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A INTERNET CRIA UM LEITOR MAIS BURRO E MAIS VIOLENTO

3 fev

A Internet cria um leitor mais burro e mais violento

Este romance parece ter nascido de um impulso. Foi assim?

Sim, um pouco por uma urgência que veio de uma observação política. Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual.

O estudante de chinês, protagonista do romance, encerra essa contradição.
Sim, foi quando comecei a imaginar esse discurso.

É esse estudante que diz que “a contradição é a força e a fraqueza da democracia”. O livro interroga-se sobre o que acontece quando se acaba com o contraditório no discurso. Também no discurso ficcional?

Claro. A grandeza da democracia é que se pode conviver com a contradição e essa contradição não precisa de ser eliminada, faz parte da estrutura social. Nas sociedades autoritárias não existe contradição, existe uma deliberação única de uma fonte única. Uma vez entrevistei o Lévi-Strauss e ele dizia que a grandeza e a fraqueza das sociedades ocidentais é que elas trazem dentro um gene suicida. A sua grandeza é mostrar a própria vulnerabilidade. Mas ao mesmo tempo possibilita muitos extremismos. Como é que uma sociedade que defende os direitos humanos faz o que faz com os palestinianos, por exemplo? Há muitas contradições internas que enfraquecem o próprio discurso da democracia. É aí que está a força desse mundo que se deixa contaminar, se expõe à contradição. Isso é incrível, mas muito difícil de manter. Vejo uma espécie de oportunismo generalizado de apropriação dos discursos, o que é muito assustador. O livro não apresenta solução; é o retrato dessa perplexidade e desse incómodo; dessa impotência perante a apropriação dos discursos que antes estavam bem definidos.

O discurso está sempre em forma de monólogo. Essa escolha pretende sublinhar uma ilusão de diálogo?

É outra urgência. Não há a fala de um interlocutor. Expressa a ideia da Internet, um lugar de espelho em que se acha que se está numa relação com o outro e na verdade se está sempre a reproduzir o mesmo. É quase uma relação narcisista.

Falta o contraditório?

Exacto. Tudo o que é contradição você apaga. Parece que há abertura ao outro mas só se procura o mesmo. Posso aprender algumas coisas, mas estão sempre dentro de uma circunscrição que já domino por antecedência. É uma espécie de espaço hedonista e isso é muito perverso porque a partir do momento em que se entra nisso é como uma droga; é uma fonte de prazer absoluto e elimina qualquer necessidade de esforço, de contradição.

Ilusão de companhia, ilusão e conhecimento; ilusão de opinião; ilusão de informação e ao mesmo tempo uma crítica ao modo como o discurso jornalístico está a reagir a esse novo espaço, recusando o seu papel de mediação; ilusão sobre a capacidade do discurso actual para reflectir a realidade actual. Ou seja, há uma incapacidade de comunicar?

Acho que sim. Parece que com esta proliferação de opiniões todo o mundo passou a se expressar e no final talvez não haja muita diferença entre os milhões de opiniões; elas acabam no lugar-comum.

É a tal reprodução de que fala o título?

É. Mas iludida. As opiniões são insatisfatórias. Isso é estranho. Dá uma sensação de incompletude, de uma opacidade que não permite que se enxergue o mundo de verdade. E é infinito.

Qual é a sua relação com a Internet?

Sou viciado. Não passo dez minutos fora da Internet. Sou um doente. Quis dar a perspectiva crítica de uma situação na qual estou realmente perdido.

Voltando ao discurso jornalístico que também conhece e que põe aqui em causa: os jornais e os meios de informação que têm função de mediar a realidade passaram a ser decididos pelos leitores, com o mercado a definir conteúdos e o leitor a transformar-se em decisor. Se o leitor não gostar, o jornal não dá.

É muito perverso. O princípio seria mais democrático. Questiona-se a autoridade do jornal porque tem na origem um interesse económico preciso. A ideia é que a Internet pulveriza essa autoridade dos media, o que parece bom, dá um sentido de democratização à informação, mas perdem-se noções de hierarquia, padrões, modelos, e é difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo se não houver um parâmetro… Esses parâmetros perderam-se na barafunda de opiniões e de informações e acreditamos em absolutamente tudo o que se publica na Internet. Tudo o que surge na Internet vira facto. Talvez isso estivesse nos media, mas lá há mediação, uma auto-censura que não permitia reproduzir qualquer coisa. Isso põe muitas coisas em causa, sobretudo a ideia da verdade, é como se fosse uma segunda natureza.

Uma verdade absoluta?

Exactamente.

Há uma interrogação sobre a função do romance quando uma personagem questiona o género e o remete para um lugar de facilidade, que não reflecte nem reage à realidade. Este romance tem também o propósito de mostrar ser o contrário dessa ideia?

Eu não tenho qualquer tipo de crença, não acredito em Deus, mas tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que, de alguma forma, se pode chegar à verdade por meio da literatura e da ficção literária. Acho que a verdade só pode ser alcançada de uma maneira indirecta, transversal, mediada, e vejo a literatura como uma forma de reflexão muito sofisticada. Uma forma não só de retratar a realidade, ou de ser reflexo da realidade, mas também de aceder à verdade. Com a Internet isso foi pelo ar, não há ironia na Internet. É sempre um discurso de primeiro grau. Cria leitores iletrados para a literatura, para a ironia, para a reflexão.

A Internet muda o leitor?

Muda, mas para um leitor mais burro e mais violento. É o mesmo leitor que não suporta ver uma caricatura do profeta Maomé, que a ficção possa ser uma reflexão sobre a realidade e não a própria realidade. Acho assustador esse leitor que a Internet incentiva, sem instrumentos para entender a ironia e o distanciamento. A ideia de romance que defendo é uma resistência a essa facilidade, a essa naturalidade da Internet. O romance, como o entendo, é um instrumento de guerra contra a percepção naturalista do texto em geral, como se a letra fosse necessariamente a verdade e não uma reflexão sobre o mundo. Faço isso ao mesmo tempo que brinco, que vou dizendo coisas de que discordo com muita convicção. Quanto mais eu dizia coisas horríveis, mais prazer eu tinha, mais feliz eu ficava. O facto de no livro o discurso da resposta estar em elipse criou um mecanismo estranho na minha cabeça, uma espécie de automatismo; eu ia escrevendo aquilo como se fosse um vómito, e foi com muito prazer.

Tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que se pode chegar à verdade por meio da literatura

O modo como o faz torna difícil distinguir autor de personagem. Alguma vez sentiu essa colagem de identidade?

