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CURSO PARA O COXINHA ESCLARECIDO. Por Azenha Luis

15 jul

 

http://www.coxinharei.com.br/wp-content/uploads/2016/05/

Agora que você conseguiu derrubar uma presidente da República com premissas e argumentos falsos, é hora de sofisticar sua capacidade de debate.

Não seja confundido com um mero seguidor do intelectual pornô Alexandre Frota. Pega mal na turma. Você certamente é muito mais sofisticado que isso.

Provavelmente você é admirador dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, do Estado Mínimo, escrito assim em maiúsculas para denotar a centralidade deste item na pauta neoliberal.

Nunca confunda uma coisa com outra. Por mais que a Miriam Leitão sugira isso, os Estados Unidos NÃO SÃO um Estado Mínimo.

Palavra de quem morou lá duas décadas e tem duas filhas novaiorquinas (na verdade, de tripla nacionalidade, dentre as quais preferem a brasileira), com direito a tirar proveito do estado de bem estar social dos Estados Unidos.

Você costuma confundir estado de bem estar social com comunismo (como em Bolsa Família, médicos cubanos, etc.). Nos Estados Unidos, ele é resultado do ANTICOMUNISMO.

Prestenção: quem implantou o estado de bem estar social nos Estados Unidos foi o presidente Roosevelt. O país vinha do crash econômico de 1929. Depressão econômica. Os sindicatos eram fortes. Para cooptar os sindicatos e evitar a ascensão dos comunistas, Roosevelt resolveu implantar programas sociais e SALVAR O CAPITALISMO. Portanto, as coisas que ele bolou e implantou eram uma forma de combater o comunismo. Portanto, anticomunistas.

Chamar o Roosevelt de comunista é tão absurdo quanto chamar o Lula ou a Dilma ou o PT de comunista. Eles são SOCIAL DEMOCRATAS.

No Brasil, o partido que tem social e democratas no nome não é nem uma coisa, nem outra.

Voltemos aos Estados Unidos. Por mais que a partir daquele seu grande herói, o Reagan, os EUA tenham dilapidado o estado de bem estar social, os pilares deles subsistem: Social Security, Medicare, Medicaid e Food Stamps.

Pode chamar de Previdência Social, Bolsa Terceira Idade, Bolsa Plano de Saúde e Bolsa Família.

Essa ideia, de que o Estado deve ajudar a cuidar dos mais fodidos, é uma coisa antiga, que surgiu em outro país que você admira muito, a Alemanha. Mas não quero dar overload de informação no seu cérebro.

Basta você registrar isso: por causa dos programas sociais acima — e de outros FATOS que apresentarei em seguida — os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Pelo contrário, os EUA se assentam sobre um MEGAESTADO, muito maior que o brasileiro.

Se você quer alguns exemplos de Estado Mínimo, eu os ofereço: México, Honduras e Paraguai, países que você certamente despreza e NUNCA utiliza como exemplo para reforçar seus argumentos.

Portanto, sempre que você falar em Estado Mínimo, esqueça os Estados Unidos e diga: “Devemos fazer como lá no Paraguai, que…” Acrescente, em seguida, os argumentos pelos quais o Brasil deve seguir o mesmo caminho. A gente quer coxinhas sofisticados E intelectualmente honestos!

Foto do perfil de Azenha Luiz

Luis Carlos Azenha

É um jornalista brasileiro, já tendo trabalhado em várias emissoras do país, como Globo, SBT e Manchete, e contratado em outubro de 2008 pela Rede Record.

É fundador do famoso site “Viomundo”

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Temer e a Casa Grande se iludem

19 maio

Manifestantes protestam em frente à sede da FIESP, na avenida Paulista.

As elites que apoiam o impeachment ainda não compreenderam: seus privilégios continuarão a ser contestados

Primeiro ato: negros protestam contra o racismo diante da FIESP

Sexta-feira, 13 de Maio de 2016. Avenida Paulista, vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), 12h30. Um grupo de homens negros e de mulheres negras se organiza para marcar com um ato chamado Em Legítima Defesa o momento do Brasil e os 128 anos da abolição da escravatura no país. “O racismo é golpe”, diz o DJ e ator-MC Eugênio Lima. “Ele tira o pertencimento de toda uma população em detrimento de outra.” Eugênio lembra que os afrodescendentes são maioria no Brasil: “A população afrodescendente é 53% da população brasileira”. Negros, negras e negrex – o termo transgênero — representam a si mesmos no ato “no segundo dia do governo usurpador”. Cada um deles levanta um cartaz. Caminham em fila até o que chamam de “Casa Grande Moderna”: o prédio da FIESP, epicentro dos movimentos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, quartel-general dos verde-amarelos. Diante do imponente edifício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, postam-se um ao lado do outro e erguem suas frases em absoluto silêncio.

“USP sem cotas é golpe. Rota é golpe. Meritocracia é golpe. Luana morta é golpe. Direita racista é golpe. Feminicídio e hipersexualização da mulher negra é golpe. Ausência de negros nos espaços públicos é golpe. Machismo é golpe. Eu ser suspeito é golpe. Teatro sem negro é golpe. Blackface é golpe. Mulata é golpe. Me seguir no mercado é golpe. Medo branco.” E a pergunta:

– Abolição é golpe?

Manifestantes protestam em frente à sede da FIESP, na avenida Paulista. João Luiz Guimarães
Um dia antes, Michel Temer (PMDB) havia tomado posse como presidente interino, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) pelo Senado, anunciando um “governo de salvação nacional”. Compôs um ministério inteiramente branco e colocou como ministro da Justiça e da Cidadania Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública do governador Geraldo Alckmin (PSDB), relacionado por grande parcela dos movimentos negros e dos ligados aos direitos humanos como o mais recente responsável pela política de extermínio da juventude negra pela polícia do Estado de São Paulo.

A cena perturba os motoristas no trânsito lento da Avenida Paulista. Nas calçadas começa a juntar gente que volta do almoço ou se dirige a algum restaurante. “Que bobagem, não tem racismo no Brasil” e “Vão trabalhar, vagabundos!” são as frases mais ouvidas na plateia espontânea. Ao meu lado, uma dupla de amigos para. Um deles diz, em tom bem alto: “Não existe nada disso! Que frescura!”. Me apresento como jornalista e pergunto: “Por quê?” Ele apresenta-se como José Batista Sobrinho, 76 anos, médico oftalmologista, eleitor do PSDB. E responde:

– Esse racismo no Brasil não existe. Quero dizer, racismo existe no mundo inteiro. Mas no Brasil não é acentuado. Agora, por exemplo: você jamais se casaria com um preto.

– Por que o senhor acha isso?, pergunto.

– Parece que é algo internamente que você, como branca, não aceita. Porque você acha que essa raça é mais feia que a sua raça. Mas não é por isso que você vai discriminá-los. É uma pessoa igual a você. Frequenta a minha casa, frequenta a minha mesa, não tem problema nenhum. É uma pessoa igual a mim. Mas eu não me casaria com uma preta.

– Por quê?

– Não gosto. Tem alguns componentes que eu não gosto, coisas íntimas. Preferia uma pessoa diferente, mais clara. Questão de afinidade, de empatia. Mas não é por isso que vou discriminá-las.

