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Tacla Durán diz que procuradores da Lava Jato ameaçaram sua família para forçar delação

4 nov

 

tacla duran

Na quarta matéria da séria sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, destacamos os principais trechos do áudio do encontro dos deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous com o advogado Rodrigo Tacla Durán. As anteriores estão aqui.

 

Tacla Durán diz que procuradores da Lava Jato ameaçaram sua família para forçar delação

 

por Joaquim de Carvalho

Os deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous, integrantes da CPI da JBS, viajaram por conta própria a Madri, na Espanha, e ouviram o advogado Rodrigo Tacla Durán, processado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro.

O áudio foi protocolado na CPI e divulgado por alguns sites. O DCM e GGN têm o áudio desde segunda-feira, mas, antes de ser publicado, foram checadas as informações e colocadas em seu contexto, com observações ao final dos trechos separados por tema.

Também se preferiu transcrever, para facilitar o entendimento e dar oportunidade para reflexão e assimilação, dada a complexidade das informações e situações tratadas.

É uma forma de explicar um caso complexo, não apenas jogar gasolina na fogueira.

Tacla Durán é um homem-bomba. Pode aprofundar cada caso abordado por ele. Fala com propriedade.

Mas, é claro, acusado, tem interesse de fazer sua defesa.

É um direito dele, mas não se pode esquecer que ele vai até onde a lei não o alcance.

Foi, efetivamente, operador da Odebrecht. Trabalhou lá.

O depoimento de Tacla Durán à CPI da JBS é uma oportunidade para revelar ao Brasil as entranhas de um sistema que parece apodrecer antes mesmo de se tornar maduro.

É uma operação que atinge alvos pré-definidos, daí a plausibilidade das informações de que provas são montadas e versões criadas, como se juntassem peças de um enredo.

Os leitores desta série já estão tomando conhecimento dessa máquina perversa, que está longe de produzir justiça. Com o depoimento à CPI, transmitido ao vivo, o alcance será muito maior.

A CPI, se não não deve nada a ninguém, precisa aprovar o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.

 

A TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO

Nós estamos aqui em Madri. Eu, deputado Paulo Pimenta, deputado Wadih Damous, juntamente com o Dr. Rodrigo Tacla Durán, e seu advogado, Emílio Naranjo, para buscarmos uma série de informações relativas a questões relevantes sobre a conjuntura do Brasil, que têm sido recorrentes objeto da atenção da imprensa, do País, a partir de informações prestadas pelo advogado Rodrigo Tacla Durán.

 

QUEM É RODRIGO TACLA DURÁN

Deputado Wadih: Rodrigo, os procuradores da chamada Operação Lava Jato sustentam que o senhor, na verdade, não atuava como advogado, o senhor não prestava serviço de advocacia à empresa Odebrechet, que seriam serviços de lavagem de dinheiro. O senhor pode esclarecer esta afirmação para nós? O senhor efetivamente prestava serviço de advocacia para a empresa Odebrecht?

Tacla Durán: Sim, eu trabalhei como advogado da Odebrecht de 2011 a 2016, é público que eles solicitaram a banco a abertura de conta para pagar meus honorários. E eu estou, inclusive, hoje respondendo a um processo de ética no Tribunal de Ética da OAB de São Paulo, justamente em razão de suposta violação de sigilo profissional. Isso não aconteceria se eu não tivesse trabalhado, de fato, como advogado da empresa.

Damous: O senhor recebia honorários da empresa pela prestação de serviços advocatícios?

Tacla Durán: Correto.

Damous: Esses honorários eram declarados para o imposto de renda brasileiro?

Tacla Durán: Todos. Todo o meu patrimônio no Brasil e no exterior foram declarados à Receita, inclusive os honorários que eu recebia da Odebrecht no exterior. Tanto é verdade que, depois de dois anos de fiscalização, eu não fui multado, não tive nenhuma sanção da Receita Federal.

Pimenta: Consta dos registros contáveis da construtora Norberto Odebredht pagamentos mensais de aproximadamente 10 mil reais ao seu escritório. Que pagamentos são esses?

Tacla Durán: Esse pagamento de valor aproximado de 10 mil reais não foi pago ao meu escritório, foi pago à minha pessoa física. Ele consta da minha declaração de imposto de renda pessoa física. E na verdade se trata de recebimentos de aluguéis, uma vez que eu alugava um apartamento de minha propriedade em São Paulo, para uso de seu Hilberto Silva, que era custeado, pago, pela Odebrecht.

Damous: Quem é Hilberto Silva?

Tacla Durán – Hilberto Silva era diretor da Odebrecht, diretor que coordenava o Departamento de Operações Estruturadas, meu superior hierárquico.

Pimenta: O apartamento que o senhor Hilberto Silva alugava em São Paulo, a empresa Odebrecht alugava diretamente do senhor?

Tacla Durán: Sim. Por isso, as acusações que me fazem, de doleiro, etc., não têm o menor cabimento porque jamais você iria alugar o apartamento do seu doleiro.

Pimenta: Evidentemente que esse pagamento, por si só, revela uma relação formal pública entre a empresa Odebrecht e a pessoa física do senhor.

Tacla Durán: Sim.

Pimenta: É atribuída ao senhor a propriedade de doze empresas. Essas empresas controladas, ou de propriedade do senhor, o senhor confirma a existência de todas essas empresas?

Tacla Durán: A existência sim, nem todas são de minha propriedade. Isso já foi, inclusive, esclarecido, porque a Odebrecht… Essas doze empresas foram declaradas pelo sr. Vinícius Borin.

Damous: Quem é o senhor Vinícius Borin?

Tacla Durán: Vinícius Borin foi um testa de ferro da Odebrecht como acionista do Meinl Bank Antígua. Ele declarou que havia doze empresas de minha propriedade. Na realidade, não são doze, são seis.

Damous: Quais são?

Tacla Durán: As minhas empresas são Vivosant Corporation, que não é offshore, é uma empresa espanhola, cuja tributação é inclusive mais cara que a do Brasil. A GVTEL, idem, é uma empresa espanhola, não é offshore, a Ocean, a Cumberland, a Bonarda, e a Nevada, e Discovery.

Damous: As demais não são suas.

Tacla Durán: Não são minhas. A Vivosant é uma empresa holding, está aqui o manual, as demais são subsidiárias delas. Estão declaradas tanto no imposto de renda pessoa física quanto da CBE (Capitais Brasileiros no Exterior) do Banco Central Brasileiro.

Pimenta: As demais empresas o senhor reconhece?

Tacla: Essas outras empresas são de pessoas ligadas ao Meinl Bank.

Pimenta: Nicolas James Baker?.

Tacla: Nicolas James Baker é genro do Thimoty Lee. Thimoty Lee é amigo do Luiz França, um dos acionistas do Meinl Bank, inglês. Thimoty foi, ou é, testa de ferro das empresas offshore da Odebrecht. O Thimoty é inclusive proprietário do domínio web do Meinl Bank Antígua.

Pimenta: Importante que a gente consiga obter mais informações do Meinl Bank Antígua. O Meinl Bank é um banco que já existia nas Antígua. Ele já prestava serviços para a Odebrecht antes da mudança de seu nome, do banco?

Tacla: Eu não tenho conhecimento para te falar isso com precisão porque, nessa ocasião, eu não trabalhava para a Odebrecht. Mas entendo que não. Essa relação começou a partir da aquisição do banco.

Pimenta: Como se deu esse processo de aquisição do banco?

Tacla: Eu soube, já trabalhando na defesa, que foi comprado pelo Luiz França, pelo Vinícius Borin Marco Bilinski, Olívio Rodrigues, e pelo Luiz Eduardo Soares e Fernando Migliaccio, esses dois já vinculados diretamente à Odebrecht e, então, eles não apareciam no quadro de acionistas do banco. E, ao meu ver, e eu fiquei sabendo, a Odebrecht sequer sabia que eles eram sócios desse banco.

Pimenta: Foi adquirido um banco em Antígua para operar internacionalmente para a Odebrecht e parte dos acionistas desse banco era de executivos da própria Odebrecht…

Tacla: Sim, correto. Na verdade, esse time, esses seis nomes que estamos falando, eles operam aí juntos há muitos anos. Antes do Meinl Bank, eles trabalhavam via Antígua Overseas Bank (AOB), que era o mesmo sistema. Esse banco teve um problema de liquidez e foi o que levou eles a adquirir um novo banco. Inclusive essa relação desses seis personagens veio de antes do AOB, prestando serviços para inúmeras empresas, bancos, para a Odebrecht. Uma relação de mais de dez anos aí. Eles são sócios. Eles são funcionários da Odebrecht os dois, os outros não, prestam serviço para a Odebrecht em razão dos dois, mas na verdade eles têm um negócios à parte, em sociedade.

 

EXTRATOS MONTADOS

Pimenta – Parte deles são delatores da Odebrecht?

Tacla: Os dois: Fernando Migliaccio e Luiz Eduardo Soares.

Pimenta: Os extratos apresentados pela Odebrecht na sustentação das delações, emitidos pelo Meinl Bank…

Tacla: Não, não foram emitidos pelo Menl Bank. Aqueles extratos não são do padrão do banco. Pelo menos os que eu vi. Aqueles a que eu tive acesso. Não são do padrão do sistema do banco. Tem incongruência do sistema de datas. Tem incongruências de referência, de descrição de movimento.

Pimenta: O senhor afirma que aqueles extratos apresentados pela Odebrecht e aceitos pelo Ministério Público na delação da Odebrecht…

Tacla: São montados.

Pimenta: Não são extratos do padrão do Meinl Bank?

Tacla: Não.

Damous: O que leva o senhor a afirmar isso?

Tacla: Porque eu tenho contas no Meinl. As minhas contas no Meinl foram declaradas. Eu tenho os  extratos verdadeiros, como o sistema emitia os extratos. Usei esses extratos em diversas situações legais porque minhas contas, ao contrário do que eles alegam, eram declaradas. E me estranha muito que eles tenham declarado que minhas contas são irregulares porque eles têm perfeito conhecimento de que o dinheiro chegava na minha conta no Meinl Bank Antígua via Banco Central do Brasil. Saía, debitava da minha conta no Banco Itaú, eu enviava o contrato de câmbio fechado com o Banco Itaú e ele sabia muito bem que a conta era de minha propriedade. Inclusive eu sempre documentei isso.

Damous: Perfeito. Em relação à sua conta, a seus extratos. Mas, em relação a terceiros, o senhor pôde verificar pelo padrão de emissão de extratos dos bancos que aquele que foi apresentado aos procuradores e os procuradores aceitaram como verdadeiros são planilhas de extratos falsos?

Tacla: Sim. Além dos extratos verdadeiros que são os da minha conta, tem outras incongruências, como movimentação na mesma data quando as pessoas já estavam presas e o sistema do banco travado. Ou seja, não era possível ter a movimentação.

Damous: O senhor pode apresentar algum caso concreto que o senhor pode constatar ao verificar esses documentos?

