimenta — E a Shellbill?

Tacla Durán — Shellbill faz parte de uma planilha que me pediram para fazer um estudo e buscar os beneficiários finais.

Pimenta — E, além da Shellbill, apareceu outra conta nesse estudo da planilha?

Tacla Durán — Sim. A Deltora e mais duas, uma pessoa física e outra pessoa jurídica.

Pimenta — Era João Santana…

Tacla Durán — Sim, essa conta era de contas vinculadas a pessoa de João Santana.

Pimenta — Essa planilha envolveu quatro contas.

Tacla Durán — Quatro contas.

Pimenta — E na delação aparece só a Shellbill.

Tacla Durán — Até hoje eu só vi a Shellbill.

 

ODEBRECHT PEDIU A TACLA DURÁN PARA RASTREAR CONTAS: QUERIA PRESSIONAR DILMA ROUSSEFF

Pimenta — As outras duas contas não apareceram?

Tacla Durán — Não.

Pimenta — Mas, nessa planilha que o senhor elaborou, elas aparecem.

Tacla Durán — Não, não fui eu que elaborei. Foi alguém do Departamento de Operações Estruturadas, uma das moças lá, eu não me lembro, acho que a Ângela, não me lembro, eu tenho o arquivo com o original.

Pimenta — O senhor tem  arquivo original dessa planilha.

Tacla Durán —Sim, tenho.

Pimenta — Onde aparecem as outras quatro contas.

Tacla Durán — Sim. Quando eu não consegui localizar o beneficiário final das contas e relatei isso ao Hilberto, ele ficou muito chateado, porque, aí sim, ele me colocou que era o pagamento ao João Santana, que era muito importante a gente conseguir isso, porque a ideia da Odebrecht era pressionar a presidente Dilma, através dessa informação, a paralisar as investigações ou coisas nesse sentido.

Pimenta — A Odebrecht, de posse das informações de pagamentos a João Santana, usava essas informações para pressionar lideranças de outros países e foi também usada contra a presidenta Dilma? Chegou a ser utilizado?

Tacla Durán — Creio que não, porque o Hilberto ficou muito chateado porque eu não consegui ter sucesso naquele estudo.

Pimenta — O Hilberto que o senhor fala é?

Tacla Durán — Hilberto Silva.

Pimenta— O Hilberto Silva foi identificado como responsável pelo sistema Drousys.

Tacla Durán — Não, não. O Hilberto era o responsável pelo departamento.

Pimenta —De Operações Estruturadas.

Tacla Durán —Sim, sim.

Pimenta — Ficava na Bahia.

Tacla Durán — Ficava em São Paulo porque eu alugava o apartamento a ele.

 

O QUE FAZIA O DEPARTAMENTO DE OPERAÇÕES ESTRUTURADAS

Damous – Esse Departamento de Operações Estruturadas era de fato destinado ao pagamento de propinas?

Tacla Durán — Quando eu cheguei, já estava criado. Mas havia situações de pagamento também que não se trata de propina, situações estratégicas em que a empresa tinha que fazer pagamentos, em que a pessoa não queria aparecer, por uma questão fiscal. Eram coisas normais de uma empresa. Eu, por exemplo, comecei a trabalhar lá, eu não podia detectar que aquilo era voltado para esse tipo de prática ilícita, até porque, se havia esse tipo de prática ilícita, isso não era disseminado, falado com qualquer pessoa recém chegada. Eu trabalhei cinco anos com pessoas que tinham 30, 35 anos de casa. Claro que, a partir de determinado tempo, você tinha confiança, etc. Agora eu, em dois três anos, dizer que sabia de coisas. Não, o que eu via uma série de operações, procedimentos fiscais, que eram normais do dia a dia de uma empresa.

Pimenta — O Hilberto não era o responsável pelo Drousys?

Tacla Durán — Não. O Drousys, quem era o responsável era o irmão do Luiz Eduardo.

Damous — Explica para nós o que é o Drousys.

Tacla Durán — Drousys é o sistema de comunicação. São desk tops virtuais que criavam o login e senha, e você se comunicava.

Pimenta — Uma rede interna.

Tacla Durán — É, uma rede interna. Só que essa rede interna era controlada pelo Luiz Eduardo.

Pimenta — O Luiz Eduardo ficava no Departamento de Operações Estruturadas.

Tacla Durán – É. Uma pessoa só poderia falar com a outra e esta autorizasse.

Pimenta — Ele era da equipe do Hilberto.

Tacla Durán — É.

Damous – Mas o Drousys foi concebido com que objetivo?

Tacla Durán — A de comunicação segura.

Pimenta — Só para a gente entender aqui. O Luiz Eduardo fazia parte do Departamento de Operações Estruturadas, do Hilberto, mas ele era também sócio do banco em Antígua.

Tacla Durán — Sim, correto.

Pimenta — O Fernando era diretor de que setor da Odebrecht.

Tacla Durán — O Luiz Fernando era diretor, tesouraria.

Pimenta — Tesouraria.

Tacla Durán — Ele sempre trabalhou na área de tesouraria, ele estava na área de Operações Estruturadas e…

Pimenta — Os dois faziam operações em nome da Odebrecht no Meinl Bank sem que a Odebrecht soubesse que eles eram também sócios do banco.

Tacla Durán — Que a Odebrecht sabia que eles não eram sócios do banco, certeza. Que eles faziam operações que a Odebrecht sabia, não…

Pimenta — A Odebrecht não sabia que eles eram sócios.

Tacla Durán — Não, a Odebrecht não sabia que eles eram sócios. E eles faziam operações que a Odebrecht sabia e operações que a Odebrecht não sabia. Como eu falei, são sócios. Eles são tão sócios que o imóvel onde o banco se situava em São Paulo é de propriedade dos quatro acionistas banco, e do Fernando e do Luiz Eduardo. O imóvel é de propriedade dos seis.

 

EXECUTIVOS DESVIARAM DINHEIRO DA ODEBRECHT COM PROPINA SIMULADA

Damous – Salvo engano meu, o senhor teria declarado nas entrevistas à imprensa que algumas operações de entrega de dinheiro — para políticos ou seja lá para quem for, legais ou ilegais —, o dinheiro não chegava ao destinatário, eram embolsados por aqueles que deveriam entregar o dinheiro.

Tacla Durán — Sim, sim.

Pimenta — Eles lançavam no sistema como se fosse propina.

Tacla Durán — Sim. Havia entrega simulada de dinheiro por pessoas que roubavam dinheiro.

Damous — O senhor tem exemplos?

Tacla Durán — Dinheiro físico? Dinheiro em espécie?

Damous — Uma operação de dinheiro que seria destinado a políticos.

Pimenta — Consta no Drousys uma operação de pagamento para alguém, mas, na verdade, isso era uma simulação para que o próprio executivo ficasse com o dinheiro.

Tacla Durán — Veja bem, eu não posso assim… Um caso que chamou a atenção é que foi solicitada a entrega de… Houve uma discussão muito grande em relação a Leandro Azevedo.

Damos — Quem é Leandro Azevedo?

Tacla Durán — Leandro Azevedo era um diretor da Odebrecht responsável pelo Rio de Janeiro. Falar a verdade, eu não sei exatamente a função dele. Ele trabalhava no Rio de Janeiro e era responsável por esse tipo de serviço, obra, etc. Que aconteceu ali é que eu presenciei uma discussão o Álvaro Novis (diretor da empresa), o Luiz Eduardo e o Fernando Migliaccio, num almoço, que o Álvaro reclamou que o pedido de entrega, que ele teve que entregar recursos dentro do escritório da Odebrecht na mão do Leandro Azevedo, e que, eu não sei qual o valor, nada, eu vi a discussão. Não era um assunto meu e eles não foram tão transparentes, justamente por eu estar na mesa do almoço. Ficou claro que eles ficaram muito aborrecidos e transpareceu é que esse dinheiro foi para lá e ficou com uma pessoa, que não foi, e eles acharam que estava acontecendo algum tipo de desvio.