José Batista Sobrinho.

José Batista Sobrinho.

– O senhor é a favor ou contra o impeachment da presidente?

– É lógico que sou a favor. Ela quebrou o país. A convulsão social taí. E quem é culpado disso é o PT. Não sou contra o Bolsa Família. Mas tinha que ser Bolsa-Escola, como era no tempo da Ruth Cardoso. Agora é Bolsa-Voto. Vou lhe dar o nome de uma cidade da Bahia que não tem ninguém trabalhando, todo mundo com Bolsa Família. No Nordeste, você não encontra uma doméstica pra trabalhar, porque tudo agora tem Bolsa Família. Mas não sou de Direita, não, não aceito isso.

– Como o senhor se define?

– Sou um liberal correto.

Três jovens mulheres, duas brancas e uma negra, observam o protesto. Os comentários são altos o suficiente para que se possa ouvi-los: “Quero ver esses negões aí na hora de casar. Se vão casar com essas negonas aí. Querem é brancas”. Risadas.

O grupo começa a repetir, alto, as frases dos cartazes. Na calçada, um homem grita para os motoristas dos carros: “Buzina! Buzina! Bu-zi-na!”. Quer que as buzinas abafem as vozes que denunciam o racismo. De repente, berra, furioso, para uma mulher num carro: “Enfia no cu, sua vaca!”.

Pergunto a ele por que disse isso. Ele apresenta-se como Fábio Andrade da Silva, 46 anos, segurança. E responde:

– Ela mostrou o dedo pra mim. É falta de elegância, é petista, é maloquera.

– E o impeachment?

– Sou a favor! Tou acampado aqui (na FIESP) há 58 dias.

– E o que acha dessa manifestação contra o racismo?

– São tudo desempregado, tudo com cargo comissionado do PT.

 

Fábio Andrade da Silva.

Fábio Andrade da Silva.

Faço uma foto dele. Ele comenta, referindo-se às mulheres negras:

– Eu não vou gastar minha bateria (do celular) pra tirar foto dumas mundrunga dessas aí.

– O que é mundrunga?

– Não sabe? Vá no dicionário que vai saber.

E sai gargalhando com um amigo.

O grupo se retira em silêncio. E volta para o MASP. Em legítima defesa.

Segundo ato: entrevista no vão do MASP sobre por que a FIESP é a “Casa Grande Moderna”

O teatro tem sido um dos espaços mais criativos (e contundentes) no questionamento do racismo que atravessa a sociedade brasileira. Nos últimos anos tornou-se também um espaço de irrupção das tensões raciais que por décadas foram encobertas por mitos como o da “democracia racial”.

O DJ e ator-MC Eugênio Lima, 48 anos, é um dos protagonistas dessa cena com múltiplas vozes. Em 2015, ele foi o mediador do debate realizado no Itaú Cultural após os protestos contra o uso de blackface numa peça. O evento foi um ponto de inflexão na luta contra o racismo, ao questionar os privilégios dos brancos nos espaços da cultura.

Em Legítima Defesa surgiu a partir de outra polêmica: a peça Exhibit B, o controverso espetáculo do sul-africano Brett Bailey, que foi contestado como “racista” por parte dos movimentos negros brasileiros, ao reproduzir cenas em que os negros eram colocados em jaulas para exibição.

Sua apresentação na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo acabou sendo cancelada, sob a alegação de “problemas de custo”. Por não se sentirem ouvidos no debate, os atores que participariam da produção criaram o Em Legítima Defesa e convidaram Eugênio para dirigi-los em ações. Uma de suas performances aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo, símbolo cultural das elites paulistanas. A FIESP foi escolhida por ser identificada como a “Casa Grande Moderna”

Eugênio Lima (à frente).
Eugênio Lima (à frente). João Luiz Guimarães
Pergunta: Quais são os significados da escolha deste dia para o ato?

Resposta: A performance sobre a Abolição já iríamos fazer. A ironia do destino foi que o dia 13 de maio coincidiu com o segundo dia do governo usurpador. Essa ironia simbólica foi invisibilizada.

Talvez o gabinete desse presidente interino seja o mais próximo de uma ação conservadora no Brasil desde 1964, e muito parecido com os gabinetes conservadores da Monarquia. São todos homens, todos brancos, com uma idade mais avançada, com vasto histórico sobre a política. Isso tudo foi construindo mais camadas simbólicas para esse momento. Esse governo não tem voto, não foi eleito pelo povo. Esse processo é um golpe político parlamentar.

P: Como você responde à pergunta escrita no cartaz que você ergueu: “Abolição é golpe?”.

R: A Abolição é golpe no sentido de que é apresentada como uma benesse do estado monárquico. A primeira coisa, portanto, é (a necessidade de) desinvisibilizar o primeiro grande movimento de massa deste país, que é o movimento abolicionista. A segunda coisa é que, ao dizer livres afinal, seríamos livres para tudo. Com o passar do tempo, essa ideia de liberdade vai sendo subtraída pela exclusão contínua. A política de imigração, quando se incentiva a população europeia a vir para o Brasil, é onde mais aparece a cara do Apartheid brasileiro. Foi um golpe na medida em que você tem um país com a maior população escrava do mundo, você faz a Abolição da escravidão e não existe nenhuma política de Estado para um problema que foi criado dentro da concepção de Estado. Isso é golpe.

P: E hoje, você acha que a Abolição já aconteceu?

R: A abolição é um projeto incompleto. Só que os efeitos desse projeto incompleto estão no extermínio da juventude negra, e este é um projeto muito nítido. Esse projeto é o eixo fundamental de uma política de controle populacional, criada em simbiose com um aparato jurídico-policial que está fundamentado em dois pontos centrais. Um deles é o encarceramento em massa: o Brasil é a quarta maior população carcerária do mundo e a única entre as quatro primeiras que continua a crescer. Isso está baseado numa espécie de “naturalização do racismo”, seja na ideia de “suspeito cor padrão”, seja na ideia de que negro/homem/pobre é igual a ser “bandido”. Estas são justificativas para uma atuação diferenciada tanto da polícia quanto da justiça no que diz respeito a negros e brancos no Brasil. Negros têm geralmente penas mais duras do que os brancos, pelos mesmos crimes cometidos.

P: E o segundo eixo?

R: É o da “vida matável”. A polícia vive a lógica de uma guerra, seja contra o crime, seja contra as chamadas “classes perigosas”. Ou seja, a polícia combate um inimigo comum, com táticas de guerra e aparatos de segurança importados de outros países, principalmente países que vivem guerras contra populações determinadas, como por exemplo o estado de Israel.

Nessa lógica, é preciso se perguntar: quem é a população negra, pobre e periférica? É a população civil do exército inimigo. Uma vida matável é uma vida dispensável. Mas, como o racismo internalizado nas corporações policiais é sistêmico, essa lógica atravessa o tratamento de todo negro/negra, independentemente de sua classe social.

É como se ser negro/negra fosse uma “espécie de sujeito a ser combatido”. E isso tem lastro no comportamento social, que, de maneira geral, tenta negar a existência de racismo. Isso é o que a professora Vera Malaguti Batista (socióloga que pesquisa o tema da criminalidade no Brasil contemporâneo) define como “Medo Branco”: a ideia dessa conflitividade óbvia, de que um dia o país, que é majoritariamente negro, vai se insurgir, de que um dia haverá um grande conflito social se o “morro descer”.

