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Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

putin

Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

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Max Altman: Stalingrado salvou a humanidade da sanha nazifascista

6 fev

Em 2013 completam-se 70 anos da vitória soviética na Batalha de Stalingrado com a rendição das hordas de Hitler em 2 de fevereiro de 1943. Foi o início da derrocada da ameaça nazista e o triunfo de todos os povos do mundo.

Max Altman, por e-mail para bloglimpinhoecheiroso

Por volta de setembro de 1942, a soma das conquistas de Hitler era estarrecedora. O Mediterrâneo havia-se tornado praticamente um lago do Eixo, a Alemanha nazista e a Itália fascista dominando a maior parte da costa setentrional, desde a Espanha até a Turquia e a costa meridional da Tunísia até cerca de 100 quilômetros distante do rio Nilo.

As tropas da Wehrmacht mantinham guarda desde o cabo setentrional da Noruega, no Oceano Ártico, até o Egito; da ocidental Brest no Atlântico até a parte sul do rio Volga, às bordas da Ásia Central. Regimes fascistas preexistentes e governos fantoches faziam o jogo do Reich nazista. França, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, os Bálcãs, a Grécia e outras mais já haviam sido engolidas pelas Panzer Divisionen.

Em fins do verão de 1942, Adolf Hitler parecia estar em esplêndida situação. Os submarinos alemães estavam afundando 700.000 toneladas por mês de barcos britânicos e americanos no Atlântico, mais do que se poderia substituir nos estaleiros navais dos Estados Unidos, Canadá e Escócia, então em franco progresso.

As tropas nazistas do 6º Exército do marechal Friedrich von Paulus haviam alcançado o Volga, exatamente ao norte de Stalingrado em 23 de agosto. Dois dias antes, a suástica tinha sido hasteada no monte Elbruz, o ponto mais alto das montanhas do Cáucaso (5.642 metros). Os campos petrolíferos de Maikop, que produziam anualmente 2,5 milhões de toneladas de petróleo, haviam sido conquistados em 8 de agosto.

No dia 25, os blindados do general Kleist chegaram a Mozdok, distante apenas 80 quilômetros do principal centro petrolífero soviético, nas imediações de Grozny e a cerca de 150 quilômetros do mar Cáspio. No dia 31 de agosto, Hitler ordenou que o marechal de campo List, comandante dos exércitos do Cáucaso, reunisse todas as forças existentes para o assalto final a Grozny, a fim de se apoderar de todos os ricos campos petrolíferos da região.

Determinou que o 6º Exército e o 4º Exército Panzer se lançassem para o Norte, ao longo do Volga, cercando e sufocando Stalingrado, num vasto movimento envolvente que lhe permitisse avançar de leste e de oeste contra o centro da Rússia, tomando, finalmente, Moscou. Ao almirante Raeder, no final de agosto, Hitler dizia que a União Soviética “era um ‘lebensraum’ (espaço vital), à prova de bloqueio” o que lhe ensejava voltar-se para os ingleses e americanos que “seriam obrigados a discutir os termos da paz”.

Com essas conquistas vitais o “Reich de mil anos” estaria garantindo sua subsistência e permanência: as vastas estepes da Ucrânia, ubérrimas, a fazer brotar um infindável celeiro dourado de trigais; os abundantes campos de ouro negro a besuntar de energia a máquina bélica e industrial alemã.

As imagens mais longínquas de minha meninice datam dessa época. Registram meu pai, cercado de amigos, debruçados sobre um mapa da Europa estendido sobre a mesa, lupa em punho, rádio em ondas curtas. Esta mesma cena provavelmente estaria se repetindo em milhões de outros lares pelo mundo afora. Anos mais tarde, meu pai, um jovem revolucionário imbuído de ideais socialistas, que no começo dos anos 1930 tinha abandonado a Polônia de governo pró-nazi e antissemita para vir ao Brasil, relatava a agonia e o horror com que acompanhavam a expansão irrefreável do império nazista.

Quando os cabogramas anunciaram que a infantaria alemã havia atravessado o Don silencioso em direção a Stalingrado, o assombro se instalou. E se a Alemanha nazista derrotasse a União Soviética?

A ideologia da supremacia racial ariana de Hitler se abateria sobre grande parte do mundo. Negros, eslavos, indígenas, árabes, mestiços, mulatos, amarelos, sub-raças e escória social, trabalhariam sob o tacão de ferro do nazismo, como semiescravos, para a glória da raça superior. Povos inteiros, judeus, ciganos, seriam aniquilados em nome da limpeza étnica. Comunistas, socialistas e liberais seriam confinados em campos de concentração e de lá não sairiam vivos. O colonialismo na África e Ásia ganharia alento. As liberdades seriam espezinhadas e governos lacaios em todos os quadrantes se encarregariam de organizar gestapos em cujos porões um elenco monstruoso de torturas ao som da Deutschland Über Alles seria levado a cabo contra os inimigos do regime. As conquistas sociais dos trabalhadores estariam esmagadas. O progresso, as artes, as ciências sofreriam abalo.