 

A CONTABILIDADE PARALELA DA ODEBRECHT

Pimenta — Uma última pergunta sobre esse mesmo assunto. O sistema My Web Day é um sistema que até agora não apareceu de maneira integral. Ocorreram várias solicitações de acesso a esse sistema e, nesse sistema, estão registradas todas as movimentações contábeis legais e ilegais da Odebrecht no mundo inteiro. O senhor tem ciência da existência desse sistema, e como é que ele funcionava.

Tacla Durán — Sim. Quando eu estava trabalhando na triagem de informações, na defesa da empresa, porque muitas informações, antes de ser passada aos advogados constituídos, internamente a gente fazia uma triagem — alguns advogados da empresa, no caso eu, dr. Gideon, dr. Marcos Simões e outros advogados, e os próprios funcionários, diretores. Nesse trabalho, eu não conhecia o sistema My Web Day, nesse trabalho que eu estava fazendo, aí me informaram que havia esse sistema e que esse sistema se tratava da contabilidade, era um sistema de contabilidade da empresa. Ficava também em servidores seguros. Na ocasião em que me contaram, me disseram que já estava desativado. Isso foi em 2015. Em 2015, ele já estaria desativado.

Pimenta — O My Web Day ficava hospedado onde?

Tacla Durán — No exterior também.

Pimenta — Sabe onde?

Tacla Durán — Que eu saiba, na Suíça.

Pimenta — E o Drousys?

Tacla Durán — Também.

Pimenta — Essas planilhas que têm sido apresentadas extraídas do My Web Day, o senhor acha que, sem o acesso ao sistema original, é possível afirmar que elas sejam verdadeiras, a exemplo do que foi feito com os extratos de Antígua?

Tacla Durán — Sem acessar o sistema, afirmar que é verdadeiro é tecnicamente impossível. Acho que nenhum perito faria isso.

Pimenta — E esse sistema, na sua opinião, hoje ele já não existe mais?

Tacla Durán — Quando eu soube, ele já era desativado, e eles não demonstraram tanta preocupação. Acho que não havia risco.

Damous — Ele pode servir de prova contra ou a favor de alguém?

Pimenta — Não quer dizer que algo que esteja dentro do sistema seja verdadeiro também.

Tacla Durán — Como eu disse, havia coisas que podem ter sido simuladas, sob o próprio interesse de algum dos diretores. É como um sistema normal, você gera uma despesa, e a despesa pode existir ou não. Nesse caso aqui, é uma despesa que não tinha suporte de documento, nota fiscal, nada.

Pimenta — Tanto o Drousys como o My Web Day eram alimentados por executivos da empresa.

Tacla Durán — O My Web Day 100% certeza, seguro.

Pimenta — Que lançavam a contabilidade da empresa, oficial e paralela.

Tacla Durán —E executivo de alto nivel.

Pimenta — Informações não obrigatoriamente verdadeiras, na medida em que estão surgindo informações de que executivos desviavam dinheiro.

Tacla Durán — Sim, com certeza há inconsistências. Seguro. Há inconsistências. Não é 100% verídico. Isso sem nenhum tipo de fraude no sistema. Havia inconsistência por lançamento individual.

Pimenta — Deve ter também operações registradas para além das relações da política. O mundo jurídico, grupos de comunicação.

Tacla Durán — É um sistema de contabilidade. Então ali consta, acredito, tudo. No My Web Day.

O Drousys é um sistema de comunicação.

Damous — Uma espécie de whatsapp.

Tacla Durán — Tinha o chat, tinha e-mail.

Observação: O juiz Sergio Moro negou todos os pedidos da defesa do ex-presidente Lula para ter acesso a esse sistema de contabilidade paralela da Odebrecht.

 

COMO ZUCOLOTTO, O AMIGO DO JUIZ MORO, ENTROU NA HISTÓRIA

Damous — Eu gostaria mais de saber sobre sua situação jurídica.  O senhor foi delatado.

Tacla Durán — Fui.

Damous — O senhor estava sendo investigado.

Tacla Durán — Por três anos.

Damous — E preocupado, como qualquer pessoa ficaria, resolveu contratar — e o senhor estava sendo investigado pela Operação Lava Jato — advogado em Curitiba, onde é a sede da Operação, e o senhor escolheu o escritório Zucolotto para…

Tacla Durán — Não, foi um um pouco diferente. Eu tomei conhecimento de que havia sido delatado pela UTC, pelo senhor Ricardo Pessoa e pelo diretor da UTC, Valmir Pinheiro. Tomei conhecimento disso por outros advogados que também trabalhavam para a UTC. E, com a desculpa de que queriam me ajudar com a indicação de advogados, talvez os mesmos advogados, poderia até ser. Até com as mesmas referências “a panela de Curitiba”, advogados da panela de Curitiba.

Damous – O que o senhor chama de panela de Curitiba?

Tacla Durán — Eles me disseram que eram advogados que tinham capacidade de resolver o assunto melhor, por estarem ali, por conhecerem o mecanismo, as pessoas. Uma proximidade de contato. Eu optei por não contratar ninguém que eles haviam indicado, continuei com meu advogado — na verdade, constituído na frente das negociações que eu travei com o Ministério Público, que foi o Leonardo Pantaleão —, tentei prestar meus esclarecimentos, ter as minhas prerrogativas de advogado respeitadas. Não tive. Vi algumas dificuldades. E o escritório do dr. Zucolotto era meu correspondente.

Damous — Que dificuldades?

Tacla Durán — Eles queriam me imputar crimes que eu não pratiquei.

Damous — Eles quem?

Tacla Durán — Os procuradores.

Damous — Os procuradores.

Tacla Durán – Me imputar crimes que eu não cometi, converter o trabalho de advogado. Eles queriam criminalizar o trabalho do advogado. Não é porque você tem uma informação que você está protegendo seu cliente ou você está orientando seu cliente, na prática, se ele praticou ou não crime, não é o caso de você ser criminoso. Não é porque você recebeu de um cliente que você está lavando dinheiro. Eles falam que eu saquei 61 milhões em uma entrevista coletiva e, ao mesmo tempo, um informe da Receita Federal mostra que em dez anos eu saquei 435 mil.

Pimenta — Quais eram os procuradores com quem o senhor conversava?

Tacla Durán — Roberson Pozzobon, Júlio Noronha, Carlos Fernando dos Santos Lima, Diogo Castor de Mattos, Deltan Dallagnol, Sérgio Bruno, Athayde (Athayde Ribeiro Costa) e Marcelo Miller.

Observação: Carlos Zucolotto é padrinho de casamento de Sergio e Rosângela Moro.

 

PROCURADORES AMEAÇAVAM ENVOLVER A FAMÍLIA PARA FORÇAR DELAÇÃO

Damous — O senhor se sentia constrangido nestas tratativas, nesses interrogatórios?

Tacla Durán — Com certeza. Eu sou advogado, Advogado há mais de vinte ano anos e a gente tem um pouco de experiência com essa situação. Para nós advogados chegar ao ponto de se constranger, eu imagino quem não é operador do direito. Constranger no sentido de quererem trazer para dentro da investigação familiares que não tem nada a ver com isso.

Damous — Houve essa ameaça?

Tacla Durán — Sim.

Damous — De quererem trazer algum familiar seu?

Tacla Durán — Sim. Simplesmente por ser sócia no escritório de advocacia.

Damous — Quem é?

Tacla Durán — A minha irmã.

Damous — Sua irmã é advogada também?

Tacla Durán — Sócia no meu escritório, ela (Flávia Tacla Durán) nunca trabalhou para empreiteira nenhuma. Até porque ela trabalha em outra área. Ela faz direito de família, direito civil, trabalhista. Não trabalha na área de empreiteira. E eles colocavam: “é melhor fazer, é melhor por para dentro do acordo, que te protege.” Na verdade, é aquela coisa: diz que está ajudando, mas na verdade está te colocando…

Observação: Pela lei, as delações devem ser espontâneas, voluntárias.