E isso só pode ser evitado com uma dura e mortífera política de controle. Daí a nitidez do projeto de extermínio da juventude negra. O genocídio da juventude negra é real e imenso, mas o senso comum trata como se fosse uma exceção, uma anomalia – e não uma política.

P: Qual é a sua análise sobre o fato de o ministério de Temer não ter um único negro?

R: É uma mimese. Não só não ter um negro, como não ter uma mulher. Assim como suprimir, colocar sob a égide do Ministério da Justiça os Direitos Humanos e a Igualdade Racial. (Temer extinguiu o Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e colocou tudo sob o guarda-chuva de um Ministério da Justiça e da Cidadania). Esse governo é ilegítimo até nisso. O país é signatário de tratados em Direitos humanos, o país é signatário de tratados de Combate ao Racismo. Não é uma coisa que eu, como governante, posso decidir, mas uma política de Estado. E, como política de Estado, independe de quem está no governo.

P: Por que você diz que a FIESP é a Casa Grande?

R: É a Casa Grande Moderna. Ela representou um projeto que é, numa ponta, a subtração de direitos constituídos, na medida em que essa pauta nunca passou pelo crivo eleitoral. Essa é a primeira coisa. Não é uma pauta do conjunto da população. Assim, só pode ser feita na surdina. A segunda coisa é que ela agiu de maneira clara e nítida incentivando ações fascistas. Insultando, racializando o discurso, diminuindo. E utilizou recursos que são públicos para financiamento de ações constituídas dentro do âmbito privado, como no financiamento dessas passeatas (a favor do impeachment). Esse jeito é o jeito da Casa Grande. Eu não estou chamando a FIESP de Casa Grande apenas porque são os herdeiros dos escravocratas. Mas por causa da lógica da Casa Grande. A Casa Grande organiza a sociedade, organiza o Estado à sua semelhança. O que era a Casa Grande? A Casa Grande era a Igreja, a Casa grande era o hospital, a Casa Grande era o Estado, a Casa Grande era tudo. A Casa Grande é onde tudo orbita. Essa é a metáfora do que essas forças reunidas em torno da FIESP fizeram neste momento histórico. Um momento análogo ao de 1964, já que a FIESP já fez isso antes, porque o golpe de 1964 foi civil, além de militar.

“O ministro da Justiça acha que Política é Polícia”

P: Qual é a importância da denúncia do racismo neste momento?

R: O racismo tem que ser uma pauta transversal, porque ele desmascara todas as relações. O racismo é aquilo que não pode ser dito. Quando você coloca que essa meritocracia é baseada no status racial, você vai começando a colocar por terra um monte de coisas. Que esses privilégios constituem uma espécie de golpe no direito de todo mundo, porque (o branco) já nasce com esses privilégios que estão constituídos no nível de cultura do país, embrenhados nos hábitos. Então, (o branco) tem uma vantagem adaptativa muito grande. Você vê como a ação coercitiva dos braços armados do Estado são violentos com a população negra do país. Assim, se invisibiliza um dado que jamais poderia ser invisibilizado, o de que somos um dos países que mais mata a sua juventude.

P: O que você achou da escolha do novo ministro da Justiça e da Cidadania, Alexandre de Moraes?

R: Eu acho muito ruim que uma pessoa que se dirija a movimentos sociais como “guerrilhas” seja ministro da Justiça de qualquer país. Eu acho ofensivo ao conjunto da população brasileira um ministro da Justiça que condecora policiais que agrediram estudantes secundaristas. Um ministro da Justiça que acha que Política é Polícia.

P: O que fazer diante disso?

R: Esse é o momento em que a juventude negra e a multiplicidade da presença negra na sociedade precisam lutar de todas as maneiras pela desinvisibilização dessas questões. Uma das coisas mais cruéis dessa história é a ideia de que a reorganização das elites pode dar o tom de todas as questões. Como se a nossa história fosse uma sequência de reorganizações das nossas elites. Como se não existisse uma outra historia possível que não seja essa. É um momento muito triste. Por isso é o momento de constituirmos vocabulário político, mas sobretudo poético. Porque encaro isso como uma narrativa, que utiliza todos os seus símbolos para constituir o senso comum. E como o racismo é transversal, assim como o machismo é transversal, eles são capazes de desvelar essa narrativa.

P: E as imagens?

R: As imagens são muito potentes. Você olha o ministério e diz: “Caramba, mas só tem homens? E brancos? E muito velhos?”. Não que a idade seja um problema em si, mas eles são a cara de uma maneira de fazer política.

São figuras calcadas numa série de questões que representam interesses coorporativos muito nítidos. Uma pauta que não foi nem eleita, que sequer passaria pelo crivo das ruas, que sequer passaria por uma eleição para governador. Só pra lembrar: o presidente da FIESP tentou essa pauta no governo do estado de São Paulo (nas eleições de 2014, Paulo Skaf era o candidato do PMDB).

E nem isso ele conseguiu. Nem a unanimidade dentro da própria Direita. Então, este é um governo ilegítimo e é um governo usurpador. E, neste sentido, é tão claro, e é claro mesmo, é branco, que até as forças do capitalismo reconhecem que esse processo é questionável.

Terceiro Ato: reflexões sobre o governo que se inicia com as bênçãos de Sarney e de Malafaia

O período democrático que se seguiu à ditadura civil-militar no Brasil foi chamado de “Nova República”. É possível que tenha se encerrado. É preciso encontrar um nome para denominar o período ainda indefinido do governo de Michel Temer (PMDB), iniciado em 12 de maio, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado.

Como nomear esse momento, ao mesmo tempo novo e velho, na trajetória do país, é algo em disputa. Encontrar esse vocabulário próprio, plural, como já escrevi aqui e como é tão bem dito por Eugênio Lima, faz parte dos desafios do atual cenário. É com políticas culturais que um país constrói voz própria. Como se sabe, Temer extinguiu a pasta da Cultura.

Michel Temer, rodeado de ministros e políticos, ao tomar posse como presidente interino no dia 12 de maio, em Brasília.

FOTO
Michel Temer, rodeado de ministros e políticos, ao tomar posse como presidente interino no dia 12 de maio, em Brasília. Felipe Dana/AP Photo

A imagem do ministério de Temer produz estranhamento. É como um retrato que já nasce amarelado. Só brancos, só velhos, só homens. Nenhuma mulher, nenhum negro. Esse retrato é uma imagem poderosa porque não representa o Brasil atual. É também uma mensagem poderosa. Apesar de mencionarem muito o “futuro”, o que interessa a Temer e seus aliados para seguirem garantindo apoio é afirmar o passado. A mensagem gerada pela escolha do ministério reafirma a ideia de que o Brasil voltou a uma espécie de ordem estabelecida. E há até setores que podem comemorar esse feito, como se de fato se tratasse apenas de um retorno ao que sempre foi e jamais deveria ter deixado de ser. Mas, para compreender essa fotografia, é preciso entender que simplesmente voltar já não é possível.

