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“HABEMUS PRESIDENTA” por Antonio Veronese

2 jan
O povo brasileiro, soberanamente, escolheu reeleger Dilma Rousseff .
A voz da maioria foi ouvida e deve ser absolutamente respeitada.
É isto que impõe a democracia, que nos sofistica enquanto Nação, libertando-nos do estigma de “republiqueta-de-bananas” que tivemos um dia.
Moro fora do Brasil há muitos anos e posso assegurar-lhes que nunca a imprensa internacional foi tão generosa com o Brasil como nos últimos dez anos.
Uma vez que o balizamento constitucional foi absolutamente respeitado, resta-nos, agora, serenamente, aceitar a vontade da maioria.
O mundo atravessa profunda crise econômica que afeta a todos sem exceção.
Mesmo os EEUU, – país fetiche de uma enorme parcela de brasileiros-, apresenta hoje números censitários assustadores, com mais de 90 milhões de miseráveis, o equivalente a quase a metade da população do Brasil!

A crise econômica que grassa em todo o mundo é de tal amplitude que é admirável que Brasil consiga atravessa’-la controlando desemprego, inflação, e com aumento real do salário dos trabalhadores. Retiramos 36 milhões de
brasileirinhos da miséria absoluta, nunca o acesso à Universidade foi tão universalizado, o Bolsa Família foi considerado pelas Nações Unidas o mais importante programa de distribuição de renda em curso no planeta…
Ontem, num bate-papo twuitteiro com Lobão , ( que alias, é preciso dizer, foi extremamente gentil e educado comigo),
interroguei-o, diversas vezes, sobre qual pai’s da Europa estaria hoje economicamente melhor do que o Brasil…

Minha pergunta restou sem resposta, simplesmente porque não é possível respondê-la…

Para citar apenas dois exemplos, o desemprego na França hoje é o dobro do nosso, e na Espanha 4 vezes maior.
Por isso, acho que devíamos acreditar mais no Brasil, cerrar fileiras para que ele possa avançar e não retroagir a
tempos que tanto nos envergonharam.

Sem esquecer que o Brasil contemporâneo é o resultado de 5 séculos de exclusão de uma imensa maioria de brasileiros, o que nos impôs, no ano 2.000, o recorde vergonhoso da “pior-distribuição-de-renda-do-planeta”. Padecemos de endemias seculares na educação, saúde, escola, justiça… que ainda hoje afetam dramaticamente a nossa sociedade como um todo.

Não sou filiado ao Partido dos Trabalhadores, nem seu porta-voz e, sobretudo, reconheço
que AINDA HÁ MUITO A FAZER!!

Mas acredito que nunca antes tivemos tantos motivos pra ter esperança!”

Antonio Veronese( dica de Maisa Paranhos e Zucca Aguiar )

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Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

22 jul
Análise da Canvas sobre a Venezuela, onde a oposição começou a ser treinada em 2005: “Há uma forte tendência presidencialista. Como podemos mudar isso?”

No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto se lê: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”.

Agência Efe

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Análise da Canvas sobre a Venezuela: “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso?”

 

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O texto citado não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana. O material, em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados na Sérvia. O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, feito pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo Wikileaks.

O último vazamento do Wikileaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas ( “The Center for Applied Nonviolent Action and Strategies” sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da queda de Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005. Em seu programa de TV, o presidente Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse.

Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado.

O começo, na Sérvia

“Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os EUA deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos. Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública.

“Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os norte-americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos. Ooutros países, como a Espanha, não têm e nos apoiavam através do Ministério do Exterior”.  Entre as ONGs citadas por Marovic estão o NED (National Endowment for Democracy), uma organização financiada pelo Congresso norte-americano, a Freedom  House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Natalia Viana/Agência Pública

Para o Blog

Marovij: “É impossível  exportar uma revolução. O mais importante para uma mudança bem-sucedida é ter a maioria do povo ao seu lado”

 

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Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana em 2002 e 2003. O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide.

Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o The New York Times. Na Bolívia, de acordo com documentos do governo norte-americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, disse que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil. Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo Wikileaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.

Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House não estão promovendo a democracia. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas norte-americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os EUA não gostam”.

Fase dois: da Bolívia ao Egito

Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos dos EUA – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui outros: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbábue, Bielorrússia, Coreia do Norte, Siria e Irã.

Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000. O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução das Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi. Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic.

Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

 

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a Irmadade Muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”.
Documentos da Stratfor

Os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo norte-americano.

A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país.

No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele. “A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescent sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política. “Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010.

A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla. “Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem uma lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”.

Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os EUA não gostam)”. O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”.

Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Strtafor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão idológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos. “Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.

Venezuela

Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana.

“Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010. Para as eleições legislativas de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação. O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).

A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão MUD (Mesa de Unidade Democrática), além do prefeito do Distrito Metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza. Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados.

O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”. Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”.

Em outro email Popovic explica:“Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico. Nós apenas fornecemos as ferramentas”.

Natalia Viana/Agência Pública

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Popovic: “A cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda”

Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”.

Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são:

– Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudança”

– Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?”

– Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”.

-Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito!  Programas de bem-estar social”.

– Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”.

– Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro.  Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”.

– Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”.

– “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?”

No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela.

“Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles! Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou. “E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”.

Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países. O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbábue, Bielorrúsia, Irã…”

O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic – concorda com ele: “É impossível  exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”.

Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos EUA, depois do que aconteceu na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu. “Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o NYT publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira norte-americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos EUA pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrúsia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”.

O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.

Para Weisbrot, muitas vezes o patrocínio norte-americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos. “Sempre há grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, como reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”.

*Originalmente publicado no site da Agência Pública

Livro(manual) de Gene Sharp_

“Da ditadura a democracia”

http://bibliot3ca.files.wordpress.com/2011/03/da-ditadura-a-democracia-gene-sharp2.pdf

Video “Doc. Como iniciar uma revolução” (completo e legendado)

ADEUS, BRETTON WOODS, OS BRICS CHEGARAM por Leopoldo Vieira

16 jul


14 DE JULHO DE 2014 ÀS 16:30
Hoje começa a cúpula que tornará BRICS um bloco econômico de fato porque serão oficialmente sócios no Novo Banco de Desenvolvimento-NDB e no Arranjo Contingente de Reservas-CRA. É o pior pesadelo do mundo para a direitona brava
Para Marcos, que insurgiu armas indígenas de poesia e som desde a selva Lacandona, em 1994, quando mentiam às nossas crianças dizendo que a História havia acabado.