Tacla: Em um dos inquéritos que estão correndo no Supremo Tribunal Federal, um dos anexos apresenta um extrato que tem uma determinada data que tem saldo positivo. No mesmo anexo, juntado por um delator, no mesmo inquérito, o saldo está negativo. Com a mesma data. Ou seja.

Damous: Quem era o delatado?

Tacla: Os delatados eram o deputado Pedro Paulo, o ex-prefeito Eduardo Paes e, se não me engano, o senador Humberto Costa. Esse extrato só poderia ser verídico se houvesse movimentação nessa data, no mesmo dia, entre a emissão de um extrato e outro. Entretanto, essa movimentação é impossível. Primeiro porque as contas deveriam estar bloqueadas devido aos crimes, e de fato estão. Segundo porque o beneficiário das contas estava detido em Curitiba.Terceiro porque ninguém mais movimentava conta nesse banco porque o sistema estava totalmente travado. Então era impossível haver movimentação nessa data.

Damous – Nós poderíamos chegar à conclusão de que se trata de uma tentativa de comprometer essas pessoas?

Tacla Durán – Sim, como com relação a mim próprio.

Pimenta – Se fosse fornecida a documentação original do Meinl Bank, ficaria evidente que esses extratos são falsos?

Tacla Durán — Correto. Entretanto, o sistema do banco também foi fraudado para impossibilitar o tracking (rastreamento) do dinheiro.

Pimenta — Na medida em que sócios do banco são também executivos da Odebrecht.

Tacla Durán — Aí havia interesse duplo. Um dos interesses era atender a empresa. Qual o interesse da empresa? Cortar o tracking do dinheiro. O dinheiro, a origem era da Odebrecht e tinha saída para um determinado pack estrangeiro ou o que seja. Com a fraude que foi feita no sistema, é inviável, como é inviável se rastrear o dinheiro, do momento que entrou, por exemplo a Odebrechet, até a saída ilegal. Então não dá para saber que a saída ilegal que aconteceu tem como origem a Odebrecht. Esse tracking foi cortado. E outro interesse que aí existe, é interesse deles próprios, evidente que havia dinheiro nessas contas e ninguém vai lá reclamar. E eles tiveram oito meses entre a delação do Vinícius e a intervenção no banco para movimentar. E mesmo antes da delação, houve um tempo para a movimentação.

 

SUBORNO A AUTORIDADE DE ANTÍGUA

Pimenta – O suposto pagamento ao primeiro ministro de Antígua (Gaston Alphanso Browne) teria por objetivo também omitir informações a respeito da movimentação do Meinl Bank?

Tacla Durán — A idéia…

Pimenta — Aconteceu esse pagamento?

Tacla Durán — Sim, aconteceu. A ideia era brecar a resposta à cooperação jurídica formulada pelo Brasil.

Pimenta — A respeito da transação do Meinl Bank.

Tacla Durán — Correto.

 

NEM TODAS AS CONTAS FORAM REVELADAS PELA OPERAÇÃO LAVA JATO

Pimenta — No caso da suspeita de que em determinadas delações são obtidas informações a respeito de contas como uma estratégia de negociação, onde o delator recebe determinados benefícios, entre eles a proteção de contas, envolve também essa movimentação no Meinl Bank?

Tacla Durán—Tem contas no Meinl Bank que, por exemplo, eu não vi reveladas na delação do Vinícius. Isso a própria Polícia Federal já constatou.

Damous — Por exemplo?

Tacla Durán — Por exemplo, de uma pessoa que é vinculada ao presidente do Panamá (Michelle Lasso). Não foi vinculado ali.

 

LAVA JATO ESCONDEU CONTA DE JOÃO SANTANA NAS ILHAS CAYMAN

Pimenta — Mas, sobre as delações no Brasil, você já ouviu falar na conta Deltora Company?

Tacla Durán— Sim, mas Delatora é uma offshore (Deltora Entrerprise Group) que não tinha conta no Meinl Bank. Tinha conta em outro banco, nas Ilhas Cayman.

Pimenta — Chaobin (grafia pode estar incorreta) também operava em banco nas Ilhas Cayman?

Tacla Durán — Não, Chaobin era conta, se não me engano, na Suíça.

Damous — Deltora é vinculada a quem?

Tacla Durán — João Santana.

Damous — Publicidade João Santana, e a mulher,  Mônica Moura.

Tacla Durán — Sim.

Damous — E essa conta, Deltora, ela não aparece na delação da Mônica Moura e João Santana?

Tacla Durán — Não que eu tenha tomado conhecimento. Tudo que eu li, no que foi público, não vi nada mencionando.

Pimenta — E a conta Alpha Internacional Company, o senhor conhece?

Tacla Durán — Não, essa não.

Pimenta — E a Shellbill?

Tacla Durán — Shellbill faz parte de uma planilha que me pediram para fazer um estudo e buscar os beneficiários finais.

Pimenta — E, além da Shellbill, apareceu outra conta nesse estudo da planilha?

Tacla Durán — Sim. A Deltora e mais duas, uma pessoa física e outra pessoa jurídica.

Pimenta — Era João Santana…

Tacla Durán — Sim, essa conta era de contas vinculadas a pessoa de João Santana.

Pimenta — Essa planilha envolveu quatro contas.

Tacla Durán — Quatro contas.

Pimenta — E na delação aparece só a Shellbill.

Tacla Durán — Até hoje eu só vi a Shellbill.

 

ODEBRECHT PEDIU A TACLA DURÁN PARA RASTREAR CONTAS: QUERIA PRESSIONAR DILMA ROUSSEFF

Pimenta — As outras duas contas não apareceram?

Tacla Durán — Não.

Pimenta — Mas, nessa planilha que o senhor elaborou, elas aparecem.

Tacla Durán — Não, não fui eu que elaborei. Foi alguém do Departamento de Operações Estruturadas, uma das moças lá, eu não me lembro, acho que a Ângela, não me lembro, eu tenho o arquivo com o original.

Pimenta — O senhor tem  arquivo original dessa planilha.

Tacla Durán —Sim, tenho.

Pimenta — Onde aparecem as outras quatro contas.

Tacla Durán — Sim. Quando eu não consegui localizar o beneficiário final das contas e relatei isso ao Hilberto, ele ficou muito chateado, porque, aí sim, ele me colocou que era o pagamento ao João Santana, que era muito importante a gente conseguir isso, porque a ideia da Odebrecht era pressionar a presidente Dilma, através dessa informação, a paralisar as investigações ou coisas nesse sentido.

Pimenta — A Odebrecht, de posse das informações de pagamentos a João Santana, usava essas informações para pressionar lideranças de outros países e foi também usada contra a presidenta Dilma? Chegou a ser utilizado?

Tacla Durán — Creio que não, porque o Hilberto ficou muito chateado porque eu não consegui ter sucesso naquele estudo.

Pimenta — O Hilberto que o senhor fala é?

Tacla Durán — Hilberto Silva.

Pimenta— O Hilberto Silva foi identificado como responsável pelo sistema Drousys.

Tacla Durán — Não, não. O Hilberto era o responsável pelo departamento.

Pimenta —De Operações Estruturadas.

Tacla Durán —Sim, sim.

Pimenta — Ficava na Bahia.

Tacla Durán — Ficava em São Paulo porque eu alugava o apartamento a ele.

 

O QUE FAZIA O DEPARTAMENTO DE OPERAÇÕES ESTRUTURADAS

Damous – Esse Departamento de Operações Estruturadas era de fato destinado ao pagamento de propinas?

Tacla Durán — Quando eu cheguei, já estava criado. Mas havia situações de pagamento também que não se trata de propina, situações estratégicas em que a empresa tinha que fazer pagamentos, em que a pessoa não queria aparecer, por uma questão fiscal. Eram coisas normais de uma empresa. Eu, por exemplo, comecei a trabalhar lá, eu não podia detectar que aquilo era voltado para esse tipo de prática ilícita, até porque, se havia esse tipo de prática ilícita, isso não era disseminado, falado com qualquer pessoa recém chegada. Eu trabalhei cinco anos com pessoas que tinham 30, 35 anos de casa. Claro que, a partir de determinado tempo, você tinha confiança, etc. Agora eu, em dois três anos, dizer que sabia de coisas. Não, o que eu via uma série de operações, procedimentos fiscais, que eram normais do dia a dia de uma empresa.

Pimenta — O Hilberto não era o responsável pelo Drousys?

Tacla Durán — Não. O Drousys, quem era o responsável era o irmão do Luiz Eduardo.

Damous — Explica para nós o que é o Drousys.

Tacla Durán — Drousys é o sistema de comunicação. São desk tops virtuais que criavam o login e senha, e você se comunicava.

Pimenta — Uma rede interna.

Tacla Durán — É, uma rede interna. Só que essa rede interna era controlada pelo Luiz Eduardo.

Pimenta — O Luiz Eduardo ficava no Departamento de Operações Estruturadas.

Tacla Durán – É. Uma pessoa só poderia falar com a outra e esta autorizasse.

Pimenta — Ele era da equipe do Hilberto.

Tacla Durán — É.

Damous – Mas o Drousys foi concebido com que objetivo?

Tacla Durán — A de comunicação segura.

Pimenta — Só para a gente entender aqui. O Luiz Eduardo fazia parte do Departamento de Operações Estruturadas, do Hilberto, mas ele era também sócio do banco em Antígua.

Tacla Durán — Sim, correto.

Pimenta — O Fernando era diretor de que setor da Odebrecht.

Tacla Durán — O Luiz Fernando era diretor, tesouraria.

Pimenta — Tesouraria.

Tacla Durán — Ele sempre trabalhou na área de tesouraria, ele estava na área de Operações Estruturadas e…

Pimenta — Os dois faziam operações em nome da Odebrecht no Meinl Bank sem que a Odebrecht soubesse que eles eram também sócios do banco.

Tacla Durán — Que a Odebrecht sabia que eles não eram sócios do banco, certeza. Que eles faziam operações que a Odebrecht sabia, não…

Pimenta — A Odebrecht não sabia que eles eram sócios.

Tacla Durán — Não, a Odebrecht não sabia que eles eram sócios. E eles faziam operações que a Odebrecht sabia e operações que a Odebrecht não sabia. Como eu falei, são sócios. Eles são tão sócios que o imóvel onde o banco se situava em São Paulo é de propriedade dos quatro acionistas banco, e do Fernando e do Luiz Eduardo. O imóvel é de propriedade dos seis.

 

EXECUTIVOS DESVIARAM DINHEIRO DA ODEBRECHT COM PROPINA SIMULADA

Damous – Salvo engano meu, o senhor teria declarado nas entrevistas à imprensa que algumas operações de entrega de dinheiro — para políticos ou seja lá para quem for, legais ou ilegais —, o dinheiro não chegava ao destinatário, eram embolsados por aqueles que deveriam entregar o dinheiro.

Tacla Durán — Sim, sim.