 

TACLA DURÁN FOTOGRAFOU AS MENSAGENS TROCADAS COM ZUCOLOTTO, DA PANELA DE CURITIBA

Damous — Mas, na verdade, essas ameaças objetivavam o quê? O que eles queriam do senhor?

Tacla Durán — Que eu celebrasse o acordo. Foram feitas as reuniões, eu acabei procurando o Zucolotto para tentar ajudar nessa questão .

Damous – É isso que eu quero saber: por que o escritório do Zucolotto?

Tacla Durán — Porque ele já era meu correspondente em Curitiba há tempos. Então é natural que eu procurasse uma pessoa de Curitiba, da comarca, que evidentemente teria mais acesso. E aí nós estamos falando o que não acesso ilegal, nada. Ali é uma negociação, é o direito penal negociado.

Pimenta — O Zucolotto não é advogado trabalhista?

Tacla Durán — Eu nunca fiz direito penal.

Pimenta — O senhor procurou o Zucolotto pela sua capacidade jurídica?

Tacla Durán — Ele fazia não só. Ele fazia execução fiscal, cuidava de execuções fiscais, cuidava de assuntos trabalhistas, na questão como correspondente. Essa questão, eu coloquei que era uma questão pessoal/penal, perguntei se ele podia ajudar.

Damous – O senhor sabia que a esposa do juiz Sergio Moro era sócia do escritório do dr. Zucolotto?

Tacla Durán — Sim, soube depois.

Damous – Depois ou?

Tacla Durán — Sim, depois que eu contratei ele. Antes disso aí. Antes de contratar, eu sabia.

Damous – Não, se o senhor sabia que a esposa do juiz era sócia do Zucolotto.

Tacla Durán — Sim, antes de contratar para ajudar na negociação, eu sabia.

Pimenta — O senhor acredita que um escritório de advocacia possa ajudar no processo de acordo de delação? Que tipo de relação é essa que o senhor esperava que ele pudesse ajudar?

Tacla Durán — Eu me pautei um pouco no que o pessoal da UTC havia comentado e falado: olha, a gente te arruma advogado, o pessoal da panela de Curitiba,

Damous – O Zucolotto faria parte da panela de Curitiba?

Tacla Durán — Eu não queria um advogado vinculado à UTC, eu queria um advogado meu. Então, eu não aceitei. Mas aquela questão de que advogado de Curitiba poderia resolver e, como por experiência própria eles já tinham feito o acordo do Ricardo e da própria companhia, eu acreditei que aquilo tinha algum fundamento. E como eu tinha um correspondente em Curitiba, não para assunto penal, mas para outros, eu liguei para perguntar: se ele não fosse, quem poderia indicar para tratar desse assunto para mim.  E ele se prontificou a tentar aconselhar e resolver.

Damous — As tratativas com o dr. Zucolotto se deram como? Pessoalmente?

Tacla Durán — Não, eu já estava nos Estados Unidos, viajando, eu talvez até estivesse por alguns dias no Brasil. Eu estava viajando bastante porque eu também já estava tratando da colaboração com os Estados Unidos.

Damous – Como é que se deram essas tratativas?

Tacla Durán — Pelo Wickr, pelo aplicativo Wickr..

Damous – Wickr é o que criptografa.

Tacla Durán — Criptografa e apaga as mensagens automaticamente nos dois dispositivos.

Damous — O senhor se apresentou a ele e disse que precisava dos serviços.

Tacla Durán— Me apresentei não, ele já sabia que eu era correspondente.

Damous — Qual era a solicitação — quero contratá-lo para…

Tacla Durán — Eu não liguei para contratá-lo. Eu liguei e disse: olha, eu estou com um problema pessoal, ai em Curitiba, a Lava Jato, eu não sei se você tem como ajudar, trabalhar nisso, ou indicar alguém. Aí ele disse que a ia ver como estava o caso.

Damous — Ele fixou honorários?

Tacla Durán — Depois de algum tempo. A priori, não. Ele ia levantar como estava o caso.

Pimenta — Estas tratativas que o senhor teve com ele, o senhor pode comprovar que elas realmente existiram?

Tacla Durán — Eu tenho as mensagens, eu fotografei as mensagens.

Damous — Qual é o conteúdo dessas tratativas?

Tacla Durán — Eu pedi a ele, ele disse que ia verificar se havia possibilidade. Não falamos em honorários.

Damous — Verificar o quê?

Tacla Durán — Verificar se havia a possibilidade de fazer o acordo.

Damous — Como é que ele ia fazer isso?

Tacla Durán — Conversando com os contatos dele. Entendi que era o pessoal da Procuradoria. Um tratativa de uma negociação normal.

Observação: Essa panela, no que diz respeito aos advogados, já se formou também no caso da Máfia das Falências, revelada nesta série de reportagens. Segundo o ex-deputado Fábio de Souza Camargo, atual conselheiro do Tribunal de Contados do Estado, a Máfia dirige a administração de massas falidas para um restrito grupo de advogados. Marlus Arns e Rosângela Moro já atuaram nesse grupo.

 

ZUCOLOTTO É ADVOGADO DO PROCURADOR CARLOS FERNANDO

Damous — Ele tem um cliente procurador, não tem?

Tacla Durán  — Eu não sabia, eu soube pela Folha de S. Paulo, Dr. Carlos Fernando.

Damous — É cliente dele?

Tacla Durán — Eu soube pela Folha. Carlos Fernando dos Santos Lima. Então conversamos sobre isso, ele ficou de verificar. Aí ele verificou, deu o retorno e falou que havia a possibilidade de reduzir a multa que estavam propondo. E que, então, pagaria um terço da multa. No acordo. E pagaria outro terço como honorários para ele. A partir daí a gente faria a minuta, essas coisas.

Damous — Formalizaria um contrato de prestação de serviços e honorários?

Tacla Durán — Não, isso não. A princípio, deixou claro que não. Eu também não avancei nessa conversa porque, primeiro, eu não fiquei satisfeito com o que estava sendo proposto. Não em questão de valores, mas em questões pessoais, porque eu continuava tendo minha atividade penalizada, de advogado, continuava sendo acusado de coisas que eu não havia cometido. E isso, por princípio, eu não aceitava. Como eu não aceitava essa questão pessoal, eu não me preocupei na questão financeira.

Damous — Esse terço que seria pago como honorário dele, como é que isso seria feito? Ele pediu para formalizar?

Tacla Durán — Não. Informal. Ele, a princípio, pediu informal.

Damous — Informal como? Por fora?

Tacla Durán — Por fora.

Pimenta — Que valor seria isso?

Tacla Durán — Cinco milhões de dólares.

Damous — E esses 5 milhões de dólares seriam para quê? Para ele? Para viabilizar o acordo?

Tacla Durán — Exato. Como motivo de horários .

Damous – Exato. Mas ele precisaria para ele?

Tacla Durán — Foi a forma como ele colocou. Se ele iria usar de outra forma, não sei.

Pimenta — O senhor poderia nos disponibilizar cópia desse diálogo que o senhor teve com o dr. Zucolotto.

Tacla Durán — Sim, eu já submeti à perícia, aqui no exterior.

Damous — Está sendo periciado.

Tacla Durán — Sim, está sendo periciado.

Pimenta — E essas tratativas, feitas no sentido de melhorá-las, foram feitas com qual procurador?

Tacla Durán — Com quem ele falou? Para falar a verdade, ele não nominou. O email foi enviado pelos procuradores Roberson Pozzobon, Carlos Fernando Santos Lima e Júlio Noronha.

Pimenta — Foram eles que encaminharam para o senhor?

Tacla Durán — Enviaram. Enviaram numa sexta-feira e exigiram que eu fosse assinar na segunda.

Pimenta — Foi antes ou depois da conversa com o Zucolotto?

Tacla Durán — Depois.

Zucolotto — Essa minuta é fruto do trabalho do Zucolotto?

Tacla Durán — Sim.