Quando, nos anos 90, Caetano Veloso denunciou que alguma coisa estava fora da nova ordem mundial, o planeta ainda tentava acreditar nas promessas de democracia, paz e prosperidade que adviriam do fim da Guerra Fria. Só que o cano da pistola que as crianças mordiam, o asfalto, a ponte, o viaduto ganindo para a lua, o monte de lixo baiano, só piorariam.

A maior tragédia geopolítica do século XXI não seria a queda em si das URSS, nas palavras de Vladimir Putin, mas as consequências dela: um mundo unipolar, cujo Consenso (de Washington) de quem passara a mandar era democracias de fachada, privatização do poder público, desregulação do comércio, fim do Estado-Nação e apropriação das riquezas dos povos por meia dúzia de rentistas que enriqueceriam sem produzir.

O que aconteceu todos sabem: o mundo foi implodido.

Como jovem, enfrentei o neoliberalismo nas ruas e na organização de uma geração que, passados dez anos da tragédia da eleição de FHC em 1994, pode celebrar uma real nova ordem mundial nascente, o que parecia absolutamente impensável naquele quadrante da História.

A #CopadasCopas latino-americana foi parte disso, sucedendo a Copa da África, não menos histórica. Símbolos da capacidade de gestão do que se chamava de Terceiro Mundo. Conceito este que, nos anos 90, foi atucanado para o eufemismo “emergente”, usado pelos neoliberais para escamotear o verdadeiro rumo para o qual conduziam a humanidade.

Trumann fez o mesmo em histórico discurso onde dividiu o mundo em desenvolvidos e subdesenvolvidos, ocasião em que foi erguido o sistema de Bretton Woods, com FMI e Banco Mundial na “vanguarda do atraso”.

Ironia dos acontecimentos, quando as pessoas em ação fizeram o globo girar e provaram que Fukuyama era apenas um farsante, o conceito de emergentes virou contra os feiticeiros, passou a ser real quando a resistência ganhou eleições nos parâmetros daquelas democracias idealizadas por Jimmy Carter, arrombadas pelas lutas sociais em seu processo de transição. E como? Redescobrindo o que era proibido, tido e vendido como pré-histórico: a mão visível do Estado.

Um a um, os sonhos dos especuladores se converteram em terríveis pesadelos.

A abertura econômica chinesa fez o “rato” caçar o “gato”. O bloco instalado no Cone Sul para integrar a produção de multinacionais despertou a Pátria Grande de Bolívar, sob a liderança do então Gigante Adormecido pela pobreza, despertado por Lula com sua “fábrica” de empregos. A democracia russa, fachada para o desenvolvimento de máfias privateiras associadas aos EUA e Europa, foi o canal por onde passou a retomada do orgulho da Mãe Rússia . A democracia racial (mas desde que neoliberal) sul-africana constituiu uma fórmula imbatível para a fusão da soberania nacional e popular: a conversão dos trabalhadores em maioria política através da condição de maioria étnica. O pacifismo indiano, disseminado como um espantalho contra os setores mais exaltados dos movimentos sociais, produziu uma potência econômica e nuclear soberana e altiva.

Por terem se tornado o anti-neoliberalismo em estado bruto e, portanto, passado a apresentar um crescimento econômico cada vez mais robusto, ampliando o peso deste grupo de países na economia global (25% dela), o inglês Jim O’neill os batizou de BRICS (vale a autoria, mesmo com o S vindo depois). Para ele, entretanto, nada além de um acrônimo contrastando com um EUA e uma Europa contaminados pelo seu próprio veneno.

Lá, seja sob liderança da social-democracia ou da própria direita liberal, de Democratas ou Republicanos, o neoliberalismo também foi implementado, fazendo o tradicional centro mundial percorrer um caminho que os deixou à beira do terceiro mundismo. E chegaram à decadência pelas mãos do velho sistema de Bretton Woods, com as receitas e o tacão de FMI e Banco Mundial, por sua vez governados pela tecnocracia gerencial do sistema financeiro e suas agências de investimentos e riscos, que tentam (ainda) governar as nações desde as Bolsas de Valores e por meio de sua mais letal arma, a bomba de um trilhão de dólares que destruía países em questão de segundos.

Mas não era só para O’Neill que os BRICS não passavam de um amontoado de letras.

A imprensa brasileira e latino-americana, de modo geral, tratava o acrônimo quase como uma piada. A relação com os outros países dos BRICS foi constantemente questionada, embora, economicamente e tecnologicamente seja uma oportunidade incrível, até porque entre iguais. Novamente em campo o tal complexo de vira-lata, que tem alergia a tudo que possa significar soberania política, independência econômica e justiça social. Em 28/03 do ano passado, um editorial do Estadão se chamou “Mais encenação dos BRICS”, afirmando que se tratava de uma fantasia iniciada por Lula e continuada por Dilma e que só o Brasil tomava a frente na briga pela reforma do FMI.

Ainda bem que a vida é dura para esta turma, pois exatamente hoje começa a cúpula que tornará BRICS um bloco econômico de fato porque serão oficialmente sócios no Novo Banco de Desenvolvimento-NDB (aporte inicial de US$ 10 bi) e no Arranjo Contingente de Reservas-CRA (aporte de 150 bi, quase 2/3 do montante disponível no FMI). É o pior pesadelo do mundo para a direitona brava. Todavia, ao contrário de FMI e BIRD, o crédito das novas instituições não será vinculado à privatização, demissão de funcionários, corte de pensões, arrocho de salários, desemprego, juros altos e, sim, ao investimento social, em infraestrutura e ciência e tecnologia. Será o anti-Bretton Woods, expressando perfeitamente os caminhos postos para o mundo hoje.