Pimenta — Eles lançavam no sistema como se fosse propina.

Tacla Durán — Sim. Havia entrega simulada de dinheiro por pessoas que roubavam dinheiro.

Damous — O senhor tem exemplos?

Tacla Durán — Dinheiro físico? Dinheiro em espécie?

Damous — Uma operação de dinheiro que seria destinado a políticos.

Pimenta — Consta no Drousys uma operação de pagamento para alguém, mas, na verdade, isso era uma simulação para que o próprio executivo ficasse com o dinheiro.

Tacla Durán — Veja bem, eu não posso assim… Um caso que chamou a atenção é que foi solicitada a entrega de… Houve uma discussão muito grande em relação a Leandro Azevedo.

Damos — Quem é Leandro Azevedo?

Tacla Durán — Leandro Azevedo era um diretor da Odebrecht responsável pelo Rio de Janeiro. Falar a verdade, eu não sei exatamente a função dele. Ele trabalhava no Rio de Janeiro e era responsável por esse tipo de serviço, obra, etc. Que aconteceu ali é que eu presenciei uma discussão o Álvaro Novis (diretor da empresa), o Luiz Eduardo e o Fernando Migliaccio, num almoço, que o Álvaro reclamou que o pedido de entrega, que ele teve que entregar recursos dentro do escritório da Odebrecht na mão do Leandro Azevedo, e que, eu não sei qual o valor, nada, eu vi a discussão. Não era um assunto meu e eles não foram tão transparentes, justamente por eu estar na mesa do almoço. Ficou claro que eles ficaram muito aborrecidos e transpareceu é que esse dinheiro foi para lá e ficou com uma pessoa, que não foi, e eles acharam que estava acontecendo algum tipo de desvio.

 

A CONTABILIDADE PARALELA DA ODEBRECHT

Pimenta — Uma última pergunta sobre esse mesmo assunto. O sistema My Web Day é um sistema que até agora não apareceu de maneira integral. Ocorreram várias solicitações de acesso a esse sistema e, nesse sistema, estão registradas todas as movimentações contábeis legais e ilegais da Odebrecht no mundo inteiro. O senhor tem ciência da existência desse sistema, e como é que ele funcionava.

Tacla Durán — Sim. Quando eu estava trabalhando na triagem de informações, na defesa da empresa, porque muitas informações, antes de ser passada aos advogados constituídos, internamente a gente fazia uma triagem — alguns advogados da empresa, no caso eu, dr. Gideon, dr. Marcos Simões e outros advogados, e os próprios funcionários, diretores. Nesse trabalho, eu não conhecia o sistema My Web Day, nesse trabalho que eu estava fazendo, aí me informaram que havia esse sistema e que esse sistema se tratava da contabilidade, era um sistema de contabilidade da empresa. Ficava também em servidores seguros. Na ocasião em que me contaram, me disseram que já estava desativado. Isso foi em 2015. Em 2015, ele já estaria desativado.

Pimenta — O My Web Day ficava hospedado onde?

Tacla Durán — No exterior também.

Pimenta — Sabe onde?

Tacla Durán — Que eu saiba, na Suíça.

Pimenta — E o Drousys?

Tacla Durán — Também.

Pimenta — Essas planilhas que têm sido apresentadas extraídas do My Web Day, o senhor acha que, sem o acesso ao sistema original, é possível afirmar que elas sejam verdadeiras, a exemplo do que foi feito com os extratos de Antígua?

Tacla Durán — Sem acessar o sistema, afirmar que é verdadeiro é tecnicamente impossível. Acho que nenhum perito faria isso.

Pimenta — E esse sistema, na sua opinião, hoje ele já não existe mais?

Tacla Durán — Quando eu soube, ele já era desativado, e eles não demonstraram tanta preocupação. Acho que não havia risco.

Damous — Ele pode servir de prova contra ou a favor de alguém?

Pimenta — Não quer dizer que algo que esteja dentro do sistema seja verdadeiro também.

Tacla Durán — Como eu disse, havia coisas que podem ter sido simuladas, sob o próprio interesse de algum dos diretores. É como um sistema normal, você gera uma despesa, e a despesa pode existir ou não. Nesse caso aqui, é uma despesa que não tinha suporte de documento, nota fiscal, nada.

Pimenta — Tanto o Drousys como o My Web Day eram alimentados por executivos da empresa.

Tacla Durán — O My Web Day 100% certeza, seguro.

Pimenta — Que lançavam a contabilidade da empresa, oficial e paralela.

Tacla Durán —E executivo de alto nivel.

Pimenta — Informações não obrigatoriamente verdadeiras, na medida em que estão surgindo informações de que executivos desviavam dinheiro.

Tacla Durán — Sim, com certeza há inconsistências. Seguro. Há inconsistências. Não é 100% verídico. Isso sem nenhum tipo de fraude no sistema. Havia inconsistência por lançamento individual.

Pimenta — Deve ter também operações registradas para além das relações da política. O mundo jurídico, grupos de comunicação.

Tacla Durán — É um sistema de contabilidade. Então ali consta, acredito, tudo. No My Web Day.

O Drousys é um sistema de comunicação.

Damous — Uma espécie de whatsapp.

Tacla Durán — Tinha o chat, tinha e-mail.

Observação: O juiz Sergio Moro negou todos os pedidos da defesa do ex-presidente Lula para ter acesso a esse sistema de contabilidade paralela da Odebrecht.

 

COMO ZUCOLOTTO, O AMIGO DO JUIZ MORO, ENTROU NA HISTÓRIA

Damous — Eu gostaria mais de saber sobre sua situação jurídica.  O senhor foi delatado.

Tacla Durán — Fui.

Damous — O senhor estava sendo investigado.

Tacla Durán — Por três anos.

Damous — E preocupado, como qualquer pessoa ficaria, resolveu contratar — e o senhor estava sendo investigado pela Operação Lava Jato — advogado em Curitiba, onde é a sede da Operação, e o senhor escolheu o escritório Zucolotto para…

Tacla Durán — Não, foi um um pouco diferente. Eu tomei conhecimento de que havia sido delatado pela UTC, pelo senhor Ricardo Pessoa e pelo diretor da UTC, Valmir Pinheiro. Tomei conhecimento disso por outros advogados que também trabalhavam para a UTC. E, com a desculpa de que queriam me ajudar com a indicação de advogados, talvez os mesmos advogados, poderia até ser. Até com as mesmas referências “a panela de Curitiba”, advogados da panela de Curitiba.

Damous – O que o senhor chama de panela de Curitiba?

Tacla Durán — Eles me disseram que eram advogados que tinham capacidade de resolver o assunto melhor, por estarem ali, por conhecerem o mecanismo, as pessoas. Uma proximidade de contato. Eu optei por não contratar ninguém que eles haviam indicado, continuei com meu advogado — na verdade, constituído na frente das negociações que eu travei com o Ministério Público, que foi o Leonardo Pantaleão —, tentei prestar meus esclarecimentos, ter as minhas prerrogativas de advogado respeitadas. Não tive. Vi algumas dificuldades. E o escritório do dr. Zucolotto era meu correspondente.

Damous — Que dificuldades?

Tacla Durán — Eles queriam me imputar crimes que eu não pratiquei.

Damous — Eles quem?

Tacla Durán — Os procuradores.

Damous — Os procuradores.

Tacla Durán – Me imputar crimes que eu não cometi, converter o trabalho de advogado. Eles queriam criminalizar o trabalho do advogado. Não é porque você tem uma informação que você está protegendo seu cliente ou você está orientando seu cliente, na prática, se ele praticou ou não crime, não é o caso de você ser criminoso. Não é porque você recebeu de um cliente que você está lavando dinheiro. Eles falam que eu saquei 61 milhões em uma entrevista coletiva e, ao mesmo tempo, um informe da Receita Federal mostra que em dez anos eu saquei 435 mil.

Pimenta — Quais eram os procuradores com quem o senhor conversava?

Tacla Durán — Roberson Pozzobon, Júlio Noronha, Carlos Fernando dos Santos Lima, Diogo Castor de Mattos, Deltan Dallagnol, Sérgio Bruno, Athayde (Athayde Ribeiro Costa) e Marcelo Miller.

Observação: Carlos Zucolotto é padrinho de casamento de Sergio e Rosângela Moro.

 

PROCURADORES AMEAÇAVAM ENVOLVER A FAMÍLIA PARA FORÇAR DELAÇÃO

Damous — O senhor se sentia constrangido nestas tratativas, nesses interrogatórios?

Tacla Durán — Com certeza. Eu sou advogado, Advogado há mais de vinte ano anos e a gente tem um pouco de experiência com essa situação. Para nós advogados chegar ao ponto de se constranger, eu imagino quem não é operador do direito. Constranger no sentido de quererem trazer para dentro da investigação familiares que não tem nada a ver com isso.

Damous — Houve essa ameaça?

Tacla Durán — Sim.

Damous — De quererem trazer algum familiar seu?

Tacla Durán — Sim. Simplesmente por ser sócia no escritório de advocacia.

Damous — Quem é?

Tacla Durán — A minha irmã.

Damous — Sua irmã é advogada também?

Tacla Durán — Sócia no meu escritório, ela (Flávia Tacla Durán) nunca trabalhou para empreiteira nenhuma. Até porque ela trabalha em outra área. Ela faz direito de família, direito civil, trabalhista. Não trabalha na área de empreiteira. E eles colocavam: “é melhor fazer, é melhor por para dentro do acordo, que te protege.” Na verdade, é aquela coisa: diz que está ajudando, mas na verdade está te colocando…

Observação: Pela lei, as delações devem ser espontâneas, voluntárias.

 

TACLA DURÁN FOTOGRAFOU AS MENSAGENS TROCADAS COM ZUCOLOTTO, DA PANELA DE CURITIBA

Damous — Mas, na verdade, essas ameaças objetivavam o quê? O que eles queriam do senhor?

Tacla Durán — Que eu celebrasse o acordo. Foram feitas as reuniões, eu acabei procurando o Zucolotto para tentar ajudar nessa questão .

Damous – É isso que eu quero saber: por que o escritório do Zucolotto?

Tacla Durán — Porque ele já era meu correspondente em Curitiba há tempos. Então é natural que eu procurasse uma pessoa de Curitiba, da comarca, que evidentemente teria mais acesso. E aí nós estamos falando o que não acesso ilegal, nada. Ali é uma negociação, é o direito penal negociado.

Pimenta — O Zucolotto não é advogado trabalhista?

Tacla Durán — Eu nunca fiz direito penal.

Pimenta — O senhor procurou o Zucolotto pela sua capacidade jurídica?

Tacla Durán — Ele fazia não só. Ele fazia execução fiscal, cuidava de execuções fiscais, cuidava de assuntos trabalhistas, na questão como correspondente. Essa questão, eu coloquei que era uma questão pessoal/penal, perguntei se ele podia ajudar.

