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Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

putin

Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

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Vamos criar outra grande tragédia pra culpar os russos e tentar equilibrar o jogo..

20 jul

Primeiro Putin dá asilo a Snowden…

Depois impede o ataque dos USA a Síria….

Mais adiante impede que o golpe na Ucrânia atinja seu principal objetivo, que era tomar a base naval no Mar Negro, situada na Crimeia…

Na sequência fecha acordos históricos com a China, colocando Dollar em segundo plano…

Não satisfeito perdoa a dívida de Cuba de quase 40 bilhões de dólares…

E vem pro Brasil implementar organismo financeiro dos BRICS que promete abalar a hegemonia do Banco Mundial e FMI…

E se reúne com os líderes do Mercosul….

Em meio a tudo isso, os ucranianos do leste impõe pesadas derrotas aos fascistas de Kiev…

Resumo da ópera bufa estadunidense:

“Vamos criar outra grande tragédia pra culpar os russos e tentar equilibrar o jogo…”

já fizeram isso antes, e vão continuar fazendo…

Por Dario Achkar. via Iza Haim.

e por Sandra Brandini Via  Mara Rocha  

O “escudo”da nova Guerra Fria por Manlio Dinucci

22 mar

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Washington está tirando vantagem de sua derrota na Ucrânia: está fazendo os europeus se isolarem economicamente da Rússia, e já está impondo sobre eles a expansão de sua cobertura de míssil. Enquanto os meios de comunicação ocidentais focam na narrativa de eventos da OTAN (a assim chamada ” anexação militar” da Criméia), a Aliança está implantando silenciosamente seu aparato imperial.

ice-presidente Joe Biden fez uma rápida visita à Polônia e a Estônia para garantir que, em face de “incursão desavergonhada da Rússia” na Ucrânia – um país determinado a construir “um governo para o povo” (garantido pelos neo-nazistas [1] que alçaram o poder pelo golpe de estado do “novo Gladio” [2]) –, os Estados Unidos reiteram o seu firme compromisso em conformidade com o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte na “defesa coletiva”. Como a Ucrânia é agora um membro de fato, mas não oficial, da OTAN, há sempre um “não-Artigo 5º”, incitando membros a “executar missões em evolução não descritas nos termos do Artigo 5º”, que foi promovido pelo governo italiano de Massimo D’Alema durante a guerra da OTAN na Iugoslávia em 1999, e mais tarde também aplicado para as guerras no Afeganistão, na Líbia e na Síria.

Para ajudar “a OTAN a emergir desta crise mais forte… do que ’nunca’”, os Estados Unidos retomaram seu compromisso com a “defesa contra míssil” da Europa. No entanto, correlacionando a “defesa contra mísseis” à crise ucraniana, Joe Biden entregou o jogo. Washington manteve persistentemente que”escudo” dos EUA na Europa não é dirigido contra a Rússia, mas contra a ameaça dos mísseis iranianos. Em Moscou, pelo contrário, isso foi sempre entendido como uma tentativa de ganhar uma vantagem estratégica decisiva sobre a Rússia: os EUA poderiam manter isso sob a ameaça de um primeiro ataque nuclear, contando com a capacidade do “escudo” para neutralizar os efeitos de retaliação. [3] O novo plano lançado pelo Presidente Obama, em comparação com o anterior, prevê um maior número de mísseis alinhados às portas da Rússia. Desde que estão sob controle dos EUA, ninguém pode descobrir se eles são interceptores ou mísseis nucleares.

Tendo rejeitado a proposta para gerenciar em conjunto com a Rússia a estação de radar de Gabala no Azerbaijão, os Estados Unidos começaram a construir na Polônia o local que hospedará 24 mísseis SM-3 do sistema Aegis. Além disso, o governo polaco comprometeu-se a dispor de mais de 30 bilhões euros para alcançar (com tecnologias dos EUA) o seu próprio “escudo” destinado a se integrar à estrutura dos Estados Unidos e da OTAN. E Joe Biden aplaudiu a Polônia pela sua disponibilidade a assumir “parte dos encargos financeiros, algo que todos os aliados devem fazer” (a Itália considerada). Outro local de míssil 24 SM-3, atualmente em construção na base aérea Deveselu na Romênia, vai se tornar operacional em 2015 e vai ser comandado por 500 soldados americanos. Essas instalações de mísseis compõem um super poderoso radar instalado na Turquia e radares móveis que pode ser rapidamente transportado para “posições avançadas”.