Nunca, nos marcos do capitalismo, desde 1945, houve sequer uma tentativa consistente de se criar um sistema paralelo ao carcomido criado sob inspiração de Keynes (e deturpado pelos inimigos dele, epígonos da Escola de Chicago). Juntos, os BRICS não se contiveram no mimimi sempre ignorado quanto a reformar Bretton Woods e, com estas novas forças, haverá chance real é de transformar as próprias Nações Unidas. A Rússia já fala em apoiar o Brasil para a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Neste sentido, a cúpula é mais do que oportuna, uma vez que ocorre bem no momento em que a Argentina é acuada pela justiça estadunidense. Esta, ao arrepio do direito internacional, tenta impor a legislação americana à soberania dos argentinos em negociarem o pagamento de suas dívidas – a tal disputa contra os Fundos Abutres – num gesto desesperado – porém com perspectiva generalizante – do sistema financeiro internacional ante a sua perda crescente de poder político sob a batuta do G-7.

Agora, a intenção ganhou concretude. População, economia, poder militar, território, desenvolvimento tecnológico, conexão intrínseca com o processo de integração da América Latina, África e Eurásia se consolidam em uma institucionalidade alternativa e, como é uma sociedade, pode, formalmente, se ampliar. Aliás, a Argentina foi convidada especial para a reunião justamente para isso.

Este inédito fato, pode-se dizer, sem embargo, funda a Nova Ordem Mundial. Uma ordem plena de, como também dissera Caetano na canção citada no prelúdio deste artigo, não esperar pelo dia em que todos os homens concordem, mas sabedora de diversas harmonias possíveis sem juízo final.

A melhor Copa da história”, dizem jornalistas estrangeiros

10 jul

O Maracanã será o palco da final da melhor Copa já vista por 38,5% dos jornalistas entrevistados

Pesquisa realizada com mais de 100 jornalistas estrangeiros aponta que a Copa do Mundo no Brasil é a melhor de todos os tempos

O mau humor e o clima de terror propagado pela imprensa brasileira – que difundiu as previsões pessimistas para os veículos de comunicação internacionais teve efeito inverso. Pesquisa realizada pelo portal Uol, do grupo Folha, divulgada nesta segunda-feira 30, aponta que boa parte dos jornalistas estrangeiros vê a Copa do Mundo no Brasil como a melhor.

O levantamento foi feito com 117 profissionais de comunicação que estão cobrindo o evento no Brasil. Do total de entrevistados, 38,5% consideram a competição sediada no País como a melhor já vista. Em segundo lugar vem a Copa realizada na Alemanha, em 2006, com 19,7% das respostas, e em terceiro a da África do Sul, em 2010, que recebeu a aprovação de 5,1% dos jornalistas entrevistados.

Na quarta posição vem a Copa sediada nos Estados Unidos, em 1994, quando o Brasil recebeu o título de tetracampeão, seguida por Itália-1990 (com 3,4% dos votos), França-1998 (3,4%), Japão e Coreia-2002 (3,4%), México-1986 (1,7%), México-1970 (1,7%) e Alemanha-1974 (0,9%). Entre os entrevistados, 1,7% não respondeu. Segundo a pesquisa, 16,2% dos profissionais disseram estar cobrindo o primeiro Mundial.

Há cerca de 20 dias, quando a Copa desse ano ainda não havia começado, seria praticamente impossível prever os números que acabam de ser apresentados na mostra, tal a sensação propagada pelos grandes jornais brasileiros de que tudo daria errado. As obras inacabadas, dificuldades nos meios de transporte e até a previsão de uma epidemia de dengue eram destaques nos veículos da imprensa.

Vê-se, porém, que depois da satisfação dos torcedores estrangeiros, que ressaltam com frequência a hospitalidade do povo brasileiro e a satisfação em conhecer o País – como podemos ver agora em reportagens diárias – que os jornalistas estrangeiros também concluíram que tudo não passou de um grande exagero.

Torcedores

Com a experiência de oito mundiais, o irlandês Daniel Sheahan, de 55 anos, não pestaneja: “a atual Copa do Mundo está sendo a melhor de todas”. A opinião de Sheahan é compartilhada por diversos turistas que, como ele, já participaram de outras edições do torneio.

“Não que tudo esteja perfeito. Em todas as copas às quais fui, houve algum tipo de problema, como preços altos, dificuldades com transporte ou roubos. Mas isso faz parte de um evento desse porte”, disse à Agência Brasil o irlandês, que já teve a mochila roubada em duas edições do torneio.

“Isso foi na Copa da França, quando duas pessoas pegaram minha mochila e fugiram em uma moto, e na dos Estados Unidos, quando em um momento de distração levaram minha mochila”, lembrou. “No caso da França, um amigo meu passou pelo mesmo problema. Ao que parece, era uma quadrilha de motoqueiros especializados nesse tipo de roubo”, acrescentou.

Fã do futebol brasileiro, o irlandês sempre deu preferência aos jogos do Brasil, mas nem sempre foi possível assisti-los, porque existem outros pontos de interesse. “Esta Copa realmente tem muitas coisas especiais. Compará-la à da África do Sul é até covardia – o barulho das vuvuzelas era insuportável e estragava o clima do estádio. Para piorar, de todas as vuvuzelas saía muita saliva, o que era bastante preocupante porque a incidência de doenças como tuberculose é muito grande naquele país.

Por aqui, não: os brasileiros procuram se divertir sem incomodar os outros. “Nota-se claramente uma grande vontade de tornar tudo especial. Isso não aconteceu na Copa da Alemanha, porque, apesar de muito educados, os alemães costumam ser frios na relação com turistas”. Além das quatro copas citadas – Estados Unidos, em 1994; França, em 1998; Alemanha, em 2006; e África do Sul, em 2010 – e da atual, Daniel Sheahan foi às copas da Espanha, em 1982; do México, em 1986; e da Itália, em1990.

Impressão parecida tem o equatoriano José Bastidas, de 31 anos. “Não é apenas a vontade dos brasileiros de ajudar os turistas. Aqui há muito mais festas e uma comunicação mais fácil, até pelas semelhanças com outras línguas. É mais fácil entendermos e sermos entendidos pelos brasileiros”, disse ele.

