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A irracionalidade da destruição de Lula

16 set

 

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Por Leonardo Attuch

Rotulado pelo Ministério Público como “comandante máximo da propinocracia”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda ocupa um outro espaço no imaginário do povo brasileiro. Lula é, para milhões e milhões de brasileiros, o presidente que mais atenção dedicou aos mais humildes, com programas como o Fome Zero, o Bolsa-Família, o ProUni e tantos outros. Não por acaso, deixou o Palácio do Planalto com 80% de popularidade, um índice inédito de aprovação popular.

Se os pobres ficaram satisfeitos com o primeiro governo na história do Brasil conduzido por um autêntico representante do povo, e não das oligarquias, o mesmo se pode dizer dos mais ricos. Sob Lula, a economia brasileira viveu seu período de maior prosperidade, dentro de uma democracia. O Brasil se tornou a sétima economia global, acumulou mais de US$ 300 bilhões em reservas e atingiu o chamado “grau de investimento” – o que permitiu que os grandes empresários lançassem ações em bolsa e se tornassem bilionários.

Portanto, foi um momento único em que todas as classes sociais progrediram. A tal ponto que Jim O’Neill, criador da expressão BRICs (usada para designar o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China), definiu Lula como o mais importante líder político do mundo nos últimos 50 anos. O cantor Bono Vox afirmou que Lula era um patrimônio do mundo – e não apenas do povo brasileiro. E Barack Obama, com uma indisfarçável inveja, o definiu como “o cara”.

Paralelamente, o prestígio de Lula irradiava para as empresas brasileiras e para o País como um todo. Em menos de dois anos, sob seu governo, o Brasil conquistou o direito de sediar os dois maiores eventos do esportivos do planeta: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Revistas internacionais de grande prestígio, como a Foreign Affairs, apontavam a emergência de uma nova potência global, cujas empresas ocupavam espaços na África, na América Latina e mesmo nos mercados mais desenvolvidos.

Bons tempos, em que o Brasil, mais do que respeitado, era admirado por todos. No entanto, de repente, tudo começou a desmoronar desde que foi colocado em marcha o projeto de destruição do maior líder popular da história do País, sob os mais variados pretextos. Para uns, Lula era “populista”, quando, na verdade, era apenas popular. Para outros, era “bolivariano”, quando tão-somente enxergava valor, para as próprias empresas brasileiras, nos processos de integração sul-americana. Para outros, era antiamericano, quando era nacionalista.

Aos movimentos orquestrados pelas forças políticas derrotadas nas últimas quatro eleições presidenciais, se somou um ingrediente destrutivo: o preconceito de parte da elite brasileira, que, complexada, não se reconhece em seu próprio povo. Um dos primeiros sintomas desse mal-estar foi a clássica coluna de Danuza Leão, que afirmou que não tinha mais graça ir a Paris, porque era possível dar de cara com o porteiro do seu prédio. A igualdade começava a incomodar.

Quando o porteiro viajava, no entanto, as companhias aéreas vendiam mais bilhetes. Se os porteiros financiavam carros, apartamentos e iam às compras, expandia-se o mercado da própria elite empresarial brasileira. O pobre, como dizia Lula, não era mais problema. Era a solução, desde que fosse incorporado ao mercado de consumo. E assim mais de 30 milhões de brasileiros saíram da miséria.

Nos últimos dois anos, desde que o Brasil foi paralisado por uma guerra político-judicial que não se esgotou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, e que tem agora como segundo objetivo o impedimento preventivo de Lula, só se viu destruição no Brasil. As empresas de engenharia, que disputavam mercados globais, foram arruinadas. Distribuidoras de energia estão sendo vendidas para grupos chineses, sob aplauso das autoridades. E os donos do maior grupo exportador brasileiro, a JBS, tiveram que depositar R$ 1,5 bilhão em juízo, simplesmente para terem o direito de entrar na própria empresa.

Tempos estranhos, em que se alardeia a “volta da confiança” empresarial, num país onde as vendas desabam, a arrecadação vai ao fundo do poço e nada menos que 14 entes da federação anunciam estar prestes a decretar estado de “calamidade pública”.

Talvez nunca se saiba se esse processo foi orquestrado de fora para dentro ou de dentro para fora. Mas o Brasil poderá entrar para a história como o primeiro país do mundo que aceitou passivamente a sua própria autodestruição, num processo autofágico e irracional.

Se todos perdem, sejam eles ricos, pobres ou remediados, a quem interessa essa situação? Aos grupos internacionais, que poderão comprar o Brasil e suas reservas de petróleo (entre as dez maiores do mundo) a preço de banana, certamente. Aos Estados Unidos, que se livram de uma potência emergente no continente, também.