A aventura e o risco eram justamente esses, me confundir. Eu queria criar essa dificuldade, essa personagem que não era absolutamente a caricatura do meu oposto, mas me confundia nessa voz horrível. Há um pouco de autobiografia, ele diz algumas coisas em que acredito, e também estudei chinês ao longo de seis anos, também tive uma professora como a dele. E ele vai perdendo a ironia, o riso se esvai numa espécie de desconforto e mal-estar. Nos discursos do horror é difícil detectar fronteiras. É aí que está o horror. Tudo vem da inabilidade de discernir onde está o bem e onde está o mal.

Já escreveu muito sobre o Oriente, volta lá agora para encontrar o sítio de que se tem medo, o sítio da língua do futuro, sem memória, sem passado. Porquê?

Há uma personagem que refere um livro que fala do desaparecimento das línguas e que diz que quantas mais línguas houver no mundo menos chances há de o ser humano desaparecer, e que quanto menos línguas houver mais o ser humano fica vulnerável. Eu queria falar de uma certa pasteurização pela língua, e o chinês seria essa língua hegemónica. Podia ser o inglês, mas escolhi o chinês porque era uma língua periférica para o Ocidente e ganhou hegemonia. Hoje é uma língua do poder. Há a ideia da língua absoluta, que se impõe e vai destruindo as outras, tornando o homem mais vulnerável pela falta de diversidade, de variedade. O português fez isso com as línguas indígenas. O Brasil tinha centenas de línguas que foram desaparecendo.

O estudante diz: “o que eu estou querendo dizer só pode ser dito na língua do futuro”. Sendo escritor, esta incapacidade da língua em relação ao presente de que fala inquieta-o?

Ele fala também da língua oral. Como escritor, o que toca mais é a ideia da língua escrita. No Brasil isso é muito peculiar, sendo um país iletrado. Escrevo num país onde não se lê. Isso é muito estranho. Por um lado, há uma coisa interessante, de que pode ser um excelente exemplo o Machado de Assis quando escreveu o Memórias Póstumas de Brás Cubas e passou dos romances mais tradicionais para uma espécie de revolução: ele teve consciência de que não devia nada a ninguém e isso deu-lhe liberdade e a possibilidade de escrever uma coisa incrível e revolucionária. Mas há também uma angústia de fundo: escrever sem leitores, escrever para um mundo que não lê. Toda a literatura brasileira foi feita, desde sempre, com o pensamento de que se está num lugar para o qual não fomos feitos e mesmo assim você continua fazendo, reage a esse mal-estar, a essa não-pertença. No livro há esse desespero de uma língua, de uma escrita feita para um mundo que não quer recebê-la. É como se fosse uma teimosia, uma resistência.

Por Equipe do Blog Publicado 30 de janeiro de 2016 Em Destaques, Literatura

Isabel Lucas. Jornalista.

Rogerio Cerqueira Leite Blog

A comunicação na batalha das ideias

11 jan

A comunicação jamais esteve tão fortemente entranhada na batalha das ideias pela direção moral, cultural e política da sociedade. Reconhecendo o caráter estratégico da produção simbólica nas disputas pelo poder, compartilho da ideia de Jean-Paul Sartre (1994: 23) de que a mídia desempenha os papéis de “servidores da hegemonia e guardiães da tradição”. Ocupa posição proeminente no âmbito das relações sociais, visto que fixa os contornos ideológicos da ordem hegemônica, elevando o mercado a instância máxima de representação de interesses.
Sob alegação de que exerce uma função social específica (informar a coletividade), a mídia não quer submeter-se a freios de contenção e se põe fora do alcance das leis e da regulação estatal. A opinião pública é induzida ao convencimento de que só tem relevância aquilo que os meios divulgam. Não somente é uma mistificação, como permite, perigosamente, a absorção de tarefas, funções e papéis tradicionalmente desempenhados por instâncias intermediárias e representativas da sociedade (sistema escolar, família, partidos políticos, organismos da sociedade civil, etc.). Os grupos de comunicação sentem-se desimpedidos para selecionar as vozes que devem falar e ser ouvidas — geralmente aquelas que não ameaçam suas conveniências políticas e metas mercadológicas.

Essa posição hipertrofiada dos meios tem a ver com a sua condição privilegiada de produtores e distribuidores de conteúdos, tal como fixado por Karl Marx (1997, v. 1: 67): “Transportam signos; garantem a circulação veloz das informações; movem as ideias; viajam pelos cenários onde as práticas sociais se fazem; recolhem, produzem e distribuem conhecimento e ideologia”.

Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci (2000:78) situa a imprensa (o principal meio de comunicação de sua época) como “a parte mais dinâmica” da superestrutura ideológica das classes dominantes. Caracteriza-a como “a organização material voltada para manter, defender e desenvolver a ‘frente’ teórica ou ideológica”, ou seja, um suporte ideológico do bloco hegemônico. Enquanto aparelhos político-ideológicos que elaboram, divulgam e unificam de concepções de mundo, jornais e revistas cumprem a função de “organizar e difundir determinados tipos de cultura” (ib., 32), articulados de forma orgânica com determinado agrupamento social mais ou menos homogêneo, o qual contribui com orientações gerais para exercer influência na compreensão dos fatos sociais.

Ao referir-se à imprensa italiana do início do século XX, Gramsci (ib., 218) situa a ação dos jornais como verdadeiros partidos políticos, na medida em que influem, com ênfases e enfoques determinados, na formação da opinião pública e nos modos de assimilação dos acontecimentos: “Jornais italianos muito mais bem-feitos do que os franceses: eles cumprem duas funções — a de informação e de direção política geral, e a função de cultura política, literária, artística, científica, que não tem um seu órgão próprio difundido (a pequena revista para a média cultura). Na França, aliás, mesmo a função distinguiu-se em duas séries de cotidianos: os de informação e os de opinião, os quais, por sua vez, ou dependem diretamente de partidos, ou têm uma aparência de imparcialidade (Action Française – Temps – Débats). Na Itália, pela falta de partidos organizados e centralizados, não se pode prescindir dos jornais: são os jornais, agrupados em série, que constituem os verdadeiros partidos”. Mas ele ressalva que a imprensa não é o único instrumento de publicização: “Tudo o que influi ou pode influir sobre a opinião pública, direta ou indiretamente, faz parte dessa estrutura. Dela fazem parte: as bibliotecas, as escolas, os círculos e os clubes de variado tipo, até a arquitetura, a disposição e o nome das ruas” (ib., 78).

No artigo “Os jornais e os operários”, de 1916, Gramsci (2005) insiste que os operários devem recusar os jornais burgueses, mantidos por capitais privados, visto que privilegiam as verdades de partidos, políticos e classes dominantes. Para ele, os operários precisam lembrar sempre que “o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por ideias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma ideia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. […] E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador”.