Damous — Numa dado momento, o dr. Zucolotto disse que traria o procurador para a negociação?

Tacla Durán — É.

Damous — Isso está nas mensagens?

Tacla Durán — Isso está nas mensagens.

 

Observação: No livro “Testimonio”, que está escrevendo, Tacla Durán disse muito mais do que isso.Veja um trecho: “Carlos Zucolotto então iniciou uma negociação paralela entrando por um caminho que jamais imaginei que seguiria e que não apenas colocou o juiz Sergio Moro na incômoda situação de ficar impedido de julgar e deliberar sobre o meu caso, como também expôs os procuradores da força-tarefa de Curitiba.”

Em outro trecho, ele escreveu: “Ao se prontificar a me ajudar, Zucolotto explicou que a condição era não aparecer na linha de frente. Revelou ter bons contatos na força-tarefa e poderia trabalhar nos bastidores”.

Na troca de mensagens com Zucolotto, relevada pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o amigo de Moro teria escrito:

“E você paga mais um terço de honorários para poder resolver isso, me entende? Mas por fora porque tenho de resolver o pessoal que vai ajudar nisso.”

Os deputados poderiam (e deveriam) ter aprofundando mais esse ponto. Haverá uma nova oportunidade, caso a CPI aprove o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.

 

E-MAIL E MENSAGENS DESMENTEM O JUIZ SERGIO MORO

Damous — O juiz Sérgio Moro afirmou, peremptoriamente, quando essas informações foram divulgadas, se não me engano pelo jornal Folha de S. Paulo, o juiz Sérgio Moro veio em defesa do dr. Zucolotto, dizendo que ele atua na área trabalhista, não atua na área criminal. Disse peremptoriamente. O que o senhor tem a comentar a esse respeito?

Tacla Durán — Olha, o site do escritório do dr. Zucolotto tem no portfólio que ele atua, sim, na área criminal.

Damous — E mais. Disse mais o juiz Sergio Moro — eu estou abrindo aspas aqui. O relato de que esse  advogado em questão, Zucolotto, teria tratado com o réu foragido, Rodrigo Tacla Durán, é absolutamente falso. Ou seja, esse documento que o senhor tem, da troca de e-mails e a conversa registrada com o dr. Zucolotto, desmentem o juiz Sergio Moro.

Tacla Durán — Não, eu não troquei e-mails com o dr. Zucolotto sobre esse assunto. Sobre esse assunto, eu troquei mensagens no Wickr. Há e-mails trocados do meu escritório com o dr. Zucolotto de anos, em razão do trabalho que ele prestava para meu escritório como correspondente.

Damous — Eu me refiro ao e-mail dos procuradores.

Tacla Durán — O e-mail dos procuradores é absolutamente verdadeiro, é da rede do MPF.

Pimenta — Está assinado?

Tacla Durán — Sim, com cópia a três procuradores. Com cópia. Copiados três procuradores e copiado meu advogado. Meu advogado me encaminhou.

Pimenta — Isso é importante. Depois da troca de mensagens com o Zucolotto.

Tacla Durán — Sim.

Pimenta — Se o senhor tivesse aceito, teria também subentendido que o senhor teria aceito também os temos propostos pelo Zucolotto.

Tacla Durán —Sim. Foi depois. Eles encaminharam o e-mail para meu advogado e meu advogado me encaminhou o e-mail. Nesse e-mail constavam três procuradores, são os três que eu falei e o meu advogado.

Pimenta — O senhor não aceitou?

Tacla Durán — Não aceitei.

Pimenta — Por quê? Porque continuava ainda penalizando minha atividade.

Tacla Durán — Pois é. Continuava penalizando. Eles não consideravam que meu patrimônio — uma das coisas que eles mencionavam como se nele houvesse irregularidade — é e era de fato declarado. Falava que eu sacava dinheiro. Minhas contas não têm saque. Que eu recebia de cliente, sacava e devolvia para o cliente. Isso não aconteceu.

Observação: O comportamento de Moro, diante da revelação da Folha de S. Paulo, de fazer a defesa do advogado é suspeitíssimo. E esta não é a única fragilidade. Zucolotto aparece como advogado do juiz — não só amigo —, em uma ação criminal contra o advogado Roberto Bertholdo, que acusou o juiz de favorecer Alberto Youssef, no primeiro acordo de colaboração dele, em 2004. Pela acusação, Bertholdo foi condenado por injúria e difamação. Ele queria provar que o que disse era verdade, mas a Justiça não abriu o processo para a possibilidade de exceção da verdade.  A outra advogada da ação era Rosângela Moro, esposa de Sérgio Moro, o que desmente a informações do juiz de que ambos só compartilhavam o escritório, sem compartilhamento de honorários.

 

PROVAS OFERECIDAS POR TACLA DURÁN DESMONTAVAM VERSÃO DO MPF E, POR ISSO, FORAM RECUSADAS

Damous — O senhor tem conhecimento de que o procurador Pozzobon ameaçou com nova prisão o executivo da UTC, Ricardo Pessoa, para que ele fosse obrigado a dizer que seus trabalhos eram ilícitos?

Tacla Durán — Sim, foi o que me foi falado.

Damous — Por quem?

Tacla Durán — Pelo advogado Ivan Carratu.

Damous — O Dr. Ivan Carratu quem é?

Tacla Durán — É advogado da UTC. Aí depois eu vim a saber que, de fato, isso se confirmou, porque, nessa ocasião em que ele me contou, isso aí estava sob sigilo. Entretanto, quando foi pedida a minha prisão, eu tive acesso, aqui na Espanha, a cópia, a parte dos autos. Pelo menos é o que chegou aqui na Espanha. Aí, nesses autos, consta também uma complementação de delação premiada, com declarações do Ricardo Pessoa e do senhor Valmir Pinheiro. Essas declarações foram feitas no endereço do escritório da própria UTC, sem a presença de qualquer autoridade policial ou do Ministério Público. Subentende-se que estavam sentados na mesma mesa, sem qualquer autoridade, os dois delatores e seus respectivos advogados. E, diga-se de passagem, uma advogada deles também é advogada da Odebrecht.

Damous — Qual é o nome?

Tacla Durán — Dra. Carla Domênico. Eles dizem, basicamente, que o que eles me pagaram eu devolvi a eles em dinheiro. Como? Perguntados pelos advogados, deles próprios, eles disseram que eu ia regularmente, a cada determinado tempo, à garagem do prédio da UTC. Isso é mentira. Eu nunca estive no prédio da UTC, gostaria até de ter a oportunidade porque, até hoje, não tem inquérito policial, não tem investigação, gostaria de oferecer meus telefones para que fossem verificados que eu nunca estive nessa região, da UTC. E nessa situação da questão da UTC e, perguntados pelos advogados: o senhor tem algum registro da presença dele na garagem? Não, não há. Tem algum vídeo? Não, não tem. Outras perguntas que eles fazem lá — ao senhor Valmir —: o senhor sabe como o Rodrigo transformava ou convertia o dinheiro em espécie? Ele disse que não sabe nem nunca teve interesse em saber. E juntam documentos. E quais são os documentos? Os meus recibos da sociedade de advogados, que tiveram impostos retidos. Documentos que não são nenhum plus, não são nenhuma prova que o Ministério Público não tivesse. Por exemplo, me chama muito a atenção que são documentos muito menos valiosos, muito menos importantes, que eu propus ao Ministério Público entregar, quando tentaram fazer o meu acordo. Entretanto, eram documentos que desconstituíam essa versão que o Ministério Público criou em muitos aspectos. Então eu senti, nesse momento, e hoje vendo o que a UTC fez comigo, e aceito, eu vejo que parte do meu problema — que o meu acordo não foi aceito — é que eu descontituía uma versão que já vinha sendo criada. Então, em vez de eu somar, de eu construir uma versão de acusação, eu estava atrapalhando.