O “escudo” também inclui a implantação no Mediterrâneo de navios de guerra equipados com radares e mísseis Aegis SM – 3. O primeiro – um míssil destróier USS Donald Cook – chegou no início de fevereiro na Base Naval de Rota, na Espanha, onde 1.200 marinheiros e 1.600 membros das suas famílias serão eventualmente alojados. Será seguido por outras três unidades (USS Ross, USS Porter e USS Carney). Mas é provável que o número será maior, pois a Marinha dos EUA já tem cerca de 30 desses navios. Eles patrulham continuamente o Mediterrâneo, prontos a entrar em ação a qualquer momento, conduzindo ao mesmo tempo, de acordo com a OTAN, “uma gama completa de operações de segurança marítima e exercícios bilaterais e multilaterais com as marinhas aliadas”. A Marinha Espanhola já tem quatro fragatas equipadas com o sistema de combate integrado Aegis, o que os faz inter-operacionais com os navios dos EUA. O mesmo será feito com o Fremmfrigates da marinha italiana.

Um papel cada vez mais importante no “escudo” será desempenhado pelas diretivas e bases os EUA e da NATO na Itália: em Nápoles, casa do quartel-general dos EE e das forças navais aliadas; na Sicília, onde se situa a Estação Naval e Aérea Sigonella (que atenderá as unidades Aegis no Mediterrâneo); além do Sistema Objetivo Móvel do Usuário (Mobile User Objective System – MUOS), em Niscemi [4], para comunicações por satélite de alta freqüência. Todas as unidades navais Aegis no Mediterrâneo, novamente de acordo com a OTAN, estarão “sob o comando e o controle dos EUA.” Isto significa que a decisão de lançar o míssil interceptador, presume-se, será prerrogativa exclusiva do Pentágono.

Enquanto prepara o “escudo”, os EUA afiam suas facas. Para a crise ucraniana, eles implantaram outros 12 bombardeiros F-16na Polônia e outros 10 F-15 na Estônia, Letônia e Lituânia. Em breve, eles serão capazes de transportar as novas bombas nucleares B61-12 armazenadas na Europa (incluindo a Itália), para ser usadas como abrigo contra bombas Bunker. Moscou está tomando medidas defensivas, mas Washington marcou o primeiro ponto: a crescente tensão na Europa permite que os Estados Unidos aumentem sua influência sobre seus aliados europeus.

Com o Artigo 5º ou o não-Artigo 5º.

Manlio DinucciGeógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

Tradução 

Marisa Choguill

Fonte 
Il Manifesto (Itália)

 

 

 

 

Fala a China: “Putin oferece a Obama uma escapatória, mas…”

13 set
A mudança é dramática. Moscou sugeriu a Damasco que deve entregar suas armas químicas, destruí-las sob supervisão internacional e unir-se à Convenção pelo Banimento de Armas Químicas. A Síria rapidamente respondeu positivamente ao plano; e o presidente Obama também enviou um sinal; declarou que a resposta da Síria era “desenvolvimento potencialmente positivo”. Essa virada inesperada, depois que Washington mostrou seu plano para um ataque aéreo à Síria, trouxe algum alívio.
 
A mídia nos EUA já suspeitava de que o presidente Obama estivesse cuidando de uma “rota de escape”. Também muitos creem que seu ataque aéreo pode ser cancelado. O plano não obteve apoio suficiente dos cidadãos nos EUA e muitos deputados e senadores manifestaram objeções.
 
A proposta russa, para alguns analistas, é uma escapatória que Vladimir Putin oferece ao presidente americano.
 
A situação ainda é cheia de incertezas. Os EUA tornaram-se hesitantes, hesitação sem precedentes, no que tenha a ver com “punir” nação muito menor que os EUA. Obama passou a bola ao Congresso, onde logo emergiram divergências massivas. Estará Tio Sam tomado de temores, só porque a liderança do presidente Obama é fraca? O caso não parece ser esse.
 
Washington perdeu o senso de direção no Oriente Médio. Basta um estalo de dedos, e Tio Sam pode reduzir a cinzas a Síria, com um único ataque aéreo. Mas a ambiguidade dos propósitos políticos dos EUA está pondo o país numa situação de alto risco. Afinal, já se sabe que o Grande Oriente Médio, proposto depois da derrubada do regime de Saddam Hussein, nunca passou de utopia.
 