O filósofo italiano reprova o trabalhador que lê regularmente e ajuda a manter com seu dinheiro os jornais burgueses, “aumentando a sua potência” e esquecendo-se de que tais veículos “apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária”. Exemplifica com a cobertura tendenciosa das greves: “Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores”. Assim, o convencimento sobre o irremediável conflito de interesses entre a classe trabalhadora e a imprensa da burguesia justifica a atitude política que Gramsci julga mais consequente: boicotar os jornais vinculados às elites hegemônicas.

Ao retomar mais tarde, nos Cadernos do cárcere, a análise crítica sobre a imprensa, Gramsci assinala que o papel dos jornais transcende, muitas vezes, a esfera ideológica em sentido estrito. Chama a atenção para as determinações econômico-financeiras das empresas jornalísticas, que as impelem a agregar o público leitor para assegurar rentabilidade e influência. Avalia que a imprensa burguesa se move em direção ao que pudesse agradar o gosto popular (e não ao gosto culto ou refinado), com o propósito de atrair “uma clientela continuada e permanente”. A seu juízo, “os jornais são organismos político-financeiros e não se propõem divulgar as belas-letras ‘em suas colunas’, a não ser que estas belas-letras aumentem a receita” (2002d: 40).

Esses componentes socioeconômicos e ideológicos estão na base do que Gramsci denomina de “jornalismo integral”, isto é, o jornalismo que não somente visa satisfazer as necessidades de seu público, “mas pretende também criar e desenvolver estas necessidades e, consequentemente, em certo sentido, gerar seu público e ampliar progressivamente sua área” (2000: 197). O jornalismo integral de Gramsci atua como aparelho privado de hegemonia, na medida em que procura intervir no plano político-cultural para organizar e difundir informações e ideias que concorrem para a formação do consenso em torno de determinadas concepções de mundo.

Aos jornais, segundo Gramsci, interessa conquistar “o leitor em toda a sua concretude e densidade de determinações histórico-políticas e culturais, de motivações éticas, como indivíduo e como expoente de uma associação humana, como depositário de recursos intelectuais latentes e como ‘elemento econômico”, ou seja, precisamente como adquirente de uma mercadoria, de um produto”. Existem aí nexos e remissões entre as dimensões políticas (a intervenção na formação da opinião pública) e econômicas (o caráter empresarial e mercadológico) que incidem na atividade jornalística. Gramsci atribui ao jornalismo integral o exercício de um pressuposto categórico à orientação ideológica hegemônica: “É dever da atividade jornalística (em suas várias manifestações) seguir e controlar todos os novos movimentos e centros intelectuais que existem e se formam no país. Todos”.

Se pensarmos no contexto contemporâneo, poderemos perceber ecos da apreciação gramsciana. Os meios de comunicação elaboram e divulgam equivalentes simbólicos de uma formação social já constituída e possuidora de significado relativamente autônomo. Na essência, o discurso midiático se propõe fixar a interpretação dos fatos por intermédio de signos fixos e constantes que tentam proteger de contradições aquilo que está dado e apareça como representação do real e verdade. Tal discurso interfere preponderantemente na cartografia do mundo coletivo, propondo um conjunto de linhas argumentativas sobre a realidade, aceitas ou consideradas por amplos setores da sociedade. Assume, pois, uma função ideológica que consiste, segundo Chauí (1982: 21), em compor “um imaginário e uma lógica da identificação social com a função precisa de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular, enquanto particular, dando-lhe a aparência do universal”.

O estabelecimento de uma concepção dominante consiste, assim, em “conservar a unidade ideológica de todo o bloco social, que é cimentado e unificado precisamente por aquela determinada ideologia” (Gramsci, apud Gruppi, 1978: 69-70). Do ponto de vista das corporações midiáticas, trata-se de regular a opinião social através de critérios exclusivos de agendamento dos temas que merecem ênfase, incorporação, esvaziamento ou extinção. O ponto nodal é disseminar conteúdos que ajudem a organizar e a unificar a opinião pública em torno de princípios e medidas de valor. Por isso, formar a opinião pública é uma operação ideológica “estreitamente ligada à hegemonia política, ou seja, é o ponto de contato entre a ‘sociedade civil’ e a ‘sociedade política’, entre o consenso e a força” (Gramsci, 2002a: 265). O processo da hegemonia importa, então, disputa pelo monopólio dos órgãos formadores de consenso, tais como meios de comunicação, partidos políticos, sindicatos, Parlamento etc., “de modo que uma só força modele a opinião e, portanto, a vontade política nacional, desagregando os que discordam numa nuvem de poeira individual e inorgânica”.

Daí a importância crucial de se analisarem as formas de convencimento, de formação e de pedagogia, de comunicação e de difusão de visões de mundo, as formas peculiares de sociabilidade, as maneiras de ser coletivas e as clivagens, assim como as contradições presentes em cada período histórico (Fontes, 2008: 145). A referência à difusão de ideias, valores e padrões de comportamento tem a ver com um dos reconhecimentos decisivos no pensamento crítico atual: é no domínio da comunicação que se esculpem os contornos ideológicos da ordem hegemônica e se procura reduzir ao mínimo o espaço de circulação de ideias alternativas e contestadoras — por mais que estas continuem se manifestando e resistindo. A meta precípua é esvaziar análises críticas e expressões de dissenso, evitando atritos entre as interpretações dos fatos e os modos de entendimento por parte de indivíduos, grupos e classes.

Sem esquecer a constante reverberação do ideário dominante nos canais midiáticos, devemos reconhecer que fatores mercadológicos, socioculturais e políticos repercutem de alguma maneira na definição das programações. Um dos traços distintivos da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é a sua capacidade de processar certas demandas da audiência. Os meios não vivem na estratosfera; pelo contrário, estão entranhados no mercado e dele dependem para suas ambições monopólicas. Do mesmo modo, precisam ter seus radares permanentemente ativados para captar sinalizações, insatisfações e carências. E com isso preencher vácuos abertos, antecipar tendências, criar modismos, atenuar variações e repensar aproximações. Decisivo não perder de vista que tais deslocamentos devem ocorrer, o máximo possível, dentro das margens de controle delineadas por estrategistas e gestores corporativos.