A Copa de 2014 é a quarta do suíço Domenique Brenner, de 40 anos. “Na comparação com as de 1998, 2006 e 2010, esta é a melhor, porque está sendo disputada no melhor lugar e com as melhores pessoas”, afirmou. “A organização do evento é sempre bastante similar, porque envolve a mesma estrutura, que é a estrutura da Fifa.”

A maior crítica de Brenner é em relação aos caixas rápido dos bancos no Brasil, que tem usado para evitar a ida a casas de câmbio. “Muitas dessas máquinas não têm aceito cartões internacionais”, queixa-se.

Brenner e outros suíços entrevistados pela Agência Brasil reclamam do preço dos restaurantes nas cidades sede e das bebidas nos estádios. “Apesar de muito bons, os restaurantes são muito caros. Principalmente as churrascarias”, disse Brenner. Já Denis Rapin, 47, avalia que nem tudo é tão caro, levando em consideração o fato de que se trata de uma Copa do Mundo. Ele viaja com um grupo de 20 pessoas.

Para Rapin, os preços cobrados na cidade não são tão altos quanto imaginava. “Quem cobra caro aqui é a Fifa. Principalmente a cerveja nos estádios”, disse. “Esta é a minha primeira Copa do Mundo, mas não será a última. Esses dias têm sido muito agradáveis. A receptividade e a amabilidade dos brasileiros realmente impressiona. Todos muito amigáveis, desde o taxista até os profissionais da área de turismo. Em Brasília [onde assistiu à partida, entre Suíça e Equador], senti falta de bares mais festivos. Acho que o que falta aqui são bares típicos especializados em cachaça”.

Dona de uma lanchonete na Torre de TV, chamada GO Minas, Elza Alves Lobo não fala inglês, mas usa de muita simpatia para compensar essa limitação, além de ter preparado um cardápio em português, inglês, francês e espanhol. “Faço questão de conversar ou tentar conversar com todos. O clima é de muito entusiasmo, muita alegria.”

Viajando há sete meses pela América do Sul, Andre Urech, de 34 anos, vem pela primeira vez ao Brasil, onde assiste à segunda Copa do Mundo. A primeira foi na África do Sul. “Está tudo tão bom que já decidimos: voltaremos o quanto antes ao Brasil. Simplesmente estamos amando as pessoas daqui”, disse ele, ao lado da companheira de viagem Ramona Rüegg, que também foi à Copa de 2010. Ela faz coro: “a atmosfera aqui é muito melhor, e as pessoas muito mais amigáveis.”

Os dois elogiam a organização do evento, apesar da dificuldade que vêm tendo com transporte público. “Demorou cerca de 30 minutos para pegarmos um ônibus, e o táxi está muito caro”, contou Urech. “Mas tudo faz parte do clima e do sentimento que envolve uma Copa do Mundo”, completou.

A exemplo de outros suíços que assistiram ao jogo contra o Equador, o casal reclama principalmente da dificuldade para comprar cerveja. “A fila é muito grande e faz a gente perder muito tempo do jogo. Mas isso também aconteceu na África”, disse ele.

Dirigente do Barcelona de Guayaquil, no Equador, Carlos Rodríguez também avalia esta como a melhor Copa de todos os tempos. “É muito superior tanto dentro como fora de campo”, disse.

“Uma coisa que me chama a atenção é o fato de ela [Copa] estar sendo totalmente diferente do que vinha sendo mostrado pela imprensa. O Brasil é 100% no que se refere a receber turistas. Tudo é perfeito: a hospitalidade, a estrutura. Além disso, há muito amor e alegria no ar. Viemos para cá justamente para desfrutar desse clima de Copa”, afirmou Rodríguez.

O publicitário colombiano Héctor Greco, de 33 anos, também foi surpreendido positivamente pelo Mundial brasileiro. “Eu esperava muito menos. O que mais me surpreendeu foi a troca de cultura entre os países em um clima de competitividade sem brigas. É uma oportunidade única de conhecer o mundo em um só lugar.”

Ele lamenta as grandes distâncias que têm de ser percorridas para que se possa acompanhar os jogos. “As passagens de avião são caras, é difícil ir de ônibus e infelizmente não há uma cultura de transporte de passageiros por meio de trens no Brasil”. Para o publicitário, a hospedagem também está muito cara: “pagamos R$ 21 mil para alugar, por um mês, um apartamento no Rio de Janeiro”.

Já o cirurgia plástico e cônsul honorário do Equador em Campinas, Oswaldo Vallejo, de 56 anos, já gastou, entre passagens, hospedagem e ingressos para os jogos, mais de R$ 18 mil para ter sua primeira experiência em Copa do Mundo.

“Conheço pouco Brasília porque cheguei há apenas um dia, mas o deslocamento do hotel até o estádio foi bastante fácil, pela proximidade. Esta realmente é uma grande vantagem para a cidade”, disse ele, em meio a elogios em relação à divulgação, às placas e aos voluntários “proativos e sempre tentando ajudar até mesmo nas situações em que não precisamos.”

Depois de enfrentarem mais de 8 mil quilômetros de viagem por ônibus, vindos de Quito, no Equador, o administrador Paul Tamayo e os engenheiros Alvaro Granda e Edgar Baculima optaram por acampar na Universidade de Brasília (UnB). Tudo, para assistir à estreia do Equador na Copa.

O perrengue não diminuiu o entusiasmo: “O Brasil é muito bonito, assim como as pessoas”, observou Tamayo. Perguntado sobre os preços na capital, Granda respondeu: “de preços, não falamos. Viajar até aqui foi bastante duro, mas, com a vontade de ver o Equador jogar, tudo fica mais fácil”.

Quem também viajou muito para viver a experiência da Copa foi o australiano Victor Vu, de 28 anos, na esperança de ver algum país asiático ou africano vencer a competição. “Torço principalmente para a Costa do Marfim por causa do [atacante] Drogba, de quem sou fã. Mas o que realmente me motivou a vir foi a boa reputação que o Brasil tem lá do outro lado do mundo, especialmente no que se refere a festas.”

Apesar de seu país não ter se classificado para a Copa, Jan Kolin, da República Checa, quis vir ao Brasil para vê-la sendo realizada “no país mais bem-sucedido” no mundo do futebol. “Desde criança eu sonhava em ver uma Copa. Quando soube que ela seria no Brasil, decidi tornar esse sonho realidade”, contou Kolin, que enfrenta problemas de comunicação, já que, segundo ele, poucos falam inglês no Brasil.