 
Ao mesmo tempo, a “conclamação” de Tio Sam aos amigos já não funciona tão bem como antes. Dessa vez, o mais provável é que a Royal Air Force britânica não compareça ao lado de Tio Sam. Mais importante, praticamente todas as grandes potências europeias já aplaudiram a solução pacífica concebida pelos russos.
 
A hesitação de Obama sugere que o poder dos EUA está declinante na comunidade internacional.
 
O mundo começa a preocupar-se com movimentos que lhe parecem inconsequentes ou temerários demais.
 
A proposta do Kremlin, clara, decisiva, tática e executável, foi golpe duríssimo no calcanhar de Aquiles de Washington. A Rússia superou o que foi em crises passadas, como na Iugoslávia, e acertou um cruzado no olho do mundo beligerante.
 
Contudo, deve-se notar que só o fim total desse “drama” pode forjar o futuro geopolítico no Oriente Médio. O que realmente fará diferença é se os EUA desistirão do ataque e se o governo de Bashar al-Assad será mesmo derrotado, caso o botão da guerra seja acionado.
 

Se Washington desistir do ataque aéreo, não importa por que motivo, ter-se-á o início do fim do intervencionismo militar comandado pelo ocidente. Os EUA talvez consigam começar a “raciocinar” com o mundo. Mas se a guerra eclodir, ela, em seguida, se converterá em vale-tudo dos mais incertos entre muitas diferentes potências.
 

POSTADO POR CASTOR FILHO ÀS 21:49:00

Os judeus dos EUA empurram Obama para a guerra

2 set
1/9/2013, Andrey MelekhovStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Barack Obama, estafeta do AIPAC
A vida é coisa esquisita! Sobretudo se você é trilhonário norte-americano do Comitê EUA-Israel de Assuntos Públicos, American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Por um lado, você quer ficar cada vez mais rico. Por isso os EUA usam tão freneticamente as campanhas militares de curto prazo, sempre vitoriosas: para lembrar a todos quem é o patrão do mundo. E nesse campo, o capital reunido no AIPAC não se dá jamais por satisfeito: a super produção é proibida; o que eles produzem tem de ser consumido, para ser rapidamente reposto, vale dizer, armas e munição. São rápidos, por isso nos planos para consumir armas e munição redundante, além de fazer seu show pelo mundo, em regiões ricas em petróleo, gás e outros itens.
Meio sempre útil e à mão para consumir bombas e até caríssimos Tomahawks e fazer baixar os estoques no mundo é despejá-los sobre a cabeça de aborígenes tolos o suficiente para não ver quais são os interesses dos EUA.
Por outro lado, se você é norte-americano trilionário membro do AIPAC, você é obcecado defensor de Israel. (…)
Há aí um paradoxo: os israelenses dependem dos EUA, façam o que fizerem, mas todos os dias, e cada vez mais, vão-se tornando vítimas da ganância e das ambições de seus patrícios co-norte-americanos doAIPAC que consideram os EUA exclusivamente como instrumento do gerenciamento financeiro global. É o que os eventos na Síria comprovam.
A guerra no país vizinho já tem dois anos, mas nunca, até agora, ameaçou diretamente a segurança de Israel. Porém, no instante em que Washington tornou pública sua intenção de usar força militar e fazê-lo a favor (imaginem só!) dos arqui-inimigos de Israel – os islamistas – imediatamente os cidadãos israelenses, que têm lastimável experiência de outras aventuras dos EUA, puseram-se a comprar máscaras antigás e preparar abrigos antibombas e calafetar janelas e verificar o funcionamento dos sistemas de alarme para o caso de ataque químico.
AIPAC diz que: “O estado judeu é nosso único aliado e o único país do mundo cujos cidadãos estão recebendo máscaras antigás em massa”. Quer dizer, todos têm de defender Israel. É fácil ver que o AIPAC está preocupadíssimo. Mas nenhum judeu israelense jamais teria de cheirar o perfume das especiarias asiáticas através dos filtros de uma máscara antigás, se os trilionários do AIPACnão metessem o nariz em tudo, pelo mundo, e se não usassem seus Tomahawkpara meter-se em assuntos de outros países, fingindo que administram conflitos que eles mesmos provocaram.
O paradoxo mais espantoso nessas circunstâncias é que os israelenses sempre estiveram expostos, como agora estão, ao risco de se tornarem vítimas de armas químicas, caso aliados dos EUA – os islamistas – decidissem usá-las, como as usaram agora, recentemente. (Ninguém concebe que governantes sírios se exporiam ao risco de ter de encarar um tribunal internacional, acusados de crimes contra a humanidade).
 