Temer e seu ministério são um retrato que já nasce amarelado e que não representa o Brasil

Temer e as forças que protagonizaram esse momento podem até acreditar que dá para voltar ao passado que representam, mas se equivocam. Não dá para retornar ao Brasil pré-cotas

raciais, ao Brasil antes do #meuprimeiroassédio, ao Brasil antes do Bolsa Família e do protagonismo das mulheres chefes de família, ao Brasil em que os mais pobres aceitavam não ter acesso ao consumo, ao Brasil em que pobre não chegava à universidade, ao Brasil em que estudantes de escolas públicas aceitavam calados serem violados em seus direitos mais básicos. Essa ideia pode até ser acalentada por Temer e pelas forças que permitiram que ele assumisse o poder. Mas é desejo, não fato.

A ideia de que as elites podem escrever toda a história do país, e reescrever, e suprimir capítulos, e dizer qual é a narrativa que vai preponderar sobre todas as outras não se sustenta no Brasil do presente. O ato dos negros, negras e negrex diante da FIESP é uma pequena grande cena. Os exemplos irrompem em todos os cantos. Quem acredita que as forças criativas que emergiram em 2013 podem ser silenciadas é um mau leitor do momento histórico. E isso vale para os antipetistas e vale também para os petistas. Os movimentos sociais agora são outros. E se lançam com palavras novas – e próprias.

Há muito de velho e há também algo novo no ministério de Temer, como uma imagem desse pacto de elites. Há pelo menos um investigado pela Lava Jato, Romero Jucá (PMDB). E um sobre o qual há dois pedidos de inquérito, Henrique Alves (PMDB). Há Alexandre de Moraes (PSDB), um ministro da Justiça que condecora policiais que espancam estudantes adolescentes. Há um ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que mudou do PR para o PP para garantir seu nome para o ministério. Maggi, conhecido como “o rei da soja”, já foi o vencedor do prêmio “Motosserra de Ouro”, dado pelo Greenpeace, em reconhecimento à sua colaboração para a destruição do meio ambiente. Há Osmar Terra (PMDB), defensor ferrenho de uma política de drogas comprovadamente ultrapassada, ligada ao extermínio da juventude negra e ao encarceramento massivo dos mais pobres. Há vários que estiveram com Dilma Rousseff até a véspera, como Gilberto Kassab (PSD) e Leonardo Picciani (PMDB). E mesmo os mais jovens são herdeiros de velhos clãs ligados ao PMDB, como Sarney e Barbalho, entre outros. “Notáveis” não há. Mas, como se viu, há notórios.

É urgente compreender o ambicioso projeto político das igrejas evangélicas para compreender o Brasil atual

Mas também há algo que parece velho, mas é novo. Porque não é novo apenas aquilo que achamos que deve ser. Trata-se do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcos Pereira (PRB). Se há algo pouco compreendido e investigado no Brasil é o crescimento das igrejas evangélicas no país. Primeiro, colocam-se todas na mesma caixa, e elas são bem diferentes entre si. O espectro é amplo. As que mais têm crescido não representam um projeto religioso. O que representam é um projeto econômico e, principalmente, político. É aí que mora o perigo. Marcos Pereira é o arquiteto que fez o PRB, partido ligado à Igreja Universal e à TV Record, duas frentes da mesma construção política, ganhar musculatura no Congresso. É urgente que se compreenda melhor o crescimento de algumas igrejas evangélicas no país e seus respectivos projetos de poder para que se entenda o país. Vale a pena perceber também que a Igreja Católica, outrora tão ativa na política brasileira, teve pouca ressonância no desfecho que levou Temer ao poder.

Há dois atos de Temer que têm grande força simbólica para a compreensão do pacto instalado no Planalto. No dia da votação do impeachment no Senado, 11 de maio, ele só deixou o Palácio do Jaburu, onde parlamentares vinham lhe beijar a mão, para beijar uma mão mais poderosa que a dele, a de José Sarney, esse personagem que atravessa a ditadura e a redemocratização. As digitais de Sarney estão por toda parte, em especial no setor elétrico do país. Isso é velho. E forte.

No dia seguinte, após a posse como presidente interino, Temer recebeu a bênção de Silas Malafaia, o mais truculento líder evangélico do país, e rezou com expoentes da bancada evangélica, como o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC), cuja atuação nefasta dispensa apresentações. Isso é novo. E forte. É preciso decodificar essas duas cenas com mais profundidade do que temos feito.

A imagem de um Lula alquebrado, quase distraído, ao lado de Dilma Rousseff, durante o discurso de despedida diante do Planalto, dá margem a muitas interpretações. Lula não disfarçava. Talvez porque não quisesse, talvez porque já não pudesse. Seu rosto estava devastado. Era um fim. Independentemente do que vai acontecer com Dilma e principalmente com o PT nos próximos meses, e que está longe de estar dado, ali havia um fim. Se este final significar uma autocrítica feroz do PT sobre suas escolhas no poder, não só o campo das esquerdas ganha, como o país.

Para citar apenas uma cena desse longo e acidentado roteiro: foi Eduardo Cunha quem peregrinou pelas igrejas evangélicas a serviço de Dilma Rousseff e do PT na campanha eleitoral de 2010, assegurando aos pastores que a então candidata era contra o aborto. Naquele momento, o PT rifou uma de suas bandeiras históricas em troca do voto religioso e dos aliados de ocasião. Cunha, obviamente, sempre esteve a serviço apenas de si mesmo. Este é um momento emblemático. E é apenas um. Há que se passar a limpo todos eles.

O PT precisa enfrentar suas contradições no poder e fazer uma autocrítica implacável

Há que se passar a limpo a tal das escolhas feitas em nome da palavra mais horrenda do léxico político recente: “governabilidade”. A única saída digna para o PT é enfrentar as contradições e fazer autocrítica. Mas não parece que seja isso que vai acontecer. Mais uma vez. É bem mais fácil ser apenas vítima. E também mais conveniente para 2018. Mas já era tempo de entender que o mais conveniente e mais fácil custa caro logo ali.

Quem briga com os fatos sempre acaba perdendo em algum momento. Se Dilma foi afastada e o PT encontra-se nesse buraco é também por escolher desviar das contradições – ou mesmo encobri-las. E isso vale também para as esquerdas que preferiram fazer de conta que era possível perdoar o imperdoável, como Belo Monte. E que continuam a fazer de conta, deixando esse campo desorganizado e abrindo um vazio que logo será ocupado, sabe-se lá pelo quê.

O rosto devastado de Lula, ao lado de uma Dilma em seu derradeiro discurso, e a cena do ministério de Temer, com papagaios de pirata como Aécio Neves (PSDB), evocam também uma interrogação sobre quem são os profissionais do ramo. Parte das elites bajula Lula desde que ele era um líder sindical do ABC, vale rever a cena do Gallery, em 1979, quando Lula vai jantar na boate dos ricos a convite da revista Manchete. Na campanha de 2002, ele desfilou em terno Armani pelos salões da elite paulistana abertos por Marta Suplicy, que sabemos bem o que fez nos verões passados e o que faz hoje. Assim como pelo casal Eleonora Mendes Caldeira e Ivo Rosset. Era o operário que chegou ao paraíso.