Os peruanos Marcial Olano, de 55 anos, e Hérman Chávez, de 45, também não precisaram da participação de sua seleção no Mundial para decidirem curtir a Copa no Brasil. “Queremos que um país sul-americano ganhe porque somos povos irmãos integrando uma mesma torcida”, disse Olano.

Chávez veio para realizar o sonho do filho Jared, que tem 13 anos. “Não esperávamos tanta organização. Isso em muito nos surpreendeu. Está melhor do que havíamos sonhado. Não passamos por nenhum tipo de problema, temos sido bem atendidos e a organização das cidades e da Fifa está muito boa. Por isso já planejamos ir à Copa da Rússia para, se tudo der certo, torcermos pela seleção de nosso país [Peru]“.

Pela primeira vez no Brasil, os engenheiros Andres Navaez e Elizabeth Montenegro, ambos equatorianos, também se dizem apaixonados por futebol. Por isso, já foram às copas da África do Sul e da Alemanha. Segundo ele, Brasília carece de um atendimento mais eficiente aos turistas.

“Faltam informações até mesmo no Centro de Convenções, de onde retiramos nossos ingressos. Lá não souberam nos informar sequer onde fica o atendimento aos turistas”, disse Elizabeth. “A sorte é que espanhol e português são línguas parecidas”, completou Navaez.

O suíço Lionel Holzaer, de 30 anos, não é fã de futebol, mas adora festas e viagens. Segundo ele, o Brasil tem “boas condições” para receber os turistas. “Minha maior dificuldade tem sido com o idioma”.

com Agência Brasil, Uol e 247

Os bilhões da Copa do Mundo: por que o pessoal do contra entendeu tudo errado

8 jul

 O jornalista Nathaniel Parish Flannery, colaborador de várias publicações americanas em áreas como crime organizado, política, cultura e economia, escreveu um bom artigo no site da Forbes sobre a Copa do Mundo.

“Quando a seleção do Brasil entrar em campo, o mundo devia também aproveitar o momento para reconhecer o sucesso das políticas públicas progressivas do país”, escreve Flannery. “O Brasil destinou menos que 2 bilhões de dólares para a construção dos estádios. Em contraste, entre 2010, ano do início da construção dos estádios, e o início de 2014 o governo investiu 360 bilhões de dólares em programas de saúde e educação”.

Eis os principais trechos de sua análise:

No Brasil, a Copa do Mundo deflagrou protestos de ativistas interessados em chamar atenção para os persistentes problemas de pobreza e desigualdade no país. Em 2013, os manifestantes empunhavam cartazes em inglês com mensagens como “Nós não precisamos da Copa do Mundo” e “Nós precisamos de dinheiro para hospitais e educação”. Contudo, como os cientistas políticos Diego von Vacano e Thiago Silva explicaram em seu excelente artigo para o Washington Post, “os protestos são paradoxais porque o Brasil tem vivenciado um crescimento econômico e social muito significativo desde que o país foi escolhido para realizar o evento em 2007”.

Mais amplamente, a Copa do Mundo de 2014 acentua a emergência econômica da América Latina ao longo da última década. O mar de camisas amarelas que pode ser visto em jogos da Colômbia e áreas inteiras de mexicanos usando roupas verdes e torcendo para a sua seleção é um testemunho do recente sucesso econômico da classe média latino-americana. De acordo com o historiador David Goldblatt, “a televisão pode enganar, e o uso de uma camisa da seleção da Colômbia não é garantia de nacionalidade, mas o estádio do Mineirão em Belo Horizonte estava forrado de amarelo – 20 000 numa multidão de 57 000. A mídia chilena tem reportado que mais de 10 000 estão viajando para o Brasil, e ao que parece eles todos estavam presentes em Cuiabá quando a seleção deles despachou a Austrália.”

Em 2011, pela primeira vez na história, o número de pessoas nas classes médias da América Latina ultrapassou o número de pessoas pobres na região. O Brasil, em particular, destaca-se pelo sucesso no investimento em programas sociais e de redução da pobreza.

Dado o número de camisas amarelas que aparecem na multidão nos jogos, a Copa do Mundo no Brasil tem também sido massivamente frequentada pela classe média emergente do país. Ainda assim, a história de que o gasto com futebol é um desperdício num país em que a população vive na pobreza tem ganhado impulso nas mídias sociais.
Fotos de um grafite mostrando uma criança faminta chorando ao ver uma bola de futebol em seu prato tornaram-se virais e foram compartilhadas aos milhares no Twitter e Facebook. Outros usuário do Twitter compartilharam fotos lembrando a pobreza com a qual eles se deparam a algumas quadras dos estádios.

Estas imagens falham em mencionar que o Brasil destinou menos que 2 bilhões de dólares para a construção dos estádios. Em contraste, entre 2010, ano do início da construção dos estádios, e o início de 2014 o governo federal do Brasil investiu 360 bilhões de dólares em programas de saúde e educação. Para colocar isso em perspectiva, o governo do Brasil investiu 200 milhões de dólares para cada dólar gasto com os estádios da Copa do Mundo. Embora os sistemas de saúde, educação e transporte precisem de investimentos contínuos, os gastos com a Copa do Mundo não têm de maneira alguma eclipsado o investimento progressivo em programas sociais.

A economia do Brasil é definida por uma desigualdade intrinsecamente profunda. É um país conhecido pelas favelas e milionários. De acordo com análises da Forbes, o Brasil é o lar de dezenas de bilionários, incluindo Roberto Irineu Marinho, João Roberto e José Roberto Marinho, que juntos controlam o maior império de mídia da América Latina, a Globo, e têm, juntos, 28 bilhões de dólares. A empresa reportou em 2013 um lucro de 1,2 bilhão de dólares. De acordo com levantamento da Forbes, “enquanto a riqueza crescente do país está criando mais milionários e bilionários do que nunca, famílias ricas estão garantindo a fatia maior desse bolo”. Dos 65 bilionários listados pela Forbes na sua edição dos Bilionários do Mundo, 25 deles são herdeiros ou parentes.