Damous – O senhor sabia que a esposa do juiz Sergio Moro era sócia do escritório do dr. Zucolotto?

Tacla Durán — Sim, soube depois.

Damous – Depois ou?

Tacla Durán — Sim, depois que eu contratei ele. Antes disso aí. Antes de contratar, eu sabia.

Damous – Não, se o senhor sabia que a esposa do juiz era sócia do Zucolotto.

Tacla Durán — Sim, antes de contratar para ajudar na negociação, eu sabia.

Pimenta — O senhor acredita que um escritório de advocacia possa ajudar no processo de acordo de delação? Que tipo de relação é essa que o senhor esperava que ele pudesse ajudar?

Tacla Durán — Eu me pautei um pouco no que o pessoal da UTC havia comentado e falado: olha, a gente te arruma advogado, o pessoal da panela de Curitiba,

Damous – O Zucolotto faria parte da panela de Curitiba?

Tacla Durán — Eu não queria um advogado vinculado à UTC, eu queria um advogado meu. Então, eu não aceitei. Mas aquela questão de que advogado de Curitiba poderia resolver e, como por experiência própria eles já tinham feito o acordo do Ricardo e da própria companhia, eu acreditei que aquilo tinha algum fundamento. E como eu tinha um correspondente em Curitiba, não para assunto penal, mas para outros, eu liguei para perguntar: se ele não fosse, quem poderia indicar para tratar desse assunto para mim.  E ele se prontificou a tentar aconselhar e resolver.

Damous — As tratativas com o dr. Zucolotto se deram como? Pessoalmente?

Tacla Durán — Não, eu já estava nos Estados Unidos, viajando, eu talvez até estivesse por alguns dias no Brasil. Eu estava viajando bastante porque eu também já estava tratando da colaboração com os Estados Unidos.

Damous – Como é que se deram essas tratativas?

Tacla Durán — Pelo Wickr, pelo aplicativo Wickr..

Damous – Wickr é o que criptografa.

Tacla Durán — Criptografa e apaga as mensagens automaticamente nos dois dispositivos.

Damous — O senhor se apresentou a ele e disse que precisava dos serviços.

Tacla Durán— Me apresentei não, ele já sabia que eu era correspondente.

Damous — Qual era a solicitação — quero contratá-lo para…

Tacla Durán — Eu não liguei para contratá-lo. Eu liguei e disse: olha, eu estou com um problema pessoal, ai em Curitiba, a Lava Jato, eu não sei se você tem como ajudar, trabalhar nisso, ou indicar alguém. Aí ele disse que a ia ver como estava o caso.

Damous — Ele fixou honorários?

Tacla Durán — Depois de algum tempo. A priori, não. Ele ia levantar como estava o caso.

Pimenta — Estas tratativas que o senhor teve com ele, o senhor pode comprovar que elas realmente existiram?

Tacla Durán — Eu tenho as mensagens, eu fotografei as mensagens.

Damous — Qual é o conteúdo dessas tratativas?

Tacla Durán — Eu pedi a ele, ele disse que ia verificar se havia possibilidade. Não falamos em honorários.

Damous — Verificar o quê?

Tacla Durán — Verificar se havia a possibilidade de fazer o acordo.

Damous — Como é que ele ia fazer isso?

Tacla Durán — Conversando com os contatos dele. Entendi que era o pessoal da Procuradoria. Um tratativa de uma negociação normal.

Observação: Essa panela, no que diz respeito aos advogados, já se formou também no caso da Máfia das Falências, revelada nesta série de reportagens. Segundo o ex-deputado Fábio de Souza Camargo, atual conselheiro do Tribunal de Contados do Estado, a Máfia dirige a administração de massas falidas para um restrito grupo de advogados. Marlus Arns e Rosângela Moro já atuaram nesse grupo.

 

ZUCOLOTTO É ADVOGADO DO PROCURADOR CARLOS FERNANDO

Damous — Ele tem um cliente procurador, não tem?

Tacla Durán  — Eu não sabia, eu soube pela Folha de S. Paulo, Dr. Carlos Fernando.

Damous — É cliente dele?

Tacla Durán — Eu soube pela Folha. Carlos Fernando dos Santos Lima. Então conversamos sobre isso, ele ficou de verificar. Aí ele verificou, deu o retorno e falou que havia a possibilidade de reduzir a multa que estavam propondo. E que, então, pagaria um terço da multa. No acordo. E pagaria outro terço como honorários para ele. A partir daí a gente faria a minuta, essas coisas.

Damous — Formalizaria um contrato de prestação de serviços e honorários?

Tacla Durán — Não, isso não. A princípio, deixou claro que não. Eu também não avancei nessa conversa porque, primeiro, eu não fiquei satisfeito com o que estava sendo proposto. Não em questão de valores, mas em questões pessoais, porque eu continuava tendo minha atividade penalizada, de advogado, continuava sendo acusado de coisas que eu não havia cometido. E isso, por princípio, eu não aceitava. Como eu não aceitava essa questão pessoal, eu não me preocupei na questão financeira.

Damous — Esse terço que seria pago como honorário dele, como é que isso seria feito? Ele pediu para formalizar?

Tacla Durán — Não. Informal. Ele, a princípio, pediu informal.

Damous — Informal como? Por fora?

Tacla Durán — Por fora.

Pimenta — Que valor seria isso?

Tacla Durán — Cinco milhões de dólares.

Damous — E esses 5 milhões de dólares seriam para quê? Para ele? Para viabilizar o acordo?

Tacla Durán — Exato. Como motivo de horários .

Damous – Exato. Mas ele precisaria para ele?

Tacla Durán — Foi a forma como ele colocou. Se ele iria usar de outra forma, não sei.

Pimenta — O senhor poderia nos disponibilizar cópia desse diálogo que o senhor teve com o dr. Zucolotto.

Tacla Durán — Sim, eu já submeti à perícia, aqui no exterior.

Damous — Está sendo periciado.

Tacla Durán — Sim, está sendo periciado.

Pimenta — E essas tratativas, feitas no sentido de melhorá-las, foram feitas com qual procurador?

Tacla Durán — Com quem ele falou? Para falar a verdade, ele não nominou. O email foi enviado pelos procuradores Roberson Pozzobon, Carlos Fernando Santos Lima e Júlio Noronha.

Pimenta — Foram eles que encaminharam para o senhor?

Tacla Durán — Enviaram. Enviaram numa sexta-feira e exigiram que eu fosse assinar na segunda.

Pimenta — Foi antes ou depois da conversa com o Zucolotto?

Tacla Durán — Depois.

Zucolotto — Essa minuta é fruto do trabalho do Zucolotto?

Tacla Durán — Sim.

Damous — Numa dado momento, o dr. Zucolotto disse que traria o procurador para a negociação?

Tacla Durán — É.

Damous — Isso está nas mensagens?

Tacla Durán — Isso está nas mensagens.

 

Observação: No livro “Testimonio”, que está escrevendo, Tacla Durán disse muito mais do que isso.Veja um trecho: “Carlos Zucolotto então iniciou uma negociação paralela entrando por um caminho que jamais imaginei que seguiria e que não apenas colocou o juiz Sergio Moro na incômoda situação de ficar impedido de julgar e deliberar sobre o meu caso, como também expôs os procuradores da força-tarefa de Curitiba.”

Em outro trecho, ele escreveu: “Ao se prontificar a me ajudar, Zucolotto explicou que a condição era não aparecer na linha de frente. Revelou ter bons contatos na força-tarefa e poderia trabalhar nos bastidores”.

Na troca de mensagens com Zucolotto, relevada pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o amigo de Moro teria escrito:

“E você paga mais um terço de honorários para poder resolver isso, me entende? Mas por fora porque tenho de resolver o pessoal que vai ajudar nisso.”

Os deputados poderiam (e deveriam) ter aprofundando mais esse ponto. Haverá uma nova oportunidade, caso a CPI aprove o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.

 

E-MAIL E MENSAGENS DESMENTEM O JUIZ SERGIO MORO

Damous — O juiz Sérgio Moro afirmou, peremptoriamente, quando essas informações foram divulgadas, se não me engano pelo jornal Folha de S. Paulo, o juiz Sérgio Moro veio em defesa do dr. Zucolotto, dizendo que ele atua na área trabalhista, não atua na área criminal. Disse peremptoriamente. O que o senhor tem a comentar a esse respeito?

Tacla Durán — Olha, o site do escritório do dr. Zucolotto tem no portfólio que ele atua, sim, na área criminal.

Damous — E mais. Disse mais o juiz Sergio Moro — eu estou abrindo aspas aqui. O relato de que esse  advogado em questão, Zucolotto, teria tratado com o réu foragido, Rodrigo Tacla Durán, é absolutamente falso. Ou seja, esse documento que o senhor tem, da troca de e-mails e a conversa registrada com o dr. Zucolotto, desmentem o juiz Sergio Moro.

Tacla Durán — Não, eu não troquei e-mails com o dr. Zucolotto sobre esse assunto. Sobre esse assunto, eu troquei mensagens no Wickr. Há e-mails trocados do meu escritório com o dr. Zucolotto de anos, em razão do trabalho que ele prestava para meu escritório como correspondente.

Damous — Eu me refiro ao e-mail dos procuradores.

Tacla Durán — O e-mail dos procuradores é absolutamente verdadeiro, é da rede do MPF.

Pimenta — Está assinado?

Tacla Durán — Sim, com cópia a três procuradores. Com cópia. Copiados três procuradores e copiado meu advogado. Meu advogado me encaminhou.

Pimenta — Isso é importante. Depois da troca de mensagens com o Zucolotto.

Tacla Durán — Sim.

Pimenta — Se o senhor tivesse aceito, teria também subentendido que o senhor teria aceito também os temos propostos pelo Zucolotto.

Tacla Durán —Sim. Foi depois. Eles encaminharam o e-mail para meu advogado e meu advogado me encaminhou o e-mail. Nesse e-mail constavam três procuradores, são os três que eu falei e o meu advogado.

Pimenta — O senhor não aceitou?

Tacla Durán — Não aceitei.

Pimenta — Por quê? Porque continuava ainda penalizando minha atividade.

Tacla Durán — Pois é. Continuava penalizando. Eles não consideravam que meu patrimônio — uma das coisas que eles mencionavam como se nele houvesse irregularidade — é e era de fato declarado. Falava que eu sacava dinheiro. Minhas contas não têm saque. Que eu recebia de cliente, sacava e devolvia para o cliente. Isso não aconteceu.

Observação: O comportamento de Moro, diante da revelação da Folha de S. Paulo, de fazer a defesa do advogado é suspeitíssimo. E esta não é a única fragilidade. Zucolotto aparece como advogado do juiz — não só amigo —, em uma ação criminal contra o advogado Roberto Bertholdo, que acusou o juiz de favorecer Alberto Youssef, no primeiro acordo de colaboração dele, em 2004. Pela acusação, Bertholdo foi condenado por injúria e difamação. Ele queria provar que o que disse era verdade, mas a Justiça não abriu o processo para a possibilidade de exceção da verdade.  A outra advogada da ação era Rosângela Moro, esposa de Sérgio Moro, o que desmente a informações do juiz de que ambos só compartilhavam o escritório, sem compartilhamento de honorários.