Além do que, Werner von Braun e seus assistentes em Penemunde estariam aperfeiçoando as mortíferas bombas voadoras de longo alcance com ogivas nucleares e outras máquinas bélicas de alta tecnologia a pender como espada de Dâmocles sobre qualquer país que ousasse desafiar o Reich alemão. E se alguma nação pretendesse enfrentar os interesses do Grande Império Germânico novas ondas de panzers ou de bombas V1 e V2 desencadeariam ‘blitzkriegs’ preventivas para aniquilar pelo terror qualquer tentativa.

Quando o jovem general Konstantin Rokossovsky, levando a cabo as instruções táticas da Operação Uranus ordenadas diretamente de Moscou e arquitetadas pelos generais Alexander Vasilievsky e Vasily Volsky, conseguiu romper, em 19 de novembro, o anel de aço que cercava Stalingrado, a esperança reacendeu. No entanto, a cidade estava sitiada, os seguidos bombardeios da Luftwaffe haviam-na reduzido a escombros. Dia após dia o cerco se apertava e em fins de novembro a zona urbana era invadida. Veio a ordem terminante: defender a todo custo as fábricas Outubro Vermelho e Barricadas que produziam os carros de assalto, a Fábrica de Tratores que construía os blindados T-34 e a estação ferroviária central onde as matérias-primas eram desembarcadas.

Iniciou-se então a mais feroz, a mais encarniçada, a mais renhida e sangrenta, a mais dramática das batalhas militares que a História da humanidade conheceu. O terreno coberto de destroços impedia qualquer ação de blindados, a proximidade dos contendores tornava impraticável a cobertura aérea. Só restava calar baionetas e passar a travar a luta casa a casa, corpo a corpo, em cada centímetro de chão. Para ilustrar a tenacidade com que se combatia, basta lembrar que a plataforma semidestruída da estação de trens mudou de mãos sete vezes num único dia. Os operários do Outubro Vermelho empunharam armas e estabeleceram uma muralha de fogo em torno da fábrica. Jamais se havia visto tantas cenas de heroísmo, bravura e coragem, de lado a lado, naquele cenário lúgubre das ruínas da cidade. Nunca antes soldados haviam lutado com tanto denodo para conquistar e defender.

Em 30 de janeiro de 1943, décimo aniversário da subida de Hitler ao poder, o führer fazia uma solene proclamação pelo rádio: “Daqui a mil anos os alemães falarão sobre a Batalha de Stalingrado com reverência e respeito, e se lembrarão que a despeito de tudo, a vitória final da Alemanha foi ali decidida”. Três dias depois, em 2 de fevereiro, o marechal de campo Von Paulus assinava diante do general Vassili Chuikov, comandante das tropas do Exército Vermelho em Stalingrado, a rendição do 6º Exército alemão. A transmissão da capitulação foi feita em Berlim, através da rádio alemã, pelo general Zeitzler, chefe do Alto Comando da Wehrmacht (OKW) precedida do rufar abafado de tambores e da execução do segundo movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven.

A maior e a mais épica das batalhas da 2ª Guerra Mundial que tivera início em 26 de junho haviam chegado ao fim. Foram feitos prisioneiros pelos soviéticos 94.500 soldados alemães dos quais 2.500 oficiais, 24 generais e o próprio marechal Von Paulus. Mortos cerca de 140.000 soldados da Wehrmacht e 200.000 homens do Exército Vermelho. Os soviéticos tomaram do exército inimigo 60.000 veículos, 1.500 blindados e 6.000 canhões. A espinha dorsal do exército nazista e do Terceiro Reich estava irremediavelmente quebrada.

Os mesmos milhões de lares que tinham vivido momentos de apreensão e pavor explodiram de emoção. Hitler havia mordido o pó da derrota. Corações e mentes voltaram-se para glorificar os heróis combatentes do Exército Vermelho e honrar os que tombaram no campo de batalha pela liberdade. A admiração pela extraordinária façanha impunha a pergunta: o que levou aquele contingente de centenas de milhares de jovens a lutar com tal fúria e obstinação?

Certamente o apelo da Grande Guerra Patriótica, livrar o solo pátrio do invasor. Havia mais. A leitura das lancinantes cartas aos familiares escritas no front deixava evidente a determinação de defender as conquistas da Revolução de Outubro por cuja consolidação seus pais, 25 anos antes, haviam derramado sangue enfrentando e derrotando o exército branco e tropas invasoras de catorze países mobilizados para sufocar no nascedouro a revolução bolchevique.

A partir daí o Exército Vermelho arrancou impetuoso rumo à capital do Reich nazista, abrindo em sua passagem os portões macabros de Auschwitz-Birkenau. As tropas anglo-americanas desembarcam na Normandia em 6 de junho de 1944. No dia 2 de maio de 1945, soldados do destacamento avançado do general Ivan Koniev hasteiam a bandeira soviética no mastro principal do Reichstag.

Cinco dias depois, numa pequena escola de tijolos vermelhos em Reims, França, na madrugada de 8 de maio de 1945, o almirante Friedeburg e o general Jodl assinam, em nome do que restou da máquina de guerra nazista, diante do general Ivan Susloparov pela União Soviética, e do general Walter Bedell Smith pelos aliados, a rendição incondicional.

Os canhões cessaram de troar e as bombas deixaram de cair. Um estranho silêncio pairou sobre o continente europeu pela primeira vez desde 1º de setembro de 1939. O mundo estava livre da sanha nazifascista.

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