Mas, enquanto é fácil apontar os gastos dispendiosos com os estádios da Copa do Mundo ou a longa lista de bilionários do Brasil e contrasta-los com milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza, tais comparações falham ao não reconhecer o tremendo sucesso que os criadores de políticas públicas brasileiros têm tido na erradicação da pobreza ao longo da última década. De acordo com um relatório recente do Centro para a América Latina e Caribe da ONU (ECLAC), em 2005 38% da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza. Avançando para 2012, essa taxa caiu para 18,6% da população. Em outras palavras, desde 2005 o Brasil tem efetivamente reduzido para mais da metade o número de seus cidadãos vivendo na pobreza.

Por outro lado, o México, um país cujos políticos estão mais concentrados nas exportações e nos salários competitivos, atualmente viu a pobreza aumentar durante esse mesmo período, de acordo com um relatório do Centro das Nações Unidas para América Latina e Caribe. O Chile, um país há muito elogiado pelo desenvolvimento de suas políticas econômicas, viu um declínio muito menor de sua pobreza no mesmo período. No Chile, a pobreza caiu de 13,7% para 11% em 2011.

A América Latina é a região mais desigual do mundo, e o Brasil em particular é conhecido por sua história colonial baseada em uma espoliativa agricultura de exportação, o que ajudou a desenvolver o estabelecimento de uma economia altamente dividida entre ultra-ricos e ultra-pobres. Em meio à controvérsia da Copa do Mundo, o tremendo sucesso do Brasil na redução da pobreza tem sido de certa forma ignorado.

Jason Marczak, expert em América Latina do Atlantic Council em Washington [um think tank apartidário e influente] , me contou que “a crítica aos excessivos custos dos estádios é na verdade um grito dos cidadãos do novo Brasil, um Brasil mais classe média, que demanda maior transparência e um modelo de estado mais responsável”.

Quando a seleção do Brasil entrar em campo, o mundo devia também aproveitar o momento para reconhecer o sucesso das políticas públicas progressivas do país.
“O Brasil tem atingido conquistas impressionantes no crescimento sócio-econômico na última década com dezenas de milhões de pessoas saindo da pobreza e entrando na classe média”, acrescenta Marczak.

Por Kiko Nogueira-DCM (Diário do Centro do Mundo)

Texto na íntegra em inglês por Nathaniel Parish Flannery,

World Cup Economics: Why Brazil’s Bashers Have Got It Wrong

In Brazil, the World Cup has sparked protests from activists interested in drawing attention to their country’s persistent problems of poverty and inequality. In 2013 protesters held up English language signs emblazoned with messages such as “WE DON’T NEED THE WORLD CUP” and “WE NEED MONEY FOR HOSPITALS AND EDUCATION.” However, as political scientists Diego von Vacano and Thiago Silva explained in their excellent article for The Washington Post, “the protests are paradoxical, because Brazil has enjoyed very significant social and economic improvements since the country bid for the event in 2003.”

More broadly, the 2014 World Cup highlights Latin America’s economic emergence over the last decade. The sea of yellow jerseys that can be seen at Colombia’s games and the packed sections of cheering Mexicans wearing green and cheering to support their team are a testament to Latin America’s recent economic success and growing middle class. According to soccer historian David Goldblatt, “Television pictures can be deceptive, and wearing a Colombian shirt is no guarantee of citizenship, but the Estadio Mineirao in Belo Horizonte was awash with yellows — perhaps 20,000 in a crowd of 57,000. The Chilean media has been reporting that up to 10,000 are making the trip to Brazil, and it looked as if they were all present in Cuiaba as the national team swept past Australia.”

In 2011, for the first time in history, Latin America’s middle class outnumbered the region’s poor. Brazil in particular, stands out for its success in investing in social programs and reducing poverty.

If the number of Brazilian jerseys on display in the crowd at the games, Brazil’s World Cup is also being heavily attended by the country’s rising middle class. Still, the theme that spending on soccer is a waste in a country where nearly a fifth of the population lives in poverty has gathered momentum on social media. Photos of this mural showing a hungry child crying at the sight of a soccer ball in his soup bowl have been shared tens of thousands of times on Twitter TWTR -2.66% and Facebook. Other Twitter users shared photos such as this one, reminding fans of the poverty that they might fight a few blocks away from some stadiums. Still, these graphics fail to mention that Brazil has allotted less than two billion dollars for the construction of stadiums. By contrast, between 2010 the year that stadium construction began and the start of 2014 Brazil’s federal government spent more than $360 billion on health and education programs. To put this in perspective, Brazil’s government spent nearly $200 in health and education programs for every dollar spent on World Cup stadiums. While Brazil’s health, education, and transportation systems need continued investment and improvement, World Cup spending has in no way eclipsed spending on progressive social programs.

Brazil’s economy is defined by deeply entrenched inequality. It’s a country known for favelas and billionaires. According to Forbes analysis, Brazil is home to dozens of billionaires, including Roberto Irineu Marinho, Joao Roberto and Jose Roberto Marinho, who together control Latin America’s largest media empire, Globo, and have a combined net worth is over $28 billion. The company reported 1.2 billion in profit in 2013. According to Forbes’ research, “As the country’s surging wealth is creating more millionaires and billionaires than ever before, rich families are holding onto a big piece of the pie. Out of the 65 Brazilian billionaires listed by FORBES in our latest World’s Billionaires list, 25 are blood relatives. Eight families have multiple members among our latest rank.” Jorge Lemann, the partial owner of Anheuser-Busch InBev, has a net worth of $22 billion. He is the 30th wealthiest person in the world. Brazil’s fifteen richest families have a combined net worth of $122 billion, a sum that is only slightly lower than Ecuador and Costa Rica’s combined annual economic output.