 

PROVAS OFERECIDAS POR TACLA DURÁN DESMONTAVAM VERSÃO DO MPF E, POR ISSO, FORAM RECUSADAS

Damous — O senhor tem conhecimento de que o procurador Pozzobon ameaçou com nova prisão o executivo da UTC, Ricardo Pessoa, para que ele fosse obrigado a dizer que seus trabalhos eram ilícitos?

Tacla Durán — Sim, foi o que me foi falado.

Damous — Por quem?

Tacla Durán — Pelo advogado Ivan Carratu.

Damous — O Dr. Ivan Carratu quem é?

Tacla Durán — É advogado da UTC. Aí depois eu vim a saber que, de fato, isso se confirmou, porque, nessa ocasião em que ele me contou, isso aí estava sob sigilo. Entretanto, quando foi pedida a minha prisão, eu tive acesso, aqui na Espanha, a cópia, a parte dos autos. Pelo menos é o que chegou aqui na Espanha. Aí, nesses autos, consta também uma complementação de delação premiada, com declarações do Ricardo Pessoa e do senhor Valmir Pinheiro. Essas declarações foram feitas no endereço do escritório da própria UTC, sem a presença de qualquer autoridade policial ou do Ministério Público. Subentende-se que estavam sentados na mesma mesa, sem qualquer autoridade, os dois delatores e seus respectivos advogados. E, diga-se de passagem, uma advogada deles também é advogada da Odebrecht.

Damous — Qual é o nome?

Tacla Durán — Dra. Carla Domênico. Eles dizem, basicamente, que o que eles me pagaram eu devolvi a eles em dinheiro. Como? Perguntados pelos advogados, deles próprios, eles disseram que eu ia regularmente, a cada determinado tempo, à garagem do prédio da UTC. Isso é mentira. Eu nunca estive no prédio da UTC, gostaria até de ter a oportunidade porque, até hoje, não tem inquérito policial, não tem investigação, gostaria de oferecer meus telefones para que fossem verificados que eu nunca estive nessa região, da UTC. E nessa situação da questão da UTC e, perguntados pelos advogados: o senhor tem algum registro da presença dele na garagem? Não, não há. Tem algum vídeo? Não, não tem. Outras perguntas que eles fazem lá — ao senhor Valmir —: o senhor sabe como o Rodrigo transformava ou convertia o dinheiro em espécie? Ele disse que não sabe nem nunca teve interesse em saber. E juntam documentos. E quais são os documentos? Os meus recibos da sociedade de advogados, que tiveram impostos retidos. Documentos que não são nenhum plus, não são nenhuma prova que o Ministério Público não tivesse. Por exemplo, me chama muito a atenção que são documentos muito menos valiosos, muito menos importantes, que eu propus ao Ministério Público entregar, quando tentaram fazer o meu acordo. Entretanto, eram documentos que desconstituíam essa versão que o Ministério Público criou em muitos aspectos. Então eu senti, nesse momento, e hoje vendo o que a UTC fez comigo, e aceito, eu vejo que parte do meu problema — que o meu acordo não foi aceito — é que eu descontituía uma versão que já vinha sendo criada. Então, em vez de eu somar, de eu construir uma versão de acusação, eu estava atrapalhando.

Damous — Com base nessa afirmação de agora, pela sua própria experiência nessas tratativas, nesse interrogatório, e aquilo que o senhor ouve ou possa ter ouvido de outras pessoas na mesma situação, o senhor acha que há um padrão, nessas tentativas de obtenção de delação, um padrão de selecionar aquilo que interessa, de selecionar aquilo que não interessa, do ponto de vista da verdade que a operação quer construir?

Tacla Durán — Sem dúvida. No meu caso, como eu trabalhei muito com a Odebrecht no exterior, eu tinha uma situação de ter mais informação do exterior, isso também nunca foi do interesse deles. O interesse deles é voltado ao Brasil, e principalmente voltado a políticos.

Damous — O advogado Vicente Paula Santos, o senhor conhece, já teve alguma relação profissional com ele?

Tacla Durán — Não, não tive. Mas ouvi falar agora, recente, que ele foi sócio do Zucolotto ou tem escritório no mesmo endereço. Ou defende ou defendeu o procurador Carlos Fernando.

Observação: O depoimento de Tacla Durán, nesse ponto, confirma que a Lava Jato arma situações para produzir resultados pré-definidos. No processo que envolve Lula, também existem graves acusações de uso de documentos falsos. Sergio Moro até hoje não autorizou perícia em e-mail que a defesa de Lula diz serem apócrifos.

 

MARCELO MILLER QUERIA QUE TACLA DURÁN GRAVASSE REUNIÃO DE ADVOGADOS NA ODEBRECHT

Pimenta —  O senhor teve algum contato com o procurador Marcelo Miller?

Tacla Durán — Sim, ele esteve presente em uma reunião em Curitiba, nas negociações.

Pimenta — O dr. Marcelo Miller era da equipe de Curitiba?

Tacla Durán — Não. Ele era de Brasília.

Pimenta — Mas participava da conversa com o senhor?

Tacla Durán — Participavam de Brasília o dr. Marcelo Miller e o dr. Sérgio Bruno. Eles participaram a partir da segunda ou terceira reunião que eu tive, não me lembro bem, mas a partir de um momento eles participaram sim. Eles tinham interesse de saber se eu tinha alguma informação ou situação que pudesse envolver pessoas de fórum privilegiado.

Pimenta — Marcelo Miller, no caso…

Tacla Durán — Foi a justificativa que me deram para que eles estivessem presentes na reunião.

Pimenta — O Marcelo Miller, o senhor se recorda de alguma situação especial dele, nos depoimentos que foram prestados ou nas conversas?

Tacla Durán — Sim. Como eu comentei que havia iniciado uma negociação, eu procurei ser, primeiro, mais leal e mais franco possível. Nesse meio, entre uma reunião e outra com a procuradoria, eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht, com o advogado na Odebrecht, e para que não houvesse nenhuma dúvida do meu espírito leal de que eu queria colaborar, etc., de prestar esclarecimento e resolver a situação, eu comentei a eles que eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht. Eu não queria deixar que eles soubessem de outra forma e parecer que eu estava enganando. Então eu comuniquei. Quando comuniquei, eles, o Marcelo Miller e o doutor Sérgio Bruno, eles deixaram claro que tinham interesse em saber o teor ou o conteúdo dessa reunião.

Damous — Eles queriam que o senhor gravasse a reunião?

Tacla Durán — Sim, o Marcelo Miller.

Pimenta — Falaram formalmente par gravar.

Tacla Durán — Sim, o Marcelo Miller falou para gravar.

Damous — A reunião com os advogados.

Tacla Durán — Sim, daí eu falei: é reunião de advogados, doutor.

Damous – Nisso, o doutor Sérgio Bruno foi um pouco contra. Ele se mostrou contrário ao que vinha sendo proposto. Ele disse: você vai lá e conta para nós depois.

Pimenta — Mas ele chegou a pedir que o senhor gravasse a reunião com os advogados.

Tacla Durán — O Miller sim.

 

OBSERVAÇÃO: A declaração de Tacla Durán reforça a suspeita de que Marcelo Miller orientou o dono da JBS, Joesley Batista, a gravar Michel Temer e Aécio Neves. Esse tipo de orientação enfraquece o valor da prova, já que pode ser considerado como atitude não espontânea, flagrante armado com auxílio de autoridades.

 

PROCURADOR IRMÃO DE ADVOGADO QUE RECEBE PARA ORIENTAR DELAÇÃO DISSE NO TELEFONE: “ELE VEM CONTAR HISTORINHA OU CONFESSAR CRIME?”

Pimenta — Quem é o senhor Orlando Martello? Procurador também?

Tacla Durán — Acho que ele é um dos procuradores.

Pimenta — Mas o senhor nunca teve contato com eles.

Tacla Durán — Nunca.

Pimenta – O senhor Diogo Castor.

Tacla Durán — Diogo Castor de Mattos, ele foi o procurador que atendeu o primeiro telefonema do meu advogado, o dr. Leonardo Pantaleão, ele atendeu o telefonema e foi com ele que o Leonardo marcou a primeira reunião. Ele inclusive falou para meu advogado: o seu cliente vem aqui contar historinha ou vem aqui confessar crime? Porque, se vir aqui contar historinha, não precisa nem vir.

Pimenta — Diogo Castro e Rodrigo Castro?

Tacla Durán — Me parece que é irmão dele. É advogado. Não conheço o Rodrigo. Eu sei que ele advogou aí para algumas pessoas.

Pimenta — Nas delações?

Tacla Durán — Sim, nas delações. Advogado do Carlos Alberto Pereira da Costa, se não me engano.

Pimenta — João Santana?

Tacla Durán — Eu li notícias que sim.

 

Observação: Há outros advogados especializados em delação premiadas que têm relações próximas com o Ministério Público Federal de Curitiba e o juiz Sergio Moro. Marlus Arns é um deles, que já advogou com Rosângela Moro, na defesa de uma massa falida no Paraná, administrada por uma família acusada de chefiar a Máfia das Falências. Marlus e Rosângela também são ligados à Federação das APAEs, de Curitiba. Como diretora jurídica da Federação, Rosângela encaminhava a Marlus as ações das diversas APAEs do estado.

 

PROFISSIONAIS QUE ORIENTAM DELAÇÃO AGEM COMO ADVOGADOS DE PORTA DE CADEIA

Damous — Me diz uma coisa: o senhor está escrevendo um livro?

Tacla Durán — Sim.

Damous — A respeito do quê?

Tacla Durán — É um livro contando um pouco de todos os acontecimentos, de tudo o que eu passei, preso também. Antes de ser preso. Estas tentativas de acordo, como foram os meus contatos com diversos países sobre os acontecimentos. Eu atendi autoridades de Andorra, dos Estados Unidos, da Suíça, Equador, não só as brasileiras. As brasileiras, na verdade, foram as únicas que eu não consegui atender.

Damous — O que o senhor pretende com esse livro?

Tacla Durán — Eu não terminei nada ainda. Eu, na verdade, estava escrevendo tudo, eu comecei a fazer quando estava preso. Mais uma forma de passar o tempo. E eu não terminei. Vazou aí, infelizmente, eu estava fazendo um trabalho gráfico para poder ir arquivando, e acabou vazando.