Amos Yadlin
A situação não poderia ser mais favorável para os radicais islamistas que acorrem à Síria, respondendo à convocação dos EUA para defenderem “a democracia”. Quando tiverem lançado um ou dois ataques com gás sarin contra Israel, então terão criado, para o ocidente, o contexto indispensável para derrubar o governo legal da Síria, por ação militar. Simultaneamente, os mesmos islamistas radicais muito apreciarão assistir pela televisão aos israelenses, que eles odeiam figadalmente, nas vascas da morte…
Israel compreende isso? Que ninguém duvide: compreende perfeitamente. Os mais importantes especialistas do Instituto para Estudos de Segurança Nacional de Israel, Amos Yadlin e Avner Golov explicaram claramente, em artigo do dia 29/8/2012, intitulado “Intervenção Militar dos EUA na Síria: o interesse estratégico maior, por trás da ação punitiva” [orig. “US Military Intervention in Syria: The Broad Strategic Purpose, Beyond Punitive Action”, INSS Insight, n. 459, 29/8/2013:
O principal temor é que a ação norte-americana na Síria venha a ter consequências não esperadas que expandam o objetivo e a duração de uma operação militar. Por exemplo, qualquer operação militar contra Assad pode fortalecer as organizaçõesjihadistas.
 
Avner Golov
Mas… vejam só! Os militares norte-americanos não fazem outra coisa, há dois anos, que repetir exatamente isso! Os militares norte-americanos têm alertado seguidas vezes sobre, precisamente, esse risco. [1] Além dos muitos alertas que vieram de países considerados os principais opositores ao modo como os EUA tentam implementar sua política para o Oriente Médio, Rússia e China. E de nada adiantaram tantos alertas.
Paira no ar uma impressão de que os que governam “a única potência global” são arrastados pelos próprios planos e não há o que os detenha. Não, pelo menos, com armas convencionais. Só a bomba atômica consegue impedir as agressões dos abutres norte-americanos. Por isso, precisamente, o programa nuclear iraniano tanto irrita Washington. E os trilhonários do esquizofrênico AIPAC, apesar dos temores hoje em Israel, continuam a empurrar Washington na direção do conflito armado. (…)
Assim, afinal, se pode começar a compreender melhor as declarações do AIPAC: querem atacar imediatamente a Síria, antes que o Irã construa capacidade nuclear. Seria uma lição para os persas: a tentativa síria de deter os EUA terminou como tudo termina(ria), em intervenção armada. Como se os EUA cogitassem de deixar em paz o Irã, se não construir capacidade nuclear. Aí está o exemplo do Iraque, que conta outra história.
O mundo caminha para o caos. A razão é o vai-e-vem na cabeça da elite que governa os EUA, que já começam a bater cabeça entre elas mesmas, na sanha de dominar o mundo.
Um dia, armam islamistas para derrotar a União Soviética no Afeganistão. Em seguida, são vistas em prantos sobre as ruínas das torres gêmeas destruídas porjihadistas em New York. Um dia, põem a Fraternidade Muçulmana na presidência do Egito. Em seguida o depõem, com a ajuda de um golpe militar. Agora, Washington provoca islamistas para que ataquem a Síria, sem saber, as próprias elites governantes norte-americanas, o que fazer se os seus novos “aliados” usarem o gás sarin que lhes chegou tão facilmente, para envenenar israelenses, europeus e os próprios norte-americanos.
 