É impossível conceber o campo midiático como um todo harmonioso e homogêneo, pois está atravessado por sentidos e contrassentidos, imposições e refugos, aberturas e obstruções. Daí a existência de entrechoques de concepções que se enfrentam e se justapõem em diferentes circunstâncias históricas. É um campo atravessado por contradições, oscilações de gostos, preferências e expectativas. Enquanto mediadora autoassumida dos desejos, a mídia tenta identificar indicações do cotidiano e eventuais alternâncias de sentimentos que podem incidir em predisposições consensuais ao consumo. Para tentar sintonizar-se com essas demandas, os veículos procuram substituir formas disciplinares clássicas por um marketing mais macio e persuasivo, capaz de seduzir consumidores de diferentes estratos sociais e somar capitais publicitários, patrocínios e audiências. Ainda que prescrevam fórmulas e juízos, não há dúvida de que, em maior ou menor grau, absorvem, essencialmente por razões de mercado, determinadas inquietações do público. Quando as incorporam em suas programações, fazem-no de acordo com suas escalas interpretativas, sem deixar de avaliar intenções concorrenciais. Seria, portanto, um equívoco ignorar injunções que se alojam nas diretivas dos veículos e em seus perfis específicos e fisionomias competitivas.

O aparato midiático tem que atualizar programações e ofertas para assegurar máxima fidelidade possível da audiência, em consonância com suas conveniências estratégicas. O que não quer dizer que as atualizações resultem em qualidade editorial ou pluralidade real de pontos de vista. O fulcro de grande parte dos ajustes é seguir modelando comportamentos e consciências, bem como influenciando agendas públicas e privadas. Busca-se incorporar peculiaridades socioculturais a determinados produtos e serviços, de modo a usufruir vantagens simbólicas associadas ao trabalho de conversão de identidades à lógica consumista.

Em paralelo, a exploração de brechas dentro das corporações midiáticas não deve ser descartada como recurso tático na resistência ao pensamento único. Claro que a grave assimetria comunicacional — uma parte ínfima da sociedade é proprietária dos veículos, enquanto a coletividade é apenas destinatária — impõe limitações e obstáculos. Mas não impede que sejam desenvolvidas algumas ações criativas no interior das organizações, conseguindo-se, às vezes, veicular materiais informativos que contrastam com o edifício ideológico construído por seus proprietários.

Existem, simultaneamente, pontos de resistência aos discursos hegemônicos que abrem horizontes de enfrentamentos de pontos de vista. A começar pelos meios alternativos de comunicação, impressos, eletrônicos ou virtuais, que se contrapõem aos modelos e crivos midiáticos. Eles procuram disseminar ideias que contribuam para a elevação da consciência social, o exercício da crítica e a intensificação do debate sobre possibilidades de transformação do mundo vivido. De igual maneira, é essencial a reivindicação de políticas públicas que possam coibir monopólios e oligopólios e conter a obsessão comercial das indústrias culturais, ao mesmo tempo estimulando a produção audiovisual independente, as mídias comunitárias e a organização cooperativa em redes e coletivos de comunicação, bem como assegurando o controle social democrático sobre empresas concessionárias de licenças de rádio e televisão.

Em qualquer dos cenários, não podemos alimentar falsas ilusões no enfrentamento do poderio midiático. Seria grave erro subestimar a agressividade ideológica, a penetração social e a eficiência mercadológica das organizações de mídia. Trata-se, isto sim, de conceber estratégias criativas e consistentes de difusão e pressão, que se traduzam na ocupação de espaços táticos na sociedade civil por meios alternativos, bem como no interior das corporações. O objetivo primordial é desenvolver dinâmicas informativas que reverberem visões de mundo comprometidas com a efetiva liberdade de expressão, o pluralismo e os direitos da cidadania. Essa ação ideológico-cultural precisa inserir-se no plano geral de lutas sistemáticas para debilitar as estruturas da dominação exercida pelas classes dominantes e alcançar, progressivamente, novas condições concretas de hegemonia que priorizem a justiça social e a diversidade.

Dênis de Moraes – Abril 2009

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Dênis de Moraes é professor da UFF. Este texto é parte do ensaio “Imaginário social, hegemonia cultural e comunicação”, incluído no seu novo livro, A batalha da mídia. Rio de Janeiro: Pão e Rosas, 2009.

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Referências bibliográficas

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 1982.

FONTES, Virginia. “Intelectuais e mídia — quem dita a pauta?”. In: COUTINHO, Eduardo Granja (Org.). Comunicação e contra-hegemonia: processos culturais e comunicacionais de contestação, pressão e resistência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Org. de Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999 (v. 1), 2000 (v. 2), 2002a (v. 3), 2001 (v. 4), 2002c (v. 5) e 2002d (v. 6).

———-. Cartas do cárcere (v. 2: 1931-1937). Org. de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005a.

———-. Escritos políticos. Org. de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004a (v. 1: 1910-1920) e 2004b (v. 2: 1921-1926).

———-. “Os jornais e os operários”, disponível em Arquivo marxista na Internet, 2005.

GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos (3 v.). São Paulo: Edições Sociais, 1977.

MORAES, Dênis de (Org.). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

———-. Cultura mediática y poder mundial. Buenos Aires: Norma, 2006.

OTTOLENGHI, Franco. “Jornalismo”, em Gramsci e o Brasil.

SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Por que a direita anda mais raivosa do que nunca? por Antonio Lassance

20 jun

Charge de Vitor Teixeira

Faz tempo que as campanhas eleitorais são espetáculos dantescos, movidos por baixarias sem limites. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral fica muitas vezes cuidando da perfumaria, os dinossauros reinam.

Mas há algo de novo nesta campanha.

A começar do fato de que boa parte da perversidade de campanha seguia, antes, o seguinte roteiro: denúncias na imprensa, primeiro em jornais e revistas, que depois se propagavam na tevê e no rádio e, finalmente, ganhavam a rua pela ação dos cabos eleitorais.

Agora, o roteiro é: denúncias pela imprensa, mas divulgadas primeiro via internet; propagação pelas redes sociais; repetição pela tevê e pelo rádio e, por último, sua consolidação pelo colunismo e editorialismo da imprensa tradicional.

Embora essa imprensa ainda seja, normalmente, a dona da informação, seu impacto é cada vez menos medido pela audiência do próprio meio – que anda em declínio em praticamente todos os veículos tradicionais – e mais pela sua capacidade de propagação pela internet – blogs, redes sociais e canais de vídeo, principalmente pelo Youtube. E a versão que se propaga da notícia acaba sendo tão ou mais importante do que a notícia em si.

Antes, as pesquisas de opinião calibravam os rumos das campanhas. Nesta eleição, a internet é quem tende a ditar o ritmo. As pesquisas vão servir para aferir, tardiamente, o impacto de alguns assuntos que ganharam peso na guerrilha virtual.

Antes, o trabalho de amaldiçoar pra valer os adversários políticos era feito pelos cabos eleitorais que batiam de porta em porta. Agora, os cabos eleitorais que caçam votos perambulam pelos portais de internet, pelos canais de vídeo e entram nos endereços dos eleitores pelas redes sociais.

Uma outra diferença, talvez tão decisiva quanto essa, é que a direita resolveu aparecer. Antes, o discurso da direita era de que não existia mais esse negócio de “direita x esquerda”.