Dali em diante Lula gostou cada vez mais dessa bajulação dos salões. E o mesmo vale para muitos do PT. Em algum momento, eles acharam que eram os donos da bola desse jogo viciado, sem perceber que eram observados de perto – e com algum divertimento – por cartolas tão velhos quanto o diabo. Na política, no empresariado, na justiça. E Lula acreditou que era mesmo um ungido, bastando abrir a boca para chamar as massas para si, enquanto cada vez mais se distanciava delas também na produção simbólica de imagens.

Tudo indica que Lula e o PT não compreenderam por completo a complexidade do jogo e a fragilidade do seu lugar nele. Escolheram jogar o jogo do adversário e abriram mão de questionar as regras, achando que podiam seguir ganhando. Dilma, por sua vez, provou-se um dos maiores equívocos de Lula, até então famoso por sua intuição política. Até (quase) o final acreditaram que podiam virar a partida decisiva. A ironia maior é o fato de que quem ficou ao lado de Lula, Dilma e o PT foi a torcida a qual tinham virado as costas ao rifar bandeiras históricas.

Lula acreditou que era o dono da bola e descobriu que a bola nunca foi de fato dele

A face devastada de Lula contém muitos significados. Um deles pode ser decodificado como o rosto entre a surpresa e a mágoa do menino que achava que para sempre seria o dono da bola. Mas descobriu que nunca foi de fato o dono da bola. O sorriso de escárnio dos ministros de Temer e de seus apoiadores, a expressão de euforia mal contida do próprio Temer, pareciam dizer: “Tolinhos, os profissionais agora vão cuidar de tudo”. É a arrepiante volta dos que nunca foram.

Houve um momento em que o PT poderia ter mudado o jogo. E não mudou. Não é possível seguir acreditando que tudo o que aconteceu foi por que o PT mudou o jogo. O impeachment se tornou viável exatamente pelo motivo contrário: porque o PT não mudou o jogo no principal. E essa é a parte incontornável.

Mas a história não está dada. O Brasil não é o que era. O passado não volta. O lema positivista “Ordem e Progresso”, que Temer pegou emprestado da bandeira, como lembrou o escritor Sérgio Rodrigues em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, já era conservador quando proclamaram a República, no final do século 19. Em entrevista exclusiva ao Fantástico, programa da TV Globo, no domingo, 15 de maio, Temer respondeu que um dos legados que gostaria de deixar é “a pacificação do Brasil”.

A “pacificação” proposta por Temer é cada um voltar a ocupar seu lugar racial e social como se essa fosse a organização natural das coisas. A “pacificação” de Temer é paz apenas para alguns. A esse desejo de retorno da velha ordem das elites e do progresso para os mesmos de sempre contrapõe-se hoje a frase poderosa, quase um mantra, escrita em um dos cartazes levantados na Paulista na performance dos ativistas negros: “Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém”.

Tanto o PT quanto aqueles que agora estão (ou continuam) no poder ainda não compreenderam a potência de 2013. A polifonia que ocupou as ruas naquele momento, para além de qualquer controle possível, segue nas ruas, apesar das bombas de gás da polícia. É essa a força simbólica dos negros e negras e negrex que se postaram diante da “Casa Grande Moderna”. Em legítima defesa.

Quem acha que é o fim da história ainda não entendeu que ela mal começou.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

QUERIDA AMIGA MARIANA MAYOR

4 fev

Por Sergio Ricardo

A memória como ja lhe disse, dentre milhões de acontecimentos vividos nessa trilha agitada de minha rota artística, recusou-se a armazenar detalhes, para me reservar o espirito compartilhado com amigos e correligionários, maior parte dos quais nem de seus nomes ou fatos me deixa lembrar com exatidão, o que me conduz a fazer uma síntese não dos fatos ou pessoas, mas da importância de uma luta vivida com tanta entrega, tanto amor à causa e ao povo brasileiro, como nunca mais vi em nossa história.

Eramos basicamente uma grande família de guerreiros dispostos a tudo para atingirmos nossos objetivos políticos e culturais e até mudamos radicalmente alguns caminhos, como a bossa nova, por exemplo, cedendo lugar a um canto mais abrangente de congregação e elucidação dos crimes morais contra nosso povo, exaltando e reinventando sua emancipação, a ponto de abrirmos mão das conquistas estéticas adquiridas pela Bossa, visando a comunicação de nossos ideais para alcançarmos a alma brasileira com a linguagem que lhes chegasse como a sua própria, tanto na música, no cinema, no teatro etc.

Um diálogo sem rodeios imposto pela falsa erudição dessa elite que acreditava estar reinventando um Brasil, arremedando outros povos e outras culturas que nos colonizavam em troca de nossos bens, e mergulhados cada vez mais na nossa ignorância, tão vasta quanto a dimensão de nossas matas por esse continente generoso.

A mesma chama que conduzia Chico de Assis, Vianinha, Boal, Guarnieri, João das Neves, Aracy Balabanian, Renato Consorte, Rolando Boldrim, Carlos Lyra, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Antonio Fagundes, Myriam Muniz, Plinio Marcos, Sidney Miller, era a mesma que conduzia uma infinidade de amigos, em CPCS, Feiras de Opinião, Teatro de Arena, palcos e shows e peças de teatro, na tela do Cinema Novo, pelas faculdades, caatingas nordestinas, passeatas, porta de fábricas, onde quer que o povo pudesse ter acesso para se esclarecer dos fatos e luta em busca da solução.

E já se avistava um novo Brasil ancorando nos portos de norte a sul do país. Foi uma época gloriosa e mesmo calados pela censura da ditadura, nossa semente germinou na alma dos artistas que posteriormente foram surgindo.

Chico de Assis, por exemplo, a quem você se refere, foi meu parceiro em Brincadeira de Angola, amigo e irmão, batizou minha filha Adriana e nos tornamos compadres.

Um dos fundadores do CPC, teatrólogo e líder nato, teve suas idéias e peças encenadas para camponeses, elucidou muitas cabeças pensantes, e deixou uma obra importante, volta e meia encenada por esse país a fora.

Devo à sua lucidez minha transformação ideológica e seus ensinamentos estão espalhados pelo meu trabalho como uma luz no fim do túnel.

A mesma luz que estamos todos, os que queremos libertar nosso pais, tentando alcançar, apesar das “cunhas” cravadas por essa corja tentando embarreirar nosso processo libertário.

Carta a um ex-amigo do face,pelos catolés da guariroba by Sergio Ricardo

3 jan

Cumpade véio

Outro dia recebi a mensagem de sua saída do meu rol de amigos no face, com um recado sem chance de resposta, dizendo que abandonava o barco porque não concordava com minha defesa dos mensaleiros presos. Que lamentavelmente, era meu admirador como guerreiro no passado, mas que agora me transformara na caricatura do que fora, por defender o indefensável. Por isso se retirava. Como tenho 5.000 amigos, não me senti desfalcado, nem me ressenti. Seu lugar foi preenchido por novo amigo na fila de espera. A bronca é livre. Mas fiquei a pensar naqueles amigos que manifestaram sua opinião sobre o tema, e que mesmo os discordantes mais radicais permaneciam meus amigos, cada qual com sua convicção, admitindo a dialética das postulações. Fiquei emocionado por ter plantado a minha arvorezinha numa floresta frondosa, com direito a galhos e folhas e a liberdade de me espalhar ou me fundir às desigualdades urdidas pela própria natureza dessa diversidade a preencher a infinita variedade de sabores, ou saberes de seus frutos.