Damous — Com base nessa afirmação de agora, pela sua própria experiência nessas tratativas, nesse interrogatório, e aquilo que o senhor ouve ou possa ter ouvido de outras pessoas na mesma situação, o senhor acha que há um padrão, nessas tentativas de obtenção de delação, um padrão de selecionar aquilo que interessa, de selecionar aquilo que não interessa, do ponto de vista da verdade que a operação quer construir?

Tacla Durán — Sem dúvida. No meu caso, como eu trabalhei muito com a Odebrecht no exterior, eu tinha uma situação de ter mais informação do exterior, isso também nunca foi do interesse deles. O interesse deles é voltado ao Brasil, e principalmente voltado a políticos.

Damous — O advogado Vicente Paula Santos, o senhor conhece, já teve alguma relação profissional com ele?

Tacla Durán — Não, não tive. Mas ouvi falar agora, recente, que ele foi sócio do Zucolotto ou tem escritório no mesmo endereço. Ou defende ou defendeu o procurador Carlos Fernando.

Observação: O depoimento de Tacla Durán, nesse ponto, confirma que a Lava Jato arma situações para produzir resultados pré-definidos. No processo que envolve Lula, também existem graves acusações de uso de documentos falsos. Sergio Moro até hoje não autorizou perícia em e-mail que a defesa de Lula diz serem apócrifos.

 

MARCELO MILLER QUERIA QUE TACLA DURÁN GRAVASSE REUNIÃO DE ADVOGADOS NA ODEBRECHT

Pimenta —  O senhor teve algum contato com o procurador Marcelo Miller?

Tacla Durán — Sim, ele esteve presente em uma reunião em Curitiba, nas negociações.

Pimenta — O dr. Marcelo Miller era da equipe de Curitiba?

Tacla Durán — Não. Ele era de Brasília.

Pimenta — Mas participava da conversa com o senhor?

Tacla Durán — Participavam de Brasília o dr. Marcelo Miller e o dr. Sérgio Bruno. Eles participaram a partir da segunda ou terceira reunião que eu tive, não me lembro bem, mas a partir de um momento eles participaram sim. Eles tinham interesse de saber se eu tinha alguma informação ou situação que pudesse envolver pessoas de fórum privilegiado.

Pimenta — Marcelo Miller, no caso…

Tacla Durán — Foi a justificativa que me deram para que eles estivessem presentes na reunião.

Pimenta — O Marcelo Miller, o senhor se recorda de alguma situação especial dele, nos depoimentos que foram prestados ou nas conversas?

Tacla Durán — Sim. Como eu comentei que havia iniciado uma negociação, eu procurei ser, primeiro, mais leal e mais franco possível. Nesse meio, entre uma reunião e outra com a procuradoria, eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht, com o advogado na Odebrecht, e para que não houvesse nenhuma dúvida do meu espírito leal de que eu queria colaborar, etc., de prestar esclarecimento e resolver a situação, eu comentei a eles que eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht. Eu não queria deixar que eles soubessem de outra forma e parecer que eu estava enganando. Então eu comuniquei. Quando comuniquei, eles, o Marcelo Miller e o doutor Sérgio Bruno, eles deixaram claro que tinham interesse em saber o teor ou o conteúdo dessa reunião.

Damous — Eles queriam que o senhor gravasse a reunião?

Tacla Durán — Sim, o Marcelo Miller.

Pimenta — Falaram formalmente par gravar.

Tacla Durán — Sim, o Marcelo Miller falou para gravar.

Damous — A reunião com os advogados.

Tacla Durán — Sim, daí eu falei: é reunião de advogados, doutor.

Damous – Nisso, o doutor Sérgio Bruno foi um pouco contra. Ele se mostrou contrário ao que vinha sendo proposto. Ele disse: você vai lá e conta para nós depois.

Pimenta — Mas ele chegou a pedir que o senhor gravasse a reunião com os advogados.

Tacla Durán — O Miller sim.

 

OBSERVAÇÃO: A declaração de Tacla Durán reforça a suspeita de que Marcelo Miller orientou o dono da JBS, Joesley Batista, a gravar Michel Temer e Aécio Neves. Esse tipo de orientação enfraquece o valor da prova, já que pode ser considerado como atitude não espontânea, flagrante armado com auxílio de autoridades.

 

PROCURADOR IRMÃO DE ADVOGADO QUE RECEBE PARA ORIENTAR DELAÇÃO DISSE NO TELEFONE: “ELE VEM CONTAR HISTORINHA OU CONFESSAR CRIME?”

Pimenta — Quem é o senhor Orlando Martello? Procurador também?

Tacla Durán — Acho que ele é um dos procuradores.

Pimenta — Mas o senhor nunca teve contato com eles.

Tacla Durán — Nunca.

Pimenta – O senhor Diogo Castor.

Tacla Durán — Diogo Castor de Mattos, ele foi o procurador que atendeu o primeiro telefonema do meu advogado, o dr. Leonardo Pantaleão, ele atendeu o telefonema e foi com ele que o Leonardo marcou a primeira reunião. Ele inclusive falou para meu advogado: o seu cliente vem aqui contar historinha ou vem aqui confessar crime? Porque, se vir aqui contar historinha, não precisa nem vir.

Pimenta — Diogo Castro e Rodrigo Castro?

Tacla Durán — Me parece que é irmão dele. É advogado. Não conheço o Rodrigo. Eu sei que ele advogou aí para algumas pessoas.

Pimenta — Nas delações?

Tacla Durán — Sim, nas delações. Advogado do Carlos Alberto Pereira da Costa, se não me engano.

Pimenta — João Santana?

Tacla Durán — Eu li notícias que sim.

 

Observação: Há outros advogados especializados em delação premiadas que têm relações próximas com o Ministério Público Federal de Curitiba e o juiz Sergio Moro. Marlus Arns é um deles, que já advogou com Rosângela Moro, na defesa de uma massa falida no Paraná, administrada por uma família acusada de chefiar a Máfia das Falências. Marlus e Rosângela também são ligados à Federação das APAEs, de Curitiba. Como diretora jurídica da Federação, Rosângela encaminhava a Marlus as ações das diversas APAEs do estado.

 

PROFISSIONAIS QUE ORIENTAM DELAÇÃO AGEM COMO ADVOGADOS DE PORTA DE CADEIA

Damous — Me diz uma coisa: o senhor está escrevendo um livro?

Tacla Durán — Sim.

Damous — A respeito do quê?

Tacla Durán — É um livro contando um pouco de todos os acontecimentos, de tudo o que eu passei, preso também. Antes de ser preso. Estas tentativas de acordo, como foram os meus contatos com diversos países sobre os acontecimentos. Eu atendi autoridades de Andorra, dos Estados Unidos, da Suíça, Equador, não só as brasileiras. As brasileiras, na verdade, foram as únicas que eu não consegui atender.

Damous — O que o senhor pretende com esse livro?

Tacla Durán — Eu não terminei nada ainda. Eu, na verdade, estava escrevendo tudo, eu comecei a fazer quando estava preso. Mais uma forma de passar o tempo. E eu não terminei. Vazou aí, infelizmente, eu estava fazendo um trabalho gráfico para poder ir arquivando, e acabou vazando.

Damous — Me diz uma coisa. Me ocorreu agora. A partir da sua experiência, daquilo que o senhor tem conhecimento, da experiência de outros que passaram…

Tacla Durán – Só um parênteses sobre o livro. Eu não publiquei, ainda não está pronto, eu não sei exatamente quando vai estar pronto, se vai ser publicado, porque eu tenho agora essa questão com a OAB. Porque ela entende que eu, por ter dado uma entrevista à Folha de S. Paulo, eu havia quebrado o sigilo profissional. Entretanto, eu sou acusado pela empresa, que diz que eu não era advogado. É uma situação inusitada. Se a OAB entende que houve quebra de sigilo, então eu sou advogado, como, de fato, eu era. Entretanto, para me defender, o dr. Wadih conhece bem o estatuto, o código de ética, eu posso me defender, eu devo me defender.

Damous — Claro.