A direita, finalmente, saiu do armário e anda mais raivosa do que nunca. Em parte, a raiva vem do medo de que, talvez, ela tenha perdido o jeito de ganhar eleições e de influenciar os partidos.

Por outro lado, a direita imagina que a atual campanha petista está mais vulnerável que em outras épocas. A raiva é explicada, nesse aspecto, pelo espírito de “é agora ou nunca”.

Os bombardeios midiáticos raivosos têm assumido feições mais pronunciadamente ideológicas.

Ao contrário de outras eleições, os ataques têm não só mentiras, xingamentos e destemperos verbais de todos os tipos. Têm uma cara de pensamento de direita.

Querem não apenas desbancar adversários. Querem demarcar um campo.

Não é só raiva contra um partido. É ódio de classe contra tudo e contra todos os que se beneficiam (e nem tanto quanto deveriam) de algumas das políticas governamentais.

É ódio contra sindicatos de trabalhadores, organizações comunitárias, movimentos de excluídos (Sem Terra, Sem Teto), grupos em defesa de minorias e de direitos humanos que priorizam a crítica a privilégios sociais e aos desníveis socioeconômicos mais profundos.

A mídia direitista tem desempenhado um papel central. Sua principal missão é orientar os ataques para que eles tenham consequência política e ideológica no seio da sociedade brasileira.

Como sempre, a mídia é diretamente responsável por articular atores dispersos e colocá-los em evidência, conforme uma pauta predeterminada.

Embora seja uma característica recorrente, no Brasil, a mídia tradicional comportar-se como partido de oposição, nos últimos anos ela parece seguir uma nova estratégia.

Os barões das grandes corporações midiáticas brasileiras, com a ajuda de seus ideólogos, perceberam que, para haver uma oposição de direita forte, é preciso formar uma ampla opinião pública direitista.

Antes mesmo de cobrar que os partidos se comportem e assumam o viés de direita, é preciso haver uma base social que os obrigue a agir enquanto tal.
A mídia tradicional entendeu que os partidos oposicionistas são erráticos em seus programas e na sua linha política não por falta de conservadorismo de suas principais lideranças, mas pela ausência de apelo social em sua pregação.

Em função disso, coisas como o Instituto Millenium se tornaram de grande importância. O Millenium tem, entre seus mantenedores e parceiros, a Abert (controlada pelas organizações Globo) e os grupos Abril, RBS e Estadão. O instituto é também sustentado por outras grandes empresas, como a Gerdau, a Suzano e o Bank of America.

O Millenium tenta fazer o amálgama entre mídia, partidos e especialistas conservadores para gerar um programa direitista consistente, politicamente atraente e socialmente aderente.

O colunismo midiático, em todas as suas frentes, é outro espaço feito sob medida para juntar jornalistas, especialistas e lideranças partidárias dedicadas a reforçar alguns interesses contrariados por algumas políticas públicas criadas nos últimos 12 anos.

A estratégia midiática de reinvenção da direita brasileira representa, no fundo, uma tentativa desesperada e consciente dessa mesma mídia de reposicionar-se nas relações de poder, diante da ameaça de novos canais de comunicação e de novos atores que ganharam grande repercussão na opinião pública.

Com seu declínio econômico e o fim da aura de fonte primordial da informação, o veneno em seus anéis tornou-se talvez seu último trunfo no jogo político.
(*) Antonio Lassance é cientista político.

Le Brésil mène la bataille contre l’hégémonie américaine sur le Web

25 abr

Le 13 février, à Brasilia, des pétitionnaires demandent au Brésil d’accorder l’asile politique à Edward Snowden, l’ex-consultant de la NSA.

Au départ, il y a un gros coup de colère de la présidente brésilienne Dilma Rousseff. A l’arrivée, le sommet international sur la gouvernance de l’Internet, qui doit avoir lieu à Sao Paulo les 23 et 24 avril, a l’ambition de s’attaquer à rien moins que l’hégémonie américaine sur la Toile.

Lorsqu’en septembre 2013, Mme Rousseff apprend, grâce aux révélations d’Edward Snowden, que l’Agence de renseignement américaine (NSA) intercepteses communications et celles des responsables dirigeants brésiliens, elle s’indigne sans retenue.

LA « DÉSAMÉRICANISATION » DES INSTANCES MONDIALES

A la tribune des Nations unies à New York, elle affirme que la surveillance de masse du Net est incompatible avec la liberté d’expression, la démocratie et la souveraineté nationale. Elle exige des Etats-Unis « des explications, des excuses et des garanties que de telles opérations ne se répéteront jamais ». Et annule même une visite d’Etat à Washington prévue de longue date.

Mme Rousseff préconise aussi un changement radical dans la gouvernance des organismes qui assurent le fonctionnement du Web au niveau mondial – adresses, noms de domaines, normes, protocoles, etc. Pour des raisons historiques, ces instances sont souvent sous la tutelle des Etats-Unis.

Leur « désaméricanisation » est une revendication déjà ancienne, qui est régulièrement reprise par de nombreux pays. Les Etats-Unis l’ont certes toujours rejetée, mais, cette fois, les partisans de la réforme se sentent en position de force, après l’onde de choc provoquée par le scandale des écoutes de la NSA.

 OFFENSIVE DIPLOMATIQUE

Fait nouveau, la fronde se développe au sein même des organes de gouvernance. Réunis en octobre 2013 à Montevideo, la capitale de l’Uruguay, les dirigeants d’une dizaine d’entre eux se déclarent favorables à un mode de gouvernance plus « multilatéral », c’est-à-dire moins américain.

Ils souhaitent commencer par l’Icann (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), chargée de gérer les noms de domaines et adresses Internet. Celle-ci dépend du ministère américain du commerce. Elle sous-traite les opérations techniques – gestion des domaines « .com », « .net », etc. – à la société privée VeriSign.

Après Montevideo, le directeur de l’Icann, un Américain favorable à la fin de la tutelle des Etats-Unis, se rend au Brésil pour rencontrer la présidente Dilma Rousseff, qui s’engage à le soutenir.

Lire aussi notre décryptage : Internet, enjeu de pouvoir entre les Etats-Unis et les « grands émergents »

Brasilia intensifie alors son offensive diplomatique et annonce la tenue, à Sao Paulo, pour le printemps 2014, d’un sommet international sur la gouvernance de l’Internet, baptisé NETmundial, en référence au Mondial de football qui aura lieu au Brésil en juin.

Dans le même temps, le pays s’allie à l’Allemagne, où le scandale des écoutes de la NSA a eu un fort retentissement, pour faire adopter par l’Assemblée générale des Nations unies une résolution affirmant que le respect de la vie privée des internautes est un droit humain fondamental. Puis Berlin fait connaître sa volonté de s’impliquer activement dans la préparation du sommet de Sao Paulo.