Infelizmente minha memória já não fixa nomes ou números. Mas me permite reter o conteúdo, os fatos – privilégio de discutir certos assuntos. Mas a razão e os sentimentos permanecem os mesmos. A experiência me permite vôos com autocrítica, policiando-me a todo instante para não cair na esparrela da caduquice, muito comum aos que chegam à minha idade. Longe da perfeição, continuo cometendo erros, pois a cada momento, os vejo mais presentes em todas as mentes, e dou graças por não ser dono da verdade, porque a vida seria uma chatice. Imagine a infelicidade daquele que julga não ter mais nada a corrigir dentro de si, tendo que transitar pelos erros da humanidade. Tenho lá meus pecados, como qualquer cidadão errático e me permito arrependimentos e os debito na conta da consciência, que vive de vassoura em punho, pra que o amor se instale e eu possa varrer os revezes que me rondam, debruçado em minhas convicções. Fico imaginando aquele sujeito que se acha dono da verdade como sendo um tronco de Guariroba, sem a dúvida que o reparta em galhos, e acabe solitário com umas poucas folhas no topo. Convicto se agiganta a dançar ao vento, com as palmas por sobre frutos miúdos em cachos de catolés, que ao amadurecerem despencam servindo de alimento para o gado.

Pertenço a uma espécie de árvores fartas de galhos de nossas dúvidas. Só que neles também penduram-se balanços, para a liberdade de opiniões alçar suas idas e vindas a se reciclar. Um feliz 14, cumpade véio.

PS – Embora não tenha memória para nomes, sou bom fisionomista. Pena que você optou por sua caricatura em lugar da foto usual. Não terei nem chance de reconhece-lo se nos cruzarmos por aí. Não será por esnobação, fique seguro. Que o gado se farte com seus catolés.

abraço do ex-amigo
Sergio Ricardo

Cooler é composto pela ventuinha e dissipador de calo097

Mensalão’: Globo deve explicar contrato confidencial a corte italiana

20 nov

 

Fragmento de Nota Fiscal de Serviços expedida pela Rede Globo à DNA Propaganda, do publicitário Marcos Valério

Fragmento de Nota Fiscal de Serviços expedida pela Rede Globo à DNA Propaganda, do publicitário Marcos Valério

O envolvimento da Rede Globo de Televisão no escândalo que originou a Ação Penal (AP) 470 e terminou na prisão do ex-ministro José Dirceu e do deputado José Genoino, entre outros réus no julgamento que ficou conhecido como ‘mensalão’ mereceu um capítulo à parte no dossiê que o ex-diretor do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato levou com ele para a Itália. Pizzolato aguarda uma nova oportunidade de provar sua inocência, na Justiça daquele país.

Pizzolato deixou o Brasil e hoje seu paradeiro é desconhecido, mas ele reuniu em um dossiê de mais de mil páginas, ao qual o Correio do Brasil teve acesso, as provas que, segundo seus advogados, “colocam por terra o argumento do relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, de que houve a compra de votos de parlamentares aliados para a aprovação de matérias do interesse do governo no Parlamento”. Caso o ex-diretor do BB consiga provar seu ponto de vista em uma corte italiana, onde deverá responder a um processo, a pedido do Ministério da Justiça brasileiro, “o julgamento do ‘mensalão’ cairá por terra”, afirmam seus defensores.

Luciana Lobo integra o time de comentaristas do Programa do Jô, na Rede Globo

Publicamente, no Programa do Jô da Rede Globo, na madrugada desta quarta-feira, a jornalista Luciana Lobo concordou que as acusações feitas a Pizzolato “são a base do ‘mensalão” e, sem elas, o processo simplesmente deixaria de existir. Lobo apenas repete o que afirmaram outros comentaristas sobre o julgamento, entre eles o jurista conservador Ives Gandra Martins, em recente entrevista, para quem até o uso da tese do “Domínio do fato” é uma temeridade:

“A teoria do ‘Domínio do fato’ foi adotada de forma inédita pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para condená-lo. Sua adoção traz uma insegurança jurídica ‘monumental’: a partir de agora, mesmo um inocente pode ser condenado com base apenas em presunções e indícios”, afirmou Gandra Martins. Usada da forma como foi, para condenar Dirceu, diante das provas a serem expostas por Pizzolato perante um tribunal italiano, a teoria servirá de motivo “para a exposição do Judiciário brasileiro ao ridículo”, comenta um dos advogados de Pizzolato.

Dinheiro na Globo

Segundo a defesa de Pizzolato, o dinheiro que fluiu para as contas da DNA e de políticos da base aliada, na origem do escândalo, origina-se nas campanhas publicitárias realizadas pela Visanet em veículos de comunicação. “Parte do ‘Bônus de Volume’ (BV) foi desviada para o pagamento de despesas de campanha, o que caracteriza, sim, a existência de um caixa 2″, reconhece a defesa.

– Mas tratou-se, todo o tempo, de recursos oriundos de empresas privadas: a DNA Propaganda, do publicitário Marcos Valério, e a Visanet, que é uma empresa do grupo gestor de cartões de crédito Visa. Os recursos que poderiam caber ao BB foram aplicados, corretamente, nas campanhas publicitárias veiculadas, inclusive na Rede Globo – afirmou um dos advogados de Pizzolato.

Os recursos aplicados na Rede Globo eram de conhecimento do ministro Joaquim Barbosa, como prova um contrato anexado ao processo, ao qual o CdB também teve acesso. A íntegra do contrato está na AP 470 no STF conforme os carimbos nas imagens comprovam. “Fica óbvio que se trata de relação estritamente privada entre a Rede Globo e a DNA, como de resto qualquer valor que particulares do segmento publicitário – por extensão – pactuem como BV, o bônus de volume, por exemplo agendas, brindes e etc”, afirmam os advogados.

Diante dos fatos, a Rede Globo deverá ser citada, judicialmente, por uma corte italiana, “para esclarecer esses e outros pontos no relacionamento entre a empresa e a DNA Propaganda”, acrescentaram.

Página inicial do contrato entre a Rede Globo e a DNA Propaganda

O golpe está sendo televisionado by Maria Luiza Quaresma Tonelli

29 out
Acabo de ler uma entrevista com o cientista político Francis Dupuis-Déri, Professor da Universidade de Québec em Montreal (Uqam), no Canadá. Na entrevista ele responde a perguntas sobre os Black Blocs. Vamos lá.
Segundo Dupuis-Déri, Black Bloc não é um movimento; é simplesmente uma tática, um modus operandi, uma maneira de se organizar dentro de uma manifestação. Vestem-se de preto “para garantir certo anonimato” e usam a bandeira preta, símbolo do anarquismo. Bem, como assim “anonimato” se podem ser identificados pela roupa preta e pela bandeira símbolo do anarquismo? Se querem garantir anonimato individual e não como grupo (já que se definem como “tática”) e se a maioria dos black blocs desfilam com calma nas manifestações, como diz o entrevistado, não precisariam esconder a cara, pois não? Além do mais, a Constituição federal do nosso país garante a liberdade de expressão e a livre associação, mas diz que não é permitido o anonimato. É bom lembrar que não vivemos mais num Estado de exceção.