Aos grupos de comunicação que apoiaram o golpe? Em parte. Basta notar que a Folha acaba de fechar sua sucursal do Rio de Janeiro, encerrar sua cobertura de esportes e vender por R$ 20 milhões metade do Valor Econômico para a Globo – um projeto onde foram investidos mais de R$ 300 milhões. E mesmo à Globo, por maior que seja seu domínio midiático no Brasil, já não convém ser associada a dois golpes de estado em pouco mais de 50 anos e reinar num país onde haverá cada vez menos anunciantes públicos e privados.

O fato é que, para destruir Lula, uma parte da elite empresarial, política e burocrática do País decidiu destruir o próprio Brasil, que talvez não resista como nação depois desse processo. Afinal, como se resolve um impasse onde milhões foram levados a desejar a prisão de Lula e outros tantos milhões querem reconduzi-lo à presidência da República?

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247, além de colunista das revistas Istoé e Nordeste

Guia prático de destruição do capitalismo

5 set

Vamos dar uma pequena contribuição à escalada de manifestações no Brasil no mundo com um pequeno “Guia Prático de Destruição do Capitalismo” mostrando que o verdadeiro inimigo não está nas vidraças de agências bancárias ou nas lanchonetes símbolos da globalização, sempre alvos de depredações. Está na financeirização e liquidez do capital, símbolos da força e, paradoxalmente, também da fraqueza de um sistema baseado apenas na credibilidade através da nossa participação a cada compra a prazo ou quando pagamos através da socialização dos prejuízos das explosões das bolhas financeiras. E a única forma de libertação existente é através daquilo que o filósofo francês Jean Baudrillard chamava de “aprofundamento irônico e proposital das condições negativas”.

And when we kiss we speak as one
With a single breath this world is gone
(Everyone Everywhere, New Order)

Desde o crash da Bolsa de Nova York em 1929 quando quase tudo derreteu e foi para o ralo, o capitalismo aprendeu que a força do capital não estava na exploração local da força de trabalho, mas na industrialização e mercantilização como modelo de vida social para ser expandido de forma sistêmica e planetária. Isso foi conseguido por meio da publicidade, mídia e financeirização do capital. Isso não evitou as crises, que se tornaram cada vez mais periódicas (longos ciclos de prosperidade acompanhados por crises e explosões de bolhas especulativas).

Porém, essas “crises” transformaram-se em momentos de realização de lucros: bolhas

especulativas explodem como forma de chantagem, obrigando o Estado a socorrer o sistema injetando dinheiro para que papéis, títulos e ações voltem a ter lastro, mantendo a credibilidade sistêmica dos negócios. Em outras palavras: enquanto o lucro é privatizado a crise é socializada – todos os contribuintes pagarão a conta através dos impostos, o que criará um novo “ciclo virtuoso”.

Acompanhando as análises do funcionamento do capital feitas por Karl Marx no século XIX, muitos economistas acreditavam que o capitalismo estaria cavando sua própria sepultura e que o crash de 1929 seria a confirmação final das previsões marxistas. Mas o capital transformou-se em “capitalismo tardio”, sistêmico, midiatizado e de extrema liquidez. Transformou-se em uma entidade multiforme, sempre procurando novas oportunidades, principalmente após a queda do bloco comunista no final da década de 1980 e a radicalização das políticas neoliberais de privatizações que se seguiram onde as possibilidades de mercantilização e industrialização invadem novos territórios até então inexplorados: saúde, educação, água e quem sabe até o ar… tudo, qualquer coisa pode transforma-se em oportunidades de oferta de serviços e negócios.

Diagnóstico: Karl Marx

Marx acreditava que o desenvolvimento capitalista acirraria as suas próprias contradições internas que conduziriam ao estágio econômico mais elevado: o comunismo. Sinteticamente podemos apresentar o seguinte diagnóstico feito por ele: O capital viveria uma contradição entre o crescimento das forças produtivas (o caráter social do trabalho) e a apropriação privada da riqueza através da expropriação do excedente (mais-valia e lucro). Essa contradição básica produziria uma série de outras como a tendência à taxa decrescente de lucro, crises periódicas de superprodução e anarquia do mercado.

O caráter social do trabalho levaria a uma tendência irresistível de liberação das forças produtivas (inovação tecnológica, automação etc.) que alteraria a composição orgânica do capital (crescimento do capital constante em relação ao variável) e como consequência a queda da taxa de lucro: é impossível extrair mais-valia do “trabalho morto” (máquinas) que começa a substituir o “trabalho vivo” (operários).

Essa contradição entre a produção social e a apropriação privada se manifestaria nas crises cíclicas e na crescente tomada de consciência do proletário da sua condição de alienação em relação às forças produtivas e a necessidade da sua socialização como única alternativa histórica à anarquia da produção e irracionalidade do sistema onde o “morto” se sobrepõem ao “vivo” e o valor de troca se torna mais importante do que o valor de uso e as necessidades reais humanas.