Le gouvernement français est resté, lui, très discret dans sa dénonciation des activités de la NSA. Paris ne semble pas prêt à affronter les Etats-Unis sur ce dossier. Mais à l’occasion de la visite officielle de François Hollande au Brésil, en décembre 2013, la France accepte d’être coorganisatrice du NETmundial.

LIBERTÉ D’EXPRESSION

En mars, la Chambre des députés brésilienne adopte une « loi Internet » garantissant la liberté d’expression, la protection de la vie privée et l’égalité de traitement de tous les types de contenus. Celle-ci a été approuvée par le Sénat à la veille de l’ouverture du sommet.

En fait, pour faire passer la loi, Brasilia a dû accepter un compromis. Au départ, il était prévu d’obliger tous les prestataires du Net (y compris américains) à stockerles données personnelles des internautes du Brésil dans des serveurs situés dans le pays – un concept proche du « cloud européen », préconisé par les Allemands. Mais il est vite apparu que ce projet serait coûteux et complexe, peut-être même infaisable, et il a été abandonné.

La surprise vient alors, en mars, des Etats-Unis. Washington annonce sa décision d’abandonner le contrôle de l’Icann, avant la fin 2015. En Europe, notamment en France, cette décision est largement interprétée comme une reculade : depuis l’affaire Snowden, ils auraient perdu leur « magistère moral » et ne pourraient plusexiger du reste du monde qu’il leur fasse confiance pour défendre les libertés sur le Web.

En privé, des fonctionnaires et des élus français sont convaincus que le moment est favorable. Selon eux, le scandale de la NSA a aussi provoqué un conflit entre le gouvernement fédéral des Etats-Unis et les grands groupes américains du Net, qui craignent de perdre la confiance des utilisateurs étrangers.

PROCESSUS DE PARTAGE DU POUVOIR

Les partisans de cette thèse citent la déclaration de Mark Zuckerberg, patron deFacebook, en mars : « Le gouvernement américain devrait être le champion de l’Internet, et non pas une menace. »

Ainsi, avant même d’avoir eu lieu, le NETmundial aurait déjà remporté un succès important : contraindre Washington à entrer dans un processus de partage dupouvoir, pour ne pas arriver à Sao Paulo isolé, en position d’accusé.

D’autres experts, notamment techniques, remarquent en privé que les Américains restent en position de force, et ont déjà posé leurs conditions : pas question que l’Icann soit placé sous le contrôle d’une bureaucratie intergouvernementale, ni des Nations unies.

En fait, conformément à leur tradition, ils souhaitent que la future gouvernance fasse une large place au secteur privé – notamment aux sociétés d’envergure mondiale du Web, qui sont majoritairement américaines.

Le conflit entre Washington et la Silicon Valley ne serait donc qu’un épiphénomène. Par ailleurs, le domaine de compétence de l’Icann n’a rien à voiravec les activités de la NSA, qui ne seront pas affectées par cette réforme.

Pour compliquer encore l’affaire, à Washington, des élus du Parti républicain s’opposent déjà au projet « d’internationalisation » de l’Icann, qu’ils considèrent comme une nouvelle preuve de la faiblesse du président Obama sur la scène internationale.

UN CONFLIT TRIANGULAIRE

Au total, onze pays sont coorganisateurs du NETmundial aux côtés du Brésil – dont l’Allemagne, la France et les Etats-Unis. Son comité directeur a reçu 188 contributions émanant d’administrations, d’ONG, d’universités et d’organismes techniques de quarante-six pays.

Si l’on se fie aux documents préparatoires, on y parlera de tout : gouvernance juridique et technique, infrastructures, normes et standards, droits de l’homme,neutralité du Net, logiciels libres, cybersécurité, équilibre entre surveillance et respect de la vie privée…

L’objectif officiel des Brésiliens est de faire adopter une déclaration commune sur les principes d’une nouvelle gouvernance – qui devra être démocratique, transparente, responsable, respectueuse de la diversité culturelle… Elle devra être« multi-parties-prenantes », c’est-à-dire inclure les principaux acteurs du Net – vu leur nombre et leur diversité, cela pourrait poser des problèmes juridiques et logistiques inédits.

Au final, le Brésil reste sur une ligne assez classique, en opposition avec les Etats-Unis, puisqu’il veut en priorité accroître les pouvoirs d’organismes dépendant des Nations unies comme le Forum sur la Gouvernance de l’Internet (FGI), qui, à ce jour, est une simple instance consultative.

L’éternel conflit triangulaire entre les étatistes, les partisans de la privatisation et les libertaires va donc sans doute ressurgir dans tous les débats.

OPTIMISME

Malgré tout, l’un des Français invités au NETmundial en tant qu’expert, Mathieu Weill, directeur général de l’Association française pour le nommage Internet en coopération (Afnic), est raisonnablement optimiste : « On ne va pas faire la révolution en deux jours, mais le Brésil est en bonne position pour faire avancerune réforme de la gouvernance. Il est proche des principes européens, et en même temps, il a la confiance des pays les moins développés. »

Après l’Icann, les Etats partisans d’une autre gouvernance envisagent de s’intéresser à l’IETF (Internet Engineering Task Force), l’organisme qui fixe les normes permettant à Internet de se moderniser tout en restant un réseau unifié.

Or, l’IETF, pur produit de la culture Internet, est une réunion informelle d’ingénieurs travaillant bénévolement. Elle n’a ni statut juridique ni conseil d’administration, et elle fonctionne comme l’une des « activités » de l’Internet Society, une ONG installée à Washington et à Genève, dirigée par une équipe de treize personnes, dont six Américains.

L’IETF se réunit trois fois par an, dans différents pays, grâce au soutien financier de grandes entreprises du secteur. La philosophie de ses membres tient en une devise, édictée en 1992 par l’informaticien américain David Clark, l’un des fondateurs de l’Internet : « Nous rejetons : les rois, les présidents et les élections. Nos croyances : trouver un vague consensus, et faire tourner du code. » La tâche des réformateurs s’annonce compliquée.

Voir aussi l’infographie : Les Etats contre Internet : six cartes et graphiques pour comprendre

O Brasil lidera a batalha contra a hegemonia norte-americana na Web

Inicialmente, houve uma grande explosão de presidente do Brasil, Dilma Rousseff.À chegada, a top internacional de governança da Internet, que deve ser realizada em São Paulo em 23 e 24 de abril, a ambição de ‘s ataque para nada menos do que a hegemonia americana na web.

Quando em setembro de 2013, M me Rousseff aprende, graças a revelações Edward Snowden que agência de inteligência dos EUA (NSA) interceptar suascomunicações e os líderes brasileiros responsáveis, é indigno sem restrição.