Tacla Durán — Então a OAB abriu procedimento, eu vou responder, vou respeitar, vou lutar pelo meu direito de ser advogado e as minha prerrogativas. Embora tem aí uma situação, extra a ser advogado ou não a empresa, ao fazer o acordo de leniência, ela (a Odebrecht) abriu mão do seu próprio sigilo. Se alguma coisa que eu estou falando, está incomodando, e significa que ainda está sob sigilo, subentende-se que ela, então, não abriu todo o sigilo. Se ela não abriu todo o sigilo, ela está irregular com o acordo que ela firmou. Eu, como não aderente ao acordo dela, com o Ministério Publico, não tenho como saber o que ela quebrou de sigilo ou não, mas que eu sei é que ela deveria abrir todo o sigilo. Então, eu entendo que, nesse procedimento ético que eu estou respondendo, e eu tenho muito liberdade de falar para você, Vossa Excelência, por ter sido presidente da Ordem (dirigindo-se a Wadih Damous), tem conhecimento do assunto tecnicamente. Inclusive tem a perda de objeto. Porque, se uma empresa abre o sigilo, por que ela exige o sigilo em relação a mim? Ainda mais querendo me defender. Mas eu vou respeitar o procedimento.

Damous – Vou fazer uma última pergunta ao senhor: pela sua experiência como advogado ou por tudo aquilo que o senhor está passando, Enfim, ao longo da vida, nós às vezes somos procurados por pessoas não por força da capacidade técnica — algumas pessoas acham, ele é amigo do juiz. É muito comum, por exemplo, na área criminal, o advogado de porta de cadeia, chamado de advogado de porta de cadeia. Eu não gosto desse tipo de expressão, é preconceituoso. Mas as pessoas procuram aquele advogado que aparece porque é amigo do delegado, que é amigo do carcereiro, porque é amigo do investigador, do escrivão. Você está percebendo isso, a existência desse tipo de profissional, nessas operações, ou seja, o advogado que é contratado, que é procurado porque tem condições de resolver o problema.

Tacla Durán — Sem dúvida. Sem dúvida nenhuma. Nós, na nossa profissão  — a questão que você levantou do porta de cadeia, uma expressão que denigre inclusive a classe, eu não vejo de maneira saudável, mas nós não podemos dizer que não existe. Existe. Existe o advogado da madrugada, que é chamado quando tem um problema de noite na delegacia. Isso é uma coisa inerente na nossa profissão. Conhece o escrivão, o delegado do plantão. Eu acho que a única coisa que a gente deve traçar um paralelo, acontece, é que esse tipo de ambiente, de crime, etc., de delegacia, na madrugada, que acaba entrando esse tipo de profissional atuando, foi trazido para dentro da Operação Lava Jato.

Pimenta — O senhor acredita que, assim como existiam ou existem advogados que têm mais facilidade, em função das suas relações para agilizar a soltura de alguém de uma delegacia na madrugada, existem advogados que especializaram pelo relacionamento que têm no mundo jurídico da Lava Jato?

Tacla Durán — A única coisa é que muda o crime e muda o ambiente. Na delegacia.

Pimenta — E os valores.

Tacla Durán — E os valores. O modus operandi é o mesmo.

Damous — Parece que o Dr. Zucolotto atuaria nesse sentido.

Tacla Durán — Pode ser, pode ser. Como outros profissionais. São competentes. Não é a questão. Cada profissional na sua área. É uma forma de atuar.

 

Observação: As delações premiadas começaram a ser feitas por uma advogada sem nenhuma expressão, Beatriz Catta Preta, que foi durante muitos anos defensora de Lúcio Funaro, agora delator, mas em Brasília. Beatriz começou a carreira no escritório do ex-desembargador federal Pedro Rota, em São Paulo. É casado com um ex-operador do mercado paralelo, preso no passado com dólares falsos. Beatriz Catta Preta, depois de fechar uma série de acordos de delação em Curitiba, anunciou que estava desistindo da advocacia e mudando de endereço. Iria morar nos Estados Unidos.

 

TACLA DURÁN ESTÁ DISPOSTO A DEPOR NA CPI POR VIDEOCONFERÊNCIA

Pimenta — Dr. Rodrigo Tacla Durán, a gente quer concluir esse conversa, dizendo da importância das questões que foram colocadas, a denúncia de que planilhas, de extratos que suportam a delação da Odebrecht, são documentos que foram elaborados para a delação, não o contrário. Ou seja, a delação estar sustentada em documentos previamente existentes, revela um modus operandi que também concorreu na delação da JBS, possivelmente da UTC, que, enfim, o senhor que teve oportunidade de prestar depoimento nos Estados Unidos, em outros países, consegue perceber essa distinção de procedimentos investigatórios do Ministério Público e de órgãos governamentais do Brasil e de outros países?

Tacla Durán — Sim, sem dúvida. Eu atendi diversos países, na qualidade de testemunha. E, em alguns deles, a condição de testemunha teve que aguardar uma certa maturação entre o que era informação privilegiada no sentido da investida de advogado até para não contaminar o caso, porque seria uma prova nula, e, a partir de determinados parâmetros, respeitadas as prerrogativas de advogado, eu poderia ser testemunha. Como, de fato, aconteceu. Eu vejo que alguns países, no caso que eu tive, tem a mesma legislação de acordo como outros não têm. O Brasil não tinha. E a justiça não deixa de ser tão eficaz ou não por conta da legislação do acordo.

Damous — Para encerrar mesmo: O senhor estaria disposto a depor, publicamente, perante órgãos brasileiros acerca de tudo o que foi relatado aqui?

Tacla Durán — Sim, eu sempre estive à disposição. Colaborei com outros países, não teria por que não com o Brasil. Repito: eu nunca depus na Polícia Federal, porque meu processo, minha denúncia, não tem inquérito policial. Então eu nunca fui ouvido. Eu nunca consegui esclarecer. Deturparam as minhas informações fiscais. Escreveram e falaram, e deram entrevistas dizendo o que queriam. E eu nunca fui ouvido. Nunca consegui. Então, não tem problema nenhum. Eu já tinha colocado à disposição, me colocado à disposição da Comissão de Segurança Pública, da Câmara dos Deputados. Houve um problema técnico, acabaram adiando. Mas estive à disposição.

Damous — O senhor não foi mais procurado pela Comissão.

Tacla Durán — Não, não mais.

Pimenta — O senhor tem uma documentação muito grande, que envolve autoridades de diferentes países, autoridades judiciárias, informações bancárias, e toda essa informação disponibilizada certamente será periciada, objeto de análise, mas, com certeza, são muito relevantes e demonstram, de fato, um procedimento em relação às chamadas delações, que colocam em cheque esse próprio instituto da maneira como ele vem sendo observado. O senhor gostaria de colocar mais alguma questão para nós concluirmos essa nossa conversa?

Tacla Durán — Eu estou à disposição, da Câmara ou de qualquer autoridade brasileira. Sempre que procurado, eu vou procurar e ajudar dentro do que for possível, como foi a minha trajetória nesse processo todo que foi até agora.

Pimenta — Quero agradecer então ao Rodrigo Tacla Durán, ao Dr. Emílio.

Observação: É muito estranha a atitude da Comissão de Segurança Pública e Crime Organizado da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado Capitão Augusto. Marcou e desmarcou a audiência, alegando problemas técnicos. Hoje, isso é injustificável. Qualquer aplicativo, como Skype pode viabilizar uma transmissão à distância. Pode fazer isso até por WhatsApp. Houve alguma interferência política para que o depoimento não se realizasse.