Damous — Me diz uma coisa. Me ocorreu agora. A partir da sua experiência, daquilo que o senhor tem conhecimento, da experiência de outros que passaram…

Tacla Durán – Só um parênteses sobre o livro. Eu não publiquei, ainda não está pronto, eu não sei exatamente quando vai estar pronto, se vai ser publicado, porque eu tenho agora essa questão com a OAB. Porque ela entende que eu, por ter dado uma entrevista à Folha de S. Paulo, eu havia quebrado o sigilo profissional. Entretanto, eu sou acusado pela empresa, que diz que eu não era advogado. É uma situação inusitada. Se a OAB entende que houve quebra de sigilo, então eu sou advogado, como, de fato, eu era. Entretanto, para me defender, o dr. Wadih conhece bem o estatuto, o código de ética, eu posso me defender, eu devo me defender.

Damous — Claro.

Tacla Durán — Então a OAB abriu procedimento, eu vou responder, vou respeitar, vou lutar pelo meu direito de ser advogado e as minha prerrogativas. Embora tem aí uma situação, extra a ser advogado ou não a empresa, ao fazer o acordo de leniência, ela (a Odebrecht) abriu mão do seu próprio sigilo. Se alguma coisa que eu estou falando, está incomodando, e significa que ainda está sob sigilo, subentende-se que ela, então, não abriu todo o sigilo. Se ela não abriu todo o sigilo, ela está irregular com o acordo que ela firmou. Eu, como não aderente ao acordo dela, com o Ministério Publico, não tenho como saber o que ela quebrou de sigilo ou não, mas que eu sei é que ela deveria abrir todo o sigilo. Então, eu entendo que, nesse procedimento ético que eu estou respondendo, e eu tenho muito liberdade de falar para você, Vossa Excelência, por ter sido presidente da Ordem (dirigindo-se a Wadih Damous), tem conhecimento do assunto tecnicamente. Inclusive tem a perda de objeto. Porque, se uma empresa abre o sigilo, por que ela exige o sigilo em relação a mim? Ainda mais querendo me defender. Mas eu vou respeitar o procedimento.

Damous – Vou fazer uma última pergunta ao senhor: pela sua experiência como advogado ou por tudo aquilo que o senhor está passando, Enfim, ao longo da vida, nós às vezes somos procurados por pessoas não por força da capacidade técnica — algumas pessoas acham, ele é amigo do juiz. É muito comum, por exemplo, na área criminal, o advogado de porta de cadeia, chamado de advogado de porta de cadeia. Eu não gosto desse tipo de expressão, é preconceituoso. Mas as pessoas procuram aquele advogado que aparece porque é amigo do delegado, que é amigo do carcereiro, porque é amigo do investigador, do escrivão. Você está percebendo isso, a existência desse tipo de profissional, nessas operações, ou seja, o advogado que é contratado, que é procurado porque tem condições de resolver o problema.

Tacla Durán — Sem dúvida. Sem dúvida nenhuma. Nós, na nossa profissão  — a questão que você levantou do porta de cadeia, uma expressão que denigre inclusive a classe, eu não vejo de maneira saudável, mas nós não podemos dizer que não existe. Existe. Existe o advogado da madrugada, que é chamado quando tem um problema de noite na delegacia. Isso é uma coisa inerente na nossa profissão. Conhece o escrivão, o delegado do plantão. Eu acho que a única coisa que a gente deve traçar um paralelo, acontece, é que esse tipo de ambiente, de crime, etc., de delegacia, na madrugada, que acaba entrando esse tipo de profissional atuando, foi trazido para dentro da Operação Lava Jato.

Pimenta — O senhor acredita que, assim como existiam ou existem advogados que têm mais facilidade, em função das suas relações para agilizar a soltura de alguém de uma delegacia na madrugada, existem advogados que especializaram pelo relacionamento que têm no mundo jurídico da Lava Jato?

Tacla Durán — A única coisa é que muda o crime e muda o ambiente. Na delegacia.

Pimenta — E os valores.

Tacla Durán — E os valores. O modus operandi é o mesmo.

Damous — Parece que o Dr. Zucolotto atuaria nesse sentido.

Tacla Durán — Pode ser, pode ser. Como outros profissionais. São competentes. Não é a questão. Cada profissional na sua área. É uma forma de atuar.

 

Observação: As delações premiadas começaram a ser feitas por uma advogada sem nenhuma expressão, Beatriz Catta Preta, que foi durante muitos anos defensora de Lúcio Funaro, agora delator, mas em Brasília. Beatriz começou a carreira no escritório do ex-desembargador federal Pedro Rota, em São Paulo. É casado com um ex-operador do mercado paralelo, preso no passado com dólares falsos. Beatriz Catta Preta, depois de fechar uma série de acordos de delação em Curitiba, anunciou que estava desistindo da advocacia e mudando de endereço. Iria morar nos Estados Unidos.

 

TACLA DURÁN ESTÁ DISPOSTO A DEPOR NA CPI POR VIDEOCONFERÊNCIA

Pimenta — Dr. Rodrigo Tacla Durán, a gente quer concluir esse conversa, dizendo da importância das questões que foram colocadas, a denúncia de que planilhas, de extratos que suportam a delação da Odebrecht, são documentos que foram elaborados para a delação, não o contrário. Ou seja, a delação estar sustentada em documentos previamente existentes, revela um modus operandi que também concorreu na delação da JBS, possivelmente da UTC, que, enfim, o senhor que teve oportunidade de prestar depoimento nos Estados Unidos, em outros países, consegue perceber essa distinção de procedimentos investigatórios do Ministério Público e de órgãos governamentais do Brasil e de outros países?

Tacla Durán — Sim, sem dúvida. Eu atendi diversos países, na qualidade de testemunha. E, em alguns deles, a condição de testemunha teve que aguardar uma certa maturação entre o que era informação privilegiada no sentido da investida de advogado até para não contaminar o caso, porque seria uma prova nula, e, a partir de determinados parâmetros, respeitadas as prerrogativas de advogado, eu poderia ser testemunha. Como, de fato, aconteceu. Eu vejo que alguns países, no caso que eu tive, tem a mesma legislação de acordo como outros não têm. O Brasil não tinha. E a justiça não deixa de ser tão eficaz ou não por conta da legislação do acordo.

Damous — Para encerrar mesmo: O senhor estaria disposto a depor, publicamente, perante órgãos brasileiros acerca de tudo o que foi relatado aqui?

Tacla Durán — Sim, eu sempre estive à disposição. Colaborei com outros países, não teria por que não com o Brasil. Repito: eu nunca depus na Polícia Federal, porque meu processo, minha denúncia, não tem inquérito policial. Então eu nunca fui ouvido. Eu nunca consegui esclarecer. Deturparam as minhas informações fiscais. Escreveram e falaram, e deram entrevistas dizendo o que queriam. E eu nunca fui ouvido. Nunca consegui. Então, não tem problema nenhum. Eu já tinha colocado à disposição, me colocado à disposição da Comissão de Segurança Pública, da Câmara dos Deputados. Houve um problema técnico, acabaram adiando. Mas estive à disposição.

Damous — O senhor não foi mais procurado pela Comissão.

Tacla Durán — Não, não mais.

Pimenta — O senhor tem uma documentação muito grande, que envolve autoridades de diferentes países, autoridades judiciárias, informações bancárias, e toda essa informação disponibilizada certamente será periciada, objeto de análise, mas, com certeza, são muito relevantes e demonstram, de fato, um procedimento em relação às chamadas delações, que colocam em cheque esse próprio instituto da maneira como ele vem sendo observado. O senhor gostaria de colocar mais alguma questão para nós concluirmos essa nossa conversa?

Tacla Durán — Eu estou à disposição, da Câmara ou de qualquer autoridade brasileira. Sempre que procurado, eu vou procurar e ajudar dentro do que for possível, como foi a minha trajetória nesse processo todo que foi até agora.

Pimenta — Quero agradecer então ao Rodrigo Tacla Durán, ao Dr. Emílio.

Observação: É muito estranha a atitude da Comissão de Segurança Pública e Crime Organizado da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado Capitão Augusto. Marcou e desmarcou a audiência, alegando problemas técnicos. Hoje, isso é injustificável. Qualquer aplicativo, como Skype pode viabilizar uma transmissão à distância. Pode fazer isso até por WhatsApp. Houve alguma interferência política para que o depoimento não se realizasse.

 

TACLA DIZ QUE NÃO É FORAGIDO E É VÍTIMA DE UM MANDADO DE PRISÃO ILEGAL

Tacla Durán — Só uma questão, doutor. É que falam por aí: foragido, etc. Veja bem: eu vejo as delações, os acordos de delação aí do Brasil, e isso falo como advogado, que isso se transformou em um instrumento de defesa. E isso vale, porque todo mundo pode se defender como deve. Mas, para se defender de uma prisão preventiva, na maioria das vezes arbitrária e ilegal. Eu até contei esta via do direito como um dispositivo de defesa. Entretanto, diante de como caminham as coisas no Ministério Público Federal, que além de não fazer o acordo comigo, sempre inviabilizou e trabalhou contra que eu fizesse o acordo em outros países. Diante desse quadro, eu como advogado quero ter estratégia que eu passei a usar que eu usei, a extradição como procedimento jurídico válido, regular, um instituto que é reconhecimento na legislação de diversos países como defesa a uma prisão preventiva ilegal e arbitrária. Minha extradição foi tirada desta forma: como estratégia de defesa diante dessa irregularidade, dessa ilegalidade. Não sou foragido, tenho meus passaportes em mãos. Posso viajar para onde eu quiser, quando eu quiser, respondi a todos os processos aqui na Espanha, carta rogatória, a todos os procedimentos de cooperação internacional e de outros países. Eu só não posso viajar, porque sou ameaçado pelas autoridades brasileiras, de quererem insistir em fazer uma detenção ilegal preventiva. Preventiva é o quê, depois de responder a tudo isso que respondi? Eu não estou fugindo, tenho endereço, tenho domicílio, profissão. Se eu fosse foragido, a Justiça daqui teria me prendido. Eu não sou foragido. Só queria deixar esse registro, claro. Se pudesse, eu iria até a Câmara dos Deputados pessoalmente. Não vou por isso. Então, para atender a qualquer autoridade, etc., nesse momento. Por que a 13a. Vara de Curitiba insiste nessa ilegalidade, eu tenho que, infelizmente fazer essa colaboração a meu país à distância, via videoconferência.

Observação: de fato, Rodrigo Tacla Durán não foi preso quando estava nos Estados Unidos e a prisão foi decretada. Ele viajou dos Estados Unidos para a Espanha e não foi detido, apesar do determinação de Moro de colocar o nome dele na Interpol. Ele foi preso em solo na Espanha, em um hotel, depois que desembarcou. A Justiça julgou o pedido de extradição, concedeu no primeiro julgamento, mas negou no recurso. Tacla Durán tem nacionalidade brasileira e, filho de espanhol, também espanhola. A Espanha não extradita seus nacionais. A justiça decidiu que, se o Brasil quiser, deve mandar as provas que Moro tem para lá e, em corte espanhola, ele seria julgado. Moro não mandou prova nenhuma, mas decidiu processá-lo em Curitiba, à revelia.