OS “DE SAM ÉRICANISATION “organismos mundiais

Na plataforma da Organização das Nações Unidas, em Nova York, ela diz Net vigilância em massa é incompatível com a liberdade de expressão, a democracia ea soberania nacional. Ela exige que o Estados Unidos explicação “, desculpas e garante que tais transações nunca ser repetido” . E mesmo cancelou uma visita de Estado a Washington planejado há algum tempo.

M me Rousseff também defende uma mudança radical na gestão de organizações que fornecem o funcionamento da rede mundial de computadores – endereços, nomes de domínio, padrões, protocolos, etc. Por razões históricas, esses casos são muitas vezes sob a tutela dos Estados Unidos.

Sua “de sam éricanisation “é uma reivindicação de longa data, que é tomado regularmente por muitos países. Os Estados Unidos certamente sempre rejeitou, mas desta vez, os defensores da reforma sentir em uma posição forte após a onda de choque causada pelo escândalo Escuta NSA.

OFENSIVA DIPLOMÁTICA

Developments, funda desenvolve até mesmo dentro de órgãos de governança.Conheci em outubro de 2013, em Montevidéu, capital do Uruguai , os líderes de uma dúzia deles são a favor de um método de governação mais “multilateral” , isto é, menos americano.

Eles querem começar pelo ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), responsável pela gestão de nomes de domínio e endereços da Internet. Depende do Departamento de Comércio dos EUA. Subcontrata as operações técnicas – áreas de gestão, etc “com”. “Net”.. – A empresa privada VeriSign.

Depois de Montevideo, diretor da ICANN, uma terminação favorável da tutela do Estados Unidos da América, vai para Brasil para se reunir com a presidente Dilma Rousseff, que está comprometida com o suporte .

Leia também a nossa descriptografia: Internet, questão do poder entre os Estados Unidos eo “grande emergente”

Brasília, intensificando sua ofensiva diplomática e anuncia, em São Paulo para a primavera de 2014, uma cimeira internacional sobre a governança da Internet, chamada NETmundial, referindo-se ao Mundial de Futebol a ser realizada no Brasil em junho.

Ao mesmo tempo, o país combina a Alemanha , onde o escândalo de espionagem da NSA teve um impacto forte, para ser adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas uma resolução declarando que o respeito pelaprivacidade utilizadores da Internet é um direito humano fundamental. Em seguida, Berlim é conhecida a sua intenção de ser envolvidos activamente na preparação da cimeira de São Paulo.

O governo francês tem sido, ele muito discreto em sua denúncia das atividades da NSA. Paris não parece pronto para enfrentar os Estados Unidos sobre esta questão. Mas, por ocasião da visita oficial de François Hollande no Brasil em dezembro de 2013 França concorda em ser co-organizador do NETmundial.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Em março, a Câmara dos Deputados do Brasil adota “lei Internet” garantir a liberdade de expressão, a proteção da privacidade e da igualdade de tratamento de todos os tipos de conteúdo. Isto foi aprovado pelo Senado na véspera da abertura da cúpula.

Na verdade, para fazer passar a lei, Brasília teve que aceitar um compromisso.Inicialmente, foi planejada para exigir todos os prestadores de líquido (incluindo EUA) para armazenar os dados pessoais dos utilizadores da Internet em servidores brasileiros localizados no país – um conceito próximo da “nuvem europeu” defendida pelos alemães. Mas logo ficou evidente que este projeto seria caro e complexo, talvez até mesmo inviável, e foi abandonado.

A surpresa vem quando, em março, nos Estados Unidos. Washington anunciou sua decisão de abandonar . controle ICANN antes do final de 2015 na Europa , principalmente na França, esta decisão é amplamente interpretado como um retiro: desde o caso Snowden, teriam perdido a sua “autoridade moral” e já nãoexigem o resto do mundo que não confia neles para defender a liberdade na web.

Em privado, funcionários e oficiais franceses estão convencidos de que o momento é favorável. De acordo com eles, o escândalo NSA também levou a um conflito entre o governo federal dos Estados Unidos e as grandes bandas americanas da Net, que têm medo de perder a confiança dos utilizadores estrangeiros.

PROCESSO DE COMPARTILHAMENTO DE ENERGIA

Os defensores deste ponto de vista citar a declaração de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook , de Março: “O governo dos EUA deve ser o campeão da Internet, não uma ameaça. “

Assim, mesmo antes de ter ocorrido, o NETmundial já ganhou um grande sucesso obrigar Washington a entrar em um processo de partilha de poder , nãode chegar em São Paulo posição isolada em reconhecimento.

Outros especialistas, incluindo técnicas, nota particular que os americanos permanecem em uma posição forte, e já colocou suas condições: há dúvida de que a ICANN está sob o controle de uma burocracia ou intergovernamental das Nações Unidas.

Na verdade, de acordo com a sua tradição, eles querem que a futura governação fazer um grande lugar para o setor privado – incluindo a empresa de Web global “s, que são na sua maioria americanos.

O conflito entre Washington e do Vale do Silício, portanto, seria um epifenômeno.Além disso, a competência da ICANN não tem nada a ver com as atividades da NSA, que não serão afetados por essa reforma.

Para complicar a questão, mesmo em Washington, eleito Partido Republicano já se opõem ao projeto de “internacionalização” da ICANN, que eles vêem como uma nova prova da fraqueza do presidente Obama na cena internacional.

CONFLITO TRIANGULAR

No total de onze países são co-organizadores NETmundial ao lado de Brasil – incluindo a Alemanha, França e Estados Unidos. Comitê Gestor recebeu 188 contribuições de governos, ONGs, universidades e órgãos técnicos quarenta e seis países.

Se olharmos para os documentos preparatórios, vamos falar de todos os governança, infra-estrutura, as normas técnicas e legais e normas, os direitos humanos, a neutralidade da rede , software de código aberto, segurança cibernética, o equilíbrio entre vigilância e Privacidade Privado …

O objetivo oficial dos brasileiros é adotar uma declaração conjunta sobre os princípios da nova governança – que irá ser democrático, transparente, responsável, respeitadora da diversidade cultural … Vai ser “multi-stakeholder-envolvidos ‘ , c ‘ seja, incluem os principais atores Net – visto o seu número e diversidade, isso pode representar problemas legais e logísticos inéditos.

No fim das contas, o Brasil tem uma linha bastante normal, em oposição aos Estados Unidos, uma vez que ele quer prioridade para aumentar os poderes dos organismos sob as Nações Unidas como o Fórum de Internet Governance Forum (IGF) que, até à data, é um órgão consultivo.