But, while it is easy to point to expensive World Cup stadiums or Brazil’s long list of billionaires and make contrasts with the millions of the country’s residents who still live in extreme poverty, such comparisons fail to acknowledge the tremendous success that Brazilian policymakers have had in eradicating poverty over the last decade. According to a recent report from the UN Center for the Latin America and Caribbean (ECLAC), in 2005 38 percent of Brazil’s population lived below the poverty line. Fast forward to 2012 and that poverty figure dropped to 18.6 percent of the population. In other words, since 2005 Brazil has effectively reduced the number of its citizens living poverty by more than half. By contrast, Mexico, a country whose politicians are more focused on exports and competitive wages, actually saw poverty increase during this same time period, according to the ECLAC data. Chile, a country long-praised for its economic development policies, saw a much smaller decline in poverty during this same period. In Chile poverty fell from 13.7 percent in 2005 to 11 percent in 2011. Latin America is the world’s most unequal region, and Brazil in particular is known for its colonial history that revolved around cash crop exploitation and helped foster the establishment of a deeply divided economy of ultra-rich and ultra-poor residents. In the controversy over the World Cup, Brazil’s tremendous recent success in reducing poverty has somehow been ignored.

Jason Marczak, a Latin America expert from The Atlantic Council in Washington D.C., told me “Criticism of stadium cost overruns is actually a shout across the bow that the citizenry of the new Brazil, a more middle class Brazil, demands greater transparency and a new more responsive state model.” As Brazil’s national soccer team takes to the field, the world should also take a moment to recognize the success of the country’s progressive policymakers.

“Brazil has made impressive achievements in socioeconomic growth in the last decade with tens of millions of people moving from poverty into the middle class,” Marczak added.

For fun, I gathered together some data from the World Bank and United Nations, and compared Brazil to the other Latin American countries competing in the World Cup. I pulled together data on Foreign Direct Investment (Per Capita), GDP per capita, current poverty levels, poverty reduction since 2005, total number of billionaires, and each country’s World Bank Doing Business ranking. These metrics illustrate the relative strength of the nine Latin American countries competing in the World Cup, and also show how successful each country has been at translating economic success into poverty reduction. After ranking the countries in each category, I then created an aggregated score.

See here for the results of my Copa Mundial economic run-off.

Follow me on Twitter: @LatAmLENS.

Exclusivo: O Plano para a Implementação do Comunismo no Brasil é real

23 jun

Por volta das 10 da noite de ontem, um grisalho senhor com um pesado casaco preto e uma elegância parada no tempo tocou a minha campainha. Falando em nome de uma antiga fonte que nunca me deixou na mão, funcionário de carreira no Congresso Nacional, ele me entregou um envelope pardo. Disse apenas: “seu nome é citado, então faça o que achar melhor”. Depois entrou no táxi, que impacientemente o esperava, e sumiu.

Encontrei um documento rasgado em vários pedaços e recomposto com a ajuda de muito durex. Datava da semana passada. Este surpreendente pedaço de papel que sobreviveu à tentativa de destruição merece nossa atenção. Sim, os paranóicos tinham razão.

Digitei o que pude – algumas partes estão mal impressas e de difícil compreensão – e publico aqui o conteúdo. Pensei muito nos impactos desse vazamento. Mas acho que nós, jornalistas, temos como principal compromisso a verdade, mesmo que ela signifique o fim da nossa carreira.

Gaste alguns minutos com ele. Se não for por você, que seja por seus filhos e netos.

Plano para a Implementação do Comunismo no Brasil
Etapa 12 – Andamento

Cópia para leitura. Não xerocar ou escanear.

1) Até agora as elites não perceberam que o mascote da Copa é, na verdade, uma peça de nossa propaganda revolucionária. As Forças Unidas para o Levante Ecumênico e Comunista dos Oprimidos (Fuleco) e seu símbolo maior, o nacionalista tatu-bola, estão entrando nas corações e mentes das gerações mais novas na forma de pelúcias de baixo custo. Registro, contudo, a preocupação dos colegas intelectuais da USP de que teremos que fazer, mais para frente, uma outra campanha associando o Fuleco às Fuleco, porque o povo também não compreendeu nada.

2) Nosso representante na Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação conseguiu inserir a proposta aprovada na etapa 10. A partir do ano que vem, todos os livros didáticos e paradidáticos terão, obrigatoriamente, uma foice e um martelo em alguma de suas fotos, gravuras ou desenhos. Não necessariamente juntos, o que deve ser pensado para a etapa 17.

3) Em reunião com as secretarias de assistência social não houve resistência à proposta de que os cobertores do tipo seca-poço, distribuídos a pessoas em situação de rua durante o inverno, sejam da cor vermelha. A justificativa é de que eles sujam menos que os tradicionais cinza-claro.

4) Temos constatado bons índices de execução da tarefa 47-B por parte dos companheiros médicos cubanos. Eles estão cantarolando ou murmurando a Internacional Socialista durante os atendimentos clínicos, incutindo uma mensagem subliminar na população. Por sugestão de Don Ramón, iremos expedir um ofício solicitando que o cantarolar seja em português – uma vez que parte significativa dos pacientes têm perguntado se a música é da Shakira.

5) A companheira disfarçada de senadora ruralista pergunta até quando terá que permanecer com a dupla identidade. Ela tem sido mais assertiva nas reclamações do chauvinismo por parte de certos parlamentares da base aliada e da oposição. Pedimos a ela paciência, uma vez que vem fazendo um extraordinário trabalho na formatação da guerrilha de fundamentação maoísta. Já contamos com 12 células na zona rural e uma na Floresta da Tijuca.

6) O companheiro Sakamoto pediu mais para continuar escrevendo. Faremos um crowdfunding na segunda semana de julho a fim de destinar recursos a ele.

7) A proposta para substituir o Poder Legislativo paulatinamente por um conjunto de comitês revolucionários alinhados com esta comissão está em curso. Aproveitando as reivindicações pequeno-burguesas das jornadas de junho do ano passado, nosso homem na Secretaria Geral da Presidência da República propôs um decreto ampliando “instrumentos de participação social”. Alguns mais espertos no Congresso perceberam a manobra, mas o estrago já foi feito.

8) Ficamos de aprovar uma moção de alvíssaras aos companheiros que se dedicaram à aprovação do Marco Civil na internet. Sem o seu trabalho de contrainformação nas redes sociais e de “convencimento” junto aos parlamentares, não teríamos hoje pleno acesso a todo conteúdo produzido pelo inimigo – o que é fundamental para o desenvolvimento do plano. Se ninguém se opuser, os nomes desses homens e mulheres digitais ficarão talhados em pedra no Memorial da Revolução, a ser construído oportunamente.