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Globo festeja presença de Janot em Davos

21 jan

 

Em plena crise econômica, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, meganha-mor do golpe, torra dinheiro do contribuinte brasileiro indo a Davos, um fórum de empresários e governos.

O que ele estava fazendo lá?

Para a Globo, a presença de Janot em Davos mostra “avanço institucional” do Brasil. O chapa-branquismo da Globo já ultrapassou as raias do ridículo. Parodiando um dos slogans que Carmen Lucia, presidente do STF, criou de graça para a Globo: primeiro o cinismo venceu a esperança, depois o escárnio superou o cinismo, e agora o patético triunfou sobre o escárnio.

A Globo, como sempre, está na contramão da história.

Não há nada mais patético, mais antidemocrático, mais emblemático da decadência e caos institucional que vive o Brasil, do que termos o procurador-geral representando o país num fórum econômico internacional, e ainda mais um procurador que esteve à frente de um golpe de Estado, e de uma operação que, literalmente, liquidou a economia nacional.

A presença de Janot em Davos é um acinte. Ele sequer vai para lá como representante do Brasil e sim como como capitão-do-mato do Departamento de Justiça dos EUA, visto que a Lava Jato agora se gaba de ser uma operação de cooperação internacional, embora sem explicar como uma operação internacional tenha como meta aniquilar única e exclusivamente empresas brasileiras.

Ontem, o blog Divergentes lembrou que a Lava Jato repassou um monte de informações sensíveis de empresas estratégicas do Brasil para o Departamento de Justiça dos EUA, sem receber nada em troca.

A gente fica imaginando se os EUA seriam tão generosos com o Brasil, se repassariam informações sensíveis de suas empresas estratégicas para a nossa Procuradoria Geral da República.

Não. Não fariam. O governo americano trabalha para suas empresas. Espiona outros países e outras empresas em favor delas. O Pentágono destrói países inteiros, matando milhões de pessoas, para que as empreiteiras americanas ganhem contratos bilionários de reconstrução.

É interessante notar ainda que, nos EUA e no resto do mundo, os governos eleitos exercem um controle absoluto sobre qualquer cooperação de nível internacional. Aqui, não. Aqui no Brasil, a cooperação internacional fica a cargo de meganhas birutas, marajás da burocracia, deslumbrados com a Globo e com as passagens e hotéis de
 graça que recebem para viajar o mundo, a serviço da destruição de empresas brasileiras.

Ao mesmo tempo, o fato do presidente Michel Temer não ter ido, e o procurador-geral da república sim, desvela muito sobre a conjuntura nacional e sobre quem exerce o poder, de fato, no país. Não é o presidente, que nem eleito é: é a burocracia jurídica, da qual Janot é um dos principais representantes.

Depois do golpe, o Brasil é governado por uma espécie de junta burocrática jurídico-policial. O presidente Temer é apenas um idiota servil, um morto-vivo mantido no cargo sob vigilância estrita (o processo de cassação do TSE + delações da Lava Jato servem para isso) da meganhagem da burocracia e da mídia.

A gente entendeu errado a presença de Gilmar Mendes no avião presidencial que levou Michel Temer a Portugal, para o enterro do Mario Soares.

Quem pegou carona ali foi Michel Temer, não Gilmar, porque o poder está nas mãos das castas jurídicas, não do governo. O absurdo não era a presença de Gilmar no avião, e sim a de Michel Temer! Tanto que agora, em Davos, as coisas se ajeitaram. Temer ficou em casa, Janot foi passear.

O suspense com a “mega-delação” de Marcelo Odebrecht serve para isso, para lembrar ao governo quem manda, visto que Marcelo falará exatamente o que a burocracia jurídica quiser que ele fale, porque, em caso contrário, é prisão perpétua.

Não contente em expor sua ridícula presença em Davos, Janot ainda tem o desplante de dar entrevistas. Segundo o Globo, ele teria dito que a “Lava Jato é pró-mercado”.

Pausa para engasgar, rir, chorar e depois ficar pensativo.

Que mercado? O brasileiro é que não é, visto a devastação econômica que a operação provocou no país.

Então, de repente tudo fica tão claro que cega a vista.

Claro, é o mercado internacional. Os ativos brasileiros estão sendo todos vendidos na bacia das almas do mercado internacional, por um governo ilegítimo, a preços vis, sob o olhar cúmplice, complacente, feliz, da burocracia jurídica.

É muito interessante essa transformação da Lava Jato numa espécie de “ser político”. A Lava Jato agora tem ideias políticas próprias: é pró-mercado, por exemplo.

Ontem ficamos sabendo que até mesmo a rede de comunicação do espaço aéreo brasileiro será privatizada. Se houver um problema no espaço aéreo brasileiro, o procedimento não será mais contatar a Aeronáutica e sim ligar o SAC da empresa que houver vencido a… (tosses) licitação.

A Lava Jato é pró-mercado…

Essa frase de Janot tem reverberações quase poéticas.

No sentido dantesco de poesia, claro.

Por Miguel do Rosário – O Cafezinho

O xadrez da política no dia D (Luis Nassif)

13 mar

O Jornal de todos Brasis

Vamos ao novo xadrez da crise.

Peça 1 – a crise ficou grande demais para Dilma

É a única certeza nesse oceano de imprevisibilidades que caracteriza a crise atual. Dilma não tem fôlego político nem para lançar planos mais audaciosos nem para recompor sua base política. Mantido o quadro atual, se não cair por impeachment, cai pela crise.

Peça 2 – qualquer solução de conflito mergulha o país em uma crise imprevisível.

Essa premissa é central para todo o raciocínio posterior. Não significa que, automaticamente, conduzirá as discussões para a racionalidade. Mas será um fator relevante a estimular algumas lideranças mais responsáveis na busca do entendimento.

Grosso modo, há dois grupos trabalhando em saídas mais articuladas para a crise.

No Senado, o grupo formado por Renan Calheiros, José Serra e Romero Jucá, articulando alguma forma de semiparlamentarismo que mantenha Dilma Rousseff na presidência, mas sem governar. Vamos trata-lo de os Parlamentaristas para facilitar a leitura.

Ao largo, o grupo que cerca Lula, insistindo para que assuma um cargo de coordenação no Palácio, mesmo sem ser formal, mas que o transforme em um primeiro-ministro de fato. Chamemos de Lulistas.

Correndo por fora, o grupo do impeachment, com Aécio Neves na ponta. Seriam os Jacobinos.

Finalmente, o grupo do Ministério Público Federal diretamente liderado pelo Procurador Geral Rodrigo Janot. Vamos batizar de Alto Comando, para fugir da confusão corriqueira, de considerar que o comando e a estratégia da Lava Jato estão em Curitiba.

São esses personagens que jogam o jogo atual, cujo ápice serão as manifestações deste domingo.

As formas de jogo político

Para acompanhar o jogo é preciso entender melhor sua natureza.

Não se trata de uma conspiração palaciana, com um comando organizando todas as ações.

Movimentos de opinião pública são operações muito mais fluidas, mais amplas, nas quais se escolhe o momento adequado – o mal-estar econômico – e, se deflagra um conjunto de ações visando estimular as reações populares. A denúncia da corrupção é o mote mais eficaz.

Aberta a porteira, provoca-se o estouro da boiada e abre-se a caixa de Pandora. Há uma sucessão de eventos, alguns aleatórios, outros planejados. A arte da conspiração consiste em controlar os bois guias, os que vão na frente da boiada conduzindo-as. Mas o final sempre é imprevisível, daí a preocupação de Fernando Henrique Cardoso e de quadros do PSDB, recuando na radicalização.

O estouro da boiada foi possível com a parceria montada pelo Alto Comando com a mídia, a entrada dos novos grupos que se apossaram das manifestações (Movimento Brasil Livre, Revoltados Online, provavelmente bancados de fora), e um investigação capaz de gerar fatos jornalísticos diários.

Hoje em dia, quem controla os bois guias é o Alto Comando, através da usina de geração de fatos da Lava Jato, sincronizando com os movimentos da oposição.

Os protagonistas a serem acompanhados são, portanto, os Parlamentaristas, os Lulistas e oAlto Comando. Os Jacobinos de Aécio e a mídia são agentes acessórios – no caso da mídia, fundamental para o sucesso da operação, mas vindo a reboque, sem papel na formulação estratégica,

A dificuldade de definição de estratégias se deve à extrema habilidade de um jogador essencial, oAlto Comando, que conseguiu jogar xadrez escondendo o rei. É uma velha gíria do xadrez: como a vitória consiste no xeque-mate ao rei, se você esconde o seu no tabuleiro, não tem como levar xeque.

Quando os demais personagens entenderem adequadamente o papel do Alto Comando, os erros de estratégia serão minimizados.

Como se organiza o jogo

Se consumado o impeachment de Dilma Rousseff, será um case mundial, provavelmente a mais bem-sucedida estratégia de golpe político das últimas décadas.

Não é o caso de voltar ao tema da geopolítica norte-americana na quadra atual. Maiores dados vocês poderão ler aqui (http://migre.me/tdbtp). A estratégia de desmonte dos grandes grupos nacionais que poderiam se habilitar a algum protagonismo externo pode ser lida aqui (http://migre.me/tdbAZ).

Há duas vertentes para dobrar a espinha do país.

A primeira, que dá o start, é a política de depreciação continuada de tudo que possa despertar o orgulho nacional. Esse trabalho ficou nítido na Copa do Mundo, um exercício tão funesto de derrubar a autoestima que conseguiu espantar das ruas até o orgulho de vestir camisa da Seleção. E isso antes do 7 x 1 e pouco tempo depois do país ter atingido o momento mais alto do seu orgulho, respeitado mundialmente pelos avanços sociais registrados.

A segunda vertente foi o papel do Alto Comando como estrategista central da Lava Jato.

Do lado jurídico, a maneira como a Lava Jato foi montada foi bem explicada pelo advogado Juarez Cirino dos Santos no site Jota (http://migre.me/td3XB).

4. Além de constrangimentos e humilhações aos adversários políticos, a Operação Lava Jato apresenta inúmeras vantagens (…):

– primeiro, os procedimentos investigatórios e os processos criminais são seletivos e sigilosos: seletivos, porque dirigidos contra líderes do PT ou pessoas/empresas relacionadas ao Governo do PT – por motivos ideológicos ou não; sigilosos, porque não permitem conhecer a natureza real ou hipotética dos fatos imputados, fazendo prevalecer a versão oficial desses fatos, verdadeiros ou não;

– segundo, os nomes dos investigados são revelados ao público externo, como autores ou partícipes (por ação ou omissão) das hipóteses criminais imputadas, mediante programados vazamentos de informações (sigilosas) aos meios de comunicação de massa, com efeitos sociais e eleitorais devastadores sobre os adversários políticos dos grupos conservadores;

– terceiro, o espetáculo de buscas e apreensões violentas e de condução coercitiva ilegal de investigados (o ex-Presidente Lula, por exemplo), ou as ilegais quebras de sigilo (telefônico, bancário e fiscal) seguidas de espalhafatosas prisões preventivas (Zé Dirceu ou João Vaccari Neto, por exemplo), geram convenientes presunções de veracidade e de legitimidade da ação repressiva oficial perante a opinião pública.