 

TACLA DIZ QUE NÃO É FORAGIDO E É VÍTIMA DE UM MANDADO DE PRISÃO ILEGAL

Tacla Durán — Só uma questão, doutor. É que falam por aí: foragido, etc. Veja bem: eu vejo as delações, os acordos de delação aí do Brasil, e isso falo como advogado, que isso se transformou em um instrumento de defesa. E isso vale, porque todo mundo pode se defender como deve. Mas, para se defender de uma prisão preventiva, na maioria das vezes arbitrária e ilegal. Eu até contei esta via do direito como um dispositivo de defesa. Entretanto, diante de como caminham as coisas no Ministério Público Federal, que além de não fazer o acordo comigo, sempre inviabilizou e trabalhou contra que eu fizesse o acordo em outros países. Diante desse quadro, eu como advogado quero ter estratégia que eu passei a usar que eu usei, a extradição como procedimento jurídico válido, regular, um instituto que é reconhecimento na legislação de diversos países como defesa a uma prisão preventiva ilegal e arbitrária. Minha extradição foi tirada desta forma: como estratégia de defesa diante dessa irregularidade, dessa ilegalidade. Não sou foragido, tenho meus passaportes em mãos. Posso viajar para onde eu quiser, quando eu quiser, respondi a todos os processos aqui na Espanha, carta rogatória, a todos os procedimentos de cooperação internacional e de outros países. Eu só não posso viajar, porque sou ameaçado pelas autoridades brasileiras, de quererem insistir em fazer uma detenção ilegal preventiva. Preventiva é o quê, depois de responder a tudo isso que respondi? Eu não estou fugindo, tenho endereço, tenho domicílio, profissão. Se eu fosse foragido, a Justiça daqui teria me prendido. Eu não sou foragido. Só queria deixar esse registro, claro. Se pudesse, eu iria até a Câmara dos Deputados pessoalmente. Não vou por isso. Então, para atender a qualquer autoridade, etc., nesse momento. Por que a 13a. Vara de Curitiba insiste nessa ilegalidade, eu tenho que, infelizmente fazer essa colaboração a meu país à distância, via videoconferência.

Observação: de fato, Rodrigo Tacla Durán não foi preso quando estava nos Estados Unidos e a prisão foi decretada. Ele viajou dos Estados Unidos para a Espanha e não foi detido, apesar do determinação de Moro de colocar o nome dele na Interpol. Ele foi preso em solo na Espanha, em um hotel, depois que desembarcou. A Justiça julgou o pedido de extradição, concedeu no primeiro julgamento, mas negou no recurso. Tacla Durán tem nacionalidade brasileira e, filho de espanhol, também espanhola. A Espanha não extradita seus nacionais. A justiça decidiu que, se o Brasil quiser, deve mandar as provas que Moro tem para lá e, em corte espanhola, ele seria julgado. Moro não mandou prova nenhuma, mas decidiu processá-lo em Curitiba, à revelia.

Quatro redes de TV detêm mais de 70% da audiência no Brasil

3 nov

Repórteres Sem Fronteiras lista donos das 50 maiores empresas do país, pertencentes a 26 grupos econômicos. ONG denuncia que políticos são proprietários de veículos de comunicação, apesar de Constituição proibir.

Do DW Brasil

Mídia no Brasil ainda é controlada por poucos, diz estudo

Repórteres Sem Fronteiras lista donos das 50 maiores empresas do país, pertencentes a 26 grupos econômicos. ONG denuncia que políticos são proprietários de veículos de comunicação, apesar de Constituição proibir

Em pleno século 21, o mercado de mídia no Brasil é dominado por “dinastias familiares”, que concentram poder político e econômico e detêm uma ampla rede de poder, cuja malha se estende por todo o território brasileiro. Essa é a conclusão de um relatório divulgado nesta terça-feira (31/10) pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

“Nem a tecnologia digital nem o crescimento da internet ou esforços regulatórios ocasionais limitaram a formação desses oligopólios”, ressaltam os autores do levantamento, realizado pela RSF em parceria com a ONG brasileira Intervozes.

O Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil – ou, em inglês, Media Ownership Monitor (MOM) – compara a concentração de mídia às propriedades de terra no país.

“Assim como os ruralistas, antes chamados de latifundiários, os proprietários dos meios de comunicação possuem um vasto território nas ondas das TVs e das rádios, combinando interesses econômicos e políticos com o controle rigoroso da opinião pública”, acrescenta o texto.

Pior dos 11 países pesquisados

A pesquisa, financiada peloMinistério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha,revela o nível de concentração da mídia brasileira, mostrando quem são seus proprietários e sua atuação no setor da economia. A investigação, realizada durante quatro meses, abrange os 50 veículos de comunicação com maior audiência no Brasil e os 26 grupos econômicos que os controlam.

O Brasil ocupa a pior colocação dos 11 países já analisados pela RSF – Colômbia, Peru, Camboja, Filipinas, Gana, Ucrânia, Peru, Sérvia, Tunísia e Mongólia também foram alvo da pesquisa.

O país recebeu a pior nota em quase todos os indicadores, nos quais o estudo se baseia para medir os riscos para a pluralidade da mídia, avaliando itens que vão desde concentração de propriedades e de audiência, passando por regulamentação sobre propriedade de mídias, até o nível de transparência sobre o controle das empresas. Apenas um dos indicadores brasileiros não foi considerado como “de alto risco para a pluralidade da mídia”.

A falta de transparência no Brasil sobre o controle acionário das principais empresas de comunicação chamou a atenção. “Até agora, o Brasil foi o primeiro país pesquisado em que nenhuma das empresas respondeu a nossas perguntas sobre quem são os seus proprietários”, relata Olaf Steenfadt, diretor do projeto MOM e integrante da Repórteres Sem Fronteiras Alemanha, em entrevista à DW. “Isso, nunca tínhamos visto antes”, acrescenta.

A pouca transparência sobre a propriedade dos grupos de comunicação, segundo o levantamento, se deve também à falta de uma obrigatoriedade legal para divulgação da estrutura acionária, além da inexistência de um monitoramento pelo poder público. Alguns grupos de mídia se negaram a responder, alegando razões “estratégicas” ou relacionadas à concorrência.

Bulgarien verschiedene TV-Kanäle (BGNES)Grandes redes de TV pertencem a grupos que também controlam emissoras de rádio, portais de internet, revistas e jornais

Concentração

“Falta no Brasil um quadro regulador”, diz Steenfadt. “As poucas leis que existem não são implementadas. E as empresas não veem motivo para se abrirem de alguma forma, para serem transparentes”, lamenta. “A mídia não é como qualquer outro setor econômico. É importante saber quem a controla”, opina o especialista. “Os cidadãos têm direito de conhecer os interesses por trás dos meios de comunicação que consomem.”

O MOM-Brasil disponibiliza esses dados em uma página de internet, em português e inglês. O site contém um banco de dados com os nomes dos proprietários dos veículos de mídia, revelando também as ligações deles com grupos econômicos e empresas em outros setores, sistematizando as informações e as tornando acessíveis não só a pesquisadores, como também ao público em geral.

O levantamento mostra haver concentração dos centros de poder da mídia nas regiões Sul e Sudeste do país. A sede de três em cada quatro desses grupos fica na maior cidade do país, São Paulo.

No segmento de televisão, mais de 70% da audiência nacional é concentrada em quatro grandes redes, das quais uma detém mais da metade da audiência: a Rede Globo. Essas grandes redes nacionais ampliam ainda mais seu poder sobre a informação, destaca o MOM, através do domínio adicional de múltiplos segmentos. Grandes redes nacionais de TV aberta pertencem a grupos que também controlam emissoras de rádio, portais de internet, revistas e jornais impressos, segundo o estudo.

“Coronelismo eletrônico”

A pesquisa constata que, embora a Constituição brasileira proíba que políticos controlem empresas de mídia, 32 deputados federais e oito senadores possuem meios de comunicação, ainda que não sejam seus proprietários formais.

“Outras famílias proprietárias, como os Câmara, Faria e Mesquita, também têm membros em cargos políticos”, diz comunicado divulgado pelo MOM-Brasil. “A família Macedo, que controla o grupo Record e a Igreja Universal do Reino de Deus, também domina um partido político, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), que conta com um ministro no governo federal, um senador, 24 deputados federais, 37 deputados estaduais, 106 prefeitos e 1.619 vereadores”, contabiliza o levantamento.