Quanto ao surgimento dos black blocs, explica que surgiram por volta de 1980, na Alemanha Ocidental e que, como “tática”, apareceu dentro de um movimento chamado “Autonomen” (Autônomo), que organizava centenas de ocupações políticas contra energia nuclear, contra os neonazistas, etc. Como “tática”, os Black Blocs ganharam visibilidade por causa da cobertura midiática nas manifestações antiglobalização de Seattle, nos Estados Unidos, em 1999. E daí para frente a “tática” black bloc, se espalhou pelo ocidente por ser facilmente reproduzível.

Segundo o cientista político, muitos Black Blocs consideram que a ideologia neoliberal e o capitalismo são responsáveis pelas desigualdades, injustiças e a destruição do planeta. Por causa disso, as pessoas estão revoltadas e consideram que já não basta se manifestar pacificamente: “é preciso perturbar e reagir quando a polícia ataca o povo”. No que se refere à ideologia, diz que não existe “um” black bloc, mas sim “os” black blocs, que são distintos em cada manifestação e, por isso, quem mais participa desses grupos são anarquistas, anticapitalistas, feministas radicais e ecologistas. Para ele, os black blocs são geralmente compostos por indivíduos com uma “forte consciência política”.

É verdade que a ideologia neoliberal e o capitalismo são responsáveis pelas desigualdades, injustiças e a destruição do planeta. Aliás, não há ideologia neoliberal “e” capitalismo. O neoliberalismo “é” o capitalismo elevado à enésima potência. Por isso ele é a causa das desigualdades e injustiças. E tal como fênix, sempre renasce das cinzas. Portanto, falar em “crise” do capitalismo é uma contradição em termos. O capitalismo é a crise. Vive de crises, sobrevive às crises e tira proveito das crises. Nesse sentido, as crises não são e nunca foram um problema para ser resolvido pela economia, mas pela política. Ao capitalismo interessa submeter a política ao poder econômico. Quanto menos Estado, maior a força econômica.

O capitalismo rentista é um jogo planetário perverso que precisa ser vencido pela política e pelos homens de boa-fé, de boa vontade e de disposição para a luta. Nada mais disparatado, portanto, do que dizer que o capitalismo precisa ser “humanizado”. Trata-se de um verdadeiro nonsense. O capitalismo não existe para o homem; ele se serve do homem, trata-o como mercadoria. É regido pela lógica do lucro no reino global do mercado. Assim como o homem é o cerne da política, o capital é o cerne do capitalismo. Não há espaço no capitalismo para a solidariedade social. Tudo é visto pela lógica do lucro. Tirar vantagem de tudo é a palavra de ordem.
Então, que “forte consciência política” é essa dos black blocs que acreditam na possibilidade de destruir o capitalismo quebrando símbolos capitalistas, como agências bancárias, concessionárias de automóveis, estabelecimentos comerciais em geral? Ora, símbolo é a representação de algo. Representar é tornar presente o que está ausente. É preciso muita ingenuidade e falta de maturidade para achar que destruir agências bancárias é o mesmo que destruir o capitalismo. Ele continua lá onde está, firme e forte, e ainda lucra com o caos. Quem quiser se assegurar disso, sugiro a leitura do livro A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre, onde Naomi Klein descreve como as empresas aproveitam dos desastres naturais, das guerras ou outros choques culturais para avançar políticas de liberalização econômicas.

“É preciso perturbar e reagir quando a polícia ataca o povo”, diz o cientista político canadense, referindo à estratégia black bloc. Pelo que consta, todas as vezes que a polícia enfrentou os Black Blocs nas manifestações ocorridas no Brasil foi por causa de atos de vandalismo iniciados por eles. Onde estavam os Black Blocs quando a polícia de Geraldo Alckmin atacou o povo do Pinheirinho, tirando mais de 1.200 famílias de suas casas em pleno amanhecer de um domingo de janeiro? Delas tudo foi tirado: suas casas foram destruídas. Foram escorraçadas de suas residências praticamente com a roupa do corpo. Tiraram-lhes até a própria dignidade. Onde estão essas pessoas hoje? Alguém tem ao menos curiosidade de saber o que mudou em suas vidas? Como estão e em condições se encontram? O povo do Pinheirinho, por acaso, desapareceu? Não
têm uma história?

Dupuis-Déri diz que, pelo fato de os Black Blocs serem reconhecidos principalmente pela aparência, pela roupa preta, fica fácil imitá-los deturpando o movimento, ou a “tática” blackbloqueana. Ou seja, admite que haja infiltrados. Se é assim, por que admitem que vândalos se misturem a eles? Quem com os porcos se mistura farelo come, diz o ditado. Afirma que no Ocidente, a repressão da polícia contra movimentos sociais progressistas vem crescendo nos últimos 15 anos. Ora, não precisamos dos black blocs para nos “salvar” da criminalização dos movimentos sociais.

Sabemos muito bem que é da natureza do capitalismo neoliberal e das classes dominantes criminalizar movimentos sociais. Aliás, qualquer manifestação legítima é criminalizada, pois para os neoliberais a democracia não é o regime dos conflitos, mas exclusivamente o regime da lei e da ordem. A “tática” black bloc, se querem ser assim chamados, só contribui para que uma sociedade conservadora, autoritária e hierarquizada como a nossa coloque as manifestações legítimas e os atos de vandalismo no mesmo balaio pedindo que algum governante vocacionado para o autoritarismo coloque “ordem na casa” e sabemos muito bem onde isso pode chegar.

Romanticamente, muita gente vem fazendo um paralelo entre os black blocs e o ludismo do século 19 e Dupuis-Déri diz que isso é possível. Ora, o ludistas eram conhecidos como os “quebradores de máquinas”. O ludismo foi um movimento contrário à mecanização do trabalho proporcionado pelo advento da Revolução Industrial. Qual eram as condições do século 19? É intelectualmente desonesto fazer tal paralelo. Black Blocs querem ser os “destruidores” do capitalismo tal como os ludistas eram os “destruidores de máquinas”, que substituíam o homem no trabalho. Não é honesto querer “destruir o capitalismo” sem querer saber quais as condições de trabalho dos que fabricam os IPods, notebooks, e IPads dos quais os Black Blocs certamente não abrem mão. Nem se interessam em saber das condições em que se encontram os que fabricam os tênis que calçam para ir às manifestações para ajudar a minar a democracia. Querer “destruir” o capitalismo sem abrir mão do desfrute de seus produtos é próprio de quem quer ficar mesmo só na destruição dos seus símbolos, para promover o caos instalado no país. E sabemos muito bem a quem isso interessa. Já tem apresentador de TV, que é concessão pública, gritando em alto em bom som que isso não é democracia, mas anarquia. Diante disso tudo que estamos vendo só há duas alternativas: ou ficamos de braços cruzados enquanto o golpe está sendo televisionado, ou abrimos uma verdadeira cruzada em defesa da democracia. Escolho a segunda.

Maria Luiza Quaresma Tonelli

O anonimato e a violência das redes estão chegando às ruas.