9) O companheiro Joaquim Barbosa informa que cumpriu com êxito as tarefas a ele incumbidas nos últimos anos e agora deve submergir até a revolução para não provocar suspeitas.

10) Don Ramón também informa que a “Moça” está quase pronta. Depois de nove cirurgias plásticas em Pequim e de quatro anos de treinamentos para aprender os hábitos, histórias e o gênio ruim de Dilma Rousseff, falta muito pouco para o momento da “troca”. Seguindo o planejamento da etapa 2, a mudança deve ser feita em uma das escapadas de moto que a presidente tem feito de forma anônima na capital. Para evitar que os representantes do setor empresarial, notadamente da agropecuária e da construção civil, sintam a diferença, a “Moça” está instruída a manter a política entreguista por mais seis meses. É prazo mais do que suficiente para que o carregamento de armas norte-coreanas do companheiro Kim Jong-un chegue ao porto de Santos.

Até a vitória, sempre!

 

Blog do Sakamoto

At the World Cup, Doomsday Predictions Give Way to Smaller Hiccups in Brazil

19 jun

SÃO PAULO, Brazil — One stadium would not be ready on time. Another would not be ready at all. Violent street protests would threaten fans and upstage everything. Airport and subway strikes would strand tens of thousands of visitors.

These, and other doomsday predictions, were perpetual concerns in the days leading up to the World Cup in Brazil. But after nearly one full week of games, the situation in South America’s largest country is hardly bleak. For those fans who enjoy eye-popping goals, surprising results and stylish soccer, this tournament has, so far, been an incredible success. The games are enthralling and the drama has been perfect for television.

Yet from a logistical perspective, not all has gone swimmingly, particularly for some people on the ground who may appreciate smaller details like consistent electricity, fully finished stadiums and correctly numbered stadium seats. For them, the early returns on the World Cup are a bit more complex.

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Construction workers putting the finishing touches on Arena Corinthians in São Paulo.CreditAlexandra Garcia/The New York Times

Given that reality, Brazil surely deserves plenty of latitude. But with each of the 12 host cities now having hosted at least one game, it seems that organizers are toeing — if not straddling — the line between normal hiccups and a more irritating lack of preparedness.

The range of problems has been broad. Some have had to do with construction, like the visible electrical wires in São Paulo’s stadium or the workers still installing air-conditioning units and carpeting hours before kickoff in Cuiabá. Some have had to do with employee relations, like the 30 percent of baggage checkers who did not show up for work in Brasilia, leading to spectator gridlock outside the turnstiles. Some have been cosmetic, like the burned-out grass in Manaus, which led workers to spray-paint patches of the field green.

None of it has been wholly detrimental — the games have all gone on as scheduled — yet each day has brought a new bump which, in many cases, is something one would never imagine as a potential problem. On Sunday in Porto Alegre, for instance, the stadium’s sound system failed as the teams walked onto the field, leaving players from France and Honduras infuriated as they stood around waiting for national anthems that were never played.

“Many players here on the team, it’s their first World Cup,” Roger Espinoza, a Honduran midfielder, said. “Not being able to listen to the national anthem, I think, is kind of like disrespectful in a way.”

France ended up winning the game, 3-0, but the glitch still stung. “The only thing that frustrated me,” said the French midfielder Antoine Griezmann, “was the absence of ‘La Marseillaise.’ ”

Brazilian organizers have been a mixture of defensive and apologetic about the mishaps. Andrés Sánchez, a former president of the São Paulo club Corinthians who was involved in the construction of the new stadium, said in an interview that Arena Corinthians had issues because “Corinthians started a year and a half later than the other arenas and we also had the accidents that unfortunately delayed the work a little longer.”
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Visible electrical wires in São Paulo’s Itaquerão stadium.CreditAlexandra Garcia/The New York Times

He added: “Then we had also some normal delay.” Asked to elaborate on what “normal delay” means, he referred to typical Brazilian bureaucracy and said, “We want the best — unfortunately it is not possible to satisfy everyone.”

To be fair, luck is always a factor in these spectacles. Any big event can have an unseen slipup, as the N.F.L. learned in 2013 when the Super Bowl was delayed for nearly an hour after a blackout plunged the Superdome in New Orleans into darkness. By comparison, the bank of lights that went out at São Paulo’s stadium during the World Cup opening match was a minor blip.

Yet there have also been plenty of avoidable issues. Some fans attending games at Arena das Dunas in Natal received emails informing them that they would need to exchange their tickets for new ones because a portion of the seats at the stadium had not been installed.

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Construction workers installing glass at the Arena da Baixada stadium in Curitibá.CreditHenry Romero/Reuters

Then again, at least they were told ahead of time. Ian Greenfield, a lawyer from southwest London, showed up at Arena da Amazônia for England’s game against Italy in Manaus with a group that had purchased four tickets in the same row: Seats 13 to 16.

When they arrived, alas, they quickly realized that their assigned row was numbered only up to 15 before the numbering started over at 1. “They sold a ticket that didn’t have a seat,” Greenfield said.

Hungry fans in Manaus were also out of luck because many concession stands either ran out of food early in the match or had nothing on sale at all. That was similar to the situation at the first game here, where many Mexico fans attending the match against Cameroon went to merchandise booths but found no merchandise for sale. That game was also played in a downpour, leading some spectators to pose for photographs alongside an unexpected waterfall that was created when the roof next to a concession stand sprang a significant leak.

“This is not acceptable,” Saint-Clair Milesi, the head of the local organizing committee, said of the fireworks. “We are discussing how to become even more rigorous.”

As is often the case, the overall impact of the logistical concerns is debatable. In general, the playing conditions for most of the matches have been excellent, which, in cities like Natal and Salvador — where the fields were battered with unusually heavy rain — was a testament to the quality of the drainage systems. Ultimately, this is the most important priority since it is the games that generally define an event’s historical legacy.

That was the perspective Tony Morgan opted to take as he surveyed the situation in Manaus. “It’s a great view, a great setting,” said Morgan, an English engineer who lives in Australia. “I don’t think it detracts from the game.”

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