Washington não entende que é a política imperial dos EUA que empurra as nações a procurarem meios possíveis para se autodefender, inclusive armas de destruição em massa?
Washington não entende que foi a política norte-americana que fuzilou o “reset” com os russos? Ou que as contradições entre China e EUA são exacerbadas pelas tentativas norte-americanas para converter competição econômica em ação militar e confronto político?
Os EUA forçam outras nações a entrar na corrida armamentista e unir esforços para manter à distância os enlouquecidos trilhonários norte-americanos-israelenses do AIPAC. Por quanto tempo mais sobreviverá a loucura geral? O que acontecerá se mais dia,menos dia, Washington pisar “a linha vermelha” da paciência do mundo, depois de ter atropelado todas as oportunidades diplomáticas?
Ainda não aconteceu. Com isso em mente, difícil resistir à tentação de dizer ao povo dos EUA: acordem, contenham, pelo menos, esse “Prêmio Nobel [Bomba!] da Paz” aí, de vocês! Será que já não têm aí problemas que chegue? Será que o presidente eleito de vocês nada tem com que se preocupar, das dificuldades dos norte-americanos, a ponto de só pensar e falar sobre o destino da “democracia” no Oriente Médio?
E se tanto só pensa nisso, como é possível que a melhor solução que achou, até agora, seja aliar-se à Al-Qaeda, à Fraternidade Muçulmana e a outros jihadistasmantidos e armados com dinheiro dos cidadãos contribuintes norte-americanos? Se os EUA não estiverem tentando abocanhar as riquezas do Irã, que diferença fará se o Irã for nuclear ou não? E Israel, se parar de roubar terras palestinas e de matar palestinos, talvez até ainda consiga viver lá mesmo, e em paz. Se Israel sente-se ameaçada hoje, quem a ameaça são os mesmos islamistas que o presidente Obama continua a alimentar e armar à custa do minguado Tesouro dos EUA, com a incansável ajuda dos trilhonários do AIPAC.
Acordem, povos dos EUA! Ainda não é tarde demais!

Nota dos tradutores

 

[1] Hoje, o movimento dos Veteranos da Inteligência em Defesa da Sanidade (orig. Veteran Intelligence Professionals for Sanity) enviou carta aberta ao general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, em que pedem que, se os EUA atacarem a Síria, contra todos os alertas que o general encaminhou a Washington sobre os riscos dessa ação militar, o general Dempsey alegue “impedimento de consciência” para continuar naquele comando, e renuncie.
POSTADO POR CASTOR FILHO ÀS 23:06:00 0 COMENTÁRIOS

Escritores russos largam canetas para provar o poder de uma passeata

1 jun

Moscou – Não havia líderes da oposição na linha de frente da vasta fila de pessoas que abria caminho pacificamente pelo centro de Moscou no domingo, 13 de maio.

Havia, em vez disso, um poeta corpulento em direção ao qual os admiradores lançavam ramos lilases. Um romancista de histórias de detetive, usando óculos, autografava tudo que aparecia pela frente – livros, é claro, mas também um papel de rascunho, cartões de identificação e até uma mulher de meia-idade que vestia uma camiseta branca. As pessoas cercaram uma vovó baixinha, vencedora de muitos prêmios literários da Rússia, e que confessou, a uma repórter: “as multidões me deixam louca e me fazem querer ficar escondida”.

Quatro dias antes, doze autores de renome, incomodados com a repressão aos dissidentes que acompanhou a posse do presidente Vladimir V. Putin, anunciaram que realizariam um experimento: uma “passeata de teste”. O objetivo era descobrir se seria possível passar uma tarde caminhando em massa de um parque da cidade a outro “sem serem interrompidos, espancados, envenenados com gás, detidos, presos ou submetidos à estupidez de serem molestados por perguntas”.

Ninguém sabia bem o que esperar naquele domingo. Mas quando os doze escritores deixaram a Praça Puchkin na hora do almoço, foram seguidos por uma multidão que aumentou para cerca de 10 mil pessoas, parando o tráfego e enchendo avenidas ao longo de 1,9 quilômetro. Muitas pessoas usavam as fitas brancas que são símbolo da oposição ao governo de Putin. A polícia não interferiu, embora os organizadores não tivessem recebido autorização para a passeata.

“Nós vemos pelo número de pessoas presentes que a literatura ainda tem autoridade na nossa sociedade, porque ninguém chamou essa gente toda – todos vieram sozinhos”, disse o poeta Lev Rubinstein, de 65 anos, um dos organizadores. “Nós achávamos que seria uma passeata modesta de vários colegas da área da literatura, e acabou acontecendo isso. Veja com os seus próprios olhos.”

“Eu não sei como tudo isso vai acabar, mas posso dizer que ninguém vai esquecer”, disse ele.

<strong>Por Ellen Barry, The New York Times News Service/Syndicate</strong>




 

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