30 jul

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Por Gustavo Arja Castañon

Persiste agora, com muito menos sucesso do que em junho, a tentativa de grupos anônimos e sem pauta política clara de sequestrar e mobilizar (retirando o controle do MPL ou do Comitê Popular da Copa) os protestos de rua e ditar o ritmo da vida política do país. Destes, o mais influente na rede é o Anonymous, e o mais barulhento nas ruas o Black Blocs.
O Anonymous é uma rede de cyberativistas que se vê como um grupo desestruturado e descentralizado que opera sem comando e sem diretrizes ideológicas, focados em metas momentâneas. No Brasil, a marca Anonymous foi apropriada por grupos de direita ligados ao Instituto Millenium e Von Mises Brasil, que vergonhosamente protegeram o sistema financeiro, alvo dos movimentos Occupy no mundo, da onda de ocupações de 2011.
Mas, na sua base de conectados, o Anonymous é um agrupamento de pessoas extremamente ingênuas, que aceitam ser lideradas por quem não conhecem nem a identidade nem a estratégia.
Gente que acredita que a vida é um filme de Hollywood e que a internet (criada e com mainframe no Pentágono), particularmente o Facebook (propriedade de Mark Zuckerberg, acusado de ser colaborador da CIA), possa abrigar pessoas que desafiem o sistema e vençam o jogo sentados diante de seus PCs.
Já os Black Blocs são um grupo de anarquistas que tiram seu nome de uma tática de guerrilha urbana surgida na Alemanha do final dos anos 70, o “black bloc”, que consiste em formar um bloco de pessoas vestindo preto e cobrindo o rosto em passeatas, para praticar depredações e enfrentar a polícia. Protege-se as identidades e os olhos de gás e pimenta através de máscaras de gás, esqui, capacetes de motocicleta entre outros.
O objetivo é atacar a polícia e a propriedade privada, se resguardando dos consequentes processos criminais.
O que há de comum na aparência destes dois grupos que protagonizaram o niilismo, a falta de rumo e o oportunismo que vimos no auge dos protestos brasileiros de junho é a ausência de identidade. Ausência de identidade civil e ideológica. Particularmente o Anonymous tem seus posts e convocatórias escritos sempre em linguagem intencionalmente simplória e genérica, que simula sair das massas. Busca mobilizar as pessoas escolhendo inimigos impopulares (como a “mídia”) com o objetivo de acumular popularidade.
Mas essa é só a aparência. Há um inimigo muito definido em suas estratégias, só eventualmente direcionadas a grandes corporações. Seu inimigo máximo é o estado. Interpretar o anarquismo como aliado das lutas da esquerda é uma temeridade intelectual.
O anarquismo é mais facilmente interpretado como um ultraliberalismo que tem por fim suprimir o estado do que como qualquer outra coisa.
Os delírios de fraternidade universal e coletivismo com a destruição das leis e dos governos só pavimenta a estrada para o império do mais forte. Seus frutos só são colhidos pela direita: uma juventude que odeia o estado, não acredita ou se engaja na vida partidária e legitima reações conservadoras. O anarquismo mobiliza muito mais o ódio à civilização do que um desejo reformador da sociedade.
O objetivo prático de grupos como os Anonymous e o Black Blocs é o mesmo da CIA. Debilitar os estados nacionais e o engajamento da juventude na política institucional. Eles aprofundam a obra que o dinheiro privado faz com os partidos, a grande mídia com as massas e o relativismo pós-moderno com a academia: desacreditar a política e os políticos, as ideologias e as utopias. Mais que destruir bancos, seu objetivo é destruir a política.
O nível de descrédito da classe política brasileira atingiu um novo patamar depois da campanha de 2010. A campanha de José Serra importou para o Brasil as táticas difamatórias do Partido Republicano norte-americano e transformou a internet num mar de calúnias.
Perfis falsos foram montados aos milhares, comunidades, e a frequência e velocidade de divulgação de calúnias se tornou quase instantânea. A reação de nossos legisladores ou governos a isso foi nenhuma. Fechando os olhos, esperaram a autodesmoralização da internet. Mas isso não aconteceu. Isso não aconteceu porque ela é também um fantástico meio de divulgação rápida de informações e fatos reais, que fura o bloqueio da corrompida mídia tradicional. Mas sem saber como separar o joio do trigo, os internautas brasileiros se afogaram num mar de denúncias e ofensas sem resposta ou repercussão penal.
O resultado não podia ser outro. A vida política no Brasil, como previ em artigos da época, se tornou radicalizada, violenta e irracional, cheia de calúnias diárias e ofensas permanentes sem consequência legal.
O resultado do acúmulo de ódio a nossos já inconfiáveis políticos saiu às ruas em junho. Como sabemos bem, quem foi às ruas basicamente foi a juventude de classe média conectada à rede. O pós-modernismo gerou seu primeiro fenômeno político de massas no país.
A maioria dessa juventude “conectada” desconfia dos partidos, das metanarrativas sociológicas e religiosas.
Finalmente, encontrou um meio horizontal, fragmentado e aparentemente não ideológico de se organizar, e acha isso bonito. Passou a ser (des)informada por posts dos quais muitas vezes só lê a manchete e cursa universidades que estão mergulhadas ou na mercantilização do ensino ou no relativismo pós-moderno.
Não tem ideologia e não quer uma para viver. Muitas vezes vota nulo ou não revela seu voto por vergonha.
E o voto nulo que desaparece nas contagens dos votos válidos toda eleição reapareceu nas ruas. Nele, também se inclui a extrema-esquerda sem representação no Congresso, a extrema-direita fascista e sociopata saudosa da tortura e do regime militar, o ateísmo evangélico da marcha das vadias e todo tipo de extremistas envenenados pela poluição digital das redes. Afinal de contas, a estratégia da extrema-direita e da extrema-esquerda é sempre a mesma, só muda depois do golpe militar, quando um deles vai para o pau de arara.
Hoje estamos numa nova fase dos protestos em que eles se tornaram menores e mais radicais. É fato que eles adquiriram pautas políticas mais claras, como o fora Cabral do Rio. Isso dificulta a manipulação pelo Anonymous, mas não o oportunismo dos Black Blocs. Invasão de eventos alheios, depredação generalizada e penetração de imagens sacras no ânus e na vagina (como vimos pela rede na última “Marcha das Vadias”) são parte do novo momento das ruas. Se em parte isso esvazia as manifestações e provoca rejeição dos 190 milhões que ficaram em casa, também acirra ainda mais os ânimos nacionais.
Diante desse cenário, o novo marco civil da internet se tornou uma necessidade imperiosa. Garantir liberdades na rede implica na criação de meios para a responsabilização penal de difamadores e desativação de perfis falsos e criminosos.
Quem usa máscara numa democracia é fora da lei. Quer conspirar contra ela. Quer caluniar, depredar e atacar sem consequências. Quer disseminar o ódio, a violência e o medo se escondendo da responsabilidade no anonimato das massas. E isso inclui a própria polícia. As máscaras físicas e digitais tem que cair em nosso país antes que caia nossa democracia. Acreditem, isso é tão possível no futuro quanto um milhão sem rumo nas ruas em junho era possível em maio.
*Gustavo Arja Castañon é doutor em psicologia e professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Non abbiate paura“.

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