O eterno conflito entre estatista triangular, os defensores da privatização e libertários, portanto, provavelmente reaparecerá em todos os debates .

OTIMISMO

No entanto, um dos convidados franceses no NETmundial como um especialista, Mathieu Weill, presidente da Associação Francesa de Internet nomear Cooperação (AFNIC), está cautelosamente otimista: “Nós não vamos fazer a revolução dois dias, mas o Brasil está bem posicionado para fazerantecipadamente reforma da governação. É perto de princípios europeus e, ao mesmo tempo, ele tem a confiança dos países menos desenvolvidos. “

Depois de ICANN, os defensores de uma outra governança Unidos consideram ‘sinteresse na IETF (Internet Engineering Task Force), a organização que estabelece padrões para a Internet para modernizar , mantendo-se uma rede unificada.

No entanto, o IETF, um produto puro do crescimento da Internet, é uma reunião informal de engenheiros voluntariado. Não tem nenhum status legal ou conselho de administração, e funciona como uma das “atividades” da Internet Society, uma ONG com sede em Washington e Genebra, liderada por uma equipe de treze pessoas, incluindo seis norte-americanos .

O IETF se reúne três vezes por ano em diferentes países, com o apoio financeiro de grandes empresas do setor. Filosofia de seus membros realizada em uma moeda, promulgada em 1992 pela American cientista da computação David Clark, um dos fundadores da Internet: “Nós rejeitamos: reis, presidentes e eleições.Nossas crenças encontrar uma vaga de consenso, e para executar o código. “ A tarefa dos reformadores parece complicado.

Aula Pública Opera Mundi – EUA serão ditadores da Internet?

16 abr

“Se Dilma deseja o mínimo de segurança, ela não pode utilizar Windows no computador”, diz Sérgio Amadeu sobre espionagem

 

Opera Mundi TV e TV Unesp lançam o terceiro programa da série “Aula Pública”. Na edição desta quinta-feira (21/11), Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e especialista em tecnologia da informação, responde: “Os EUA serão os ditadores da internet?”

“Após manobra de espionagem, a empresa norte-americana que venceu uma licitação para controles de radares da Amazônia entregou equipamentos com o código fonte fechado. Ou seja, isso nos leva a crer que o controle de voo da Amazônia tem duas sedes: Brasília e Washington”, afirma. Sobre espionagem, Amadeu crava: “Se Dilma deseja o mínimo de segurança, não pode utilizar Windows no computador dela”.

Assista ao primeiro bloco:

 

No segundo bloco, Sérgio Amadeu responde pergunta do correspondente Sandro Fernandes, em Moscou, na Rússia:

No terceiro bloco, Amadeu responde perguntas do público da PUC-SP:

Como a ‘fantástica’ internet pode combater mais rapidamente o monopólio da voz da mídia tradicional inShare

19 out
Postado em 18 out 2013

Lula

Lula

Em sua conta no Facebook, Lula fez esta semana o elogio da “fantástica” internet. Colocou-a, com razão, como uma alternativa à voz única, e altamente conservadora, que domina a mídia tradicional.

O real debate em torno das coisas do Brasil se trava hoje na internet, um território florescente que não é e nem jamais será dominado por um pequeno grupo de famílias interessadas na manutenção de privilégios velhos como o bigode de Rio Branco.

Reclamar apenas da mídia tradicional não resolve nada, disse Lula. Ele está absolutamente certo, é verdade. Lamúrias não mudam coisa nenhuma. Mas discurso sem ação também não.

Lula se dirigia especificamente aos petistas, mas sua mensagem vale para todo brasileiro cansado do conteúdo enviesado e frequentemente desonesto que domina a mídia tradicional.

Mas.

Mas o que concretamente tem sido feito pelo Estado para estimular a – falemos genericamente – “voz alternativa” digital, tão importante para a sociedade?

A “velha voz” goza de ancestrais regalias copiosas. Exemplo: não incide imposto sobre o papel usado para imprimir jornais e revistas. É o chamado “papel imune”. Outro exemplo: as empresas desfrutam de uma reserva de mercado abjeta – algo que elas condenam em todo outro setor que não seja o delas mesmas. Isso impede a concorrência estrangeira, e configura uma pancada no capitalismo puro pelo qual elas, aspas, se batem tanto.

A lista de mamatas vai muito além. Na publicidade oficial, as grandes corporações se dão muito bem. Nos últimos dez anos, sob o PT portanto, a Globo levou cerca de 6 bilhões de reais, de acordo com dados divulgados pelo Secom, o órgão do governo que administra a propaganda oficial.

A Globo continua a receber publicidade do governo em doses torrenciais mesmo com o declínio contínuo de sua audiência. Não é só uma anomalia governamental, é certo. Outros anunciantes fazem exatamente o mesmo. Em 2012, a Globo nunca teve uma audiência tão baixa e, ao mesmo tempo, nunca faturou tanto em publicidade.

São duas coisas excludentes – queda de público e aumento de receita publicitária. Mas a Globo opera uma mágica. Essa mágica na verdade é uma propina legalizada chamada BV: a Globo paga uma comissão às agências que anunciam nela.

Quanto mais a agência anuncia, mais ganha. Muitas agências, hoje, dependem do BV pago pela Globo. E então fazem de tudo para colocar a verba de seus clientes na emissora. Isso explica fenômenos como o seguinte: há dez anos, o Jornal Nacional tinha audiência média de 32%, e o preço do comercial de 30 segundos era de 200 000 reais. Agora, a audiência é 35% menor, e o comercial custa 90% mais.

Como os anunciantes aceitam isso é um caso de estudo. Até alguns anos atrás, com ibopes de 50% ou mais, estar fora da Globo podia atrapalhar seriamente uma marca. Não mais. No mundo moderno, o que pode comprometer o futuro de uma marca é não ter presença na internet, porque os consumidores estão cada vez mais lá, na internet, e não na Globo.

Como tudo isso se reflete na política de anúncios do governo? No ano passado, a fatia da internet girou em torno de 5% — um número altamente conservador quando se consideram as circunstâncias. Se Lula tem razão ao chamar de “fantástica” a internet, e ver nela um contraponto ao conservadorismo da mídia tradicional, é uma porcentagem que não faz sentido.

Que correções estão sendo feitas? É uma questão relevante para o futuro do país. Quanto maior o dinheiro colocado na internet, menor o poder de mídias tradicionais que têm sido, ao longo dos tempos, um obstáculo formidável para o avanço social do Brasil. Elogiá-la, como fez Lula, é um bom começo. Mas há que fazer mais que falar — em nome da pluralidade de ideias que deve abastecer, democraticamente, a sociedade brasileira.

 

Sobre o Autor

O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Soneguetes da Globo agitam a Internet

23 set

Soneguetes” da Globo agitam internet

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