O estudo chama a concentração de poder na mídia brasileira de “coronelismo eletrônico”. Os autores da pesquisa afirmam que em vários estados as afiliadas das grandes redes de televisão e rádio são controladas por empresas de políticos ou de famílias com tradição política.

“Um exemplo disso é o grupo do qual fazem parte a TV Bahia (afiliada da Rede Globo) e o jornal Correio da Bahia, controlado pela família Magalhães, do atual prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, e do ex-governador da Bahia, senador e ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães”, ressaltam os editores do levantamento.

É revoltante. Por Leandro Scala

3 nov

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Notícia que acaba de ser publicada no site do O Estado de São Paulo: ”Ministro do STF libera auxílio moradia retroativo para juízes do RN”

Uma liminar do ministro Marco Aurélio Mello , do Supremo Tribunal Federal , garantiu o pagamento retroativo aos últimos seis anos de auxílio-moradia a 218 juízes e desembargadores do Rio Grande do Norte. O tribunal desembolsou 39,5 milhões de reais para pagar o benefício desde 2012 que é de 4.377,73 reais por mês.
O judiciário brasileiro é , de longe , a instituição mais corrupta do país.
Eles não precisam esperar a construção de refinarias e hidrelétricas , como precisam os corruptos infiltrados no Executivo , para roubar os cofres públicos.

Eles não precisam perdoar dívidas fiscais de grandes empresários e latifundiários , como precisa Michel Temer , para se salvar de investigações sobre sua própria corrupção.

Não. O judiciário simplesmente mete a mão nos cofres públicos com a autorização que ele dá a si mesmo.
A decisão abaixo envolve juízes do Rio Grande do Norte , mas é típica do que acontece , desde sempre , em todo país.
O judiciário brasileiro virou uma espécie de califado à parte.

O Brasil vive uma das piores crises fiscais de sua história. Há gente passando fome em todo país. Há cada vez mais gente morando na rua.

E o Supremo Tribunal Federal garante o pagamento de um retroativo de seis anos de auxílio-moradia para magistrados que já ganham salários estratosféricos e ajudas de custo nababescas.

É revoltante.

A Marcha dos Hipócritas.Por Leandro Fortes

27 out

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Primeiro, vamos combinar uma coisa: se você votou em Aécio Neves, nas eleições passadas, você não está preocupado com corrupção.

Você nem liga para isso, admita.

Aécio usou dinheiro público para construir um aeroporto nas terras da família dele e deu a chave do lugar, um patrimônio estadual, para um tio.

Aécio garantiu o repasse de dinheiro público do estado de Minas Gerais, cerca de 1,2 milhão reais, a três rádios e um jornal ligados à família dele.

Isso é corrupção.

Então, você que votou em Aécio, pare com essa hipocrisia de que foi às ruas se manifestar porque não aguenta mais corrupção.

É mentira.

Você foi à rua porque, derrotado nas eleições passadas, viu, outra vez, naufragar o modelo de país que 12 anos de governos do PT viraram de cabeça para baixo.

Você foi para a rua porque, classe média remediada, precisa absorver com volúpia o discurso das classes dominantes e, assim, ser aceito por elas.

Você foi para a rua porque você odeia cotas raciais, e não apenas porque elas modificaram a estrutura de entrada no ensino superior ou no serviço público.

Você odeia as cotas raciais porque elas expõem o seu racismo, esse que você só esconde porque tem medo de ser execrado em público ou nas redes sociais. Ou preso.

Você foi para a rua porque, apesar de viver e comer bem, é um analfabeto político nutrido à base de uma ração de ódio, intolerância e veneno editorial administrada por grupos de comunicação que contam com você para se perpetuar como oligopólios.

Foram eles, esses meios de comunicação, emprenhados de dinheiro público desde sempre, que encheram a sua alma de veneno, que tocaram você como gado para a rua, com direito a banda de música e selfies com atores e atrizes de corpo sarado e cabecinha miúda.

Não tem nada a ver com corrupção. Admita. Você nunca deu a mínima para corrupção.

Você votou em Fernando Collor, no PFL, no DEM, no PP, em Maluf, em deputados fisiológicos, em senadores vis, em governadores idem.

Você votou no PSDB a vida toda, mesmo sabendo que Fernando Henrique comprou a reeleição para, então, vender o patrimônio do país a preço de banana.

Ainda assim, você foi para a rua bradar contra a corrupção.

E, para isso, você nem ligou de estar, ombro a ombro, com dementes que defendem o golpe militar, a homofobia, o racismo, a violência contra crianças e animais.

Você foi para a rua com fascistas, nazistas e sociopatas das mais diversas cepas.

Você se lambuzou com eles porque quis, porque não suporta mais as cotas, as bolsas, a mistura social, os pobres nos aeroportos, os negros nas faculdades, as mulheres de cabeça erguida, os gays como pais naturais.

Você odeia esse mundo laico, plural, multigênero, democraticamente caótico, onde a gente invisível passou a ser vista – e vista como gente.

Você foi não foi para a rua pedir nada.

Você só foi fingir que odeia a corrupção para esconder o óbvio.

De que você foi para a rua porque, no fundo, você só sabe odiar.

.oOo.

Leandro Fortes é jornalista.

Bullying.Por Maria Luiza Quaresma Tonelli

22 out

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O bulllying é uma prática de conduta violenta que submete a vítima a uma humilhação contínua. É a vontade de poder subjugar o outro que é considerado inferior. Uma inferioridade física, cognitiva, social e econômica.

Garotos e garotas bonitos, populares e provenientes de classes mais abastadas dificilmente serão alvos de bullying, pois são reconhecidos, respeitados, bajulados e até imitados em seu ambiente escolar.

A vítima do bullying sofre rejeição, é isolada dos colegas e é submetida continuadamente a situações degradantes e vexatórias. É exposta pelos outros que a agridem moralmente e psicologicamente. Às vezes, até fisicamente. Deixa sequelas, pois a fase da adolescência é de conflitos e de oscilação da auto-estima.


O bullying destrói a auto-estima da vítima. Numa sociedade onde tudo é hierarquizado, onde há superiores e inferiores (belos e feios, fortes e fracos, brancos e negros, ricos e pobres, extrovertidos e introvertidos, etc.) personalidades autoritárias vão se formando desde a mais tenra idade.

É uma sociedade que traz em seu cerne uma violência latente. O bullying é tão violento quanto a violência praticada pelas suas vítimas quando se vingam de seus algozes.


Vítimas de bullying podem não reagir e superar situações degradantes às quais são expostas com a ajuda de um trabalho da escola , podem reagir de forma violenta , como aconteceu na escola de Goiás, ou podem até atentar contra a própria vida cometendo o suicídio.
O menino de 14 anos que matou dois colgas de classe e feriu outros quatro teria se inspirado no atentado de Columbine, onde o atirador era vítima de bullying. Num primeiro momento tendemos a achar que aquele trágico episódio influenciou psicologicamente o garoto de Goiás.

Tendemos também a achar que o livre acesso às armas nos EUA e o acesso à arma da mãe do garoto de Goiás foram deteminantes em ambas as tragédias. Não. As armas são apenas o meio, o instrumento, não a causa.
Há que se pensar mais além. Há que se pensar no modelo de sociedade capitalista, onde os fracos não tem vez. Sociedades de winners e de loosers. Daí há que se pensar se o garoto de Goiás simplesmente se inspirou em Columbine ou se não passa de mais uma vitima da sociedade capitalista, fundada na desigualdade e no egoísmo, na competição e na exclusão.


O pai do garoto que que levou os primeiros tiros (o que praticava o bullying) disse hoje o velório do filho, que perdoa o atirador. Pediu que a sociedade também o perdoe.
Acredito que a sociedade em que vivemos hoje também deveria pedir desculpas a todas as vítimas de bullying.

Em tempo: acredito que nunca veremos notícias semelhantes às de Columbine e de Goiás vindas de Cuba . Por razões óbvias.

Maria Luiza Quaresma Tonelli

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