Segunda Opinião: Mandel e o Capitalismo Tardio

A cada crise econômica como a atual que atinge a zona do Euro, revivem-se as profecias de Marx. O problema é que os marxistas confundem a crise financeira com a “crise do capitalismo” prevista por Marx.

O economista Ernest Mandel (1923-1995) mostrou que o capitalismo estava longe de dar o último suspiro. Na sua forma “tardia” criou uma industrialização generalizada e sem precedentes não só para a produção de mercadorias, mas em todos os setores da vida social: produção, lazer, cultura e trabalho (Veja MANDEL, Ernest “Capitalismo Tardio”, série “Os Economistas”, Abril, 1982). Essa industrialização generalizada (que leva a hipertrofia de setores terciários como finanças, comércio, publicidade, mídia, etc.) seria o resultado de uma crise do Capital se valorizar decorrentes das contradições descritas por Karl Marx.

Financeirização: o próprio dinheiro

transforma-se em mercadoria

Por isso o capital expande a lógica da industrialização para outros setores: circulação, consumo, serviços até chegar à financeirização onde o próprio dinheiro transforma-se em mercadoria – na verdade sempre foi, mas na financeirização chega-se ao paroxismo. Suas constantes crises são uma espécie de “destruição criadora”, ironicamente parafraseando o economista austríaco Schumpeter. Complexas e oportunistas engenharias financeiras são elaboradas para nos momentos de “crise” os detentores de papéis, títulos e ações repentinamente sem lastro (na verdade nunca tiveram) chantagearem a sociedade e o Estado por providências que mantenham a credibilidade no sistema.

Por motivos principalmente imaginários a sociedade acabará apoiando esta socialização dos prejuízos – afinal no capitalismo tardio a ideologia da ascensão social não passa mais na esfera do trabalho, da operosidade e da poupança, mas agora se situa no reino da especulação e das oportunidades de negócios “criativos” e de um empreendedorismo nos setores de finanças, serviços e mídia (o próprio cimento ideológico do capitalismo tardio).

Profilaxia: matando o paciente – Jean Baudrillard

O pensador francês Jean Baudrillard foi certamente aquele que melhor compreendeu como o capitalismo deixou em segundo plano os signos da produção para privilegiar os simulacros e simulações da circulação (informacional e financeira) e consumo. Principalmente na sua obra As Estratégias Fatais onde mostra como o capitalismo torna-se sistêmico e, por isso, regido pela lógica fatal de todos os sistemas: entropia, reversibilidade irônica e hipertrofia.

Se quizermos fazer um guia prático de destruição do capitalismo as estratégias necessariamente devem passar por esses conceitos. Em outras palavras, assim como o terrorismo compreendeu bem cedo que toda ação política deve se voltar para o campo da circulação e do consumo através de práticas de impacto midiático e de criação de pânico em redes de comunicação, da mesma forma as táticas de destruição do capitalismo devem abandonar o campo da produção seja política ou econômica – sindicatos, greves, partidos políticos etc.

Portanto vamos extrapolar as “estratégias fatais” de Baudrillard e transformá-las em táticas de destruição e sabotagem. Nada de passeatas, depredações, carros e pneus incendiando em meio a balas de borracha e coquetéis molotov. Essas táticas nada mais são do que espetáculos midiáticos, assim como os atentados terroristas, facilmente incorporados às grades de programação das mídias como mais uma atração. Vontade de espetáculo e de ilusão.

Como dizia Baudrillard, só existe uma forma de liberação existente: o “aprofundamento das condições negativas”, estratégia irônica de esgotar o sistema levando-o ao excesso. Vamos aplicar esse princípio no nosso Guia:

1 – Paroxismo do Consumo

Certa vez um amigo trotskista nos tempos de faculdade falou para mim: “se Marx dizia que o Capitalismo produzia suas próprias contradições que levarão ao seu fim, então devemos consumir cada vez mais para acelerar essas contradições.” Na época pensei “que pequeno burguês!”. Mas à luz do pensamento baudrillardiano passa a ter sentido como tática de levar o consumo ao paroxismo, isto é, ao aprofundamento e excesso.

Se de uma forma uníssona e combinada acelerarmos o consumo até o limite da irresponsabilidade financeira pessoal entrará em ação as tradicionais medidas de política monetárias de aumento dos juros para evitar o “aquecimento” da economia, sob a justificativa que o aumento do consumo gera pressão inflacionária. O problema é outro: na extrema financeirização e liquidez o dinheiro desaparece e torna-se fictício – números e dados em telas de terminais de redes financeiras. O aquecimento econômico pode colocar em xeque o domínio da financeirização com a demanda por mais dinheiro em circulação. É claro que isso é mitigado com cartões de crédito e débito e o incentivo por compras a prazo através da financeirização do próprio consumo.

Portanto, compremos à vista. Torremos nossas economias em compras e em dinheiro vivo! Por isso será necessária uma segunda tática, a seguir…

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