5. Nesse contexto, a contribuição objetiva da Operação Lava Jato– voluntária ou não, mas essencial para os fins político-eleitorais das classes hegemônicas organizadas no PSDB, no PPS, no DEM e outras siglas – ocorre na forma de contínua violação do devido processo legal, com o espetacular cancelamento dos princípios do contraditório, da ampla defesa, da proteção contra a autoincriminação, da presunção de inocência e outras conquistas históricas da civilização – apesar da reconhecida competência técnico-jurídica de seus protagonistas. A justiça criminal no âmbito da Operação Lava Jato produz a sensação perturbadora de que o processo penal brasileiro não é o que diz a lei processual, nem o que afirmam os Tribunais, menos ainda o que ensina a teoria jurídica, mas apenas e somente o que os dignos Procuradores da República e o ilustre Juiz Sérgio Moro imaginam que deve ser o processo penal. A insegurança jurídica e a falta de transparência dominante na justiça criminal da Operação Lava Jato levou o Ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, a reproduzir antigo conceito de Rui Barbosa: “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário”.

6. Então, entra em ação o grande parceiro da Operação Lava Jato: os meios de comunicação de massa (TV, jornais e rádios),  com informações baseadas nas evidências processuais ou no material probatório obtido nas condições referidas, produzem um espetáculo midiático para consumo popular – e comícios diários de imagens virtuais audiovisuais, impressas e sonoras tomam conta do País, com efeitos psicossociais coletivos avassaladores. As versões, interpretações e hipóteses da justiça criminal da Operação Lava Jato, difundidas pela ação repressiva da Polícia Federal, pelas manifestações acusatórias dos Procuradores da República e pelas decisões punitivas do Juiz Sérgio Moro, produzem efeitos de lavagem cerebral e de condicionamento progressivo da opinião pública, submetida ao processo de inculcação diuturna de um discurso jurídico populista, com evidente significado político-partidário, mas apresentado sob aparência ilusória de uma impossível neutralidade política.

Quando os procuradores paulistas tentaram atropelar a agenda da Lava Jato, coube ao Procurador Geral da República Rodrigo Janot articular pessoalmente a estratégia da Lava Jato em relação às trapalhadas cometidas (http://migre.me/tdeQT). E a toda imprensa vocalizar as críticas contra quem poderia comprometer o script inicial, cuidadosamente planejado para chegar a bom termo respeitando as aparências jurídicas.

Do lado político, o Alto Comando opera a partir de Brasília visando criar toda a blindagem jurídica necessária, não apenas junto ao STF, como ao próprio governo e nas redes sociais.

No Twitter, por exemplo, os principais lugares-tenentes de Janot, através de seus perfis pessoais, conduzem uma ampla campanha de esclarecimento e de defesa da Lava Jato. Antes da constatação de que foi um desastre, até as trapalhadas dos procuradores paulistas mereceram esboços de defesa, por parte dos procuradores de Janot.

No STF e no TSE Janot não convalidou nenhuma tentativa de golpe branco.  Consolidou a imagem de legalista junto ao STF e à presidente da República e, com isso, o espaço político para bancar a estratégia central, a Lava Jato. Nenhuma outra iniciativa roubou-lhe o protagonismo.

A Lava Jato foi apenas o aríete, atrás do qual montou-se um trabalho sistemático de destruição de todos os símbolos de de país.

Nas ruas, movimentos conduzidos pelo MBL e outros vocalizando as críticas às políticas sociais.

Na Lava Jato, um trabalho sistemático de destruição das maiores empresas nacionais, não apenas com inquéritos, mas com escracho. Recorreram ao escracho, ao boicote a qualquer acordo de leniência, à perseguição diuturna, com operações seguidas de invasão de sede, exposição de mensagens – até pessoais. A ideia não era punir: era destruir.

O ápice tem sido a tentativa de destruição do símbolo Lula. Qualquer compêndio futuro sobre a infâmia na vida nacional contemplará o que foi feito, até acusações de furto de obras no Palácio.

O Ministério Público Federal é composto por procuradores preparados. Não será necessário muito tempo para que, caindo a ficha do que fizeram, venha à tona os bastidores da operação.

Como foi possível, no entanto, cooptar quase toda a corporação?

A campanha antinacional da Copa e, principalmente, a revelação da enorme rede de corrupção da Petrobras, facilitaram a venda da ideia da destruição da velha ordem, por uma nova ordem, liderada pelo trabalho redentor do Ministério Público.

A velha ordem passou a se resumir a empreiteiras corruptas, cooptando o sistema político e judiciário, e um governo populista que cooptou a população com políticas sociais paternalistas. E não a lenta reconstrução democrática, os avanços civilizatórios (dos quais o próprio MPF foi agente importante), os avanços tecnológicos nas áreas do pré-sal e da defesa, o feito histórico de tirar milhões de pessoas da miséria e reduzir graus históricos de desigualdade. A corrupção foi o álibi para apagar a história recente do país, até a luta pela redemocratização.

Principalmente pesou a visão redentorista de um novo poder se sobrepondo aos demais e salvando o país.

Para aos resultados do jogo, é fundamental esse entendimento sobre a posição do Alto Comando.

As próximas jogadas

Sabendo-se disso, fica mais claro o jogo, embora ainda seja difícil antecipar o resultado final.

Há duas saídas negociadas possíveis, nenhuma tendo Dilma como protagonista.

Saída 1 – O semiparlamentarismo com o PMDB, que tem várias nuances. No regime parlamentarista, cabe ao presidente indicar o primeiro ministro e o gabinete. E ao Congresso aceitar ou rejeitar. Pode-se tentar um parlamentarismo goela abaixo, mas seria regimentalmente complicado.

Saída 2 – semiparlamentarismo com Lula assumindo o papel de coordenador de governo, um primeiro-ministro de fato.

Impasse – qualquer decisão de força, sem consenso, tenderá ao fracasso. Sem um núcleo de poder, qualquer governo que assuma um país dividido ficará refém das forças que o elegeram. Será um ataque ao butim que inviabilizará qualquer tentativa de normalização econômica. Haverá agitação, repressão aos movimentos sociais, caça às bruxas.

Independentemente de pecadilhos ou grandes pecados, um pacto entre os Parlamentaristas e osLulistas é o único sinal visível de um polo racional na política.

Com Lula à frente, poderiam ser viabilizados acordos, através de uma coordenação dele, como primeiro-ministro de fato, ou em uma transição com um primeiro-ministro negociado entre ambos as partes.

Aí entram as jogadas do xadrez.

Antevendo essa possibilidade, o Alto Comando deflagrou novas operações simultâneas: a ofensiva total contra Lula, o alarido em torno dos presentes recebidos por Lula no exercício do poder; mais uma denúncia contra Renan Calheiros; mais detalhes da delação do senador Delcídio do Amaral, cujo conteúdo era conhecido apenas do Alto Comando e do STF (Supremo Tribunal Federal).

Tem-se, então, duas forças conflitantes. De um lado o Alto Comando apostando tudo no confronto; de outro, forças moderadoras percebendo a possibilidade de uma guerra selvagem, se não se chegar a um entendimento.

A tentativa de acordo passa por ambientes confusos, mas depende fundamentalmente de Renan Calheiros e Lula.

Fator 1 – o STF e o fator Renan.

Os Ministros tendem a privilegiar a responsabilidade institucional. E na vitrine do Supremo, Janot tende a ter bom senso.

Nessa hipótese, Renan poderia ser poupado de atropelos imediatos, em nome da estabilidade política. Aparentemente o foro privilegiado o blindaria contra novas surpresas da Lava Jato. Mas não se descartam vazamentos de delações visando comprometer sua atuação.

Além da nova investida de Janot contra Renan, na próxima 4a feira a oposição tentará pressionar o Ministro Luís Roberto Barroso a rever seu voto em relação ao ritual do impeachment.

Desde que sua esposa foi alvo de ataques baixos, Barroso inibiu-se. As loucuras dos três procuradores paulistas estão diretamente ligadas ao seu recuo na questão da Terceira Instância. Como explicou o promotor Ricardo Blat, o pedido de prisão de Lula visou criar uma inovação jurisprudencial depois que os garantistas do Supremo abriram a guarda com a eliminação da terceira instância.

Espera-se que Barroso e demais garantistas se sintam mais fortalecidos. Mas ainda são uma incógnita.

Fator 2 – O fator PSDB-PMDB.

O acordo semiparlamentarista alijaria Aécio e Alckmin de 2018

No momento, os Parlamentaristas confiam no indiciamento de Aécio Neves para avançar nas tratativas.

Obviamente não levaram em conta o Alto Comando. Se o nome de Aécio não aparecer nas delações de executivos da Andrade Gutierrez, aliás, consolidará a opinião geral sobre a proteção recebida. Mas há a possibilidade de que a abundância de indícios obrigue Janot a mudar de posição.

Alckmin se aproximou de Sérgio Moro através de seu candidato João Doria Jr. Essa aproximação pode ser debitada na conta dos eventos aleatórios, fora do script original. A própria truculência do Secretário de Segurança de São Paulo, Alexandre Moraes, colocando a PM para reprimir uma assembleia do Sindicato dos Metalúrgicos, é significativa dessa reação a qualquer acordo.

Fator 3 – O fator Lula

Depois de sua fase classe média ascendente – aceitando favores descabidos de empreiteiras – Lula vacila entre encarar a luta ou entrar para a história, como um novo Mandela, preso pela direita. Ótimo! Salva sua biografia à custa do comprometimento de todas as bandeiras que representa.

Se Lula não assumir um protagonismo total no governo Dilma, sua queda será questão de semanas.

O cenário mais provável será o do pacto PMDB-PSDB visando apoiar ao impeachment.

Caso fracassarem as saídas políticas, a primeira fase do golpe de1964 será café pequeno. Juízes e procuradores serão liberados para acabar com a raça de tudo que cheire a esquerda.

O país será envolvido em uma guerra fratricida, com um novo governo previamente enfraquecido pela falta de consenso e exposto a ataques ao butim de todos os “vencedores”, de grupos jornalísticos a líderes empresariais e a impolutos de ordem geral que ajudaram a consumar o golpe.

Neste domingo, joga-se o último lance da guerra do impeachment. Se o governo resistir por mais algum tempo e Lula entrar na linha de frente, é possível alguma esperança de normalização democrática.

(( Obs:. o maior trabalho para o meu blog, é garimpar textos de conteúdo político,social e filosófico de autores que atuam no lado oposto do “GAFE”(Globo,Abril,Folha e  Estadão) ou

que militam na rede.Só desta maneira é possível estimular e propagar idéias e valores que confrontam a mídia conservadora e seus seguidores.(Carlos Roberto Rocha III) ))))

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